Mostrar mensagens com a etiqueta Neil Young. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Neil Young. Mostrar todas as mensagens

13/10/2021

A discoteca [Neil Young]

 Pop
A DISCOTECA
 
NEIL YOUNG
 
Apelidaram-no de “looser”, mas no fundo é um vencedor. Ou um sobrevivente. Já passou por tudo e escapou ileso, ou quase. Melhor ou pior cicatrizadas, as feridas sempre serviram de pretexto para cantar novas e sofridas histórias. Com “Freedom”, o seu álbum mais recente, Neil Young regressa em força com um punhado de canções onde o pesadelo americano se confunde com as suas próprias fantasias.
 
Histórias da América, mil e uma aventuras na terra de todos e ninguém. Viagem pela paranoia urbana e pelos grandes espaços abertos de uma nação paradoxal. Dramas e alegrias, a morte de amigos, a queda quase fatídica nas drogas pesadas, tudo isto este canadiano viveu, traduzindo para palavras e música todas estas experiências. Consoante a época e a disposição, utilizou-se dos géneros musicais mais díspares para melhor contar todas as peripécias. Das raízes “country” ao “rock ‘n’ roll” mais pesado, passando pelo rockabilly, os “rhythm and blues” e as experimentações eletrónicas, deixou bem impressas as marcas da atitude ímpar e pessoalíssima.
            Neil Young é o marginal por excelência, de guitarra e mochila às costas, percorrendo as estradas e o lado mais negro da alma americana. A força da personalidade e da música contrastam com a aparente fragilidade da voz. Seja nas baladas acústicas ou na batida rock mais saturada de eletricidade, é sempre a voz que, ironicamente, se destaca. E assim, aos poucos e a pulso, se foi construindo o mito, que este “Freedom” se encarrega de reforçar.
            Começou nos Buffalo Springfield (se descontarmos os três anos que passou no Canadá com os Squires, tocando no circuito “folk”), ao lado de Stephen Stills, com os quais gravou alguns álbuns. “Neil Young”, de 68, é o seu primeiro disco a solo, mas nem mesmo a presença de Jack Nietzsche e Ry Cooder conseguiram evitar o fiasco em termos de vendas. Já com a sua banda de apoio, os Crazy Horse, grava “Everybody Knows this is Nowhere”, de 69, que, ao contrário do disco anterior, entra no top de vendas e é disco de ouro. Depois é o clássico “After the Goldrush”, do ano seguinte, com temas famosos como “Only Love Can Break your Heart” ou “Southern Man”. Predominavam nestes discos as influências folk, ainda determinantes no álbum seguinte, “Harvest”, um dos seus discos mais vendidos, mas caindo por vezes no tom bonitinho pela inclusão nalguns temas da London Symphony Orchestra. “Heart of Gold” (“top one” nos E.U.) e o magnífico “The Needle and the Damage Done”, a clássica canção anti-droga, são os temas mais conhecidos. “After the Goldrush” chega ao número oito na lista americana e é sétimo no Reino Unido. “Harvest” alcança o primeiro lugar em ambos os “Tops”.
            “Journey Through the Past” (72) é um duplo com a banda sonora do filme do mesmo nome e inclui temas repescados dos Buffalo Springfield e do quarteto com David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash. Seguem-se “Time Fades Away” (ao vivo de 73), “On the Beach” (74) e, logo a seguir, “Tonight’s the Night”, gravado “ao vivo” em estúdio, o álbum mais negro e desesperado de toda a sua discografia, povoado de referências à “drug-culture” e dedicado ao músico dos Crazy Horse, Danny Whitten, morto de overdose. “Zuma” (75) contém o longo “Cortez the Killer” com um show de guitarra pontuando a narração das prepotências imperialistas levadas a cabo na América do Sul. Em 76 grava “Long May You Run” de parceria com Stephen Stills e, no ano seguinte, “American Stars ‘n’ Bars” tendo como vocalistas convidadas Linda Ronstadt e Emmylou Harris. “Comes a Time” (78) é um álbum à base de guitarra acústica e “Rust Never Sleeps” (79) assinala o regresso dos Crazy Horse. Os passos seguintes são mais um registo ao vivo no duplo “Live Rust” (79), o retorno ao “country” com “Hawks and Doves” (80) e o capricho eletrónico de “Trans”, misturando os sintetizadores e as caixas de ritmo, o rock dos Crazy Horse e a guitarra de Lofgren. A revista “Village Voice” considera Neil Young “artista da década”.
            “Everybody’s Rockin’” (83) é puro “rockabilly” interpretado pelos Neil & The Shoeking Pinks e “Old Ways” (85) o “Country” revisitado. “Landing on Water” (86) dá origem a um vídeo de longa duração. “Decade” é um triplo de compilação de alguns dos seus melhores temas (com a subjetividade que tal classificação sempre comporta). Entretanto, Neil cede às pressões do “business”, gravando os menos interessantes “Life” (87) e “This Note’s for You” (89).
            Finalmente a pérola mais recente, “Freedom”, que é já um clássico e dos álbuns mais fortes da carreira do músico, a guitarra de Neil soando mais cáustica do que nunca em temas como “60 to Zero”, “Eldorado”, “Brodway” ou a versão elétrica do ironicamente intitulado “Rockin’ in the Free World”.
 
QUARTA-FEIRA, 7 MARÇO 1990 VIDEODISCOS

24/10/2019

Neil Young - Um reator na praia


1|AGOSTO|2003 Y
discos|roteiro

neil young
um reator na praia

NEIL YOUNG
On the Beach
9|10
American Stars ‘n Bars
8|10
Hawks and Doves
7|10
Re.ac.tor
7|10
Reprise, distri. Warner Music

Quatro álbuns que permaneciam até agora sem prensagem em CD estão finalmente disponíveis em versões remasterizadas. De audição obrigatória para quem quiser conhecer o mosaico completo da obra de um dos grandes compositores americanos dos nossos dias. “On the Beach”, de 1974, é de abocanhar imediatamente. A par de “After the Goldrush”, “Tonight’s the Night” e “Zuma”, é um dos clássicos do “singer songwriter” canadiano. Um daqueles álbuns que nos faz ter fé no rock‘n’roll. Nele Neil Young volta-se do avesso, expõe-se, morde e lambe as feridas, indo direito ao coração latejante dos “blues”. É aqui que a sua alma se revolve e a sua dor se sublima. Ou, como lhe chamou a revista Rolling Stone, “um dos álbuns mais desesperados da década”. Quando qualquer meia-leca cambaleante agarrado a uma garrafa de whisky e a uma guitarra meio desafinada no barracão da “alternative country” passa por herói, é bom recordar “the real thing” e dar o prémio a quem palmilhou durante décadas as estradas e o pó de uma existência sem lar. “See the sky above the rain”, “Revolution blues”, a transplantação de medula das origens do rock para assegurar a nossa sobrevivência interior que é “For the turnstilles”, “Vampire blues” e a sua bebedeira de sangue e a caminhada solitária sobre o fio da navalha “Ambulance blues”, um épico do genuíno “country” ou “folk alternativo” para adultos, infiltram-se como chuva na roupa, fazem-nos os olhos vítreos, tornando-nos incapazes de qualquer reação que não seja a rendição total. Faz um ataque aos críticos, faz um ataque aos homens. A praia está deserta e Neil Young está voltado de frente para o mar.
“American Stars ‘n Bars”, de 1977, é declaradamente “country”, a cavalo nas “slide guitars” e em melodias que refletem a amargura e os dramas da América profunda. Valsas de celeiro, “barrel rock”, uma maneira de contar e de balançar as histórias que pode sugerir o filme desse outro americano em carne viva chamado Stan Ridgway. E se “Hey babe” não esconde ser a enésima variação da típica “melodia frágil” do autor, “Bite the bullet” é dos melhores momentos de raiva rock que o canadiano já nos ofereceu. Os colecionadores de clássicos saberão reconhecer “Like a hurricane”, com os seus ecos e efeitos atmosféricos, harmonias vocais psicadélicas, um vibrafone e a elegância sonhadora dos Crosby, Stills, Nash & Young.
“The old homestead”, “Lost in space” (os Byrds não encontrariam um título melhor) e “Captain Kennedy”, arrancado da espinha dorsal da folk, são algumas das melodias encantatórias de “Hawks & Doves”, álbum de 1980 pouco mencionado na discografia do autor que sucede ao luciferino “Rust never sleeps” e, talvez por isso, não ferve em tão pouca água. Sem grandes explosões de catarse, contém canções de uma beleza aérea e “country folk” com o violino de Rufus Thibodeaux em destaque, servida em formato mais adequado às pretensões da rádio FM, incluindo o Dyloniano “Union man”.
“Re.ac.tor” (a reação do ator?), de 1981, com os Crazy Horse, liga-se à corrente do “rhythm‘n’blues” (“Get back on it”, curiosamente tão “laidback” como “Get back” dos Beatles…), tem compassos e palmas “new wave” (“Southern pacific” mostra tudo o que dá vida a um tema dos Talking Heads), harmonias vocais e guitarras a fazerem lembrar o “Station to Station”, de Bowie, numa série de automatismos rítmicos que preparavam o terreno para a inesperada incursão nos terrenos da pop eletrónica que daria origem, dois anos mais tarde, a “Trans”. Para arrasar, “Re.ac.tor” ainda arranja forças para o rock bélico de “Shots”, com tiros e explosões e, uma vez mais, batida cem por cento Talking Heads. Sem defesa possível.

11/04/2017

Neil Young & Crazy Horse - Weld

Pop Rock
30 de Outubro 1991

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE
Weld
2 x LP/CD, Reprise, distri. Warner Music

Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo.
Se “Time Fades Away” cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.
Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspeção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de fazer de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey, hey, my, my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.
Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, ép pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola com o fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn”, assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.
Ouve-se “Weld” com a sensação do cataclismo com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, a proximidade constante do perigo, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais do que o estatuto de sobrevivente, o de herói.
Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.
Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente atualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram sobre o mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.
Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “’feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.
Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o música a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).

26/07/2016

Neil Young & Crazy Horse - Ragged Glory

Pop Rock
1990

CANÇÕES ELÉTRICAS

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE
Ragged Glory
LP e CD, Reprise, distri. WEA

Datava de 1987, com a edição de “Life”, a última colaboração de Neil Young com os Crazy Horse, que tão bons resultados dera nos primeiros álbuns, “Everybody Knows this is Nowhere” e, mais tarde, “Comes a Time”, “Rust never Sleeps” e “Trans”. Frank “Poncho” Sampedro, Billy Talbot e Ralph Molina formam o trio básico guitarra-baixo-bateria, neste caso capaz dos maiores desvarios e de elevar o nível decibélico a alturas inusitadas.
Com “Ragged Glory”, Neil Young produz um dos discos que, em termos exclusivamente musicais, é dos mais violentos da sua carreira. É o retorno à dureza original do rock’n’roll, à eletricidade e a uma agressividade que chega a competir com as novas bandas “noise”, ao ponto de levar um crítico como Edwin Pouncy, da revista “Vox”, a comparar o fruto mais recente da associação Neil Young/Crazy Horse aos Sonic Youth.
Descontando o exagero, resultante talvez do desconhecimento de anteriores trabalhos (recorde-se por exemplo a fabulosa descarga de energia que é “Re-actor” ou as proezas guitarrísticas de “Zuma”), ressalta realmente em “Ragged Glory” a inexistência de baladas, de temas mais pausados, substituídos por uma cadência incansável de tempos médios, propulsionada pela batida poderosa de Ralph Molina e pelos massacres sonoros perpetrados pela guitarra de “Poncho” Sampedro.
Se procurarmos comparações, talvez possamos antes encontrá-las nos Velvet Underground de “White Light/White Heat”, nomeadamente no tratamento das cordas, com uma genial utilização do “feedback” e dos pedais de “fuzz” aqui pisados até à exaustão. Do princípio ao fim do disco prevalece um som agreste e ácido. Temas como “F*!#in’ up”, “Over and Over” terminam em ruído puro, prolongando-se por alguns segundos com a eletricidade deixada à solta. Neurose melódica, os instrumentos soltando chispas, a voz de Neil, dificilmente mantendo a impassibilidade nasalada que a caracteriza, cercada e empolgada pela “desbunda” dos colegas.
Em “Farmer John” (um clássico da dupla Don Harris/Dewey Terry), atinge-se uma maior concisão e uma secura compassada que lembram os Steppenwolf – “Hard rock”, se quisermos, para utilizar uma expressão caída em desuso. “Mansion on the Hill” devolve-nos o Neil Young dos primórdios, a letra mencionando o eterno “old man walkin’ in my place” com “psychedelic music filling the air”, provando que a costela de Woodstock não se perdeu. As harmonias vocais de “Days that used to be”, fazem questionar como seria se Crosby, Stills e Nash não se tivessem ido embora e perdido pelo caminho e o tom quase “gospel” de “Mother Earth (Natural Anthem)”, sugerem talvez suavidades onde estas não existem. Em ambos os temas as guitarras permanecem implacáveis, no segundo desarticulando-se num fraseado saturado de efeitos, sem se perder o sentido melódico, que encontrou em Jimi Hendrix o seu maior mestre e cultor.

“Ragged Horse” dispensa quaisquer truques de produção e embelezamentos supérfluos, provando definitivamente (se ainda era necessário fazê-lo) a incapacidade do músico de se render às imposições do mercado, mantendo intocável a imagem de “loner” de óculos escuros e ar de “junkie” mal arrependido, nas tintas para o “show business” (glória rota e esfarrapada, como ironicamente anuncia o título) a par de uma veia criativa que se diria inesgotável. No fundo permanece a velha máxima: “Hey Hey, my my, rock’n’roll will never die” – Para sempre.

23/07/2015

neil young




"neil young" (mariolopes)

Fernando Magalhães
25.10.2001 160415

O Neil Young ainda hoje continua a dar cartas, então quando entra na grande "trip" eléctrica, é o fim (se ouvires alguns álbuns recentes dele, percebes o que quero dizer...).
Pessoalmente, prefiro o seu lado mais acústico, sobretudo os os clássicos "After the Goldrush" e "Harvest". Este último foi retomado já na década de 90, num belíssimo trabalho intitulado "Harvest Moon". Todos estes CDs são fáceis de encontrar, inclusive em saldo.

FM

01/12/2011

Neil Young - Silver & Gold

5 de Maio 2000
POP ROCK - DISCOS

Neil Young
Silver & Gold (6/10)
Reprise, distri. Warner Music


Repensado várias vezes antes de passar a rodela de CD, “Silver & Gold” substituiu um primeiro projecto, de genérico “Acoustica”, descrito pelo músico canadiano como “kind of out of tune and funky sounding but with something going for it”. Nunca saberemos o que seria essa “something going for it”, mas de certeza que pelo menos duas canções de “Silver & Gold” eram para fazer parte desse projecto: o título-tema e “Without rings”. “Buffalo Springfield again” (menção ao grupo do qual Young fez parte nos anos 60) e “The great divide” resultaram, por seu lado, de nova inflexão do músico, do solo absoluto para uma sessão colectiva. De toda esta indecisão acabaram por sair quatro canções para o álbum de ressurreição dos Crosby, Stills, Nash & Young “Looking Forward” e, finalmente, a presente versão número 3 que dá pelo nome de “Silver & Gold”. Registo caseiro, constituído por canções como de costume autobiográficas, “Silver & Gold” recupera o lado mais country (onde nem sequer faltam os apoios vocais de Emmylou Harris e Linda Ronstadt) do autor de “After the Goldrush”, dando a ouvir melodias recicladas de álbuns anteriores, uma harmónica que já vai ficando gasta, uma insistência nos “mid-tempos” e, no geral, a visão do “loser” eternamente em deambulações através do trauma e da desolação. “On the road, there’s no way like home”, canta pela enésima vez, em “Razor love”. Para um indefectível, é mais uma oportunidade de confirmação do génio do mestre. Para os outros soará mais como uma lengalenga ou um passeio a cavalo pelo rancho a cantar “Amazing grace”. Ao contrário de anteriores e recentes momentos de perigo e exaltação, “esta noite não é a noite!”.

05/02/2009

Neil Young - Year Of The Horse

Sons

13 de Junho 1997

Neil Young
Year of the Horse (8)
Reprise, distri. Warner Music


Querem arrumar Neil Young na gaveta dos clássicos, só que ele não deixa. Aos 52 anos de idade, o cantor canadiano foi homenageado pela indústria, entrando para o Rock and Roll Hall of Fame. Neil Young respondeu com uma recusa, alegando que o prémio se transformou, hoje, num mero veículo promocional e lucrativo do canal de televisãoVH1.
O cineasta Jim Jarmusch prestou-lhe outro tipo de homenagem, realizando a partir dos espectáculos de Neil Young com os Crazy Horse uma longa-metragem, “Year of the Horse”, da qual o presente álbum, registado ao vivo durante a digressão realizada no ano passado pela Europa e pelos Estados Unidos, é uma espécie de banda sonora. Considerado “padrinho do grunge” pelas gerações mais jovens, Young recusa a acomodação e o envelhecimento e “Year of the Horse” é prova disso. À medida que os anos passam, o velho “rocker” parece redobrar a energia e a revolta com que entrega a sua voz magoada e a sua guitarra enrouquecida aos delírios da electricidade. Na sequência de “Weld” e “Ragged Glory”, este novo trabalho recupera temas dos Crazy Horse, como “When you dance”, ou da primeira banda importante a que pertenceu, os Buffalo Springfield, como “Mr. Soul”.
A força das interpretações chega a ser avassaladora, com Neil Young a rubricar, uma em cada disco, dois momentos de antologia. O primeiro, “When your lonely heart breaks”, é uma longa despedida marcada pelo tom desesperado da voz e por uma batida implacável. A guitarra chora. No segundo disco, reservado às deambulações mais “free” e onde a fúria das guitarras investe até à loucura do ruído puro, destaca-se o derradeiro tema, “Sedan delivery” – “Smell the horse on this one!”, exclama o autor no início –, viagem arrebatadora ao inferno do pó. As guitarras revolvem-se na sua adição ao “noise” e à distorção enquanto o ritmo e as palavras aceleram num hino sem freio nos dentes à confrontação eterna, quebrado por momentos de reflexão onde o passado atravessa a ilusão do presente. Canção em duas velocidades, que a cada momento se cruzam e confundem, representa a fuga em frente e o grito que perdurará até à morte, enquanto Neil Young permanecer de pé empunhando a bandeira esfarrapada do rock’n’roll.

03/10/2008

Neil Young & Crazy Horse - Weld

Pop Rock

30 OUTUBRO 1991
LP’S

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA

NEIL YOUNG & CRAZY HORSE
Weld
2 x LP/CD, Reprise, distri. Warner Music

Documento oficial da digressão “Ragged Glory/Don’t Spook the Horse”, “Weld” constitui desde já um marco nos álbuns ao vivo. Se “Times Fade away” (1973) cortava de forma violenta com o passado acústico de “After the Goldrush” e “Harvest”, e “Live Rust” (1979) encenava já essa violência desmedida que, a partir da segunda vida dos Crazy Horse, parece ter-se tornado a forma preferencial do músico responder aos ataques do mundo, “Weld” é a explosão de raiva definitiva, a hemorragia final da alma, o curto-circuito incendiário das guitarras e dos sentimentos em carne viva.
Mergulhando ainda mais fundo do que em “Ragged Glory”, Neil Young prossegue a introspecção demencial e a denúncia de uma sociedade doente que sempre se encarregou de lhe fazer a vida negra. O som, desde as primeiras espiras de “Hey hey, my my (into the black)”, é um murro no estômago, documentário abrasivo de uma “bad trip” que na descida aos infernos encontra a derradeira redenção.
Dizer que as guitarras de Neil Young e Frank Sampedro ou o baixo de Billy Talbot são musculados e poderosos, no ponto limite em que o calor se transforma em chama, é pouco. Do princípio ao fim do disco, assiste-se como que à agonia do rock’n’roll, coincidente com o massacre em que a si próprio se imola no fogo da paixão. Auto-sacrifício ou operação de extermínio, pouco importa, se o resultado assombra com o esplendor dos grandes incêndios. “Love to Burn” assim se chama um dos temas do disco, eis do que trata “Weld”, no paroxismo da vertigem, na ânsia desmedida de tudo querer conter num grito.
Ouve-se “Weld” com a sensação de se assistir ao cataclismo iminente, à erupção de um vulcão, ao colapso de qualquer coisa que não ousamos interiorizar. É nesse ponto de impossível equilíbrio que Neil Young tem vindo a construir a sua obra e a sua vida. A morte de amigos, juntamente com a fé cega nas virtualidades da música como forma exclusiva de exorcismo, conferem-lhe mais que o estatuto de sobrevivente, o de herói. Enquanto Dylan se debate entre as contradições de uma mensagem esvaziada de sentido e o absurdo de querer manter vivo um mito que deixou de o ser, Neil Young recusa olhar para o passado, preferindo, em vez disso, investir, de guitarra em punho, contra o futuro, deixando, pelo caminho, o presente devastado.
Não por acaso, o compositor de “Rust never Sleeps” (cuja sequela ao vivo, “Live Rust”, contribui com seis temas para “Weld”, devidamente actualizados e prontos a lançar na fogueira) retoma um tema de Dylan, “Blowin’ in the wind”, de forma a anular-lhe quaisquer conotações que ainda pudesse ter com a mística de Woodstock, substituindo a sua carga pacifista pela gangrena trazida pelos ventos corrosivos que hoje sopram pelo mundo. Neil Young destrói o passado, para, num segundo momento de refluxo, o evocar na sua vertente mais negra: a introdução instrumental de “Blowin’ in the wind” remete de imediato a memória para a desolação e a violência de Jimi Hendrix.
Como em “Star Spangled Banner”, a mesma hecatombe de “feedback”, o mesmo trucidar da guitarra à procura de sonoridades impossíveis e da pulsação primordial do rock. No limite dessa apoteose de ruído e da desagregação, faz sentido a inclusão, no formato de CD, de um tema adicional, “Arc”, 37 minutos de “‘feedback’ orquestral” que a folha promocional se encarrega de definir como “chiqueiro e distorção com alguns fragmentos vocais”.Nunca, como em “Weld”, Neil Young esteve tão perto do Apocalipse. Os minutos finais do épico “Like a hurricane” resolvem-se num caos grandioso de ruído, manifestação epidérmica dessa dor imensa que, no final, obriga o músico a gritar: “No pain!” Para Neil Young, cada vez mais “Tonight’s the night”. Sabemos isso e continuamos a arrepiar-nos (10).

13/09/2008

Neil Young - Harvest Moon

Pop Rock

28 OUTUBRO 1992

CONTOS DA LUA

NEIL YOUNG
Harvest Moon (7)

LP/MC/CD Reprise, distri. Warner Music

É difícil dissociarmos “Harvest Moon” do seu antepassado “Harvest”, por muito que o seu autor insista em que se tratou de uma simples coincidência. “Harvest”, gravado em 1972, prolongamento lógico de “After the Goldrush”, projectou o nome do autor canadiano na cena rock internacional e vendeu bastante bem, na ordem do milhão de exemplares, chegando a número um no top de vendas de álbuns nos Estados Unidos. Talvez seja possível ver então na semi-sequela que é “Harvest Moon” um desejo, não necessariamente da parte do músico, em alargar o leque de potenciais consumidores.
As semelhanças começam logo pela escolha da banda, que é a mesma de “Harvest”: os Stray Gators, formados por Kenny Buttrey (bateria), Tim Drummond (baixo), Bem Keith (“steel guitar”) e Spooner Oldham (piano). Jack Nietzsche volta a ser convidado para assinar os arranjos de cordas de um tema, neste caso “Such a woman”, à semelhança do que havia feito em “Harvest”, com “A man needs a maid”. Citem-se ainda os nomes de Linda Ronstadt, James Taylor e Nicolette Larson (que já participara em “Harvest”), presentes em “Harvest Moon” para darem um ajuda nos apoios vocais.
“Harvest Moon” significa uma rotação de 180 graus em relação ao anterior “Weld”. Depois da neurose, a pacificação. Depois da violência e do ódio, o amor. A guitarra eléctrica ultra-saturada e à beira do colapso cede o lugar às reverberações da sua irmã acústica. “Weld” retratava a paranóia urbana, registada no centro do furacão, em plena guerra do Golfo. “Harvest Moon” retorna à serenidade dos campos americanos, iluminados pela Lua, contra a qual se recorta uma figura de espantalho. Um tom de abandono que serve de pano de fundo a canções de amor, nas quais Neil Young volta a enfrentar alguns dos seus fantasmas, mas agora em tempo de paz, no silêncio permitido pela solidão.
O som é amplo, espelhado, feito de pausas e ecos. A serenidade raramente é quebrada. Uma “steel guitar”, uma harmónica e coros celestiais dão logo no tema de inicial, “Unknown legend”, o tom que domina todo o álbum. Música dos grandes espaços, da América ainda com capacidade de sonhar. “From Hank to Hendrix”, primeiro grande tema de “Harvest Moon”, convoca as imagens dos ídolos, os verdadeiros e os de barro, enquanto ao longe assoma o espectro de Bob Dylan.
“You & me”, “Harvest Moon”, “War of man”, este impelido por uma poderosa linha de baixo, e “One of these days” não se afastam do ambiente geral de intimismo e introspecção. Convocam-se amores e amigos, escrevem-se cartas, trocam-se palavras e recordações.
O segundo lado consegue ser ainda mais amplo. O som torna-se espacial. O piano e as cordas embalam a história de amor que se conta em “Such a woman”. “Old king” (não é sobre Elvis mas sobre a morte do cão de estimação que acompanhava o músico a todo o lado) quebra por instantes a superfície lisa do lago, entre os soluços de um banjo e um registo declaradamente “country”. “Dreamin’ man” conta a loucura e a incapacidade de lidar com a realidade. Qual realidade? Neil Young, americano, nascido no Canadá, é por natureza o estrangeiro, o caminhante das estradas solitárias que terminam no pôr-do-sol. Por essa estrada interminável vão os passos do tema final, “Natural Beauty”, longa litania gravada em Portland, ao vivo e em cores “gospel”, sobre a beleza ambiental e a sua degradação, observada por quem sente pelos “states” uma indiferença apaixonada – misto de proximidade e distância, intervenção e afastamento crítico, ódio e desejo. “Harvest Moon” não é um grande álbum, nem sequer dos melhores de Neil Young, mas tão-somente uma visão lúcida e desencantada da América de hoje, protagonizada por um viajante eternamente de passagem.

"Paz depois da guerra" [Neil Young]

Pop Rock

28 OUTUBRO 1992

Neil Young dá conferência de imprensa em Madrid

“PAZ DEPOIS DA GUERRA”


“Harvest Moon”, novo álbum de Neil Young, editado em Portugal no dia 23 de Outubro, com o selo Warner Music, revisita o seu antepassado de 1972, “Harvest”. Os músicos são os mesmos, os arranjos acústicos remetem para os de há 20 anos. São canções de amor, de ressaca, passado o delírio eléctrico e o excesso de “Weld”, o álbum anterior. Agora o autor de “After the Gold Rush” anda pela Europa a explicar que não se trata de qualquer acesso de nostalgia, apenas de um álbum capaz de agradar a toda a gente. Um grupo de jornalistas convidados escutou as suas razões, numa conferência de imprensa realizada na semana passada num hotel de Madrid. Não são grandes razões as que o músico apresentou. Neil Young fala pouco, preferindo deixar as opiniões sobre o seu trabalho para os críticos e o público em geral. “Harvest Moon” é um bom álbum de canções, registadas num momento de pacificação. O guerreiro em tempo de paz.

Que motivos levaram afinal Neil Young a este regresso a um passado distante? As respostas não foram claras, ficando uma série de dúvidas a pairar no ar. Ele diz que foi quase por acaso: “Escrevi as canções primeiro, depois escolhi os músicos e só então reparei que eram os mesmos [os Stray Gators], que tinham trabalhado comigo em ‘Harvest’.” Pura coincidência, portanto. Quanto aos arranjos, acústicos como no álbum de 1972, devem-se unicamente à inspiração de momento. “Foram escritos na guitarra acústica. Ficavam melhor num registo ‘soft’.” Poder-se-ia pensar numa repetição de esquemas. Mas também aqui Neil Young se recusa a abrir o jogo, embora conceda: “Durante muitos anos as pessoas pediram-me para fazer isto, mas não tinha as canções certas. Não programo o tipo de canções que escrevo. Aconteceu agora e pronto.” E pronto.
Certo é que “Harvest Moon” não esconde a filiação, senão não repetiria a palavra comum aos dois álbuns. E compreende-se que a escolha tenha recaído em “Harvest”, que foi, na altura do seu lançamento, um dos que mais dividendos monetários trouxe ao seu autor e o projectou na cena rock internacional. Por outro lado convém não esquecer que a obra de Neil Young se organiza por avanços e recuos sucessivos – “Vou a um extremo e depois regresso, para não haver perda de energia. Energia que é mais forte quando toco com os Crazy Horse, visível em trabalhos como ‘Ragged Glory’, ‘Weld’ e ‘Arc’. Depois tenho de parar e tocar qualquer coisa mais suave” –, agrupando-se os álbuns em núcleos específicos. É verdade que “Harvest Moon” remete em primeiro lugar para “Harvest”, mas não é menos verdade que também não anda longe do registo de “Comes a Time”, de 1978. Da mesma maneira que “Weld” se poderá inserir numa linha idêntica à de “Ragged Glory” (1990) e “Rust never Sleeps” (1979). Intenções declaradamente comerciais não existem: “É um álbum sentido com o coração. As pessoas podem dizer o que quiserem. Não tenho de defender a minha música, apenas de a fazer.”

Uma pausa e promoção

Fica de imediato afastado qualquer paralelo com uma estratégia semelhante, por exemplo, à de “Tubular Bells II”. Nem a integridade artística sempre mantida pelo autor o permitiria. Desde os tempos longínquos de “Everybody Knows this Is nowehere” que Neil Young recusa a segurança de um estilo ou de uma fórmula que se revele rentável. Ele é por natureza um explorador, alguém que se recusa a parar. Do rockabilly à country, do rock nos mais diversos matizes ao escândalo que em 1983 causou a aventura electrónica de “Trans”, é todo um percurso em que constantemente tem procurado novas soluções. Por tudo isto também espanta a pausa que “Harvest Moon” significa. E é de facto de uma pausa que se trata. Se “Weld” e a sua extensão de puro caos e “feedback” que é “Arc” – “nas discotecas utilizam-no em blocos de 10 segundos entre as canções para dançar e na rádio costuma servir de separador” –, gravados durante a guerra do Golfo, representam, nas suas palavras, algo parecido com “estados alterados, como o ar que se transforma em vapor” ou “uma fronteira limite, o princípio de algo novo, um tiro no escuro”, “Harvest Moon”, pelo contrário, é “a calma depois da tempestade” e “a paz a seguir à guerra”.
Quanto às actividades promocionais em que, pela primeira vez em 25 anos de carreira, se vê envolvido, devem-se a directivas dos patrões da editora, que viram em “Harvest Moon” um álbum com um potencial comercial razoável: “Em Los Angeles sentaram-me numa cadeira e disseram-me: ‘Temos de fazer isto, senão ninguém saberá que tens um novo álbum.’” Neil Young acedeu e parece que não se tem dado mal com a mudança: “Agora posso viajar pela Europa, por cidades maravilhosas, frequentar bons restaurantes…” A questão é que, se, como ele diz, os fãs “hard core” não precisam de referências para adquirir o álbum, já o mesmo não acontece com uma franja de público novo que, de outro modo, não teria acesso a saber da existência do disco – “É um tipo de música que a rádio não passa, nos dias de hoje.”

Ídolos da América

Em “Harvest Moon”, Neil Young escreve e canta sobre o amor e a loucura. Ele prefere que sejam os outros a tirar conclusões. Questionado quanto à temática de algumas canções, de novo se escudou num quase mutismo: “Um verso de ‘Dreamin’ Man’ diz algo como ‘sou um sonhador’. Tem sido esse o meu problema.” Problema que Neil Young reduz a “alguém que não consegue adaptar-se à realidade”, sem adiantar outros pormenores: “Tentar explicar as canções é trair essas canções.” Um ponto de vista defensável, por muito que custe à curiosidade jornalística. Noutra canção, “From Hank to Hendrix”, refere explicitamente, além das duas personagens citadas no título – Hank Williams, nome lendário da música country, e Jimi Hendrix –, os nomes de Marilyn Monroe e Madonna. Neste caso, forneceu algumas explicações extra, talvez por incidirem numa temática de teor não autobiográfico: “Hank e Hendrix são pólos positivos da América. As pessoas gostam de ouvi-los, porque são ambos grandes músicos. Marilyn e Madonna fazem pensar em coisas diferentes… As pessoas ainda não têm uma opinião definitiva sobre a sua qualidade.” Sobre a autora de “Sex” e “Erotica”, contudo, Neil Young tem uma opinião formada, por sinal positiva, já que considera que “alguma da sua música é boa” e à escandalosa “uma cantora com potencial”, que “fará música mais aventurosa no futuro”.

A queda de Colombo

Neil Young, que já sofreu na carne os efeitos da censura, em Espanha, onde lhe cortaram o texto da canção “Cortez the Killer” (do álbum “Zuma”) sente-se mais à vontade quando questionado sobre os outros ou sobre assuntos de ordem menos pessoal, ou íntima. A propósito da descoberta da América por Cristóvão Colombo, da qual se comemora este ano o quinto centenário, assunto que mantém excitados os nossos vizinhos espanhóis, Neil Young deitou um balde de água fria sobre os ânimos de “nuestros hermanos”: “Colombo? É uma anedota. Um ídolo caído. Passados 500 anos, já ninguém fala da descoberta, mas do extermínio dos nativos americanos. Há um mal-estar geral. Durante séculos, Colombo foi um herói. Agora, o seu tempo terminou.”
Entre os projectos actuais do músico, conta-se o regresso ao cinema (na lista dos seus realizadores preferidos figuram Scorsese, o Godard das origens, Fellini e Alan Rudolph), através da realização de um filme centrado sobre a história, lida num livro, de “uma senhora franco-canadiana que afirmou ter encontrado uma cura para o cancro”. Enquanto isso continua a apoiar várias organizações de auxílio a crianças deficientes, uma para doentes e seropositivos da sida, outra de ensino da fala com o auxílio de computadores.
De Bob Dylan, ao lado de quem tocou recentemente no concerto do 30º aniversário de carreira daquele compositor, diz ser uma “personalidade única e fascinante” e um grande poeta (“tal como Shakespeare”), cuja música “sabe falar à sua geração”. Vai mais longe ao afirmar que “as palavras ganham um novo sentido quando saem da sua boca”. Instado a pronunciar-se sobre as próximas eleições nos Estados Unidos, Neil Young ficou-se por um lacónico: “Sou canadiano!”

09/09/2008

Neil Young - Lucky Thirteen

Pop Rock

10 FEVEREIRO 1993
REEDIÇÕES

O TURISTA ACIDENTAL

NEIL YOUNG
Lucky Thirteen
CD Geffen, distri. BMG

Não tem o espírito nem a unidade das (boas) obras acabadas. Nem poderia ter. “Lucky Thirteen”, subintitulado “Excursions into Alien Territory”, é, como o título indica, uma recolha de temas (incluindo dois inéditos e misturas originais de canções de “Trans”, “Old Ways” e “Landing on Water”) do autor do recente “Harvest Moon”, gravados entre 1982 e 1987 na editora Geffen, antes da posterior mudança para as hostes da Warner. Fragmentos que, se outras virtudes não tivessem, servem pelo menos para mostrar algumas facetas mais obscuras de um compositor que passou incólume, para já, por três décadas de transformações e modas no interior da música popular. Para o novato – que de Neil Young apenas retém a imagem da serenidade acústica de “Harvest Moon” –, a audição de “Lucky Thirteen” poderá constituir um choque. Nos dois temas iniciais, “Sample and hold” e “Transformer man”, retirados desse estranho objecto gravado em 1983, com o título de “Trans”, não há quaisquer elementos de estilo que permitam identificar o seu autor. A voz filtrada por um Sinclavier, utilizado à maneira de uma Vocoder, a par de arranjos onde predominam os ritmos sintéticos operados num sequenciador fazem lembrar mais os Kraftwerk e nada das obras passadas e futuras, saídas da inspiração deste “cowboy” solitário. “Depression blues”, “Once an angel” e “Where is the highway tonight”, extraídos das sessões de “Old Ways” (1983), são os únicos temas que aqui remetem para a fase actual do compositor, os dois últimos carregados com o mesmo tipo de magia que se desprende de “Harvest Moon”. Descontando as gravações ao vivo de “Get gone”, “Don’t take your love away from me”, “Ain’t it the truth” e “This note’s for you”, onde a qualidade sonora deixa bastante a desejar, restam quatro canções, nas quais Neil Young volta a servir-se dos sintetizadores, embora num contexto diferente de “Trans”: o aviso à navegação de “Hippie Dream”; a viagem com pompa e circunstância até ao reino dos Queen em “Around the world”; e a completar a série, um par de temas, “Pressure” e “Mideast vacation”, que Neil Young aproveitou para se apropriar dos tiques vocais de David Byrne.Para os incondicionais de Neil Young, “Lucky Thirteen” é indispensável. Para os outros será, conforme o grau de iniciação, uma desilusão ou uma revelação. (7)