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29/10/2019

Queirda, encolhi a música! [Stealing Orchestra]


Y 26|SETEMBRO|2003
música|stealing orchestra

Querida, encolhi a música!

Para os Stealing Orchestra um disco é um mundo de possibilidades. Com velhos discos e filmes montaram “The Incredible Shrinking Band”, que alargou o espectro sonoro da orquestra.

“The Incredible Shrinking Band”, segundo longa-duração dos Stealing Orchestra, depois de “Stereogamy” (e do EP “É Português? Não Gosto!”), rouba o que pode e onde pode. A começar pelo título, adaptado de um filme de série B, “The Incredible Shrinking Man” (Jack Arnold, 1957), hoje fita de culto.
            A operação de encolhimento traduz-se graficamente numa capa a fazer lembrar os Negativland e materializa-se literalmente na faixa de encerramento, “Happy ending theme”, segmento sónico que em segundos condensa as restantes 14 faixas. O disco termina com uma mensagem subliminar na voz de um Wally ambíguo que cada um tentará identificar.
            Pelo meio, os Stealing Orchestra, sob a alçada ideológica de João Mascarenhas, propõem as sonoridades mais estranhas, designadas por títulos não menos bizarros como “Que Deus te dê o dobro de tudo o que nos desejares”, “Tetris (beware boy, videogames are evil)”, “The darkside of a travesti”,”The living dead whistlig quartet”, “How to make a killer rat” e o inultrapassável “Sorry captain.but…shouldn’t we be thinking about cosmic hazards instead of destroying our spaceship and kitting the crew?”.
            São ilustrações, pinturas de som equivalentes às colagens surrealistas que Armando Brás criou para o folheto, ilustrativos de uma insanidade controlada que remete os Stealing para uma linhagem de grupos que inclui os Residents, Biota, Renaldo and the Loaf, Yello, Startled Insects, Olívia Tremor Control ou os já citados Negativland, bem como Pascal Comelade ou artistas como Duchamp, Breton, Ernst, e Salvador Dali.

asilos. Vale tudo e vale a pena averiguar. Os Stealing Orchestra sacam aos discos e filmes de vários estilos e épocas aquilo que neles é passível de ser manipulado até adquirir a forma de música. Os resultados variam de faixa para faixa como as simetrias de um caleidoscópio: valsas à maneira dos Stranglers, surf music, easy listening, jogos de consola, eletrónica-champagne, uma citação intrusa dos Pink Floyd psicadélicos (não, eles nunca ouviram, juram, e nós fingimos acreditar…), excertos de emissões e estática de rádio, vozes camufladas e melodias umas vezes diabolicamente retalhadas outras de uma simplicidade desarmante. Para confundir ainda mais, não faltam “Os Caretos de Podence”, com emulações de gaita-de-foles sintética de folk mirandesa formatada em disquete.
            Não há uma tradição, cá dentro como lá fora, para este “tipo” de música, pela razão de que a loucura, mesmo quando elevada a método (estético ou sociológico), é ferozmente individualista. Cada caso é um caso e entrar em cada um deles pode ser uma aventura imprevisível.
            Claro, encontram-se na pop asilos bem demarcados. Se os Negativland abusam da colagem como dispositivo de sabotagem, não só estética como política, e os Olivia Tremor Control recorrem ao “corte e costura” como ferramenta de um novo Psicadelismo, já Pascal Comelade se perfila como genuíno “naif” para quem a música é, como nos Stealing Orchestra, uma miniaturização de géneros e mitologias enrolados no cilindro de um realejo. O autor de “El Cabaret Galactico” é, de resto, das poucas influências assumidas pelo grupo português.
            Outros mestres-redutores, como os Residents (o seu álbum de 50 “jingles” de um minuto cada permanece como símbolo da publicidade filtrada pela esquizofrenia e pela perversão), inserem-se num projeto mais global de subversão que procura atingir o âmago da pop. Os Biota fazem o mesmo mas propagam a doença, infetando cada som com uma agonia. Idem em relação aos Startled Insects, com a diferença de que estes ousam interferir com os cânones da música de dança. Já os Renaldo and the Loaf são malucos a quem ofereceram instrumentos de música e um contrato de gravação e os Yello uma variação “light” dos Residents. Ponto assente: sem o trabalho pioneiro de Raymond Scott, o cientista e visionário louco de “Manhattan Reserach Inc.”, nenhum dos outros se atreveria a fazer o que fez e a expor as respetivas
taras em público.
            De entre esta lista de ilustres anjos do bizarro (parafraseando o título de um conto de Edgar Allan Poe) é no mundo mais afastado do horizonte de referências dos Stealing Orchestra que se detetam enigmáticas coincidências. E que outro grupo pode estar mais afastado da normalidade do que os Biota, autores de “Almost Never”, “Tinct” e “Object Holder”, compêndios e rituais de passagem para o pesadelo? Como os Biota, os Stealing Orchestra constroem parte da sua estranheza através da justaposição de instrumentos acústicos, como o piano ou o acordeão, e programações eletrónicas, segundo a lógica de “cadavre-exquis” surrealista, que encadeia as imagens mais incongruentes. Desta conjunção de contrários resulta uma fenda entreaberta que faz desequilibrar, ou apagar, as mnemónicas a que se recorre para fazer a descodificação de uma particular organização mental/musical. Se os Biota filtram no estúdio sanfonas e saxofones até estes soarem como emanações tuberculosas de hinos sobrenaturais, os Stealing Orchestra sequenciam valsas e fragmentos de uma folk imaginária, ou nem por isso (como nuns “Caretos de Podence” cujo mistério se desvanece ao conhecermos as origens transmontanas de João Mascarenhas), cuja força advém, precisamente, da ausência ou deformação de contexto. Nos Stealing Orchestra nada encaixa numa explicação lógica e tudo se passa como as imagens de um sonho. E, no entanto, o filme que fazemos com elas fala uma linguagem que reconhecemos. Ou julgamos reconhecer.
            E daí, talvez não, se pensarmos que “The Incredible Shrinking Band” demorou três anos e meio a gravar e que a organização destes O.V.N.I.s sonoros terá custado a João Mascarenhas mais do que uma noite sem dormir. Foi difícil encontrá-lo, porque encolheu até à escala de 1:260. Encontrámo-lo a praticar natação no interior de um dos sifões de água que matam a sede à Redação do PÚBLICO. Como é que lá foi parar, não quis dizer nem nós conseguimos imaginar. Mas não podíamos desperdiçar a oportunidade. Depois de se enxugar num pedaço de toalhete de papel e de escapar por um triz a ser espezinhado por um jornalista, prontificou-se a dar explicações. Já instalado no aconchego de uma caixa de fósforos, foi mesmo assim com alguma dificuldade que conseguimos ouvir com nitidez este “incredible shrinking man”. Segue-se a relação de algumas das verdades liliputianas que nos transmitiu.


ideias em lata.
MÉTODO DE COMPOSIÇÃO: “Faço as bases, com samples, depois gravo para CD, passo aos outros músicos [Pedro Vidal, Fernando Sousa, Gustavo Costa] e discutimos o que se pode aumentar aqui ou colar ali. Finalmente trabalho outra vez os temas e dou-lhes as programações para trabalharem sozinhos”.
LOCAL DE TRABALHO: Em casa. “Às vezes não consigo dormir. Estou com um som na cabeça e não descanso enquanto não conseguir fazê-lo. Vou para o computador ver se sai alguma coisa. Se sai, continuo, se não…”
FONTES SAMPLADAS: Discos e filmes. “A mais descarada: os Bonzo Dog Doo Dah Band, em ‘Time travelling waltz’, cinco segundos de Brigitte Bardot, de “Tous les garçons”, num ‘pitch’ lento.”
AUDIÇÕES RECENTES: Robert Mitchum. Ouve pouca eletrónica. “Não gosto do som eletrónico”. Nos anos 80: Front 242, Skinny Puppy. Mais tarde: Portishead. Massive Attack, Aphex Twin…
SOFTWARE UTILIZADO: “Básico e primitivo. Já o uso há 11, 12 anos, um programa que cabe três vezes numa disquete, quando hoje é tudo ‘software’ em dois CD. Habituei-me. É como um gajo que toca guitarra e não quer mudar de instrumento”.
UM HERÓI: Raymond Scott. A fase do jazz. “Gosto de todos os discos que saem pela Basta, como os dos Beau Hunks”. “Adoro os anos 20”.
O LIXO E O LUXO: “Um sample não tem que ser lixo só porque é de um artista mais foleiro. Às vezes ouço bandas a dizer, orgulhosas, que samplam os Kraftwerk. É uma treta. O que é que interessa de onde vêm os sons? O que interessa é o que se faz com eles. Tanto pode ser Piazzolla como Quim Barreiros”. Critério: “Tem a ver com a preguiça. Uso os sons disponíveis, não tenho pachorra para arranjar mais. Na escola, quando me mandavam fazer uma redação, se não me dessem um tema, não era capaz. Com um tema, desenvolvia facilmente. Um ‘sample’ é como se fosse um tema”
MÚSICO OU NÃO-MÚSICO: “Não-músico. Não leio pautas. Músico é um gajo que tanto toca num projeto experimental como numa cena mais foleira, para ganhar dinheiro. É uma profissão”.
ECLETISMO: “Tanto podemos fazer misturas de uma banda de ‘dead metal’ como os Holocausto Canibal como de Kubik. Uma vez tentei fazer uma música pimba, para ver se era fácil. Não saía. Afinal não é assim tão fácil. Como não é fácil fazer electroclash ou hip-hop”
CONCERTOS: “Nunca vi ninguém fazer nada de jeito em palco com um computador, os tipos estão ali a fazer de conta que estão a tocar. Antigamente levava um até que me fartei. Gravo as programações todas em CD, fazemos ‘play’ e tocamos por cima, como uma orquestra que estivesse lá atrás”.
UM FINAL FELIZ: “‘Happy ending theme’ é o disco todo comprimido a andar para trás, como um grande loop. Não vou revelar o que a voz diz no final. Dá mais gozo pôr o disco a rodar ao contrário e tentar perceber. Esperemos que ninguém leve a mensagem a sério…”


anjos do bizarro

No corpo da hidra monstruosa que é a
música pop não faltam excrescências
que extravasam os limites impostos
pelo “mainstream”, ou seja, pela
“normalidade”. Os álbuns
seguintes, nacionais e
estrangeiros, são clássicos
da marginalidade
cultivada como estética, em
que as únicas regras são as
da loucura, do perigo e da
transgressão. E do humor,
tantas vezes separador entre
a patologia, a obra de arte e o
gratuito.

THE RESIDENTS
The Third Reich ‘n’ Roll
Ed. Euro Ralph

Quem são, de onde vêm, o que pretendem? Ninguém sabe. Agem como toupeiras a escavar os túneis que minam os alicerces da pop. Os “eyeballs” de fraque e cartola são os diletantes do horror em banda-desenhada, “compères” de uma alucinação sem fim que vem dos anos 70 e hoje se estende por videojogos para maiores de 21. “The Third Reich ‘n’ Roll”, de 1976, é uma das etapas mais bizarras deste percurso pelos subterrâneos da pop, dividida num par de aberrações onde são amolgados e cuspidos, numa avalanche de ruído e vozes de diabretes, “hits” pop dos anos 60 e 70: “Swastikas on parade” e “Hitler was a vegetarian”. Ou de como destapar o diabo e escancarar o carácter intrinsecamente totalitário da música de massas.

BIOTA
Object Holder
Ed. Recommended

Ao contrário dos Residentes, é conhecida a identidade dos Biota: uma equipa de músicos e artistas gráficos sediados em Fort Collins, EUA, preocupados com o “bombardeamento das crianças pela tecnologia” e empenhados na manipulação eletrónica, até à aniquilação, de instrumentos acústicos como a sanfona, trompete, teclados e, em “Object Holder”, da voz humana
Se os Residents são a subversão da pop os Biota transferem-na para um mundo de espectros. A música é um aglomerado tóxico de anti-matéria em metamorfose, miasmas desfocados de “world” inexistente, “free jazz” nas rotações e pelos músicos errados. Como num teste Rorschach é a nossa imaginação que faz nascer os monstros.

NEGATIVLAND
Escape from Noise
Ed. Seeland

Os Negativland disparam aqui rajadas de colagem e eletrónica devedoras de Raymond Scott mas que antecipavam as atuais “funny electronics” alemãs, em canções que denunciam o ridículo e os podres do quotidiano da América. Pulveriza-se com veneno mata-ratos a mediocridade do rock “mainstream” (o verdadeiro “noise”), expõem-se os vícios do pai de família que vê às escondidas o canal Playboy ou, simplesmente, sintetiza-se o atual estado de coisas num título como “Methods of torture”. Entre os convidados, encontram-se “freaks” como Steve Fisk, Fred Frith, Mickey Hart e Jerry Garcia (Grafteful Dead), Henry Kaiser, Mother Mothersbaugh (Devo), Tom Herman (Pere Ubu), Alexander Hacke (Einsturzende Neubauten) e os…Residents.

MOLA DUDLE
Mobília
Ed. Anana

Os portugueses também sabem fazer esgares. Os Mola Dudle desarrumam a eletrónica de entretenimento para nos fazer tropeçar no espanto. Desarrumação com a aparência de caos, todavia encenada com uma exatidão matemática por Nanu e Miguel Cabral, os dois que arrastam a mobília e eletrodomésticos de museu pelo chão. “Found objects”, instrumentos convencionais manipulados até ao âmago da sua estrutura atómica, programações histéricas ou “easy listening” arrancadas aos cartazes da escola de circo da editora Storage Secret Sounds e vocalizações sem tino condensam uma música inteligente mas por enquanto capaz de divertir apenas aqueles ouvidos sem receio de gozar consigo mesmos. Vale a pena mobilar a música portuguesa desta maneira. Os Mola Dudle foram ao ponto de porem microfones nas mãos do caruncho.

KUBIK
Oblique Musique
Ed. Zounds

O que nos Mola Dudle soa a polimento dos móveis, em Kubik (Victor Afonso) é metal, cimento e objetos brutos. “Oblique Musique” insere-se numa escola de sons que remonta à música industrial, aproveita os ensinamentos do minimalismo e assimila métodos de colagem, quer da eletro-acústica e acusmática quer dos figurinos “prêt-a-porter” da pop, mas neste campo, como em tudo, vale a imaginação do autor. Kubik usa o sampler como artilharia pesada, avançando nas programações a bordo de um tanque e fazendo denotar granadas a cada intersecção de géneros como a música étnica, melopeias repetitivas e o catálogo geral de deformações causadas pela “industrial”. Admirável é o modo como Kubik sobrepõe citações e humor, tripas e automatismos, linguagem de máquinas e existencialismo humano, criando perspetivas mutáveis como uma gravura de Eischer.

02/03/2018

Yes, Pauline Oliveros...


Fernando Magalhães
21.01.2002 160425

Só para sair um pouco desta modorra... :)

Já não sei quem é que me perguntou qualquer coisa sobre um CD da PAULINE OLIVEROS com (?) os DEEP LISTENING BAND.

Confesso que não sou grande fã da senhora...dos discos que ouvi dela, se não estou em erro, na New Albion, não retive a ideia de uma música excepcional...

Em relação aos DEEP LISTENING BAND, lembro-me de ter achado alguma piada a um álbum, também na New Albion, julgo eu, gravado no interior de uma cisterna, para tirar partido da ressonância e das excepcionais condições acústicas...

Sobre o "Fragile", dos YES. Sem ser dos melhores álbuns dos YES (7,5/10, mesmo assim...) tem o tal "Heart of the Sunrise"...
Mas os YES nunca foram a minha banda "prog" preferida, embora tenha todos os álbuns deles até ao "Tormato" e dois CDs mais recentes, o vol. 2 do "Keys to Ascension" - 7/10 (via "o vendedor"...) e o "The Ladder" (6,5/10).

Quanto aos que valem a pena:

"YES" - 7,5/10 - canções pop prog psych
"Time and a Word" - 8/10 - idem, c/arranjos mais sofisticados
"The Yes Album" - 9/10 - um excelente complemento para fúria energética dos KING CRIMSON
"Close to the Edge" - 9/10 - clássico do Prog. A música popular aliada ao (bom) pretensiosismo.
"Tales from the Topographic Oceans" - 9/10 Mais ainda aqui. Há quem ache excessivo. Para mim é a obra magna dos YES - mas necessita de muitas e muitas audições para se penetrar neste mantra de múltiplas dimensões...
"Relayer" - 8,5/10 - A guitarra de Steve Howe em delírio, na longa suite do lado um - um portento!...Pena Jon Anderson já estar neste álbum apanhado na teia tecida por Vangelis...
"Going for the One" - 7,5/10 - álbum de manutenção, com o "clássico""Awake/Awake" a destacar-se.
"Tormato" - 7/10 - OVNIS com fartura e um tema "infantil", mas mágico, de Jon Anderson sobre o circo (é deste álbum ou do anterior, já não estou certo...
:) )

FM

Fernando Magalhães
21.01.2002 180628
quote:


Publicado originalmente por rat-tat-tat

Claro que agradeço sugestões! :) Ainda são audições muito fragmentárias e gostava de encontrar um certo sentido e coerência evolutiva (by the way: consegues-me definir "música concreta" em poucas palavras?)

Daqueles nomes acima referidos gosto de todos, embora já tenha ficado "pasmado" com um tema do Steve Reich, em que a estrutura é apenas constituída pela repetição da expressão "come out" (se não estou em erro!), com pequenas nuances e acelerações. Pareceu-me um daqueles casos de experimentação que não leva a lado nenhum.

E qual é o ponto de contacto dos Negativeland, com tudo isto?

tat



Vamos por partes :)

O termo "música concreta" (musique concrète, como costuma ser designada...) foi inventado pelo compositor francês Pierre Schaeffer e surge na sequência da escola serialista de Viena (Webern, Weber...) aplica-se a uma música eletro-acústica construída a partir (mas não só...) de sons "concretos", leia-se naturais (objetos, água, vozes humanas, sons de animais, etc) tratados eletronicamente.
O prolongamento natural da música concreta é a chamada música acusmática, em que os elementos sonoros provenientes de fontes que não os instrumentos musicais convencionais, já não são imediatamente identificáveis (samples, tapes, programas, etc).

O STEVE REICH tem álbuns excecionais, mas que exigem um tipo de escuta "diferente": Recomendo especialmente o "Music for 18 Musicians", editado na ECM. O minimalismo na sua essência mais nobre: uma música "multiplicadora de músicas", capaz de provocar em quem a ouve a audição de harmonias e sons que não estão (ou estarão?...) presentes materialmente no som executado. A experiência pode ser exaltante. Lembro-me de um concerto inolvidável, aqui há uns anos, na Gulbenkian, com música de S. Reich (em que o próprio esteve presente, se não me engano). Uma das peças, para seis pianos verticais, criava no auditor uma verdadeira "sinfonia" de músicas sobrepostas!!!

Quanto aos NEGATIVLAND...não têm rigorosamente nada a ver com estes universos musicais. O tipo de estética baseado em colagens que praticam terá mais a ver com um equivalente em banda-desenhada + pop eletrónica + sarcasmo, dos Residents ou dos percursores Frank Zappa e Faust. Os Negativland não pertencem a mundo da música erudita mas, pelo contrário, ao que de mais fundo e paradoxal existe no mundo da música popular - que a cada momento se encarregam de denunciar, desmistificar e sabotar. "car Boooooooooooob" (de "Escape from Noise")- BUUUMMMM!!!!

saudações

FM

Fernando Magalhães
21.01.2002 190707
O "Escape from Noise" é um disco chave dos anos 80.

O "Helter Stupid" é notável a nível do conceito (conheces a história? É sobre o pretenso massacre provocado por um jovem na sequência da audição de mensagens subliminares contidas num tema de "Escape...", "Christianity is stupid". O grupo divulgou a falta notícia e, claro, os media engoliram-na como verdadeira, lançando de imediato opiniões sobre os malefícios da música rock sobre a juventude, que estava provada a sua influência perniciosa nas mentes jovens, etc, etc, etc.

Infelizmente a música nunca consegue estar ao nível da mensagem. Nem sequer fiquei com este álbum!

FM

15/08/2014

E agora, algo completamente igual... [Reedições]


22 de Setembro 2000
REEDIÇÕES



E agora, algo completamente igual…

            Chegou finalmente a reedição por que todos ansiavam, a começar pelas donas de casa. Sim! O álbum de 1987 dos Negativland, “Escape from Noise”, é uma peça fundamental do lar. Mas agora há motivos de sobra para nos regozijarmos com esta nova reedição, já que se trata, nem mais nem menos do que uma “exactomasterização”, como vem anunciado na embalagem de forma exuberante. A única e inconfundível masterização que deixa tudo exatamente como estava. Ou seja, não há temas extra, o som não sofreu qualquer melhoramento ou modificação e apenas a gravura da capa é agora uma ampliação da que vinha na anterior reedição pela Cuneiform. A outra mudança, como o grupo faz questão de notar, é o desaparecimento, entretanto, da União Soviética, que servia de mote ao tema “Time zones”.
            É mais um dos múltiplos truques que os Negativland costumam usar para fintar a indústria, mas não é por isso que “Escape from Noise” vê diminuída a sua condição de obra fundamental dos anos 80, com continuação à altura dos anos seguintes em trabalhos como “Free” ou “Disepsip”.
            Álbum de colagens, de sons caídos em desgraça em melodias em estado de graça, “Escape from Noise” é um manifesto contra a paranoia americana, contra a paranoia internacional, contra a paranoia individual. O álbum é todo ele, de resto, uma paranoia. A crítica é feroz, o ataque ao “mainstream” – no tema “Michael Jackson”, simples enunciação de nomes presentes regularmente nas “charts” norte-americanas completada com a frase que dá título ao álbum, “Há alguma forma de escapar ao ruído?” – mortífero. “The Playboy channel”, “Stress in marriage”, “Methods of Torture”, “Car bomb”, dissecam a loucura, cospem na sopa e fazem literalmente explodir bombas na sala de estar do conformismo. E “Christianity is stupid”, claro, que serviu de base a um dos mais geniais embustes da história da pop através do qual os Negativland cobriram de ridículo toda a rede dos “media” dos Estados Unidos, história que o grupo daria a conhecer em pormenor no álbum seguinte, “Helter Stupid”. Experimentalismo e humor unem-se a uma excentricidade iluminada neste álbum que nos anos 80 deu novo sentido à palavra síntese, servindo de manual de guerrilha a toda um geração de músicos mais novos para os quais a música pop é um fato demasiado apertado. Colaboram em “Escape from Noise”, outros mutantes como os Residents, Jello Biafra (dos Dead Kennedys), Steve Fisk, Fred Frith, Jerry Garcia (o guru, já falecido, dos Grateful Dead), Mickey Hart (também dos Grateful Dead), Henry Kaiser, Mark Mothersborough (dos Devo), Tom Herman (dos Pere Ubu) e Alexander Hacke (dos Einsturzende Neubauten). Hoje, como ontem, é difícil escapar ao ruído. Mas enquanto não é descoberta a fórmula definitiva para eliminar a poluição, auscultadores nos ouvidos e volume no máximo, até rebentarem os tímpanos com “Escape from Noise”! A surdez é a solução final. Se ainda não tem, compre já! (Seeland, distri. Ananana, 10/10)

            “Pioneers who got Scalped” é uma antologia bastante completa dos Devo, os androides de Akron que se metamorfosearam em batatas, usavam abat-jours na cabeça, defendiam a teoria da de-evolução e, a brincar, a brincar, provocaram uma formidável reviravolta na pop eletrónica. Dos 50 temas retirados de toda a sua discografia fazem ainda parte, além de remisturas, versões alternativas, incluindo as gravadas pelo projeto Booji Boy, que viria a dar origem aos Devo, como “Jocko homo” e “Mongoloid”. Excelente, divertido e uma boa aposta para surpreender nas festas mutantes deste Outono. (ed. e distri. Warner Music, 8/10).

            Haverá quem ainda se lembra de “Déjà Vu”, o álbum resultante da junção do trio David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash – que já gravara antes “Crosby, Stills & Nash” – com Neil Young, vindo dos Buffalo Springfield. As harmonias vocais que ficaram como imagem de marca tornaram-se mais ricas mas a excessiva preocupação em dividir a composição em partes iguais pelos quatro não resultou numa melhoria sensível em relação ao álbum anterior, apesar de a crítica o considerar um dos clássicos da “contry pop” dos anos 70. Mas canções como “Helpless”, “Déjà vu” e “Our House” ilustram de forma mágica a época dourada do pós-psicadelismo americano: “cool”, melódica e mais interessada nas emoções veiculadas numa canção do que nos golpes de experimentalismo ácido dos sons e da mente… (Atlantic, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)

            Que foi o que fez, e de que maneira, Eric Burdon, um dos profetas do psicadelismo na sua versão “bad trip”, que explorou de forma quase demencial, antes de se lançar nos braços do “funk” com o grupo War. Mas os The Animals eram, nos anos 60, animais selvagens e o ácido corria-lhes nas veias. “Winds of Change”, do ano de graça de 1967, é um clássico do psicadelismo de tonalidades carregadas. Burdon pulveriza-se em máscaras vocais. “Sitars”, vibrafones, guitarras tripantes e toda a espécie de distorções de estúdio criam um mundo de sombras onde até as letras são “viagens” com as quais é preciso saber lidar. A versão de “Paint it black”, dos Stones, faz assim sentido num álbum que em pleno Verão do Amor atirava à cara dos “hippies” temas como “The black plague”, “Hotel hell” e “It’s all meat”, este último uma apologia do sexo enquanto tráfico de carne capaz de fazer estremecer as doutrinas do “flower power”. E “San Francisco nights” é um voo planante e uma extraordinária canção pop que voa tão alto como “8 miles high” dos Byrds… (Polydor, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10)

            Entre as bandas do progressivo que se gabavam de lidar com o diabo, os Black Widow rivalizavam com os Black Sabbath, tendo em Jim Gannon o seu antipapa do oculto. “Come to the sabbat”, incluído no primeiro e melhor álbum da banda, chegou a ser um hit mas ao terceiro álbum, “Black Widow III” (1971), já sem Gannon e com uma formação descaracterizada, o grupo afadigava-se em alinhar riffs onde o saxofone, a flauta e os teclados não necessitavam já de qualquer exorcismo para poderem ser ouvidos por qualquer bom cristão (Repertoire, import. Fnac, 6/10).

01/06/2009

Negativland - Desipsip

Sons

7 de Novembro 1997
DISCOS - POP ROCK

Pipse-Cola
A escolha de uma geração negativa


“Desipsip”, “Ideppiss”, “Diseipso”. O título, construído a partir de um anagrama com a palavra formada pelas letras “P”, “E”, “P”, “S” e “I”, do novo álbum dos Negativland, “o pesadelo das marcas registadas”, como já são conhecidos, é facultativo. Quem estiver interessado em saber o nome verdadeiro e a sua pronúncia correcta, poderá fazê-lo através do telefone 510-466-5253, durante este ano e o próximo. Desta feita, o massacre tem como alvo a Pipse-Cola, como antes já tivera os U2 (“a pior banda do universo”, na óptica dos Negativland).
A este propósito, recorde-se que esta banda norte-americana editou também, por escrito, “The Story of the Letter ‘U’ and the Numeral ‘2’, na continuação do seu jogo do rato e do gato contra o sistema em geral e contra aquela banda irlandesa em particular. Lembremos ainda o xeque-mate aos “media” levado a cabo no álbum “Helter Stupid”, onde conseguiram cobrir de ridículo os jornais e a televisão norte-americanos, pondo a nu as disfunções do processo de difusão de informação pela comunicação social.
“Psisiped” começa por ser um achado, logo pela capa, o símbolo tauista da totalidade, expressa na dualidade Yang/yin, que os Negativland imprimiram com o vermelho e o azul da Pipse. Bingo! O jogo passou a ser jogado a uma escala planetária. Todas as faixas aludem a esta marca de refrigerantes, mas o discurso opta, de forma inteligente e cem por cento eficaz, pela ironia, na dissecação da sociedade de consumo nos seus vários aspectos – das técnicas de controlo à subjugação e alienação das massas. Em termos gráficos, outro triunfo. Quem abrir a caixa do CD terá ao seu dispor uma enorme gargalhada. Há ainda um livrete de conselhos à Pipse e à Caco-Cola, “A Proposal to Coke and Pepsi” (com os respectivos sinais de marca registada), para obtenção dos melhores resultados nas suas respectivas estratégias de dominação planetária, da autoria da “One World Advertising”, contendo informações confidenciais (!) relativas às “conclusions of the Corporate Cola Strategy Analysis Project, with non-problematic solution recommendations”.
Verifica-se assim que, em definitivo, a obra dos Negativland passou a ser indissociável de um conceito temático central, determinante de toda a componente musical, algo que já se pressentia, embora ainda numa perspectiva globalizante, no genial “Escape from Noise”. Tal estratégia tem como risco principal tornar irrelevante a música propriamente dita e foi isso que, de facto, aconteceu, em álbuns como “U2”, “Guns” e em partes de “Helter Stupid”, onde as palavras, e a sua manipulação, passavam o discurso musical para um plano secundário.
Posteriormente, porém, os Negativland emendaram a mão e, depois do magnífico “Free”, “Pedispis” volta a colocar o grupo na vanguarda dos grandes corruptores da pop. Não desapareceram, como seria de esperar, essas apropriações de discursos fragmentários arrancados, neste caso, de programas de rádio, anúncios da Pipse, cassetes privadas de empresas ou excertos do julgamento de O. J. Simpson, entre outras fontes, mas funcionando como separadores de canções que são já pura subversão, na medida em que esfrangalham o contexto original da “genuína” música norte-americana, atirando a “country music” e a “surf music” dos Beach Boys para o esgoto do risível. Neste sentido, os Negativland estão bastante próximos de um grupo como os Residents, com a diferença de que a sua estratégia e métodos de trabalho são mais claros e directos que os dos “eyeballs” de São Francisco.
As habituais elaborações electrónicas, de uma falsa pop electrónica, fazendo lembrar, por vezes, Steve Fisk (que participa no álbum) e Chris Burke (de “Idioglossia”), disfarçam-se numa ingenuidade “naїf” que trai os seus “tenebrosos” (para a indústria...) propósitos. Temas como “Drink it up” (sobre a viciação), “Why is this commercial?”, “A most successful formula”, “The greatest taste around” ou “Voice inside my head” são alguns dos hinos e manifestos de uma lucidez quase cruel, ou anedotas assassinas, de “Siedpsip”, o álbum mais acessível e imediatista de toda a discografia dos Negativland mas, por este motivo, aquele onde a mensagem passa com maior intensidade. Os Negativland transformam em música a farsa consumista do final do século, arrastando consigo a devoção de muitos e a maldição de uns quantos. “This is the choice of a negative generation”, proclamam, numa oração invertida em honra da Pipse. Têm razão. Pertence-lhes a tarefa, escatológica, de fazer chafurdar o cidadão respeitável no líquido das suas iniquidades. Quer ele tenha o rótulo de “Caco-Cola” ou “Pipse-Cola”.

Negativland
Desipsip (9)

Seeland, import. Ananana

15/10/2008

Anúncios desclassificados [Negativland, The Residents, Yasuaki Shimizu]

Pop Rock

20 MARÇO 1991

ANÚNCIOS DESCLASSIFICADOS


Publicidade é manipulação. Lavagem ao cérebro com o detergente psíquico da moda. Os publicitários são como os glutões do anúncio – gostam de ver o mundo muito branco para poder redesenhá-lo segundo as exigências do mercado. Fazer publicidade é “dar música”. A maioria dos músicos não se faz rogada e aproveita: um “slogan”, um boneco colorido, um patrocínio dourado, sabem a mel quando a vida está difícil e o produto não vende. Mas há sempre os desmancha-prazeres, psicopatas disfarçados de artistas, que rasgam os cartazes, fazem estalar o verniz, cospem na sopa e batem na avó. Os Negativland e os Residents fazem gala de pertencer a este grupo vergonhoso.

Gravam discos que as massas ignoram e que ainda por cima destabilizam. Pauzinhos na engrenagem, sem marca registada, nem campanha de “marketing”, nem código de barras. Dedicam-se à sabotagem sistemática das regras do jogo, mas fingem que não.
Os Residents editaram, em 1980, um álbum com 40 temas, cada um com a duração exacta de um minuto, para servir de “jingles” publicitários. Um single com mais dois temas-minuto serve de bónus promocional. Chamaram ao disco “Commercial Album”. Por seu lado, os Negativland incluem na sua música fragmentos de anúncios, subvertendo-lhes o sentido, reduzindo a mensagem publicitária a pó que nem sequer serve para matar baratas. “Há alguma maneira de fugir ao ruído?” – perguntam, enquanto fazem explodir automóveis e enunciam em voz monocórdica a lista de vacuidades poluidoras dos tops americanos – Michael Jackson, Fleetwood Mac, Hue Lewis and the News, Heart, Madonna e demais produtos de consumo imediato. Yasuaki Shimizu, mais clássico, não engana ninguém – música de qualidade para produtos de prestígio.

NEGATIVLAND
Escape From Noise
Rec Rec

Os Negativland são os maiores inimigos da Coca-Cola, da Levi’s e dos mísseis Patriot. Só pelo nome se vê que são do contra. Vêm da contracosta americana. Voltam tudo de pernas para o ar. Até a fotografia da capa. Reduzem o mundo conceptual a um amontoado de significantes despojados da sua original função comunicativa. Música, marcas comerciais, política, televisão, a sociedade industrializada inteira, não passam de imagens (aparentemente) desconexas de um filme sem realizador nem enredo. Documentário apocalíptico que em 20 minutos pulveriza 20 séculos de cultura (da história da América tratam em questão de segundos). Tudo se concentra na vertigem do instante – paranóias, signos, sons das mais desvairadas proveniências, anunciam a ultrapassagem da “aldeia global” de que falava McLuhan. O mundo é uma anedota, um desenho animado cruel em que Jerry abocanha Tom e o Coiote arranca meticulosamente as penas de Bip-Bip. O conceito de publicidade torna-se sinónimo de totalitarismo, de agarrar o Ocidente e espremê-lo com força até o despedaçar, fazer uma papa com os restos e chamar ao sucedâneo “BigbrotherBush”, em embalagem de sopa de letras instantânea, pronta a consumir.
Os Negativland são cínicos, como não poderia deixar de ser. Logo na abertura inventam um “spot” radiofónico, anunciando que o disco foi elaborado cientificamente em laboratório, seguindo à risca os requisitos necessários à fabricação de um “hit”, destinado a ser passado no éter. Curioso foi observar as reacções dos “media” a esse disco e ao seguinte, “Helter Stupid”, no qual levam ainda mais longe a manipulação dos canais de informação, inventando uma história de assassínio provocado pela audição da sua música – um adolescente escuta “Christianity is Stupid”, faixa do anterior “Escape From Noise” e, zás!, num acesso de loucura, mata a família toda à facada, rivalizando com o velho Jason nos seus delírios de “Friday, the 13th, night fever”. Sugere-se que a citada faixa contém mensagens satânicas que induziriam o auditor ao assassínio, não se sabe se como um das belas-artes. A (falsa) notícia explodiu como uma bomba. Os jornais e a rádio americanos caíram no logro e falaram sobre o caso, analisando-o em detalhe e acrescentando-lhe novos e sórdidos pormenores, de acordo com o célebre fenómeno conhecido por “bola de neve”. Mil vozes bradaram contra a música rock – mãe de todos os vícios e perversões. Que se prendesse a pandilha toda, condenando os Negativland à vergonha e humilhação no pelourinho da indignidade pública.
Depois, quando a verdade se soube, que se tratara apenas de uma “inocente” brincadeira, os rostos coraram, tossicou-se um pouco e voltaram-se os holofotes para o outro lado. Os Negativland conseguiam, por obra e graça de um simples disco, a proeza de desmontar, de forma extremamente inteligente, todo o universo mediático, servindo-se da publicidade para apontar o vazio que se instalou no interior da própria “verdade dos factos”.
“Escape From Noise” e “Helter Stupid” acertam em cheio no alvo. A indústria jamais lhes perdoará. Os retalhistas também não. Os “advertising men” muito menos. Em nenhum concurso Carlos Cruz atribuirá cabazes cheios de discos dos Negativland como prémio de consolação. O próximo álbum da tristemente célebre banda da contracosta americana e da “terra negativa” chamar-se-á, segundo tudo indica, “U2”. Nada escapa a estes brincalhões.

RESIDENTS
Commercial Album
Ralph Rec

Um minuto para publicitar a disformidade. Sessenta segundos de bizarria – o tempo exacto que cada uma das estranhas “canções” da banda mais esquisita do universo leva para dizer, alto e bom som, que “loucura é felicidade”, a “juventude é muito louca” e “compre já antes que esgote”. As regras são outras. A lógica seguida parece-se mais com aquela desses outros residentes, ali para os lados da Avenida do Brasil – fragmentada, imprevisível, por vezes perturbante e assustadora. São “jingles” publicitários – garantem os Residents –, mas como é que se pode acreditar nas palavras de alguém que gosta de se disfarçar de camarão, como é caso destes facínoras? Que crédito se pode dar a indivíduos que gravaram um disco com temas dos Beatles e dos Rolling Stones e lhe chamaram “The Third Reich’n’roll”? Será possível levar a sério um grupelho de pataratas com pretensões a intelectuais, que afirmam querer editar até ao final deste século uma série de álbuns com interpretações demenciais da música dos grandes compositores americanos deste século? Não, meus amigos, não se pode dar corda nem ouvidos a energúmenos desta laia, sob pena de ruírem de vez os alicerces culturais que sustentam a nossa civilização.
Do início da década de 70, altura em que irromperam na cena musical, até hoje, continua desconhecida a verdadeira identidade dos membros da banda. É o mistério mais bem guardado de toda a história da música rock. Qual publicidade? As massas querem é rostos sorridentes, corpos de fazer sonhar, frases bombásticas, remédios contra a caspa, sapatos voadores, de preferência tudo junto. Algumas das canções-minuto deste disco têm títulos que são autênticas marcas comerciais: “Love is…”, “Secrets” ou “Moisture”, por exemplo, poderiam perfeitamente passar por nomes de perfumes. Outros, como “Perfect love”, “Loss of innocence”, “Possessions”, “Handful of desire” ou o magnífico “Act of being polite”, são ideais para preservativos. Já “Give it to someone else” ou “Ups and downs” soariam como menos próprios para idênticos fins. O pior são os medonhos “The nameless souls”, “Die in terror”, “Tragic bells” ou “The coming of the crow” – insecticidas, talvez... Chris Cutler, Fred Frith e Snakefinger são alguns dos anunciantes deste disco.

YASUAKI SHIMIZU
Music for Commercials
Made to Measure


O japonês Yasuaki Shimizu, como todos os japoneses, prefere a subtileza e a discrição – compôs música computorizada para anúncios televisivos da Knorr, Seiko, Sharp, Suntory, Honda, Bridgestone, etc., deu-lhes uma embalagem de luxo e apresentou a lista de supermercado como “produto artístico de qualidade” – táctica eminentemente nipónica, de reconversão, polimento tecnológico e deslocação do conteúdo ideológico original, para posterior exportação. Aqui a diferença está no fino sentido de humor e na asserção de que a Arte pode (e deve) ser conivente com a publicidade. Ao contrário dos Negativland e dos Residents, Shimizu fala a sério, ou pelo menos parece. Interessante a possibilidade de ouvir, sentado confortavelmente numa poltrona e a fumar cachimbo, o som de anúncios, sem imagens, num sofisticado leitor de compactos. Não menos interessante seria observar o fenómeno equivalente, em termos visuais – por exemplo, um “spot” das baterias Tudor, realizado por Manuel de Oliveira, ou as senhoras da Planta a dizer de sua justiça diante da câmara de Greenaway. Oshima e Almodôvar não poderiam, como é óbvio, filmar nada.