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13/10/2025

Pacote de Natal

 NA CAPA

 

PACOTE DE NATAL

DISCOS
POP ROCK
FM assina os seguintes textos

 


JEAN-MICHEL JARRE
Waiting for Cousteau
Dreyfus 

O tema é a água, as profundidades oceânicas, o exotismo de paraísos distantes, beijados pelas ondas e onde apetece sonhar até ao fim dos dias.

Aventuras pelo reino marítimo, inspiradas nas viagens do velho mestre do Graal subaquático. Primeiro, as vertigens rítmicas do calipso, desaguando na “new age” (ou será melhor dizer “new wave”…?) do fim do século. Depois, na versão aumentada do CD, 46 minutos em que Jarre ensina a contemplação dos grandes arcanos submarinos.

O silêncio e a escuridão do fundo. A fauna e flora dos domínios de Neptuno, perturbados por estilhaços de vozes refractados de longe. Brian Eno não faria melhor.

 

 

MIKE OLDFIELD
Amarok
Virgin/Edisom









O ex-menino-prodígio da Virgin desistiu de armar em moderno e regressa em grande forma aos bons velhos tempos de “Hergest Ridge”, “Ommadawn” e “Incantatious”.

Um longo tema instrumental a ocupar a totalidade do álbum, a lista de artefactos musicais a não caber na folha (citam-se “tubos pendurados de metal, compridos e esteitos” para avivar a memória de forma delicada) e as inevitáveis participações da gaita-de-foles de Paddy Moloney, dos tambores africanos e dos coros femininos de Clodagh Simonds e Bridget St. John, remetem de imediato para as glórias de antanho. Quem dava já o velho Mike como morto e enterrado vai ter ainda de esperar.

 

 

LAURIE ANDERSON
Strange Angels
Warner Bros./WEA









Ideal para quem pretende passar por vanguardista sem grandes afrontamentos estéticos nem dolorosos exercícios de ginástica intelectual.

Laurie Anderson apresenta aqui a papinha toda feita, que é como quem diz, sabendo adaptar anteriores virulências conceptuais a uma acessibilidade que faz torcer o nariz aos viciados na dificuldade e gemer de prazer os amantes do erotismo gramatical da senhora. A estranheza flutua, desta vez, em canções de formato pop, às quais o visionarismo fragmentado da autora acrescenta um toque de inquietude.

 

 

BOBBY McFERRIN
Medicine Music
Emi/Valentim de Carvalho








 

Nada como uma boa voz para aquecer a ceia natalícia e, mais ainda, o Ano Novo. A de Bobby McFerrin cumpre na perfeição tal desígnio. Ainda por cima parece que a música deste disco cura, tornando-se assim ideal para curar as eventuais bebedeiras e ressacas do dia seguinte.

Os blues, o gospel, os ritmos africanos, tudo serve a “The Voice” McFerrin para fazer a voz brilhar, envergonhando todos aqueles miseráveis músicos que ainda necessitam de outros instrumentos para se acompanharem. Decididamente, o homem é da corda… vocal.

 

 

SEXTA-FEIRA, 7 DEZEMBRO 1990 FIM DE SEMANA

24/04/2018

Os melhores 240 de sempre!



Fernando Magalhães
15.06.2002 040451

Uma boa hora para se falar do Mike Oldfield! :D

O "Tubular Bells" é um bom disco mas também um bocado sobrevalorizado, acabando por sofrer um pouco da mesma síndrome de sobre-exposição do "Dark Side of the Moon". Aquela longa sequência da apresentação dos instrumentos já não se consegue ouvir... No entanto, o álbum está recheado de bons momentos, embora soe aqui e ali demasiado artificial, notando-se as "costuras" de estúdio.

Dito isto, prefiro os álbuns seguintes: "Hergest Ridge", "Ommadawn" (com o Paddy Moloney, dos Chieftains) e o duplo, minimalista e misterioso "Incantantions" (com Pierre Moerlen, dos Gong, excelente no vibrafone, e a voz de Maddy Prior, dos Steeleye Span).

Já nos anos 90, Oldfield regressaria surpreendentemente à boa forma, com "Amarok", álbum mais eletrónico que os anteriores.

FM

28/03/2016

Mike Oldfield - Tres Lunas

Y 14|JUNHO|2002
discos|roteiro

MIKE OLDFIELD
Tres Lunas
2xCD WEA, distri. Warner Music
1|10 

É verdade, Mike Oldfield ainda anda por cá, desta vez não para impingir “Tubular Bells XIV”, mas um pacote duplo de disco de “chill out” mais jogo de computador. No capítulo dos sons, digamos que a reconversão para música de relaxe dos típicos acordes que fizeram história em “Tubular Bells” (o primeiro, de 1973), “Hergest Ridge”, “Ommadawn” e “Incantations”, além de lógica, consegue ser coerente na forma como descambou para o “muzak” mais execrável, segundo um processo de deterioração em tudo idêntico ao de Jean-Michel Jarre (chegou a gravar um disco com Laurie Anderson, não sei se sabem...). Se a intençao era ser bonito e agradável, o resultado é uma bosta de plástico pintada de cor-de-rosa com um laçarote dourado atado em volta. De figir a sete pés. O segundo CD é preenchido pelo jogo “MusicVR” (na versão de demonstração, exigindo-se para a versão completa o registo na Internet). Não jogámos, mas a pobreza gráfica das imagens não augura nada de bom. Trata-se, diz Oldfield (que, como Peter Gabriel, se assume como designer de jogos), de uma viagem por um mundo virtual, para explorar sem a pressão habitual dos jogos de estratégia. O problema é já haver “Myst”, “Riven” e “Exile”...

04/09/2014

Parque Jurássico remasterizado



Y 5|JANEIRO|2001

Em tempo de MP3, as editoras suam para “oferecer” objetos apelativos, com as remasterizações a ganharem espaço num fenómeno de reciclagem que não tem fim. Os “dinossauros” agradecem.

Parque Jurássico remasterizado

Com o advento do MP3 e a possibilidade de qualquer um poder adquirir música gratuitamente através da internet, as editoras procuram a todo o custo rentabilizar os seus produtos, tentando tornar o mais possível apetecível o objeto CD. Ao nível das reedições, aposta-se na melhoria do som (nalguns casos mais aparente que real…) através de gravações remasterizada, enquanto no capítulo da apresentação, tendo em mira o colecionador, se socorre de embalagens cartonadas que são réplicas em miniatura das capas dos discos em vinilo. O impacte, a nível psicológico, destas últimas, é indesmentível. Velhos álbuns dos King Crimson, Genesis ou Roxy Music ganharam nova vida, visual e sonora, e mesmo os velhos melómanos na posse das edições originais não terão ficado insensíveis aos “brinquedos”, voltando a investir nos mesmos títulos.
            É o cada vez mais forte fenómeno da reciclagem a fazer-se sentir, impelindo o consumidor a comprar o que já tinha em casa, sob o pretexto da melhoria de um produto que é apresentado como a “versão definitiva”, possuidora do “melhor som possível”, sem dúvida um objeto estimável até à eternidade. Até o novo e “definitivo” “melhoramento” surgir para o desmentir. Depois das edições remasterizadas e re-remasterizadas, dos “digipaks” e das capas em miniatura, teremos a seguir, quem sabe, as edições desremasterizadas, com a garantia de que, afinal, os ruídos e estalidos do vinilo (devidamente digitalizados e contextualizados, como é evidente…) é que são o “it” na sua forma mais pura e genuína.

            Pacotes para fetichistas. Em matéria de MP3, confesso que não uso. Enquanto colecionador, fetichista, a quem, ainda por cima, os discos saem à borla, prefiro o objeto físico – passível de ser tocado, lido e até mesmo estragado – ao virtual. Mas também acho que as editoras e a indústria em geral, que durante anos têm inflacionado o preço dos CDs, merecem sofrer e ter um bocadinho de prejuízo.
            Passemos então em revista algumas das reedições remasterizadas (lojas há que exibem escaparates inteiros preenchidos por elas…) lançadas nos últimos meses em Portugal.
            Cat Stevens, o velho Gato Esteves, que há bastante tempo abandonou a música para pregar o islamismo, voltou remasterizado e remoçado, com as reedições de “Catch Bull at Four” (1972), “Foreigner” (1973) e “Buddha and the Chocolate Box” (1974). Os três posteriores aos bem melhores “Mona Bone Jakon” (1970, o seu melhor de sempre), “Tea for the Tillerman” (1971) e “Teaser and the Firecat” (1971) que, estranhamente, ficaram de fora do pacote nacional.
            Se “Catch Bull at Four” condensa os tiques vocais do cantor em canções bem pouco inspiradas, como a agoniativa “O caritas”, também “Foreigner” não ganha com a inclusão de uma longa “Foreigner Suite” pseudo-progressiva que não é mais do que uma colagem, enfeitada por orquestrações inócuas e pretensamente exóticas, de canções mal amanhadas. Já “Buddha and the Chocolate Box” recupera uma parte da magia perdida.
            Outro “remasterizado” ilustre é Mike Oldfield, este sim, digno de figurar no quadro de honra dos anos 70. A totalidade da sua obra compreendida entre a estreia “Tubular Bells”, de 1973 – e da qual já existia uma anterior versão remasterizada na edição especial do seu 25º aniversário – e a coletânea “Elements”, está de volta, agora em “High Definition Compatible Digital”. E se o som faz justiça à qualidade de obras como o já citado “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations”, “Five Miles Out” e “Amarok”, é pena a impressão das capas não estar ao mesmo nível (cores mais esbatidas, tonalidades deturpadas) e a informação não primar pela abundância. O destaque vai para “Amarok”, por ser um álbum dos anos 90 que constitui exceção ao período de maior criatividade – os anos 70 – deste multinstrumentista inglês que encheu os bolsos a Richard Bronson e permitiu o nascimento do império Virgin.
            Os The Who merecem todas as melhorias, eles que tiveram fama de ser do “piorio”, “enfants terribles” dos anos 60 e 70. Os álbuns andavam por aí perdidos em edições rascas. Depois de “Who’s Next” já circular remasterizado desde há dois anos, são as óperas-rock “Tommy” e “Quadrophenia”, correspondentes à fase conceptual e megalómana do seu líder, Pete Townshend, que ressurgem como objetos de luxo, aqui sim, com embalagens à altura e livretes informativos, profusamente ilustrados.
            Mais dispensável, mas mesmo assim interessante, é a aglutinação no formato “dois em um” dos dois primeiros álbuns do supergrupo inglês Humble Pie, “As Safe as Yesterday is” e “Town and Country”, ambos de 1969 e os únicos editados no selo Immediate por este grupo do qual faziam parte Peter Frampton, ex-The Herd e futuro herói da guitarra, Steve Marriott, ex-Small Faces, e Dave Clempson, ex-Colosseum. Excelentes desempenhos instrumentais para uma música que só esporadicamente foge aos lugares comuns do rock e rhythm ‘n’ blues, quando pega em “sitars” e brinca ao psicadelismo.
            Ótimos músicos eram também os norte-americanos Blood, Sweat and Tears, uma das primeiras bandas a integrar uma secção de metais. “Child is Father to the Man”, álbum de estreia de 1968, não era ainda o rock-jazz festivo que os viria a catapultar para os tops mas um híbrido de psicadelismo, pop e soul, tingido por referências clássicas e pelo talento do singer-songwriter Al Kooper.


CAT STEVENS
Buddha and the Chocolate Box
Island, distri. Universal
7|10
Não tem o charme “hippie” dos primeiros discos e tresanda já ao misticismo que transformaria Cat Stevens de músico em profeta, mas estas eram ainda canções que falavam de amor como se fosse possível acreditar nele, num bouquet de sonoridades subtis dedicadas a Buda e a Jesus, onde a pop e a folk percorrem de mãos dadas uma cidade-fantasma.

MIKE OLDFIELD
Amarok
Virgin, distri. EMI - VC, import. FNAC
8|10
20º álbum de estúdio do compositor, “Amarok”, editado em 1990, é uma peça de 52 minutos pioneira da vaga “world” e fusionista que caracterizaria a década agora finda. Percussionistas zulu, as uillean pipes de Paddy Moloney, dos Chieftains, uma comediante a fazer as vezes de Margaret Thatcher e o ruído do compositor a lavar os dentes, juntam-se numa obra complexa que nada deve ao aclamado “Tubular Bells”.

THE WHO
Quadrophenia
2xCD Polydor, distri. Universal
8|10
Como os Kinks, os The Who foram sinónimo da Londres dos anos 60, sufocada entre as pulsões da moda, a nostalgia vitoriana e o muro cinzento de uma classe operária sem horizontes. “Quadrophenia” é uma alucinação híper-realista e duplamente esquizofrénica de um mod de Brighton, aliás Pete Townshend, o punk anterior a todos os punks que almejava compor uma sinfonia.

HUMBLE PIE
Natural Born Bugie
2xCD Immediate, distri. Universal
6|10
Intitulado a partir do “hit” de 1969, “Natural Born Bugie” (e não “boogie” como poderia parecer…) junta “As Safe as Yesterday is” e “Town and Country”. Apesar do rótulo de supergrupo e do virtuosismo dos seus elementos, os Humble Pie raramente conseguiram escapar à mediania de um rock mainstream em contradição com o brilhantismo pop da banda que acolhera antes Peter Frampton, The Herd.

BLOOD, SWEAT & TEARS
Child is Father to the Man
Columbia, import. Lojas Valentim de Carvalho
7|10
Das primeiras pequenas big-bands da música pop, os Blood, Sweat & Tears trouxeram para os finais dos anos 60 a fanfarra, com a inclusão de uma secção de sopros que procurava honrar os ensinamentos do trompetista canadiano Maynard Ferguson. Ainda hesitantes quanto ao caminho que os haveria de conduzir ao sucesso, “Child is Father to the Man” cruza, entre a exaltação e a devoção, a herança dos blues e da soul com o psicadelismo em voga, revelando Al Kooper como um notável escritor de canções.

17/03/2010

Mike Oldfield - Tubular Bells III

Sons

25 de Setembro 1998

Mike Oldfield
Tubular Bells III (1)
WEA, distri. Warner Music

“Tubular Bells”, goste-se ou não, é um disco incontornável dos anos 70. Sem o monstruoso sucesso editorial que serviu na época para lançar a editora Virgin, talvez não tivesse sido possível a gravação posterior, nesta mesma editora, de nomes como Henry Cow, Hatfield and the North, Robert Wyatt, Slapp Happy, David Vorhaus, Gilgamesh, Comus ou, do continente, Gong, Faust, Clearlight, Tangerine Dream, Klaus Schulze, Ashra e Wigwam. Mas o tempo passou e Mike Oldfield, ultrapassado um ciclo que ainda proporcionou obras de nomeada como “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations”, “Five Miles Out” e, num último fôlego, já nos anos 90, “Amarok”, decidiu que ele e “Tubular Bells” constituem um casamento para a eternidade. “Tubular Bells III” reduz-se a um amontoado asséptico (como a capa) de truques baixos apontados aos tops dos hipermercados. Ele é a plástica tecno em “The source of secrets”, os assomos de hip-hop nado-morto em “The watchful eye”, as notas “cósmicas” dos “Encontros Imediatos”, em “Jewel in the crown”, a reciclagem camuflada de “Moonlight shadow”, em “Man in the rain”, o aproveitamento do achado neo-romântico de “O piano”, em “The top of the morning”. Tudo embrulhado em caricaturas das melodias e acordes do álbum original, para espicaçar a memória. O mais penoso de tudo isto é ver Rosa Cédron, dos Luar na Lubre (Mike Oldfield tem laços fortes na Galiza, onde já tocou ao vivo, em clubes folk), perdida numa lamechice, em “The inner child”. Lamentável.

05/06/2009

O céu pontado de estrelas [Reedições]

Sons

14 de Novembro 1997
REEDIÇÕES


O céu pintado de estrelas

Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e reedições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.

Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desequilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirismos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)

Outro músico importante que já não pertence ao mundo dos vivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant karma” e “Power to the people”, o Lennon “rocker” de “Cold turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working class hero”, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).

Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megassucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira...) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” e “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos... (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).

Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”...), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Shepherd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco flow” e “The celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têm ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if...” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)

Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da média da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito único de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o “neo-country”, em “Redemption day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, distri. Polygram, 6)

05/11/2008

Sinosite [Mike Oldfield]

Pop Rock

22 de Setembro de 1993

SINOSITE

Mike Oldfield: um homem, uma guitarra de som inconfundível, uma personalidade instável e um disco onde coube tudo: “Tubular Bells”. Em dois volumes, separados por duas décadas, a marcarem a distância entre o génio e a banalidade.

O autor de um dos discos mais vendidos a música Rock, “Tubular Bells”, o primeiro, pois claro, vai tocar numa praça de touros. Uma actuação em registo orquestral a exigir enorme concentração. Com a guitarra, vários tipos de guitarra, no comando das operações. Menos a portuguesa, de que Mike Oldfield, estranhamente, nunca ouviu falar.
PÚBLICO – Que motivos o levaram a gravar “Tubular Bells II”?
Mike Oldfield – Pensei que fosse uma boa ideia e agradou-me imenso fazê-lo. Tinha essa intenção já há cerca de cinco anos, mas queria fazê-lo com uma nova editora. Já não me sentia feliz na Virgin e tive de romper o contrato.
P. – Por que razão se aborreceu com a editora?
R. – As pessoas originais foram-se embora e as que vieram não eram grandes apreciadoras de música instrumental. Pensavam que era um formato difícil de promover. Depois, Richard Branson estava mais preocupado com a sua companhia de aviação, enquanto no passado se preocupava mais com a música. Foram 17 anos na mesma editora e achei que era tempo de mudar.
P. – Poderia ter feito “Tubular Bells II” com música original, mas em vez disso preferiu apenas alterar os arranjos. Porquê essa opção?
R. – As sequências não são as mesmas… mas porque é que me está sempre a perguntar “porquê”?
P. – Porque o público português quer ficar a saber…
R. – Oh! (suspiro). Não há uma razão para tudo o que faço, portanto não faz sentido perguntar-me “porquê”. Não tenho explicação para as coisas. Não sei por que razão há seres humanos sobre o planeta, não sei explicar os enigmas do universo. As coisas simplesmente existem. Eu faço coisas não por este ou aquele motivo. Faço-as e pronto.
P. – A sua obra tem-se caracterizado por dois campos musicais separados: longas peças instrumentais e, por outro lado, pequenas canções curtas…
R. – Resolvi deixar essas canções de lado por uns tempos. Comecei a sentir aborrecimento a escrever canções, que me estava a repetir. Há muitas pessoas no mundo a escrever canções mas muito poucas a compor peças instrumentais. Uso um pouco as vozes, é claro, mas não no formato tradicional de canções.
P. – Mas, sobretudo nos últimos anos, foram essas canções que lhe deram mais dinheiro…
R. – Nunca fiz nada por dinheiro. À parte quando era muito novo e trabalhava porque necessitava dele. Passei a ter sempre dinheiro desde “Tubular Bells”. A maioria das pessoas pensa que se age sempre a pensar em dinheiro, mas eu faço as coisas por outras razões, pelo prazer que sinto, por exemplo. Quando deixar de sentir esse prazer, paro, e vou fazer outra coisa.
P. – Passados todos estes anos, continua a sentir prazer em tocar ao vivo?
R. – Sim, especialmente nesta digressão, em que os processos utilizados são diferentes. Não vai ser como em digressões anteriores, em que fazia versões rock dos álbuns. Tinha já tudo escrito, como se fosse uma peça orquestral, os músicos vão cingir-se às respectivas partituras. Os actuais concertos soam bastante aos álbuns, embora num contexto “ao vivo”, com várias partes separadas que se complementam e que exigem uma grande concentração, de modo a conseguir-se a ordem correcta. Têm a duração de uma hora e meia, o que, nos dias que correm, pode parecer um pouco curto. Não se trata de preguiça, mas sim da tal concentração.
P. – Vão ser tocados temas novos ou só os arranjos é que variam?
R. – Novos arranjos. Vou tocar um pouco de “Tubular Bells II”, um pouco de flamenco, que adoro…
P. – Sempre mostrou interesse pela música tradicional, nomeadamente de inspiração celta… Tocou recentemente num clube de música tradicional na Galiza…
R. – É verdade. A minha namorada é galega e fomos visitar os pais dela. Conheci o grupo Luar na Lubre e tocámos juntos nesse clube. Adoro música celta.
P. – Continua a viver no campo?
R. – Sim, em Inglaterra, algumas vezes.
P. – Tem medo da cidade?
R. – Tenho uma casa em Los Angeles que é uma das maiores cidades dos Estados Unidos, só que fica um pouco à margem, no alto de um monte. Gosto de me sentir próximo da cidade, mas não no meio dela.
P. – Descontando “Tubular Bells II”, pensa regressar ao estilo e à complexidade de um álbum como “Amarok”, por sinal excelente?
R. – Complexo, sim, mas feito de forma muito espontânea. Costumava levantar-me de manhã e pensar em algo, uma técnica de composição que resultou bem. Há nesse disco secções maravilhosas, mas, na generalidade, é um disco em que existe raiva, um disco negativo. Não estou a dizer que seja mau…
P. – Sabe-se que costuma ser sensível a estes aspectos negativos, mas o curioso é que se desprende da sua música uma sensação de harmonia. Usa a música como terapia?
R. – Sim, é uma espécie de terapia. Nos primeiros tempos, a música era algo que me fazia sentir feliz e seguro, mas se se reparasse bem, não era uma máusica feliz, embora possa dizer que era uma música positiva.
P. – Define-se primeiro que tudo como um guitarrista?
R. – Absolutamente. Quando vir o concerto reparará que me concentro muito na guitarra. Vou tocar vários tipos de guitarra: espanhola, clássica, eléctrica…
P. – E guitarra portuguesa?
R. – O quê? Nunca vi uma guitarra portuguesa, o que é isso?
P. – Não sabe o que é?
R. – Não, mas vou tentar investigar, manter os ouvidos abertos para ela.


DIA 22, DRAMÁTICO DE CASCAIS, 21H30

Mike Oldfield - Elements, The Best Of...

Pop Rock

22 SETEMBRO 1993

Mike Oldfield
Elements,The Best of...
Virgin, distri. EMI – VC

“O melhor” seja de quem for é sempre contingente. No caso do menino-prodígio dos sinos tubulares, considerou-se desta vez que o supra-sumo são as canções curtas que foram editadas em single, da fase posterior à dos grandes épicos do início de carreira. Outra compilação, em caixa dupla, do músico, lançada já há alguns anos, dizia exactamente o contrário e privilegiava as sequências longas… Enfim, aqui reuniram-se canções agradáveis como “Moonight shadow”, “Five miles out” e “Shadow on the wall”, com outras menos interessantes, como “Family man”, e alguns paraísos de anjinhos assexuados, como “In Dulce jubilo” e “Islands”. Para compor o ramalhete incluíram-se excertos à pressão e bastante abreviados das “opus magnum” “Tubular bells”, “Ommadawnn” e a mais recente “Amarok”. Inofensivo. (5)

14/10/2008

Michael Oldfield - Heaven's Open

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Michael Oldfield
Heaven’s Open
LP, MC e CD, Virgin, distri. Edisom

Mike Oldfield andou a ler “Dr. Jeckyll and Mr. Hyde”. Nunca o deveria ter feito. Desde muito novo dado a problemas psicológicos à beira da patologia clínica, vê-se agora confrontado com uma terrível e dolorosa divisão na personalidade – uma confusão que lhe mói a cabeça e lhe corrói a alma ao ponto de o fazer mudar de nome e passar a tocar somente guitarra e teclados, em vez das habituais dezenas de instrumentos.
Assim, no primeiro lado, encontramo-nos frente a frente com o temível Mr. Michael, a nova personalidade psicótica, já anteriormente assumida em “Crises” ou “Discovery” e que aqui irrompe triunfalmente, apostada em destruir toda a obra anterior do músico, a golpes de um execrável comercialismo pop, fruto inconfundível de uma mente perturbada.
Do outro lado, a calma reencontrada, o esplendor instrumental caro a Dr. Mike de antanho, nos quase vinte minutos de “Music from the balcony”, abrilhantados pelo saxofone de Courtney Pine. Mesmo a capa mostra o estado transtornado do ex-menino de ouro da Virgin, com o recurso tornado piroso das imagens fractais. Um caso clínico a seguir atentamente. Em relação às estrelas, feita a média dos dois lados, dá…) **

17/09/2008

Mike Oldfield - Tubular Bells II

Pop Rock

9 SETEMBRO 1992

CANOS DE ESGOTO

MIKE OLDFIELD
Tubular Bells II

LP/MC/CD Warner Bros., distri. Warner portuguesa

Negócio é a palavra-chave. Negócio de imagens, números, reciclagem, desenterrar o passado, polir o produto e apresentá-lo como uma “ideia original”, inteligente, um golpe de génio. É disso que trata “Tubular Bells II”, versão tardia, de 20 anos, do original que nos anos 70 “revolucionou” a música pop, nas palavras de Rob Dickins, presidente da Warner no Reino Unido. Ao ponto de, na campanha publicitária, o primeiro “Tubular Bells” ser referido como uma “prequel”, dando a entender que o novo produto é que é o genuíno, numa brincadeira sintomática que recupera o termo “sequel”, ou sequela, cada vez mais em voga no cinema.
Dickins fala, a propósito, num “mundo de ‘Alien III’, ‘Arma Mortífera III’ e ‘O Exterminador Implacável II’, um mundo de números, de exploração de fórmulas que deram frutos dourados. Se “’O Padrinho II’ era melhor que o primeiro”, diz ainda Dickins, porque não ver em “Tubular Bells II” apenas a “sequência lógica” daquela atitude transposta para a música? Porque é óbvio que não, respondemos nós.
Coincidindo com a edição do novo disco de Mike Oldfield para a Warner, pela primeira vez, Richard Branson da Virgin não auferirá de quaisquer proventos. O compositor, guitarrista e multi-instrumentista assegurou também um novo acordo com a EMI, que, recorde-se, adquiriu todos os seus direitos de autor, quando da compra do grupo Virgin. “Tubular Bells II” terá ainda direito a um “home video”, na Warner, consumada que está a apresentação ao vivo, com pompa e circunstância, num espectáculo realizado num castelo de Edimburgo, que os portugueses tiveram oportunidade de assistir, na sexta-feira, em directo pela televisão.
“Tubular Bells II” é a versão adocicada do original. Carregou-se nas tintas “new age” e na limagem de arestas. A estrutura é a mesma, respeitando as diversas partes onde nem sequer falta a sequência final do primeiro lado (no formato vinílico), com um “mestre de cerimónias” incumbido de apresentar os diversos instrumentos até ao momento apoteótico correspondente à entrada dos célebres “tubular bells”. Mas como os tempos mudam, apesar de tudo, ouve-se uma introdução a “two sampled guitars” e a outros artefactos electrónicos que, diga-se de passagem, são muito menos românticos que os “mandolins” e “glockenspiels” do disco antigo. Não faltam a voz feminina à beira do desfalecimento de Sally Bradshaw e as gaitas-de-foles, aqui entregues aos P. D. Scots Pipe Band e aos Celtic Bevy Band. Mike Oldfield toca o esperado estendal de instrumentos, incluindo os sinos, e Trevor Horn assegura a produção, ele que foi um dos grandes impulsionadores do projecto e a quem, por tal motivo, devem ser assacadas responsabilidades. Nunca há só um culpado.
Ainda segundo Rob Dickins, “Tubular Bells” dirige-se a uma “subgeração de jovens fartos de música minimalista, à base de ritmos computorizados e ‘samples’” que procuram “outra coisa qualquer, próxima da música clássica”.Essa coisa é um híbrido mole e requentado, um golpe oportunista, pese embora os argumentos em contrário avançados por todos os envolvidos, com a agravante de minimizar e conseguir apagar as virtudes, que as havia, da versão original. Os tubos, depois de cornucópia de divisas, mesmo se a nova capa os mostra dourados, passaram a canos de esgoto. Não por acaso, sempre se foi lembrando que “Tubular Bells II” já vendeu, 20 anos passados sobre a sua edição, mais de 16 milhões de cópias em todo o mundo, mantendo uma média de vendas anual na ordem dos cem mil exemplares. É obra. Mas não de arte. (3)