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23/05/2018

Mas e... a Meira Asher (Vítor Junqueira)



Fernando Magalhães
24.07.2002 130118

Não foi mau. Mas também não saí de lá deslumbrado e, muito menos, massacrado.

A performance dela e do Guy Harries, embora poderosa, soou-me nalguns momentos algo gratuita e previsível (o tipo aos berros, ela aos berros, os dois aos berros...) sobre uma base rítmica eletrónica que pouco adianta em relação à música industrial dos anos 80 (lembrei-me sobretudo dos primeiros Test Dept...).

No disco a coisa funciona, paradoxalmente (ou nem tanto...) melhor, na medida em que se consegue seguir os textos e há uma dimensão abstrata e de "não mostrado" que acaba por conferir ao todo uma outra dimensão, muito mais perturbante.

É como nos filmes de terror. Às vezes mostrar muito sangue, monstros, etc, não é a melhor solução para provocar o medo...

FM

18/04/2018

Sacana da Meira Asher!



Fernando Magalhães
07.05.2002 150323

Ouvi ontem o "Infantry".
Se já não andava muito bem disposto, fiquei pior.

A sacana da israelita tem o condão de pegar nos temas mais incómodos e deprimentes e atirá-los à nossa cara.

Em "Infantry" o tema é o abuso de menores, nas suas várias vertentes. As letras são, em certos casos, aterradoras (descrições minuciosas de torturas, a morte que aniquila em instantes uma criança que atravessa uma rua num dia de sol e é baleada na cabeça).

Musicalmente, o álbum funciona num registo diferente (como o César já aqui fez notar) de "Spears into Hooks", mas o resultado talvez ainda seja mais perturbador. É eletrónica pegajosa, programações de máquinas com maus instintos e sobre este lancinante mundo sem alma, a voz de Meira a declamar/cuspir/vomitar palavras onde a dor e a crueldade são uma constante.

É um daqueles álbuns que se odeia, porque nos obriga a confrontar com o lado mais negro e miserável da condição humana.

Não lhe atribuo qualquer classificação, por enquanto. Ainda não me consegui distanciar.

Quanto ao novo dos Chicago Underground Duo, está, de facto, na linha do anterior "Synesthesia": Jazz-jazz, jazz digital, vibrafones ambientais, interlúdios eletrónicos, solos de R. mazurek na "cornet" (cujo som é um bocado mais irritante que o do trompete...). Bom, por vezes muito bom, sem ser brilhante.

Sobre as japonesas BUFFALO DAUGHTER...bem...aquilo é uma salada que às vezes atrai outras nos deixa sem saber o que pensar. Há um pouco de tudo em "I": Jazz third stream, Anna Homler, Astrud Gilberto, After Dinner, eletrónica a la Laurie Anderson com o toque de elegância japonesa, pop semi-psicadélica...
O todo fez-me lembrar frequentemente os...DONNA REGINA.

FM

23/12/2016

Meira Asher faz história no festival Ritmos

SEGUNDA-FEIRA, 28 JUNHO 1999 cultura

Meira Asher faz história no festival Ritmos

Birkenau aqui e agora
A música da israelita Meira Asher é a verdadeira música do mundo. Não do mundo da tradição, mas do mundo atual, em agonia, à beira do novo milénio. A sua passagem pelo festival Ritmos/Festas do Mundo, no Porto, provocou arrepios. E algum escândalo.

Ninguém ficou indiferente ao espetáculo alucinante que Meira Asher apresentou, sábado, no festival Ritmos/Festas do Mundo, que ontem terminou no Porto. "Loucura total", exclamaram, deslumbrados, os que aguentaram o embate. "Vamos fugir deste inferno!", arrepiaram-se uns quantos, que não suportaram ter de enfrentar cara a cara o pesadelo.
            Festa e alegria são palavras sem sentido na carnificina que a israelita trouxe ao Palácio de Cristal, onde o festival teve lugar. Pelo contrário, a sua "performance" terá constituído, para alguns, um fardo difícil de suportar. Foi um vómito de sangue, um combate de vida e de morte contra a passividade e a indiferença. "Este projeto é um sinal de alarme que retrata o indivíduo vítima de uma realidade repetitiva, brutal e alienante. Uma realidade que contamina toda a gente com as doenças crónicas da cobardia e da apatia", diz Meira Asher, a propósito de "Spears into Hooks" e da prestação ao vivo que lhe corresponde.
            Conseguiu plenamente os seus intentos, esta israelita de olhos encovados e cabeça rapada, de ascendência russa, que traça um paralelo entre o holocausto nazi e o holocausto palestiniano e para quem a paz entre as nações só será possível quando todos os pesadelos forem expostos à luz do dia. Foi isso que ela fez, arrasando os nervos de uma assistência que nunca soube muito bem como reagir à violência do impacte, mas que, subjugada por uma espécie de hipnose, se manteve imobilizada diante da torturadora. "Aquele que foi torturado tende a tornar-se no torturador" constitui, aliás, outra das máximas defendidas por Meira Asher.
            Tudo se conjugou para tornar a noite de sábado do Ritmos/Festas do Mundo numa ocasião especial e, provavelmente, dolorosa. A começar pelo aspeto cénico do palco. Ao invés da habitual parafernália de instrumentos étnicos, era todo um arsenal de máquinas, ecrãs de vídeo, percussões eletrónicas e computadores que se exibia aos olhos curiosos, e um pouco assustados, da assistência.
            Ainda antes do ritual ter início, um som eletrónico incomodativo saía das colunas para criar uma atmosfera que tornava cada vez mais ténues as esperanças daqueles que acreditavam ainda ser possível haver festa. Mas quando Meira Asher e o seu grupo de terroristas sónicos puseram os seus dispositivos do inferno a funcionar, todas estas esperanças caíram por terra. Sobre vagas industriais de eletrónica onde a melodia e o menor "groove" rítmico nunca passaram de utopia, Meira Asher gritava e gesticulava como uma possessa. Luzes estroboscópicas eram apontadas ao público, enquanto os fumos e, num dos temas, fogo real, ajudavam a intimidar, na celebração de uma cerimónia de shamãs sem fé que transportam para o próximo milénio a estética apocalíptica dos Einstuerzende Neubaten e dos atuais Faust. Dois ecrãs de vídeo exibiam imagens não menos dantescas, de experiências ou operações cirúrgicas em corpos humanos, chagas, ferimentos e sofrimentos sortidos, tortura e caos, alternando com sinais geométricos de carácter mágico. Sobre tudo isto, uma frase, repetida do princípio ao fim num placard eletrónico instalado em frente a uma das mesas de samplers e sintetizadores, acentuava ainda mais a tónica do medo: "Birkenau, aqui e agora". O Palácio de Cristal tornava-se no campo minado de um perigoso jogo de memórias e ambiguidades. O mundo inteiro é um campo de concentração do qual é impossível escapar.
            Sucederam-se os samples onde se armazenavam as dores de vítimas reais e estilhaços de música étnica afogada numa orgia de loucura. Durante a interpretação de "Weekend away break", um dos temas mais violentos de "Spears into Hooks" - a descrição do campo da morte de Birkenau como uma estância de férias, ao som de uma valsa de Strauss e das canções de Marlene Dietrich - dançou a dança do mal.
            O "espetáculo" que Meira Asher apresentou no Ritmos/Festas do Mundo, excedeu as expectativas dos que já conheciam o álbum e defraudou as dos incautos. Quem procurava a festa - que também não chegou a acontecer na primeira parte, com a atuação dos Istanbul Oriental Ensemble a pautar-se por alguma monotonia - saiu machucado debaixo dos gritos de "Morram!" Morram! Morram!", que Meira escarrou em "The Flood", "o dilúvio", outro dos temas de audição dolorosa de "Spears into Hooks". Mal terminou o exorcismo, a chuva começou a cair...

Holocausto na música do mundo [Meira Asher]

SEXTA-FEIRA, 25 JUNHO 1999 cultura

Sons do Mediterrâneo no Porto

Holocausto na música do mundo

MEIRA ASHER paira como uma ave de rapina sobre a programação do festival Ritmos-Festas do Mundo, cuja sexta edição, dedicada aos sons do Mediterrâneo, tem hoje início no Palácio de Cristal, no Porto. A cantora israelita de cabeça rapada lança-nos na cara a maldição e o horror da condição humana. Depois de um primeiro álbum, “Dissected”, em que a música de raiz étnica funcionava ainda como pretexto para suavizar uma visão em que a fúria e a denúncia eram já a pedra de toque, em torno de temáticas incómodas (e, até então, virgens, no universo das chamadas “músicas do mundo”) como a sida e a apropriação terrorista de textos da Bíblia, Meira Asher lançou-ne no abismo. A sua segunda obra, intitulada “Spear into Hooks”, é um pesadelo de audição urgente e, provavelmente, o melhor disco deste ano.
            Sobre a temática do Holocausto a cantora ergue uma catedral de medo cercada pela violência sonora da música industrial e pelos traumas da guerra. São utilizados samples onde ficaram armazenadas a agonia, a tortura e uma ironia que fere com a crueldade gelada de um bisturi. Meira grita, geme e invectiva (Diamanda Galas, ao pé dela, é uma menina de coro...) sobre os estertores de vozes reais de mulheres e crianças atingidas por projéteis. Textos do Génesis misturam-se com a descrição de assassínios. Num dos temas, o campo de concentração nazi de Birkenau é descrito como um campo de férias cujos habitantes são convidados a tomar um banho de vapores perfumados. À medida que o inferno sobe de tom ouve-se por cima uma valsa de Strauss e um disco antigo de Marlene Dietrich. Outro tema, inspirado no poema "Se questo é un uomo", de Primo Levi, descreve a doença da alma dos que sobreviveram: "Lembramo-nos de tudo o que aconteceu/que agora encaramos como se nunca tivesse acontecido/não gravaremos nada nos nossos corações/quando chegarmos a casa e já estivermos longe/quando pudermos descansar e nos erguermos de novo/não será dita aos nossos filhos uma palavra do que vivemos/deste modo perderemos a nossa essência/e a doença tomará conta de nós da cabeça aos pés/E a nossa descendência afastar-se-á de nós/cada vez mais, para todo o sempre". Depois de sermos feridos pela música de Meira Asher o Verão parecerá mais escuro e a realidade chorará. Meira Asher apresenta amanhã o seu ritual de exorcismo, em voz, electrónica e percussão, acompanhada por Daniel Baruch, em electrónica, e Jackie Shemesh, nos efeitos de luz. A seguir à actuação dos Istanbul Oriental Ensemble, marcada para as 22h30.
            Mas hoje ainda vai ser possível respirar e dançar. Com os Barrio Chino, de França, e Daniele Sepe, de Itália. Nos Barrio Chino, combinam-se as tradições ibérica, grega, italiana e árabe. Uma visão mediterrânica que se estende de Atenas a Barcelona, de Alexandria a Casablanca. Daniele Sepe é um cantor/autor que percorre o imaginário musical da região de Nápoles mas onde são envergadas outras máscaras, de Kurt Weill, do raga, do canto medieval, do tecno folk e do jazz. Não é de desdenhar o sentido de humor que levou Daniele a intititular a banda que o acompanha, Art Ensemble of Soccavo, repositório de heranças musicais napolitanas que o cantor descreve como "uma caixa de refugo musical".
            No sábado, além de Meira Asher, actuam os turcos Istanbul Oriental Ensemble, naquela que será a sua segunda visita a Portugal, depois de terem actuado no ano passado na Expo. Trata-se de uma das mais importantes formações de música árabe da actualidade, com a liderança do percussionista Burhan Öçal. Sons ciganos, com proveniência de Istambul e da Trácia dos séculos XVIII e XIX, soltam-se em arranjos e improvisações na construção da banda sonora de mil e uma noites passadas no ponto nevrálgico onde a Ásia e a Europa se encontram. A ouvir, como preparação para o concerto, os álbuns "Gypsy Rum" e "Sultan's Secret Door".
            Salamat, da Núbia, Egipto, e Esma Redzepova, da Macedónia, encerram no domingo o festival Sons/Festas do Mundo. O grupo Salamat conta na sua formação com um extraordinário percussionista, Mahmoud Fadl, autor de álbuns impossíveis de ignorar, como "Drummers of the Nile" e "Love Letters from King Tut-Ank-Amen". Através da união dos padrões melódicos tradicionais com os ritmos urbanos nascidos no Cairo, a música dos Salamat inscreve-se na mesma linha de Ali Hassan Kuban, constituindo ocasião soberana para os corpos se entregarem à hipnose da dança.
            A herança cigana regressa no espectáculo de fecho, com a cantora Esma Redzepova e o seu grupo, oriundos da Macedónia. Mesmo neste caso, apesar dos compassos se escreverem com contas mais complicadas, o apelo do ritmo não deixará de se fazer sentir.

19/10/2016

Mulher-insecto [Diamanda Galás]

Y 2|NOVEMBRO|2001
capa|música

Mulher-inseto

Diamanda Galás está de regresso a Portugal – dias 8 e 10, no Hard Club de Gaia e na Aula Magna de Lisboa. Traz consigo novas ameaças de perigo. O espetáculo, de genérico “Defixiones, Will and Testament”, fala do sofrimento e do exílio. A voz, um sopro venenoso, é a das almas torturadas. O “blues” da peste.

Já dizia o outro: “Não acredito nelas, mas que as há, há!”. As bruxas. A imaginação popular pinta-as de negro, com olheiras e verrugas, voando pelo céu montadas em vassouras, a invadir os nossos sonhos nas noites de lua nova. Diamanda Galás não corresponde exatamente ao estereotipo mas a sua música tem o mesmo efeito de um bruxedo.
            A cantora de ascendência grega ortodoxa que pela segunda vez nos visita (a primeira aconteceu há cinco anos no CCB, em Lisboa) traz consigo o medo e a dor, mas também um grito de alarme, num espetáculo de genérico “Defixiones, Will and Testament”.
            O tema é o exílio, do homem exilado de si mesmo. A falta de humanidade e a intolerância das culturas. O sofrimento e a redenção.
            Para o ilustrar, Galás socorreu-se de textos literários como “The Dance”, do poeta arménio Siamanto, “The Desert”, do poeta sírio Adónis, “Epistle to the Transients”, do peruano Cesar Vallejo, “Ain’t no Grave can Hold me down”, do americano Stuyvesant, “Todesfuge”, do romeno-judeu Paul Celan e escritos do poeta-mártir assírio Dr. Freidoun Bet-Oraham. “Defixiones, Will and Testament” utiliza ainda técnica musicais tradicionais como a “amanedhes” (estilo de improvisação da Ásia menor) e a rebetika grega e arménia, forma musical trazida pelos refugiados da Ásia menor na Grécia. Ainda a música dos artistas norte-americanos Ornette Coleman, John Lee Hooker e Blind Lemon Jefferson. O jazz. O “blues”. Sinónimos de libertação.
            Diamanda Galás habita em Nova Iorque, capital do império. Do Bem, para uns. Do Mal, para outros. Ela situa-se no olho do furacão e cultiva a ambiguidade. É a bruxa, a feiticeira que grita a revolução, a heresia e o ultraje. Se traz a cura ou, pelo contrário, propaga a doença, eis o buraco negro onde cada certeza se precipita no vazio.
            A bruxa é a manipuladora das forças da lua e do sangue. Dos fluidos da terra e dos seres vivos que a habitam. Ao contrário do mago, cuja vontade e domínio se exercem em primeiro lugar sobre o próprio pensamento, a bruxa age com as ondas do corpo e do sexo. Diamanda Galás personifica a condição feminina através de um dos seus arquétipos mais profundos, imagem invertida da tradicional virgem negra presente em várias religiões e cultos primitivos. Mas mais do que a guardiã dos segredos ela é a espada (e nesse aspeto, agente de uma polaridade masculina…) que rompe o hímen da falsa paz e da indiferença. Nela, a ilusão e a praga disseminam-se da mesma forma que o sexo é abolido. “Todos os grandes performers”, disse há anos Diamanda ao PÚBLICO, “têm de ser forçosamente travestis, no sentido de deixarem de ser homens ou mulheres para passarem a ser animais, répteis ou insetos”.
            É a mesma capacidade de transfiguração da bruxa tradicional, que tomava a forma de uma cobra ou de um morcego. Mas Diamanda Galás não é uma bruxa como as outras e por isso escolheu, diz, ser um inseto. Mulher-inseto. Vespa de mordedura venenosa.

            Em sangue. Se na sua primeira atuação ao vivo, em 1979, no Festival de Avignon, em França, executou “Un Jour commo un Autre”, do compositor Vinko Globokar (que Portugal viu integrado na formação de música contemporânea The New Phonic Art), obra baseada na documentação da Amnistia Internacional relativa à prisão e tortura das mulheres turcas, já a sua posterior evolução se direcionou no sentido de uma feminilidade que entra em contravenção e subverte alguns dos pilares do Catolicismo.
            Recorde-se, a este propósito, uma das suas míticas e mais provocatórias atuações, a 12 e 13 de Novembro de 1989, em plena Catedral de St. John, the Divine, no coração de Nova Iorque, onde cantou com o tronco nu coberto de sangue. O sangue de doentes com Sida que comparou ao sangue de Cristo, num simulacro de eucaristia, entre blasfémias como “Give me sodomy or give me death”.
            Catarse ou ritual de magia negra, esta performance que ficou registada em disco no duplo álbum ao vivo “Plague Mass” (1990), com dedicatória a todos os doentes seropositivos que “lutam para se manter vivos num ambiente hostil onde se lhes diz constantemente que vão morrer e se lhes oferece uma piedade revoltante e mentiras pacificadoras para os convencer a desistirem de lutar e a prepararem o próprio funeral”, foi a representação/exorcismo do medo ancestral da peste. Através de uma manipulação habilidosa e da transcrição literal de textos bíblicos, a peste com que Deus castigou os homens era, nos tempos modernos, a Sida, que acabara de vitimar o irmão e alguns dos seus amigos mais chegados. O sangue infetado. O castigo divino. A denúncia, mas também a ritualização dolorosa, num teatro mais do que cruel, do ostracismo a que ainda são votados os doentes da praga do século. O mal, sob as mais diversas formas e disfarces, foi e continua a ser o tópico central.
            Nessa ocasião que muitos viram como a violação do templo, Diamanda personificou no limite do sacrilégio, uma doença que é do corpo, mas também do espírito – uma doença civilizacional. Ou, se quisermos buscar alívio da visão do sangue, das chagas e dos uivos que nessa noite fizeram estremecer as colunas da catedral de St. John, era já o exílio de uma humanidade perdida que a cantora apontava – e encarnava – nesse batismo demoníaco pelo sangue. Do outro lado, a ambiguidade. Galás chegou a ponderar a hipótese de fazer uma regeneração total do seu sangue, através de transfusões, ainda que sem imitar a Condessa de Bathory, vampira lésbica que pretendia prolongar a juventude bebendo o sangue de raparigas virgens que ela própria seduzia e assassinava.

            Litanias de Satã. Religião. O Antigo Testamento, do Deus castigador. Os Evangelhos. De pernas para o ar ou não, são o ponto de chegada que, inevitavelmente, teriam que encontrar, como encontraram, correspondência em formas musicais como o “blues”, os espirituais e o “gospel”. Neste aspeto, e segundo uma aproximação estética ao universo de um Nick Cave, por exemplo (e foi esta a Diamanda que Lisboa assistiu no CCB), pode dizer-se que a música e a interpretação vocal da cantora se “suavizaram”, em álbuns como “The Singer” (1992), “The Sporting Life” (1994, com John Paul Jones, ex-Led Zeppelin), “Vena Cava” (1992) ou “Malediction and Prayer” (1998), contrastando com o grito primordial dos seus primeiros trabalhos, em que a literatura romântica mais alucinada (de autores simbolistas como Charles Baudelaire, Gérard de Nerval, Tristan Corbière ou Edgar Allan Poe), a revolta luciferina e a anarquia se entrelaçavam numa visão de ópio inominável (está presentemente a compor uma ópera, intitulada “Nekropolis”) que trazia à superfície os demónios de um quadro de Bosch. A Galás que evitámos olhar de frente, de “Litanies of Satan”. A portadora da peste (ela própria assim se assumia) da trilogia “Masque of the Red Death” (título de um conto de Poe sobre a peste), subdividida em “The Divine Punishment”, “Saint of the Pit” e “You must be Certain of the Devil”.
            Mas como se formou a personalidade desta bruxa dos tempos modernos que admite ter “um mau feitio congénito” mas que não se coibiu de escrever um manifesto em defesa dos Black Leather Beavers, associação de caráter humanitário de vigilantes de rua vocacionados para o combate aos violadores de mulheres? Acrescente-se que as técnicas utilizadas pelos Black Leather Beavers consistiam basicamente na castração dos violadores.
            Diamanda Galás tem Xinogalas como apelido paterno. Os pais, gregos ortodoxos, fazem parte da casta siciliana dos Manatis. Sicília da “vendetta” (“vingança”), que a cantora personifica como ninguém, e das carpideiras. “Chorar um ou dois dias é uma coisa. Chorar por contrato, 15 ou 20 dias, é outra, completamente diferente, um ritual extático que transcende a banal piedade dos americanos”, disse. Hoje, ainda em cima dos acontecimentos ocorridos em Nova Iorque a 11 de Setembro, tais palavras acabam por desvalorizar-se perante o luto americano que se adivinha prolongado.
            Hendrix, Maria Callas e Charlie Parker marcam-na a fogo. Começa a cantar na rua e a conviver com elementos radicais do “Living Theatre”. Mas consegue ser mais radical do que todos eles e acaba por ser expulsa, sendo aconselhada a cantar em institutos de doenças mentais. O seu canto, misto de uivo, vómito e sereia, ligava-se à “schrei-performance” (um dos seus álbuns, de 1996, tem por título “Schrei 27”) do teatro expressionista alemão que pretendia alargar as fronteiras da personalidade humana, síntese do homem, da Besta e da máquina. Sobre este assunto, tem uma teoria: “Os problemas surgiram quando as pessoas começaram a fazer separações arbitrárias entre os hemisférios esquerdo e direito do cérebro. A solução passa por ser capaz de articular as pequenas nuances malévolas da personalidade, mostrar a natureza humana para além do bem e do mal, de que falavam Nietzsche, Sade, Poe e Baudelaire, uma espécie de protoplasma contraditório, eminentemente esquizofrénico”.
            Satã, “o grande acusador” ou o “adversário”, na terminologia hebraica, torna-se o seu padrinho e nem a morte, que considera “insultuosa”, escapa às suas garras: “Quando o momento chegar, serei eu a tomar conta da situação. Quando os deuses decidirem levar-me, rir-me-ei na cara deles. Há-de haver uma seringa espetada no meu braço”.
            1989 e 1990 são os anos de todos os escândalos. A 10 de Dezembro de 1989 é presa por conduta desordeira, ao interromper uma missa celebrada na catedral de St. Patrick. Em Agosto do ano seguinte, o Governo italiano acusa-a de blasfémia contra a Igreja Católica, na sequência de uma apresentação de “Plague Mass” no Palácio dos Medici. Até que a 12 e 13 de Novembro desse ano, o diabo é finalmente convidado oficialmente a entrar em St. John, the Divine, a segunda maior catedral do mundo. A missa negra de sangue que transportava a praga para o interior do templo.
            Mas para o padre católico Conrado Balweg tratava-se apenas de uma missa de “libertação do jugo da opressão” celebrada por aquela que, numa das canções de “Saint of the Pit” (“O Santo do Túmulo” ou do “Abismo”), faz suas as palavras do poeta Baudelaire: “Sou o espelho onde se revê a própria fúria/A faca e a ferida revolvida/O carrasco e a vítima/O vampiro das minhas próprias veias/Pertenço à grande legião dos perdidos”.


…Mas que as há, há!...

“Não acredito nelas, mas que as há, há!. As bruxas. Manipuladoras das forças da lua e do sangue. Como Diamanda, assim também Kate Bush, Meira Asher ou Rosie McDowell. Ou Lydia Lunch, que atua hoje, pela primeira vez em Portugal. A artista americana, com quem falámos ao telefone, vem apresentar um espetáculo de “spoken word” no festival Faladura.
(artigo conjunto de FM e Raquel Pinheiro. A entrevista a Lydia Lunch é feita por RP)

gilli smyth
Foi e continua a ser Shakti Yoni, a feiticeira dos Gong. Shakti é, na doutrina budista, o fogo interior que deve ser canalizado dos chakras inferiores para os chakras superiores. Mas Gilli, à semelhança da troupe inteira de lunáticos que dá pelo nome de Gong, misturou as suas poções e pronunciou abracadabra na zona nebulosa em que a magia se confunde com a anedota. Quando em “Prostitute poem”, do álbum “Radio Gnome Invisible, Part 2: Angel’s Egg” (1973), encarna a prostituta cósmica e geme através do tempo e do espaço “I’m eating your brain, I’m eating your mind”, encaramos a ameaça como um convite, entre o sobressalto e o sorriso. Fundou mais tarde os Mother Gong onde a energia feminina Yin continua a fluir.

kate bush
A bruxa boa, próxima da imagem tradicional. Da voz aguda, já de si arrepiante, à faceta de dançarina erótico-naturalista e ao modo como quase sempre se fazia fotografar nos anos 80 (menos agora, que já vão aparecendo as rugas e está mais gordinha…) rodeada de plantas (a cornucópia de bestas noturnas de “Never for Ever”, os cães de “Hounds of Love”), ou corpos humanos (“The Red Shoes”), é a típica encarnação das forças e dos ciclos da Natureza. Em “Lionheart” metamorfoseou-se num leão e no clip da canção “Cloudbursting” vemo-la aliada a um mago-inventor de uma máquina de nuvens. Esta faceta de manipuladora tem correspondência na forma como lida com os sons, o que faz com que a sua música nunca tenha abandonado uma faceta experimental. Exemplo disso é a “suite” “The ninth wave”, a “nova onda” (de “Hounds of Love”), onde a magia se torna mais ativa do que nunca e se apresenta de forma explícita num dos andamentos desta peça, intitulado “Waking the witch”, acordando a bruxa. Imaginamo-la para sempre a cantar “Wuthering heights” no alto do monte dos vendavais.

cosey fanni tutti
Antes de fazer música com os Throbbing Gristle, Cosey Fanni Tutti (nome inspirado na ópera de Mozart, “Così Fan Tutti”) era atriz de filmes porno. Ou seja, da exposição dos mecanismos de exploração do corpo passou para a exposição dos mecanismos de exploração da mente. Na época da música industrial, final dos anos 70, os Throbbing Gristle foram peritos em agir sobre a área em que o sexual e o mental se interligam, ou seja, o erótico, que não é mais do que o sexual transformado em imagem mental. Cosey funcionava como ícone/polaridade porno do grupo. Faltava scannerizar e monitorizar tais imagens. Foi o que fizeram os Psychic TV, já nos anos 90, ao transformarem a mente num ecrã de televisão. Quanto a Cosey, formou com Chris Carter (outro ex-Throbbing Gristle) a dupla Chris & Cosey, vendeu a alma que não tinha ao projeto CTI (“Creative Technology Institute”) e enveredou pelos rituais mais rentáveis da tecno e do “trance”.

meira asher
A cantora israelita de cabeça rapada que já por duas vezes pôs os cabelos em pé ao público português, segue de perto os passos de Diamanda Galás. A sua voz também é uma sirene de horror que transporta os germes da destruição e da desgraça. Depois de um primeiro álbum, “Dissected”, amenizado pelas sonoridades humanistas da “world music”, no posterior “Spears into Hooks” Meira Asher abre a ferida e aumenta o grau de perigosidade num exorcismo dos fantasmas gerados pelo Holocausto. Com ou sem recurso aos textos bíblicos ou ao poema “Se questo é un huomo”, de Primo Levi. Num dos temas deste disco, “Weekend away break”, a câmara de horrores de Birkenau é reaberta e recordada como uma estância de férias. Para Meira Asher não há inocentes nem culpados, apenas a dependência mútua entre vítima e carrasco num eterno jogo de poder.

diana rogerson  rosie mcdowell  leslie winer
Poderiam pertencer à “WICCA”, irmandade “oficial” das bruxas de todo o mundo. Diana Rogerson (na foto), aka Crystal Belle, é o anjo exterminador dos Nurse With Wound, um dos múltiplos projetos do seu marido, Steven Stapleton, e a sua presença assombra álbuns como “Soliloquy for Lilith”, “The Sylvie and Babs Hi-Fi Companion” e “Alas the Madonna does not Function”. Rosie McDowell verteu a sua energia fêmea em seitas como Current 93, discípulos do mago negro Aleister Crowley, e Non, de Boyd Rice, satanista convicto. Leslie Winer, antiga secretária do escritor homossexual e ex-heroinómano William Burroughs, é a autora de um álbum de trip-hop com o título “Witch”.

18/10/2016

"Todos os esquemas estão feitos para manipular a criança" [Meira Asher]

CULTURA
SÁBADO, 20 JULHO 2002

‘Todos os esquemas estão feitos para manipular a criança’

ENTREVISTA COM MEIRA ASHER

“Daqui ninguém sai vivo” – este poderá ser o mote dos dois concertos que a cantora israelita Meira Asher dará em Portugal, na apresentação do novo álbum, “Infantry”. Confrontos marcados para hoje e para a próxima segunda-feira, em Tondela e Lisboa. Boa sorte.

Não mata mas mói. A música de Meira Asher é uma fogueira acesa. Um ferro em brasa aplicado sobre a pele. Uma ferida mal cicatrizada. A cantora israelita está de regresso a Portugal, depois de anteriores concertos no Porto e na Guarda, para apresentar o seu terceiro e novo álbum, “Infantry”, assinado em parceria com Guy Harries. Uma denúncia cruel, em regime de reportagem apocalíptica, das torturas infligidas sobre crianças, em várias partes do globo. Espetáculos marcados para hoje, em Tondela, no âmbito do Festival Tom de Festa, e na próxima segunda-feira (dia 22), na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa. Não vai ser fácil nem agradável de ouvir, nem isso é, de resto, o que lhe importa. Meira faz-nos sofrer. Meira Faz-nos pensar. Meira faz-nos sentir que vivemos num mundo de mentiras, horror e crueldade. E que já não é possível desviar os olhos e fingir que está tudo bem. A própria explicou ao PÚBLICO porquê.
            PÚBLICO – Que tipo de equipamento eletrónico usaram neste disco? Parece que buscaram vários “objetos relacionados com crianças” para serem usados como instrumentos musicais. Pode ser mais explícita?
            MEIRA ASHER – Usámos sintetizadores antigos, daqueles enormes, com cabos e uma quantidade de módulos. Não recorremos a “samples” mas, em contrapartida, socorremo-nos de “field recordings”, com vozes, ficheiros digitais e analógicos… A maior parte recolhidos em locais de crianças, como jardins de infância, pátios de recreio… Esses objetos que refere foram essencialmente brinquedos aos quais fizemos algumas adaptações. Mas também uma boneca médica das que se usam para ensinar a insuflar oxigénio em doentes, na qual introduzimos no seu interior um rádio-transístor. E lápis de colorir, inseridos em “interfaces” eletrónicos… Alguns destes artefactos serão usados nos espetáculos.
            Fez isso com um propósito estritamente estético ou também ético?
            Em cada performance tem que haver uma integridade absoluta. É difícil, no contexto da música eletrónica, em que muitas vezes se é escravo do manuseamento de um ou mais computadores. Tentamos construir algo que seja tão interessante para os olhos como para os ouvidos.
            Um lado visual que adquire ainda maior relevo no suporte vídeo que costuma utilizar nos concertos, não é verdade?
            Sim, usamos “live cameras” que filmam tudo o que se passa em palco, o conceito geral passa por pôr em contraste o “muito pequeno” e o “muito grande” [num dos “sites” dedicados à artista, refere-se ao “contraste entre os pontos de vista das crianças e dos adultos”]. A performance de “Infantry” que vamos apresentar em Portugal já vai na segunda versão, modificámos muita coisa, eliminámos o ecrã gigante, é um verdadeiro “work in progress”… Mas não filmamos as pessoas. Estamos mais interessados em transmitir informação do que em registar reações.
            Essas reações – por vezes extremistas – do público não a preocupam de todo?
            Sem dúvida que preocupam. A questão está em que esta música é aberta a todas as interpretações e pode haver pessoas que não estejam preparadas para a receber. Num concerto na Suíça, uma rapariga, estudante de psicologia, veio ter comigo para me confessar que não aguentou e teve que sair dali para fora, pois era tudo demasiado forte. Que se sentira “assombrada”. Não estava preocupada, embora o seu subconsciente tivesse recebido a mensagem. Era como se estivesse ali uma bomba à sua espera. Mas nem tudo pode ser diversão e entretenimento…
            Por que razão escolheu um tema tão incómodo como a tortura e o abuso infantil?
            Há muito tempo que andava a pensar em fazer alguma coisa com base nas crianças. Trabalho com crianças desde há muito, sinto-me ligado a elas. Hesitei em relação ao tópico a escolher mas, tendo em conta o nosso “background”, a situação militar em Israel, acabou por ser natural falar das crianças-soldados. Embora a idade de recrutamento seja de 19 anos, as crianças começam a preparar-se para a guerra a partir dos 4, 5 anos. Este disco não fala apenas da manipulação infantil, mas também da manipulação em geral. Todo o ser humano foi manipulado em criança, pelos pais, pelos professores, pelos amigos. Todos os esquemas sociais estão feitos para manipular a criança. Não se trata de fazer julgamentos, mas de mostrar como esta manipulação surge logo dentro do lar. E prossegue assim, ao longo da adolescência, através da pressão dos grupos de amigos, e da idade adulta, através da manipulação dos “media”, da política, etc. Se calhar, é um comportamento natural…
            Um tema tão curto como “The School” pode ser difícil de suportar…
            Tem por base uma história verdadeira. É sobre matar-se pessoas palestinianas no seu próprio território, neste caso uma criança…
            “Torture A-B-C” parece tirada de um manual escolar…
            Sim, existem muitas e diferentes formas de tortura que foram cometidas sobre as crianças nos últimos anos. Foram recitadas por ordem… da mesma forma que as crianças são obrigadas a aprender o A-B-C das suas partes do corpo, por exemplo…
            “The box” é outro tema assustador. Uma caixa de pandora de horrores…
            São três espécies de caixas que se vão abrindo, cada uma revelando um pequeno diabo, sobre as relações entre os adultos e as crianças, tendo como cenário um jardim de infância.
            Alguém disse uma vez que “a arte não deve ser um espelho, mas um amrtelo”. Concorda?
            Pode ser tantas coisas… Sim… pode ser facilmente um martelo, especialmente para mim (risos). O mais importante é ajudar as pessoas a abrirem as suas mentes.


Dois adultos interessados pelos som

Meira Asher nasceu em Tel Aviv, Israel, e reside na Holanda. Estudou percussão, técnicas de voz e artes interdisciplinares na Índia, Jerusalém, Gana e Califórnia, onde se graduou. Prepara atualmente o seu doutoramento no Instituto de Sonologia, em Haia. “Infantry” é o seu terceiro álbum de originais, depois de “Dissected” e “Spears into Hooks”, este último incluído na lista dos “melhores do ano” de 2000, do PÚBLICO. Guy Harries é um compositor/performer residente na Holanda, também a estudar Sonologia e Composição, no Conservatório de Haia. Flautista e vocalista do grupo Sonicartoons, investiga atualmente as possibilidades de transformação eletrónica da voz humana.


Meira Asher & Guy Harries
TONDELA Cine Tejá do Novo Ciclo
ACERT. Tel.: 232814400.
Hoje, às 22h. Bilhetes a 5 e 7,50 euros.
LISBOA Galeria Zé dos Bois.
Tel.: 213430205. 2ª, 22, às 22h.
Bilhetes a 10 euros.

14/03/2016

Meira Asher & Guy Harries - Infantry

Y 17|MAIO|2002
roteiro|discos

MEIRA ASHER & GUY HARRIES
Infantry
Sub Rosa, distri. Ananana
10|10 
meira asher abominação

Por mais que se tente assobiar e olhar para o lado, Meira Asher não deixa. A cantora/performer israelita é uma chaga de pus cravada na alma, uma ferida que não sara, uma voz e uma música incómodas a avisar-nos de que o mundo não é um lugar saudável para se viver. Depois de “Dissected” e “Spears into Hooks”, “Infantry” carrega de novo na tecla do horror. O aviso vem carimbado na capa: “‘Infantry’ is about child manipulation and child soldiers”. Com base em relatos de crianças-soldados de Burma, Israel, Libéria, Líbano, Filipinas e Uganda. Não vale a pena citá-los. A dor é real e Meira faz questão de não omitir os pormenores mais sórdidos nesta exposição cruel da miséria da condição humana. Tortura física e psicológica, palavras e corpos estropiados, o pesadelo. “Infantry” é o disco de confronto, olhos nos olhos, com a realidade mais abominável. Se a arte, como alguém disse, não deve ser um espelho mas um martelo, “Infantry” faz de nós bigornas. Sai-se da audição num farrapo, a querer fugir, a querer iludir a questão e fingir que se trata apenas de “música pop”. Mas não é possível. Daqui ninguém sai ileso.
            Se “Dissected” manipulava o ideário religioso segundo uma apropriação clínica da “world music” e “Spears into Hooks” vomitava excrescências digitais congeladas na música industrial, “Infantry” é o “close up”, a imagem ensanguentada do que não queremos ver. Meira Asher não canta, declama relatórios, com a voz incendiada pela raiva e a impotência, sobre a malha eletrónica tecida pelas programações, igualmente desprovidas de humanidade, de Guy Harries. “Airplane quiz” atira-nos para o meio do combate e para o interior de um “cockpit”, apertando-nos contra o corpo de um piloto que é a morte. Teste de simulação ou dilúvio nucelar, “Airplana quiz” dispara rajadas de metralhadora enquanto as bombas explodem no solo e os gritos aumentam de intensidade. É preciso desligar a aparelhagem, detonar o avião, destruir o leitor de CD quanto antes, a bem da sanidade mental. E de súbito, como um raio de gelo, no tema seguinte, “The school”, a cacofonia é interrompida por uma recrudescência “easy listening”. Ouvem-se pássaros a chilrear, amenizando o azul do céu de um dia sem história. Uma criança, Marwan, atravessa a rua, a caminho da escola. “Bye mummy, bye daddy, it is so nice and quiet on the street in the morning”, pensa Marwan para si própria “quando uma bala atravessa a sua cabeça”. Dura poucos segundos. Fere como uma eternidade passada no inferno. Reata-se a carnificina, os gemidos e as programações sem piedade. “Abduction” e “Torture A-B-C” descrevem em detalhe a besta chamada “ser humano” a torturar as suas vítimas, é preciso passar adiante, em busca de alívio, uma pausa, um silêncio, mas o que vem a seguir é pior: “Childsoldier list”, espaço fechado, a ausência, olhos glaucos, incapazes já de apontar o dedo ao carrasco. E “Box”, um dos temas mais assustadores de “Infantry”, um pátio de recreio camuflado, a cena do crime onde algozes disformes atravessam este lugar de infância disparando ao acaso, matando, rasgando o espírito e a carne com as suas mandíbulas, espalhando o caos e a morte, amontoando cadáveres. Melodias infantis são serradas e cortadas ao meio. Professores berram, pais tresloucados alucinam, podridão, ódio. “Clic” na cabeça: tudo se confunde – ruídos, explosões, vozes – e gira como um pião. Stop.

            “Infantry” é algo mais do que um simples disco mas talvez seja preferível não dar nome a este “algo mais”. Que a “classificação” que atribuímos a este disco, mais do que qualquer valorização de ordem estética, possa servir como outra forma de alerta.

31/12/2014

A morte em direto [Meira Asher]

MÚSICAS

MEIRA ASHER APRESENTA-SE NO SÁBADO, ÀS 21H30, NO FESTIVAL “Ó DA GUARDA”

A MORTE EM DIRETO

MUTILAÇÕES, HORROR, INCESTO, MASTURBAÇÃO, O HOLOCAUSTO NAZI TRANSFORMADO EM MUSIC-HALL. A FEIRA DA MORTE, AO VIVO E EM DIRETO. MEIRA ASHER, A DIVA DO INFERNO, APRESENTA-SE PELA SEGUNDA VEZ EM PORTUGAL, NO FESTIVAL “Ó DA GUARDA”. NO FINAL FAR-SE-Á A CONTAGEM DOS SOBREVIVENTES.

CITAÇÃO 1: “Durante muito tempo toquei nos seios e na vagina. Fiquei dominada pela emoção. Senti-me envergonhada. A descoberta do meu corpo passava por esse encontro das minhas mãos com a vagina”.
            Citação 2, de Job, 2:4-5: “Satanás retorquiu ao Senhor: Um homem é capaz de dar tudo o que tem, até a sua própria pele, para salvar a sua vida. Mas experimenta levantar a Tua mão contra ele, faz com ele sofra e verás se ele não te amaldiçoa, mesmo na Tua frente”.
            Citação 3. “Faz parte da nossa natureza, acumular mais e mais poder, até nos tornarmos no vencedor absoluto”.
            O PÚBLICO entrevistou duas vezes a cantora israelita Meira Asher (Fevereiro de 1997 e Junho de 1999, esta última por ocasião da sua primeira atuação ao vivo em Portugal, no Festival Ritmos do Mundo, no Porto) e de ambas ficou com os cabelos em pé.
            Através destas três citações é possível vislumbrar o percurso desta artista que faz do mal o seu campo de trabalho: da vergonha para a revolta e desta para a assunção do poder. Mas se tais palavras são reveladoras de uma deambulação física e psicológica pelo horror e pelo sofrimento que a obra musical mal consegue exorcizar, ao mesmo tempo que indiciam um perturbante paralelismo com a evolução do nazismo (é ainda Meira Asher quem afirma que o “torturado tende a transformar-se no torturador”), a música desta israelita marcada pela memória do holocausto vai ainda mais além.
            Meira Asher, como Diamanda Galas, é uma diva do inferno. Nela a Bíblia – que usou como arma apocalíptica nos seus dois álbuns editados até ao momento, “Dissected”, de 1997, e “Spears into Hooks”, do ano passado – transmuta-se num livro negro de pragas. Como Diamanda Galas, a israelita profetiza a morte e o caos, revolvendo-se na abordagem de temáticas como a sida, a masturbação feminina e o incesto. Mas enquanto Galas encarcera a ópera, os “blues” e o “gospel” no quarto de lua do Romantismo, Meira usa maquinaria eletrónica pesada, desfaz-se na podridão e clama que o Apocalipse é agora.
            De “Dissected”, dissecação da masturbação, da tortura, da mutilação, da auto-castração e dos horrores da Intifada, representava ainda a falsa segurança de uma inovação que traía a essência da música étnica, ao automatizá-la na hipnose da tecno, “Spears into Hooks” é a carnificina, o caos, o êxtase da morte.
            “Spears into Hooks” faz o relatório detalhado do mal. Nele a cantora socorre-se de samples com gravações de mulheres e crianças atingidas por projéteis, acompanhados pela descrição dos seus efeitos e das várias gradações da dor sentida pelas vítimas. Mas é num tema como “Weekend away break” que a noite se abate.
            “Weekend away break” aponta os holofotes ao campo de concentração de Birkenau descrevendo-o como um campo de férias. Sobre uma valsa de Strauss e uma canção de Marlene Dietrich, o horror esmaga e toda a esperança na humanidade se esvai. “Birkenau e as suas florestas divinais, abrigo de espécies em extinção/De manhã é possível observar pessoas apanhando morangos/Outra atração: elas não suportam o seu cheiro a decadência”. Postal de “boas-vindas a um lugar criado num momento de inspiração”. O assassínio científico em massa como uma das belas-artes. “Acordarás ao som das sirenes para outro dia passado no bar/E vais esquecer-te do pequeno-almoço porque irás experimentar os nossos pequenos jogos/E se não te apetecer jogá-los, bem, o que é que te podemos dizer mais?/Oferecemos-te, como opção, a sauna/Basta inalares e serás transportado para o paraíso”.
            Por fim, a própria memória morre, numa adaptação de “Se Questo é un Uomo”, de Primo Levi. Sobre rajadas de metralhadora, explosões, silvos de gás e vidro estilhaçado uma mulher grita suplicando pelo esquecimento: “Lembramo-nos de tudo o que aconteceu/Mas agora é como se nunca tivesse existido/Não gravaremos nada nos nossos corações/Quando chegarmos a casa e já estivermos longe/Quando pudermos finalmente descansar e nos erguermos de novo/Não imprimiremos nada do que vivemos aos nossos filhos/Deste modo perderemos a nossa essência/E a doença tomará conta de nós da cabeça aos pés/E a nossa descendência afastar-se-á de nós/Cada vez mais – para todo o sempre”.
            No vórtice do desespero, torturado e torturador unidos numa só pessoa, é a vez do poder libertar a energia de Tanatos. Meira grita: “Morram! Morram! Morram!” O tema do espetáculo que a israelita (voz, sampler, percussão e objetos) apresentará na Guarda – acompanhada por Guy Harris (voz, computadores, flautas e objetos), Riccardo Massari (voz, gira-discos, acordeão e objetos) e Jackie Shemesh (luz) – é, sem disfarces, a morte. No Porto, houve quem não aguentasse e fugisse. Para a Guarda, convirá levar defesas.

MEIRA ASHER
Guarda, Pavilhão de adubos para todas as culturas do Barracão, sáb., 21h30.
Bilhetes: 1000$00
Entrada permanente para todos os dias do festival: 1500$00


ARTES | sexta-feira, 29 setembro 2000

15/01/2011

"Vamos lá purificar o mundo" [Meira Asher]

Sons

2 de Julho 1999

Entrevista com Meira Asher

“Vamos lá purificar o mundo”

Com “Spears into Hooks”, editado no princípio deste ano, Meira Asher pretendeu “espelhar os traumas e a violência do mundo, para que as pessoas compreendam o que se passa”. Depois de um apocalíptico concerto no Porto, o PÚBLICO falou, por sua conta e risco, com esta israelita que gosta de provocar os fanáticos e para quem o torturado se transforma, inevitavelmente, no torturador. Purificação pelo dilúvio.

A intensidade do discurso de Meira Asher tem a mesma força e o mesmo carácter de desafio que estão presentes nos seus discos e, de forma ainda mais radical, como o Porto teve oportunidade de testemunhar, nos espectáculos ao vivo. A “world music” deixou de ser uma coisa inofensiva, quando a israelita entrou em cena.
PÚBLICO – No concerto do fim-de-semana passado no Porto, parte da assistência não conseguiu suportar a violência da sua música. Costuma acontecer isso com frequência?
MEIRA ASHER – Talvez não estivessem suficientemente preparados. Mas os que ficaram ouviram com atenção. Já me aconteceu tocar em recintos absolutamente vazios, em que as pessoas rejeitaram em absoluto a minha música. No Porto houve emoções desencontradas, de choque e excitação. Em todos os meus concertos há sempre gente que sai. Se isso não acontecesse é que ficaria preocupada.
P. – O que aconteceu entre “Dissected” e “Spears into Hooks”? Não há comparação possível entre estes dois trabalhos…
R. – “Dissected” representou o culminar de dez anos em que estive envolvida no estudo da música clássica do Norte da Índia e das percussões africanas. Usei processos de composição através dos quais procurei formas diferentes de expressão para a língua hebraica. “Spears into Hooks” é um álbum conceptual. Nunca me considerei integrada na música étnica. Não se trata de uma influência, mas de uma vivência. Foi isso que fiz quando estudei música indiana. Durante sete ou oito anos dediquei-me exclusivamente a cantar no estilo “dhrupad”.
P. – Ao contrário de “Dissected”, em que os elementos acústicos eram preponderantes, “Spears into Hooks” é um disco que, em termos formais, se pode conotar com a música electrónica industrial.
R. – Deixei Israel há dois anos para ir viver no Ocidente, onde me familiarizei, de forma natural, com a electrónica. Decidi explorar a problemática das relações entre a Palestina e Israel através deste meio, o que me permitiu atingir o nível de intensidade e de ruído que procurava.
P. – Por que razão gravou “Spears into Hooks” em Ljubljana, na Eslovénia, a cidade sede dos Laibach?
R. – Conheço e aprecio bastante os Laibach. Fizeram um trabalho importante, de grande discernimento político e social. Abriram as mentes das pessoas. São artistas completos. Escolhi esta cidade por outras razões, encontrei lá métodos de trabalho que me agradaram. Depois de um curto período em que vivi em Londres, regressei a Israel já com os textos do álbum prontos. Trabalhei nessa altura com um inglês, Jeremy Azies, músico e etnomusicologista, especialista na música funerária dos Camarões. Os temas “Tiring night” e “Weekend away break”, por exemplo, foram escritos em conjunto pelos dois. Londres não me inspirou. É uma cidade demasiado virada para a moda e para as últimas tendências. Já tinha alguns conhecimentos na Eslovénia e estabeleci os meus contactos, sobretudo através de Aldo, um dos músicos do grupo Borghesia, que acabou por funcionar, um pouco, como produtor executivo na Eslovénia. Encontrei na Eslovénia a energia certa para gravar. Além disso, é um lugar com raízes balcânicas, que são também, em particular, as minhas, uma vez que o meu pai é búlgaro e os meus avós maternos são russos, mais exactamente da Letónia.
P. – “Spears into Hooks” pode ser encarado como a “música do mundo” contemporâneo?
R. – A “world music” não pode ser aquilo que a indústria quer que ela seja. “World music” pode ser facilmente aquilo que faço, embora pareça não se adaptar ao termo. A escolha da minha música para a programação do festival do Porto foi muito inteligente, já que ela reflecte a realidade actual do Médio Oriente. Há quem se contente em fazer canções com base no verso e no refrão. Eu não. Se alguém espeta uma faca no estômago de outra pessoa, eu quero que se ouça o som das tripas a sangrar.
P. – Disse que duas das doenças que afectam o indivíduo neste final do século XX são a cobardia e a apatia. São os seus principais inimigos?
R. – Sim. Quando se passa sucessivamente por várias guerras, e por toda a espécie de violência, como acontece no Líbano, por exemplo, ao fim de 32 anos de ocupação, acaba por se desenvolver a apatia. E por crescer uma “pele de elefante”, como eu costumo dizer. Uma armadura de apatia que faz da pessoa um cobarde. Deixa-se de querer mostrar os ferimentos, de falar sobre o assunto. De encarar de frente o problema.
P. – Em que é que o mundo se está a tornar?
R. – Caminha para a globalização, sem dúvida, no sentido do conforto económico. Funciona sobre o princípio simples da acumulação de poder. Gira tudo em torno do poder e não se pode fazer nada contra isso. Faz parte da nossa natureza, acumular mais e mais poder até nos tornarmos o vencedor absoluto.
P. – “Spears into Hooks” reflecte experiências pessoais, sem dúvida, mas que também vão buscar material à memória colectiva…
R. – Sim, acredito que uma parte da História da Europa – de há 50 anos atrás – se transferiu para o Médio Oriente, para um pequeno local chamado Israel. Foi uma das consequências do Holocausto. Daí o paralelo que estabeleço entre o holocausto nazi e o holocausto palestiniano. Quem sofreu torturas e vagueia por aí cheio de traumas, provocados pelo Holocausto, pode tornar-se facilmente o torturador. Como uma criança maltratada pelos pais que, em adulta, se torna o pai que maltrata os filhos. É um desenvolvimento natural. Ou um contradesenvolvimento… “Spears into Hooks” espalha amor de uma maneira negativa. Pretende espelhar os traumas e a violência para que as pessoas compreendam o que se passa.
P. – No seu espectáculo, a frase “Birkenau, aqui e agora” repete-se de forma obsessiva, como um sinal de alarme.
R. – Sim, tudo continua, independentemente do nome do campo de concentração. Os princípios permanecem os mesmos.
P. – Tem alguma explicação para os horrores que aconteceram na II Guerra Mundial?
R. – Não se pode racionalizar. Foi uma espécie de… é difícil explicar por palavras… como se as coisas se juntassem todas num determinado sentido para dar origem a um acontecimento anormal. O mais importante foi o que aconteceu depois, os desenvolvimentos que deram origem às transformações da nação alemã e, por consequência, da Europa e do Médio Oriente.
P. – É uma pessoa religiosa?
R. – Não, de maneira nenhuma.
P. – Não acredita em nada?
R. – Acredito no poder que nos faz viver e agir. Acredito que existe uma energia que nos conduz. Acredito na intuição. E nas pessoas. O que tento dizer e partilhar com as pessoas é algo muito simples: “O que é que pode desenvolver-se a partir de uma realidade violenta?” e “Estamos, de facto, prontos, para trazer mais crianças a um mundo dominado pela violência?”. Somos suficientemente responsáveis? É justo?
P. – Um dos temas mais fortes de “Spears into Hooks” é “The flood”, o dilúvio. O Apocalipse está próximo?
R. – É a história clássica da Bíblia, um grande livro de poesia. A versão em inglês soa de forma completamente diferente do original em hebraico. Gosto de provocar os fanáticos. Em “The flood” – que, segundo a Cabala, se assemelha muito ao Holocausto, razão por que pus o tema sobre Birkenau logo a seguir –, escolhi aquela parte em que Deus diz a Noé: “’Ok, man’, prepara-te!” [Risos.] Vamos lá purificar o mundo um bocadinho.