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14/05/2026

A música suspensa do corpo [Maria João]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 2 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Maria João apresenta “convidadas” em Lisboa

 

A música suspensa do corpo

 

A cantora Maria João atua hoje à noite no Teatro S. Luiz em Lisboa. Com a presença de “convidadas” ligadas a outras áreas musicais: Lena D’Água, Teresa Salgueiro (Madredeus), Anabela Duarte (ex-Mler Ife Dada) e Xana (Rádio Macau). Adivinham-se surpresas. Maria João prefere guardar segredo.

 


 

Em princípio, tudo pode acontecer. Acompanhada pelos habituais Mário Laginha, piano, Carlos Bica, contrabaixo, José Peixoto, guitarra e José Salgueiro, bateria, Maria João, uma vez mais, preferiu o prazer inesperado, o confronto com a novidade – “a ideia é justamente pegar em pessoas que não fazem o mesmo que eu, construir qualquer coisa com elas e ver a que é que soa. Isto é que é divertido e estimulante”. “Uma ideia deliciosa” – nas suas próprias palavras.

Quem quiser pormenores, o melhor que tem a fazer é deslocar-se logo às 22h00, ao Teatro S. Luiz, e ouvir para crer. Que vai acontecer qualquer coisa diferente, é garantido, mas o quê? “Isso é surpresa” – a cantora fecha-se em copas e apenas adianta que “como de costume, vai haver lugar para a improvisação”. Trata-se, para Maria João, de uma necessidade vital de movimento, de constante mudança: “Seria extremamente aborrecido se fosse uma coisa fixa. Gosto muito de mudar as coisas. Até ao último minuto.”

A solo, sabe-se que cantará temas do seu mais recente álbum, “Sol”, gravado na Alemanha com o selo Enja e os mesmos músicos do espetáculo de hoje à noite. Além de “outras pequenas coisas que não estão lá, e as convidadas, claro”. Claro. Logo à noite se verá qual o segredo que permite juntar, no mesmo palco, a pureza ascética de Teresa Salgueiro, o jovial cançonetismo de Lena d’Água, a excentricidade de Anabela Duarte e a energia rock de Xana, com o discurso libertário de Maria João

 

Entrega total

 

A ideia de recrutar outras cantoras, aquelas de que “mais gosta”, surgiu a partir de um projeto que desde há algum tempo vem mantendo no estrangeiro, um trio vocal feminino do qual fazem parte ela e duas americanas, a experimentalista Lauren Newton e a cantora de ópera, residente da Filarmónica de Berlim, Catherine Geyer. Refira-se a propósito que Maria João ainda tem tempo para se integrar num quarteto “com um programa especial”, ao lado de Mário Laginha, a já citada Lauren Newton e o guitarrista alemão Thomas Hortsmann. Já para não falar das aventuras em duo com a pianista japonesa Aki Takase, das quais resultaram o magnífico “Looking for Love”, e em trio, com Takase e o contrabaixista dinamarquês Niels-Henning Ørsted Pedersen, no álbum “Alice”.

Seja qual for o contexto, o que mais impressiona nesta cantora que, de uma maneira quase sôfrega, não para de evoluir, é a paixão com que se entrega de corpo inteiro à música, numa relação que tem muito de sexual. Tinham razão John Coltrane e John McLaughlin quando defendiam que fazer música é deixar-se possuir e tocar por ela e que ao intérprete se exija que seja o seu instrumento afinado. Afinação que exige uma total transparência e a máxima tensão/atenção. Fazer música é saber ouvir a voz que vem de dentro, o movimento cósmico que em cada indivíduo se manifesta e traduz numa forma particular. No caso de Maria João essa capacidade passa pela dimensão física, pela sensualidade dos gestos, pelo desnudar interior. Seria isto o jazz se “isto” não fosse mais qualquer coisa.


Jazz ou algo mais?

 

Eis-nos chegados ao pomo da discórdia, para os que estão do lado de fora. Maria João é uma cantora de jazz ou não é uma cantora de jazz? Ela não se importa nada com isso, desde que as pessoas a ouçam e gostem do que ouvem. O termo “jazz”, há quem o jure a pés juntos, é uma derivação fonética do verbo francês “jaser” – “tagarelar, conversar animadamente e um pouco à toa sobre diversos assuntos”, segundo a “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras), que era a que estava mais à mão.

À primeira vista poderá parecer ao auditor médio português, habituado a ouvir Phil Collins e Madonna, que Maria João canta “à toa”, isto é, “como uma maluca” a vociferar “coisas sem sentido”, frequentemente “sem letra”, em suma, “esquisitas”. Mesmo quando essas “coisas” são um tema de música tradicional portuguesa ou um “standard” de Billie Holiday. É neste sentido que Maria João pode ser comparada, na atitude e na maneira como vive e dramatiza a vibração musical, a Bobby McFerrin. Em ambos existe o amor pela liberdade e uma fé. Ou a consciência, no caso feminino quase táctil, de um ato mágico que só o verdadeiro músico vive e compreende, no qual a ordem dos sons, a Harmonia, como que se organiza por si própria, cabendo ao Intérprete, com “I” grande, centrar-se, coincidir, dizer e dizer-se, dançar e dançar-se, e às vezes consumir-se, nesse fogo que dizemos vir de “cima”, ou de “dentro”, quando queremos significar a transcendência.

Diz-se por outro lado, muito por força do hábito, que o jazz é “música de negros”. A “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” (ilustrada com cerca de 15 mil gravuras) faz mesmo questão de acentuar a “natural disposição dos negros para a arte musical”. É verdade. Em Maria João corre, do lado materno, sangue africano. É o polo energético complementar: a natural apetência pelo ritmo, a assunção das forças da terra que sobem dos pés até ao cérebro e os põem a dançar. É ainda a sensualidade e, se levada ao extremo, a dor, alegria insana dessa entrega. E no limite do humano, a loucura.

Talvez por isso Maria João (como Meredith Monk ou Shelley Hirsch) saiba a exigência do método (o “haikido” – não, não é porrada – que praticou, ajuda muito), da justa medida, a necessidade de equidistância entre o oceano e o raio. Decerto que sabe.


31/10/2025

A arte e a sida [Gala dos Artistas contra a Sida]

 PÚBLICO DOMINGO, 3 FEVEREIRO 1991 >> Cultura

 

Gala dos Artistas contra o mal do século, no Coliseu de Lisboa

 

A arte e a sida

 

Realizada sexta à noite no Coliseu dos Recreios, a Gala dos Artistas contra a Sida alcançou plenamente o seu objetivo – ajudar a combater uma das pragas do século, a sida. Organização perfeita, boa música e um público participativo contribuíram para que assim fosse. Sabe bem, quando a Arte se confunde com a Vida.

 

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Casa cheia. Público diversificado. O programa apelava ao gosto de diversas camadas culturais e etárias. Sem distinções. Havia uma razão comum que a todos ligava – a vontade de lutar contra um flagelo que a todos diz respeito. Música e palavras transmitiram a mensagem que importava: tentar a todo o custo vencer o mal, o medo e a incompreensão. Não se tratou propriamente de uma festa – nada havia para festejar –, mas tudo foi feito com alegria.

Meia hora depois do programado (única falha sensível de uma organização impecável), atuou a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal, com um reportório “mainstream” adequado às circunstâncias. Atuação calorosa que recolheu os primeiros aplausos da noite.

Quando Herman José subiu ao palco, como apresentador do espetáculo, foi o delírio. Esperava-se a habitual torrente de piadas, o humor delirante, a irreverência. Herman compreendeu que a ocasião não se prestava a excessos, optando por um registo mais discreto. Brincou quando devia brincar. Foi sério quando a gravidade do tema o justificava. Só não resistiu quando, a propósito de alguns estampidos na amplificação sonora, afirmou tratar-se de uma pequena homenagem aos mísseis “Patriot”. De resto, ao longo das quase três horas que durou a Gala, conseguiu evitar momentos mortos.

Dona Amália Rodrigues desta vez não cantou. “Sou uma pessoa muito atrapalhada” – começou por dizer. Não é nada, D. Amália. Disse o que sentia, com o coração, como costuma fazer sempre. Por isso a amamos. Por isso não tem nunca que se sentir atrapalhada. Apresentou a sua amiga Line Renaud, presidente da “Associação dos Artistas Franceses contra a SIDA” que, na ocasião, dissertou sobre o combate à doença. Seguiu-se um caudal de boa música. Primeiro, o dueto pianístico de Pedro Burmester e Mário Laginha, fluido como um rio, aliando a intensidade emocional do Romantismo a estruturas rítmicas próximas do Minimalismo.

 

O corpo e a voz

 

Maria de Medeiros surgiu para ler, tímida e belíssima, um texto de José Saramago. Menos tímido, bastante menos, era o mini-vestido negro que envergava. Depois, o terramoto. A Arte Absoluta. Na voz, na Alma, no corpo, em tudo, de Maria João. A cantora portuguesa, que vive no estrangeiro (somos um país mimoso e pequenino que não consegue suportar aquilo que é grande), encheu o recinto com a sua voz e uma presença avassaladora. Quando canta Maria João vive, no sentido literal do verbo, a liberdade total. Acompanhada por Bernardo Sassetti ao piano e Carlos Bica no contrabaixo, cantou um tema tradicional português. Depois, tudo – o gemido, o ritmo da respiração, os graves másculos subindo em vertigem até à ternura de uma mulher no Céu, os jogos, a intuição fulgurante, as piscadelas de olho a Meredith Monk e Billie Holiday, os Blues, o Amor, o Corpo. Nas costas e ombros desnudos, muito brancos, luminosos, contrastando com o negrume das vestes. Erotismo em que a carne e a alma se confundem e são a própria essência da mulher. Na fila de trás, uma senhora queixava-se porque não conseguia perceber bem as palavras...

Lena d’Água, logo a seguir no alinhamento do espetáculo, tinha de ressentir-se da comparação. Mesmo assim, foi de certo modo surpreendente a forma como a intérprete soube puxar as pessoas das alturas superiores onde ainda flutuavam, atraindo-as para os terrenos onde se sente mais à vontade. Cantou, acompanhada ao piano por Pedro Osório, duas canções, ambas tristes: “Não é fácil o amor”, de Janita Salomé e “Chanson Triste” composta por Henry/Marie LeJeune, no século passado. Masculino/Feminino a jogar às escondidas.

Olga Pratts trouxe para o Coliseu o dramatismo da música de Astor Piazolla, sensual e dolorida, obrigando a repensar o termo “tango”, fechando com chave de ouro a primeira parte da Gala.

 

Perdidamente

 

O maestro José Rodrigues dirigiu de forma exuberante o coro açoriano Eduardo Machado de Oliveira que acompanhou os solistas Teresa Salgueiro (Madredeus), Pedro Mosquitela e Theresa Maiuko (única dama de branco), esta cantando a solo logo de seguida. Depois contaram-se armas, que é como quem diz, preservativos, com Herman José contando a história daquele senhor já de idade mas prevenido que comprou a coleção inteira, para depois se referir com ternura “a todas as pessoas que amamos e, porque não dizê-lo, que comemos”.

Paulo de Carvalho cantou sozinho uma canção, dando lugar à voz e guitarra de Sérgio Godinho, outro dos momentos altos do espetáculo. “Alice no País dos Matraquilhos”, “Lisboa que Amanhece”, histórias nostálgicas das misérias quotidianas do nosso desencanto. Disse que “A Vida é a Grande Desforra do Corpo” vingando-se “de tudo aquilo que o quer matar”.

Palavras em que todos acreditaram antes de o Coliseu explodir com o rock dos GNR e dos Trovante. Os primeiros provocatórios como sempre, com “Dunas”, “Morte ao Sol” e “Vídeo Maria”, os segundos interpretando “Que Assim Seja”, “Peter’s” e “125 Azul”. Finalmente a despedida apoteótica, com Lena d’Água, Teresa Maiuko, Paulo de Carvalho e Sérgio Godinho juntando-se a Luís Represas e restantes Trovante para cantar “Perdidamente” as palavras de Forbela Espanca. Enquanto o público ia abandonando a sala, alguns adolescentes pulavam ainda de contentamento. Para eles não há vírus capaz de vencer a alegria.

 

 

 

 

23/10/2016

João e Rão nos anos 80 [Maria João + Rão Kyao]

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 5 OUTUBRO 2002

João e Rão nos anos 80

É provável que, passados 20 anos, os autores sintam um certo constrangimento em ouvir so seus trabalhos da juventude. Não que a música de Maria João e de Rão Kyao agora tirada sem mais nem menos da prateleira, seja motivo de vergonha, mas porque o que aqui é dado a ouvir pouco terá a ver com os interesses e práticas musicais atuais de ambos. O “Quinteto de Maria João” (1983), álbum de standards e dois originais, apresenta um trunfo forte: o som, remasterizado, é fabuloso, trazendo o baixo elétrico de António Ferro para a linha da frente. Carlos Martins demonstra espantosa jovialidade, no sax tenor e no clarinete (deliciosas, a sua intervenção, muito New Orleans, em “Bill Bailey won’t you please come home”, e a frescura bopper de “Lover come back to me”), e Mário Laginha é de um rigor a toda a prova no piano. Já em Maria João é notório que o entusiasmo se sobrepunha nessa época à invenção, desculpando-se-lhe ligeiros problemas técnicos, como a falta de fôlego final no citado “Bill Bailey”. O “scat” aventureiro (aqui apenas aflorado num tema de Charlie Parker) estava para vir, mas vale a pena ouvi-la, plena de erotismo, em “Stormy Weather”, de leveza, em “Blue moon”, e de classe, em “Comes love”.
                Dos anos 80 de Rão Kyao, viram a luz do dia, “Ritual”, na companhia de António Pinho, José Eduardo e Mário Barreiros, e “Ao Vivo em Cascais”, acolitado por um trio de músicos ingleses, a assinalar dez anos do festival Cascais Jazz. Recordam o Rão do saxofone tenor e o aspirante a jazzman que foi antes de trocar o sax pela flauta de bambú e se iniciar nos mistérios da Orientalidade e do misticismo “new age”. “Ritual” contém já as sementes dessa espiritualidade mas falta-lhe fogo e dilaceração. Mas esse é, afinal, o Rão que hoje todos conhecemos – o músico “branco” em meditação na posição de lótus. “Ao Vivo em Cascais” soa menos pacífico (em "Cascais Blues” e “Terraço”, conseguimos mesmo imaginá-lo a suar e a dobrar-se sobre o sax...), e faz pensar no que poderia ter sido Rão Kyao se tivesse optado por ser um músico de jazz.

Quinteto Maria João
Quinteto Maria João
7|10

Rão Kyao
Ritual
6|10

Ao Vivo em Cascais
7|10
Todos ed. e distri. Movieplay

21/10/2014

João & Joe [Maria João & Joe Zawinful]



Y 29|JUNHO|2001
escolhas|ao vivo

João & Joe

Maria João encontra-se com Joe Zawinful e o seu grupo no ciclo “Grandes Concertos de Jazz”, no Porto. Grande encontro em perspetiva. Mais ou menos próximo do jazz.
            O encontro entre uma das maiores improvisadoras vocais contemporâneas e um dos maiores arquitetos sonoros da chamada música de fusão ensaiou os primeiros passos numa jam session realizada há algum tempo em Colónia, na Alemanha. Terão combinado bem, daí o aprofundamento desta relação que acolhe ainda, como parceiros, os restantes músicos que integram a atual formação de Zawinful pós-Weather Report, os Syndicate: Amit Chatterjee, na guitarra, Etienne M’Bappe, no baixo, Nathaniel Townsley, na bateria, e Manolo Baderna, nas percussões e voz.
            Maria João sabe voar e garimpar. Pelas grutas do interior da terra, sobre as nuvens, na neblina. Como em Zawinful, a fusão atravessa a sua música. O seu canto é canto de fusão entre linguagens várias que vão da música tradicional, brasileira ou indiana, mas também a portuguesa, cujo fascínio cada vez mais se faz sentir, ao jazz, passando pela música contemporânea, a canção popular ou, pura e simplesmente, o “scat”, na sua vertente mais interiorizada e pessoal.
            Se Billie Holiday, Elis Regina, Ella Fitzgerald e Betty Carter foram as suas primeiras mestres, aquelas que a ensinaram a fazer passar a alma e as suas emoções através da respiração, terá sido Bobby McFerrin quem lhe mostrou ser possível ser-se na voz mais do que uma voz. Como o autor de “The Voice”, Maria João teve a coragem de estender a sua voz para fora do limite da canção, sem receio de se expor em toda a sua fragilidade mas também ostentando todo o seu poder. O percurso desta cantora que gravou pela primeira vez com Jorge Palma e é hoje uma das intérpretes mais conceituadas do novo jazz europeu, tem sido desde sempre a aprendizagem da liberdade, mas também do diálogo. Com outros músicos e com outras músicas.
            Com o seu próprio quinteto, em “Quinteto de Maria João”, “Cem Caminhos” e “Conversa”, com a pianista japonesa Aki Takase e o contrabaixista Niels-Henning Orsted Pedersen, em “Alice - Live at the Jazz Ost-West”, com os Cal Viva, de José Peixoto, em “Sol”, com Ralph Towner, Ricardo Rocha, Dino Saluzzi, Mário Laginha, Kai Eckardt de Camargo e Manu Katché, em “Fábula” e – no lar onde ganhou a tranquilidade e a cumplicidade para poder brincar – com Mário Laginha, em “Danças”, “Cor”, “Lobos, Raposas e Coiotes” e “Chorinho Feliz” e “Mumadji” (mais Toninho Ferragutti e Helge Norbaken), Maria João conquistou as “nuances” de ser, mais do que ter, uma voz. E de falar, cantar com outros mundos. Joe Zawinful tem novos territórios para lhe mostrar.
            Joe (Josef) Zawinful foi nos anos 60, juntamente com Miles Davis, John McLaughlin e Chick Corea, um dos pioneiros do jazzrock, após mestrado com Maynard Ferguson, Slide Hampton, Dinah Washington, Cannonball Adderley e… o próprio Miles Davis, com quem gravou os clássicos “Bitches Brew” e “In a Silent Way”, cabendo-lhe neste último a composição do título-tema.
            Mas para este teclista austríaco a passagem pelo hard-bop, o souljazz e os blues representaria apenas a base sobre a qual construiria o monumental templo de jazz-rock que se chamou Weather Report. Foi no início dos anos 70 que o escândalo rebentou, quando Joe Zawinful agarrou nos sintetizadores A.R.P. e nos pianos elétricos Wurlitzer e Fender Rhodes para, ao lado de outro grande solista, o saxofonista Wayne Shorter, encetar em 1971 a aventura elétrica Weather Report que duraria até 1986.
            Os Weather Report traçariam o caminho que centenas de outras bandas percorreram posteriormente até tornarem o selo “jazzrock” em pouco mais do que um “cliché” citado pelos especialistas de jazz com desdém. E se os próprios Weather Report não demoraram muito até se deixarem enredar nos estereótipos do género que ajudaram a criar, a verdade é que um álbum como “I Sing the Body Electric” (1972) ainda hoje serve de farol a quem queira aventurar-se no jazzrock sem naufragar nos rochedos do lugar-comum.

MARIA JOÃO & JOE ZAWINFUL
Porto | Coliseu
Tel. 223394940. Hoje, às 21h30. Bilhetes a 4000$00 e 5000$00

21/10/2008

Guerra ao vírus - Uma Gala de artistas contra a Sida

Pop Rock

30 JANEIRO 1991

GUERRA AO VÍRUS Uma Gala de artistas portugueses contra a Sida

MARIA JOÃO

Cantora de jazz. Evoluiu do jazz tradicional para a improvisação e liberdade aprendidas com Bobby McFerrin. Trabalho mais no estrangeiro do que cá, onde quem devia apoiá-la, não apoia. Gravou com a pianista japonesa Aki Takasi um álbum que a crítica especializada internacional elegeu como dos melhores do ano. Em Outubro do ano passado reincidiu, em registo ao vivo, agora também acompanhada por Niels-Henning-Ørsted Pederson. Em Abril volta aos estúdios para gravar com uma banda portuguesa. Tenciona continuar a gravar por esse mundo fora. Um dia destes com Naná Vasconcelos ou um coro infantil. Quando canta, a expressão do rosto lembra a de Billie Holiday.
Maria João, como Billie, também canta com a alma. Aceitou o convite para participar na Gala por solidariedade e porque aproveita todas as ocasiões em que lhe pedem para cantar. No Coliseu, acompanham-na Carlos Bica e Bernardo Sassetti.
“Participo, primeiro por uma questão de solidariedade com as vítimas de uma doença que mata milhares de seres humanos, em todo o mundo. Depois, porque penso que este espectáculo vai ser importante para chamar a atenção das pessoas para esse facto, porque nós por cá somos muito distraídos em relação a essa doença. Pensamos que não nos atinge, que não é nada connosco. Precauções, nem pensar! Depois, porque gosto imenso de cantar, de maneiro que aproveito todas as oportunidades que surgem para o fazer, desde que haja uma sala boa, boas condições e boas pessoas a assistir.”


PAULO DE CARVALHO

Tem uma boa voz e uma certa propensão para o jazz, quando se concede certas liberdades vocais. Mas parece não querer arriscar, preferindo investir em terrenos mais seguros, capazes de lhe proporcionar êxitos populares como os “Meninos do Huambo”. Entrou em Festivais da Canção, mas já deve estar arrependido. Revelou-se surpreendentemente à vontade num disco inteiro a cantar fado.
“Tenho muito a ver com isto, embora não com esta organização, especificamente. Tinha planos para participar com outros amigos num outro espectáculo de solidariedade deste tipo que acabou por não se realizar. Em relação a este acabei por ser um bocado ultrapassado pelos acontecimentos. Não cheguei propriamente a ser convidado, mas sim a estar presente. Penso que desta vez não irei tocar ou cantar, mas apenas fazer apresentações. Se houver alguma participação, em termos de cantigas, certamente que será ao lado dos Trovante.”


AMÁLIA RODRIGUES

Com as quatro primeiras letras do seu nome se escreve a palavra alma. Alma portuguesa, perdida na eternidade do fado, da fatalidade tornada quase confortável. Amália é a voz da saudade que canta. Da nobreza e da tradição resistentes aos ventos gelados da modernidade. Voz correndo como um rio que nasce muito longe, cá dentro, desde antigamente.
Mulher vestida de negro com uma rosa rubra no coração. Lua que ilumina a noite lusitana. Viúva de Portugal. Ela diz ser apenas uma mulher normal. Quem somos nós para a contradizer.
“Fui convidada, mas não para cantar. Quero esclarecer isto, porque senão depois as pessoas pedem-me para o fazer… A primeira razão que me levou a participar nesta iniciativa é porque sou uma pessoa normal e por isso preocupo-me com as coisas horríveis que há no mundo. Acho que essa doença é uma doença horrível, feia, em muitos sentidos. Já fui cantar a Paris, convidada pela Line Renaud, numa gala que aí se realizou, também contra a sida, e agora volto a participar, não com prazer, pois não é por prazer que se participa numa causa destas, mas com muito boa vontade. Acho que as pessoas deviam realmente pensar nisto e comparecerem em massa também.”


HERMAN JOSÉ

O seu nome dispensa grandes apresentações. É o homem que em Portugal melhor sabe fazer rir. Alia a inteligência irónica e a sátira feroz a um apurado sentido do absurdo. Destrói e constrói os mecanismos e vícios dos nossos cérebros mal habituados.
Só o facto de gostar e, mais do que isso, compreender o sentido profundo do humor delirante dos Monty Python bastaria para fazermos dele um herói.
Na rádio é sempre brilhante. A televisão não sabe se há-de amá-lo ou odiá-lo. Tony Silva, Serafim Saudade, Estebes ou Maximiana é que são os portugueses reais. Os outros, os sérios, são caricaturas.
Sobre a Gala dos Artistas afirma que vai ter uma participação séria e discreta. Ou seja, não é para rir. O bom actor deve saber interpretar todos os papéis. Mesmo quando, como é o caso, não se trate de teatro.
“Os motivos que me levam a participar são por demais óbvios: porque é importantíssimo não adormecermos em relação a essa nova peste negra do nosso século. Dá-me a sensação que em Portugal vivemos todos num excessivo optimismo. Sinto isso pelas pessoas que me rodeiam. Sinto isso por uma certa contenção, pudor e medo com que muitas vezes os próprios órgãos de comunicação social se debruçam sobre o tema. É uma coisa que nos toca a todos de tão perto que é importante os artistas assumirem em Portugal o mesmo papel que têm assumido nos outros países – o de chamarem a tenção para um problema que está longe de ser resolvido e que nos pode afectar a todos. A minha participação no espectáculo, apenas como apresentador, vai ser discreta e portanto não vou (e se calhar porque também não me apetece) contar muitas anedotas nem ter muita piada, porque o tema não é propriamente aliciante, apesar de o espectáculo não pretender ser uma coisa triste, pesada e lamuriosa. Pelo contrário, é suposto ter optimismo, a começar pelo próprio cartaz, um desenho do Pomar que não é nem fatal nem fatídico, mas antes uma alusão ao próprio acto amoroso em si.”


RUI REININHO

Os rapazes dos GNR brincam com as palavras e com os sons. São homens temporariamente sós à procura da infância perdida. Tocam uma música colorida de palavras cruzadas, que fazem sentido doutra maneira. Parecem estar sempre a brincar, mas há quem os leve muito a sério e lhes condene as brincadeiras. A televisão, por exemplo, não deixou passar o vídeo da Maria, embora eles jurem a pés juntos tratar-se apenas de uma amiga. Alguns julgaram ver em “Dunas” alusões a práticas menos inocentes. Enfim, mesmo sem querer, os GNR esbarram constantemente nos temas proibidos. Ultimamente estão mais calmos (embora um antigo companheiro de armas esteja sempre a arranjar-lhes problemas) e Rui Reininho parece mesmo querer rivalizar com Bryan Ferry no papel de “crooner” cínico e bem falante. São dos melhores grupos de novo rock portugueses. Declaram que não se sentem responsabilizados pela existência do vírus.
“Porque é que a gente entra numa coisa dessas? Porque sei que nos dão mais atenção do que àquelas caras do costume, os políticos, etc… Não é que nos sintamos responsabilizados pela existência do vírus, mas se conseguirmos impedir que ele se propague… Há muita hipocrisia e mais uma vez, no caso das medidas ‘portugas’, acho que houve muitos erros, culpados pela propagação dessas histórias. Não há informação. O português acha que essas coisas acontecem sempre aos outros… por exemplo, nas farmácias, aqui há uns anos recusavam vender seringas e, ainda na semana passada, falávamos de um amigo meu que fazia quilómetros por noite, nomeadamente aqui no Porto, para as arranjar. As pessoas tinham atitudes morais desse género. Inibiam-se as pessoas na compra de preservativos, essa história toda… Acho que, nesse aspecto, podemos ‘dar um toque’, podemos falar nisso mais à vontade do que a dra. Maria Barroso, por exemplo, sem moralizar, como dizia o outro. Torna-se doloroso ver pessoas morrer por estupidez… É um pouco como aquela história de as vitaminas não serem comparticipadas… Toda a gente fala em prevenção, mas prevenção é coisa que não há, a única que há é a rodoviária e mesmo assim as pessoas morrem como tordos… A partir de aí é fácil ver o que acontece nas outras áreas… Vamos tocar talvez três canções, numa participação de dez ou quinze minutos. Uma delas será forçosamente ‘Morte ao Sol’.”


SÉRGIO GODINHO

Escritor de canções. Sobrevivente das histórias do nosso (des)contentamento. Vem de muitas lutas e algumas amizades construídas no caminho. Zeca Afonso, Brel, tropicalismo ou o rock anglo-saxónico são algumas das referências presentes na sua obra, mas que não chegam para a catalogar. Ainda bem. Não gostamos que chamem nomes a uma música que nos habituámos a fazer nossa.
Sérgio Godinho é dos que em Portugal melhor sabem contar e cantar uma vida e os seus sonhos, nos três minutos que dura uma canção. Minutos que são a própria vida. Quanto tempo dura a vida? O resto da nossa vida?
Recentemente esteve durante muitos dias, todos os dias, num auditório pequeno, para melhor nos contar as suas histórias, despojadas de tudo o que nos pudesse distrair. Depois gravou o disco. Escreve canções. Na Gala dos Artistas vai estar sozinho em palco, com a sua voz e uma guitarra acústica.
“Participo porque é um assunto importante que mexe mesmo connosco. Pediram-me que inventasse uma frase alusiva ao tema. Escolhi esta: ‘viver é a grande vingança do corpo’. O corpo vinga-se contra tudo o que lhe querem fazer sofrer. No espectáculo vou cantar duas canções, ainda não decidi quais, acompanhada só pela guitarra. Possivelmente tocarei ainda mais uma, integrado nos Trovante.”


LENA D’ÁGUA

Tem uma maneira engraçada de cantar e de se movimentar em palco. As pernas são bonitas, a cara também, as canções não ofendem. O pai foi um futebolista famoso. O irmão é um futebolista famoso. Ela é só famosa. Começou por ser “hippie”, nos tempos psicadélicos dos Beatnicks. Inesquecível um concerto, há muitos anos, em Sintra. Nos Salada de Frutas pediu para se olhar o “robot”. Muita gente olhou. Foi ficando cada vez mais doce e hoje, “sempre que o amor a quiser”, está pronta a acariciar com a voz. Voz que, em algumas canções (nunca ninguém reparou?) lembra a de uma rapariga inglesa chamada Sonja Kristina, vocalista de uns tais Curved Air.
As canções de Lena d’Água são tal qual o líquido vital: não ardem como bebidas fortes, mas refrescam e matam a sede.
“Aceitei o convite para participar como teria aceitado se se tratasse de uma gala para angariar fundos para as crianças deficientes mentais, para os estropiados da guerra, ou para quem quer que precisasse de ajuda e a pedisse. Da minha parte, sou sempre solidária.
Na minha actuação vou cantar, acompanhada pelo Pedro Osório, ao piano, ‘Não é Fácil o Amor’, do Janita Salomé. Quanto à outra canção ainda não ficou decidido qual será, talvez ‘Chanson Triste’, de um compositor do princípio do século.”

10/05/2008

Maria João - Fábula

POP ROCK

13 de Novembro de 1996
portugueses

Maria João
Fábula
VERVE, DISTRI. POLYGRAM

Domesticaram Maria João. “Fábula” é a Maria João do canto deslizante, alinhado com as palavras, obediente à moral, não a Maria João alpinista nem a Maria João escafandrista. É a Mariazinha. A voz está sinalizada: não subir nem descer mais do que o necessário. Evitar os extremos. Não chocar. Assim, a voz faz de coisa fofinha, com caprichos e beicinho. A mesma vozinha que encantou a meninada no projecto “Bom Dia Benjamim” mas desilude quem já se habituou a ouvir e a sentir Maria João cantar debaixo do vulcão. Contam-se histórias sem se contar a raiz. “Fábula”, o tema de abertura, ainda a mostra vestida com a farda de exploradora, embora por selvas já desbravadas. Contado esse rosário, as contas passam a fazer-se de cabeça, com o coração deixando-se ir atrás, cheio de preguiça. Parece um doce ECM (entre os convidados estão Ralph Towner e Dino Saluzz) como parece o discurso brasileiro, de Egberto Gismonti, de “Água e Vinho”, em “Cor de rosa”, e de Marisa Monte, em “A bela e a fera”. É bonito, mas, para quem gosta de Maria João, a outra, e não a dispensa, são 78 minutos que por vezes custam a passar. (6)