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04/03/2019

Mafalda Arnauth - Encantamento


20|JUNHO|2003 Y
discos|roteiro

MAFALDA ARNAUTH
Encantamento
Virgin, distri. EMI-VC
9|10

No meio das divas, semi-divas e candidatas a divas que vão proliferando no “novo fado”, Mafalda Arnauth continua na dianteira e a dar cartas. Antes de mais e antes que nos esqueçamos: “Encantamento” é o melhor disco de sempre da cantora e um dos melhores do fado, “tout court”, editados nos últimos anos. Mafalda está a cantar como nunca, sublimemente, o que se deve em parte às aulas de canto recebidas, que resultaram num domínio absoluto da respiração e da projeção, aliviando o “stress” e a pressão, enterrando o medo. Dizendo de outra forma: Mafalda canta agora como quem respira. Como quem vestiu, sem agasalhos, a alma inteira. As ornamentações e o rubato fluem com a naturalidade de uma...vamos mesmo ter que dizer o nome...Amália... embora nunca a originalidade de um canto e uma sensibilidade poética próprios se revelassem, como aqui, com a luminosidade – aquela onde a Beleza se cruza com a mágoa – que ressalta de fados como “As fontes”, “Sem limite”, “Da palma da minha mão” ou “Canção”. “Irei beber a luz e o amanhecer, irei beber a voz dessa promessa, que às vezes, como um voo, me atravessa e nela, cumprirei todo o meu ser”. As palavras são de Sophia de Mello Breyner, em “As fontes”. Mafalda Arnauth fê-las suas e cumpre a promessa.

12/02/2019

Ser fadista é entregar-se à vida [Mafalda Arnauth + Cristina Branco]


Y 23|MAIO|2003
música|fado

ser fadista é entregar-se à vida

São duas vozes capitais do novo fado. No mais recente álbum de Mafalda Arnauth, Encantamento, escutamos uma voz mais serena, alada e “cantabile” do que nos discos anteriores. Com Sensus, Cristina Branco avança mais um passo para fora do fado tradicional. Disco onde a poesia e a voz rivalizam em erotismo, tem a ousadia das coisas belas.

Depois de “Mafalda Arnauth”, produzido por João Gil, e “Esta Voz que me Atravessa”, produzido por Amélia Muge, “Encantamento” tem auto-produção da fadista. O resultado é o seu melhor álbum de sempre. Pelos temas e pela voz. A fadista tomou quase tudo em mãos. “não quis deixar nada em mãos alheias, decido assumir toda a responsabilidade. A parceria maior que tenho neste disco é o Luís Oliveira, que se encarregou da direção musical e dos arranjos. Neste disco as letras voltam a ser minhas… E a responsabilidade de algo que esteja menos bem é também minha. Digamos que a minha personalidade se tornou mais vincada. O disco resulta de um crescimento e de uma auto-descoberta tão grande que não seria justo pôr outras pessoas a assumirem a responsabilidade pelas minhas decisões”.
            Responsabilidade que Arnauth assume como fruto de uma segurança que antes não se manifestara: “uma segurança que adveio do prazer que me deu. Sou uma mistura de racional e emocional, e o racional consegue fazer uma avaliação do trabalho. O emocional voltou a ter espaço para se expressar, coisa que no segundo disco não aconteceu, por cansaço e por estar a trabalhar com pessoas com muito mais experiência do que eu, o que gerou em mim um certo respeito”.
            Algo mudou entretanto, como resultado desse processo de auto-descoberta. Mafalda centrou as atenções no corpo, forçou-o a disciplinar-se. Três fatores contribuíram para essa mudança: “O primeiro fator vital foi a saúde. O templo onde tudo isto acontece, o meu corpo. Precisava de uma paragem no final de 2001, todo o trabalho de estrada tinha sido desgastante. O segundo fator foi ter deixado de fumar. De repente pude reencontrar a minha voz e redescobrir novas possibilidades em termos de interpretação. Quando tomamos conta do nosso corpo ficamos com muito mais força para tudo o que vem a seguir. Um terceiro fator foi ter voltado a compor”.

            o fado é sereno. Desprende-se da audição de “Encantamento” uma sensação de serenidade. Sem rodeios: dos três álbuns já gravados pela fadista, “Encantamento” é aquele em que Mafalda canta melhor. Algo que nasce “da respiração, da tal história de ter acabado com o tabaco”. A fadista também teve aulas de canto, “de colocação de voz”, que a ajudaram, sobretudo a tranquilizar-se. “Não me formataram a voz mas deram-me saúde ao instrumento. Sinto que está muito bem. O sopro, a respiração é tão importante a falar como a cantar, o facto de eu conseguir fazer essa gestão do ar, põe naturalmente tudo no sítio, deixando outra margem para a inspiração. Antes era uma das minhas dificuldades. Só a insegurança, a ansiedade, só isso já aperta o ar. Quando não temos que nos preocupar com isso, a atenção passa imediatamente para outro lado”.
            O trabalho de estúdio teve a sua quota-parte nestes resultados. Mafalda teve o estúdio totalmente à sua disposição. “O Luís Oliveira e o José António Pedro, que faz o som do disco, formam uma sociedade e têm os dois um estúdio que, além de ser muito caseiro, é topo de gama ao nível técnico. Os músicos tiveram dois meses para gravar, mais um para as misturas”. Sobrou tempo. Não houve pressões. “A editora teve alguma dificuldade em perceber como é que está tanto tempo a fazer um disco. Para a maior parte das pessoas é uma loucura, ter um estúdio só para nós”.
            Preocupações que não são vulgares nos fadistas vulgares mas que Mafalda Arnauth considera essenciais. Funcionou uma filosofia de vida que passa pela aprendizagem constante. “Enquanto estudei Veterinária tive uma cadeira, de Toxicologia, que me abriu os olhos para o ser humano hoje e como era há 30 anos atrás. Em 30 anos, os nossos corpos deixaram de ser as forças da natureza que eram. Não digo que toda a gente seja assim, mas eu pago mais caro do que as outras pessoas. Apesar de ter um corpo forte, com personalidade, sinto que sou frágil. O ritmo da vida é hoje superior, o stress que apanhamos, a comida, tudo nos fragiliza. Tive que encontrar uma disciplina. É claro que há outras pessoas que continuam a ser forças da Natureza, por mais que façam as maiores desgraças”.
            Há quem diga que quanto maiores são os excessos melhor se canta o fado. Para Mafalda, não. “Até há quem diga que eu, neste momento, tenho voz a mais…”, diz a sorrir. Como é isso? “Voz a mais, por se sentir menos esforço a cantar, sem aquela necessidade de sofrimento que ainda está um bocadinho inerente ao canto”. Em “encantamento” sente-se o prazer. Incluindo “o prazer que se pode tirar das próprias dificuldades”. “porque o percurso deste disco é extremamente doloroso, fruto do tal crescimento”, diz a fadista. “Tentei fazer algo feliz de um processo que foi doloroso”. Ser fadista é, então, uma “filosofia de vida”, uma “entrega à vida”. Filosofia que pratica, “embora não os mesmos núcleos nem nos mesmos ambientes” que fizeram o fado no passado. “Ser fadista é isso, é a pessoa que vive, que absorve uma quantidade de experiências e que as transporta para o canto. O que eu absorvo é que é diferente do que absorve a maior parte das pessoas. Continuo a sentir um canto melancólico. Hoje já consigo ver nas fadistas da minha geração as suas diferenças”. E vê-las assim: Cristina Branco, “cada vez mais uma fadista que se alimenta da poesia”, Mariza, a “fadista de faísca, de garra”, Mísia, “uma fadista cosmopolita”. Cada uma delas “a absorver várias áreas do mundo”.

            matar saudades. Mafalda Arnauth continua a frequentar as casas de fado. Para “matar saudades”. Dá razão a Argentina Santos que ainda há pouco tempo dizia ao Público que é impossível aos novos fazer carreira sem passar pelas casas de fado. “Passei por lá e continuo a sentir a necessidade de ir, mas não no mesmo formato. Se já não vou com a mesma frequência é porque foi lá que aprendi, nem tudo coisas boas. Mas a minha natureza não se enquadra numa casa fechada. Argentina Santos tem o seu trono, o seu lugar de culto. Se um dia tiver a minha casa de fados, naturalmente que também terei que estar lá. Mas hoje prefiro ir cantar a uma casa de fado e sentir gozo do que estar lá uma noite inteira. Até porque nós, da nova geração, tornámo-nos umas “pequenas estrelas”. Numa casa de fado onde está alguém a cantar diariamente, com uma entrega total, não tenho coragem de chegar lá, e por ter algum estatuto, chegar, cantar cinco ou seis fados e ir para casa. Estaria a obrigar alguém, provavelmente muito mais cansado do que eu, a ter que cantar outra vez. É um respeito que continuo a ter”.

            o problema dos títulos. “Encantamento” termina com um “Fado Arnauth”. A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: “esse título existe porque estive dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha ‘Na palma da minha mão’, mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser ‘Da palma da minha mão’. O ‘Fado Arnauth’ foi “Feitiço’, o ‘Sem limite’ não pôde ser ‘Sem limites’, ‘Bendito fado’ teve que ficar ‘Bendito fado, bendita gente’, ‘É sempre cedo’ chamava-se ‘Acorda coração’… Impressionante. O “Fado Arnauth” foi um relâmpago, nascido da frustração.”
            E “Encantamento”, foi também assim? “Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo ‘démodé’… Já esteve mais na moda ser-se feliz.”
            Também a síndrome ‘Nova Amália’ esteve mais na moda. Hoje “as novas fadistas que estão a aparecer têm o cuidado de ter particularidades próprias, uma personalidade marcada”. Mafalda Arnauth até exagera um pouco, a ponto de continuar sem gravar um único fado de Amália. Lá virá o dia. “Hei-de fazer isso! Mas quando o fizer, não serão só fados dela. Será como uma prenda que darei a mim própria”.

“Encantamento” é composto por 14 temas, com música de Luís Oliveira e poemas de Mafalda Arnauth, à exceção de “As Fontes”, de Sophia de Mello Breyner, “Cavalo à Solta”, com letra de Fernando Tordo, e “No teu poema”, com versos de José Luís Tinoco. Acompanham a fadista José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), Luís Oliveira (guitarra clássica) e João Penedo (contrabaixo). Os convidados são João Ferreira Rosa, em “Da palma da minha mão”, e a cantora de jazz Mónica Ferraz, em “Ó voz da minha alma”.

eros é branco

“Sensus” é um disco de poesia erótica de autores luso-brasileiros como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, David Mourão-Ferreira, Pedro-Homem de Melo, Camões, Vasco Graça Moura, Maria Teresa Horta, Pedro Támen e Eugénio de Andrade. Com William Shakespeare a deitar também a sua pitada de sal a uma música em que Custódio Castelo se encarrega de dar sentido aos sons.
            Tudo partiu de um poema de David Mourão-Ferreira que deu o nome ao álbum anterior de Cristina Branco, “Corpo Iluminado”. Mourão-Ferreira volta a estar presente, desta feita, com “Assim que te despes”. Assim Cristina Branco se despe de preconceitos. Fado dos sentidos. Fado-carne. Fado picante? Cristina garante que se sente, neste novo registo, “como peixe na água”.
            A capa calhou ficar talvez um pouco sugestiva demais, provocando todo o tipo de associações. A cantora não tem culpa, ri-se com gosto e salta imediatamente para o cerne da questão: “Toda a gente pensa logo, poesia erótica e tal…”. É este “tal” que importa esclarecer. Tenham clama, é tudo científico: “inicialmente pretendi que fosse um documento sobre a sociedade portuguesa desde a época medieval até agora. Como é que os portugueses viam a sexualidade. Acabou por não ser, porque entretanto tropeçámos no Shakespeare, no Vinicius e no Chico…”. Apesar da vertente didáctica, Cristina assume que “Sensus” tem “uma linguagem mais ousada, embora sem cair no óbvio”, do que os álbuns anteriores.
            Mas “Sensus” fala de sexualidade ou de erotismo? “Tem as duas coisas. Sem utilizar as palavras concretas”, como faz questão em frisar. “Pastoras da estrela”, um dos belíssimos temas de “Sensus”, composto por Miguel Carvalhinho, soa a música antiga, situando o fado nas noites trovadorescas de antanho. É pecado, clamariam as vozes censoras. É pecado sentir e tirar prazer da música. “Sensus” destila esse pecado e quem nos absolverá desta luxúria? “A abordagem musical do Custódio tem algo que bebe em tempos muito remotos”. A voz de Cristina faz o resto, lançando-nos no caminho da perdição.
            Sem misericórdia pelos fracos, Cristina garante que “ainda pretende ir mais longe”. Na revolução do fado, bem entendido. E recorda que, nos primórdios, o “fado era cantado por prostitutas”, o que lhe conferia um carácter, digamos, não de pecado mortal, mas venial.
            Quanto a Cristina Banco, o seu canto afasta-se cada vez mais das formas tradicionais do fado. “Porque não contar apenas uma história?”. As histórias de “Sensus” incluem um “Soneto de separação”, de Vinicius de Moraes, “O meu amor”, de Chico Buarque, “Ninfas”, de Camões, “Soneto destruído”, de Graça Moura, “As mãos e os frutos”, de Eugénio de Andrade e “O sabor de saber”, de Rui Branco. Histórias, afinal, de amor que uns dizem que vem antes e outros que vem depois. Cristina Branco destaca uma, “O meu amor”, uma espécie de “impressão digital”. Começa assim: “O meu amor/Tem um jeito manso que é só seu/E que me deixa louca/Quando me beija a boca/A minha pele fica toda arrepiada/E me beija com calma e fundo/Até minha alma se sentir beijada”.

Tocam em “Sensus” Custódio Castelo (guitarra clássica, baixo), Alexandre Silva (guitarra clássica), Fernando Maia (baixo), Miguel Carvalhinho (guitarra clássica), André Dequech (piano) e Ben Wolf (contrabaixo).

05/02/2015

O espírito permanecerá [Mafalda Arnauth]



Y 12|OUTUBRO|2001
escolhas|ao vivo

mafalda arnauth
o espírito permanecerá

Entre o espetáculo de apresentação, apadrinhada por João Braga, e a edição do último, e segundo, álbum, “Esta Voz que me Atravessa”, Mafalda Arnauth evoluiu de intérprete fenomenal de Amália para uma das mais poderosas e emotivas vozes femininas do fado. O espetáculo de amanhã, na Culturgest, às 21h30, será o de mais uma consagração.
Nasceu em Lisboa há 27 anos. Estava longe de pensar que faria do fado profissão. Mas isso foi no início de carreira, quando poucos conheciam o dom da sua voz. Hoje, com dois álbuns editados, o último dos quais considerado um dos grandes discos de música portuguesa deste ano, foi “arrastada” pela mais “estranha forma de vida” que se possa imaginar. Destino inevitável das divas.
Recentemente tornou-se a primeira artista portuguesa a ser representada internacionalmente pela Virgin, com o novo disco a ser editado neste selo na Bélgica, França e Espanha.
Será acompanhada na Culturgest por José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), José António Mendes (viola de fado), Rodrigo Serrão (contrabaixo) e, como convidado em dois temas, João Courinha (saxofone).
O facto de agora fazer parte do catálogo da Virgin é um indício de um reconhecimento internacional?
É uma situação sem precedentes. Além de que ter uma editora a apostar em mim lá fora é diferente do que ter de ir aos vários países apresentar-me a um número restrito de pessoas. É uma conquista fantástica.
Ainda se lembra de quando afirmava que jamais lhe passaria pela cabeça viver do fado?
(risos) Lembro-me! Ainda há dias recebi um telefonema de um colega de curso [Veterinária] a perguntar-me como é que eu ia fazer com os exames! Existe essa pressão, mas o fado é mais forte do que eu…
Ainda seria possível voltar atrás?
Jamais. O fado como “hobby” tornou-se impossível, com a carteira de trabalho que já tenho e que domina a minha vida para os próximos meses. Mas não gosto de pensar no futuro, se vou conseguir cá estar daqui a 50 anos e com tudo a correr sempre bem… É importante viver cada período de cada vez; depois, pelo caminho, acontece sempre qualquer coisa, até precisar de parar um pouco e respirar fundo. Mas o fado tornou-se a minha opção.
Foi graças a si que as portas se abriram a fadistas da sua geração?
O meu disco surgiu há dois anos, quando não havia um único disco de fado das pessoas da minha geração. A Cristina Branco já tinha editado alguns, mas só na Holanda. Agora, apareceu o disco da Kátia Guerreiro; surgirá, esperemos, o da Ana Sofia Varela. Sinto que se sou exemplo de algo, é da necessidade de ter uma identidade. Alguns dos projetos que vão surgindo fogem cada vez mais à cópia. Só pelas fotos do artigo que saiu há algum tempo no Y se percebe que todas as fadistas são diferentes e que todas elas andam à procura dessa identidade, independentemente de ser encontrada um “nova Amália”… Pretendemos fugir a isso. Até por respeito à própria Amália Rodrigues.
O facto de ir atuar com mais frequência no estrangeiro, para pessoas que já conhecem o seu disco, vai alterar a estrutura dos seus espetáculos?
Estou numa fase de fazer cada vez menos concessões. Mesmo em Portugal, a tendência é a de privilegiar a exposição de quem sou e não a de receber muitas palmas. Isto implica que nos espetáculos faça apenas o que me apetece. Se estiver a cantar para um público que prefere marchas, sei que se cantar um espetáculo inteiro de marchas vou sentir que não estou a ser verdadeira.
Os recentes acontecimentos no mundo, depois de 11 de Setembro, refletiram-se na sua maneira de compor, de viver e de cantar?
Uma das primeiras sensações que tive quando estava a olhar para a televisão foi de que estava a viver um filme. Levou tempo até interiorizar o que estava a acontecer. Há um mundo cá fora e um mundo dentro de nós. E dentro de nós haverá provavelmente muitas “twin towers” tão vulneráveis como aquelas. Preciso cada vez mais de paz interior, o que se torna cada vez mais difícil. Tudo o que aconteceu vai ter consequências e não sei se temos consciência disso. Os valores de sobrevivência podem ser postos em causa. As pessoas vão ter que pensar no que é mais importante: se a matéria (estamos cheios de medo que o planeta rebente de uma vez) ou se a própria espiritualidade do mundo, que está de rastos. Violência gera violência.
Como é que encontra essa paz interior?
Passa pela auto-estima e auto-estima não é considerarmo-nos a melhor pessoa do mundo, mas aceitarmo-nos e aos outros. O meu corpo é o lugar onde habita o meu espírito. Se amanhã desaparecer o meu espírito há-de permanecer. A paz vem daí.


MAFALDA ARNAUTH
LISBOA | Auditório da Culturgest
sáb., 13, às 21h30; bilhetes: 3000$00

09/12/2014

Marquesas do fado em Itália [Cristina Branco + Mafalda Arnauth]



QUARTA-FEIRA, 20 JULHO 2000 cultura

Cristina Branco e Mafalda Arnauth no Festival Sete Sóis Sete Luas em Pontedera

Marquesas do fado em Itália

No cenário da “villa” do marquês Malaspina, “amici della musica”, Cristina Branco e Mafalda Arnauth mostraram ao público de Pontedera duas formas distintas de cantar e apresentar o fado. A sofisticação etérea de Cristina e o sangue de Mafalda foram duas faces de um mesmo rosto que, depois da morte de Amália, volta a ter razões para sorrir.

Uma fala devagar e baixo. Insinua melodias que vêm de longe, envoltas numa luz dourada. Acende-se devagar uma graduação de estrela. A outra relampeja-lhe a alma tingida de sangue. Encandeia. Não se acende, arde. Cristina Branco foi a fada que pousou ao de leve trazendo a saudade como uma folha suspensa no vento. Mafalda Arnauth descerrou as cortinas de Lisboa de rompante, encarando de frente a fera, dando-se sem reservas ao instante.
            Fascinante foi ver o modo como as duas encaram a forma de apresentação do fado num espetáculo ao vivo. Em dias seguidos, Cristina na segunda, Mafalda na terça, e no mesmo local, a Villa Malaspina, pertencente ao marquês e marquesa Torrigiani Malaspina, em Pontedera, o público toscano teve oportunidade de ouvir duas vozes fabulosas que, todavia, vestem figurinos diferentes.
            Cristina Branco evidenciou uma maturidade que lhe advém de uma carreira que nos últimos anos se tem vindo a consolidar na Holanda, país onde gravou todos os seus álbuns, incluindo “Post-Scriptum” e o novo “Cristina Branco canta Slaueroff”, com poemas assinados pelo poeta holandês com este nome, amante do fado e da saudade. Sente-se a distância e, talvez por isso, ouve-se o fado de Cristina Branco como se viesse de longe, numa barca que suavemente vem chegando.
            O espetáculo que apresentou em Pontedera, no âmbito do Festival Sete Sóis Sete Luas, não se impôs, insinuou-se. Como se insinuaram as notas de “Verdes anos”, de Carlos Paredes, na rapsódia instrumental de abertura que instantaneamente revelou um grande música, Custódio Castelo, na guitarra portuguesa, acompanhado de Alexandre Martins, na viola, e Fernando Maia, no baixo. É ele quem compõe e arranja a maior parte dos fados para a voz de Cristina. Foi ele que ao longo do concerto, e utilizando as suas palavras, foi “abrindo as portas”, umas “grandes”, outras “pequenas”, por onde a alma e o canto pudessem voar.
            Custódio Castelo, que desde o início tem acompanhado o percurso musical da jovem fadista, possui o dom raro de ser músico (o que o distingue desde logo dos que simplesmente fazem música…), de criar a partir da escuta e do silêncio, entregando os gestos e a técnica às diretivas dos deuses. Fados como “Palavras proibidas” ou “Fado tango”, ambos da sua autoria, apontam um dos futuros viáveis de uma música que apenas conseguirá sobreviver enquanto conservar a magia. E os fados de Custódio Castelo têm-na.
            Uma segunda rapsódia consagrou os três instrumentistas. “Aren’t they great?”, comentou Cristina no mesmo inglês com que se dirigiu durante toda a noite ao público toscano, único senão de uma noite sem mácula que até teve o pormenor simpático da fadista cantar em público o “Parabéns a você” para a aniversariante, a marquesa anfitriã…
            Cristina Branco é a fada que materializa o encanto. Através da sua voz, as melodias do guitarrista e as palavras de Pedro Homem de Melo, Alexandre O’Neill, Afonso Lopes Vieira, Miguel Torga, Manuel Alegre, Amália e David-Mourão Ferreira, ganham asas, diferentes peles, subtis sentidos. No “Fado Primavera”, com poema de David-Mourão Ferreira, Cristina Branco arrebatou por fim os bravos de uma plateia que no “encore”, “Tudo isto é fado”, quase sem se dar conta, já cantava em coro com ela.
            Sem microfone, á boca do palco, Cristina Branco revelava num murmúrio o último segredo da sua relação com o fado: “É tudo o que eu digo e tudo o que eu não sei dizer”.

Coisas escuras

            Terça-feira foi noite de outras cores. Depois de se ouvir uma vez mais, através das colunas, o tema-que-parece-dos-Radio Tarifa composto por Rão Kyao de propósito para o Sete Sóis Sete Luas que o festival adotou como hino, Mafalda Arnauth fez correr um rio de sangue.
            Ao contrário da sobriedade do vestido negro que Cristina Branco trouxera na véspera a fadista que recentemente lançou o seu álbum homónimo de estreia surgiu com um modelo em vermelho sanguíneo com a assinatura de Paulo Matos. A música seguiu a mesma tonalidade.
            Mafalda Arnauth não avança por fases, como faz Cristina Branco. Com ela é tudo ou nada, a emoção não pede licença para entrar, não chega como uma brisa mas como um relâmpago. Mafalda expõe-se mais, é mais portuguesa que Cristina nessa nudez sem defesas. Mas se o seu fado é menos universalista estará contudo mas próximo da tragédia e arreigado à tradição. Não é o oceano da “world music” mas o Tejo. Sem em Cristina Branco há nuvens, pedrarias, sereias, mágoas de água, em Mafalda Arnauth há poços, redemoinhos, bruxas, ventanias, feridas fundas. Na sua voz ecoam Amália, Alfama, olhos negros, vielas, coisas escuras que não podem ser ditas.

Repasto no final

            Mafalda, acompanhada por Paulo Valentim à guitarra, José António Mendes à viola e Paulo Paz no baixo, cantou, entre outros, “Fado sem fim”, “Fadista louco”, “Alfama”, “Fado antigo”, “No teu poema”… E, para felicidade de todos, de Amália, “Foi Deus” e, já no “encore”, “Estranha forma de vida”.
            Ela não gosta, e faz bem, de comparações. Mas Amália, lá onde está agora, mesmo que a contragosto (também ela não gostava de comparações…), terá decerto acenado com a alma a dizer que sim. Quem contribuiu para a felicidade, tanto de Cristina Branco como de Mafalda Arnauth, e das respetivas comitivas (e, já agora, da nossa…), foi a senhora Sofia Forsi que, em sua casa, mesmo por baixo de uma antiga filial do Partido Comunista, fez questão de confecionar e oferecer o melhor da cozinha e hospitalidade toscanas. Ambas imensas. Os estômagos já pediam clemência e gritavam: “Basta!” Ou melhor: “Pasta”!

22/10/2014

Novas fadas [Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira]



Y 20|JULHO|2001
música|fado

novas fadas

Cinco vozes fabulosas, cinco herdeiras de Amália que dela assimilaram a força interior e para além dela apresentam originalidade, e nuances de um brilho que é também mistério.

A história começa há muitos anos atrás, perdendo-se na noite dos tempos. Mas veio Amália e ficou a perceber-se melhor o que era o fado – um astro de duas faces, noite e dia, que nela se confundiam num só rosto. Esfinge. O século XX foi o século de Amália. Havia Amália, a sua voz, os seus discos, os seus espetáculos, a sua presença ofuscante. Sobrava pouco para os restantes.
            Com o desaparecimento físico de Amália Rodrigues, por coincidência ou por ditame do destino (o que vai dar no mesmo), outras vozes femininas despontaram. Vozes fabulosas. Tão orgulhosas de si e da sua diferença como humildes no reconhecimento do que Amália representou na escolha que também elas fizeram, de seguir essa “estranha forma de vida”, bem como na sua afirmação como fadistas.
            Escolhemos, para ilustrar o presente radioso do fado cantado no feminino, cinco nomes: Mafalda Arnauth, Cristina Branco, Kátia Guerreiro, Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira. Outras há: Mariza, Teresa Tapadas, Maria Ana Bobone. Mas aquelas cinco possuem um toque e um brilho especiais. O toque na essência do fado e a versatilidade da alma que se incendeia a este toque.
            Dez anos separam a mais velha, Cristina Branco (28 anos), da mais nova, Joana Amendoeira (18 anos). Mafalda Arnauth tem 26, Kátia Guerreiro, 25, Ana Sofia Varela, 24. Encontram-se em fases distintas. Cristina Branco, cuja carreira tem vindo a ser construída na Holanda, já leva cinco álbuns gravados, o último dos quais, “Corpo Iluminado”, é o primeiro com distribuição nacional, pela Universal. Custódio Castelo, guitarrista de notáveis recursos, tem sido o seu tutor artístico. José Fontes Rocha, Jorge Fernando, Joel Pina e Miguel Carvalhinho, guitarristas e violistas históricos, participam como convidados.
            Mafalda Arnauth, uma das novas vozes apadrinhadas por João Braga, depois de um álbum de estreia, “Mafalda Arnauth”, há dois anos, com produção de João Gil, projeta-se a grande altura no novo “Esta Voz que me Atravessa”, ainda no selo EMI, com a produção da dupla Amélia Muge e José Martins. Kátia Guerreiro, em quem chegámos a ver uma sósia de Amália, no espetáculo de homenagem à diva que a deu a conhecer ao grande público, publicou o seu disco de estreia, “Fado Maior”, na Ocarina. Com Paulo Parreira, na guitarra portuguesa. Embora mais nova, Joana Amendoeira já tem dois discos na Espacial, “Olhos Garotos”, de 1998, e “(Aquela) Rua”, do ano passado. Custódio Castelo toca guitarra no último. A produção pertence a Jorge Fernando. Ana Sofia Varela só lançará o seu álbum de estreia em Setembro, pela Popular. Para já, o CD-single de apresentação conta com a participação de músicos como Mário Pacheco, José Moz Carrapa e Zé Nabo.
            Qualquer destes discos tem outra particularidade – uma apresentação notável, evidenciando o cuidado na apresentação de um modelo estético que enobreça o objeto musical. São rostos e corpos “iluminados”, parafraseando o título do álbum de Cristina Branco. Tão iluminados como as vozes a que pertencem.
            Grandes vozes, belas imagens, compositores, poetas e músicos de nomeada.
            Vão lançadas. Mas Amália continua a ser o lampião, na rua escura, que as ilumina.

            Sem fantasmas. Depois de Mara Abrantes (que cantou aos três anos), José Barata Moura, “as músicas dos desenhos animados”, Rui Veloso, Trovante e músicas tradicionais, do Norte, do Minho e da Beira, de onde os seus pais são naturais, Mafalda Arnauth cantou fado pela primeira vez antes de entrar para a faculdade. Não pela voz de Amália mas pela de Teresa Salgueiro, dos Madredeus, onde sentiu “aqueles requebros” do fado. Depois o “Cheira bem, cheira a Lisboa”, que cantava nas “festinhas”. Nunca pensou em abraçar o fado como carreira. Mesmo quando a sua interpretação de “Foi Deus”, no seu primeiro espetáculo “oficial”, no Teatro São Luiz, em Lisboa, juntamente com outras novas vozes que então despontavam sob o patrocínio de João Braga, se destacou como um dos momentos mais arrebatadores da noite. Mudou entretanto de atitude. Hoje interiorizou essa tal estranha forma de vida, “sem fantasmas”, mas também “sem ter tempo para férias, nem para jantares, nem para encontros com amigos”, porque o fado é uma prioridade.
            Cantou, de Amália, “Fadista louco”, “Triste sina”, tudo fados “que não eram muito comuns e que Amália tivesse privilegiado”. Mas também “Maria Lisboa” e, claro, “Foi Deus”. Nos espetáculos continua a cantar “Sabe-se lá”. Reconhece: “Nenhuma de nós, aos vinte e poucos anos, pode pensar competir com um percurso de vida como o de Amália”. Amália já cá não está. “As pessoas já não dizem: lá vem mais uma pessoa para a substituir”. “É preciso ter humildade e a noção das coisas”, diz Mafalda, para quem não há “testemunhos a passar”.
            Além de Amália, Mafalda gosta de João Ferreira Rosa, Beatriz da Conceição, Maria da Nazaré, Mariana Alcoentro. Dos novos destaca Camané – “preenche o tal arrepio que é fundamental no fado”. Poetas: Manuel Alegre, David Mourão-Ferreira, Sophia de Mello Breyner…
            E ela, Mafalda, que fadista sente ser? “Sanguínea”.
            “Quero transmitir às pessoas primeiro aquilo que sinto, depois aquilo que componho, e já aqui se perde algo, e a seguir aquilo que chega ao público, o que ele está a ouvir. Neste processo o que me dá mais agonia é tentar saber como vou fazer a minha alma chegar às pessoas”. Mais agonia ou menos agonia, Mafalda Arnauth pode estar tranquila – a sua alma chega às pessoas.

            Iluminações. Cristina Branco tem o “Corpo Iluminado”, título do seu mais recente álbum, depois de “Cristina Branco in Holland” (1997), “Murmúrios” (1998), “Post-Scriptum” (1999) e “Cristina Branco Canta Slauerhoff”. Natural de Almeirim, foi na Holanda que a sua música começou por encontrar maior aceitação. Situação que o novo disco parece querer alterar.
            Cantou fado pela primeira vez aos 22 anos, em Benfica do Ribatejo, numa festa de amigos. O “Ai Mouraria”, de Amália, que conhecera quatro anos antes, através do álbum “Rara e Inédita”. Estreou-se como profissional um ano depois, na Holanda, numa sala de Amesterdão “onde já tinham estado José Afonso, a Amélia Muge…”. Não canta em nenhuma casa de fados. “Nunca cantei”. De Amália, que “inventou tudo”, canta “quase todos os do Alain Oulman, sobretudo aqueles que são menos fado”. Existe uma explicação para este “menos fado”. É que Cristina Branco define-se como uma cantora de fado, “revolucionária”, e não como uma fadista, na aceção mais tipificada do termo. Resposta irónica a alguns Velhos do Restelo. “Há alguns anos, por altura do ‘Murmúrios’, acharam um crime dizer-se que eu era fadista. Se fadista é a pessoa que está na casa de fados, as toalhas aos quadradinhos, não tenho esse percurso… Houve quem dissesse que para se ser fadista era necessário ter-se nascido em Lisboa e cantar-se numa casa de fados…”
            Dos novos aprecia Mariza, Amélia Muge, Kátia Guerreiro e Camané. Poetas: Pedro Homem de Melo e David Mourão-Ferreira. E as vozes de Sarah Vaughan e Billie Holiday.
            Ainda Amália: “Já na fase da sua decadência, quando corria o boato de que ela não gostava de ouvir cantar mulheres, a sensação que isso me deixou foi de que se eu estivesse a começar nessa altura nem sei se conseguiria prosseguir. Quando se venera um ídolo, e ouvindo essas coisas, pensava que deveria haver alguma restrição…”. Mas considera-se parte de um legado da grande fadista, com quem aprendeu “a contar histórias, que é o mais importante”. O traço fundamental do seu caráter como cantora é o romantismo.

            Nada foi encenado. No hospital de Évora, onde exerce medicina, cura os males do corpo. Com a voz cura os males do espírito. Kátia Guerreiro, médica de profissão, canta o fado. Antes cantou num rancho folclórico dos Açores, onde interpretou pela primeira vez “Amar, amar”, com poema de Florbela Espanca, “que a Teresa Silva Carvalho cantava”, e no grupo “Os Charruas”, passando ainda pela Tuna Médica de Lisboa. Em Outubro do ano passado esteve no Coliseu dos Recreios, no espetáculo “Uma Vela por Amália”. Deu voz a dois fados, de Amália: “Amor de mel, amor de fel” e “Barco negro”. Teresa Silva Carvalho, Maria Teresa de Noronha e Camané, e os poetas Camões, Sophia de Mello Breyner, Fernando Pessoa e “uma grande amiga”, Maria Luísa Baptista incluem-se na lista das suas preferências.
            Nessa ocasião, no Coliseu, estarreceu pela voz e pela extraordinária semelhança física com a diva. Aceita as comparações, mas esclarece que “nada foi encenado”: “Em relação às minhas expressões, a minha forma de franzir as sobrancelhas, é a minha maneira de estar no palco, de cantar, quando sinto não estou a pensar no que estou a fazer, naquilo que as pessoas poderão estar a ver. Canto com o corpo inteiro, se há coincidências ou não… nunca andei a observar a Amália… sempre cantei assim… a única coisa que posso dizer é que sinto muito em mim a Amália quando estou a cantar…”.
            Define-se como “tradicionalista”: “No fado, não se pode mudar nada. O que é, é. Depois há variações…”. “Fado Maior”, o seu disco de estreia, mostra uma cantora “apaixonada” que canta “os amores ardentes e os desamores, as paixões e das desavenças, o desânimo, a luta, a solidão, a alegria”.

            Um mistério. Das cinco, apenas Ana Sofia Varela, natural de Santarém, ainda não lançou nenhum álbum. Mas não vai ser necessário esperar muito. “Ana Sofia Varela” sairá em Setembro. Para já a sua voz magnífica pode ser apreciada num single com dois temas, um deles, “Quem canta na minha voz”, com letra de João Monge e música de Rui Veloso. Presença regular no Clube do Fado, participou no espetáculo “Uma Vela por Amália”. Canta desde criança. Começou por Amália e Nuno da Câmara Pereira, aprendendo cedo a “dobrar a voz”. A participação, há três anos, no espetáculo “De Sol a Lua” abriu-lhe as portas da profissionalização, depois de uma série de presenças no concurso Grandes Noites do Fado. É uma das vozes convidadas do álbum “A Guitarra e Outras Mulheres”, de António Chainho. Participou ainda numa das edições do Festival das Músicas e dos Portos. Gosta de Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Teresa Silva Carvalho e, da nova geração, Kátia Guerreiro, Camané, Joana Amendoeira. E de Amália, “demasiado grande” e aquela que lhe “abriu as portas”. “Gaivota”, “Barco negro”, “Amor de mel…” são alguns dos fados que continua a cantar, apesar de, recentemente, ter arriscado a escrita das suas próprias composições. O disco é a realização de “um dos seus sonhos mais fortes”. Embora considere que o fado não possa mudar muito – “o que muda são as interpretações” – na disputa teórica que se vai travando entre tradicionalistas e revolucionários, Ana Sofia Varela refugia-se, declarando-se “centrista!”. “Tristeza”, “melancolia” e “alegria” são os principais estados de alma que a levam a cantar. Não arrisca procurar mais fundo uma explicação para a música que a arrebata: “O fado é um mistério”.
            Joana Amendoeira é a mais nova. Mas aos 18 anos já gravou dois álbuns, “Olhos Garotos” e “(Aquela Rua)”. Começou a cantar aos 8, fados do Nuno da Câmara Pereira. Em casa ouvia Amália, João Braga, Carlos do Carmo… Cantou na Grande Noite do Fado e em “Uma Vela por Amália”. A partir daí nunca mais parou. Amália alimenta-a de “emoções”. Dela canta de preferência “fados pouco conhecidos”. Lucília do Carmo, Maria Teresa de Noronha, Carlos do Carmo, Hermínia Silva e Camané “alimentam-na” igualmente. David Mourão-Ferreira e Pedro Homem de Mello voltam a ser citados como poetas prediletos. Nos seus discos Joana Amendoeira esperam que as pessoas vejam que “não está a imitar ninguém” e “uma fadista que canta vários sentimentos, além da tristeza”. Aos 18 anos pode ser-se triste? Joana abre um sorriso largo, luminoso. Estava dada a resposta.

Mafalda Arnauth,
Cristina Branco, Kátia Guerreiro,
Ana Sofia Varela, Joana Amendoeira
Com elas o fado reata o seu período de ouro.
Novos fados. Novas fadas.