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10/06/2025

À procura das raízes culturais da Europa [Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

cultura QUINTA-FEIRA, 5 JULHO 1990

 

Começam hoje em Évora, Famalicão e Oeiras os Encontros Musicais da Tradição Europeia

 

À procura das raízes culturais da Europa

 

À procura das raízes culturais. A partir de hoje e até dia 13, terão lugar em Évora, Famalicão e Oeiras, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados pela Cooperativa Cultural Etnia, sediada em Caminha. Da Galiza, Grã-Bretanha, Occitânia e Piemonte virão cultores de antigos sons. Paredes representará o espírito português: a fatalidade e a distância.

 

A iniciativa, que conta com o apoio das três câmaras municipais, tem como objetivo “incrementar o intercâmbio cultural no espaço europeu, com base na promoção e divulgação da música e cultura das suas grandes regiões, e fomentar o contacto entre grupos ou solistas ligados à música tradicional dessas mesmas regiões”. Pretende-se que a série de concertos passe a ter uma realização regular, sempre numa perspetiva de descentralização, procurando deste modo tornar o nosso país num ponto privilegiado de encontro entre as diversas culturas musicais europeias.

            Atuarão ao vivo, entre nós, alguns dos nomes mais importantes de cena “folk” atual, como Andrew Cronshaw, Emilio Cao, Manuel Luna, Perlinpinpin Folc, La Ciapa Rusa, para além do guitarrista português Carlos Paredes.

            Andrew Cronshaw é um músico britânico, responsável por uma original e sedutora fusão das sonoridades tradicionais com o jazz e a música clássica. Como se poderá comprovar pela audição do excelente “Till the Beast’s Returning”, álbum já há algum tempo disponível no mercado nacional. Outras obras importantes são os discos “A is for Andrew, Z is for Zither”, “Earthed in Cloud Valley” (com o guitarrista Martin Simpson), “Wade in the Flood” e o recente “The Great Dark Water”. Intérprete brilhante na cítara elétrica, estende os seus talentos por outros instrumentos – flautas chinesas, concertina, sintetizadores, percussão e o shawm, antepassado medieval do oboé.

            Emilio Cao é galego e já atuou várias vezes em Portugal, tendo colaborado com Fausto em “O Despertar dos Alquimistas” e com o grupo teatral “Os Comediantes”. Exímio executante de harpa, gravou entre outros o marco na evolução da música galega, “Fonte de Araño”. “No Manto da Auga”, “Amiga Alba e Delgada” e “Lenda da Pedra do Destiño” completam a sua atual discografia.

            Também espanhol (se considerarmos que a Galiza é Espanha, o que é duvidoso”...) é Manuel Luna, antropólogo, apaixonado pela música e cultura da região da Cantábria. Publicou vários ensaios e cerca de 30 discos de recolha etnomusicológica. Gravou com os “La Quadrilla” o álbum “Como Hablam las Sabinas”, já importado pela Etnia. A investigar são também “Em los Jardines del Sueño” e o novo “Os Galos de Londres”.

            No Sul de França, entre a Catalunha e a “Côte d’Azur”, fica a Occitânia, região natal dos Perlinpinpin Folc, um dos mais estranhos grupos do movimento folk gaulês. “Musique Traditionnelle de Gascogne”, “Gabriel Valse” e “Al Paїs d’Occitania” são alguns dos seus bons trabalhos. Sobre a sua música escreveu o crítico Pierre Corbefin: “Provoca-nos uma impressão quase opressiva, como se atravessássemos uma paisagem árida, despovoada, apenas habitada por um bater obscuro e pelos rumores da terra”.

            Os “La Ciapa Rusa” são italianos de Piemonte, a Noroeste do país. Combinam a excelência instrumental, através da utilização dos sons tradicionais da sanfona, do violino, do pífaro de pastor e da “musa” (gaita-de-foles piemontesa) com um notável trabalho de harmonias vocais.

            A representação portuguesa está a cargo de Carlos Paredes. Dele o mínimo que se poderá dizer é que é uma parcela importante da alma lusitana. Escutar a sua guitarra, contemplar o modo com se entrega a ela e à música que escorre pelos seus dedos até ao vibrar das cordas, é sentir o Fado e a distância. Ir ao sabor dos “Verdes Anos” até ao oceano sem fim.

            Uma palavra final de louvor para a Etnia que tem vindo a desenvolver um notável trabalho de recuperação e revitalização da cultura tradicional. Desde a realização de espetáculos, exposições e seminários, até à publicação de livros e à importação de pérolas discográficas folk, para já oriundas do país vizinho, como são os álbuns de Rosa Zaragoza, Amancio Prada, Manuel Luna, “La Musgana” e, brevemente, Emilio Cao.

 

PROGRAMA
 
ÉVORA – Praça do Giraldo
 
Quinta, 5 de Julho
MANUEL LUNA
PERLINPINPIN FOLC
 
Sexta, 6 de Julho
LA CIAPA RUSA
CARLOS PAREDES
 
Sábado, 7 de Julho
EMILIO CAO
ANDREW CRONSHAW
 
FAMALICÃO – Jardins da Câmara Municipal
 
Quinta, 5 de Julho
CARLOS PAREDES
ANDREW CRONSHAW
 
Sexta, 6 de Julho
MANUEL LUNA
LA CIAPA RUSA
 
Sábado, 7 de Julho
EMILIO CAO
PERLINPINPIN FOLC

OEIRAS – Auditório do Complexo Social das FA’s
 
Quinta, 5 de Julho
LA CIAPA RUSA
EMILIO CAO
 
Sexta, 6 de Julho
MANUEL LUNA
ANDREW CRONSHAW
 
Sábado, 7 de Julho
CARLOS PAREDES
PERLINPINPIN FOLC
 

16/05/2015

Brass Monkey - Os senhores da folk [Brass Monkey + Garmarna + Kepa Junkera + Manuel Luna + Kornog + Decameron



Y 21|DEZEMBRO|2001
escolhas|discos

GARMARNA
Hildegard Von Bingen
MNW, distri. MC - Mundo da Canção
5|10

KEPA JUNKERA
Maren
EMI, distri. EMI - VC
7|10

BRASS MONKEY
Going & Staying
Topic, distri. Megamúsica
8|10

MANUEL LUNA
Romper el Baile
Resistencia, distri. Sabotage
7|10

KORNOG
Kornog
Keltia, distri. Megamúsica/import. FNAC
7|10

DECAMERON
Mammoth Special
Edsel, distri. Megamúsica/import. FNAC
6|10

brass monkey
os senhores da folk

Em dia de estreia de “O Senhor dos Anéis”, em plena época natalícia, nada melhor que ouvir uma boa pacotada de folk europeia, para prolongar o deslumbramento e animar ainda mais os espíritos. Ainda que nem tudo sejam rosas. Os Garmarna, por exemplo, gravaram um disco inteiro inspirado na música da nossa querida amiga Hildegard Von Bingen, a abadessa medieval que fez um pouco de tudo menos aquilo em que vocês estão a pensar. Já tiveram um lugar de destaque no quadro de honra das grandes bandas suecas com o nome terminado em “arna”, como os Hedningarna, Hoven Drovenarna e Den Fularna, mas neste novo trabalho espalharam-se ao comprido. “Hildegard Von Bingen” é tecnofolk e new age a pensar nos tops de “world music”, com uma piscadela de olho ao público de Enya e outra aos “dance addicts” de costela étnica. Não é a opção em si, mas o oportunismo de uma fórmula estafada, que torna “Hildegard Von Bingen” redundante. Assim, as batidas moem mais do que encantam e, tecno por tecno, porque não experimentar a linha dura da tecnomedievalfolk personificada pelos QNTAL?
Também mais modernaço do que o costume, quiçá impelido pelo êxito alcançado pelo anterior “Bilbao 00:00H”, Kepa Junkera aligeira a respiração da sua “trikitixa” em “Maren”. A lista de convidados inclui um grupo de vozes búlgaras, o gaiteiro MIDI, Hevia, o sanfonineiro Gilles Chabenat, o flamenquista Cañizares, o percussionista fusionista Glen Velez, a diva da folk mediterrânica Maria del Mar Bonnet, o madagasquenho Justin Vali e o ex-Malicorne Hughes de Courson, entre outros. Tudo boa gente, se bem que o virtuosismo do basco sobressaia uma vez mais. Maculado pela comercialite de temas como “No hirahira”, redime-se nas mestiçagens balcânicas (de sabor medieval num maravilhoso “Oliene”) e no folclore basco ferrenho de “Peliqueiroak terranovan”, num álbum marcado ainda por uma forte componente africana e, no título-tema, pelas aragens occitanas dos Verd e Blu.
Boa muito boa, é, como sempre, a superbanda inglesa Brass Monkey (na foto), onde despontam a figura mítica de Martin Carthy, na voz e na guitarra, e do não menos importante John Kirkpatrick, na concertina. Em “Going & Staying”, o legado ancestral das danças “morris” volta a servir de base a incursões épicas alargadas pela tradicional secção de metais, em contraponto com as vocalizações de Carthy, que uma vez mais roçam o sublime. Um álbum que prolonga a tradição de ouro dos melhores de Shirley Collins e dos Albion Country Band, pelos verdadeiros senhores da folk.
Manuel Luna também está de regresso, com o seu grupo La Cuadrilla Maquisera e o álbum “Romper el Baile”. Uma voz única, um estilo de interpretação especial, ao serviço de um reportório onde a música valenciana, sob influência do flamenco e da música árabe, adquire uma estranha sensualidade, própria do Sul, mas tornada quase hipnótica pelo canto de Luna e o violino de Enrique Valiño.
Outro regresso é o dos Kornog, banda bretã que fez algum furor nos anos 80, com “On Seven Winds” (1985). Regresso de saudar, diga-se de passagem. “Kornog”, o novo álbum, não traz nada de novo, é um facto. Mas é preciso? Ouvir os extraordinários desempenhos vocais do escocês Jamie McMenemy, um dos fundadores do grupo, em 1981, é suficiente para nos comover e fazer recordar como a folk podia ser exaltante na década dos Planxty. Maturidade (fazem parte do grupo as raposas velhas da folk bretã, Jean-Michel Veillon, na flauta, e Nicolas Quemener, na guitarra), uma dedicatória ao rei deposto, Alan Stivell, e alguma água deitada na fervura nos instrumentais, justificam uma audição atenta.
Para quem aborda a folk pelo lado do rock progressivo, há uma proposta razoável: a reedição, aumentada com um tema extra, de “Mammoth Special”, álbum de 1974 dos Decameron. Como outras bandas da mesma época, imaginavam o folkrock como uma salganhada de imaginação, arranjos impensáveis e contrastes de várias cores e feitios. Se é verdade que um título como “Rock and roll woman” é de molde a afugentar qualquer purista, não deixa de fazer sentido arrumar “Mammoth Special” numa coleção exaustiva dos anos 70, ao lado dos Strawbs, Spirogyra, Lindisfarne, Gryphon (“Jan”, o tema a reter, cheira à Primavera de “Treason”) ou Horslips, todas elas da mesma família dos Decameron.