Mostrar mensagens com a etiqueta Lounge Lizards. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lounge Lizards. Mostrar todas as mensagens

19/12/2016

Celebração dos lagartos [Lounge Lizards]

cultura QUINTA-FEIRA, 22 ABRIL 1999

Lounge Lizards dão concerto memorável no Centro Cultural de Belém, em Lisboa

Celebração dos lagartos

Foi a celebração da grande música e de um grande grupo, parafraseando o poema de Jim Morrison, "Celebration of the lizard". John Lurie e os seus Lounge Lizards, como o vocalista-xamã dos Doors, foram possuídos pelos espíritos. Num dos concertos do ano.

Há muito que não se assistia em Portugal a música do quilate da que John Lurie e os Lounge Lizards apresentaram na noite de terça-feira no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB). John Lurie tinha razão na entrevista que deu ao PÚBLICO (no suplemento Artes & Ócios da passada sexta-feira). Ele e o seu grupo podem, de facto, fazer tudo. E fizeram. De forma superlativa.
            Os nove elementos que estiveram em palco não são grandes executantes, no sentido técnico do termo. São, antes, grandes músicos que se deixaram possuir pelo espírito da música. Ao longo de duas horas e meia, passou pelo CCB a própria dinâmica da vida, os seus paradoxos e incertezas. É isso que John Lurie imprime às suas composições e faz respirar nos músicos que o rodeiam: uma girândola desconcertante de referenciais estéticos que, a cada instante, colidem com os lugares-comuns de géneros como o jazz, o rock, a "world music" e a música de câmara.
            Curiosamente, a noite começou mal, fazendo prever o pior. Com um som empastelado e os músicos tensos a esconderem o que estava para vir. Desagradado, Lurie passeou em frente deles, levantando os braços, a pedir que abrissem os espíritos e o som. E, de súbito, fez-se luz: tudo começou a bater certo. A celebração subiu sem parar, até atingir o céu. Cada músico entregou-se ao som do coletivo, numa cascata de emoções. Foi jazz mas também foi rock. E rituais africanos. E cadências latinas transfiguradas pelo "free". É possível, claro, atribuir uma memória a esta música que aflorou o eixo europeu de orquestras como a de Mike Westbrook e Mike Gibbs ou grupos como os Nucleus ou Achim Reichel. Mas os Lounge Lizards não ficam muito tempo parados na mesma estação, retendo apenas o essencial.
            Uníssonos poderosos chegaram perto da histeria de uma liberdade assumida até às últimas consequências. Uma máquina de prazer que carburou em explosões sucessivas do trompetista Steven Bernstein e do saxofonista-tenor Michael Blake. Evan Lurie, irmão mais novo do líder da banda, rubricou ao piano um solo prodigioso onde couberam o romantismo, o minimalismo, traços de Keith Tippett e segredos que apenas ele conhece. Tony Scherr solou como se respirasse no seu baixo elétrico, transformado num corpo de mulher. Mauro Refosco, o percussionista brasileiro, coloriu com sonoridades afro uma música que soltou amarras e queimou calorias.
            Num dos temas, Doug Wiselman fez a sua guitarra soar como uma "sitar" criando um raga de jazz psicadélico. Lurie foi o maestro. O sábio. O louco. As frases melódicas que fez nascer dos seus saxes alto e soprano escaparam a todas as previsões e apostas. Clássico de uma forma satírica ou humilde como um tocador de rua, Lurie demonstrou a sua veia de "entertainer", com um sentido de humor que fez explodir de riso a assistência. Ironizou sobre os hotéis em que os lençóis da cama estão tão apertados que tornam impossível a quem se deita mexer os pés ou sobre o pânico das hospedeiras de voo quando os passageiros se recusam a comer os pacotes de amendoins.
            E insistiu com as pessoas instaladas nos camarotes mais altos do auditório para se atirarem lá de cima: "É um espetáculo tão belo, como as folhas das árvores a caírem no Outono, só que em vez de folhas, são pessoas!...".
            O público não teve outro remédio: rendeu-se. Dois "encores" em que os níveis de adrenalina aumentaram ainda mais culminando num dos momentos inesquecíveis da noite: um "blues" ensanguentado por solos arrancados do fundo da alma pelos três sopradores - Bernstein, Blake e John Lurie. Ficou um silêncio comovido e a sensação de ter acontecido algo de único nos palcos portugueses. John Lurie aproximou-se do microfone para murmurar simplesmente: "that's it!".

15/11/2016

John Lurie, mais estranho do que o paraíso

ENTREVISTA COM O LÍDER DOS LOUNGE LIZARDS, QUE ATUAM A 20 NO CCB

JOHN LURIE, MAIS ESTRANHO DO QUE O PARAÍSO

Embora fosse o niilismo da “no wave” que o arrancou para fora do gueto do jazz convencional, John Lurie voou rapidamente para o alto com os seus Lounge Lizards, o seu grupo de sempre com o qual atuará pela primeira vez em Portugal. Se os microfones ajudarem, poderá ser uma "experiência religiosa". De música "estranha e maravilhosa", o nome da sua editora.

            O Centro Cultural de Belém (CCB) poderá ser palco, no dia 20, às 21h30, de um dos concertos do ano. Os Lounge Lizards prometem confundir os puristas do jazz. John Lurie, líder da banda, saxofonista, compositor, ator e quase, quase, o autor do discurso de Roberto Benigni na cerimónia dos Óscares, falou ao PÚBLICO da impressão que lhe causou ouvir, há 20 anos, as contorções musicais de James Chance, e da impressão que ainda lhe causa ver Benigni agir como um palhaço.
            Um aviso: cuidado com o homem antes de pegar no saxofone. É que, como a personagem que interpretou num filme esquisito de Amos Poe, "Subway Riders", pode tornar-se de súbito num assassino e matar alguém. John Zorn, por exemplo, o rei da música sado-maso, que às vezes o chateia imensamente.
            PÚBLICO – “Strange and Beautiful Music”, a editora que criou, foi feita para editar toda a espécie de discos ou obedece a algum critério estético?
            JOHN LURIE – Destina-se essencialmente a editar a minha própria música da maneira mais pura possível.
            P. – O que quer dizer com “pura”?
            R. – O que acontece é que quando se grava um disco normalmente a editora tenta modificar a música. Tentam alterar a capa do álbum, a duração dos temas, tudo de que se conseguem lembrar.
            P. – Duas das suas bandas sonoras a solo, “Stranger than Paradise” e “Down by Law”, vão ser reeditadas na “Strange and Beautiful Music”. Não estava satisfeito com as edições originais, para a Crammed?
            R. – A Crammed deve-me dinheiro há tanto tempo que já nem me consigo lembrar de quanto. Não pagaram, continuam a não pagar e nunca me hão-de pagar. Parece que estão com problemas financeiros e que a coisa está mesmo mal, por isso...
            P. – Outra banda sonora que assinou recentemente, “African Swim”, é considerada música excelente para um filme bastante mau. É assim?
            R. – Não é, de facto, um filme muito bom. Acabei por retirar a música da companhia e guardá-la para edição fora do contexto do filme.
            P. – Para “Manny & Lo”, um filme de Lisa Kruger, diz-se que procurou fazer algo com a mesma carga de energia dos Nirvana. É verdade?
            R. – Isso foi porque ela já conhecia uma canção deles quando estava a fazer a montagem do filma mas não tinha meios económicos para a poder utilizar. É uma canção onde uma rapariga dança ao som de um autorádio, não me lembro do título. Disse-lhe que poderia fazer uma coisa semelhante e foi isso mesmo que acabei por fazer.

“Posso fazer tudo”

            P. – Quer dizer que tem a alma de um rocker?
            R. – Quer dizer que posso fazer tudo.
            P. – Como “Fishing with John”, música para a série televisiva sobre pesca que gravou com amigos como Tom Waits, Dennis Hopper, Matt Dillon ou Willem Defoe? Uma das coisas estranhas deste disco é o facto de quase não tocar saxofone, passa o tempo a cantar, a tocar guitarra, banjo ou uma harmónica...
            R. – Toco saxofone soprano em dois temas. São composições para televisão e era preciso algo mais apropriado ao que se passava nos programas. Depois, o saxofone é um instrumento estranho nas minhas mãos. Tenho sempre outras coisas com que me preocupar, por exemplo o facto de a banda não tocar desde Novembro passado. Recomecei a treinar no sax no mês passado mas quando se está parado durante algum tempo e depois se recomeça é terrível!
            P. – Depois de “Voice of Chunk”, os Lounge Lizards regressaram com um novo álbum de estúdio, “Queen of all Ears”. Confirma que o título foi aproveitado de uma frase de “Electric Ladyland”, de Jimi Hendrix?
            R. – Sim, a frase aparece nas notas de capa, onde ele diz “And on he walked until after crowning Ethel the dog, queen of ears”. Eu modifiquei-a para “Queen of all Ears” o que altera um bocado o sentido inicial, seja ele qual for.
            P. – Já o ouviram dizer que ao vivo a música dos Lounge Lizards tem uma “ferocidade” que não passa no estúdio. Os dois volumes que gravaram em 1991, “Live in Berlin” são, de facto, algo de muito especial. Porque é que não gravaram mais álbuns ao vivo depois disso?
            R. – Deve-se a questões técnicas difíceis de resolver. Em “Live in Berlin” não gosto da maneira como soam o saxofone e o violoncelo. O problema está em todos aqueles microfones espalhados pelo palco quando se trata de uma banda grande. Calvin Weston, o baterista, por exemplo, tinha o volume dos microfones incrivelmente alto, daí o som que saía ser pavoroso. E como não gosto de tocar com auscultadores nos ouvidos... Apesar disso penso que fizemos um bom álbum ao vivo gravado em Tóquio muito tempo antes, “Big Heart”.
            P. – Depois de alguns anos de ausência, o seu irmão Evan Lurie regressou ao grupo. Quem é que tomou a iniciativa?
            R. – Penso que se fartou de passar pelo meu irmãozinho mais novo, já que a sua carreira a solo até estava a correr bem, com imensos convites para bandas sonoras. Aconteceu também que íamos partir para uma digressão e o nosso organista da altura, John Medeski, não podia tocar. Convidei Evan para o substituir, só para essa digressão, mas acabou por ficar também para a seguinte, permanecendo no grupo até hoje.
            P. – O que tem a dizer sobre outros dois músicos importantes que passaram pelos Lounge Lizards, Curtis Fowlkes e Roy Nathanson, que depois saíram para formar os Jazz Passengers? Acha que são o contraponto aos Lizards?
            R. – Tenho a certeza que aprenderam muita coisa comigo. Algum do material que tocam é muito parecido com a nossa música. Outro nem tanto. Mas gosto de os ouvir. O Roy consegue tocar tão desafinado...

Música religiosa por rapazes espertos

            P. – Disse uma vez que em termos de bom relacionamento entre os músicos, os Lounge Lizards eram mais parecidos com os Chieftains do que com Winton Marsalis. Mas os Chieftains têm praticamente a mesma formação desde que começaram, há mais de 30 anos, enquanto os Lizards estão sempre a trocar de músicos. Como explica esta comparação?
            R. – Há músicos que estão a tocar comigo há cerca de dez anos, sabe? E a banda que irá tocar a Lisboa é a mesma há três anos e meio.
            P. – É a mesma formação que toca em “Queen of all Ears”?
            R. – Não, há três músicos novos. É que o álbum só saiu o ano passado mas já estava gravado há mais tempo. Problemas legais com a editora, a Warner Brothers, obrigaram a sucessivos adiamentos.
            P. – Um dos temas de “Queen of all Ears”, “The John Zorn S & M circus”, é uma homenagem a John Zorn, uma crítica ou uma brincadeira?
            R. – Penso que é uma homenagem e um insulto. Gosto de John Zorn mas há ocasiões em que ele dá cabo dos meus nervos. Há alturas em que adoro ouvi-lo tocar saxofone mas noutras é tão chato que sinto vontade de matá-lo.
            P. – Que tipo de experiência é que teve em Marrocos ao ouvir tocar alguns músicos gnaoui? Na altura falou num experiência religiosa...
            R. – Foi num período em que a minha escrita estava a sofrer um processo de transformação. Um amigo meu, francês, levou para o meu quarto, a meio da noite, dois músicos gnaoui [NR: de raça negra, descendentes de escravos, oriundos da Guiné ou do Sudão]. Toquei com eles, foi como tocar com um baixista e um baterista novos. Nunca os tinha ouvido antes, mas senti de imediato a sua influência. Foi como se a música deles libertasse a minha música. Como se deitasse abaixo um muro que me impedia de avançar.
            P. – Mas, e insisto, chegou a referir-se ao ato de tocar como um “ritual religioso”. Poderia ser uma frase de John Coltrane. Ou de John McLaughlin, que um dia afirmou que não tocava música, era a música que o tocava a ele.
            R. – Sim, no papel soa um bocado a uma frase batida, mas é verdade, a melhor música é algo que passa através de nós. Limitamo-nos a ser antenas. Mas não me sinto muito à vontade a falar deste assunto, até porque a minha nova máxima é “música religiosa tocada por rapazes espertos”, o tipo de pessoas que está sempre a gozar com qualquer coisa.

Benigni, como Einstein

            P. – Como é que vai a sua atividade de ator?
            R. – Não sou verdadeiramente um ator. Nos filmes de Jarmusch é diferente, porque se trata de uma forma muito aberta de fazer cinema. Mas em todos os filmes de Hollywood em que participei [“A Última Tentação de Cristo”, de Scorsese, “Paris, Texas”, de Wim Wenders ou “Coração Selvagem”, de David Lynch] senti-me numa prisão.
            P. – Contracenou com Roberto Benigni em “Down by Law” e entrou num filme já realizado por ele, “O Pequeno Diabo”. O que pensa deste italiano consagrado pelos Óscares?
            R. – Podia escrever um livro sobre Benigni! É um génio maravilhoso. Pediu-me para eu escrever o discurso para os Óscares! Avisei-o para não agir como um bobo [do outro lado da linha John imite uns ruídos grotescos a imitar os trejeitos vocais do realizador/ator italiano]. As pessoas não conseguem ver a pessoa maravilhosa que ele é, porque ele age como um palhaço. É como o Einstein, tem um coração gigantesco. Sinto pena quando o vejo agir daquela maneira. E ele é precisamente o oposto, na vida real, muito calmo e ponderado. Mas na televisão, não há nada a fazer [John desata outra vez a gritar como um louco...].
            P. – Quando os Lounge Lizards lançaram o primeiro álbum, no início dos anos 80, ainda ecoavam os ruídos produzidos pela cena “no wave”, de grupos como os Mars ou os DNA. Identificava-se como todo aquele niilismo?
            R. – Esses tipos ajudaram-me. Eu andava a tocar jazz, de uma maneira normal, mas odiava o que fazia, sentia que era um anacronismo. A “no wave” fez-me descobrir uma energia nova.
            P. – Esclareça um enigma. Lembra-se de um outro filme em que participou, “Subway Riders”, de Amos Poe? Também entrava outro saxofonista da “no wave”, James Black, ou James Chance...
            R. – [interrompendo de imediato] Com certeza! Quando ouvi tocar James Chance pela primeira vez, há 20 anos, achei-o absolutamente incrível, a coisa mais espantosa que alguma vez vi!
            P. – O enigma é outro. É que a personagem do saxofonista assassino tanto é interpretada por si como, noutra cena a seguir, por outro ator que, ainda por cima, é parecido consigo. O que é que se passou?
            R. – Sim, era eu, só que desisti a meio e foi o próprio realizador que acabou por ter que desempenhar o meu papel! Fui depois ver o filme e há uma cena, perto do final, em que a personagem é baleada e é transportada, moribunda, no banco de trás de um carro, lançando a seguinte tirada: “Não sou o saxofonista, sou o realizador do filme!”. Nessa altura abandonei a sala. Custa-me acreditar que alguém tenha visto esse filme.
            P. – A personagem matava sempre alguém, depois de tocar saxofone...
            R. – Eu prefiro matar antes de tocar! (risos)

sexta-feira, 16 Abril 1999
ARTES & ÓCIOS