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26/09/2016

Kreidler + To Rococo Rot

Quarta-feira, 16 Abril 1997 POP ROCK
poprock

Krautrock parte 2

KREIDLER
Weekend (8)
Kiff, distri. Megamúsica
TO ROCOCO ROT
Veiculo (8)
City Slang, distri. Música Alternativa

recentemente, a propósito do disco dos Scenic, escrevemos sobre algumas das limitações que desvalorizam um número razoável das novas bandas alinhadas no “pós-rock”. Não basta amontoar batidas maquinais, guitarras abstratas e ambientes nevoentos. São necessários um propósito e uma estética individualizados, o conhecimento da tradição animado por um genuíno propósito de evolução.
                Os Kreidler, como os To Rococo Rot, têm, à partida, uma vantagem sobre a concorrência, são alemães, naturais de Dusseldorf, estando, por este motivo, localizados no próprio “local do crime”, a Alemanha, sede, nos anos 70, das bandas inspiradoras do movimento: Cluster, Neu! E, precisamente, La Dusseldorf. Ainda que Stefan Schneider, mentor dos dois projetos, prefira citar, como fonte de inspiração, os Can, afastando-se quer daquelas bandas quer da concorrência dos grupos de Chicago como os Ui e Tortoise.
                Com “Weekend”, álbum totalmente instrumental, os Kreidler têm legitimidade para se reivindicar herdeiros do “krautrock”, de novo na crista da onda (a revista “Mojo” dedica ao movimento a capa e 24 páginas da sua edição de Abril!). Imaginativo e conceptualizante nas suas construções horizontais que remetem para fórmulas musicais marcadas por forte componente histórica e simbólica, “Weekend” recupera os microcosmos fechados dos Cluster, em temas como “Sand colour classics”, “Polaroid” e “Hillwood”, e as progressões marciais dos Neu! e La Dusseldorf, em “Reflections”. Seguem, inclusive, a mesma técnica de títulos de faixas com uma única palavra (“Shaun”, “Spat”, “Lio”, “Desto”, “Hillwood”, “Reflections”, “Telefon”, “If”), servindo de referencial a esses cursos universos destituídos de romantismo mas dos quais se desprende, ainda, uma estranha poesia.
                Os To Rococo Rot (Schneider com os irmãos Robert e Ronald Lippok) são ainda mais minimalistas e frios do que os Kreidler. E se na música destes últimos se apanham ainda vestígios de um humor que nos Cluster de manifestou no delicioso “Zuckerzeit”, nos Rococo avultam os ciclos fabris dos dois primeiros álbuns da dupla Moebius/Roedelius, “Cluster” e “Cluster II”. “Veiculo” é pele contra metal, algoritmo de uma lógica implacável em progressão para um impossível clímax. Como em “Crash”, de Cronenberg, pulsão sexual destituída de paixão.
                Em qualquer dos casos é uma outra música, caracterizada pela frieza e pela distância, que vem preencher os gráficos do imaginário tecnopsicológico dos anos 90. Na ficha técnica de “Weekend” os Kreidler fazem uma saudação a Klaus Dinger, figura proeminente da primeira geração do “krautrock” e membro dos Kraftwerk, Neu! e La Dusseldorf. A Alemanha volta a agitar-se com as manobras dos novos “men machine”.

09/10/2014

Parque de diversões eletrónicas [Kreidler]



Y 4|MAIO|2001
ao vivo|escolhas

parque de diversões eletrónicas

Brincar ou não brincar, eis a questão que nos últimos anos tem sido colocada no contexto da eletrónica alemã. “Funny electronics”, o “Fun, fun, fun” que os Kraftwerk transformaram em 1974 em “Wahn, wahn, wahn” no álbum “Autobahn”, foi a etiqueta “Toy ‘R’ Us” com que se designou uma música que recuperou para as máquinas o sentido de humor. Os Kreidler, como os To Rococo Rot, Tarwater, Schlammpeitziger, Mouse on Mars, Schneider TM e B. Fleischmann, fazem parte desse contingente que transformou os circuitos eletrónicos em rocas de “kindergärten” (jardim infantil).
            “Autobahn” dos Kraftwerk foi, de resto, com “Zuckerzeit”, dos Cluster, um dos primeiros álbuns de eletrónica com origem na Alemanha a introduzir este conceito de diversão numa música que radicava no estruturalismo de compositores como Stockhausen ou no auto-convencimento do rock progressivo inglês de tendência eletrónica, nomeadamente os Pink Floyd, ou projetos mais radicais como Tonto’s Expanding Head Band e Zygoat. A exceção pioneira era “An Electric Storm” (1969), dos White Noise, mas quem os conhecia? É verdade que nos EUA Raymond Scott já publicara nos anos 60 o compêndio de anedotas eletrónicas para o século vindouro, mas isso é outra história, só mais tarde conhecida…
            Passado um quarto de século sobre a extinção da primeira vaga do “krautrock”, e com a transição dessa eletrónica “bonne vivante” assegurada nos anos 80 por Kurt Dahlke (Pyrolator), Der Plan e Holger Hiller, a Alemanha redescobriu na década seguinte o prazer, entretanto desbarato pela “cold wave” e pela música industrial, da manipulação dos sintetizadores e a assunção clara da melodia em estreita colaboração com o groove.
            Esta apropriação só foi possível graças não só à revalorização do krautrock pelas novas gerações, como também pela reutilização dos sintetizadores analógicos. Não é possível brincar-se com um “powerbook” ou com um programa de composição. Possível é, mas não tem graça… o computador é uma máquina fria. Quem assistiu a alguma das atuações que Felix Kubin deu em Portugal, perceberá que o “show” circense que ofereceu, só é possível através do gesto de tocar, da relação direta com as teclas, os botões e os cabos de interligação de relíquias como os sintetizadores Moog, Korg ou A.R.P.
            Andreas Reihse, teclista dos Kreidler, confessava, ao PÚBLICO, a sua admiração, além dos Kraftwerk, Can, Neu!, La Düsseldorf, Cluster, Harmonia e Michael Rother, por Pyrolator, que produziu o seu 12 polegadas, “Fechterin”. E sob a designação Deux Baleines os Kreidler gravaram nos próprios estúdios Atatak, sede da eletrónica “de sorrisos nos lábios” alemã dos anos 80. Nessa entrevista, manifestava ainda a sua antipatia pelos samplers (“barulhentos”, “sujos”) e a vontade de “exprimir sentimentos como a saudade” através de “sons e melodias o mais puros possível”. Pureza e simplicidade apenas ao alcance das crianças, que continuam a tornar emocionalmente irresistível a música dos Kreidler, em álbuns como “Weekend” e “Appearance and the Park”, mesmo se no mais recente, “Kreidler”, a saída de Stefan Schneider tenha determinado uma aproximação às correntes ambientais da música de dança. Mas o “chill out” dos Kreidler continua tão carregado de doçura, humor e mistério como dantes.

KREIDLER

PORTO| Aniki-Bobó
Tel. 22 3324619. Sábado, 5, às 24h.

18/08/2014

Kreidler - Kreidler



6 Outubro 2000
POP ROCK - DISCOS

Kreidler
Kreidler (7/10)
Wonder, distri. MVM

Dois álbuns, “Weekend” (1996) e “Appearance and the Park” (1998), com a sessão de remisturas “Resport” pelo meio, foram suficientes para os Kreidler serem comparados aos Kraftwerk ou elogiados publicamente por gente como David Bowie, Arto Lindsay, Pavement, Stereolab e Nicolette. Stefan Schneider, que partilhava a sua atividade com os To Rococo Rot, abandonou entretanto o grupo no final das gravações de “Appearance and the Park” ficando o grupo reduzido ao trio Andreas Reihse, Detlef Weinrich e Thomas Klein, auxiliados pelo baixista substituto Alex Paulick. “Kreidler” surge então como um renascimento que, se não rompe em absoluto com o passado, o reformula segundo novos modelos não inteiramente satisfatórios. Permanecem os ambientes de nostalgia, mas a verdade é que esta nova coleção de naturezas-mortas eletrónicas padece de alguma anemia e autocontemplação. O tema de abertura, “Circles”, contribui com mais uma pedra para a construção da estátua de homenagem aos OMD. O mesmo acontece com “Mnemorex”, uma canção da boa velha pop eletrónica, vocalizada pelo convidado Momus. “Bewitched” é, por outro lado, a primeira incursão declarada dos Kreidler no “easy listening”, mas o encosto comodista a soluções preguiçosas que passam pelo trip-hop, o “chill-out” e o “ambiente tecno” sugerem que o ambientalismo se recolheu, veremos se no tempo de um álbum ou em definitivo, no palácio gasto dos “estetas” fartos de aventuras. Ilustrativos desta desistência, temas como “Sans soleil”, “Beauties”, “Ashes” ou “The boy who wonders” dão aos Kreidler a imagem daquilo que eles nunca foram: uma banda vulgar.