Mostrar mensagens com a etiqueta Krautrock. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Krautrock. Mostrar todas as mensagens

12/06/2015

Pergunta a F. Magalhães



"Pergunta a F. Magalhães" (brotherjames)

brotherjames
13.09.2001 130152

Fernando:

Tendo em conta que sou um apreciador de estilos como o punk, noise, freejazz, pós-punk e rock em geral gostaria que me aconselhasses alguns discos de krautrock e folk (10) que tu aches que eu poderia apreciar:

P.S:Não precisas de incluir os Can e os Neu...

Obrigado

Saudações


Fernando Magalhães
13.09.2001 140257

punk folk kraut


Irmão Jaime

Há por onde escolher, dentro do kraut e da folk, com noise, libertinagens free e agressividade q.b.
Mas vais ter que esperar até amanhã, para eu poder consultar os meus ficheiros em casa de modo a enviar-te uma lista decente com, pelo menos, 100 títulos diferentes! (com os Can e os Neu! de fora)

FM


Fernando Magalhães
18.09.2001 160441

Power kraut p/Brotherjames

Como tinha prometido:

AGITATION FREE: 2nd (1973) 8/10
AMON DÜÜL II: Phallus Dei (1969) 8/10
AMON DÜÜL II: Yeti (1970) 9/10
ASH RA TEMPEL: Ash Ra Tempel (1971) 7/10
ASH RA TEMPEL: Schwingungen (1972) 7/10
BRAINTICKET: Cottonwoodhill (1971) 8/10
CAN: Monster Movie (1969) 8/10
CLUSTER: Cluster II (1972) 9/10
CONRAD SCHNITZLER: Rot (1973) 9/10
CONRAD SCHNITZLER: Blau (1973) 9/10
COSMIC JOKERS (THE): The Cosmic Jokers (1974) 7,5/10
COSMIC JOKERS (THE): Galactic Supermarket (1974) 8/10
DZYAN: Time Machine (1973) 7/10
FAUST: Faust (1971) 10/10
FAUST: So Far (1972) 9,5/10
FAUST: The Faust Tapes (1973) 10/10
GILA: Gila (1971) 7,5/10
GURU GURU: UFO (1970) 7/10
GURU GURU: Hinten (1971) 8/10
GURU GURU: Känguru (1972) 9,5/10
GURU GURU: Guru Guru (1973) 8,5/10
KRAFTWEK: Kraftwerk (1970) 9,5/10
KRAFTWEK: Kraftwerk 2 (1971) 8/10
LA DÜSSELDORF: La Düsseldorf (1976) 8/10
MOEBIUS & PLANK: Rastakraut Pasta (1979) 8/10
POPOL VUH: Affenstünde (1971) 8/10
TANGERINE DREAM: Electronic Meditation (1970) 7/10
WALLENSTEIN: Blitzkrieg (1972) 8/10

Procura e diverte-te!

FM

10/08/2014

O século da eletrónica kraut [Krautrock]



21 de Julho 2000

Dossier Alemanha

O século da eletrónica kraut

Existe um elo a unir a música eletrónica alemã dos anos 70, 80 e 90. O krautrock cedeu o lugar à “neue deutsche welle” e esta aos atuais magos do “powerbook”. Os sonhos da “kosmische muzik” transformaram-se em pesadelos industriais e estes deram lugar a brincadeiras de crianças. Mas há quem nunca tenha perdido a última carruagem deste comboio. O PÚBLICO traçou o mapa dos principais músicos, conceitos, movimentos que ao longo das últimas três décadas, na Alemanha, desenvolveram novas relações entre o Homen e a máquina.


ANOS 70: O SONHO

            Tínhamos ficado em meados dos anos 70, na Alemanha (ver “dossier” sobre Krautrock na edição do SONS de 7 de Maio de 1997). A eletrónica (pela via dos mestres “eruditos”, como Karlheinz Stockausen e Oskar Sala ou do space-rock-psicadélico excretado dos Pink Floyd de “Atom Heart Mother” e “Meddle”) mandava. Kraftwerk, Klaus Schulze, Tangerine Dream, Ashra, Faust, Can, Amon Düül II, Popol Vuh, Harmonia, Cluster, Yatha Sidhra, Mythos, Agitation Free, Eiliff, Wallenstein, Dzyan, Eroc, Achim Reichel, Embryo, Sand, Annexus Quam, Cornucopia, Brainticket, Cosmic Jokers viajavam pelos novos espaços abertos pelos osciladores e filtros LFO e VCF.
            As palavras de ordem eram: Kosmische, freakout, psicadelismo, planante, cogumelos mágicos, jam, space rock, experimentalismo, zen, meditação, free rock, LSD, improvisação, alucinação, sintetizadores gigantescos usados também como elementos estéticos/decorativos, agit rock, romantismo, vida em comuna, underground, ficção científica…
            Editoras principais: Ohr, Kosmische, Muzuk, Baccilus, Bellaphon, Brain, Kuckuk, Pilz, Sky.
            Quando o punk rebenta em Inglaterra o krautrock agonizava já com o rock sinfónico e o hard rock FM de bandas como os Atlantis, Eloy, Birth Control, Message, Jane e Triumvirat. Os clássicos que resistiram e prosseguiram carreira traçavam o seu próprio caminho alheios aos movimentos e às correntes de estilo: os Tangerine Dream vendem milhões e batizam a new age; Klaus Schulze troca de equipamento e regula pela 346ª vez os seus sintetizadores para tocar o mesmo tema na sua viagem sem fim pelo cosmos; os Can hipnotizam-se a eles próprios e Holger Czukay é o único que se mantém acordado; os Popol Vuh meditam numa igreja; os Embryo descobrem o jazz e a world music; os Faust entram num período de hibernação de 20 anos; os Kraftwerk transformam-se em robôs e inventam o som da modernidade.
            Mas era necessário fazer a transição do krautrock para os anos 80, acompanhando as novas revoluções da tecnologia, da sensibilidade e das ideias. Os principais transmissores do testemunho foram – depois da papinha ter sido toda feita pelos Neu!, punks “avant la lettre” – os La Dusseldorf, os Cluster e os D. A. F. Os La Dusseldorf fizeram a adaptação germânica da “new wave”, a chamada “neue deustche welle”, colando-lhe a batida electro-rock conhecida como “motorika”. Os Cluster abriram caminho ao “dark ambient” e ao industrialismo; os D. A. F. foram militantes do “disco” na versão sadomaso/militarista, escancarando as portas da cultura das discotecas. Uma última palavra de novo para os Cluster, que teriam de esperar mais uma década para verem o sentido lúdico da sua obra-prima, “Zuckerzeit”, ser reconhecido como absolutamente fulcral para o desenvolvimento de grande parte da produção eletrónica europeia dos nossos dias. Não estavam sós nesse papel: Kurt Dahlke, enquanto Pyrolator ou com os Der Plan, fazia com dez anos de antecedência a eletrónica brincalhona dos anos 90.

ANOS 80: A ENERGIA

            Desbravado o território, o cinzento e o niilismo dos anos 80 abateram-se com violência sobre os novos “eletrónicos” alemães. A música industrial (preconizada de forma exemplar na década anterior pelos Kluster/Cluster, em todos os álbuns até “Cluster II”, pelos Kraftwerk até rolarem na auto-estrada, e por Conrad Schnitzler na solidão da sua obra a vermelho, em “Rot”) foi rapidamente assimilada e posta em prática, como sempre acontece com a maior parte dos músicos alemães, na sua vertente mais radical e experimentalista. Como os Einsturzende Neubauten e a sua declaração de intenções de destruição não só do rock como de toda a música em geral, à frente de todos os outros. Ao lado deles, Dieter Moebius, em paralelo com o seu trabalho nos Cluster, punha igualmente em funcionamento a sua própria indústria de metalurgia, com o auxílio da eminência parda Conny Plank.
            Mas outros nomes emergem como pilares da eletrónica que vingou até aos nossos dias. Holger Hiller, vindo dos Palais Schaumburg, assina um trabalho, tão pioneiro como genial, de manipulação dos samplers. Holger Czukay investe com mais moderação na mesma área que corta a golpes de “dub”. Asmus Tietchens e Peter Frohmader perfilam-se ao lado de Conrad Schnitzler na elaboração de músicas sombrias que combinam as arquiteturas e o imaginário gótico com a maquinaria industrial e um ambientalismo do inferno que era o negativo da “cosmic music”. Michael Rother percorre a década a desenhar modelos românticos, adaptando a “motorika” a um “neo-easy listening” que mal se adivinhava nos dois principais grupos a que pertencera, os Neu! e os Harmonia. O segundo Cluster, Hans-Joachim Roedelius, hesita entre o piano impressionista, o ambientalismo de Eno e sonoridades mais experimentais.
            Com menor projeção internacional, mas representativos de uma originalidade assumida a cem por cento, destacam-se ainda: Klaus Kruger (considerado por alguns o Brian Eno alemão), H. N. A. S. (Hirsche Nicht Aufs Sofa), Die Krupps, Die Todliche Doris (lançaram uma edição composta por sete minúsculos discos de brinquedo, onde esses discos podiam ser tocados…), Propeller Island, Hubert Bognermayer & Harald Zuchrader, Camera Obscura, Cranioclast, Michael Obst, Peter Schaefer, Sträfe Für Rebellion, Jörg Thomasius, Uludag, Harald Weiss, Die Vögel Europas.
            Palavras de ordem: industrial, teatro, cabaré, maquilhagem, sintético, disciplina, uniforme, tecnologia, motor, bandeira, eletricidade, metal, vida na cidade, heroína, bizarro, máscara, homem-máquina, sampler, apocalipse.
            Principais editoras: Ata Tak, Badland, Erdenklang, Innovative Communications, Sky, Warning, Zick Zack.

ANOS 90: O PRAZER

            Tudo se vai, literalmente, misturar, nos anos 90. Logo no início da década, em 1991, os Kraftwerk cumprem pela última vez o seu papel de profetas, com o lançamento de “The Mix”. Pela primeira vez na sua música, a eletrónica, que durante duas décadas fora ensinada a emancipar-se no seio da música popular, nasce do reprocessamento e reciclagem de material antigo. Não é um ato de preguiça mas um ato de visão. Os Kraftwerk remisturavam os Kraftwerk. A música dos anos 90 remistura e remistura-se “ad infinitum”. Ralf Hutter e Florian Schneider tinham completado a sua obra. A partir daí o futuro deixaria de lhes pertencer.
            O computador, utensílio musical por excelência da década de 90, mostrava nesse álbum o seu rosto de grande reciclador, produtor de clones infinitos, enumerador, arquivador, programador. A música abandonava o conceito de colagem (de que o sampler fora o derradeiro e absurdo instrumento musical humanista) para se abandonar à ideia de síntese.
            Sínteses múltiplas de todas as músicas e de todas as tradições. É a era das “remixes”, das fusões outrora impossíveis, da aglutinação das experiências eletrónicas acumuladas nas quatro décadas anteriores. Trautoniums e theremins juntam-se aos Macs e PCs. O pós-rock junta os Moogs e ARPs analógicos às aparelhagens digitais. No fim, o powerbook (computador portátil) tudo domina e concentra nas suas mãos. Os grupos são alter-egos de um-músico-só. A eletrónica torna-se manipulação pura. Virtual. Mas haverá quem resista.
Ao grandes armazéns e fábricas dos anos 90 vem substituir-se o escritório. A eletrónica alemã, uma vez mais, vai tão longe quanto pode. “Grupos” como os Oval e Microstoria tomam conta dos sistemas de ar condicionado, dos scanners e das fotocopiadoras para criarem a banda sonora, já não dos “novos edifícios em colapso” dos Einsturzende Neubauten, mas de edifícios doentes, infetados pela poluição digital. Os suíços The User tomam o conceito à letra e compõem uma sinfonia construída a partir dos sons processados das entranhas de fotocopiadoras de agulha em funcionamento.
Mas, à semelhança do que aconteceu nas décadas de 70 e 80, a eletrónica alemã diverge em vários ramos. Três editoras em particular representam outras tantas tendências em vigor: a-musik, Mille Plateaux e a mais recente Storage Secret Sounds. No site da Mille Plateaux encontramos catalogações de estilo como “clickhouse”, “electronic listening”, “abstract hip hop”, “Elektroakustik”, “Noise” e “Musique concrete”. Pratica-se uma estética abstrata, conceptual, sistemática. Não sobram motivos de diversão nem para sorrir, mas , ao invés, para sofrer e ter medo. É a casa dos “powerbooks” de cenho fechado, dos estalidos de estática, das frequências puxadas até ao limite do inaudível, das programações sem piedade. No seu catálogo da net a música de um dos álbuns dos “operadores de escritório” Microstoria (de Markus Popp e Jan St.Werner) é definida simplesmente como “digital processing”, de resto um dos “géneros” preferenciais desta editora. A música já não como obra composta mas como o próprio processo “a priori”. A Mille Plateaux tirou a camada de tinta de cima da “man machine” dos Kraftwerk até deixar à vista apenas a estrutura de metal, como acontecia a Arnold Schwarzenegger em “O Exterminador Implacável”, título que poderia bem aplicar-se aos propósitos ideológicos e musicais da Mille Plateaux.
Principais nomes desta editora: Microstoria, Curd Duca, Gas, Terre Thaemlitz, SND, Porter Ricks, Christian Vogel, Pluramon.
A este reino do terro contrapõe-se a a-musik, uma tendência que ameaça tornar-se dominante. Aqui a eletrónica redescobre o prazer do som, das brincadeiras infantis, das programações Lego, das “private jokes”, das carícias dos ritmos e das melodias de carrossel. E do prazer que deriva, não da manipulação, mas do “velho” ato de “tocar”. Alguém na a-musik tinha guardados em casa “Zuckerzeit” dos Cluster e “Wonderland” dos Pyrolator e com esses dois discos construiu um mundo.
A a-musik surgiu na sequência da fusão de dois projetos: o coletivo de música industrial Kontakta, do qual faziam parte Christian Schulz e Frank Dommert, dos H.N.A.S., e a editora Erflog, fundada, entre outros, por Schulz, Dommert e Marcus Schmicker, dos Oval. Com a intenção de fazer “música industrial sem as imagens de atrocidade”, “techno sem o funk”, “new wave sem os penteados ridículos” e “eletro-acústica” sem a acústica”.
Principais nomes desta editora: F.X. Randomiz, Holosud, L@n, Sator Rotas, Schlammpeitziger, Felix Kubin.
Esta faceta lúdica é levada às últimas consequências na Storage Secret Sounds, no seio da qual artistas como Feliz Kubin (fica aqui melhor instalado do que na a-musik…), Nova Huta e Mikron 64 de deliciam a brincar numa cerca para bebés com plasticina, ursos de peluche e carrinhos de corda, e a ler histórias aos quadradinhos. A única regra é a do passeio pela feira popular. Feliz Kubin faz desenhos animados acústicos, histórias de BD para os ouvidos. Os Nova Huta (de Oleg Kostrow que não é alemão mas russo…) embrulham o easy-listening na banda sonora de um filme-negro e acompanham com uma orquestra sinfónica. Os Mikron 64 apanham o automóvel a technopop e programam melodias infantis em microcomputadores da primeira geração.
Outros nomes importantes: Arovane, Atom Heart, Bernd Friedmann, Bluthsiphon, Fetisch Park, Funkstörung, Konrad Kraft, Pole, Rechenzentrum, Sack & Blumm, Schneider TM, Sciss, Soul Center, Tele:Funken, Thomas Köner, Tied+Tickled Trio, Workshop.
Na Áustria cabe um papel importante aos Orchester 33 1/3, agora separado nas suas duas principais parcelas: Christian Fennesz e Christof Kurzmann, este último sob o pseudónimo B. Fleischmann. A editora que fundaram, a Plag Dich Nicht, transformou-se na Charhizma, para onde também gravam os Shabotinski.
No meio da confusão, alguns dos “velhos” continuam imperturbáveis: os Faust, ressuscitados pela mão de Jim O’Rourke, tornaram-se ainda mais os maus da fita, destruindo e incendiando os palcos por onde passam. Moebius prossegue nos Ersatz o seu percurso inigualável. Roedelius compõe sinfonias de eletrónica bizarra. Os Neu! e os La Dusseldorf fundiram-se na entidade coletiva dirigida por Klaus Dinger sob o genérico La! Neu?. Holger Czukay continua a esburacar. O espírito do “krautrock” revive nos Space Explosion, supergrupo formado por Moebius (Cluster), Mani Neumeier (Guru Guru), Jürgen Engler (Die Krupps), Chris Karrer (Amon Düül II) e Zappi Diermaier e Jean-Hervé Peron (ambos dos Faust). Quanto aos Einsturzende Neubauten, garantem que o silêncio é sexy e compões canções de amor…


10 álbuns dos anos 80

D.A.F. Gold und Liebe (1980)
EINSTÜRZENDE NEUBAUTEN Halber Mensch (1985)
HOLGER CZUKAY On the Way to the Peak of Normal (1980)
HOLGER HILLER Oben im Eck (1986)
KRAFTWERK Computer World (1981)
MOEBIUS & PLANK En Route (1986)
DER PLAN Es Ist ein Fremde und Seltsame Welt (1987)
PROPELLER ISLAND The Secret Convention (1988)
PYROLATOR Wonderland (1984)
DIE VÖGEL EUROPAS Best Before (1989)

20 álbuns dos anos 90

B. FLEISCHMANN Pop Loops for Breakfast (1999)
ERSATZ Ersatz II (1992)
FUNKSTÖRUNG Appetite for Destruction (2000)
F. X. RANDOMIZ Goflex (1997)
HANS-JOACHIM ROEDELIUS Sinfonia Contempora No. 1 (1994)
HOLOSUD Fijnewas Afpompen (1998)
KONRAD KRAFT Alien Atmospheres (1996)
KREIDLER Appearance and the Park (1998)
L@N L@n (1996)
MICHAEL ROTHER Esperanza (1996)
MOUSE ON MARS Iaora Tahiti (1995)
ORCHESTER 33 1/3 Orchester 33 1/3 (1997)
SCHLAMMPEITZIGER Spacerockmountainrutschquartier (1997)
SHABOTINSKI (B)ypass (K)ill (1999)
TELE:FUNKEN A Collection of Ice Cream Vans vol.2 (2000)
THOMAS KÖNER Nunatak Gongamur (1990)
TIED & TICKLED TRIO EA1 EA2 (1999)
TO ROCOCO ROT CD (1996)
WORKSHOP Meiguiweisheng Xiang (1997)


Rococós

Começou por ser o nome de uma galeria de arte de Berlim, dirigida pelos irmãos Ronald e Robert Lippok, antes de se tornar o nome de um dos grupos mais interessantes e criativos da nova eletrónica alemã: To Rococo Rot. Os dois decidiram começar a fazer música chamando um terceiro elemento, Stefan Schneider, de outra banda recém-formada, neste caso oriunda de Dusseldorf, os Kreidler. Da primeira sessão realizada pelos três resultou o álbum “CD”, de 1995, uma coleção de sons eletrónicos plenos de força e originalidade, onde eram detetáveis as influências dos Can e de Dieter Moebius, dos Cluster. Ronald Lippok integrava ao mesmo tempo os Tarwater enquanto o seu irmão se dedicava a trabalhos de remistura e djing. Em “Veiculo”, segundo álbum dos To Rococo Rot, o som e as batidas tornam-se mais suaves, numa transição semelhante à dos Kraftwerk, de “Ralf and Florian” para “Autobahn”. Colaborações com Move D, da Source Recods, e D, da Soul Static, culminam na participação do DJ I-Sound numa das faixas do terceiro álbum da banda, “The Amateur View”.


Marcianos

Entre os inúmeros nomes da nova escola eletrónica alemã destaca-se o dos Mouse on Mars, dupla composta por Andi Toma (natural de Colónia) e Jan St.Werner (Dusseldorf). Cedo abandonaram a cena techno para se concentrarem na produção de sonoridades eletrónicas mais abstratas mas não menos desprovidas de “groove” que alternam o paisagismo alucinado e programações ora raivosas ora subliminares, nas quais são percetíveis as marcas deixadas pelos Cluster e pelos Kraftwerk. Eles gostam de citar igualmente os Can e os Neu!, com os quais dizem ter aprendido a “usar instrumentos ‘vivos’ como a guitarra, o baixo e a bateria”. Mas quem já os viu atuar ao vivo pode verificar que os instrumentos “vivos” que Andi e Jan utilizam estão mais de acordo com o espírito dos anos 90: um emaranhado de circuitos e dispositivos eletrónicos dispostos sobre uma mesa de trabalho a partir dos quais os dois alemães constroem uma barreira sónica que vai da hipnose ao massacre, do minimalismo brutal a cadências “clusterianas” em suspensão. Para ouvir com urgência são os álbuns “Vulvaland”, as danças mentais do novo “Niun Niggung” e, sobretudo, o disco que entrará para os anais do novo electrokraut, “Iaora Tahiti”.


NOTA (do SONS – dia 28 Julho): Algumas correções relativas ao texto “Um Século de Eletrónica Kraut” publicado na última edição do Sons. É Markus Popp o mentor dos Oval e não Marcus Schmickler, elemento dos Pluramon e “alter ego” dos projetos Wabi Sabi e Sator Rotas. Os The User compuseram uma sinfonia eletrónica, não para fotocopiadoras, mas para impressoras de agulha. Finalmente, Oleg Kostrow não faz parte dos Nova Huta.

09/08/2014

"Krautrock" around the clock



Pop Rock

7 Maio 1997

“Krautrock” around the clock

O “krautrock” está vivo e recomenda-se. A estagnação a que chegou grande parte da música popular neste final de século levou a uma procura exaustiva de fontes que pudessem revitalizá-la. Havia um manancial à espera e por explorar. Local: Alemanha. Época: anos 70. Chamaram-lhe na altura “krautrock”, na falta de um termo melhor que pudesse designar a explosão de criatividade que entre 1966 e a eclosão do “punk”, em 1976, abalou o império pop anglo-saxónico.
Decorridos quase 20 anos, músicos e público partem de novo em busca da pepita dourada, numa corrida pelo tempo que confunde e estimula ao mesmo tempo. Julian Cope, com o seu manifesto em defesa do “krautrock”, acendeu o rastilho. Que estranhos nomes e não menos estranhos discos eram estes que o homem dos Teardrop Explodes defendia com unhas e dentes, com o entusiasmo de um fanático? Como uma rajada, entrava pelo final do século o relato de experiências insanas levadas a cabo por cientistas e magos loucos oriundos de uma nação, ainda e se calhar para sempre, marcada pelos fantasmas do pós-guerra. Faust, Amon Düül II, Can, Neu!, Cluster, entre uma multidão de outros nomes, chamam a atenção e os ouvidos para um admirável mundo novo que volta a despontar.
A pequena revolução que estes grupos operaram no seu tempo faz-se sentir hoje talvez ainda com mais intensidade do que há 20 anos. As bandas do pós-rock prestam-lhe vassalagem. Nos Estados Unidos, em Inglaterra, na Alemanha, grupos como os Tortoise, Ui, Trans AM, Kreidler, To Rococo Rot, Tarwater, Rome, Gastr Del Sol (de Jim O’Rourke, produtor de “Rien”, dos Faust), Stars of the Lid, Fuxa, Him, Jessamine, Earth, Sabalon Blitz, Magnog e Fridge assumem e expandem o lado mais experimental e tecnológico do “krautrock”, ao proclamar a importância de grupos como os Cluster, Neu! e La Düsseldorf.
Antes, já a “new age”, através dos novos planantes da Califórnia (Steve Roach, Robert Rich, Michael Stearns), buscara alento e alimento nos anos 70, na chamada “Escola de Berlim”, representada por Klaus Schulze, Tangerine Dream e Ash Ra Tempel. O mesmo se podendo dizer dos Kraftwerk, que influenciaram toda a cultura “tecno” dos anos 80. Anos 80 cujos corredores clandestinos foram percorridos, na Alemanha, por gente como Palais Schaumburg (de Holger Hiller), Pyrolator, Die Krupps, Der Plan, Einstuerzende Neubauten, Asmus Tietchens, Conrad Schnitzler, Peter Frohmader, Propeller Island, D.A.F., Klaus Krüuger, H.N.A.S., Cranioclast, P16.D4, Peter Schaefer ou Strafe Für Rebellion.
Mas a fatia maior e mais apetecível do bolo estava guardada para os pioneiros que nos anos 70 fizeram a síntese da memória e da melodia pop dos anos 60 (Beatles e Beach Boys) com o romantismo wagneriano, o espaço sideral, o LSD e a tecnologia eletrónica (então analógica) mais sofisticada.
Em 1997 assiste-se, finalmente, a um fenómeno que se julgaria impossível há poucos anos: a ressurreição dos grupos clássicos. Os Faust voltam a reunir-se e a gravar (“Rien” e “You Know FaUSt”). Os Amon Düül II regressam igualmente com um novo álbum, “Nada Moonshine”. Os Neu!, de Michael Rother e Klaus Dinger, idem com “Neu!4”. Mais recentemente, os La Neu Düsseldorf (designação um pouco redundante, reconheça-se...) gravaram também um novo disco. O mundo volta a ser dominado (mas alguma vez deixou de o ser?...) pela Alemanha.
O POP ROCK entrou na guerra entrevistando Stefan Schneider, o homem que manda nos Kreidler e To Rococo Rot, e Jaki Liebezeit, baterista de uma das bandas mais importantes do "krautrock" original, os Can, que os anos 90 agora homenageiam no duplo álbum de remisturas “Sacrilege”, por Brian Eno, The Orb, Sonic Boom e Bruce Gilbert, entre outros. Fornecemos ainda uma discografia e notas sobre os principais intervenientes, bem como alguma bibliografia geral disponível sobre o tema.


GRUPOS E DISCOGRAFIA FUNDAMENTAIS DO ROCK ALEMÃO DOS ANOS 70

Agitation Free

Influenciados pela música árabe no primeiro álbum, “Malesch”, cósmicos no segundo. Com Lutz Albrich, dos Ash Ra Tempel, Michael Honig (futuro Tangerine Dream) e Peter Michael Hamel, “2nd Edition” (1973).

Amon Düül II

Do grupo comunal designado por Amon Düül I derivou este núcleo dos que sabiam tocar. Rock inclassificável, gerado dos piores pesadelos do LSD. Reza a lenda que, nos concertos, cada músico estava sob o efeito de uma droga diferente. Os álbuns refletem esta mistura de universos paralelos, alternando longas improvisações anarco-cósmicas com canções surreais. “Yeti” (1970), “Tanz der Lemminge” (1971), “Wolf City” (1972).

Annexus Quam

Oriundos de Düsseldorf. Dos deslumbramentos psicadélicos do primeiro álbum, passaram ao “free jazz”, não menos empanturrado de alucinações, do segundo. “Osmose” (1970), “Bezeihungen” (1972).

Ash Ra Tempel / Ashra / Manuel Göttsching

A guitarra elétrica que veio do espaço por um dos nomes mais importantes da “Kosmische muzik”. Os Ash Ra Tempel eram os meninos bonitos do guru Rolf-Ulrich Kaiser, com as suas “acid jams” apontadas ao infinito. Já só, como Ashra, Göttsching aproximou-se da galáxia de Klaus Schulze, com passagem pela pop, o cinema de Phillipe Garrel e aterragem no minimalismo. “Schwingungen” (1972), “Inventions for Electric Guitar” (1974), “New Age of Earth” (1976).

Can

Mestres do ritual e dos ritmos do corpo. Filhos de Stockhausen, do “free jazz” e dos Velvet Underground, inventaram a música do espaço interior. No seu caso não faz sentido falar de músáca “cósmica”, mas sim de “música microcósmica”. O “beat”, enquanto átomo da hipnose. “Monster Movie” (1969), “Tago Mago” (1971), “Ege Bamyasi” (1972), “Future Days” (1973), “Unlimited Edition” (1976).

Cluster

Representam o lado mais experimentalista do “krautrock”. Primeiro chamaram-se Kluster, industriais “avant la lettre”. Joachim Roedelius, o romântico, e Dieter Moebius, o conceptualista, formaram uma das duplas recorrentes da música eletrónica alemã das últimas três décadas. Eno e Bowie assumem a sua influência, bem como a geração atual de bandas dos pós-rock. Fizeram trio com Brian Eno. “Cluster” (1972), “Zuckerzeit” (1974), “Cluster & Eno” (1977).

Harmonia

Associação dos Cluster com Michael Rother, dos Neu!, banda da qual exploraram o lado mais eletrónico e minimalista. Juntamente com os Neu!, constituem uma referência fundamental do movimento “punk”, pela redução do ritmo a uma batida primordial. “Musik von Harmonia” (1974), “DeLuxe” (1975).

Holger Czukay

Teórico dos Can, congeminou mil estilos e inovações. Com os Technical Space Composers Crew, na colagem de sons concretos e ambientais com fitas de “world music” na reciclagem do “dub”. Com a voz do papa. Com um sintonizador de rádio e um “dictaphone”. O último dos alquimistas. “Cannaxis” (1969), “Movies” (1979).

Faust

Com Frank Zappa e os Henry Cow, um dos nomes que declararam guerra à música pop do século XX. Popularizaram o termo “krautrock” num tema com este nome do álbum “Faust IV”. Na sua música, o paradoxo faz sentido e alógica exige a criação de novas linguagens. Recentemente voltaram a gravar, radicais como sempre, agora que o tempo finalmente os apanhou. “Faust” (1971), “So Far” (1972), “The Faust Tapes” (1973), “Faust IV” (1973).

Edgar Froese

O guitarrista e líder dos Tangerine Dream experimentou a solo o lado mais acusmático da música do grupo. “Aqua” (1974).

La Düsseldorf

Emblema da cidade, na visão mecanicista do percussionista Klaus Dinger, ex-Kraftwerk e ex-Neu!. “La Düsseldorf” (1976), “Viva” (1978).

Liliental

Supergrupo que juntou Dieter Moebius, dos Cluster, Conny Plank, produtor determinante no desenvolvimento do “krautrock”, Johannes Pappert, saxofonista dos Kraan, e o industrialista Asmus Tietchens. “Liliental” (1978).

Neu!

A máquina de ritmos binários de Klaus Dinger, sempre na sombra do que melhor eclodiu em Düsseldorf, aliada ao melodismo viciante e “easy listening” de Michael Rother. “Neu!” (1972), “Neu! 2” (1973), “Neu! 75” (1975).

Popol Vuh

Florian Fricke foi dos primeiros a levarem o grande “Moog” para dentro de uma catedral, mas depois a descoberta do cristianismo levou o seu piano para o céu. Um dos místicos da música alemã. Compositor de serviço de Werner Herzog. “In Der Garten Pharaos” (1972).

Klaus Schulze

Pai da música cósmica. Tocou bateria nos Psi Free e Tangerine Dream, estudou o catálogo do VCS3 nos Ash Ra Tempel e desapareceu, finalmente, entre os circuitos do sintetizador, abraçado a um busto de Wagner. Há quem adormeça ao escutar os seus “mantras” eletrónicos de 30 minutos e quem jure viajar com eles por outras dimensões. “Cyborg” (1973), “Mirage” (1977), “X” (1978).

Kraftwerk

Ralf Hütter e Florian Schneider estiveram sempre um pouco à margem do “krautrock”. Ainda experimentaram o ruído, nos Organisation e nos dois primeiros álbuns, mas com “Autobahn” aboliram a portagem que impedia a livre circulação nas auto-estradas da música de dança do mundo. Depois transformaram-se em robôs e fecharam-se no estúdio Kling Klang, de onde saem de vez em quando para fazerem pontos de ordem à música tecno. “Ohm Sweet Ohm”, “Kraftwerk” (1970), “Kraftwerk 2” (1971), “Ralf & Florian” (1973), “Autobahn” (1974), “The Man Machine” (1978).

Tangerine Dream

Papas da Escola de Berlim. Música onírica, banda sonora das divagações sobre a relatividade de Einstein. A religião dos eletrões. Tiraram o ritmo aos Pink Floyd abrindo no seu coração um pulsar. A primeira fase é “free rock” para tripar ao gosto de Julian Cope. Preferimos os espaços mais amplos rasgados pela formação quintessencial dos TD: Edgar Froese, Peter Baumann e Chris Franke. “Zeit” (1972), “Atem” (1973),”Phaedra” (1974), “Rubycon” (1975),

Walter Wegmüller

Wegmüller era um artista e mago cigano que o acaso fez cruzar com Timothy Leary, profeta e ideólogo do LSD, e com a turma inteira dos Cosmic Couriers, numa aldeia suíça onde teve lugar uma das desbundas de ácido de todos os tempos. “Tarot” (que inclui um baralho de Tarot desenhado pelo próprio) reflete todas as vertentes, virtudes e defeitos dos primeiros anos da “Kosmische Musik”. “Tarot” (1973).

Whithüser & Westrupp

“Acid Folk” que entusiasmou Rolf-Ulrich Kaiser, dando origem ao selo Pilz, subsidiário da “Ohr”, sede de todas as aventuras cósmicas. “Trips und Traume” (1971).

Nota: todos os discos disponíveis em CD.

À atenção dos curiosos: Achim Reichel, Brainticket, Bröselmaschine, Cosmic Jokers, Cozmic Corridors, Joachim H. Ehrig (Eroc), Embryo, Emtidi, Eulenspygel, ExMagma (não confundir com os franceses Magma), Gila, Golem, Sergius Gollowin, Grobschnitt, Guru Guru, Hoelderlin, Kraan, Mythos, Novalis, Out of Focus, Parzival, Pell Mell, Phantom Band, Release Music Orchestra, Sand, Thirsty Moon, Wallenstein, Xhol, Yatha Sidhra.


BIBLIOGRAFIA

“Krautrocksampler: One Head’s Guide to the Great Kosmische Musik – 1968 Onwards” – Julian Cope (ed. Head Heritage). Manual.

Um dos responsáveis pelo recrudescimento de interesse pelo “krautrock”. O entusiasmo e a linguagem de verdadeiro apreciador com que Cope nos descreve as suas descobertas contagiam. Alguma falta de rigor é compensada pelas histórias deliciosas que se leem como um romance, por exemplo todo o episódio do retiro suíço com Timothy Leary ou a paranoia de poder de Rolf-Ulrich Kaiser (“the kaiser”, como a dada altura lhe chama Cope), patrão e mentor dos Cosmic Couriers. Na discografia seleccionada é evidente o gosto do “acid head” pelas obras mais “tripantes” (mas também mais desconjuntadas...) do “krautrock”, privilegiando, quase sempre, os primeiros álbuns de cada artista, de que são paradigmáticos a inclusão da estreia dos Tangerine Dream, a profusão de discos dos Ash Ra Tempel das “acid jams” ou a totalidade da dispensável série dos Cosmic Couriers.

“Cosmic Dreams At Play – A Guide to German Progressive and Electronic Music”, de Dag Erik Asbjomsen (ed. Borderline Productions). Enciclopédia.

Notas informativas extensas, embora demasiado subjetivas e reveladoras da propensão do autor para valorizar discos pouco representativos. Vê-se que o autor aprecia acima de tudo o progressivo mais lamechas, na área do “sinfónico”... Discografias completas. A quantidade de entradas é razoável embora haja lacunas. Uma obra que perde, sobretudo, por um grafismo e “lettering” infelizes, como consequência de ser mais uma compilação de um amador do que um trabalho metódico. Reprodução, a cores e a preto e branco, de capas escolhidas de forma aleatória, com pouca atenção ao grafismo geral da obra.

“The Crack In The Cosmic Egg – Encyclopedia of Krautrock, Kosmische Musik & Other Progressive, Experimental & Electronic Musics from Germany”, de Steve Freeman e Alan Freeman (ed. Audion Publications). Enciclopédia.

O melhor e mais completo livro sobre “krautrock” editado até à data, ao contrário dos outros dois, estendendo-se pelos anos 80 e 90. Organizado metodicamente, inclui um mapa da Alemanha com a sinalização das cidades onde tiveram origem alguns dos grupos mais importantes, árvores genealógicas, um “top-100”, editoras, tópicos gerais e um glossário. As discografias são acompanhadas, para cada álbum, pela lista completa dos músicos participantes. Os textos são informativos, rigorosos e excitam a curiosidade. A seleção de capas, todas com reprodução a cores, é, por si só, um prazer à parte.