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09/12/2019

King Crimson, uma máquina em atividade


Y 28|NOVEMBRO|2003
fetiche
coisas que seduzem

king crimson
uma máquina em atividade


Através das metamorfoses por que passaram ao longo de 35 anos, permanecem como uma das mais formidáveis máquinas em actividade. “Eyes Wide Open” mostra o grupo em ação no Shepherds Bush Empire, Londres, em 2000 (DVD 2), e no Japão, em 2003 (DVD 1), sob a supervisão de Robert Fripp. Considerando que no caso dos Crimson não existem duas interpretações iguais, o DVD apresenta a inovação de enxertar aleatoriamente em cada leitura, diferentes improvisações do mesmo tema, o que permite perceber a incrível criatividade dos executantes em palco, além de Fripp, Adrian Belew, Trey Gun e Pat Mastelotto. Visualmente sem grandes atrativos, “Eyes Wide Open” vale pela música extraordinária, exercício de disciplina e poder para uma arquitetura sonora que não admite falhas. Fripp, apesar do terror recente em se deixar fotografar (talvez sugestionado por superstições que garantem que fotografar alguém é ter domínio sobre a sua alma) aparece como uma estátua que não deixa transparecer a menor emoção. E, no entanto, a música que escorre, como lava, da sua guitarra é vital como o fluxo sanguíneo. O duplo alinhamento inclui temas como “The power to believe”, “The construkction of light”, “Happy with what you have to be Happy with”, “Elektrik”, “Larks’ tongues in aspic: part IV”, “Three of a perfect pair” e uma versão de “Heroes”, de Brian Eno e David Bowie.

King Crimson, Eyes Wide Open, Sanctuary, DVD Zona 2, distri. Som Livre. €25

04/09/2016

King Crimson - Thrak

Sons
11 Outubro 2002

KING CRIMSON
Thrak
EMI-Toshiba, distri. EMI-VC
8|10

Apesar do título, “Thrak” não cheira mal. Cheirará talvez a enxofre, o que é normal, sabendo-se das relações que o líder dos King Crimson, Robert Fripp, mantém com o “rei carmesim”. Editado em 95, com uma formação composta por Fripp, Adrian Belew, Tony Levin, Trey Gunn, Bill Bruford e Pat Mastelotto, é, com os “ao vivo” “Earthbound” e “U.S.A.”, a mais recente adição ao pacote de remasterizações em 24-bits e capas de cartão do grupo. Não há maneira de apagar este incêndio ateado por fluxos de energia onde o rock, a improvisação e a pauta se interligam na lição de um mestre. “Thrak” transporta o legado do rock progressivo para o caos da atualidade sem que a essência do grupo se tivesse perdido, tendo Fripp o cuidado de pôr novamente a funcionar o “mellotron” que ajudou a fazer de álbuns como “In the Court of the Crimson King”, “In the Wake of Poseidon” e “Lizard” das catedrais mais belas do progressivo. O barroquismo das ambiências, a incandescência da guitarra não ofuscam a transparência de canções como “Dinosaur”, “Walking on air” e “One time” (será que os Radiohead?…). Beleza e violência. Tão inseparáveis como no título-tema, instante de revelação em que o “satori” fere com a brutalidade de uma violação.

09/08/2016

King Crimson - The Essential King Crimson Frame By Frame

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s


CORTES FINAIS DE UM REINADO CARMESIM



KING CRIMSON
The Essential King Crimson Frame by Frame
4xCD, E.G./Virgin, distri. Edisom

            “The Essential King Crimson” constitui um testemunho textual/musical de envergadura e um objeto de estudo indispensável para a compreensão da música de uma das bandas mais importantes das últimas décadas.
            O objeto em questão começa por impressionar pelo luxo da aparência: Uma caixa, à escala de um disco LP, que inclui 4 CD, um livro de 64 páginas, profusamente ilustrado, que relata em pormenor cada passo dos King Crimson ao longo de uma existência atribulada, e uma folha com a árvore genealógica completa das várias formações lideradas por Robert Fripp.
            Os três primeiros compactos correspondem, cada um, a fases específicas da banda; o último ficou reservado para os registos ao vivo. Refira-se a ótima qualidade das prensagens, conseguida através de novos “re-masterings” e da utilização de novas técnicas de conversão digital.
            A primeira fase corresponde ao período compreendido entre 1969 e 1971, durante o qual os King Crimson gravaram “In the Court of the Crimson King” (69), “In the Wake of Poseidon” (70), “Lizard” (70) e “Islands” (71). Fase “sinfónica”, apoiada nos textos de Peter Sinfield, contraponto poético ao demonismo desde sempre evidenciado pelo guitarrista. O som era então dominado pelas vagas orquestrais do “mellotron” sobre as quais a guitarra de Fripp flamejava.
            De “In the Court of the Crimson King” reuniram-se a paranoia urbana de “21st century schizoid man”, os “sinfónicos” “Epitaph” e “In the court of the crimson king” e as baladas “I talk to the wind” e “Moonchild”. Quanto ao álbum seguinte, “In the Wake of Poseidon”, há a lamentar exclusão de três dos seus momentos fulcrais: “Pictures of a city”, que prolonga de forma mais elaborada a loucura de “21st century…”, a solenidade majestosa do título-tema e a sequência instrumental “The devil’s triangle”, ilustrativo do tipo de energias que sempre alimentaram o guitarrista.
            A opção, duvidosa (pese, embora, a compilação ter sido organizada pelos principais interessados…), recaiu na introdução declamada “Peace - a theme”, em “Cat food”, que vale pelo solo de piano elétrico de Keith Tippett e “Cadence & cascade”, remisturada já este ano, em que a voz de Adrian Belew substitui a de Gordon Haskell, no original. “Groon” é referida como pertencente a este álbum, o que é falso, pois o tema apareceu pela primeira vez no álbum ao vivo de 1973, “Earthbound”.
            “Lizard”, para muitos o melhor álbum da banda, sem dúvida o ponto culminante da sua etapa inicial, apenas teve direito a um excerto remisturado de “Bolero”, extraído da longa “suite” que ocupa todo o segundo lado do álbum. De fora ficaram os excelentes “Cirkus” e “Indoor games”.
            Polémica é a inclusão de “Ladies of the road”, do disco seguinte, “Islands”, uma das brincadeiras muito do agrado dos King Crimson, com lugar reservado em cada disco e a agravante de ser mal vocalizado (por Boz. De resto, depois de Greg Lake, os King Crimson não voltaram a encontrar um vocalista à altura). Bizarria por bizarria, antes “Formentera lady”, longo crescendo instrumental apaziguado nos solfejos da soprano Paulina Lucas. Indiscutível, o fabuloso desempenho de Fripp na guitarra, em “Sailor’s tale”, embora o tema apareça cortado em cerca de metade do tempo.
            O volume 2 da coletânea, correspondente aos anos de 1972 a 1974, é dominado pelo núcleo formado por Fripp, Bill Bruford (percussões), John Wetton (baixo) e David Cross (violino). “Lark’s Tongues in Aspic”, “Starless and Bible Back” e “Red” são os álbuns gravados pelos King Crimson durante este período. Nada a apontar em relação aos temas selecionados do primeiro, já que não faltam sequer os 18 minutos de folia do título-tema. O mesmo em relação a “Starless”, com “Night watch”, “The great deceiver” e “Fracture” presentes, o último amputado de alguns minutos. “Red” tem a honra de apenas ver preterido um tema, “Providence”. Sem dúvida o álbum culminante e mais duro desta fase. Guitarra, baixo e bateria num dilúvio de eletricidade e violência.
            Após um período de interregno de oito anos – aproveitado por Fripp para desenvolver as suas “frippertronics” e gravar as colaborações com Brian Eno, “No Pussyfootin’” e “Evening Star”, e, a solo, a trilogia “Exposure”, “God Save the Queen/Under Heavy Manners”, “Let the Power Fall –, os King Crimson regressam para a sua (até hoje) derradeira fase, de 1982 a 1984.
            “Discipline”, aqui recuperado quase na íntegra (“Indiscipline”, o tema que falta, aparece em versão ao vivo no 4º compacto), “Beat” e “Three of a Perfect Pair” dão a ouvir uma banda bem “integrada” no seu tempo, que não dispensa as cadências “funky” e a batida das caixas de ritmo. Adrian Belew dialoga com Fripp, na guitarra. A música perde em intensidade e dramatismo o que ganha em acessibilidade e concisão. Passada a era dos grandes épicos, as canções normalizam-se o que torna lícita qualquer seleção de temas. O inédito que figura no final deste 3º compacto tem tanto de divertido como se inesperado…
            Para o fim, os registos ao vivo, outra faceta de que os King Crimson sempre tiveram razões de queixa, porque nunca se conseguiram libertar do estigma da má qualidade sonora. Mesmo em formato digital, esse problema não desaparece, nos excertos de espetáculos gravados em Inglaterra (1969, dois inéditos de estúdio: “Get the Bearings” e “Travel Weary capricorn”), Amesterdão (1973), Frejus (1982), Montreal (1984) e em Ashbury Park (de “U.S.A.”, 1975). “The Talking Drum” vem mencionado com a duração de 29 min. 04 seg. em vez dos 8 min. 30 seg. reais).

            Tendo em conta a inevitável subjetividade que envolve qualquer tipo de escolha, a etiqueta “essencial” torna-se no mínimo problemática. Anunciada como sendo a coletânea definitiva dos King Crimson, “Frame by Frame” proporciona acima de tudo o prazer de reescutar, em novo contexto e melhores condições, a música de uma banda que fez História e a oportunidade de perspetivar, de forma sistemática e fundamentada, a totalidade do seu percurso. (9)

22/07/2014

King Crimson - The Construkction Of Light



2 de Junho 2000
POP ROCK - DISCOS

King Crimson
The Construkction of Light (8/10)
Virgin, distri. EMI – VC

31 anos depois da edição de “In the Court of the Crimson King” o que faz correr ainda os King Crimson? A resposta provavelmente só poderá ser dada pelo seu líder desde a primeira hora, Robert Fripp. Mas é possível encontrar um fio condutor que passa em primeiro lugar pela adequação (neste álbum, o “K”, de “king”, que se intromete no meio dos conceitos) de uma estética e de uma filosofia delineadas por Fripp desde a primeira hora, aos modelos sociais, artísticos e ideológicos vigentes ao longo das últimas três décadas. Não menos importante é o tópico “energia” e a sua manipulação. São conhecidas as inclinações do rei carmesim para o tantrismo e para certas correntes místico/estóicas ligadas a J. G. Bennett, por sua vez um discípulo de Gurdjieff. “The Construkction of Light” (título bem elucidativo quanto à dialética luz/trevas…) pode ser visto na ótica de um ajustamento desse fluir energético que aqui passa, não por acaso, pela revisitação de “Larks’ Tongues in Aspic” (com a adição de uma parte “IV”) e “Fracture” (reintitulado “Fraktured”), temas respetivamente do álbum com aquele nome e “Starless and Bible Black” (de novo a luz e o seu reverso…). Com uma formação reduzida em relação ao anterior “Thrak” (saíram Bill Bruford e Tony Levin), os atuais King Crimson ultrapassaram em definitivo a barreira do tempo. A guitarra de Fripp, mais do que nunca, soa como uma fornalha (a panela de pressão de “Into the frying pan”…) num álbum em que um dos múltiplos pontos de interesse é a assunção, na segunda parte do título-tema, das harmonias vocais barrocas ao estilo dos Gentle Giant. O olho vermelho dos King Crimson continua a olhar fixamente, agora para o novo milénio.

13/11/2011

As máscaras do lagarto [King Crimson]

7 de Abril 2000
REEDIÇÕES

King Crimson
In the Wake of Poseidon (9/10)
Lizard (10/10)
Islands (8/10)
Virgin EG, distri. EMI-VC

As máscaras do lagarto

Esqueçam todas as baboseiras que ouviram sobre a música progressiva, que nunca soube verdadeiramente o que era. Esqueçam e ouçam estes três álbuns dos King Crimson, para repensarem tudo, em novas reedições cartonadas, miniaturas dos vinilos, com capa de abrir, que assim se juntam à de “In the Court of the Crimson King”, na celebração do 30º aniversário das edições originais. Além da apresentação, excelente, o som é soberbo, fruto de remasterizações feitas com máximo cuidado.
“In the Wake of Poseidon” é o segundo álbum dos King Crimson (1970), depois de “In the Court…”, prolongando e refinando a estética seguida então pelo grupo, uma fusão absolutamente inovadora para a época de rock, classicismo, jazz e canções compostas sobre a guitarra e o mellotron de Robert Fripp e as letras de Peter Sinfield, que distinguiam os King Crimson de qualquer outra banda progressiva dos anos 70 (apenas os Van der Graaf Generator os conseguiram ultrapassar…).
Robert Fripp amenizou um pouco neste disco a violência do álbum de estreia, enveredando por uma complexidade da composição que viria a atingir a perfeição no álbum seguinte, “Lizard”. Ainda com Greg Lake e Michael e Peter Giles no grupo, “In the Wake of Poseidon” inclui clássicos como “Pictures in a city” (espécie de continuação de “21st century schizoid man”, do primeiro álbum), o título-tema, uma extensa balada de cores classicizantes conferidas pelo mellotron, o tema satírico (prática que viria a institucionalizar-se nos álbuns seguintes), “Cat food”, com uma fenomenal intervenção no piano de Keith Tippett e a sequência instrumental, dividida em três partes, “The devil’s triangle”, a ilustrar a faceta luciferina desde sempre cultivada por Fripp. Assustador.
Mas “Lizard”, editado também em 1970, vai mais longe, onde nenhum outro grupo fora antes. Obra-prima absoluta na discografia do grupo (opinião não partilhada pelo seu líder, o réptil da guitarra, Robert Fripp…) e um dos marcos da música progressiva dos anos 70, “Lizard” foi recebida quando do seu lançamento pela crítica inglesa como uma obra cuja estrutura a fazia rivalizar com as grandes peças dos compositores clássicos eruditos. Não é um álbum típico dos King Crimson, da mesma forma que “Their Satanic Majesties Request” não é um álbum típico dos Stones, por exemplo. Obra ímpar, houve quem tentasse caracterizá-la como jazz e quem demorasse dezenas de anos até finalmente a compreender e aceitar. Servido por uma produção que coloca em relevo o mínimo detalhe musical, “Lizard” é um monumento que, volvidas três décadas sobre a sua edificação, mantém a solidez das grandes catedrais.
O tema de abertura, “Cirkus”, inclui uma das mais poderosas entradas instrumentais de todos os tempos, com a irrupção abrupta do mellotron a interromper o que de início aparenta ser uma balada, seguida de um solo deslumbrante de swing de Mel Collins no saxofone. “Indoor games” e “Happy family” (canção surrealista sobre a dissolução dos Beatles…) transportam-nos para um universo paralelo onde o free jazz, a atonalidade, a sobreposição de harmonias, mudanças súbitas de compasso e complicados efeitos de estúdio acentuam a catadupa de imagens herméticas sugeridas pela escrita de Sinfield. O primeiro “lado” do disco termina com uma curta balada de ambiente medieval, “Lady of the dancing water”.
Mas é no título-tema, uma longa suite dividida em várias partes, que Fripp revela todo o seu génio como compositor e arranjador. O tema evolui de uma introdução vocalizada por Jon Anderson, dos Yes, para uma verdadeira sinfonia sobre a guerra que culmina nos dez minutos de antologia de “The battle of glass tears”. Os instrumentos combatem entre si como entidades sobrenaturais numa invasão do cérebro e dos sentidos. Sons lancinantes formam um caleidoscópio de ritmos e timbres reinventados segundo a segundo, num jorro contínuo que emerge como a lava de um vulcão irrompendo do inconsciente, até alcançarem uma dimensão cósmica. Free rock, teste projectivo, alucinação sonora, chamem o que quiserem a esta música, que permanece como testemunho perene de um músico que ainda hoje continua a subverter e a remodelar as regras da música popular.
Editado em 1971, o álbum seguinte, “Islands”, com os novos elementos Boz (baixo e voz) e Ian Wallace (bateria), funciona quase como um anticlímax. É o álbum onde as obsessões de Fripp pela música clássica vão ao ponto de ter convidado uma cantora lírica para cantar no tema de abertura, “Formentera lady”, e assinado em “Prelude: Song of the gulls” uma genuína peça de música de câmara. Mas bastaria o instrumental “Sailor’s tale”, marcado por um solo arrasador de Robert Fripp na guitarra eléctrica, para garantir a este álbum, que também inclui o tema satírico “Ladies of the road”, desta feita sobre as prostitutas, um lugar de relevo na discografia do grupo. Depois da gravação ao vivo do álbum “Earthbound”, os King Crimson fariam uma primeira paragem, reaparecendo em 1973 com “Lark’s Tongues in Aspic”, com uma nova formação e uma mudança radical de estética musical, iniciando uma fase que continuaria em “Starless and Bible Black” até explodir num hard rock metálico e visceral em “Red”.

26/02/2011

King Crimson - In The Court Of The Crimson King

Sons

15 de Outubro 1999
REEDIÇÕES

Esquizóide aos 30 anos

King Crimson
In the Court of the Crimson King (10)
EG, distri. EMI - VC


No 30º aniversário da data original do seu lançamento, o álbum de estreia dos King Crimson renasce com uma nova remasterização (som glorioso) e uma capa cartonada que é uma deliciosa miniatura da capa de abrir da velhinha edição em vinilo da Island. “In the Court of the Crimson King” permanece como um dos poucos ícones do movimento progressivo sobre o qual não recaiu a ira posterior de certa crítica que nunca soube verdadeiramente lidar com uma corrente estética que, quer se queira quer não, ultrapassou duas décadas de maus tratos para finalmente se mostrar de cara lavada neste final de milénio. “In the Court of the Crimson King” constitui o primeiro manifesto das doutrinas demonistas (o rei carmesim não é outro senão o diabo) do seu líder de sempre, Robert Fripp, apesar de suavizadas pela visão romântica do letrista Peter Sinfield, polo humanista dos KC, situação que se manteria até “Islands”, de 1971, com o qual se encerraria a primeira fase do grupo. Não era ainda o tantrismo das “frippertronics” nem as doutrinas de J. G. Bennett – que marcariam todo o trabalho do guitarrista a partir de “Lark’s Tongues in Aspic” e dos dois álbuns em colaboração com Brian Eno, “No Pussyfootin’” e “Evening Star” – mas um mundo de personagens mitológicas, de diabos, bruxas e princesas aos quais o esoterismo literário de Sinfield emprestava a inocência de uma fábula sedutoramente assustadora. Dos poucos álbuns em que o termo “sinfónico” não tem conotações pejorativas, “In the Court of the Crimson King” vive assombrado pela majestosidade de um instrumento então rodeado de mistério, o mellotron, autêntica orquestra sintetizada capaz de transformar temas como “Epitaph” “Moonchild” e “The court of the crimson king” em palácios de som. Peter Sinfield faz passar a pouca luz que ainda restava nos KC na balada “I talk to the wind” mas o tema que verdadeiramente atraiu as atenções, enquanto profecia dos tempos modernos, é a abertura, “21st century schizoid man”, violenta descarga de fúria da guitarra eléctrica-sirene-de-alarme de Fripp, em solo contínuo, o vómito vocal de Greg Lake e o fabuloso riff de saxofone de Ian McDonald a darem forma ao apocalipse que a capa ilustra de forma exemplar: o indivíduo invadido pelo cosmos. Aos 30 anos o homem-esquizóide do séc. XXI sorri.

27/10/2008

King Crimson - Na corte do Rei Carmesim

BLITZ

2.1.90
VALORES SELADOS

KING CRIMSON

NA CORTE DO REI CARMESIM
Ainda se cantavam a paz e o amor nos finais da década marcada pela geração hippie quando Robert Fripp e os seus pares entraram a matar, anunciando de forma violenta o advento do homem esquizóide do século XXI. Era de mais para a época. Os King Crimson ficavam definitivamente marcados com o estigma de grupo maldito. Fripp nunca se importou muito com isso. A sua guerra era outra.


Muito se escreveu e historiou já acerca desta banda, uma das mais marcantes e decisivas na definição das novas estéticas da década agora prestes a findar. Será pois talvez mais interessante procurar levantar um pouco o véu que cobre algumas das ocultas intenções do seu líder e mentor espiritual, Robert Fripp.
Logo no primeiro álbum eram já visíveis alguns indícios das principais preocupações e motivações do guitarrista e compositor do grupo. O rosto e o sinal da personagem desenhada na capa, os títulos sintomáticos de algumas das canções (entre as quais a já citada «21st Century Schizoid Man» e a que dava o nome ao disco: «In the court of the Crimson King») e as tonalidades majestosas e sombrias da música apontavam inequivocamente para uma personagem que era nem mais nem menos que o próprio diabo, padrinho e mestre de Fripp.
Peter Sinfield, letrista e encarregado de todo o aspecto gráfico e visual da banda, era o pólo oposto à negritude diabólica daquele. A tensão entre estas duas polaridades resultaria nalguns trabalhos fabulosos que viriam a constituir a fase inicial da banda. Depois do álbum de estreia, «In the Wake of Poseidon» e o deslumbrante «Lizard» (ambos de 70) marcam o apogeu desta fase de contornos classizantes e sinfónicos. No primeiro as tendências mefistofélicas do guitarrista, bem expressas em temas como «Pictures of a City» ou «The Devil’s Triangle», são contrabalançadas pelos dois poemas que abrem e fecham o disco, «Peace-A Beginnig» e «Peace-An Ending», da autoria de Peter Sinfield.
Mas seria com «Lizard» que os King Crimson atingiriam o ponto culminante da sua arte. A imprensa britânica, deslumbrada, comparava-os com os grandes autores da música clássica. O Rock (seria?) alcançava, com os Crimson e outras bandas importantes da então designada «Música Progressiva», o estatuto e as honras da maioridade e paridade em relação aos seus vizinhos eruditos.
«Lizard» é também o álbum mais «branco» de toda a sua discografia. Por uma vez o diabo ficava fora da jogada. Memorável o combate travado entre a guitarra demoníaca de Fripp e a voz celestial de Jon Anderson, convidado especial no tema épico que ocupa a totalidade do segundo lado. Do outro, a entrada grandiosa do Mellotron e do sax de Mel Collins (mais tarde nos Camel) em «Circus», as perturbantes sonoridades e alusões ao free-jazz de «Indoor Games», a subtil paródia aos Beatles em «Happy Family» e a balada de tons medievais que é «Lady of the Dancing Water». Produção impecável, arranjos esplendorosos e executantes excepcionais (que incluem como convidado o pianista de jazz, Keith Tippett) dão a esta obra o cunho da perfeição.
Em «Islands» (71) Fripp ultrapassa os limites, tornando-se como compositor de música clássica «a sério». O tom geral torna-se demasiado óbvio, com a inclusão da soprana de Ópera, Paulina Lucas e um prelúdio instrumental de música de câmara com Fripp tocando órgão de pedais.
«Earthbound», gravado ao vivo nos E.U.A., sofre de um som péssimo mas tem a vantagem de nos dar a perceber toda a energia que a banda desenvolvia em palco, com a guitarra de Fripp arrasando tudo e todos em torrentes eléctricas demenciais. A nova versão de «21st Century Schizoid Man» causa arrepios.
Os King Crimson fecham entretanto para balanço, Fripp viria a ressurgir mais alguns anos mais tarde, orientando definitivamente a sua música segundo as directivas do senhor das trevas. «Larks’ Tongues in Apic» (73), «Starless and Bible Black» (74) e «Red» (74) constituem a fase mais negra da banda. Entram e saem constantemente novos músicos, incapazes de suportarem a tensão acumulada e a tremenda energia exigida nas prestações ao vivo. Apenas Fripp se mantém inexorável, cumprindo escrupulosamente as ordens do chefe. «Red» tem momentos quase insustentáveis, com a guitarra eléctrica e a secção rítmica formada pelo baixo de John Wetton e a bateria de Bill Bruford sem darem um minuto de descanso, numa espécie de Heavy-Metal mais sofisticado. Com «Red» os King Crimson atingem novo ponto crítico e novamente é dado o toque a dispersar, não sem entes editarem mais um disco gravado ao vivo nos E.U.A., intitulado obviamente «U.S.A.».
Fripp confessa-se então à beira da loucura e retira-se para um mosteiro para receber os ensinamentos de J.G. Bennett, discípulo de Gurdjieff, cujas doutrinas esotéricas eram o suporte teórico ideal para os seus futuros projectos musicais.
Práticas mágicas e rituais, exercícios de auto-disciplina e a aprendizagem de novas técnicas (de guitarra e não só…) impelem o músico para uma atitude agora declaradamente luciferina. Domínio da dor, o sofrimento como forma de ascese ou a utilização fria e sistemática da inteligência em detrimento das emoções conduzirão a partir de agora toda a sua vida e obra.
O modo como Fripp toca a sua guitarra é exemplar desta nova atitude. A energia é agora perfeitamente canalizada e contida, jamais explodindo em clímaxes libertadores. Exercício tântrico. Toda a energia, sexual ou emocional, é contida e dirigida para os centros mentais superiores. Como consequência, o aumento de poder e de uma certa forma de lucidez e o crescente controlo que o músico vai progressivamente adquirindo, sobre si próprio e (mais subliminarmente) sobre os outros.
Grava entretanto, juntamente com Brian Eno, os álbuns «No Pussyfootin’» (74) e «Evening Star» (75), utilizando pela primeira vez a técnica das «Frippertronics». «Evening Star» é, ainda hoje, para quem o souber escutar e perceber, dos álbuns mais terríveis e diabólicos que alguma vez foram gravados. «Index of Metals» desvela-nos implacavelmente a beleza gelada do mais terrível dos Infernos, os da inteligência que se auto-devora nos labirintos do seu próprio orgulho e desmesura. Fripp foi ainda um dos precursores das técnicas de inversão.
Não quero para já adiantar mais sobre este assunto. A electricidade e a música sempre foram bons condutores para a passagem de energia, seja ela positiva ou negativa. Magia, pois claro, neste caso melhor dizendo escuro, pois que de magia negra se trata. O trivial, nos tempos que correm, em algumas das correntes da música actual. Quanto ao resultado final de tudo isto só Deus o decidirá.
A trilogia final dos King Crimson, novamente reciclados para os anos oitenta, é constituída por mais três álbuns: «Discipline» (81), «Beat» (82) e «Three of a Perfect Pair» (84). Fripp é ultrapassado pela rapidez dos acontecimentos e pelos seus discípulos, nas artes diabólicas. Os citados álbuns são «apenas» bons, reunindo como sempre excelentes executantes, como Tony Levin ou Adrian Belew.
Hoje é um pacato cidadão casado com a senhora Toyah Wilcox e dá aulas regularmente na sua Winbourne natal.
Uma referência final para os álbuns a solo, exceptuando o primeiro, «Exposure», exercícios de estilo de «Frippertronics» apoiados em manifestos teóricos de tom apocalíptico e profético. Duas vozes dão vida e entusiasmo aos dois primeiros trabalhos: as de Peter Hammill em «Exposure» e de David Byrne em «God Save the Queen/Under Heavy Manners». Dos restantes que venha o diabo e escolha…

11/05/2008

King Crimson - Thrak

Pop Rock

29 de Março de 1995
álbuns poprock

EIS O HOMEM ESQUIZÓIDE DO SÉCULO XXI

KING CRIMSON
Thrak (8)
Virgin, distri. EMI-VC

Regresso em grande, este do “dinossauro” Robert Fripp, um dos grandes inovadores da guitarra eléctrica no rock, correspondente à quarta encarnação dos King Crimson. Expliquemos: os King Crimson tiveram uma primeira vida que durou desde a estreia de “In the Court of the Crimson King” (1969) até “Earthbound”, registo ao vivo de 1973. A segunda teve início ainda no mesmo ano, com “Lark’s Tongues in Aspic”, prosseguiu no ano seguinte com “Starless and Bible Black” e “Red”, terminando em 1975 com novo disco ao vivo, “U. S. A.”, gravado nos Estados Unidos, tal como “Earthbound”. Os King Crimson regressaram nos anos 80 com o tríptico “Discipline”, “Beat” e “Three of a Perfect Pair”. Depois de vários projectos a solo nos quais Fripp pôde explanar as suas teorias musicais e sociológicas, com graus variados de sucesso, este novo álbum da banda surge um pouco como uma surpresa, embora venha antecedido pelo mini-álbum “VROOOM”. Acompanham-no três elementos de formações anteriores, o guitarrista Adrian Belew, o baixista Tony Levin, o baterista Bill Bruford, aos quais se juntaram Trey Gunn (no “Chapman stick” – algo como um computador de guitarra -, que esteve presente no último projecto de Fripp, um quinteto de cordas, com o álbum “The Bridge Between”) e o recém-chegado Pat Mastelotto, como segundo baterista. Os primeiros sons de “Thrak”, no tema de abertura, “VROOOM”, dão o tom geral, uma revitalização do passado, aqui num classicismo reminiscente de “Islands” e “Lark’s Tongues in Aspic”. Logo cortado pela entrada triunfal do velho “mellotron” e da guitarra, em altíssima forma, do mestre, ao nível dos grandes épicos da fase “Lark’s Tongues”, “Starless” e “Red”. Ou seja, os King Crimson retomaram a tradição e com ela fizeram um álbum com a solidez dos antigos, ao mesmo tempo que empreenderam a sua potencialização. “Dinosaur”, título irónico, insere-se na característica tradição crimoniana das baladas, por vezes duras, neste caso com uma vocalização de Adrian Belew a fazer lembrar de forma insólita John Lennon. “Walking on air”, outra balada, pelo contrário, é anos 70 sem tirar nem pôr, numa autocitação onde nem sequer faltam as “frippertronics” e o “mellotron” orquestral de álbuns como “In the Wake of Poseidon” e “Lizard”. “B’ boom”, tribal e corrosivo, com um solo das duas baterias pelo meio (há quanto não se ouviam discos com solos de bateria?!...), deita para o lixo coisas como os Transglobal Underground e deveria merecer uma olhadela de Bill Laswell. No título-tema, a guitarra explode toda a sua raiva, num registo bem próximo de “Red”. “Inner garden”, separada em duas versões, é mais uma balada, desta feita com guitarra acústica, nostálgica até às lágrimas; e “People”, com nova vocalização de Belew, está na linha das canções da década de 80 do grupo, aqui com uma marcação rítmica semelhante à dos Talking Heads. “Radio I” e “Radio II” são pequenos apontamentos electrónicos ao serviço das entidades luciferinas e possivelmente uma citação a um grande filme ignorado dos anos 80, “Radio on”, de Christopher Petit, para o qual Fripp compôs parte da banda sonora. Já agora, vale a pena ver o ouvir outro filme que conta com a participação, na banda sonora, do guitarrista, este emblemático do cinema “underground” nova-iorquino, “Subway Riders”, em português “Os Viajantes da Noite”, com a assinatura de Amos Poe. “One time” é das poucas canções inconsequentes de “Thrak”, na sua progressão inexorável mas um pouco a metro. Nova revisitação ao passado, em “Sex sleep eat drink dream”, guitarra desvairada sobreposta ao “mellotron” e vocalização rouca, que, quem se lembrar, associará de imediato a “Cat food”, um tema de “In the Wake of Poseidon”. “Thrak” fecha com mais duas versões do enigmático “VROOOM”. A segunda, uma coda, intitulada “VROOOM VROOOM”. Uma das imagens da capa mostra um automóvel, símbolo do homem esquizóide dos tempos modernos: velocidade e mecânica. Em ambas, Fripp volta a manipular na guitarra aquela dinâmica de tensões que faz dele um autêntico mestre do Tantrismo aplicado à arte musical. À beira dos anos 90, os King Crimson olham para trás. Como que a avisar-nos de que o “21st century schizoid man” aí está.