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01/05/2026

A música em comício [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 9 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

Festa do “Avante!” 91

 

A música em comício

 

Na Festa do “Avante!” é sempre assim todos os anos: bons nomes em cartaz, atuações invariavelmente prejudicadas por deficiências e o desconforto inerentes ao gigantismo do evento. Sabe-se que é assim, mas vai-se na mesma. Festa é festa, como se costuma dizer. O contingente “folk” foi refrigério no banho de poeira.

 

Há duas maneiras de apreciar a Festa do “Avante!”. Impressiona, por um lado, a reconhecida capacidade de organização e mobilização dos comunistas portugueses. Montar uma cidade descartável não é fácil e o milagre é alcançado todos os anos. De resto, o partido é especialista em milagres. Por outro lado, essa mesma cidade, erguida com o objetivo de proporcionar a fruição, seja ela estética, ideológica ou gastronómica, ao apostar na massificação acaba por deixar em muitos um sabor a frustração.

Evidentemente, há quem tenha opinião contrária e aprecie. Para os da casa está sempre tudo bem. Festejar é, como no resto, nivelar por baixo. Quem também gosta muito, numa população de circunstância, é aquela camada de “jovens” para quem o paraíso consiste em emborcar kilolitros de seja o que for com álcool na composição, rebolar na terra, sozinho ou às voltas com o(a) parceiro(a) e, com sorte, culminar a aventura no hospital mais próximo. Na Quinta da Atalaia, foi um rodopio de ambulâncias para cá e para lá a transportar os despojos humanos resultantes dos êxtases instantâneos. Em qualquer dos casos, do militante fanático ao “freak” andrajoso, a festa funciona ao nível da alucinação.

 

O inferno são os outros

 

Para complicar, o programa das atividades culturais (e em particular as muitas músicas que são o mel da festa) costuma ser aliciante. São as circunstâncias que fazem o inferno. O anjinho incauto atraído pela promessa de boa música sofre a bom sofrer, numa correria de poeira e encontrões, para finalmente ver recompensado o esforço com mais poeira, parasitagens extra-musicais de toda a espécie (deficiências técnicas, atropelos à higiene mais elementar, interferências humanas provocadas por gritos e choros de crianças ou militâncias mais inflamadas, vómitos à tangente, numa massa envolta na bruma poeirenta que transforma o cenário numa variante proletária de “Mad Max”…) ou o desespero terminal de não conseguir chegar a tempo ao espetáculo ansiado, devido ao desfasamento e atrasos de horário.

Saíram-se bem os Pop Dell’Arte que na sexta à noite se embrenharam num delírio psicadélico “kitsch” apoiado por um eficaz show de luzes psicoalucinantes de tendência dadaísta. João Peste contorceu-se vocalmente a contento, imitou a Piaf, fez inveja a Vítor “Goodbye Maria Ivone” Peter e embasbacou meio povo presente em mil e uma provocações inteligentes.

Provocantes e inteligentes foram ainda os Telectu que, depois de Elliott Sharp, voltaram a escolher o parceiro certo – desta feita o percussionista Chris Cutler – para mostrar que por cá a vanguarda também mexe. Espaço para a improvisação e para o diálogo entre músicos de diferente formação e sensibilidade. Num instante o caos, no outro a convergência. Jorge Lima Barreto, em tom de contenção, sugeriu ambientes e avançou pistas. Vítor Rua provou até que ponto é bom guitarrista, sobretudo quando se esquece dos botões e pedais de efeitos, como aconteceu no encore final. Chris Cutler construiu, destruiu, brincou, ordenou e explodiu em compassos ora binários ora impossivelmente complexos. Experiência radical.

 

Uma fada entre a poeira

 

Quem sofreu mais foram os representantes da “folk”. Prejudicados por investidas sistemáticas de “feedback” e pela indiferença de um público na maioria já em avançado estado de decrepitude física e moral, os Boys of the Lough mostraram no palco grande, com a dignidade que se impunha, os mistérios da música irlandesa, a que poucos terão sido sensíveis, distraídos da hora mágica do pôr-do-sol.

No auditório “1º de Maio” (uma tenda de circo montada sobre a terra) a harpista Savourna Stevenson fez esquecer o mundo exterior e material. Nem o ruído insistente de um baixo tonitruante e monocórdico do grupo de arraial do lado conseguiu vencer a atmosfera intimista criada pela fada. Fada sensual, diga-se de passagem, mini-saia negra recuada em volta da madeira central do instrumento, acrescentando outras divagações ao sonho do espírito. Acompanhada em dois temas pelo violinista dos Boys of the Lough, Aly Bain, Savourna Stevenson alternou temas swingantes com tradicionais do seu mais recente disco “Tweed Journey” ou a revisitação de um tema de Duke Ellington. Brilhante, num barracão ou num palácio.

À noite, os Oyster Band enlouqueceram por completo uma assistência (em parte já recuperada da ressaca vespertina) que não se fartou de dançar e formar rodas ao som da “Punk Folk” da banda britânica. Alheados da agitação geral, dois jovens jogavam às cartas no escuro entre pernas, sentados no chão... Folia somente perturbada pela presença emblemática da vocalista June Tabor que, sem voz, e desfasada do grupo, arrefeceu os entusiasmos e conseguiu assassinar o clássico dos Velvet Underground “All tomorrow’s parties”, fazendo Nico revolver-se no túmulo. Rainha de outros reinos, June Tabor, ao contrário do que aconteceu no “Folk Tejo”, não deslumbrou.

Do reino de poeira, terra e confusão fica a recordação de umas febras com sabor a plástico rotuladas de “cozinha típica”, as imagens apocalípticas do império das latas de cerveja amontoadas rivalizando com os corpos empilhados e o comentário sabedor de alguém ao passar no palco onde atuava um “ensemble” de contrabaixos: “olha um violino!”. É assim na Festa do “Avante!”, os olhos só vêem aquilo que sabem ou querem ver...


Músicas autónomas proclama independência [Festa do Avante]

 

PÚBLICO SEXTA-FEIRA, 6 SETEMBRO 1991 >> Cultura

 

XV Festa do “Avante!” começa hoje na Amora

 

Músicas autónomas proclamam independência

 

Todos os anos, por esta altura, os comunistas portugueses dão espetáculo. Sobre um fundo vermelho cada vez mais esbatido, na Amora, Seixal, voltam a erguer-se os palcos onde se fará a festa. Os camaradas estão resignados: a república da música há muito que se tornou independente.

 

Uma imagem com texto, ténis, pousar, pessoa

Descrição gerada automaticamente

 

Ideologia à parte, não faltam motivos de interesse em mais uma edição, a XV, da feta do “Avante!”, que durante três dias vai animar o cinzento poluído da margem Sul do Tejo. Em termos exclusivamente musicais, se ainda não é desta que vêm os Pink Floyd, resta a consolação de poder apreciar ao vivo o rock de Gianna Nannini, uma “latin lover” italiana que já trabalhou com Bertolucci, Antonioni e cantou o hino do último campeonato do Mundo de Futebol, capaz de incendiar corações de todas as cores com o som agressivo do seu mais recente álbum “Scandalo” – no domingo, às 22h, no palco 25 de Abril.

Mas o programa da Festa não engana: 1991 é o ano da consagração da música tradicional. Não deixa de ser engraçado verificar como o vocábulo “Tradição” se sobrepôs ao de “Revolução” no léxico das festividades comunistas. O que vem provar que os comunistas, quando querem, sabem ser homens “às direitas”…

June Tabor com os Oyster Band, Boys of the Lough e Savourna Stevenson constituem cartaz aliciante num campo musical que, finalmente, parece ter-se implantado nos gostos (mais que não seja consumistas) do auditor português.

June Tabor é apenas uma das vozes superlativas do canto feminino de raiz celta. Recentemente, no Coliseu, conseguiu fazer esquecer o equívoco chamado “Folk Tejo”. Pela sua voz, se com ela formos capazes de vibrar em consonância, chega-se ao céu. Em termos de materialismo dialético é difícil de compreender. Na Amora será talvez um pouco diferente, já que cantará acompanhada por um grupo de rapazes irlandeses dados à bebida (há algum irlandês que não o seja?) e que por isso mesmo fazem música de cair para o lado – os Oyster Band.

Da Irlanda brumosa de alma acastelada e pátria provisória do “senhor da ira”, os Boys of the Lough transportam consigo as texturas e odores da madeira e do musgo, do vento e da pedra. Trazem a alegria e a tristeza do exílio irlandês. Na flauta e no violino virtuosísticos de Cathal McConnell e Aly Bain. E na gaita-de-foles, como não podia deixar de ser. Sábado às 19h, no “25 de Abril”, para dançar até à exaustão. O comité central do partido em princípio não se deve opor…

Duas horas depois, às 21h, no Auditório 1º de Maio, é a vez da harpa de Savourna Stevenson serenar os ânimos, em dueto com o violinista dos “Boys”, Aly Bain. Savourna é um dos expoentes da nova linhagem de harpistas celtas, que como Máire Ní Chathasaigh, Alison Kinnaird, Billy Jackson ou as Sileas, recupera os códigos estilísticos e a mística do lendário Carolan, o bardo, para os devolver de forma intimista num contexto contemporâneo. Outros estrangeiros merecem uma chamada de atenção: os Bogus Brothers e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni (ambos com atuações agendadas para sábado, respetivamente no “25 de Abril” às 23h30 e “1º de Maio” às 22h). Havia o trio de Cedar Walton, mas foi cancelado.

Imensa, a legião portuguesa, representativa de diversos quadrantes, promete momentos de boa música. Sexta-feira convém não perder as atuações dos Plopoplot Pot de Nuno Rebelo, dos Pop Dell’Arte de João Peste e de Jorge Peixinho.

Sábado, sempre no palco principal, uma sequência interessante: Romanças, Issabary, Brigada Victor Jara, Júlio Pereira, António Pinho Vargas. No 1º de Maio: Trio de Carlos Bica, Idéfix e Zé-di-Zastre – o jazz em português. Finalmente, no domingo: Tina e os Top Ten, Delfins e José Eduardo Unit. Para o fim uma referência muito especial para a atuação (sexta, 22h30, no “1º de Maio”) dos Telectu de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua que se farão acompanhar pelo percussionista, anarquista e referência mítica da cena vanguardista mundial (Henry Cow, Art Bears, Skeleton Crew, David Thomas, Fred Frith, a constelação da “Recommended”…), Chris Cutler.

Depois há os ranchos folclóricos ou os grupos rock da última divisão, espalhados um pouco por todo o lado, a acompanhar a merenda no chão, de frango, poeira e garrafão. Enquanto se espera que o camarada Cunhal venha dizer que tudo está como era dantes…

04/12/2025

Som quase estragou a festa [Folk Tejo]

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 3 JUNHO 1991 >> Cultura

 

Folk Tejo

 

Som quase estragou a festa

 

Uma imagem com texto, jogador, preto, branco

Descrição gerada automaticamente

 

Lisboa iniciou as suas festas juninas ao som da música folk. O cartaz de sábado era aliciante: duas vozes femininas de chegar ao céu, três escoceses dos copos e um gaiteiro de cortar o fôlego. Na luta contra o som, péssimo, só June Tabor venceu e comoveu. Mas o público queria era dar ao pé.

 

Música folk, tradicional, étnica, nos últimos tempos, tem sido um fartote. Lisboa aderiu à onda, com o Tejo ao lado e as eleições à porta. Coliseu dos Recreios. Cerca de meia casa, composta pelos indefectíveis do género, mais os curiosos, mais aqueles que vão a todas. Os primeiros saíram com um sabor a frustração. Os curiosos aguçaram ainda mais a curiosidade. Os outros não devem ter percebido nada, até porque o som não deixava.

Um grupo nacional de zés-pereiras, gaiteiros e tocadores de bombo circulou pelas artérias junto ao recinto, antes de subir ao palco para uma atuação, no mínimo, bombástica.

Maddy Prior, voz lendária da cena folk britânica, estandarte dos Steeleye Span e atualmente mais apaixonada do que nunca pela música antiga (no seio dos Carnival Band) e pelo marido, desiludiu, sem que a culpa tivesse sido inteiramente sua. Entre dois amores, optou por trazer o marido – Rick Kemp – e cantar umas melodias que seriam certamente bonitas, se acaso fosse possível perceber alguma nota. Não há, de facto, adjetivos que cheguem para desancar um som exageradamente amplificado, empastelado, impróprio para um comício quanto mais para um concerto de música. Salavaram-se os momentos em que Maddy Prior, sozinha, sentada à beira do palco, ou acompanhada unicamente pelo piano e pelo contrabaixo, deixou perceber a voz maravilhosa que realmente tem.

 

A emoção da cerveja

 

Das terras altas da Escócia, os McCalmans, trio já veterano nestas andanças, chegaram de guitarras e latas de cerveja em punho para pôr toda a gente aos pulos, com as suas harmonias vocais emocionadas e toda a fluência que só o álcool é capaz de proporcionar. O homem da mesa de mistura, experimentador nato, desta vez apostou tudo nos agudos metálicos, testando a capacidade de resistência dos tímpanos às frequências mais elevadas. Os escoceses acabaram por perceber – no “encore” da praxe dispensaram a amplificação, cantando abraçados, eufóricos e voltando a dar um empurrãozinho publicitário à tal marca de cerveja.

Depois, chegou o momento mais alto da noite, graças à voz e postura sublimes de outra grande senhora da Folk, June Tabor. Acompanhada apenas por dois violinistas, tornou claro que a verdade do canto tradicional exige silêncio e contensão. Foi até ao fundo, contando e cantando histórias trágicas de amor e ódio, de alegria e morte. Houve quem não compreendesse e assobiasse, exigindo o que nessa altura soaria despropositado – a dança e o delírio telúrico. June Tabor só no fim soltou as pontas à rede de sortilégios – saltando e batendo palmas, como uma menina que por dentro continua a ser – não sem que antes a sala escurecesse e calasse vergada a uma arrebatadora interpretação de uma canção de Brecht. O próprio som, como por artes mágicas, melhorou.

 

Música “a metro”

 

Davy Spillane, gaiteiro de reconhecidos méritos, revelou-se mestre de duas coisas: das suas “uilleann pipes” (que maneja com a agilidade de quem não deve fazer outra coisa) e na arte de música “a metro”. O irlandês mistura tudo – os blues, o rock ‘n’ roll, a country e a música de baile. A solo, mostrou-se realmente “virtuose”, interpretando, entre outros, um tema dedicado a esse outro grande gaiteiro que é Paddy Moloney, dos Chieftains. O pior foi o resto, as “desbundas” coletivas, o tom piroso da guitarra, embevecida nos acordes de “samba pa ti” e se calhar na lembrança de convívios que decerto deve ter havido também lá pela Irlanda. Davy não quis saber de purismos e lançou-se a mil à hora, tocando as suas “pipes” como um danado. Em frente ao palco, os mais entusiastas entregaram-se, extasiados, aos prazeres da dança.

Quem não deve ter sentido prazer nenhum foi aquele jovem espancado e atirado pela escada abaixo, já perto do fim, por três “agentes da autoridade, apenas por ter pedido que o deixassem entrar. Final triste para um acontecimento que se propõe dar um ar mais saudável e civilizado à capital.

 

23/12/2019

JUNE TABOR - An Echo Of Hooves


Y 2|JANEIRO|2004
june tabor|música

june tabor
sonhos de uma noite de inverno

Mais embrenhada na folk do que nunca, June Tabor adapta em An Echo of Hooves a tradição lírica dos cancioneiros inglês e escocês à sua própria personalidade de diva da noite.

Com a passagem dos anos, o rosto foi-se tornando mais sereno ao mesmo tempo que uma luz difusa se desprende da expressão. June Tabor não receia expor as mudanças do corpo – deixando-se, mais uma vez, fotografar em grande plano para a capa do novo álbum, “An Echo of Hooves” – porque estas não são mais do que a medida, a forma extrerior de um brilho e de uma voz que, cada vez com maior intensidade, vão lavrando uma obra ímpar na música popular dos nossos tempos.
            June Tabor tornou-se a cantora folk que transcendeu as geografias da tradição. E, no entanto, “An Echo of Hooves” parte das canções e do imaginário folk das Ilhas Britânicas, como se estes se confundissem com os caminhos da sua própria alma. “As baladas em língua inglesa e escocesa representam a ‘story telling’ na sua expressão mais pura e premente. Quando as estiverem a ouvir – porque estas são canções em que a letra e a música são igualmente importantes – sintam o vento e a chuva, contemplem o nascer da lua e captem ‘an echo of hooves’ no ar da noite”, escreve na contracapa do disco. Palavras cuja poesia é, de certa forma, traída quando o dicionário propõe como única tradução para “hooves”: “meteorismo, doença do gado com dilatação do estômago provocado por gases”. Tratar-se-á de meteoritos cheirosos que ao deflagrarem emitem os característicos, mas tão bucólicos, odores da bosta de boi, metáfora poética para o excesso de beleza (a “dilatação do estômago”…) e as virtudes da vida no campo? Seja como for, abandonemos este momento de enlevo e penetremos no âmago da coisa, que é como quem diz, na música. Que é como quem diz, num sonho. Que é como quem diz, na voz de June, uma voz que, como os raios da lua, provoca esse efeito de abrir uma fenda na realidade para dar passagem a uma dimensão onde tudo está suspenso. A música tradicional, na sua vertente mágica e onírica, respeita e diz respeito, precisamente, a esta condição.
            “An Echo of Hooves” reúne onze temas tradicionais, incluindo “Lord Maxwell’s Last Goodnight”, que June Tabor já selecionara para “Ashes and Diamonds”, de 1977, e, a fechar, “Sir Patrick Spens”, que não escutávamos desde o clássico “Full House”, dos Fairport Convention. Ausência total de originais numa imersão a cem por cento no cancioneiro. Na lista de acompanhantes, a par dos habituais Huw Warren (piano, violoncelo, acordeão), Mark Emerson (violino, viola, piano) e Tim Harries (contrabaixo), estão também Martin Simpson (guitarra), 23 anos depois do seu dueto com a cantora em “Cut Above” (1980), e, maior e mais agradável surpresa, Kathryn Tickell, nas “Northumbrian Pipes”.
            Para trás ficaram heterodoxias como o punk-folk enfiado num blusão de cabedal de “Freedom and Rain”, com os Oyster Band, a coleção de “standards” “Some Other Time” (onde é possível saborear a inolvidável experiência que é escutar June a cantar “All tomorrow’s parties”, dos Velvet Underground) ou, em menor grau, as cintilações estelares de “Aqaba”, “Angel Tiger”, “Against the Streams”, “Aleyn” ou “A Quiet eye”. June Tabor fez a viagem interior para emergir, mais bela, centrada e lúcida do que nunca, ao ar livre da vida, num retorno (que a cada novo álbum parece tornar-se irreversível) às raízes profundas do seu canto, a música tradicional.
            June Tabor está, de certa forma, só nesta viagem. Do outro lado do horizonte apenas se vislumbra Norma Waterson. São elas as sobreviventes de uma devoção e integridade sem limites. Shirley Collins desapareceu perdida num medo de papões e infortúnio que alguns “homens de negro”, como David Tibet ou Steven Stapleton, procuram congelar como emanação de um outro tipo de magia… Maddy Prior diverte-se com os mitos e constrói uma “new age folk” porventura chocante pelo excesso de colorido. Outras, como Linda Thompson, Jacqui McShee ou Mandy Morton perduram como fogos-fátuos cuja lembrança continuamos a estimar.
            June, não. June permanecerá até ao fim na senda da noite que conduz ao silêncio. Silêncio que impregna cada nota, cada inflexão, cada pausa, cada acentuação, cada ornamentação da voz em “An Echo of Hooves”.
            “The Battle of Otterburn” e “Hughie Graeme” destacam-se pela simples razão de neles se fazerem ouvir a “erotic pipes” de Kathryn Tickell – a sereia. “Bonnie James Campbell” é outra inflexão no génio de “Ashes and Diamonds” com o piano de Huw Warren a emprestar-lhe as cores do impressionismo. Para quem se quiser ficar nos arranjos “folky” com o selo dos anos 70 há “The duke of Atholl’s nurse” e “Young Johnstone”, ambas com a guitarra de Simpson. O momento de canto “a capella” acontece em “Bare Willie”, enquanto a continuação do processo de interiorização e renovação encetado com “Aqaba” chega com “The cruel mother”. Por fim, não vale a pena tentar encontrar semelhanças entre “Sir Patrick Spens” dos Fairport Convention de 1970 e o mesmo tema vocalizado por June Tabor. O que naqueles era profusão de vestes e ambiente medievais em June é drama, tempestade e morte. “For I saw the old moon late last night/With the new moon in her arms/Oh master dear if you set to sea/I fear you’ll come to harm”. A velha lua morreu ontem com a nova nos braços. June Tabor traz a eternidade no seu canto. Curioso: a sua voz soa em “An Echo of Hooves” menos grave. Como se tivesse subido um degrau das escadarias que conduzem ao céu.

JUNE TABOR
An Echo of Hooves
Topic, distri. Megamúsica
8|10

07/11/2015

June Tabor - Rosa Mundi



Y 11|JANEIRO|2002
discos|escolhas

JUNE TABOR
Rosa Mundi
8|10
Topic, distri. Megamúsica

A voz já vai chegando com alguma dificuldade aos agudos, mas a classe permanece intacta. June Tabor construiu uma obra ímpar que tanto mergulha nas raízes mais profundas da folk britânica como se aventura na canção contemporânea. “Rosa Mundi” envereda em ambas as direções. Parece, no entanto, óbvio, que é no modo tradicional que a sua voz tem o seu lugar natural, a julgar quer pelo pouco à vontade com que aborda o “standard” “Roses of Picardy”, quer, no registo oposto, pelo tom arrepiante que confere ao tradicional “Deep in love”, uma das suas mais espantosas interpretações alguma vez registadas em disco. “Rosa Mundi”, subordinado ao símbolo da rosa, é ainda a prova de que June Tabor continua a procurar(-se) mais longe, ao cantar, pela primeira vez, em alemão (um tema do séc. XV), e em francês, algo que não fazia desde “A Cut Above” – embora aqui sem fazer esquecer a idêntica costela gaulesa de Shirley Collins – ou nessa outra experiencia que é dar voz à música de Tchaikovsky, em “The crown of roses”.

29/12/2014

Com a tranquilidade no olhar [June Tabor]



DESTAQUE

ENTREVISTA COM JUNE TABOR, QUE CANTA HOJE À NOITE NO CCB

COM A TRANQUILIDADE NO OLHAR

SERÁ A TERCEIRA APRESENTAÇÃO AO VIVO EM PORTUGAL DE JUNE TABOR, UMA DAS VOZES E FIGURAS MAIS MARCANTES DA MÚSICA POPULAR BRITÂNICA DAS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS. COMEÇOU PELA FOLK, ARRISCOU O PUNK, GOSTA DE FLIRTAR COM O JAZZ E É DETENTORA DE UMA CARREIRA IMACULADA. “A QUIET EYE” É O SEU MAIS RECENTE DISCO. UM DISCO “HAUNTING”, “FANTASMAGÓRICO”, COMO ELA DIZ.

JUNE TABOR nasceu em Warwick, Inglaterra, no último dia do ano de 1947. Ao longo da década de 60 e da primeira metade dos 70, viveu, como todas as cantoras inglesas da sua geração, um pouco apagada na sombra de Sandy Denny. A nobreza e a absoluta ausência de concessões da sua música acabaram, porém, por impô-la como uma das maiores cantoras das Ilhas Britânicas.
Embora o seu nome esteja ligado sobretudo à música tradicional, são frequentes as incursões pelo jazz e pelos compositores contemporâneos. Já gravou com os punk-folkers Oysterband e atuou ao lado dos Albion Band e dos Fairport Convention. Colaborou com Nic Jones, Martin Carthy, Peter Bellamy, Savourna Stevenson e Maddy Prior, formando com esta última o grupo Silly Sisters. Nos últimos anos, a sua música ganhou um apuro formal e uma elegância inultrapassáveis que nos álbuns se traduzem numa quase fantasmagoria.
            June Tabor, que já atuou duas vezes em Portugal, afirmou uma vez que “os nossos problemas seriam resolvidos se o mundo fosse governado por jardineiros… os verdadeiros, claro”. June é um desses jardineiros que semeia a terra com as sementes de outro mundo.
            Apresentar-se-á em trio com Huw Warren, no piano, e Mark Emerson, no violino e viola de arco.
            PÚBLICO – Durante anos consecutivos foi a vencedora crónica na categoria de “melhor cantora” nos prémios da revista “Folk Roots” que, finalmente, resolveu instituir um prémio especial de carreira só para si. Sentiu-se arrumada numa gaveta?
            June Tabor – Esse concurso… É sempre bom quando se ganha. Fica bem no currículo… Mas a responsabilidade também aumenta. Acabou por ser do meu interesse e da revista ter sido tomada essa decisão.
            P. – Ao fim de quase 30 anos de carreira, já não tem nada para provar?
            R. – Ao mundo, decerto que não. A mim, provavelmente, sim… Quando nos dirigimos aos outros, são importantes as suas opiniões sobre a imagem de mim própria que procuro transmitir. Mas quando tentamos provar alguma coisa a nós próprios, o caso muda de figura. Neste caso sou o mais acérrimo dos críticos. Os níveis de qualidade que imponho a mim própria são mais exigentes do que qualquer pressão que possa vir do exterior.
            P. – Ainda sente essa pressão de cada vez que entra em estúdio para gravar um novo álbum?
            R. – Sem dúvida! Os nervos são uma coisa necessária. E a adrenalina… Às vezes os nervos surgem sem razão aparente. É preciso acreditarmos em nós próprios para conseguirmos ultrapassar estas fases. Eu consigo-o quase sempre.
            P. – Os seus discos são todos bons. Se calhar as pessoas têm curiosidade em saber quando dará um passo em falso…
            R. – … E espero nunca dar! Mas a verdade é que quando se termina um disco, está feito, já não se pode mudar nada. Fica escrita a versão definitiva e é possível ser-se julgado de uma maneira diferente daquela que se gostaria. É difícil dizer qual é a versão definitiva de uma canção. Em princípio qualquer coisa que fica gravada, em geral, nunca é tão boa como numa apresentação ao vivo. Gravar um disco é uma atividade estranha, artificial. Depois, o dinheiro para o fazer é limitado, a não ser que se seja famoso e se possa ficar fechado anos num estúdio. No caso da folk, não costuma haver muito dinheiro e o tempo em estúdio é limitado o que torna problemático captar a essência de uma canção. Às vezes, por sorte, consegue-se… De resto, todo o processo de apresentação de um disco é artificial, um exercício efémero num caminho que é a vida inteira. Não será a fórmula mais sincera de todas…

“Cantora folk é um pouco redutor”

            P. – Gostaria de ser considerada a primeira dama da folk?
            R. – Não seria verdade. Tanto canto canções folk como outras que não o são. Gostaria que me encarassem como uma cantora de canções fortes que conta histórias fortes, venham elas de onde vierem. “Cantora folk” é um pouco redutor…
            P. – Mas a verdade é que metade dos temas que fazem parte do seu novo álbum, “A Quiet Eye”, são tradicionais…
            R. – Sim, serão 50 por cento, mas mesmo essas não são interpretadas de uma maneira tradicional.
            P. – Ainda a propósito de “primeiras damas”, o som de álbuns como “Angel Tiger”, “Against the Streams”, “Aleyn” ou “A Quiet Eye” tem a mesma qualidade espectral de um disco como “Once in a Blue Moon”, de Lal Waterson com Oliver Knight ou dos mais recentes trabalhos de Norma Waterson…
            R. – Espectral? Bem, eu ainda aqui estou deste lado do telefone! (risos). Mas sei o que quer dizer, a minha música tem, de facto, essa qualidade fantasmagórica (“haunting”). No trabalho de produção é muito importante descobrir o som específico de cada voz. O som das vozes de Norma e Lal tem essa qualidade.

Letras que contem uma boa história

            P. – Qual o papel de Huw Warren, que há anos faz os arranjos para as suas canções, nesse processo?
            R. – Funcionamos cada vez melhor um com outro, é uma aprendizagem mútua. Primeiro escolho as canções com base nas letras e faço um primeiro esboço do modo como acho que devem ser interpretadas e do tipo de instrumentação que deve ser usada. Digamos que aprendo a cantar a canção, só depois, já em conjunto, é que decidimos qual vai ser o acompanhamento. Em princípio cada canção é interpretada ao vivo duas ou três vezes até chegar à forma certa. No caso de “A Quiet Eye” tudo isto demorou bastante tempo antes de Huw escrever as partituras para a orquestra.
            P. – Essa é outra das questões levantadas pelo disco. Li uma crítica negativa ao modo como a secção de metais (não) ligava com a sua voz, chamando aos arranjos “música de casino”. Não partilho desta opinião, mas gostaria de ouvir o seu comentário.
            R. – Toda a gente tem direito a fazer as críticas que quiser mas é óbvio que não concordo. Música de casino? Há sempre alguém à procura de poder dizer mal de qualquer coisa. Essa é a forma mais reles de deitar abaixo, de denegrir o que considero ser um trabalho esplendoroso a todos os níveis, instrumentação, interpretação, arranjos, escolha de reportório. Estou-me absolutamente nas tintas para as pessoas que fazem esse tipo de afirmações, são opiniões que valem pouco mais que zero! Fiz-me entender?
            P. – Completamente! Pessoalmente os arranjos para metais fizeram-me lembrar – e, utilizando o seu termo – os arranjos “esplendorosos” de “Anthems in Eden”, de Shirley e Dolly Collins, um clássico. Muito mais que o trabalho exaustivo com instrumentos de sopro dos Brass Monkey…
            R. – Adoro esse álbum mas nem sequer me lembrei dele na altura das gravações. Mas gosto da comparação! Os Brass Monkey são outra coisa, os nossos arranjos usam sobretudo as surdinas, segundo técnicas muito próximas do jazz. Pouca gente reparou nisso…
            P. – O longo tema “The writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary” é um dos destaques de “A Quiet Eye”.
            R. – É épico. Sempre gostei deste tema mas não sabia qual a melhor maneira de o cantar. Decidi-me finalmente como resultado desta minha primeira colaboração com elementos da Creative Jazz Orchestra.
            P. – Richard Thompson, Maggie Holland e Nic Jones, todos ligados à folk, estão presentes com composições em “A Quiet Eye” e são escolhas óbvias, mas é a primeira vez que canta Ewan MacColl, em “The first time I ever saw your face”…
            R. – Uma personalidade tremenda e um grande compositor. Mas apesar de admirar quase todas as suas canções não há muitas que se adaptem a mim. É algo de subjetivo.
            P. – Afirmou há pouco que escolhia sempre as canções a partir das letras.
            R. – Sim, tudo o resto é secundário. Procuro letras que contem uma boa história ou que contenham uma sugestão visual forte, com economia de palavras. O máximo de coisas ditas num mínimo de espaço. Canções que façam sentir e pensar.

JUNE TABOR
Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, hoje, às 21h30
Bilhetes entre 1500$ e 4000$


AS QUATRO FASES DA LUA

ASHES AND DIAMONDS, 1977
Primeira obra-prima. O álbum do “escândalo”, onde June Tabor, purista das puristas, utiliza um sintetizador. Canções “a capella” alternam com arranjos instrumentais belíssimos, como “Now I’m easy”, “The earl of Aboyne” e “Cold and raw”. E “Lisbon”, balada que narra o encontro amoroso, no Renascimento, de uma portuguesa com um marinheiro inglês, no porto de Lisboa. Quarto crescente.

AQABA, 1988
Deslumbrante. Nesta altura já June Tabor passeava a voz e o talento por músicas de outras paragens. É o disco de apresentação de Huw Warren, em quem a cantora descobre o parceiro ideal. A voz parece pairar no éter, criando um ambiente de religiosidade. June cobre-se com o manto da noite. Lua cheia.

AGAINST THE STREAMS, 1994
Juntamente com o anterior “Angel Tiger”, é um álbum de depuração que descobre o ponto de equilíbrio: com um mínimo de meios, o máximo de emoção. Ainda a continuação de um ciclo, eternamente reaberto, de regresso à música tradicional. Uma noite de luar banhada pelo espírito da paz. Quarto minguante.

A QUIET EYE, 2000
Um manto de negrume adensa-se sobre esta voz, cada vez mais grave, de uma das maiores cantoras inglesas vivas. É um disco essencialmente “folk” onde cada balada é transformada num “standard” para a eternidade. Do exotismo “world” de “Pharaoh” ao “tour de force” folky “The writing of Tipperary/It’s a long way to Tipperary”, que recupera os ambientes do fabuloso “Ashes and Diamonds”. Lua nova.


UMA GERAÇÃO NA SOMBRA

SANDY DENNY dominou o panorama das vozes femininas folk em Inglaterra durante uma década, desde a sua estreia discográfica com os Strawbs, em 1967, até ao seu álbum a solo de despedida, “Rendez-Vous”, de 1977. No ano seguinte, uma hemorragia cerebral provocada pela queda de umas escadas na casa de um amigo privou o mundo de uma voz que sempre viveu ensombrada pela tragédia.
            Nestas condições era difícil a qualquer outra cantora folk inglesa, por maiores que fossem as suas capacidades, sobressair na sombra que era todo o espaço que Denny deixava às suas “rivais”. June Tabor faz parte desse grupo de cantoras originárias do circuito folk inglês dos anos 60 que lutava por um lugar ao sol. Curiosamente, o seu primeiro registo discográfico, “Silly Sisters”, surge em 1976, ou seja, numa altura em que a carreira de Denny se aproximava do ocaso e numa união de esforços com Maddy Prior, então nos Steeleye Span, outra das cantoras que também sempre lutara por se destacar do brilho ofuscante da antiga vocalista dos Fairport Convention.
June Tabor e Maddy Prior, ambas consideradas expoentes da folk britânica (não esqueçamos que a competição também foi sempre feroz com a vizinha Irlanda que, em matéria de “marketing”, tem sabido apresentar as suas melhores vozes embaladas com o irrecusável rótulo de “celtic”… não estavam, porém, sozinhas, nesta luta pela emancipação.
Nomes como Jacqui MsShee, dos Pentangle, Shirley Collins, Anne Briggs (uma das mestres de June) ou, mais ligadas ao folkrock, Bridget St. John, Gay Woods (da primeira formação dos Steeleye Span aos quais regressou recentemente), Linda Thompson (ex-mulher de Richard Thompson), Beverley Martyn (ex-mulher de John Martyn) ou Polly Bolton, dos Trees, surgiam com alguma regularidade na página de folk do jornal “Melody Maker”, pela pena de Colin Irwin, mas apenas as duas primeiras, Jacqui e Shirley, conseguiram atravessar de forma ativa e marcante as duas décadas consequentes.
Além destas, havia uma papisa: Norma Waterson, que debutara no seio de uma estranha família de cantores amantes da tradição rural inglesa e das danças “morris”, os The Watersons, hoje reavaliados como a raiz comum. A sai irmã Lal, já falecida, e o seu atual marido, Martin Carthy, o “Dylan inglês”, como lhe chamam, faziam igualmente parte desse coletivo cuja importância nunca é demais destacar.
Mas Norma nunca se preocupou em sair do anonimato. Foi preciso esperar até ao final do milénio para o seu nome ser dignificado, através de dois álbuns a solo que são outras tantas obras-primas da folk, junção perfeita dos veios mais antigos com uma atitude que não poderia ser mais contemporânea: “Norma Waterson” e “The Very Thought of You”, qualquer deles considerado pelo PÚBLICO como dos melhores dos respetivos anos.
Sem Norma, sem June, sem Maddy, sem Shirley e, indubitavelmente, sem Sandy, não haveria futuro. Mas elas existiram. E uma herança inestimável é transportada hoje por jovens como Eliza Carthy (na foto), menina-prodígio, cantora e violinista, filha de Martin Carthy e Norma Waterson, Kate Rusby ou Jo Freya (ex-Blowzabella).


ARTES | sexta-feira, 15 setembro 2000