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29/11/2019

Espaços entre o jazz que se faz em Portugal


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 15 NOVEMBRO 2003

O jazz criado hoje por músicos portugueses é jazz de cá e de lá, jazz universal, a saltar para fora das margens. Buscam-se caminhos, pontos de partida e de chegada. Descobrem-se novas vozes.

Espaços entre o jazz que se faz em Portugal

Nas excelentes notas explicativas que acompanham “The Space Between”, assinadas por Bill Shoemaker, define-se este “espaço entre” como o lugar que separa (e, consequentemente, liga…) o conhecido e o desconhecido, onde “os sentidos ainda não se tornaram sensibilidade”, os “estímulos ainda buscam um contexto” e “os ‘blues’ são uma cor, mais do que um estado emocional culturalmente defi nido”. Espaço que num rompante se abre, como diz o título de abertura, entre o “nothing” e a “new thing”. Para Rodrigo Amado (saxofones alto e barítono), Ken Filiano (contrabaixo) e Carlos Zíngaro (violino) este espaço – o da improvisação – estabelece ainda a ponte entre os discursos intrinsecamente jazzísticos dos dois primeiros e as intervenções, mais conotadas com práticas da música contemporânea, do violinista. Abstracta, recusando embora soluções aleatórias, a música sugere ritmos e cadências com raízes explicitamente mergulhadas na tradição, por mais “out” que queira deixar entender, como em “Off breaker”. Já “Horn, strings & sound” não esconde o propósito de investigação da forma sonora pura, essa quimera que consiste em procurar a impossível perfeição situada além da emoção.
            De certa forma complementar de “The Space Between”, a música de outro trio – João Paulo Esteves da Silva (pianos, acordeão, percussão e voz), Paulo Curado (saxofones alto e soprano, garrafa e voz) e Bruno Pedroso (bateria, percussão e voz) – procura igualmente “lugares” ou um lugar de rutura com o jazz americano, “perigosamente próximos dos mundos da fala”. Onde “The Space Between” é geografia e materialização de ilusões, “As Sete Ilhas de Lisboa” demanda uma matriz étnica, embora de igual modo confi nada à delimitação simbólica de uma Lisboa “de sabedorias perdidas de árabes e judeus”, como se pode ler no interessante texto de apresentação de João Paulo Esteves da Silva (J.P.E.S.). Entre o piano impressionista (J.P.E.S. tem o cuidado de referir a utilização de dois instrumento, um novo e um antigo) de “Este castelo de areia”, a mimética folk de “Bi fri nalmente”, as explorações “free” de “Fumarada”, as onomatopeias rítmicas de “Barco à vista” e as vocalizações “gestalt” de “Vamos lá pôr esta coisa a funcionar”, o jazz infiltra-se e recua como a maré do Tejo. Existirá, afinal de contas, um jazz intrinsecamente português? Fará parte da sua natureza afirmar de modo particular o universal?
            Mas nem só da “nova coisa”, e das interrogações que esta suscita, vive o jazz que se faz por cá. O jazz clássico está vivo. Que o diga o jovem trompetista e fliscornista Hugo Alves, “aluno” atento de Lee Morgan, Clifford Brown e Woody Shaw, em “Estranha Natureza”. Timbre quente, aconchegante, fraseado Redondo e escorreito, o swing indispensável imperam nos dez originais escritos pelo próprio e executados na Capela das Artes, Alcantanha, Silves, na companhia de Bruno Santos (guitarra), Jorge Moniz (bateria) e Nuno Correia (contrabaixo). Jazz a pavimentar, bem, o presente.
            José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, prossegue o seu caminho em direção a uma música onde a espiritualidade e os modos de improvisação da música árabe são a pedra de toque. Em “Aceno” Peixoto convidou o guitarrista da ECM, Ralph Towner (mantendo com ele amigável duelo de guitarras, em “Espaços”), Manuela Azevedo (vocalista dos Clã), Filipa Pais, José Salgueiro, Mário Delgado, Mário Franco, Mário Barreiros e Quine. Rabih Abou-Khalil é ponto de orientação. Filipa Pais poderá ter aberto uma nova porta do seu mundo em “Perto do poente (a visita da lua)”, vocalização astral com luz de moura ao luar como há muito vinha prometendo e aqui em absolute cumpre. Jazz ambiental, jazz do Sul, jazz de intimismos, jazz de fi ligranas, ou talvez tudo tendo a palavra “jazz” apenas a tracejado, o que, mesmo assim, não lhe tira o encanto.
            Duas vozes femininas demandam o “Eldorado” do jazz sem rótulos. Paula Oliveira foge-lhe mesmo por completo, em “Quase Então”, com João Paulo a dar-lhe cobertura no piano. A voz de Paula Oliveira pode fazer quase tudo, quase fazendo esquecer a de Maria João, em “Então”. Música tradicional portuguesa jazzada, pois então. Paula “scata” (às vezes de forma tão sólida como redundante, num “Sonho na canção de embalar”, em toada popular). Paula interioriza a melodia e os tons de alma. Paula quer dizer tudo de uma vez, chegando ao ponto de se transmutar em voz e canto de anciã numa incursão profunda no folclore, numa “Dona Iangra” que obriga a parar para melhor se escutar. Paula tem muitas músicas ao seu dispor e só lhe falta, caso assim o deseje, escolher uma delas para caminhar pelo seu próprio pé. Porque voz tem de sobra. A fechar, o “standard” “Stella by starlight” repõe o jazz no seu lugar e Paula Oliveira no lugar do jazz.
            Já Helena Caspurro (atual assistente no Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro e participante em projetos como “Bach2Cage”) vive a sua estreia discográfica, “Mulher avestruz”, com o jazz a correr-lhe por dentro de maneira distinta. Com ocasional sotaque e sensibilidade brasileiros. Mais “blues”, em “L-O-V-E you!”. E um piano a dirigir-lhe os dedos para as paisagens de vistas longas e largas do título-tema, onde Caspurro se revela compositora, arquiteta de dizeres, sinais e ruídos que a colocam na mesma academia de cantos inóspitos de Shelley Hirsch, Lauren Newton, Joan La Barbara ou Cathy Berberian.

RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO
The Space Between
Clean Feed, distri. Trem Azul
8 | 10

JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO
As Sete Ilhas de Lisboa
Clean Feed, distri. Trem Azul
8 | 10

HUGO ALVES
Estranha Natureza
Ed. autor/Actus
7 | 10

JOSÉ PEIXOTO
Aceno
Ed. e distri. Zona Música
7 | 10

PAULA OLIVEIRA & JOÃO PAULO
Quase Então
Clean Feed, distri. Trem Azul
7 | 10

HELENA CASPURRO
Mulher Avestruz
Ed. autor
7 | 10

26/08/2014

José Peixoto - A Vida De Um Dia



Sons

10 de Julho 1998
PORTUGUESES

Novo disco de José Peixoto

Deitar cedo e cedo erguer para ganhar o dia

José Peixoto
A Vida de um Dia

Por que raio é que um homem com bom-gosto, ainda por cima com predileção por produções atmosféricas, como Manfred Eicher, não pega na música de José Peixoto e a edita na ECM?
Longe dos Madredeus, longe do mundo árabe que já encheu a sua alma quando se auto-designava “El Fad”, José Peixoto compõe e toca agora a sua música em silêncio, a sós com a sua guitarra clássica, que faz respirar no espaço sagrado de uma igreja. Gravado na Igreja de Cartuxa, recorrendo exclusivamente ao ar e à luz, à sua guitarra e à tutela técnica de José Fortes, Peixoto continuou uma oração iniciada com “A Voz dos Passos”. “A Vida de Um Dia” é, na forma, apenas mais um disco para arrumar na secção “Instrumentos”. Mas é preciso desacelerar do burburinho urbano, encontrar um espaço no íntimo de cada um, saber escutar o que o silêncio tem para nos dizer, para esta música ganhar um canto só seu. Se “A Voz dos Passos” era uma experiência, “A Vida de Um Dia” é uma reflexão. De um espelho e da consciência. As cordas são mais doces, o ar mais perfumado, os dedos ligam-se melhor ao coração. Escuta-se o eco de um flamenco etéreo, as pausas fazem pensar, os caminhos são, por vezes, frágeis, mas as paisagens que revelam, são como que pequenos caleidoscópios que rodam dando a ver pontos de luz. José Peixoto navega num lago de ondulações suaves. Escondido numa das margens (quantas margens tem um lago?) um monge zen escuta.


21/11/2011

José Peixoto - O Que Me Diz O Espelho De Água

21 de Abril 2000
PORTUGUESES

José Peixoto
O Que me Diz o Espelho de Água (7/10)
Ed. e distri. FarolMúsica


Sentem-se numa cadeira. Respirem fundo. Abram a janela e respirem o ar fresco da manhã. Ponham no leitor de CD o terceiro álbum a solo de José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, e escutem as brisas que sopram deste trabalho habitado pelo silêncio e pelo elemento líquido. “O Que me Diz o Espelho de Água” liga-se desde as primeiras notas à água, quando, logo no tema de abertura, “O que não se vê”, a guitarra “imita” as gotículas cristalinas de uma harpa, instrumento tradicionalmente ligado àquele elemento. Faltará a esta música feita de sinceridade gestos tranquilos, o incêndio ou a seiva do excesso mas, em contrapartida, “O Que me Diz o Espelho de Água” tem para oferecer uma miríade de recantos e pequenos fogos-fátuos transportadores de paz de espírito, em progressões sempre apontadas ao interior. Como em Ralph Tower, Will Ackerman ou Michael Edges, a guitarra de José Peixoto flui como um rio de impressões suspensas, de momentos fugazes, de frases apanhadas de um rio maior. Nas margens ambientais da “new age”, do flamenco, do jazz e de algumas fragrâncias árabes e brasileiras (de Villa-Lobos a Gismonti). Ao contrário dos anteriores “As Vozes dos Passos” e “A Vida de Um Dia”, “O Que me Diz o Espelho de Água” conta com a colaboração de outros músicos, no caso Mário Franco, no contrabaixo, e Rui Júnior, nas percussões, o primeiro mais influente no desenho final dos temas em que participa, o segundo imbuído da tarefa de colorir e pontuar o som e a fluidez do discurso da guitarra. “O Que me Diz o Espelho de Água” é um disco difícil de segurar nas mãos. Passa como uma nuvem deixando na memória gotas de orvalho.

13/11/2011

À luz da manhã [José Peixoto]

Sons

7 de Abril 2000

José Peixoto fala do seu terceiro álbum a solo

À luz da manhã

Manhã cedo. Nas horas claras do dia em que o próprio silêncio ainda não acordou. O tempo certo para José Peixoto tocar os reflexos desta luz nas cordas da sua guitarra. É o que ele nos diz, e o que o espelho lhe diz no novo álbum “O Que me Diz o Espelho de Água”. Um “puzzle” de cristais gravado numa igreja.

Choveu durante todo o tempo em que conversámos com José Peixoto, de tarde, no bar do Centro Cultural de Belém, a propósito do lançamento do seu novo álbum, “O Que me Diz o Espelho de Água”. Pareceu adequado, atendendo ao elemento líquido citado no título. Uma tarde mais escura do que a música do guitarrista dos Madredeus que não impediu as palavras de, como as notas do disco, correrem na direcção certa.

“O Que me Diz o Espelho de Água” é o terceiro álbum a solo de José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, depois de “As Vozes dos Passos” e “A Vida de Um Dia”. E o que diz o espelho de água a José Peixoto? “Diz muito com o seu silêncio. Fala-me da quietude, da ilusão do tempo fixo, da solidez líquida, do espaço infinito contido no seu reflexo e também na fragilidade e da constante procura do repouso que existe no mistério da sua alma. Também me seduz pela certeza da sua vida escondida”, responde o músico.

De facto, também nós olhámos e vimos mais ou menos a mesma coisa. Por isso, nada mais natural que conversar com José Peixoto, confrontando-o com os reflexos do seu próprio trabalho.

Ao ver-se ao espelho da alma, José Peixoto compõe unicamente com base na intuição. “Sem esboço nenhum nem qualquer ideia pré-determinada.” “É como se estivesse a montar um “puzzle”, diz. “Há uma altura em que se tem uma ideia global da forma, embora ainda não se tenham as peças todas, é preciso encaixá-las, encontrar as notas certas.” O “puzzle” de “O Que me Diz o Espelho de Água” tem dez peças, algumas das quais com a participação do contrabaixista Mário Franco e do percussionista Rui Júnior.

Uma excursão na igreja

“O Que me Diz o Espelho de Água” foi gravado nos dias 10 e 11 de Novembro do ano passado na Igreja da Cartuxa em Caxias, “durante o dia, com muito bom tempo”. “Um local que me proporciona um certo conforto acústico e uma atmosfera de recolhimento”, diz o músico, que, mesmo assim, se viu forçado a enfrentar algumas contrariedades durante as sessões de gravação. “Houve interrupções motivadas por barulhos exteriores.” Seria terrível, presumimos, se tal acontecesse precisamente num take mais inspirado em que tudo correu bem. Pois foi mesmo isso que aconteceu durante a captação do tema “A memória contempla o reflexo”. “A igreja fica ao pé de um colégio e numa tarde saiu de lá uma excursão com miúdos. Esteve uma camioneta parada com o motor a trabalhar, mesmo em frente à igreja, com os miúdos a fazer toda aquela algazarra normal nestas circunstâncias. Ficámos sujeitos a uma assobiadela, a um grito. O pior é que o take estava bom até esse ponto. Foi preciso fazer um novo take em que me concentrei sobretudo na parte que faltava, para a seguir fazer o ‘editing’.”

José Peixoto faz questão de explicar que todas as gravações tiveram lugar durante o dia: “O meu ritmo é diurno. Gosto de trabalhar de manhã, é a parte do dia de que gosto mais, mas também porque sou obrigado… como levo todos os dias os meus filhos para a escola… Levanto-me às sete, sete e meia, um horário um bocado inconcebível para quem está de fora. Ninguém associa a música e os músicos a estas horas. Mas é um facto que à noite o meu rendimento é muito inferior, já estou cansado, cheio de sono…”

Não sabemos o que pensarão sobre isto os restantes Madredeus, perante a perspectiva de um José Peixoto a ressonar em pleno concerto. É que o guitarrista “preferia tocar de manhã”. Têm a palavra os promotores.

Pelo menos Mário Franco, principal parceiro do guitarrista neste seu mais recente projecto, acedeu em satisfazer este desejo, nas gravações de “O Que me Diz o Espelho de Água”. Com ele, diz Peixoto, “algumas peças ficaram enriquecidas com a cor do contrabaixo”. Houve também “uma necessidade de partilha” mais forte do que em anteriores ocasiões.

Além da música, destacam-se em “O Que me Diz o Espelho de Água” o extremo cuidado posto na apresentação do digipak, com as belíssimas fotos de Alexander Koch – “a obra começa na composição de música, passa pelo processo de gravação e da qualidade da captação de som e termina no grafismo da capa” – e o poder evocativo dos títulos, na tradição de outros dois músicos apaixonados pelo silêncio, como Benjamin Lew e Harold Budd: “O que não se vê”, “Que sente uma nuvem sozinha no céu?”, “Outra luz diferente”.

O que se vê no ténis

Outra luz diferente da que antes iluminava os passos do guitarrista? “Sinto que estou mais próximo de qualquer coisa que também não sei definir muito bem o que é, que a minha linguagem está mais amadurecida e controlada, no sentido de mais bem dirigida, e que estou a manusear melhor as minhas ideias. Ainda não vi a meta. Não sei onde está a meta, se é que existe.”

Palavras sábias, repletas de serenidade, admiráveis por serem proferidas por alguém cujos compromissos com os Madredeus obrigam ao rodopio das viagens, dos hotéis de dos concertos, ainda por cima à noite. Parece faltar o tempo mas José Peixoto inventa-o: “Há mais horas disponíveis do que se pensa, durante as viagens, por exemplo. Nos hotéis, nos camarins, quando se está à espera de fazer o ensaio de som, como tenho esta disciplina diurna, aproveito sempre as manhãs ou bocados da tarde para compor.” O tema de abertura do álbum por exemplo, “O que não se vê”, “foi composto na altura do torneio de ténis de Roland Garros, o torneio feminino. Entretinha-me com a televisão sem som a ver as tenistas, aquela tensão bola cá, bola lá, as falhas, o serviço…, embora o tema não seja propriamente a banda sonora de um jogo de ténis” (risos).

No final deste ano, José Peixoto e Mário Franco pensam partir para a estrada para “fazer uma coisa com pés e cabeça” com música ao vivo de “O Que me Diz o Espelho de Água”. De preferência de manhã.

06/11/2009

Deitar cedo e cedo erguer para ganhar o dia [José Peixoto]

Sons

17 de Julho 1998

Novo disco de José Peixoto

Deitar cedo e cedo erguer para ganhar o dia

“A Vida de Um Dia”, título do novo álbum a solo de José Peixoto, pode ser a eternidade. O guitarrista dos Madredeus encontrou o tempo certo no diálogo da sua guitarra clássica com o silêncio de uma igreja. Em cima e para dentro. “Para o infinito que pode ser o tempo.”


Depois de “A Voz dos Passos”, editado o ano passado, “A Vida de Um Dia” é o segundo capítulo de um encontro da guitarra clássica, acústica, com um espaço de interioridade que só o recolhimento de uma igreja permite. Com José Fortes na mesa de gravação, José Peixoto aprofundou na Igreja de Cartuxa as vias desse encontro, que, antes, adquiriu sobretudo os contornos de uma experiência, como o guitarrista explicou ao PÚBLICO.
PÚBLICO – Em termos formais, este disco não difere muito de “A Voz dos Passos”, pois não?
JOSÉ PEIXOTO – Este disco acaba por ser uma espécie de prolongamento do outro. O outro surgiu como uma experiência que eu nunca tinha feito, de compor para guitarra solo, enquanto este já parte de uma certeza, de um terreno que eu conheço.
P. – Ficou, então, alguma coisa por dizer, no álbum anterior?
R. – O que ficou por dizer é que tinha, já nessa altura, mais música do que aquela que está no CD.
P. – Aproveitou alguma coisa dessa música para este novo disco?
R. – Aproveitei alguma, coisas antigas que reformulei. Mas a ideia foi ir um pouco mais longe, aprofundar algumas das ideias.
P. – Aprofundar, como?
R. – Ao nível da liberdade de composição. É um terreno um bocado subjectivo... Aprofundar no sentido de deixar de ser uma experiência, do tipo “deixa lá ver como é que funciono a compor para um instrumento solo” e já não haver dúvidas a esse respeito. Partir já com ideias mais sólidas.
P. – Fazer de seguida dois álbuns só de guitarra acústica não será, à partida, um projecto algo arriscado, e não só em termos comerciais?
R. – A guitarra é o meu veículo de expressão. O instrumento que estudei e que tem sido o meu amigo nestes anos todos. Comercialmente falando, é um facto que é um luxo eu poder fazer esta música, sem ter preocupações de vendas.
P. – Esta sua carreira a solo, com gravações em igrejas, é um escape à máquina dos Madredeus?
R. – É um projecto paralelo que já vinha de trás e que tenho necessidade de alimentar.
P. – Por que razão voltou a escolher uma igreja, a da Cartuxa, em Caxias, como local de gravação?
R. – Foi uma igreja como podia ser um outro espaço acústico. Houve a preocupação de encontrar um espaço favorável à emissão de som. A música não é mais do que ar em movimento. A vantagem de ter uma atmosfera activa, como a de uma igreja, é não ser necessário usar qualquer artificialismo. A primeira sensação que tive, das duas vezes em que entrei nesta igreja, foi o próprio som dos meus passos. É logo uma sensação de prazer que surge de forma automática. O prazer físico do som.
P. – Um prazer que tem necessariamente de ser solitário?
R. – ... Com o José Fortes, que foi uma parte essencial neste processo todo. Mas é, de facto, uma intimidade absoluta, um prazer solitário. Mas a minha natureza dá-se bem com esta situações. Estou, como se costuma dizer, a jogar em casa.
P. – Há alguma razão especial para a escolha do título?
R. – “A Vida de Um Dia” pode ser um despertar de várias maneiras. É um espaço aberto para o interior. Para o infinito que pode ser o tempo. A medida do tempo é uma coisa muito relativa. A vida de um dia pode ser um todo. Onde cabe tudo.
P. – Sente-se nesse tempo a presença, muito subtil, quase subliminar, do flamenco.
R. – Eu ouço muito flamenco. É uma expressão incrível e um tipo de música onde a guitarra cumpre plenamente. Mas não se pode dizer que tenha uma sensibilidade de flamenco. Identifico-me apenas como ouvinte. Gosto de Paco de Lucia, Tomatito, Vicente Amigo...
P. – A sua música é uma música triste?
R. – É melancólica. Solitária. Estes discos são uma espécie de auto-retratos. Acabam por ser um espelho do que eu sou.
P. – Como é que concilia o ritmo de trabalho dos Madredeus com essa sua costela de solitário?
R. – Defendo-me com a disciplina. Durante as viagens, por exemplo, para poder preservar o meu tempo e o meu espaço. Outro exemplo: a seguir aos concertos não vou jantar. Não gosto de comer nem de me deitar muito tarde. Acabo por fazer uma vida mais saudável, que me permite ter mais tempo para estudar ou para trabalhar.
P. – A guitarra eléctrica não faz parte do seu vocabulário. Porquê?
R. – Quando era mais novo tocava guitarra eléctrica. Mas a partir do momento em que comecei a estudar guitarra clássica abriu-se-me um mundo à frente que não sei se uma vida inteira chegará para o desbravar. É uma paixão. Mas também já toquei alaúde árabe...
P. – ... Sob o pseudónimo de “El Fad”. Esse outro mundo, o da música árabe, ficou para trás?
R. – Ficou para trás porque representava apenas uma determinada fase. Entretanto, vamos amadurecendo e a idade leva-nos para outros lados. Mas continuo a ouvir música da Tunísia e do Egipto, e músicos como o alaúdista Anouar Braheim.
P. – Podia perfeitamente editar os seus discos numa editora como a ECM. Gostava?
R. – Acho que sim. Aliás, tenho feito contactos com ela sempre que gravo. Mas como não tem havido nenhum “feedback”... É preciso dar tempo ao tempo. E era preciso eu ter esse tempo para me dedicar a esse tipo de contactos. Embora isso, se calhar, seja mais simples do que se imagina. A oportunidade pode surgir de repente. A ECM não é uma editora inacessível.
P. – Existe alguma estrutura especial na forma de “A Vida de Um Dia”?
R. – É como se desenhasse uma circunferência.
P. – Já se ouviu neste disco?
R. – Já. Fiquei surpreendido porque achei que estava bastante melhor do que quando o acabei de fazer. Tenho a sensação de estar agradecido a mim mesmo por tê-lo feito. Agradecido porque se não fosse eu a fazer esta música, ninguém mais a fazia.

12/10/2009

O sonho comanda a vida [Madredeus]

Sons

3 de Abril 1998

Madredeus grava um vídeo em Sintra

O sonho comanda a vida


Os Madredeus estiveram em Sintra a rodar o teledisco de “O sonho”, uma canção do seu último álbum, “O Paraíso”. Muito em breve, partirão de novo em viagem, encetando uma nova digressão pelo estrangeiro. Na calha estão dois álbuns a solo e um bebé.


Serra de Sintra, o monte da lua. Lugar sagrado, coberto de verde, de água e de caminhos ocultos. A meio de uma destas veredas, na direcção dos Capuchos, o silêncio das alturas é quebrado por uma azáfama pouco usual nestas paragens. Em pleno dia, sob o sol da Primavera, a paisagem é cortada por holofotes acesos, colunas de som e monitores. Alguém espalha nuvens de fumo sobre umas figuras sentadas calmamente a tocar guitarra entre as pedras de granito. Uma mulher – envergando um longo vestido escarlate que lhe dá um aspecto medieval – sai de uma “roulotte” e dirige-se para o meio do verde e das pedras. Parece começar a cantar, mas percebe-se que a música vem de outro lugar. O ar enche-se com notas nítidas de uma canção, várias vezes repetida. Estaremos a sonhar?
A canção que se ouve é “O sonho”, a mulher chama-se Teresa Salgueiro e toda esta agitação deve-se às filmagens do teledisco que os Madredeus estão a rodar na serra de Sintra, antes de partirem para mais uma digressão internacional, com início marcado para 1 de Abril próximo, na Galiza, e o final agendado para 12 de Junho, em Macau. Em Julho, haverá ainda algumas datas reservadas para actuações em Portugal. Depois, terão todos descanso. Teresa Salgueiro está grávida e com isso não se brinca. O rebento nascerá em Outubro.
Carlos Brandão Lucas, um apaixonado pela viagem e pela natureza, realizador de diversos documentários para a RTP, é o responsável pelo guião e pela produção deste trabalho. A tradução do sonho em imagens pertence-lhe. Para os Madredeus a sua escolha tem, segundo Pedro Ayres Magalhães, um motivo óbvio: “Já há muitos anos que faz este trabalho, uma espécie e antropologia da paisagem portuguesa.”
Para Carlos Brandão Lucas, a produção de um teledisco é algo que faz pela primeira vez e que assume como “uma experiência nova”: “Não é que eu esteja propriamente interessado em enveredar por esta área, a minha área é o documentário, é aí que me sinto realmente bem, mas achei que devia aceitar, até tendo em conta o grupo que é, de cuja música gosto muito.”
Sintra tece a sua teia de sortilégios. A voz de Teresa Salgueiro mal consegue acordar as árvores da sua sesta da tarde. Os acordes de “O sonho” são interrompidos por directivas técnicas por parte da vasta equipa responsável pelas filmagens, nomeadamente pelos dois realizadores do “clip”, Ricardo Andreia e Pedro Canais.
“A canção pressupõe este ambiente”, diz Brandão Lucas, “este tipo de arvoredo. Há uma série de coisas que podem acontecer, no fundo, por detrás das árvores que cada um tem na sua própria vida.”
Além de Sintra, “O sonho” contará ainda com imagens de arquivo recolhidas ao longo dos anos e “de uma longa passeata por este país”, pelo cineasta. “Há aqui uma história dupla que se conta: uma é o sonho, que é o poema e esse sonho que é povoado por imagens, como todos os sonhos o são, e sobre as quais nem sequer temos, normalmente, controlo. É um lado do nosso cérebro que não controlamos. Nos sonhos, somos capazes de voar, por exemplo, acontecem-nos coisas que não nos acontecem na vida. Este conjunto de imagens mais este fundo das árvores da vida podem contar de outra forma a história que é contada na canção.”
“E não havia mais nada... Só nós, a luz, e mais nada... Ali morou o amor...” A letra da canção dissolve-se no ar. O local confunde-se cada vez mais com a música. “Sintra é um lugar mítico na história portuguesa e eu sou um homem muito ligado à história. E tenho uma relação de alguma intimidade com esta canção porque sou uma pessoa que sonha sempre coisas, que desejo coisas.”
Pode parecer estranho o nevoeiro que alguém da equipa de filmagens faz continuamente espalhar sobre os músicos. Sobretudo porque, na ocasião, o dia é de sol. Mas há uma explicação para isso: “O sonho, exactamente por não ser uma coisa concreta, aparece como uma coisa enevoada e dessas nuvens que atravessam os nossos sonhos saem imagens. É esse o papel dos fumos.”
“O sonho” terá apenas imagens reais, com “algum tratamento posterior sobre as imagens de arquivo. “Não vai viver do computador.”
Carlos Brandão Lucas volta a lançar alguns “bitaites”, como ele próprio diz, sobre o que se vai passando sobre o palco de relva, de guitarras e do vestido sanguíneo de Teresa Salgueiro. Fala ainda dos outros sons, imagens e geografias que preenchem o seu quotidiano: “Tenho uma ligação muito profunda a África, outra, não menos amorosa, à Índia. Uma relação de desejo com a Mauritânia. Sou um homem que gosta do mundo e das pessoas do mundo. Gosto de viver a cultura, o calor e o frio dos lugares. O mundo pertence-me e eu não pertenço a nenhum lugar. Nesse sentido, todos os filmes que me contam histórias de lugares e de pessoas interessam-me. Por todas estas razões, gosto dos sons que correspondem aos lugares, da música tradicional – de música chinesa, por exemplo, lá está –, porque me revela imagens. E eu vivo de imagens.”


Peixoto e Trindade a solo
José Peixoto e Carlos Maria Trindade, respectivamente, guitarrista e teclista dos Madredeus, têm novos projectos discográficos a solo em perspectiva.
José Peixoto tem pronto “A Vida de um Dia”, nova aventura solista da guitarra acústica, na linha do anterior “A Voz dos Passos”. “Foram gravados na mesma igreja e com o mesmo engenheiro, o José Fortes”, explica o músico, cujo disco, “se tudo correr bem”, sairá em Junho, quando acabar a digressão do grupo.
Carlos Maria Trindade encontra-se, por seu lado, na fase de composição do seu segundo álbum a solo, depois de “Deep Travel”, sem contar com “Mr. Wollogallu”, em que fez parceria com Nuno Canavarro. Segundo o seu autor, o novo disco não andará longe dos anteriores, embora haja a intenção “de fazer algumas experiências acústicas ou mesmo com a voz”. Ao certo está já a presença de músicos convidados, “que acrescentem alguma coisa ao que será uma espécie de fusão”. Carlos Maria desenvolve neste momento um segundo projecto discográfico, com Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins.

15/12/2008

Um "artigo para o espírito" [José Peixoto]

Pop Rock

19 Fevereiro 1997

José Peixoto lança, a solo, “As Vozes dos Passos”

UM “ARTIGO PARA O ESPÍRITO”

Ao cabo de três anos de viagem constante com os Madredeus, José Peixoto encontrou o espírito da paz. Em “As Vozes dos Passos”, o seu novo álbum, há uma guitarra acústica, um som solitário e uma procura. A voz dos passos é a voz do silêncio.

José Peixoto, guitarrista dos Madredeus, é um nómada da música. Um espírito livre, em trânsito entre o redemoinho das digressões com o grupo e as longas praias do seu Sul. Parou no intervalo desse percurso para falar ao PÚBLICO.
PÚBLICO – “As Vozes dos Passos” refere-se mais do que uma vez ao tempo e à viagem. Quando e onde se processou a sua gestação?
José Peixoto – A ideia foi concebida ao longo da série de viagens que integraram a última digressão dos Madredeus, três anos, desde que entrei no grupo, de viagem permanente.
P. – É um disco de depuração máxima. Uma guitarra acústica e uma solidão.
R. – É capaz de ser a expressão mais íntima. Ter um instrumento só, capaz de veicular todas as ideias num universo monotímbrico.
P. – O risco não é maior?
R. – Em termos comerciais, é mais arriscado. Só que nunca coloquei, em relação à música que faço, o problema nesses termos. Não vivo nem nunca dependi da música que faço. Assim, sinto que gozo de toda a liberdade para explorar o que me apetecer. Sem quaisquer pressões.
P. – O álbum pode ser um escape à rotina dos Madredeus?
R. – Sim, é verdade. A viagem deu-me o tempo e o isolamento necessários. Durante a viagem, em que se não é o aeroporto é o hotel, ou o carro, ou o camarim, estabelece-se uma rotina que, se não é combatida com uma postura criativa permanente, pode levar a uma cristalização. Andar de um sítio para o outro sem aproveitar, sem viver o tempo.
P. – Esse isolamento é um refúgio?
R. – Sobretudo é haver tempo para poder estar comigo mesmo. São viagens de 500, 600 quilómetros sentado num autocarro, durante os quais se pode ler ou ouvir música, ou, pura e simplesmente, penar, ir aprofundando certas ideias.
P. – Anotava essas ideias, tocava, como é que fazia?
R. – Sobretudo quando podia estar num sítio sentado, para poder tocar. As viagens em si, em autocarros ou aviões, podem definir certos estados mentais que posteriormente, sozinho, posso materializar, dar-lhes uma expressão sonora. Não quer dizer que ande a escrever as partituras nos autocarros ou nos aviões…
P. – Há alguma razão especial para ter dividido o disco em duas partes distintas?
R. – Os “Apontamentos de Viagem” foram feitos mesmo nesse período de viagem. O segundo capítulo, “Das Vozes”, é música cujo miolo já estava definido, embora a arte final também fosse feita em viagem.
P. – O epílogo tem um título enigmático, “A espera”. Espera de quê?
R. – A espera em si. A espera, não como uma atitude passiva, mas como uma atitude expectante.
P. – Já falou em viagens exteriores. E a interior?
R. – É uma viagem interior permanente. Se partirmos do princípio que a vida pode ser encarada como um processo de auto-consciência, da pessoa se ir encontrando, essa procura de uma voz interior, é uma procura permanente. Vivida segundo a segundo. Tento aproveitar o mais possível o privilégio de estar vivo.
P. – Orienta-se por um Sul espiritual?
R. – O Sul é onde me sinto em casa. Tem a ver com luz, temperatura, com uma certa vibração das pessoas e da Natureza.
P. – Não receia que este disco possa ser ouvido um pouco pela superfície, como música de fundo, embrulhado na seda da “new age”?
R. – É algo que já me escapa. O disco já não me pertence. O que lhe vai acontecer escapa-me. Preocupa-me mais a intemporalidade do que a modernidade, no sentido de estar na vanguarda. É mais importante que esta música possa ser ouvida com a mesma validade daqui a 50 ou 100 anos, sem estar sujeita às modas.
P. – Não conseguiu encontrar o espírito da paz nos Madredeus?
R. – Isto é a minha música, que já existia antes dos Madredeus. O grupo tem outras referências, é formado por outras pessoas, é uma cabeça colectiva. Nunca poderia estar cem por cento satisfeito, no sentido de não ter que fazer esta música. “A Voz dos Passos” é um artigo para o espírito.
P. – “As Vozes dos Passos” demora-se em que ponto da viagem?
R. – Um disco é sempre um ponto de partida, funcionando como o registo no tempo de uma determinada fase ou de um determinado estado de espírito. Nunca é um ponto final, mas uma vírgula. Agora, que surpresas é que vou ter de mim mesmo, no futuro, isso não sei. Não sei se será uma orquestra, se irá ser um disco de silêncios. A porta está aberta.

07/11/2008

José Peixoto - Taifa

POP ROCK

9 MARÇO 1994

José Peixoto
Taifa
Playon, distri. MVM

Com “El Fad”, o seu álbum anterior, José Peixoto, actualmente elemento dos Madredeus, deu-se a conhecer como um bom executante de guitarra acústica, com um estilo personalizado que não escondia o gosto pelos ritmos e fraseados da música árabe. “Taifa” volta a mostrar o lado tecnicista, embora partilhado com um segundo guitarrista, Mário Delgado, e o apoio firme e discreto, de José Salgueiro, nas percussões. Mas falta algo a estes por vezes excessivos longos conciliábulos de guitarras que se debruçam sobre o próprio umbigo, cada qual no seu canal de estéreo, e se esquecem da emoção. Se há quem possa achar geladas certas produções da ECM, o que não diriam da frieza, por vezes árctica, de “Taifa”, que, ironicamente, deveria reter e reflectir o calor das músicas do Mediterrâneo. A introspecção, quando exposta à audição e interpretação de um público reflector, implica vontade de comunicação. É esta ausência de vontade de partilha que marca “Taifa” pela negativa. Mesmo que o autor dedique o disco “àqueles que são de parte nenhuma, aos espectadores do tempo, aos nómadas da vida”. Certo! Mas mesmo esses talvez gostassem de algo mais substancial. (6)