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09/10/2014

John Lennon - John Lennon/Plastic Ono Band


 



Y 4|MAIO|2001
discos|escolhas

JOHN LENNON
John Lennon/The Plastic Ono Band
EMI, distri. EMI - VC
8|10

Depois de três álbuns de experimentalismo como Yoko Ono (a megera que destruiu os Beatles, na opinião do resto do mundo), John Lennon pôs a sua alma a nu neste álbum de 1970. “John Lennon/The Plastic Ono Band” (agora remasterizado e remisturado) é a entrega total e a declaração de amor sem reservas a uma mulher, Yoko. A esta exposição quase despudorada de sentimentos, de amor, mas também de revolta (“Mother”), solidão (“Isolation”) e perda (“My mummy’s dead”), fez o ex-Beatle corresponder o despojamento dos arranjos e palavras que se leem como cartas pessoais. Sentimo-nos intrusos entre a sessão de terapia pelo grito de “Mother” ou o intimismo a dois de “Hold on”. Mesmo quando libertava a sua veia mais politizada, em “Working class hero”, ou reduzia todos os deuses a simples ilusões (“God”), imaginamo-lo para sempre sentado em frente ao seu piano branco, numa imensa sala vazia.

14/08/2014

Balada de John e Yoko [John Lennon & Yoko Ono]



Sons

11 de Julho 1997

Reedição dos primeiros álbuns a dois

Balada de John e Yoko

Yoko Ono destruiu os Beatles. Esta é, pelo menos, a opinião de Paul McCartney. Seja qual for, porém, o papel desempenhado pela japonesa na dissolução dos fabulosos quatro, Ono considerava-se uma artista. A questão que se colocava, então, para ela era como dar a conhecer isso, sendo casada com um deles. A reedição em CD dos quatro álbuns gravados por Ono com John Lennon explica, entre outras coisas, o efeito devastador provocado pela união musical deste casal “kamikaze”.

“Unfinished Music No. 1: Two Virgins” (1968), “Unfinished Music No. 2: Life With The Lions” (1968), “Wedding Album” (1969) e “Plastic Ono Band” (1970) constituem o primeiro pacote de remasterizações, reeditadas pela MVM, aumentadas com temas extra e fotos inéditas, da obra gravada do casal Lennon & Yoko.
Na época em que surgiram, no final dos anos 60, ou seja, imediatamente antes da dissolução dos Beatles, estes trabalhos surgiram à revelia da estética geral que caracterizava o final da década, na transição do psicadelismo para o progressivo. Experimentais, herméticos, nalguns casos no limite do ridículo, os quatro álbuns agora reeditados representam, em simultâneo, a afirmação de Yoko Ono, enquanto “performer”, em transição do gueto das vanguardas para o expositor privilegiado da música pop, ao mesmo tempo que a subjugação de John Lennon à voracidade artística da sua mulher.
Yoko Ono, antes de se tornar a senhora Lennon, tinha já um passado de artista radical, feito de sucessivas “performances” em áreas diversificadas, como a música, mas, sobretudo, no domínio da pura conceptualização. Em 1960, a sua linguagem, recuperada quase três décadas mais tarde, pelos niilistas “punk”, tomava como base o grito e o gesto e, principalmente, a organização e montagem de eventos “multimedia” que partiam de instruções prévias para a criação de modelos interativos. Tome-se como exemplo um destes trabalhos, coletados no seu livro, publicado em 1964, com o título “Grapefruit”: “Bata com a cabeça numa parede”.

“Sim!”

Era óbvio que obras de arte deste tipo não agradavam a Paul McCartney, desde sempre adepto da canção pop limpinha, da qual, aliás, era um genial inventor. Seja como for, a japonesa intrometeu-se, quebrando um equilíbrio que, a partir de “Sgt. Pepper’s”, era já instável. O álbum seguinte do grupo, o célebre duplo branco, por alguns considerado superior ao seu universalmente aclamado antecessor, teve em Ono um fantasma omnipresente nas sessões de gravação, sendo a sua inspiração determinante na composição do tema mais experimental do disco, composto por Lennon, “Revolution no. 9”, na linha das suas próprias conceções musicais.
Recuemos de novo ao período anterior ao casamento. Ono convivia então com gente como o guru da estética minimalista, LaMonte Young, organizando em conjunto com ele exposições e “performances” várias, ou um dos cultores originais do “free jazz”, o saxofonista Ornette Coleman. Fez ainda parte do movimento Fluxus, formação mítica que se manteve até aos nossos dias, com as suas conceções de uma arte total e atuante, em constante mutação.
Yono [sic] investiu igualmente na cena pop, infiltrando-se no meio e travando conhecimento, entre outros, com Eric Clapton e Mick Jagger. Mas foi John Lennon quem mordeu o isco. Aconteceu por acaso, através de uma peça criada pela japonesa em 1966, integrada num “show” inteiramente idealizado e protagonizado por si. A “peça” em questão era constituída por uma escada pela qual o visitante era convidado a subir. Chegado ao cimo, este deveria espreitar por um pequeno orifício, onde deparava com uma simples palavra escrita do outro lado: “Sim.” Foi suficiente para Lennon pensar que tinha encontrado a alma gémea. A ligação efetiva entre ambos deu-se dois anos mais tarde, mais ou menos na mesma altura em que Paul encontrou Linda Eastman, vindo os quatro a casar no mesmo mês, em Março de 1969.

Paz na Cama

“Two Virgins”, primeiro álbum gravado pela dupla, é o mais interessante. É o disco em que os dois aparecem na capa como vieram ao mundo, de frente e de costas, numa exposição literal do conceito de inocência. Este e o álbum seguinte, “Life with the Lions”, surgiram na sequência dos diversos “bed in” que Lennon e Yoko empreenderam na Primavera e no Verão de 1968, em hotéis como o Hilton, de Amsterdão, ou em Montreal. Um “bed in” era a abertura total da intimidade conjugal à imprensa, com os dois expostos aos fotógrafos e jornalistas, numa cruzada a favor da paz no mundo. “Two Virgins” foi gravado em estúdio mas o tema extra “Remember Love” foi captado no quarto 1742 do hotel La Reine. Os dois temas principais, partes 1 & 2 de “Two Virgins”, são uma colagem de vozes, ruído ambiente e sintetizadores agressivos que prenunciam o surrealismo mágico dos Nurse With Wound. Na segunda, Ono usa pela primeira vez a sua voz de sirene (antecipando em muitos anos as imprecações de Diamanda Galas), que um crítico da época considerou o som mais original depois do sintetizador “Moog”...
“Life With The Lions”, do mesmo ano, capítulo segundo da “Unfinished Music”, tem início com os 26 minutos de “Cambridge 1969”, nova sessão de gritaria, ainda mais alucinada, de Ono, na personificação de bruxa. Estranhamente, este tema foi gravado em 1969, quando a indicação da data de gravação do álbum se refere a Novembro de 1968. Dois expoentes da “free music”, John Tchicai e John Stevens, colaboram na parte final. Há ainda “Two Minute Silence”, que é isso mesmo, com menos dois minutos e 33 segundos que a peça de Cage, “Baby´s Heartbeat”, uma pulsação horrível de ruído que pretende ser o batimento cardíaco de um bebé, “Radio Play”, 12 minutos intoleráveis de “cut-ups” de emissões de rádio, e “No bed for Beatle John”, no qual Ono usa o lado infantil ??? vocal. Sobre esta obra, o comentário mais acurado pertence ao produtor dos Beatles, George Martin: “Sem comentários!”
A loucura prossegue no álbum seguinte, “Wedding Album”, gravado integralmente num quarto de hotel do Hilton, em Amsterdão, em mais um “bed in” causador de escândalo. O tema inicial, “John & Yoko”, dura 22 minutos, ao longo dos quais John grita “Ono!” e Ono grita “John!”, sobre uma textura eletrónica rude e repetitiva, numa multiplicidade de registos vocais e emocionais. Um caso nítido do foro psiquiátrico. “Amsterdam” (24m54s) é uma longa melopeia em que os dois amantes gritam “peace!”, em busca de uma qualquer harmonia oculta debaixo dos lençóis. Inclui explicações teóricas, pelos próprios protagonistas, na cama. Nos temas extra, há a destacar a beleza invernal da balada “Listen, the snow is falling” (com uma formação rock convencional que incluía Ringo Starr, Nicky Hopkins e Klaus Voorman, e a produção de Phil Spector) e a verificação dolorosa de como Lennon era um executante limitado com uma guitarra acústica nas mãos.
Por fim, “Plastic Ono Band”, intitulado a partir da banda entretanto formada em homenagem a Yoko, tem a particularidade de incluir a participação de Ornette Coleman, recolhida durante um ensaio do tema “AOS”. É o álbum mais convencional do lote, apenas perturbado pela inclusão do tema extra “The South Wind”, nova oportunidade concedida à japonesa de poder libertar a sua líbido selvagem, com a conivência tímida de John, o Beatle.
Tudo junto era demais. Os Beatles não aguentaram. Trinta anos depois, continua a ser difícil de aguentar.


26/11/2010

Droga, loucura, morte

Sons

19 de Março 1999

Droga, loucura, morte

Toda a gente sabe que a principal causa de mortalidade entre a população rock é a droga. Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Sid Vicious e uma quantidade de outras estrelas rock (Tim Buckley, Gram Parsons, Tommy Bolin, Andy Gibb, Billy Mercia, dos New York Dolls, Paul Gardiner, dos Tubeway Army...) morreram devido à mesma praga, a droga. Bastaria esta realidade para desencorajar os mais novos de alguma vez pegarem numa guitarra eléctrica ou numa bateria. Porque o rock é o caminho mais curto para a droga e, de onde se depreende, para a morte. O rock, como a droga, mata. Mentes mesquinhas garantem que, sem a droga, músicos como os acima citados jamais teriam feito a música (quiçá, perniciosa) que fizeram. Não fora assim e sabe-se lá se não teríamos hoje elementos produtivos, úteis à sociedade, excelentes empregados de escritório ou agentes de seguros, talvez mesmo advogados de sucesso.
Mas não é só a droga a mãe de todos os males. Outras causas existiram que levaram desta para melhor nomes mais ou menos gloriosos da história do rock. Desastres de viação (Alan Barton, dos Smokie, Marc Bolan e Steve Curry, ambos dos T. Rex, Clarence White, dos Byrds, Harry Chapin, Eddie Cochran, Jerry Edmonton e Rushton Morebe, dos Steppenwolf, os rockers Johnny Kidd e Dickie Valentine; inclusive de bicicleta, como no caso de Nico) e de avião (Buddy Holly e Ritchie Valens, ambos no mesmo voo, Patsy Cline, Jim Reeves, Otis Redding, Jim Croce, Ronnie van Zant e Steve Gaines, dos Lynyrd Skynyrd, Paul Jeffreys, dos Cockney Rebel, Rick Nelson, John Denver...), overdose, queda de escadas (Sandy Denny), consumo desenfreado de substâncias ilícitas, enforcamento (nada mais nada menos do que cinco – Ian Curtis, Peter Ham, dos Badfinger, Phil Ochs, Michael Hutchence, dos INXS e Richard Manuel, dos The Band), ingestão desmesurada de psicotrópicos, hipnóticos, ácidos, antipiréticos e afins, enfim toda uma série de acidentes trágicos que puseram fim a tantas e tão promissoras carreiras.
Quanto ao álcool, pode gabar-se de ter acabado com as vidas de Bon Scott (dos AC/DC), John Bonham (Led Zeppelin), Brian Jones (Rolling Stones), Clyde McPhatter (Drifters), David Byron (Uriah Heep), Gene Vincent e Keith Moon (The Who). Uma anorexia nervosa levou Karen Carpenter, dos Carpenters. A sida fez o mesmo a Freddie Mercury, dos Queen. Frank Zappa e Bob Marley não resistiram ao cancro. De Divine pode afirmar-se que comeu demais.
Há mortes mais estúpidas do que outras. John Lennon, baleado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, é um exemplo deste tipo de estupidez letal. Al Jackson (dos Booker T and the MGs), Peter Tosh, um dos heróis da soul music, Sam Cooke e Marvin Gaye foram igualmente atingidos por tiros. Os dois primeiros, por gatunos. Cooke, por uma mulher que perseguia um pretenso violador. Gaye sucumbiu a um tiro disparado pelo seu próprio pai. Michael Mensom, dos Double Trouble, foi atacado por um “gang” de adolescentes que o regaram com gasolina e lhe pegaram fogo. Vivian Stanshall, do grupo cómico Bonzo Dog Doo Dah Band, e Steve Marriott, dos Small Faces, morreram em incêndios nas respectivas casas. Keith Relf, guitarrista dos Yardbirds, caiu electrocutado. Johnny Ace, um obscuro baladeiro norte-americano dos anos 50, perdeu a vida numa jogada infeliz de roleta russa. Graham Bond, músico inglês de jazz e blues dos anos 70, foi atropelado pelo metropolitano. O rocker Johnny Burnette morreu num acidente de pesca.
Mas há o reverso da medalha. Morrer cedo, para um músico, significa a sua mitificação, nalguns casos a santidade. Na condição, bem entendido, de a circunstância ser devidamente acompanhada por uma apropriada campanha promocional e pelo apoio dos “media”. Morrer é, nesta profissão, o caminho mais curto para o sucesso. Para a indústria a morte possui ainda o atractivo adicional de diminuir vitaliciamente as despesas com o artista e de garantir muitos e bons ganhos a longo prazo, graças à sábia administração de todo o material gravado que se conseguir sacar do caixote do lixo e guardar em arquivo para poder dedicar-se ao lançamento de futuras reedições com “material inédito” do falecido, constituído por demos, versões alternativas, ensaios, conversas de cama e outros rasgos de génio antes incompreensivelmente escondidos do público.
Claro que as vítimas sabem o que fazem e no que se metem. Acontece que muitas não aguentam. Ian Curtis, por exemplo, ou Kurt Cobain (cujo quinto aniversário da morte, em Abril próximo, está já a ser devidamente preparado) não aguentaram a suprema dor de estar vivo, as pressões do “show business” e os fracassos pessoais. No seu caso a aura de “românticos” assenta-lhes bem. Como, de resto, a todos os suicidas: Nick Drake, Peter Ham e Tom Evans, dos Badfinger, Terry Kath, dos Chicago, Marge Ganser, das Shangri-Las, Del Shannon, Paul Williams, dos Temptations, Richard Manuel, dos The Band e Phil Ochs.
A outros, porém, a morte apanhou-os de surpresa, sem aviso prévio. Esses não tiveram tempo de preparar o testamento, vítimas que foram da estupidez do destino. Talvez por isso, como no caso de Sandy Denny, que morreu ao cair de uma escada, a entrada na galeria dos mitos demorasse mais e necessitasse de requerimento, ficando em primeiro lugar para a eternidade a música, no lugar dos episódios, mais ou menos agitados e escandalosos, da vida de “star”.
Seja qual for, porém, a circunstância da morte, ficará para sempre a dúvida do que poderia ter sido a vida e obra dos que se foram antes de tempo. O que seriam hoje, se fossem vivos, Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison? Conseguiriam eles sobreviver ao seu próprio passado ou, pelo contrário, teriam feito as pazes com a existência, aproveitando as suas benesses? Seriam ainda génios malditos ou estariam a jogar golfe com Alice Cooper e Phil Collins, a fazer duetos com Pavarotti ou a compor bandas sonoras para filmes de Walt Disney? Ninguém sabe. Ficaram a música e as lendas. Sobretudo a música, como única verdade absoluta capaz de sobreviver ao seu criador. E, paradoxalmente, à aura, tantas vezes mistificadora, criada em torno dela pela morte, essa entidade assustadora que chegará inevitavelmente para nos confrontar com o nada. E com o que sobrevive para além dele. Para os registos de necrofilia ficam as fichas de algumas das mortes mais bem documentadas. Fichas secas. Como a morte.


“Too old to rock’n’roll, too young to die”
(título de um álbum dos Jethro Tull)


Hank Williams (1923-1952)

Sofrendo de uma dor crónica nas costas, Hank procura alívio no consumo sistemático de analgésicos, tornando-se rapidamente viciado. Começa a falhar concertos, chegando aos recintos atrasado e bêbedo. No último dia do ano de 1952 a estrela da country sente-se mal durante uma viagem de carro e é transportado para um hotel de Knoxville, no Tennessee, onde chega já inconsciente. É chamado um médico que lhe ministra uma injecção com uma mistura de morfina e vitamina B. No dia seguinte, Williams é transportado, ainda inconsciente, de novo de automóvel, para o Ohio, numa viagem atribulada. Um polícia de trânsito obriga o condutor a parar por excesso de velocidade e pergunta, com ironia, se o músico está ou não vivo. Williams é conduzido finalmente a um hospital, na Virgínia, onde é declarado morto.


Buddy Holly (1936-1959) e
Ritchie Valens (1941-1959)

Dia 3 de Fevereiro de 1959. A meio de uma digressão, a “Winter Dance Party Tour”, Buddy Holly decide animar o estado de espírito da sua banda e recusa viajar num desconfortável autocarro. Aluga um voo “charter” num pequeno aparelho Beechcraft Bonanza que o deveria levar de Clear Lake, Iowa, a Moorhead, no Minnesota. Com ele seguem Richie Havens (que ganhara esse direito no jogo da moeda ao ar com o guitarrista do grupo. Tommy Alsup, e o disc-jockey Big Bopper, autor de “Chantilly lace” (que consegue o lugar por troca com Waylon Jennings). O avião descola às duas da madrugada no meio de uma tempestade de neve e cai pouco tempo depois, embatendo contra um muro e matando todos os que seguiam a bordo. O acidente serviu de inspiração ao “hit” de 1972 de Don McLean, “American pie”.


Jimi Hendrix (1942-1970)

Jimi Hendrix era um génio da guitarra. Com ou sem a ajuda da heroína, a sua Fender Stratocaster falava, gritava, explodia e incendiava-se num dos discursos virtuosísticos mais inovadores de sempre deste instrumento. Uma acumulação de excessos que se estendia à sua vida privada. Passa o dia 17 de Setembro com a sua namorada, Monika Dannemann. No dia seguinte, de manhã, ingere alguns comprimidos para dormir e, algum tempo depois, Monika repara que ele se está a sentir mal. Tenta acordá-lo. Em vão. No hospital diagnosticam uma mistura mortal de álcool e barbitúricos.


Janis Joplin (1943-1970)

Os Kozmic blues da cantora que engolia garrafas inteiras de whisky nos concertos deixam de se ouvir a 4 de Outubro. Janis é encontrada morta num quarto do Landmark Hotel, em Hollywood, com marcas recentes de agulha no braço. “Overdose” de heroína. Tinha agendado a gravação das partes cantadas de “Buried alive in the blues”, “enterrada viva nos blues”. Anos antes proferira a seguinte frase, quando da morte do presidente Eisenhower, impedindo, deste modo, a publicação de uma foto sua na capa da “Newsweek”: “Depois de resistir a 14 ataques de coração, tinha logo de morrer na minha semana. Na MINHA semana!”


Jim Morrison (1943-1971)

Circunstâncias da morte: o mistério e a dúvida ainda hoje permanecem cerrados em torno da morte do carismático cantor dos Doors. Há mesmo quem afirme que ele continua vivo, retirado da vida pública, e que a sua “morte” não passaria de um embuste destinado a camuflar o seu desaparecimento. No dia 5 de Julho o empresário dos Doors, Bill Siddons, chega a casa de Jim, em Paris, onde o músico se tinha exilado, e encontra a Pamela, a sua namorada da altura, já com o caixão selado e uma certidão de óbito assinada por um médico francês. Causa da morte: ataque de coração motivado por “overdose” de heroína. O túmulo no cemitério de Père Lachaise, onde Jim Morrison se encontra enterrado (ou não se encontra, de acordo com a teoria dos que afirmam que ele está vivo...) tornou-se, ao longo dos anos, num lugar de culto.


Marvin Gaye (1939-1974)

Problemas de impostos, conflitos com a editora, a mulher que o engana com Teddy Pendergrass e o consumo desregrado de cocaína provocam em Marvin, autor de “What’s going on” e “Sexual healing”, uma paranóia crescente que o leva a desconfiar de toda a gente e a amontoar armas em casa. Na manhã de 1 de Abril de 1984, o pai, alcoólico, força a entrada em casa do músico, que o considera um intruso. A mãe de Marvin separa os dois mas Marvin Gaye sénior volta à carga e dispara um primeiro tiro de revólver que atinge o filho no peito. Volta a disparar já com ele caído no chão.


Nick Drake (1948-1974)

“Não consigo pensar em quaisquer palavras. Não sinto emoções sobre coisa nenhuma. Não quero rir nem chorar. Sinto-me dormente. Morto por dentro.” São declarações de Nick Drake, confrontado com uma eterna depressão e a dificuldade em arranjar letras para o seu álbum de estreia, “Five Leaves Left”. Na manhã de 25 de Novembro de 1974 o poço engoliu-o de vez. A mãe, Molly Drake, dirige-se ao quarto de Nick para o acordar. Tarde de mais. Nick sucumbira a uma dose exagerada de sedativos. No gira-discos ainda rolava um dos concertos brandeburgueses de Bach. À cabeceira descansavam as páginas de “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus.


Tim Buckley (1947-1975)

O autor das fantasmagorias “Happy Sad” e “Starsailor” corria velozmente atrás da noite. Encontra-a na noite de 29 de Junho. Tim dirige-se, meio ébrio, a casa de um “amigo”, Richard Keeling, à procura de heroína. Richard, apanhado prestes a drogar-se, reage com alguma agressividade e prepara-lhe uma dose com uma mistura de heroína e morfina, desafiando-o: “Toma, fica com tudo!” Tim aceita o desafio, convencido de que se trata apenas de cocaína e snifa o pó todo de uma vez. Morre no hospital de Santa Mónica. Longe das estrelas com que costumava sonhar. O seu filho e digno sucessor, Jeff Buckley, morre a 29 de Maio 1997, afogado nas águas do porto de Mud Island, a ouvir “Whole lotta love”, dos Led Zeppelin. Em “You and I”, canção do seu segundo álbum, canta: “Ah, a calma que existe por baixo daquele rio selvagem e envenenado.”


Marc Bolan (1947-1977)

A 16 de Setembro, o ex-hippie e rei do glam rock sai de carro com a sua amiga Gloria Jones e alguns amigos para ouvir música no clube Speakeasy e jantar no restaurante Morton. Ele e Gloria arrancam de regresso às 4 da manhã no Mini 1275 GR roxo de Gloria. Uma hora depois o automóvel esbarra contra uma árvore, numa curva a seguir à ponte de Queen’s Ride, no Sudoeste de Londres. Gloria fica gravemente ferida. O fundador dos Tyrannosaurus Rex morre.


Sandy Denny (1941-1978)

Cair de uma escada abaixo é uma morte pouco gloriosa, mas foi esta a maneira que o destino encontrou para pôr fim à vida da maior voz de sempre da folk inglesa. Sandy sofreu o acidente no dia 21 de Abril, na casa de um amigo. Partiu a cabeça e entrou imediatamente em coma, falecendo pouco tempo depois já no hospital, vítima de uma hemorragia cerebral, sem voltar a recuperar a consciência. O desastre aconteceu quando ela e o marido planeavam mudar-se para os Estados Unidos, para um relançamento da carreira. A morte da cantora dos Fairport Convention e dos Fotheringay aconteceu nove meses depois do nascimento da primeira filha do casal, Georgia.


Sid Vicious (1957-1979)

Sid Vicious, para falar verdade, parece nunca ter estado vivo. Da anarquia punk dos Sex Pistols, lado a lado e aos encontrões, com Johnny Rotten, às convulsões a solo e ao romance infectado com o seu grande amor, Nancy, tudo na existência de Sid apontava para o descalabro e para o niilismo. Nancy é encontrada no dia 12 de Outubro de 1978 na casa de banho de sua casa, encharcada numa poça de sangue com uma faca de mato a seu lado. Sid admite à polícia ter sido ele o assassino. É acusado de assassínio em segundo grau. Desesperado com a morte de Nancy, Sid é preso por causar desacatos num clube nocturno, mas sai em liberdade no dia de audiência. Vai a correr para o apartamento da sua mais recente namorada, Michelle Robinson, injectar-se. Segue-se nova dose, com material mais puro, o que, a seguir a um período (forçado) de abstinência (na prisão), não costuma dar bons resultados. Sid entra em colapso. Mas volta a si e adormece. Acorda a meio da noite para mais um chuto. O último. Alguém disse de Sid Vicious que “cultivava uma imagem de antagonismo”. Ele preferia cantar uma versão de uma canção de Frank Sinatra e dizer: “This is my way.”


John Lennon (1940-1980)

Depois de conseguir, na manhã de Dezembro de 1980, um autógrafo de Lennon, Mark David Chapman, que viajara de Havai para Nova Iorque só para ver o seu ídolo, permanece seis horas em frente ao apartamento do ex-Beatle aguardando a sua chegada. Lê “Uma Agulha no Palheiro”, de J. D. Salinger, enquanto espera. Quando Lennon chega e sai da sua “limousine”, Chapman dispara sobre ele uma sequência de sete tiros. Lennon morre sete minutos depois. Chapman é preso e o seu livro confiscado. Numa das páginas escrevera: “Esta é a minha declaração!”


Ian Curtis (1956-1980),
Phil Ochs (1940-1976),
Peter Ham (1947-1975)


Enforcaram-se os três. Ian Curtis, líder da mais famosa banda do eixo neurodepressivo de Manchester dos anos 80, os Joy Division, enrola a corda ao pescoço imediatamente antes de um concerto. A morbidez das letras que escrevia, juntamente com a epilepsia e a depressão crónica de que padecia contribuíram para o desenlace fatal.
Phil Ochs, cantor de protesto, autor do hino anti-Vietname dos anos 60, “I ain’t marching”, sofre, numa viagem a África, um misterioso ataque de um estrangulador que o leva às portas da morte. Como consequência as suas cordas vocais ficam danificadas para sempre, facto que acentua a depressão de que já sofria. Não resiste, enforcando-se na casa de sua irmã.
No caso de Peter Ham, o insucesso de vendas dos álbuns dos Badfinger, depois de uma fase inicial marcada por canções de êxito, aliado a dissensões no seio do grupo, levam à rescisão de contrato com a editora e ao aparecimento da depressão. Problemas familiares fizeram o resto. Ham põe ponto final na amargura e enforca-se.


Bob Marley (1945-1981) e
Peter Tosh (1944-1987)


Em finais dos anos 80, num dos primeiros concertos de uma digressão pelos Estados Unidos, Bob Marley tem uma síncope em pleno palco. A digressão é cancelada e a Marley é diagnosticado um cancro no cérebro e nos pulmões. Morre sete meses mais tarde vitimado pela doença.
Peter Tosh, outra das lendas do reggae, é atingido a tiro por um gatuno quando este tenta assaltar a sua residência na Jamaica.


Karen Carpenter (1950-1983)

Aos 31 anos a cantora da dupla pop The Carpenters tomava laxantes e remédios para a tiróide, como resultado de tensão em demasia (provocada pela carreira e pela vida familiar), a par da dependência de drogas. Pesa nessa altura 35 quilos. Após algumas tentativas de tratamento e um internamento, parece melhorar e aumenta o seu peso para 41 quilos. No princípio de 1983, a 4 de Fevereiro, Karen faz uma visita à mãe, Agnes. Conversam sobre roupas. No dia seguinte a mãe encontra-a desfalecida no quarto. A autópsia menciona como causa da morte uma paragem cardíaca provocada por anorexia nervosa.


Nico (1940-1988)

Chamavam-lhe a deusa da lua. Nico, modelo, actriz e, acidentalmente, cantora, era um espectro. A sua figura de diva do outro mundo que assombra o álbum da banana dos Velvet Underground esfumou-se como a sua vida, entre drogas, alternando entre excitantes e calmantes, uma insónia permanente e uma carreira que todos manipulavam, sem, todavia, penetrarem na essência do mistério. A 18 de Julho, Nico, na altura a viver com o poeta John Cooper Clarck, embate com a sua bicicleta numa árvore e sofre uma hemorragia cerebral. A deusa da lua encontrou a morte sob o sol de Ibiza, onde estava a passar férias.


Fredy Mercury (1946-1991)

É uma das primeiras vítimas mediáticas da sida, doença que o cantor dos Queen apenas admite ter 24 horas antes do desenlace fatal, através de uma declaração pública: “Desejo confirmar que fui considerado seropositivo e que tenho sida. Achei correcto manter esta informação privada, até agora, para proteger a intimidade dos que me rodeiam. Contudo, chegou a altura de os meus amigos e fãs saberem a verdade. Espero que todos se juntem a mim e aos meus médicos contra esta terrível doença.”


Kurt Cobain (1967-1994)

Uma incompatibilidade crónica com a vida conduz o músico dos Nirvana à heroína, juntamente com a sua mulher, Courtney Love. Uma primeira tentativa de suicídio, por “overdose” voluntária, definida pelo casal como “um acidente”, falha. Os restantes elementos do grupo convencem Kurt a tentar a desintoxicação numa clínica. Kurt acede mas foge de imediato para Seattle deixando um bilhete a Love: “Lembra-te, aconteça o que acontecer, amo-te.” A 5 de Abril de 1994 Kurt barrica-se em casa. Deixa a carteira aberta no chão, com a carta de condução à vista, para facilitar a identificação. Injecta-se com heroína, encosta o cano de uma espingarda à testa e dispara. O corpo é descoberto apenas dois dias e meio mais tarde por um electricista que trabalhava em sua casa.


Jerry Garcia (1942-1995)

Consumidor compulsivo de cocaína, heroína, ácidos (recebera a alcunha de “Capitão Trips”) e tabaco (três maços por dia), Jerry Garcia tinha uma obsessão pela morte, chamando ao seu grupo Grateful Dead e enchendo as capas dos discos com caveiras. Após várias tentativas frustradas de desintoxicação (uma delas deixa-o em coma) faz um derradeiro esforço para se libertar da heroína numa clínica da Califórnia. Durante uma visita de rotina um advogado do centro encontra o músico já sem vida na sua cama, vítima de um ataque de coração.


A reportagem era complementada pelo seguinte texto, assinado por Luís Maio:

Outras Mortes Nada Naturais

Por abuso de drogas e álcool
1968 – Frankie Lymon
1969 – Brian Jones (Rolling Stones)
1973 – Gram Parsons (Byrds e Flying Burrito Brothers)
1974 – Robbie McIntosh (Average White Band)
1976 – Paul Kossoff (Free)
1978 – Keith Moon (The Who)
1979 – Tommy Bolin (Deep Purple)
1980 – Tim Hardin
1980 – John Bonham (Led Zeppelin)
1981 – Mike Bloomfield
1986 – Phil Lynott (Thin Lizzy)
1987 – Paul Butterfield (Butterfield Blues Band)
1988 – Andy Gibb (The Bee Gees)
1995 – Rob Stinson (Replacements)
1998 – Rob Pilatus (Milli Vanilli)

Por acidente
1960 – Eddie Cochran, num desastre de carro
1967 – Otis Redding e cinco membros da banda de suporte Bar-kays, num desastre de avião
1969 – Martin Lamble (Fairport Convention)
1971 – Duane Allman (Allman Brothers), num desastre de moto
1977 – Quatro dos Lynyrd Skynyrd, num desastre de avião
1985 – Rick Nelson, num desastre de avião e D Boon (Minutemen) num desastre de carro
1998 – Sonny Bono (Sony & Cher), num acidente de sky

Por assassínio
1964 – Sam Cooke
1974 – Harry Womack
1987 – Scott La Rock
1995 – Selena
1996 – Tupac Shakur
1997 – Notorious BIG

Por suicídio
1954 – Johnny Ace
1973 – Paul Williams (Temptations)
1976 – Phil Oachs
1979 – Donny Hathaway
1986 – Richard Manuel (The Band)
1997 – Billy McKenzie (Associates)
1997 – Michel Hutchence (INXS)
1998 – Wendy O. Williams (Plasmatics)

Esta lista inclui celebridades tão estimadas quanto as antes referidas, mas também artistas de culto, uns já esquecidos, outros sobretudo lembrados depois da morte. Também não pretende ser exaustiva, mas apenas acrescentar-se à primeira lista. LM

Informações compiladas dos livros “Dead before their time”, de Diana Karanikas Harvey e Jackson Harvey (ed. Metrobooks, 1996) e “Eles morreram cedo demais”, de Tony Hall (ed. Edinter, 1996).

05/06/2009

O céu pontado de estrelas [Reedições]

Sons

14 de Novembro 1997
REEDIÇÕES


O céu pintado de estrelas

Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e reedições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.

Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desequilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirismos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)

Outro músico importante que já não pertence ao mundo dos vivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant karma” e “Power to the people”, o Lennon “rocker” de “Cold turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working class hero”, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).

Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megassucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira...) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” e “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos... (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).

Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”...), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Shepherd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco flow” e “The celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têm ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if...” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)

Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da média da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito único de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o “neo-country”, em “Redemption day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, distri. Polygram, 6)