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11/11/2016

Morreu "Blind Joe Death" [John Fahey]

CULTURA
SÁBADO, 24 FEVEREIRO 2001

PROTAGONISTA

Morreu “Blind Joe Death”


John Fahey, guitarrista lendário, mestre do “fingerpicking”, morreu na madrugada de ontem, num hospital de Salem, 48 horas após ter sido operado ao coração. Daí a seis dias completaria 61 anos e era conhecido apenas de uma minoria, entre os quais os Tortoise, Jim O’Rourke e os Sonic Youth, que o adotaram como um dos gurus do pós-rock. Entre outras coisas, chamaram-lhe “o padrinho do movimento new age da guitarra” e “um verdadeiro génio”, embora ele preferisse auto-nomear-se “um primitivista americano”.
            Fahey nasceu a 28 de Fevereiro de 1939, em Takoma Park. O pai tocava piano e harpa irlandesa mas ele passava o tempo a colecionar tartarugas de madeira (um dos seus álbuns tem por título “The Voice of the Turtle”) e a pescar. Numa dessas pescarias, encontrou o cantor e guitarrista negro Frank Hovington, que lhe incutiu o amor pela técnica “fingerpicking”. E assim John Fahey foi pescado pelos blues.
            Estudou filosofia e religião e em 1963 formou a editora Takoma para onde gravaram, entre outros, Leo Kottke. Só à sua conta, Fahey editou um número incontável de álbuns, dispersos por várias editoras. Nos anos 60, o seu nome saiu por instantes da obscuridade, ao figurar na banda sonora de “Zabriskie Point”, de Antonioni, ao lado dos Pink Floyd e dos Grateful Dead.
            Falta falar da excentricidade de John Fahey, que viria a ser potenciada pelo consumo exagerado de álcool e por demasiadas incursões nas regiões desérticas de LA, para onde se mudara nos anos 70. Começou a incarnar heterónimos como Blind Joe Death ou o antropólogo Chester C. Petranick, a quem se deve a notícia de Fahey ter construído a sua primeira guitarra com um caixão de bébé, e a dar às suas canções títulos como “In the death and disembowelment of the new age” ou “Old girlfriends and other disasters”.
            Da sua extensa discografia foram recentemente reeditados pela Sabotage álbuns como “The Dance of Death & Other Plantation Favorites”, “The Legend of Blind Joe Death”, “Death Chants, Breakdowns and Military Waltzes”, “The Voice of the Turtle” ou o mais recente “Hitomi”, para outra das suas editoras, a Livhouse. A morte, que sempre o seduzira, apanhou-o quando preparava a edição de um novo trabalho, “Summertime and Other Sultry Songs”.

11/08/2014

John Fahey - Hitomi



28 de Julho 2000
POP ROCK - DISCOS

John Fahey
Hitomi (7/10)
LivHouse, distri. Sabotage

Figura lendária do “underground”, herói para Jim O’Rourke, que o projetou como padrinho do pós-rockm influência assumida por Thurston Moore, dos Sonic Youth, John Fahey prossegue infatigável uma carreira desde há três décadas paralela aos grandes centros de decisão da indústria discográfica. A sua música fantasmática faz-se da devoção aos blues e à country, colados nas cordas da sua guitarra pela técnica do “fingerpicking” e por uma noção do tempo que ronda os princípios da hipnose. “Hitomi” apresenta uma sucessão de monólogos onde a introspeção e o silêncio se entrelaçam em longos mantras sulcados por efeitos de eco, reverberação e delay. Os “blues” alongam-se na dispersão das frases da guitarra, abrindo no seu interior espaços e síncopes. O tempo, repetimos, não é o mesmo para John Fahey e para um “bluesman” tradicional. Fahey estilhaça-o a seu bel-prazer numa música que tem tanto da serenidade zen (um “Delta flight” planante) como da inquietação súbita que um redemoinho de vento traz a uma cálida tarde de Verão. Quando, por fim, a guitarra se depara com o seu primeiro grande obstáculo, em “A history of Tokyo rail traction”, o embate com a eletrónica de Tim Knight e Rob Scrivener repõe com violência esta música do “outro mundo” na realidade das coisas sólidas que colidem e fazem ruído e causam dor. Como se o pós-rock reivindicasse à força os seus direitos, exigindo de John Fahey a atenção que este invariavelmente tem concentrada nas regiões mais estratosféricas da imaginação. São sonhos que se desvelam em “Hitomi”. Mas sonhos que causam desequilíbrio e exigem a reavaliação das normas que regem os passado. O que torna a música de John Fahey intemporal.