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24/01/2022

Lou Reed & John Cale - Songs For Drella

Pop
 
FICÇÕES
 
LOU REED E JOHN CALE
Songs For Drella – A Fiction
LP, Warner Bros, import. WEA
 


            Andy Warhol, a quem este disco é dedicado, é Drella, junção de Drácula e Cinderella, na mesma pessoa. Warhol, já se sabe, é um mito, referência obrigatória de uma certa cultura, outrora “underground”, americana, e, mais especificamente, nova-iorquina. Personagem vampírica de modas, estilos e escândalos de uma cidade fotografada em rápidos “polaroids”, no seu aspeto mais artificial e decadente. Isto, claro, se não quisermos considerar Nova Iorque como o símbolo máximo do artificialismo e da decadência, a realidade feita imagem.
            Warhol compreendeu isto mesmo, ao transformar uma lata de sopa ou a estrela Monroe em simples imagens, repetidas “ad infinitum”, em múltiplas variantes, a aparência sempre se sobrepondo ao sentido essencial – ou, dito de outro modo, reduzindo a essência à imagem exterior e fotográfica que adquire, por este processo, um sentido autónomo do ente que lhe deu origem. Simples objeto de consumo doméstico (a lata de sopa) ou gente de carne e osso (Marilyn), são, afinal, exemplos paradigmáticos de uma mesma atitude redutora do real a imagens de marca, réplicas que, paradoxalmente, se elevam, por força da repetição e ampliação sucessivas, à superior condição de mitos.
            Warhol executou a sua obra de arte suprema ao aplicar a si mesmo o método, à custa de uma constante e criteriosamente controlada sobrexposição, diante dos mecanismos transformadores dos “media”. Se foi “Cinderella”, como personagem emblemática da passividade, foi-o, decerto conscientemente e de forma calculista. Warhol vampirizou-se a si próprio, através dos outros, sabendo como se constrói o mito a partir do vazio. “My life is disappearing from View”? – tanto melhor, diria Drella.
            Sedimentada a ilusão, o processo inverteu-se. John Cale e Lou Reed, partindo da imagem mítica do artista, procuram, neste disco biográfico, atingir, através de uma simplicidade de meios idêntica à dos Velvet numa primeira fase, o âmago, a pessoa real “escondida” atrás da personagem. Para descobrirem, por fim, que, por baixo da máscara, existe sempre outra máscara, num infinito jogo de espelhos.
            Cale e Reed, desde o início de carreira, com os Velvet Underground, procuraram sempre as vias opostas às do sonho, tentando permanecer apegados a uma certa materialidade do real, avançando contra todos os pressupostos estéticos da época. Nos anos em que se cantava ainda as alucinações coloridas do LSD, Lou Reed esperava à esquina pelo seu “dealer” e erigia a heroína como verdadeira “esposa”, única capaz de facultar a visão autêntica, brutal e a negro e branco, da realidade concreta da rua e, por extensão, da América destituída da ilusão de todos os sonhos.
            Talvez não se tenha compreendido ainda a importância crucial, na obra de Lou Reed, do duplo “Metal Machine Music”, das poucas tentativas, na arte do nosso século, de ultrapassar a forma estética, para chegar à nudez absoluta da abolição de todos os sentidos. A realidade é, deste ponto de vista, o que está para além da arte. Se há uma lição a tirar de “Songs For Drella”, é o fracasso a que estão condenadas tais tentativas. Os dois expoentes dos Velvet são (ou têm sido) então, precisamente o oposto de Warhol, procurando, no cerne da ilusão, a impossível saída para o que julgam existir para além dela. Reconheceram finalmente, após largos anos apostados em permanecer “gente real” que – pelo simples facto de terem escolhido a música e a fábrica de sonhos que é a pop – todos os esforços nesse sentido resultaram afinal nos mitos em que também eles se transformaram.
            Visto desta maneira, “Songs For Drella” é uma homenagem, na aceção mais profunda do termo, rendição incondicional à visão warholiana, compreendendo-se agora melhor o verdadeiro significado do “A Fiction” (Warhol, a ficção em pessoa) aposto no título. Passados 24 anos, os Velvet Underground regressam, com a mesma força e invertendo o sentido inicial. Suprema ironia, desistência apoteótica ou manifesto definitivo da arte como suprema forma de ilusão, cabe a cada um decidir, consoante a perspetiva.
 
QUARTA-FEIRA, 2 MAIO 1990 VIDEODISCOS

20/11/2019

A fúria é a melhor amiga do homem [John Cale]


CULTURA
DOMINGO, 26 OUT 2003

Crítica Música


A fúria é a melhor amiga do homem

John Cale
LISBOA Aula Magna
Sexta-feira, 21h30. Sala a três quartos.

Desafinou num ou noutro momento. Expôs fragilidades. Arriscou registos contraditórios. Mas, caramba, o homem, John Cale, deu sexta-feira, na Aula Magna, em Lisboa (ontem voltou a atuar na mesma sala com alinhamento diferente), um dos melhores concertos rock deste ano. Aos 61 anos, a energia continua concentrada na difícil arte de caminhar sobre o fio da navalha. Arrasador.
Integrado numa banda formada por Craig Irwin Levitz (bateria, bateria eletrónica e samples) Jeff Samuel Thall (guitarra) e Paul Andrew Page (baixo) Cale alternou a apresentação do novo álbum “HoboSapiens”, com temas extraídos da sua anterior discografia, de álbuns como “Fear”, “Slow Dazzle” e “Music for a New Society”. Os primeiros, ainda pouco rodados, recriaram as ambiências complexas e a forte componente eletrónica do disco, com Cale no piano elétrico e Levitz a lançar para a mesa de mistura samples vocais e uma artilharia de efeitos especiais. Pelo meio, temas tocados em guitarra acústica, como “Chinese savoy”, “gospel” de abandono como “Ship of fools” e um “Fear” de gelar o sangue – Cale a gritar como um danado, a plateia percorrida por um frémito. “Fear is a man’s best friend”. O ex-Velvet há muito que trocou o medo pela fúria.
Logo de início, arreganhou os dentes, entrando a matar com “Venus in furs”, tema escrito pelo seu antigo companheiro nos Velvet, Lou Reed, do mítico álbum da banana. A velha “drone” de viola de arco, tão nevrótica como há 36 anos, e a guitarra de Thall a escorrer limalha de ferro, reproduziram um filme ao qual só faltaram os fantasmas de Warhol e de Nico. Cumprido o ritual, entrou no túnel do rock ‘n’roll, saindo do outro lado a cavalo nas programações eletrónicas de “HoboSapiens”, para voltar de novo atrás, vociferar baladas, a voz a falhar e a voltar ao lugar, mais poderosa e frágil do que antes, mas sempre com a alma a esbugalhar-se, incandescente como a de um jovem revolucionário.
Quanto tempo tocou? Difícil dizer. Porque o tempo parou, suspenso na sinceridade sem freios, na crueza emocional deste músico que recusa esconder-se atrás das modas. Para John Cale continua a ser um assunto de vida ou de morte. Juntaram-se as duas na demolidora sequência final, “Gun”, de “Fear” e “Pablo Picasso”, de “Helen of Troy”, acoplados numa locomotiva de adrenalina e decibéis. O público, espezinhado, esmagado, rendido pelo choque de eletricidade, ergueu-se e aplaudiu de pé, pedindo durante largos minutos o “encore” que demorou a chegar.
Cale regressou para se expor e arriscar ainda mais. “Hallelujah”, sozinho, num hino arrancado ao amor mais terno e ao mais profundo desespero, a seguir, “(I keep a) close watch”, de “Helen of Troy” (nova versão em “Music for a New Society”), a derradeira confissão: “Never win and never lose/There’s nothing much to choose/Between the right and wrong/Nothing lost and nothing gained/Still things aren’t quite the same/Between you and me I keep a close watch on this heart of mine.”
As luzes acenderam-se e apagaram-se e voltaram a acender-se e a apagar-se. E o público sem arredar pé, a pedir mais e mais. Mas Cale já ali não estava. Faltou apenas “Heartbreak hotel”. Mas seria talvez insuportável. Desnudar ainda mais a raiva e a solidão.

EM RESUMO
John Cale, o eterno sabotador, não teve medo de cortar o rock em duas metades: a dos Velvet Underground e a do novo álbum “HoboSapiens”. Concerto arrasador.

14/11/2019

JOHN CALE - HoboSapiens


Y 24|OUTUBRO|2003
música|john cale

Não perdeu pitada da fúria que destilou nos Velvet. O novo álbum tempera a violência com a experimentação. Como o galês já não fazia desde Music for a New Society.

John Cale
na frente de batalha


John Cale, o galês ex-Velvet Underground das mãos de ferro (tocava piano como se envergasse umas luvas de boxe, dizia a malograda Nico, a propósito da sua participação, como produtor e multi-instrumentista, no álbum “The End...”). Bom, Cale não tem só as mãos de ferro. A cabeça também.
            “Hobosapiens”, o seu mais recente álbum de estúdio, co-produzido por Nick Frangle, dos Lemon Jelly, e o primeiro num espaço de sete anos, confirma todas as virtudes, reduzindo ao mínimo os defeitos, deste músico que desde sempre mantém uma relação quase esquizofrénica entre a música pop (a saber, canções) e o experimentalismo (a saber, o risco formal – Cale fez parte, nos anos 60, do círculo do guru da escola minimalista, em versão zen, La Monte Young, e gravou o álbum “Church of Anthraz “com Terry Riley). Virtudes que se revelam de imediato na primeira faixa, intitulada “Zen”, precisamente: a coragem de arriscar, misturar e refundir células melódicas e rítmicas, ideias e choques, através da fragmentação, do uso intensivo de samples e de arranjos idealizados por forma a tirar o maior partido das novas tecnologias “Pro Tools” que tem vindo a explorar nos últimos dois anos.
            Os defeitos, aqui bastante minorados, limitam-se a essa tal síndrome das luvas de boxe (inexistente, por exemplo, no seu parente espiritual, Peter Hammill), sem que, todavia, tal impeça a detonação das granadas emocionais. Não que Cale (que hoje a amanhã se apresenta na Aula Magna de Lisboa) seja um brutamontes, nada disso; acontece apenas ser frequente a voz dar ideia de estar sempre um passo à frente do resto, tal a avidez de esmurrar a cara seja de quem for. “Hobosapiens” é um combate que só termina quando o adversário vai ao tapete por K.O. E esse adversário é o mundo.
            “Reading my mind” prova ser a primeira grande canção, servida por uma batida rock sem descanso e uma guitarra afi nada pelo diapasão de “Heroes”, de Bowie (a propósito, o próprio Cale gravou um disco de rock-rock que poucos mencionam ou que menosprezam: “Honi Soit”) e um coro “doo-wop”. Difícil resistir.
            “Things” é Cale “vintage violence” com o ex-Velvet a evidenciar a sua veia Dylaniana. “Look horizon” parte de sugestões etno, borbulha com efeitos eletrónicos, faz contraponto vocal com uma declamação no feminino e é passada ferro por uma orquestra digital que evoca tanto a dupla Brian Eno/Cluster como a absoluta e impenetrável bizarria que é “Tilt”, de Scott Walker, disco do qual se tem falado para fazer uma comparação – abusiva – com “Hobosapiens”.
            A habitual propensão para nomear canções com nomes próprios com caução cultural (segundo uma herança classizante que cristalizou em “Paris 1919” e, dispensando por completo a pop e o rock, em “The Academy in Peril”) manifesta-se em “Magritte” e “Archimedes”. O primeiro é outro dos momentos altos de “Hobosapiens”, verdadeiramente surrealista na estrutura, alternando violoncelo, filtragens e falsettos vocais, efeitos de luz e água e pormenores hammillianos, como tudo se desenrolasse no fundo de um lago, oculto por um véu de mistério. Já “Archimedes” condescende no “groove” sincopado do “drum‘n’bass” embora Cale faça gala em destruir as expectativas de quem gostaria que este fosse um disco de dança. Apesar de haver “Bicycle”, o mais dançável e redundante dos temas do álbum. A técnica pode ser essa mas o objetivo é outro, soando “Archimedes” como um falso calipso, cortado por um espantoso interlúdio orquestral (?) imune a quaisquer definições.
            Cale, que já trabalhara com Brian Eno em “Fear” (uma das grandes e mais alucinadas obras do ex-Velvet) e “Caribbean Sunset”, demonstra não ter esquecido os ensinamentos do mestre das “estratégias oblíquas”, nos arranjos de “Caravan”, escorrendo tanta lava como em “Lodger”, de Bowie. Tema de viagem, como o era “Sanities” de “Music for a New Society”, ainda e sempre o expoente máximo, a solo, do artista.
            Deixando “Bicycle” circular em direção à meta, ao som de campainhas e balir de carneiros, deixando claro que Cale não é propriamente os Kraftwerk, o álbum entra na sua fase final no período mais ameaçador, aquele onde Cale se sente como peixe em águas pantanosas. Um par de temas, “Twilight zone” e “Letter from abroad”, arrasam, moem os miolos, provocam suores frios. Tudo aquilo que seria suposto o rock provocar. Cale dá forte em “Twilight zone”, moldando uma argamassa de vozes de comando – “Give up the ghost!, “Bring out the dead!”, “Get on with your work!”, “Kick out the jams!” – guitarra sulfúrica e harmonias vocais em convulsão. Em “Letter from abroad”, inspirado num documentário para a televisão da jornalista Saira Shah sobre a ocupação do Afeganistão pelos talibãs, a guitarra derrama chumbo fundido sobre sonoridades orientais e uma batida demoníaca, com Cale e cantar como se estivesse possuído. Ou vivesse o último dia de vida. O coro eleva-se num “maelstrom” de agonia. Gritos. “They´re cutting their heads off in the soccer fields…”. Meira Asher adoraria ter sido ela a compor o tema. A revista “Uncut” lembra-se de citar, a propósito da sequência coral, o compositor Ligeti (ou Lee Getty, como foi chamado nas legendas de um documentário transmitido recentemente no Canal 2 da RTP, supostamente cultural).
            Mais experiências de som e tempero de “drum ‘n’ bass” condimentam “Things X”, cultivando Cale aquele tom vocal etílico que, como bom galês e noutras ocasiões, nunca se coibiu de exibir, antes do pano baixar na balada épica final, “Over her head”. Supostamente de amor. “Ela vê chamas na cozinha/Uma visão do inferno” e “Ela ama toda a genet/Ela até me ama a mim”. E o tema dispara com o rock ‘n’ roll mais incendiário que se possa imaginar, embora Brian Eno tivesse acendido o fósforo, enquanto contava uma anedota, em “Blank Frank”, do álbum “Here Comes the Warm Jets”. Depois disto, quem apaga o fogo?
            “Hobosapiens” tira John Cale da reserva e lança-o de novo para a frente de batalha. Aos 61 anos, é obra.

JOHN CALE
HoboSapiens
EMI, distri. EMI-VC
8|10

05/08/2016

Brian Eno & John Cale - Wrong Way Up

Pop Rock
31 de Outubro 1990

BRIAN ENO & JOHN CALE
Wrong Way up
CD, Opal, distri. WEA, import. Contraverso

A LUZ ABSOLUTA

De súbito, uma grande claridade. Fez-se luz e separaram-se as águas na estagnação confusa em que se debatem os criadores da cultura musical pop. E a luz fez-se por obra e graça de dois músicos para quem essa palavra pouco sentido faz. De Brian Eno se poderá dizer que nunca mais, desde “Before and after Science”, quis saber da populaça e das suas músicas para consumo imediato, refugiado na sua Penthouse, em Nova Iorque, a contemplar o céu e a filmar-lhe as cores e movimentos. Trocando o bulício e o turbilhão pelo infinito. Construindo sons a partir do silêncio e dando-lhes o nome de ambientais, como em “The Shutov Assembly”, a editar brevemente. Hoje, os novos seguem-lhe as pisadas e a “ambiente house” presta-lhe homenagem.
Para John Cale não se torna tão fácil manter essa distância. Ao contrário de Eno, nascido musicalmente no seio do “glamour” vanguardista e decadente dos Roxy Music, sem qualquer formação musical e servindo-se do rock como forma de aprendizagem, Cale possuía formação clássica e, mesmo antes do delírio Velvet Underground, dera provas de pertencer a outro universo musical, tendo estudado com Aaron Copland, integrado as práticas esotéricas de La Monte Young e gravado um álbum com o minimalista Terry Riley, “The Church of Anthrax”. O seu percurso discográfico tem sido uma luta constante, contra e a favor do rock, procurando dar-lhe um estatuto mais clássico (como em “Paris 1919” ou “The Academy in Peril”), ou, inversamente, sabotando-o a partir do seu interior através de uma guerrilha violenta, simultaneamente musical e textual (“Fear”, “Sabotage”, “Music for a New Society”).
Cale e Eno já haviam colaborado em projetos anteriores, como “June 1, 1964” (ao lado de Kevin Ayers e Nico), ou em álbuns a solo do primeiro (“Fear”, “Caribbean Sunset”, o recente “Words for the Dying”, cujo último tema, “The Soul of Carmen Miranda”, prenunciava já a maravilha que se lhe seguiria) ou do inventor da “música discreta” (“Another Green World”). “Wrong Way up” retoma o caminho iniciado com “Before and after Science”. Tem pouco a ver com toda a obra mais recentes de ambos os artistas (se excetuarmos o já citado tema de “Words for the Dying”). Soa mais a Eno do que a Cale. Não admira: é aquele o produtor e sente-se que foi ele a comandar as operações. A própria capa apresenta uma estética decalcada de “Taking Tiger Mountain (by Strategy)”, num “pastiche” ao método de repetição fotográfica utilizado pelo pintor alemão, entretanto falecido, Peter Schmidt.
É um álbum de canções. Mas, quando se conhece a noção que Brian Eno tem do termo, desde logo se fica à espera do inusitado. Se numa canção, na sua forma convencional, o texto ocupa lugar primordial, Eno faz questão de, logo à partida, considerar as palavras como formas de distrair a atenção do fundamental – o som, a textura tímbrica. Como ele próprio afirma, “as letras devem ter, tanto quando for possível, um significado mínimo, que não perturbe o ambiente geral, sendo como que um espaço esculpido”. Durante as gravações de “Wrong Way up”, sempre que John Cale chegava ao estúdio com um texto pronto, logo Eno o convencia a deixa de escrever palavras que fizessem sentido. Para ele estas valem apenas como jogo fonético. Conta o ex-Velvet Underground que um dos métodos preferido de Eno consiste em começar por cantar simples vogais para depois lhes acrescentar o esqueleto das consoantes. Em “Wrong Way up” tratou-se de um jogo mútuo de desconstrução de sentidos, numa espécie de “cadavre-exquis” fonético e linguístico, composto a dois.
Musicalmente, o álbum desenvolve-se segundo esquemas idênticos aos utilizados por Eno em toda a sua obra até “Before and after Science”: “riffs” fora de contexto, acentuação de pormenores quase aleatórios, vocalizações surreais, predomínio das parcelas em relação ao todo (uma espécie de microscopia sonora, metaforicamente definida por Eno como “uma floresta que apresenta a mesma complexidade estrutural tanto ao nível da paisagem geral como de cada folha em particular” – música fractal, pois claro.
Complexidade que soa sempre de forma natural, fazendo parecer simples o que resulta de um trabalho de composição quase laboratorial – Eno fechava-se no estúdio, em busca do som dourado, enquando Cale, mais convencional nos métodos, jogava “squash”, à espera que chegasse a sua vez.

Dez temas preenchem, de forma brilhante, um álbum sem pontos fracos. Canções perfeitas, estranhas, obedecendo e funcionando segundo lógicas daquelas a que estamos habituados. Heterogéneas no modo como cada uma inventa universos e discursos próprios. Homogéneas, porque se interligam de forma harmoniosa e coerente, obedecendo a processos de exposição e tratamento sonoro só definíveis como alquímico. Brian Eno é o mágico que transforma tudo o que toca em joia deslumbrante. Na sua varinha de condão, que é o estúdio, tudo se torna luminoso – os violinos atraentes e obsessivos de Nell Catchpole em “Lay me Love”, o jogo de guitarras em “One Word”, a cadência etilizada de “In the Backroom”, como se Kevin Ayers e os Can se encontrassem num “western” ambiental, os coros “doo-wop” de “Empty Frame”, o piano e viola outonais a acompanharem o canto límpido e profundo de Cale, em “Cordoba”, a caixa de ritmos e o rendilhado da guitarra, fazendo lembrar os Durutti Column, de “Spinning Away”, o vento eletrônico e as tablas de “Footsteps”, a viola tratada de “Been there Done that”, o “boogie-woogie” pianístico de “Crime in the Desert” e a toada evocativa e sonambúlica de “The River” (único tema sem a participação de Cale e com Roger Eno nas teclas), prolongando as neblinas de “Down by the River” (de “Before and after Science”) e elevando-se sem fim até ao cume do mundo em melopeia encantatória, como a longa ascese de “Taking Tiger Mountain”, são outros tantos quadros deslumbrantes que constantemente revelam novos pormenores e diferentes perspectivas. Para “Wrong Way up” só há uma classificação possível: obra-prima. *****

21/09/2014

John Cale - Vintage Violence



Y 2|MARÇO|2001
escolhas|discos

JOHN CALE
Vintage Violence
Columbia Legacy, distri. Sony Music
7|10

Sobre as cinzas dos Velvet Underground, John Cale encetou em 1970, com “Vintage Violence”, uma carreira discográfica a solo irregular, marcada pela excentricidade, o excesso e, nalguns casos, o génio, patente em álbuns como “Fear”, “Helen of Troy”, “Slow Dazzle” e “Music for a New Society”, momentos mais altos de percurso que nos últimos anos perdeu algum fulgor. “Vintage Violence”, coletânea de canções pop em contravenção com a violência dos Velvets, nalguns casos roçando a ingenuidade “naif”, funciona como preâmbulo para a descoberta de um talento aqui ainda em fase de autodescoberta. Primeira reedição remasterizada deste músico galês sobre o qual alguém escreveu que “toca piano como se usasse luvas de boxe”, “Vintage Violence” oferece dois temas extra, um deles, “Wall”, verdadeiro “wall of sound” de viola de arco eletrificada, ilustrativo do trabalho desenvolvido por Cale no seio do “Teatro da Música Eterna”, com LaMonte Young e Tony Conrad.

03/08/2014

Feitas as apresentações [Reedições]



23 Junho 2000
REEDIÇÕES

Feitas as apresentações…

            “An Introduction to…” é uma série de divulgação do fundo de catálogo da editora Island, com ênfase numa década, os anos 70, em que esta rivalizava, sobretudo em matéria de artistas ligados à música progressiva, com a Harvest e a Vertigo. “Way to Blue” é um bom cartão de visita da obra de Nick Drake. Além de uma seleção de temas extraídos da sua discografia oficial, inclui duas canções de “Time of no Reply”, álbum de demos e versões alternativas editado em 1987, “Time of no reply” e “Black eyed dog” (8/10).
            Sandy Denny é apresentada através de “Listen Listen”. Sandy, também hjá desaparecida, foi uma espécie de polo feminino de Drake. Era melhor cantora do que compositora e os seus extraordinários dotes vocais podem ser apreciados quer nos Fairport Convention quer na sua discografia a solo composta por quatro álbuns, dos quais são extraídas as canções da presente coletânea: “The North Star Grassman and the Ravens”, “Sandy”, “Like an Old Fashioned Waltz” e “Rendezvous” (8/10).
            Voltamos a ouvi-la em “What we did on our Holidays”, dos Fairport Convention, título que com alguma batota reproduz o do segundo álbum da banda. “Fotheringay”, o clássico “Who knows where the time goes” (uma das interpretações clássicas de Denny), “Farewell, farewell”, Tamlin” e “Walk awhile” são algumas das canções escolhidas para a apresentação da rainha das bandas de folk rock, responsável por álbuns fenomenais como o já citado “What we did on our Holidays”, “Unhalfbricking”, “Liege and Lief”, “Full House” e “Babbacombe’ Lee” (8/10).
            John Martyn, o tal da voz parecida com a de Nick Drake (de quem era amigo), mostra-se em “Serendipity”. A coletânea bem poderia centrar-se exclusivamente em “Stormbringer”, com Beverley Martyn (o álbum seguinte da dupla, “The Road to Ruin”, infelizmente não figura), e nos três fabulosos trabalhos a solo, “Bless de Weather”, “Solid Air” (obra-prima absoluta deste músico autor de uma original fusão de jazz, pop e folk) e “Inside Out” (um clássico do jazz folk). Tudo o que veio depois é apenas interessante (6/10).
            Dos Traffic, onde pontificava a voz “soul” de Stevie Winwood, é passada em revista a sua obra em “Heaven is in your mind”. Gravaram dois álbuns magníficos, “Mr. Fantasy” e “John Barleycorn must Die” e um interessante “The Low Spark of High Heeld Boys”. Começaram por ser praticantes de uma fusão de jazz e blues tingidos de psicadelismo (“Mr. Fantasy”), passaram para o jazz rock e acabaram por estiolar num “Adult Orientated rock” enjoativo. A coletânea não faz distinções de qualidade… (6/10).
            John Cale, anunciado, entre outras coisas, como “iconoclasta”, “pensador”, “compositor clássico”, “selvagem do rock ‘n’ rol”, “músico esquizofrénico profissional”, “cyber punk” e “pai”, está bem representado em “Close Watch”. Bastaria a inclusão de “Heartbreak hotel” e “Fear is a man’s best friend” para o recomendar aos que ainda ignoram as suas atividades de terrorista. (8/10).
            Passe-se ao lado de “Walk in my Shadow”, dos Free, banda de hard-rock que se notabilizou por ter lançado o hit “All right now” que nem sequer figura na presente coletânea. Os apreciadores de riffs de guitarra não perderão em deitar um ouvido… (5/10).
            Finalmente, Julian Cope é apresentado por “Leper Skin”, que tem a seu favor incluir dois lados B de singles (reunidos em “The Followers of Saint Julian”), de permeio com temas extraídos da sua discografia compreendida entre 1986 e 1992, dos álbuns “Saint Julian”, “My Nation Underground”, “Peggy Suicide” e “Jeovahkill”. Rock e baladas/manifestos desvairados de um músico que faz das pedras a sua profissão. Sejam elas de LSD ou do templo megalítico de Stonehenge. (7/10).