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02/06/2020

Joni Mitchell - Shadows and Light


Y 22|OUTUBRO|2004
roteiro|discos

|DVD

JONI MITCHELL
Shadows and Light
Warner Vision

7|10

Joni Mitchell foi uma revolucionária dos sentimentos contidos entre o amor e a perda, evoluindo no sentido de um aprofundamento das formas musicais do canto e da emoção – das baladas folk de “Ladies of the Canyon”, “Blue” e “For the Roses” ao jazz de “Mingus”, do experimentalismo de “The Hissing of Summer Lawns” aos ventos gelados de “Hejira”, da eletrónica falhada (o seu único passo em falso) de “Chalk Mark in a Rain Storm” ao mergulho final num classicismo de luxo dos derradeiros “Turbulent Indigo”, “Taming the Tiger”, “Both Sides now” e “Travelogue”. Depois, desiludida com a indústria, abandonou a música. Primeiro a estrada, depois o estúdio. “Shadows and Light” apanha-a no último ano da década de 70, ao vivo no Santa Barbara County Bowl, num concerto com um naipe de músicos de primeira água ligados ao jazz: Pat Metheny, Lyle Mays, Jaco Pastorius, Michael Brecker e Don Alias, mais o grupo vocal The Persuasions. O DVD não inclui a totalidade das canções do álbum do mesmo nome editado em 1979, oferecendo como extra apenas um diário de fotos da digressão. Joni aparece vestida de senhora já na meia-idade, armada com guitarra acústica e aquela voz que hoje faz escola na nova geração de “singer songwriters”. O alinhamento inclui clássicos como “In France they kiss on main street”, “Coyote” e “Amelia”, do período mais aventureiro da autora (de “The Hisssing…”, “Hejira” e “Mingus”), a par de “standards” como “Goodbye pork pie hat”, e dois momentos reservados aos solos de Jaco Pastorius, no baixo elétrico, e Metheny, na guitarra. Pouco compreensível é a introdução, com imagens de James Dean em “Fúria de Viver”, de Kazan. Pelo meio há excertos de clips também pouco espetaculares. A cantora surge disfarçada de corvo (como na contracapa de “Hejira”) a patinar sobre o gelo, no meio de “Black crow” e, em “Coyote, há imagens – surpresa! – de um coiote. O que significa que este é um DVD mais para se ouvir, nos prazeres da alta definição do 5.1 Dolby Digital Surround, do que para se ver.

17/02/2020

Joni Mitchell - The Complete Geffen Recordings


27|FEVEREIRO|2004 Y
discos|roteiro

JONI MITCHELL
The Complete Geffen Recordings
4xCD Geffen, distri. Universal
6|10

Os anos 80 não foram gentis para Joni Mitchell nem ela foi gentil para os anos 80. “Wild Things Run fast” (1982), “Dog Eat Dog” (1985), “Chalk Mark in a Rain Storm” (1988) e “Night Ride Home” (1991) foram (des)considerados desfasados da época. A cantora canadiana retorquiu, queimando os “eighties” como a década da decadência e do materialismo. Mas Joni condescendeu e estes quatro trabalhos podem ser considerados os mais fracos da sua discografia. Afastada da veia jazzística e experimental de “The Hissing of Summer Lawns”, “Hejira” e “Mingus”, entrou de cabeça na pop mas deu-se mal com a superficialidade de uma música formatada no lado mais plastificado da eletrónica. Se “Wild Things” pode ser apreciado como operação de simplificação, com entrada no rock FM, “Dog Eat Dog” desce aos baixios da electropop e “Chalk Marks…” afunda-se no lodo de colaborações pouco enriquecedoras (Peter Gabriel, Willie Nelson, Tom Petty e Billy Idol). Em “Night Ride Home”, felizmente, Joni sacudiu a poeira e as ramelas dos olhos e arranjos, despertando de novo para as grandes canções. Os discos, remasterizados, ressurgem em caixa e capas de cartão que são simplificações das originais.

07/12/2016

Joni Mitchell - Night Ride Home

Pop Rock
27 de Março 1991

REGRESSO A CASA

JONI MITCHELL
Night Ride Home
LP, MC e CD, Geffen, distri. BMG

Um caso de classe e distinção. Não fora o lamentável equívoco de “Dog Eat Dog” (acesso tardio de comercialite aguda) e seria caso para se dizer que Joni Mitchell nunca erra. Com “Night Ride Home” não só não erra como acerta em cheio no alvo. Digamos que a cantora canadiana consegue aqui conciliar a extrema simplicidade dos arranjos com as típicas sinuosidades de um estilo vocal e composicional muito próprio, sem perder de vista uma acessibilidade que não envolve qualquer tipo de concessões.
Longe vão os tempos do jazz, de “Mingus” e “Don Juan’s Reckless Brother”, ou os labirintos estruturais de “The Hissing of Summer Lawns”. De regresso à serenidade e ao tom acústico da fase inicial, aquela que culmina em “For the Roses” ou, já num período de transição, em “Court and Spark”. “Night Ride Home” flui com a facilidade das águas de um rio antigo, até ocupar o lugar exato num universo pacientemente construído, a que se acede sem pressas nem escusadas violências. Joni Mitchell nunca foi, de resto, mulher de perder a cabeça. Mas, se, na aparência, se pode falar em termos de “regresso”, “Night Ride Home” representa, além de tudo o mais, a maturidade e a depuração de um estilo.
Se, por vezes, o seu modo de cantar pareceu “difícil” e a sua poesia demasiado obscura, agora a música revela-se com a limpidez e o brilho de um diamante perfeitamente lapidado. Entre o som dos grilos numa noite de Verão, de “Night Ride Home”, e o tom sombrio e despojado de “Two Grey Rooms”, Joni Mitchell vai aos poucos desvelando o seu universo pessoal, através da poesia e de uma voz que, como em “Passion Play”, nos toca como o veludo sobre a pele.
Momentos trágicos, pontuados pelas explosões surdas dos timbalões orquestrais, em “Slouching towards Bethlehem” (baseado no poema “The second coming”, de W. B. Yeats). Momentos mágicos, vividos na Itália de Botticelli e Fellini, trazidos pelos ventos quentes do oboé que a própria Joni toca. Brilho cintilante ainda nas percussões de Alex Acuna, ao longo de todo o disco, e no saxofone de Wayne Shorter, em “Cherokee Lousie” e “Ray’s Dad Cadillac”. Depois do regresso, de novo a partida. ••••

11/09/2016

Um adeus feliz [Joni Mitchell]

Sons
29 Novembro 2002

um adeus feliz

Hippie, experimentalista, cantora de “standards”, voz tão profunda como a de Billie Holiday, despede-se com Travelogue. Um ciclo que se fecha ou será possível olhar-se a vida com mais de dois olhares?


JONI MITCHELL
Travelogue
2xCD Nonesuch, distri. Warner Music
8|10

“Come back Jonee”, gritavam no final da década de 70, com vozes de androide, os Devo. Vamos lá agora nós gritar a plenos pulmões: “Não te vás embora, Joni. Não abandones já a latrina. Tapa o nariz para não sentires o cheiro. Já viste os dois lados da moeda e fizeste-nos ver também”.
                “I’ve looked at life from both sides now. From win and lose, and still somehow, it’s life’s illusions I recall. I really don’t know life at all”. Quem escreve palavras como estas (de “Both sides now”, original de 1968 retomado no penúltimo álbum da cantora, com o mesmo título) não pode desaparecer assim sem mais nem menos. Seria trágico se tal acontecesse.
                Joni Mitchell é a mãe de quase todas as candidatas a divas que pululam atualmente no mercado discográfico. Foi ela quem lhes ensinou que as respirações e ornamentações vocais do jazz podem ser transpostos para a pop. Que a inteligência e pode e deve andar a par da intuição no universo do canto feminino. Cada canção dela é um “standard”. E “Both sides now” a mais “standardizada” de todas, tendo contabilizadas cerca de 300 versões, por artistas como Chet Atkins, Cilla Black, Clannad, Natalie Cole, Judy Collins, Bing Crosby, Doris Day, Ashley Hutchings, Stan Getz, Dizzy Gillespie, Go-Betweens, Benny Goodman, Hole, Hugh Masekela, Glenn Miller, Nana Mouskouri, Willie Nelson, Mary O’Hara, Pete Seeger, Frank Sinatra, entre muitos outros… E Maria João, na companhia de Mário Laginha, que a incluiu no alinhamento do novo álbum, “Undercovers”, e confessou de não ser capaz de susterás lágrimas ao ouvi-la.
                Da pop ao jazz, da folk à country, o seu reportório já passou pelas vozes e pela música de Keith Jarrett, Marianne Faithfull, Dave Stewart, Manfred Mann, Big Country, Mary Chapin Carpenter, Bob Dylan, The Albion Band, Richard Thompson, Paul Horn, Cyndi Lauper, Tori Amos, Diana Krall, Prince, Fairport Convention, Sergio Mendes & Brasil ’66, Tom Rush, Buffy St. Marie, Shawn Colvin, Colosseum, Cassandra Wilson, The Byrds, Petula Clark, Crosby, Stills & Nash, Bette Midler, James Taylor, Joshua Redman, Mathilde Santing, Thomas Dolby, Annie Lennox, Dave Douglas, Travis, Martha & The Muffins, Paul Desmond, Nazareth, Mary Black, His Name is Alive… A lista está longe de ser exaustiva. E continuará a aumentar nos tempos mais próximos.
                Medalha de mérito: Frank Zappa, que sempre soube lidar com as emanações letais da latrina, fez dela assunto de canção em “Billy the mountain”, no álbum “Just Another Band from L.A.”, de 971. Prince refere-a em “The Ballad of Dorothy Parker” (de “Sign o’ the times”, 1987) e Alanis Morissette em “Your House” (de “Jagged Little Pill”, de 1995). Impossível, portanto, ir-se embora agora, assim de repente.

                Quadros de uma exposição. Mas como Joni insiste na retirada, agarremo-nos com toda a força que temos a “Travelogue” (por falar nos Devo, os Human League têm um álbum com este nome…), o seu disco mais recente, um duplo álbum produzido de parceria com o marido, Larry Klein, que retoma canções antigas da sua discografia, em formato orquestral. “Love”, “Amelia”, “Woodstock”, “For the roses”, “The circle game”, “Hejira”, “Coyote”, de entre um alinhamento de 23, ressurgem em todo o seu esplendor, tornadas ainda mais clássicas, mais brilhantes, mais sentidas (em muitos casos, mais felizes), com o envolvimento orquestral da London Symphony Orchestra e as participações dos jazzmen Wayne Shorter e Herbie Hancock.
                A capa, como vem acontecendo desde “Turbulent Indigo”, serve de catálogo a algumas das suas pinturas, outras das áreas que domina de forma exemplar. O tom geral é o de uma sinfonia de sentimentos colhidos do passado como as flores de um jardim. Para não reavivar a dor, mas sem lhes retirar a cor. É um álbum mais luminoso e aberto que “Both Sides Now”, nas suas orquestrações efusivas mas que, curiosamente, em “The sire of sorrow” ou “For the roses”, evoca o “approach”, mais harpas e lantejoulas, de Mathilde Santing. Wayne Shorter diverte-se a valer, com o sax, e “Sex kills”, entre a licenciosidade da orquestra. Um adeus exuberante.
                Joni Mitchell afirma-se como a exceção a uma regra que faz da indústria opo uma selva de predadores.
                A cantora que deveria ter participado no primeiro festival de Woodstock mas não o fez por causa do trânsito ser intenso (estaria presente no da ilha de Wight, mas aí o equívoco entre a sua “performance” e a estupidez do público acabou em lágrimas e com a cantora a acusar a assistência de se comportar como uma horda de turistas…) esteve sempre à margem do “mainstream”. A “singer songwriter” com aparência de hippie de “Song to a Seagull” (1968), “Clouds” (1969), “Ladies of the Canyon” (disco de ouro, 1970), “Blue” (1971) e “For the Roses” (1972), a cantora de jazz de “Don Juan Reckless Daughter” (1977) e “Mingus” (1979), a esfinge de melodias glaciares de “Hejira” (1976), a experimentalista ousada que misturou eletrónica e ritmos africanos em “The Hissing of Summer Lawns” (1975), a veterana curiosa que nos anos 80 tentou (sem grande êxito, dizemos nós…) fazer “descer” a sua escrita à pop sintética, em “Wild Things Run Fast” (1982), “Dog Eat Dog” (1985) e “Chalk Mark in a Rainstorm” (1988), mas que finalmente se canonizou na catedral das grandes cantoras intemporais, na sequência, pintada a óleo da Renascença, formada por “Turbulent Indigo” (1994), “Taming the Tiger” (1998) e “Both Sides Now” (2000) é a “outsider”, a esteta, a incompreendida. A voz – uma voz que, compreendemo-lo ao sermos esmagados pela torrente de emoções, luzes e “torch songs” para a eternidade de “Both Sides Now”, desaguou em algumas das entoações e na mesma mágoa de Billie Holiday – que faz a diferença.
                Em 1970, após uma primeira retirada do “show business” para ter tempo de “procurar coisas novas”, Joni confessava: “Sentia-me isolada, como um pássaro fechado numa gaiola dourada, sem oportunidade para estar com as pessoas. O sucesso, por menor que seja, cerceia-nos em mais do que uma maneira” e “componho bastante de noite. Preciso de solidão para escrever. Antes era capaz de o fazer sob quaisquer condições, mas agora já não tenho de voltar para dentro de mim”. Trinta anos depois tudo volta a ser de novo posto em causa.
                Apenas uma coisa estava errada. Quando também afirmava que “não se pode cantar sempre as mesmas canções”. Afinal pode, como se pode comprovar por “Travelogue”. Com uma diferença: experimentam ouvir a versão de 1969 de “Both sides now” (no álbum “Ladies of the Canyon”) e a mesma canção, cantada em 2000, em “Both Sides Now”. A mesma mulher é outra mulher. E nós, que a acompanhámos, a mesma e outra pessoa. Crescemos. Estranha, dolorosa e humanamente aprendemos que o tempo apaga mas também engrandece. Só que os apaixonados nunca aprendem a lição. “Travelogue” prolonga o estado de graça de “Both Sides Now”. Alarga o quadro, permitindo ver a imagem de conjunto, quando antes cada pormenor era exposto numa sala diferente da galeria. “Agora já vi a vida dos dois lados. O lado de quem ganha e o lado de quem perde. E, ainda assim, são as ilusões da vida que recordo. Na verdade, não conheço a vida, de todo.
                “Travelogue” – a panorâmica geral.


“Travelogue” está disponível a partir de 2 de Dezembro, pela Warner

14/08/2016

Mensagens trazidas pelo vento [Songwriters no feminino]

Pop Rock
5 de Fevereiro 1992

MENSAGENS TRAZIDAS PELO VENTO

Vozes, vidas, tentações. De mulheres que no passado abriram caminho ao testemunho das gerações posteriores de “singer-songwriters”. Cada qual a seu modo, ajudaram a libertar o universo feminino do “ghetto” cultural em que se encontrava à entrada dos “sixties” e a dignificar o seu discurso. Algumas não desistiram. Volvidas três décadas, tudo parece de novo fazer sentido.


            JONI MITCHELL

            Não se pode dizer que tenha uma sensibilidade propriamente feminina. Pintora, compositora e letrista de mérito, na sua obra concentra-se uma visão por vezes elíptica que, se por um lado tem recolhido os louvores da crítica, por outro é de molde a manter à distância os apetites das massas consumidoras, pouco recetivas ao “living on nerves and feelings” que caracteriza a cantora. Bob Dylan, Fairport Convention, Judy Collins, Tom Rush, Nazareth (!), Gordon Lightfoot, Johnny Cash e Crosby, Stills & Nash gravaram canções suas. Começou na folk (“Clouds”, “Ladies of the Canyon” e “Blue”, os álbuns mais representativos), passando pelo jazz (“Hejira”, “Mingus”) e pelo experimentalismo eletrônico com incursões étnicas (“The Hissing of Summer Lawns”), para desembocar numa linguagem pessoalíssima, entre a ironia, o simbolismo e a auto-crítica. Dela se costuma dizer que possui uma voz “gelada” e um estilo vocal com um ritmo e métrica únicos, capazes das maiores ousadias formais. “Night Ride Home”, editado no ano passado, assinala a fase de amadurecimento do seu gênio, agora apto a comunicar com o gosto do grande público.

            CARLY SIMON

            Impressiona pelos lábios, grandes e carnudos, e pela pose “sexy” evidenciada nas capas dos discos. O que não quer dizer que não saiba cantar. “You’re so vain” granjeou-lhe a popularidade que um talento razoável e uma sábia escolha de ângulos fotográficos e anatómicos com que tem sabido gerir esse talento conseguem manter na “crista da onda”. Pelo menos enquanto o corpo der para tanto. Casou com James Taylor e marcou pontos em “hits” como “Nobody does it better” (acreditamos) e “Coming round again”, das bandas sonoras de um episódio de James Bond e de “Heartburn”, respetivamente. Contratou, para o elenco de um dos seus “clips”, o ator Jeremy Irons e um mecânico de automóveis. A equipa dos Brooklyn Dodgers elegeu-a como mascote. “Body and Soul” define de algum modo a sua maneira de ser e a maneira como se entrega à arte. Mais “body” do que “soul”, diga-se, em abono da verdade.

            CAROLE KING

            Nasceu em Brooklyn, mas nenhuma equipa local a elegeu como mascote. Isto de misturar música e deporto tem que se lhe diga. A idade também não ajuda. Carole vai nos 50, idade em que é de bom tom privilegiar o lado mais artístico da coisa. Do seu currículo de “cantora-compositora” idónea constam façanhas como ter servido de musa inspiradora a Neil Sedaka, ainda nos anos 50, em “Oh Carole” (a musa gravaria pouco depois a resposta, em “Oh Neil”), três casamentos e um “hit” meteorológico oferecido à sua ”baby sitter” Little Eva, “It might as well rain until September”. Bandas que os nossos pais recordam com saudade, como os Drifters, Chiffons e Herman’s Hermits copiaram-lhe com alguma frequência o estilo. Foi só em 1970 que Carole King passou a andar nas bocas do mundo (ao contrário de Carly Simon, que se presume tenha andado por outras partes), graças a “Tapestry” e à célebre canção “It’s too late”, com 14 milhões de exemplares vendidos. Como Joni Mitchell, Carole King faz parte do lote de artistas pioneiros que, nascidos em plena era da Tin Pan Alley e com publicações na “Brill Building”, acrescentaram o estatuto de “intérprete” ao de “compositores”.

            LAURA NYRO

            No auge da sua criatividade deu pouco nas vistas, talvez porque na sua música houvesse algo de excessivo que atemorizava o auditor. Álbuns como “New York Tendaberry”, “Christmas and the Beads of Sweat” e “Gonna Take a Miracle” são autênticos mergulhos no inferno e demonstrações de um estilo vocal entre o intimismo desesperado e gritos de agonia que lhe valeram, pelo menos, o apreço dos incondicionais de Janis Joplin. Retirou-se da música para se dedicar à pesca, numa aldeia de Massachusetts. Quando regressou, já não era a mesma. Dos tormentos de antanho sobravam réstias de uma síntese inusitada de “jazz”, “soul” e “variedades”, perdida no deserto redutor das patetices “middle of the road”.

            SANDY DENNY

            Uma hemorragia cerebral provocada pela queda de uma escada pôs um fim precoce àquela que foi uma das grandes vozes, se não mesmo a maior, do movimento a que se convencionou chamar “folk revival”, em Inglaterra na passagem da década de 60 para a seguinte. Simon Nicol, guitarrista dos Fairport Convention, banda à qual o nome de Denny ficará para sempre ligado, quando a ouviu pela primeira vez em audição, comparou-a a um “copo lavado entre um lavatório de louça suja”. “What we Did on our Holidays”, “Unhalfbricking” e o lendário “Liege and Lief” constituem testemunhos comoventes do seu génio. Antes, Sandy Denny ajudara a lançar a banda rival Strawbs, de Dave Cousins. “Who knows where the time goes?”, perguntava nessa altura. Ninguém sabia. Com os Fotheringay, ao lado de Ashley Hutchings e Trevor Lucas, seu futuro marido, gravou o álbum homónimo por muitos considerado um marco do folk-rock britânico. A solo, “The North Star Grassman and the Ravens”, “Sandy”, “Like and Old Fashioned Waltz” e o registo ao vivo “Rendez-vous” reforçam a imagem de uma sensibilidade inquieta capaz de transformar em gema cintilante cada balada a que a sua voz dava corpo, fosse um tradicional inglês ou um “standard” de jazz. Passados três anos sobre o regresso, em 1975, aos Fairport Convention, com “Rising for the Moon”, a tragédia resolveu dar-lhe ouvidos e abrir-lhe as portas do céu.


Nota: este texto complementa o artigo de Luís Maio “Feminino plural”

08/09/2014

A arte do be-pop [Rickie Lee Jones]



Y 26|JANEIRO|2001
música|rickie lee jones

classicismo é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de classe

Rickie Lee Jones – “génio”, “louca” ou “sublime”? Um pouco de tudo, como se poderá comprovar na primeira atuação ao vivo da cantora em Portugal, para apresentar “It’s like This”, coleção de standards candidata a um Grammy.

a arte do be-pop

É pegar ou largar. A voz de Rickie Lee Jones, ou se odeia ou se ama. Em todo o caso, não seria uma má ideia ela pôr umas gotas de Nazex para desentupir o nariz (será que só grava no Inverno, ao ar livre e de manga curta?). Já lhe chamaram “Tom Waits no feminino”, “génio”, “louca”, “irresponsável” e “sublime”. Tem um pouco de tudo isso, como se verá na sua primeira apresentação ao vivo em Portugal, agendada para o último dia deste mês (quarta-feira), às 22h, na Aula Magna da Universidade de Lisboa.
            O seu mais recente álbum, intitulado “It’s like this”, é uma coletânea de “standards” de autores como Gershwin, Brecker Brothers, Beatles, Traffic, Marvin Gaye e Bernstein/Stephen Sondheim, que poderá ser considerada a continuação do clássico trabalho com o mesmo formato editado pela cantora há dez anos, “Pop Pop”.
            Para já, o novo disco é candidato a um Grammy, na categoria “pop vocal tradicional”, repetindo o que já acontecera em 1979 com o disco de estreia, “Rickie Lee Jones”, que viria a arrecadas o prémio de “Best New Artist”, e em 1989, quando conquistou, de parceria com Dr. John, outro troféu, pela interpretação jazz de “Makin’ whoopie”.
            Rickie Lee Jones começou a escrever canções aos sete anos mas a sua primeira profissão, em 1976 e 1977, foi a de empregada doméstica, em Los Angeles, onde conheceu Chuck E. Weiss e Tom Waits, cujo círculo começou a frequentar e com quem chegou a ter um início de romance. No ano seguinte, foi a vez de Lowel George, dos Little Feat, a descobrir, gravando com ela o tema “Easy money” ao mesmo tempo que convenceu a editora Warner Brothers a investir no seu talento.
            Mas Rickie era uma força da natureza e adaptava-se mal às convenções. Depois de ter fugido de casa e ser expulsa da escola, por insubordinação, exigiu da editora que o produtor do primeiro disco fosse Lenny Waronker, um dos nomes mais importantes da companhia.
            O álbum saiu em 1979 e um dos temas, “Chuck E’s in love”, chegou aos lugares cimeiros do top americano, com um milhão de cópias vendidas, um Grammy no bolso e digressões esgotadas. Parecia aberto o caminho para o sucesso, mas Rickie Lee Jones era perita em desviar-se e enveredar por caminhos pouco iluminados. Desviou-se para não mais voltar a encontrar o êxito desse primeiro disco, mas em contrapartida a sua música ganhou o estatuto de culto e um núcleo de adeptos ferrenhos.
            “Pirates”, de 1981, vendeu metade do disco de estreia. Rickie fugiu uma vez mais. Desta vez mudando-se para Nova Iorque e, logo de seguida, para Paris.
            As versões de clássicos aparecem em força pela primeira vez no mini-álbum “Girl at her Volcano”, de 1983, onde a classe das suas interpretações se impunha.

            Cabeça de fantasma. Regressou a Los Angeles e a Hollywood para gravar “The Magazine” (1984), onde a sua voz inconfundível se rodeava de sintetizadores e de uma aura futurista que voltaria mais tarde a entrar em funcionamento, de forma bem mais escura, em “Ghostyhead”.
            Depois de nova fase de turbulência da sua vida privada, com casamento, nascimento de uma filha e a morte do pai, Rickie mudou uma vez mais de casa – indo viver para o campo, em França – e de editora, assinando para a Geffen o álbum “Flying Cowboys” (1990), com um novo produtor, Walter Becker, dos Steely Dan, pondo fim a um interregno de seis anos afastada dos estúdios, excetuando o single “The moon is made of gold” e o encontro com os The Blue Nile, na Escócia.
            O seu talento interpretativo explodiria em pleno em 1991, no álbum “Pop Pop”, um trabalho imaculado saído dos sonhos de uma criança magoada, apaixonada pela canção clássica e pelo be-bop. O ciclo Geffen fechar-se-ia com “Traffic from Paradise” (1993); o regresso à Warner teria lugar dois anos depois, com “Naked Songs”, revisitação acústica de alguns dos seus temas mais antigos.
            “Ghostyhead”, de 1997, marcaria outro dos seus momentos de transgressão. Álbum difícil e mal aceite por alguns, de sonoridades carregadas, explora a eletrónica industrial e o lado mais sombrio de uma personalidade sempre inquieta, permanecendo até à data como um dos seus trabalhos mais estimulantes.
            Por fim, nova mudança de editora – passagem para a Artemis –, e o regresso a um dos formatos que lhe é querido, o dos “standards”, com o novo “It’s like this” (com os convidados Joe Jackson e Taj Mahal) a fazer de novo incidir os holofotes na vertente da interpretação. Numa altura em que se tornou “trendy” fazer álbuns de versões (recorde-se que outros dois concorrentes ao Grammy de melhor “pop vocal tradicional”, Joni Mitchell, com “Both Sides Now”, e Bryan Ferry, com “As Time Goes by”, competem igualmente com álbuns de standards) não deixa de haver ironia no facto de Rickie Lee Jones ver associado o seu talento à “tradição”, quando é sabido que ela fez sempre questão de fintar as convenções.
            Mas no final do mês se demonstrará que “classicismo” é, em Rickie Lee Jones, sinónimo de “classe”


TOP 10 de álbuns de “covers”

“It’s Like This” insere-se na tradição de álbuns de “covers”. Aqui ficam alguns mais representativos.

JEAN-LUC PONTY
King Kong Blue Note, 1970
“Virtuose” do violino eletrificado, ginasta do jazz de fusão, herdeiro de Grappelli, Ponty deu novo rosto instrumental ao papa dos Mothers of Invention, reinventando o humor de “Idiot bastard son” e “Twenty small guitars”, ou alinhando em cumplicidade com o mestre, em “Music for Electric Violin and low budget orchestra”.

DAVID BOWIE
Pinups EMI, 1973
O camaleão ainda arranjou tempo para vestir a pelo dos seus heróis, travestindo “See Emily play”, de Syd Barrett, “I can’t explain”, de Townshend ou “Where have all the good times gone”, de Ray Davies.

THE RESIDENTS
George and James Ralph, 1984
Os amantes da soul, se pudessem, davam-lhes um tiro. Os da música clássica, enforcavam-nos. Os “criminosos” são os Residents, e o crime foi o massacre de James Brown e Gershwin, no primeiro volume de uma série dedicada a compositores americanos deste século.

MARIANNE FAITHFULL
Strange Weather Island, 1987
Resultou do encontro mágico entre a produção de Hal Willner e uma voz do fundo da noite. Tom Waits e Bob Dylan sangrados. E os extremos de uma ressurreição sempre incompleta, entre a ferida de “As tears go by” e o despojamento sem esperança de “Boulevard of broken dreams”.

STEVE BERESFORD
L’Extraordinaire Jardin de Charles Trenet Nato, 1988
Do jazzman e lunático Steve Beresford tudo se espera. Mas foi na editora-anedota Chabada que o inglês soltou o humor nonsense e o amor pelas variedades, em particular a “chanson française”, num disco sorridente que levou ao colo as canções de Trenet.

PASCAL COMELADE
El Primitivismo Les Disques du Soleil et de l’Acier, 1988
Tudo o que toca fica em cacos. E é ao juntar os pedaços com a cola da memória que a música se transforma num brinquedo. Aqui remonta alguns dos seus preferidos: Stones, Wyatt, Nino Rota e Chuck Berry.

MARY COUGHLAN
Uncertain Pleasures Eastwest, 1990
Uma das mais sensuais vozes da atualidade, a irlandesa Mary Coughlan desfiou álbuns de “covers”, qual deles o mais brilhante. “Uncertain Pleasures” distingue-se pela arrebatadora versão de “Heartbreak hotel”, de Presley, subindo ao cume em “The little death”, dos Boomtown Rats, feito standard de jazz.

MATHILDE SANTING
Carried Away Solid, 1991
Todd Rundgren, Roddy Frame e os Doors contam-se entre os autores de “Carried Away”, veículo para a voz desta holandesa cultivar a arte da elegância. Com a meticulosidade de colecionadora e o apuro da designer.

URBAN TURBAN
Urban Turban Resource, 1994
Para os suecos Urban Turban, dar lustro a uma canção é esfregá-la com o desregramento. Sarcasmo, rock & rol e sanfonas, numa variante das barbaridades folk dos compatriotas Hedningarna. “Voodoo chile”, de Hendrix, e “Let’s work together”, dos Canned Heat, caíram que nem ginjas nas mãos dos iconoclastas.

JONI MITCHELL
Both Sides now Reprise, 2000
Uma das damas da pop deste século, na sua primeira incursão no universo das “covers”. Canções sobre o amor, numa paleta interpretativa que vai do recolhimento à orquestração majestosa das emoções. “Standards” na sua aceção mais nobre, de modelos a seguir.



07/12/2011

Cinco estrelas [Joni Mitchell]

12 de Maio 2000

Cinco Estrelas

33 anos de carreira, 20 álbuns de originais, ao longo dos quais a cantora e compositora canadiana tem escrito e reescrito a sua própria história. Um universo pessoal, tão musical como pictórico, sem paralelo na enciclopédia dos grandes singers-songwriters norte-americanos. Desta longa viagem confessional retirámos cinco momentos que são outros tantos álbuns de retratos. Uma escolha assumidamente subjectiva, não consensual, que exclui a fase mais recente da cantora, presente em álbuns como “Turbulent Indigo” ou “Taming the Tiger”, sem dúvida excepcionais. Apenas porque a intenção foi, acima de tudo, chamar a atenção para o barro e para as estrelas de um passado sem o qual nunca se teria iluminado o firmamento de clássicos que Joni Mitchell, no seu mais recente capítulo de uma história de amor interminável, entroniza em “Both Sides Now”.

“Blue” (1971)

“Sentia-me isolada, como uma ave presa na gaiola. Já não conseguia relacionar-me com as pessoas. Uma certa dose de sucesso pode acabar com uma pessoa, de várias maneiras.” Esta dose de sucesso tinha sido granjeada ao longo dos três álbuns precedentes e “Blue” é a resposta aos que queriam ver nela apenas a “hippie” que assinou o hino “Woodstock”. Com “Blue”, Joni Mitchell demarca-se do seu passado recente, abandonando os concertos ao vivo para se auto-analisar num retiro interior do qual resultou este álbum, onde é possível descortinar os claros-escuros de um poço emocional e criativo sem fundo. É ainda a autora que, a propósito deste seu trabalho, afirmou: “Neste período da minha vida não tinha quaisquer defesas, por isso dificilmente se encontrará nas letras ou na voz o mínimo sinal que não corresponda a uma sinceridade absoluta.”

“For the Roses” (1972)

Apesar da ausência voluntária dos palcos, “For the Roses” entra, num ápice, para as listas de vendas dos EUA, feito para o qual muito contribuiu o impacte do single “You turn me on, I’m a radio”, o primeiro “hit” da cantora que chegou a ter alguma divulgação em Portugal. Embora muitos prefiram o tom mais extrovertido do álbum seguinte, “Court & Spark”, é em “For the Roses” que a relação entre a voz e o piano de Joni Mitchell – nalguns casos e pela primeira vez, pontuados por uma orquestra – se tornam cúmplices de mil e uma solidões repartidas. Um crítico do “New York Times” apontava então para ela como uma “cantora e compositora de génio que fazia com que não nos sentíssemos sozinhos”, enquanto ela própria, na canção “Woman of heart and mind”, canta: “Pensas que sou como a tua mãe, ou outra das tuas amantes, ou a tua irmã, ou a rainha dos teus sonhos, ou apenas outra rapariga tonta, quando o amor faz de mim o que quer.”

“The Hissing of Summer Lawns” (1975)

Há quem não morra de amores por este álbum, embora tivesse sido, uma vez mais, um sucesso de vendas. Ao contrário de todas as obras anteriores, autoconfessionais, “The Hissing of Summer Lawns” aponta o bisturi para o exterior, fazendo a dissecação de alguns dos vícios da sociedade americana. É, em simultâneo, em termos musicais, o álbum mais experimental da compositora, carregado de uma electrónica densa que atinge o esplendor em “The jungle line”. Manhattan transformada numa selva tropical, cimento e lianas, atravessada por jibóias e batuques rituais. E o jazz começava a despontar.

“Hejira” (1976)

O oposto do álbum anterior. Se “The Hissing of Summer lawns” era calor e humidade, “Hehjira” é branco e frio, com o desenho rigoroso de uma patinadora no gelo. Conta Joni Mitchell que a maioria das canções foi composta em viagens de automóvel. O título significa “uma viagem empreendida com a finalidade de escapar a um ambiente hostil ou indesejável”. Por vezes algo hermético, de um apuro formal levado à perfeição, “Hehjira” é um exercício de jazz ambiental, cuja arquitectura depende em grande parte do baixo de Jaco Pastorius, da bateria de John Guerin e do vibrafone de Victor Feldman. Neil Young, um velho amigo, toca harmónica como convidado. “Coyote” e “Amelia” são as canções que fogem um pouco a esta paisagem imaginada por uma esteta.

“Mingus” (1979)

Depois da participação, em 1978, no filme de Scorsese, “A Última Valsa”, Charles Mingus, um dos maiores contrabaixistas e compositores da história do jazz, já na fase terminal da sua doença, contactou-a, manifestando-lhe o desejo de trabalharem juntos numa adaptação musical de “Four Quartets”, de T. S. Eliot. Ele escreveria a música, ela editaria os textos. Joni Mitchell declinou a oferta, com a justificação de que seria mais fácil fazer uma síntese da Bíblia. Mingus insistiu, compondo seis composições para a voz da cantora. Acabaram por ser utilizadas apenas quatro, incluindo o “standard” “Goodbye pork pie hat”. Completam o alinhamento de “Mingus” dois originais da cantora e cinco designados rap, que não são mais do que curtíssimos excertos de monólogos de Mingus, um “Parabéns a você” e conversas e sons de circunstância captados durante o funeral do músico. Mingus morreu a 5 de Janeiro de 1979, mas “Mingus”, o álbum, ficou como uma tocante homenagem a esse músico visionário. Contribuíram para a gravação, além de Guerin e Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine e Don Alias.

30/10/2011

Joni Mitchell - Both Sides Now

24 de Março 2000
POP ROCK

Joni Mitchell
Both Sides Now (8/10)
Reprise, distri. Warner Music


Uma só palavra é suficiente para definir toda a obra da cantora canadiana Joni Mitchell: Classe. “Both Sides Now” (título de uma velha canção de Judy Collins) utiliza como tema as várias fases de uma relação amorosa “moderna” desde o “flirt” inicial ao auge da paixão e o consequente esfriamento e possível separação. Curiosa a ênfase posta no adjectivo “moderna” já que para ilustrar as diversas etapas do jogo amoroso a cantora se socorreu de versões orquestrais de “standards”, sobretudo dos anos 20, 30, 40 e 50 que, paradoxalmente, remetem para os velhos filmes de Hollywood de uma América ainda inocente. Assim clássicos como “You’re my thrill”, “At last”, “Comes love”, “Answer me, my love”, “Don’t go to strangers”, “Sometimes I’m happy”, “Don’t worry ‘bout me”, “I wish I was in love again” e o mítico “Stormy weather” desfilam sob néons numa rua chuvosa onde se adivinham mil e um enredos de sedução. No tema de abertura de “Both Sides Now”, o registo vocal de Joni Mitchell remete de imediato para Billie Holiday no que poderá ser encarado como uma homenagem a esta cantora cuja vida ficou marcada por múltiplos dramas amorosos. Dois dos temas, “A case of you” e o título que dá nome ao álbum levam a assinatura da própria Mitchell, o mesmo acontecendo, como vem sendo hábito nos seus últimos trabalhos, com as pinturas que decoram a capa. Participam em “Both Sides Now”, Wayne Shorter (saxofones), Herbie Hancock (piano), Mark Isham (trompete), Peter Erskine (bateria) e Chuck Berghof (baixo).

22/03/2010

Joni Mitchell - Taming The Tiger

Sons

9 de Outubro 1998
DISCOS – POP ROCK

Fera amansada

Joni Mitchell
Taming the Tiger (7)
Reprise, distri. Warner Music


Autobiográfico ao ponto do delírio, “Taming the Tiger” retoma o convívio de Joni Mitchell com a indústria musical que ela diz detestar. Como sempre, o ponto de partida é a vida que surge como ponto de partida para a composição, mas a vida encarada como “história”, ou seja, ficção. Só assim se compreende que a canadiana que recentemente integrou digressões com Bob Dylan e Leonard Cohen junte na sua escrita a figura da mãe asfixiante (“Face lift”) ou os remorsos por ter posto na rua o seu gato “Man from Mars” depois de este começar a “agir como um animal” e a urinar por toda a casa (“Man from Mars”), passando apenas ao de leve, em “Stay in touch”, pelo reatamento de relações com a sua filha Kilauren, após 35 anos de separação.
Mas “Taming the Tiger” é também o espaço de abertura à “inspiração divina” e de experimentação com um novo modelo de guitarra electrónica que lhe permitiu abrir o leque de sonoridades, aproximando-se de um disco como “Wild Things Run Fast”, por sinal dos mais fracos e comerciais da sua discografia, com a diferença de que, neste seu novo trabalho, Joni Mitchell “domesticou o tigre”, ou seja, a indústria, recusando, em definitivo, qualquer tipo de facilidade, para se dedicar em exclusivo ao inventário das suas experiências pessoais.
Repartindo a sua intervenção pela já citada guitarra, pelos teclados e, ocasionalmente, pelas percussões, dispensando em muitos casos o tradicional acompanhamento de baixo e bateria, Joni Mitchell aposta num som em suspensão que depende dos tapetes de sintetizador e do fraseado, mais afirmativo, do saxofone de Wayne Shorter. As dúvidas instalam-se no modo como toda a lógica pessoal de Joni Mitchell dependeu sempre de um conjunto de regras que começam e acabam no carácter único das vocalizações e que, em última análise, se fecharam sobre si próprias. “Taming the Tiger” afirma-se, deste modo, “apenas” como mais um bom disco da compositora, valor seguro mas incapaz de provocar surpresa ou inquietação. Excelente continua a ser a sua evolução como pintora, revelada na série de quadros reproduzidos na capa, na sequência do que já acontecera com o anterior “Turbulent Indigo”.

18/10/2008

Joni Mitchell - Shadows And Light

Pop Rock

13 FEVEREIRO 1991
VÍDEOS

JONI MITCHELL
Shadows and Light
Warner Home Vídeo

Sombras e luz. Cegueira e visão. A imagens iniciais mostram James Dean em frente a uma televisão. Imagens extraídas de “Fúria de Viver” de Nicholas Ray. “Todos os quadros têm sombras e alguma fonte de luz.” Joni Mitchell, recorde-se, desenha e pinta, para além de cantar. Sugere-se um universo pictórico que afinal nunca se chega, neste vídeo, a concretizar.
Filmado e gravado em 1980, “Shadows and Light” centra-se numa actuação ao vivo da cantora canadiana, aqui acompanhada por uma formação de luxo constituída por Pat Metheny (guitarra), Jaco Pastorius (entretanto falecido, baixo), Michael Brecker (saxofone), Don Alias (bateria) e Lyle Mays (teclados).
Ao prazer musical proporcionado pela excelência dos intérpretes e ao reencontro com as palavras que Joni Mitchell, como poucas, tão bem sabe manejar, pouco mais há a acrescentar. Em termos visuais, aparece um coiote a correr desalmadamente pela neve, durante a interpretação de “Coyote”, do álbum “Hejira”. É muito pouco para uma obra (também) visual, da parte de uma mulher perita em mover-se no universo das imagens. Poderá encontrar-se justificação na tentativa de concentrar todas as atenções na música, mas para isso já existem os discos. Resta então apreciar o rosto luminoso e, nessa época, os caracóis da autora de obras fundamentais como “The Hissing of Summer Lawns”, “Don Juan’s Reckless Daughter” e “Mingus”, ilustrativas da fase mais jazzística, seguindo uma linguagem que viria a revelar-se ideal para as sinuosidades e diversidade de registos característicos de uma voz e estilo inconfundíveis. Procure-se aí a luz e sombras a que o título alude. ***

15/10/2008

Joni Mitchell - Night Ride Home

Pop Rock

27 MARÇO 1991
LP’S

REGRESSO A CASA

JONI MITCHELL

Night ride home
LP / MC / CD, Geffen, distri. BMG

Um caso de classe e distinção.
Não fora o lamentável equívoco de “Dog Eat Dog” (acesso tardio de comercialite aguda) e seria caso para se dizer que Joni Mitchell nunca erra. Com “Night Ride Home” não só não erra como acerta em cheio no alvo. Digamos que a cantora canadiana consegue aqui conciliar a extrema simplicidade dos arranjos com as típicas sinuosidades de um estilo vocal e composicional muito próprio, sem perder de vista uma acessibilidade que não envolve qualquer tipo de concessões.
Longe vão os tempos do jazz, de “Mingus” e “Don Juan’s Reckless Brother”, ou os labirintos estruturais de “The Hissing of Summer Lawns”. De regresso à serenidade e ao tom acústico da fase inicial, aquela que culmina em “For the Roses”, ou, já num período de transição, em “Court and Spark”. “Night Ride Home” flui com a facilidade das águas de um rio antigo, até ocupar o lugar exacto num universo pacientemente construído, a que se acede sem pressas nem escusadas violências. Joni Mitchell nunca foi, de resto, mulher de perder a cabeça. Mas, se, na aparência, se pode falar em termos de “regresso”, “Night Ride Home” representa, além de tudo o mais, a maturidade e a depuração de um estilo.
Se, por vezes, o seu modo de cantar pareceu “difícil” e a sua poesia demasiado obscura, agora a música revela-se com a limpidez e o brilho de um diamante perfeitamente lapidado. Entre o som dos grilos numa noite de Verão, de “Night Ride Home”, e o tom sombrio e despojado de “Two Grey Rooms”, Joni Mitchell vai aos poucos desvelando o seu universo pessoal, através da poesia e de uma voz que, como em “Passion Play”, nos toca como o veludo sobre a pele.
Momentos trágicos, pontuados pelas explosões surdas dos timbalões orquestrais, em “Slouching towards Bethlehem” (baseado no poema “The second coming”, de W. B. Yeats). Momentos mágicos, vividos na Itália de Botticelli e Fellini, trazidos pelos ventos quentes do oboé que a própria Joni toca. Brilho cintilante ainda nas percussões de Alex Acuna, ao longo de todo o disco, e no saxofone de Wayne Shorter, em “Cherokee Louise” e “Ray’s Dad Cadillac”. Depois do regresso, de novo a partida. ••••