17/12/2014
Yesss! [Yes]
29/03/2010
Hector Zazou - Lights In The Dark + Jon Anderson - The Promise Ring
6 de Novembro 1998
DISCOS – POP ROCK
“Lights in the Dark” e “The Promise Ring” têm em comum ocuparem-se da música céltica e serem ambos perfeitamente dispensáveis. Já o escrevemos antes: o “celtic revival” – que nos últimos anos se tem expandido por objectos intragáveis onde os termos “fusão” e “new age” juntam esforços naquilo que têm de pior, a plastificação e normalização de um certo imaginário de pseudomisticismo – está a dar uma imagem degradada e cada vez mais dependente das regras de mercado da genuína tradição do périplo celta.
Hector Zazou é um caso perdido sendo difícil reconhecer no autor de “Lights in the Dark” o mesmo músico que fez parte dos ZNR ou que assinou obras da categoria de “Noir et Blanc” (com Boni Bikaye), “Reivax au Bongo”, “Géographies” e “Géologies”. “Lights in the Dark” pretende dar uma visão plena de solenidade da música religiosa da Irlanda do período de transição do paganismo para o cristianismo, introduzido na ilha por São Patrício. Mas ou os vitrais estavam foscos ou o estúdio mal iluminado. Não há luz que consiga romper as trevas de um disco amorfo que dá da religiosidade dos antigos celtas a imagem de um hipermercado de santinhos e santinhas.
Como sempre, Zazou convidou uma lista imensa de convidados de luxo – Mark Isham, Kristen Nogues, Thierry Robin, Carlos Nuñez, Peter Gabriel, Jacques Pellen, Brendan Perry (Dead Can Dance), Caroline Lavelle, Ryuichi Sakamoto, Minna Raskinen e Didier Malherbe... –, o que não impede que “Lights in the Dark” seja uma espécie de sombra negra de “Vox de Nube”, de Noirín Ni Riain a quem, de resto, o francês de ascendência argelina agradece pela recolha de material e pela sua “espiritualidade céltica”. Não chega colar harpas, por Katie McMahon e Kristen Nogues, e coros celestiais, pelas vozes de Breda Mayock e Lasairfhiona Ní Chomaola (Loreena, Enya, são tantos os anjos e tantos os céus de néon...), aos computadores para beijar os calcanhares da divindade.
Jon Anderson chegou, também tarde, a um “pub” irlandês, o Frog’n Peach, em San Luis Obispo, onde afirma ter ouvido a melhor música que alguma vez lhe chegou aos ouvidos. Com ascendência irlandesa e escocesa, o antigo vocalista dos Yes jurou gravar com os músicos que nessa noite deram mais vida às suas libações, e assim fez. Os cerca de 30 músicos da Froggin’ Peach Orchestra, sem serem grandes músicos, dão vitalidade e autenticidade a “The Promise Ring”, uma “session” carregada de optimismo, através da qual Jon Anderson faz passar a sua mensagem habitual de boas-vindas ao novo mundo que está mesmo aí a romper. Simpático, mas inconsequente.
Hector Zazou
Lights in the Dark (5)
Detour, distri. Warner Music
Jon Anderson
The Promise Ring (5)
Omtown, distri. EMI - VC
12/06/2009
Jon Anderson - Earthmotherearth
28 de Novembro 1997
DISCOS – POP ROCK
Jon Anderson
Earthmotherearth (7)
Ellipsis Arts..., distri. Megamúsica
“Chega sempre um tempo em que se pode fazer o que se quer. Esse tempo chegou para mim. Cantar com a Natureza e ouvir a Natureza cantar comigo é, em si mesmo, uma verdadeira realização do meu amor pela vida e pela música.” Estas palavras, assinadas por Jon Anderson na contracapa deste seu primeiro trabalho para a Ellipsis Arts..., editora até aqui vocacionada para a “world music”, resumem toda a atitude perante a vida que nunca deixou de estar presente ao longo da carreira do antigo vocalista dos Yes. “Earthmotherearth” é um disco que fará sorrir algumas pessoas. Porque vivemos em tempos em que o amor se tornou coisa ridícula. E este é um disco de amor. Um acto de amor com a Natureza. Jon Anderson canta aqui com os pássaros que vêm comer à sua porta. Canta com o vento. Toca uma harpa que se confunde com as folhas e as vibrações de uma árvore. Grava a voz do seu filho a brincar com um gato e os miados do gato. Jon Anderson encontrou a serenidade, a forma da luz. As nervuras da folha presas a um pequeno coração que aparecem desenhadas na capa protectora do disco (em papel reciclado) simbolizam uma vida, a sua vida. Trata-se de um álbum gravado em casa, inteiramente acústico, depurado ao máximo, apenas voz, guitarra, percussões, harpa e os sons da Natureza, os sons da Vida, passados directamente para o computador. É preciso não esquecer que também sentimos. É preciso sentir o que Jon Anderson nos pretende dizer quando nos transmite a sua felicidade, no comovente tema de abertura, “Time has come”: “Toda a gente está a olhar, toda a gente pode ver, toda a gente está à espera de ser livre. O tempo chegou, tempo para nos prepararmos, tempo para o amor.” Sorriam...
12/05/2009
Fantasmas no ar [Reedições]
10 de Outubro 1997
REEDIÇÕES
Fantasmas no ar
Os coleccionadores da discografia progressiva dos anos 70 continuam a não ter mãos a medir, mesmo levando em conta que os mais ferrenhos não desistem de procurar furiosamente as edições originais em vinilo, tarefa por vezes difícil e bastante dispendiosa. Alheias a este tipo de purismo, as editoras continuam a retirar dos respectivos fundos de catálogo algumas referências que, à época da primeira edição, passaram praticamente despercebidas. Algumas destas novas reedições em compacto procuram revalorizar o produto de origem, quer através de uma apresentação e embalagem mais apelativas e contendo informação adicional, quer através da remasterização das fitas originais, de modo a melhorar significativamente as “performances” sonoras.
Os Curved Air viram, por fim, passar para o formato digital a sua obra-prima de 1972, “Phantasmagoria”. Com uma reprodução condigna da capa – uma deliciosa figura inspirada no imaginário de Lewis Carroll – e a inserção, no livrete, das letras de todas as canções. Em termos de informação, é tudo. Mas a qualidade e originalidade da música supera qualquer deficiência noutros aspectos. “Phantasmagoria” é o ponto culminante e, em simultâneo, o limite de uma música que nunca parou de evoluir nos três primeiros álbuns, começando por “Airconditioning”, mais rock e imediatista, com passagem pela delicadeza sombria de “Second Album”. Em “Phantasmagoria” há, sobretudo, uma colecção de canções perfeitas que aliavam o pendor classicista do violinista Darryl Way (“Marie Antoinette”, “Cheetah” ou a aceleração electrónica de “Ultra-Vivaldi”, prolongamento do tema “Vivaldi”, incluído em “Airconditioning”) com o experimentalismo do teclista Francios Monkman (explorado de forma magnífica no instrumental “Whose shoulder are you looking over anyway?”, um dos primeiros temas gravados por um grupo pop a utilizar um computador). Mas o que verdadeiramente projectava a identidade dos Curved Air eram as vocalizações de Sonja Kristina, cujas inclinações variavam entre dois extremos, da visceralidade de uma Grace Slick à suavidade das cantoras folk. Uma voz que tanto era capaz de demonstrar a intensidade dramática de “Marie Antoinette”, o tropicalismo de “Once a ghost, always a ghost” e o encantamento mágico de “Melinda (more or less)”, como de segredar, com a maior candura, os prazeres da masturbação feminina. Um clássico. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 10)
Os Yes foram um dos pilares da música progressiva, odiados por uns e amados por outros. No centro do conflito esteve sempre a voz andrógina de Jon Anderson, para alguns insuportável mas para outros a incarnação do canto dos anjos. “Olias of Sunhillow”, anteriormente apenas disponível em CD em edição japonesa (que incluía uma miniaturização do autêntico livro de gravuras que era a capa da edição inglesa original, na Atlantic), é o primeiro álbum a solo do cantor e, sem sombra de dúvida, o seu melhor. Em termos formais, é um conceptual – a história da ruína e salvação de um povo estelar, salvo por um profeta que os conduz pelo espaço-tempo até outro planeta – onde Jon Anderson tocava todos os instrumentos, incluindo a harpa, que aprendeu para o efeito, e os sintetizadores. A música oscila entre estranhas invocações vocais e sequências electrónicas que antecipavam as posteriores colaborações do cantor com Vangelis. É um álbum completamente à margem da grandiloquência dos Yes, no qual Jon Anderson explanou da melhor forma a sua veia mística. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 8).
Hesitantes entre a grandiloquência, o jazz-rock, o progressivo e o comercialismo, estiveram sempre os Greenslade, projecto de dois ex-Colosseum, o teclista Dave Greenslade e o baixista Tony Reeves (que viria a integrar a formação derradeira dos Curved Air...). “Bedside Manners are Extra” apresenta progressos em relação ao álbum de estreia, na forma como equilibra boas canções pop com instrumentais entre o jaz-rock e o “rock sinfónico” (gulp!), que servia para mostrar as capacidades virtuosísticas de todos os elementos do grupo. Um aviso: a gravação não é famosa. (Warner Bros., import. Planeta Rock, 7)
Poucos deviam conhecer, em 1970, a música dos Titus Groan, no único álbum gravado por esta simpática banda na sua curta carreira, aqui aumentado por três temas extra, incluindo os lados A e B de um “single”. Os Titus Groan faziam parte de um pacote de bandas progressivas lançadas pela editora Dawn, que incluía os Comus, Heron e Demon Fuzz, com quem realizaram digressões conjuntas. “Titus Groan” é um álbum que raramente consegue ser mais do que uma sequência de clichés do progressivo de segunda linha, tendo, porém, a seu favor a diversidade das canções, que vão da pop quase comercial ao puro psicadelismo e às muito curiosas divagações do saxofonista do grupo, cujas intervenções levavam a música para áreas invariavelmente mais criativas e tonalmente interessantes. (See for Miles, import. Torpedo, 6).
Referência ainda para a edição da totalidade da obra gravada por duas bandas folk-rock com estilos e “pedigree” diferentes. Os Tudor Lodge, um dos primeiros grupos a assinar pela Vertigo (a capa de “Tudor Lodge”, multidesdobrável, era um desperdício de cartão...), eram tipicamente progressivos, usando a “folk” como mero pretexto para alinharem a sua visão sonhadora, criada pela voz de rosas de Ann Stewart, e as guitarras acústicas de John Stannard e Lyndon Green com esporádicas inclusões de outros instrumentos e arranjos para naipes de corda e metais. A arrumar ao lado dos Magna Carta, Trader Horne e Mellow Candle. (Si Wan, import. Torpedo, 7).
Os Mr. Fox, pelo contrário, nasceram nos clubes “folk” ingleses, mas as concepções que sobre esta tipologia musical tinha o seu líder, Bob Pegg, eram de molde a marginalizar o grupo, mas capazes de agradar aos apreciadores de música progressiva e do folk-rock electrificado. A presente reedição reproduz a edição dupla em vinilo, “The Complete Mr. Fox”, lançada pela Transatlantic, que acoplava os dois únicos álbuns gravados pelos Mr. Fox, “Mr. Fox” e “The Gipsy” (um dos temas deste álbum, “Mendle”, foi retirado desta reedição por falta de espaço). O primeiro, mais declaradamente folk, continha originais harmonizações vocais de Bob com a sua então mulher Carolanne Pegg (também violinista, de parcos recursos, mas possuidora de indesmentível carisma) e uma concepção sinistra (ouça-se o título-tema, para se perceber como são os papões da “folk”) da rítmica “morris” e da “folk” inglesa em geral. “The Gipsy” é uma obra com outras ambições que integrava uma instrumentação mais vasta e eléctrica (incluindo a participação de dois antigos elementos dos Trees), cujo auge é atingido na “suite” “The Gipsy”, dividida em vários movimentos que contam a história e a viagem de um homem que persegue até ao desgosto final a sua apaixonada cigana. Trata-se de uma obra imprescindível do “folk-rock”, nas suas franjas mais obscuras. (See for Miles, import. Torpedo, 8)
25/11/2008
Jon Anderson - Angels Embrace
17 de Abril de 1996
poprock
Jon Anderson
Angels Embrace
HIGHER OCTAVE MUSIC, DISTRI. STRAUSS
Era fatal como o destino, o antigo vocalista dos Yes caiu como mosca na sopa numa editora de “new age”. Na verdade, Jon Anderson nunca foi verdadeiramente um “rocker” e, com Vangelis a ajudar na transição, pode agora dar livre curso à sua costela de misticismo ecológico. Uma capa com céu e nuvens em dourado e inscrições do tipo “viagem espiritual através do poder curativo da música” embrulham uma música onde o cantor tenta fazer passar intacta por uma ponte de 22 anos a magia do seu álbum de estreia, “Olias of Sunhillow”. “Angels Embrace” é “Olias” numa perspectiva “new age”, sete temas interligados por passarinhos e sinos nos intervalos, onde a voz se reduz a coros angelicais (em dois deles com a ajuda do filho e da mulher), num álbum predominantemente instrumental, em que as harpas e os sintetizadores se anelam num nevoeiro de onde nunca chega a nascer o desejado. Falta a Jon Anderson, numa área já ocupada por nomes da ala mais melosa da Hearts of Space, como Constance Demby e Raphael, o abstraccionismo e poder de análise de um Brian Eno, cujas concepções de música funcional postas em prática em “Music for Airports” impregnam a evolução ambiental dos 14 minutos de “New fire land”. Pode ser interessante, quiçá uma experiência transcendental, observar com olhar vago e coração suspirante a passagem das nuvens, na expectativa de um instante de iluminação. Eno garante que sim. Será até possível “aceder àquele lugar de visão e claridade onde o ritmo da vida se move em harmonia com uma consciência mais elevada”, de que nos fala a editora. Mas será mesmo necessário idealizar a “nova idade” como o Parque Eduardo VII numa tarde de domingo? (5)
11/11/2008
Jon Anderson - Change We Must
2 de Novembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK
Jon Anderson
Change We Must
EMI, distri. EMI-VC
“Na beleza natural que nos envolve parece existir um sentido perdido da maravilha como todos nós nos ajustamos. As árvores, as flores, os pássaros, os animais, os insectos: precisamos todos uns dos outros nesta vida”, diz, a propósito do seu novo disco, Jon Anderson. Precisamos, de facto. O que já é mais duvidoso é que precisemos dum álbum como este. São as preocupações de sempre do ex-vocalista dos Yes que, nesta sua mais recente aventura a solo, resolveu acompanhar temas antigos e modernos com o sinfonismo da London Chamber Orchestra, dirigida por Christopher Warren-Green. Inspirado no livro homónimo de Nana Weary, uma “professora espiritual havaiana”, sobre a indissociabilidade do homem e da natureza, “Change We Must”, para além de não considerar os pássaros e os insectos animais, considera igualmente que a importância do tema justifica por si só a pomposidade dos arranjos. Erro crasso. Apesar de a quantidade de meios utilizados ser incomparavelmente maior, “Change We Must”, gravado num “retiro de silêncio” na ilha de Kawaii, perde na comparação com o anterior e menos ambicioso “Deseo”. Nestes assuntos de flores, árvores e insectos a simplicidade de processos é aconselhável. Jon Anderson confunde a beleza com a sumptuosidade. Quanto ao silêncio, há demasiado ruído de interferência para que seja possível percebê-lo… Acontece então que temas conhecidos como “State of Independence” e outros da dupla Anderson/Vangelis perdem em relação aos originais, não se percebendo além disso muito bem o que é que faz uma composição do minimalista John Adams, “Shaker Loops”, no meio de tanta verdura. Quem não o conhecesse até julgaria que Adams é algum guru macrobiótico da “new age”. “Change We Must”, não há dúvida. E Jon Anderson devia ser o primeiro a dar o exemplo. (5)
03/10/2008
Jon & Vangelis - Page Of Life + Steve Howe - Turbulence
2 OUTUBRO 1991
Jon & Vangelis
Page of Life **
LP/CD/MC, Arista, distri. BMG
Steve Howe
Turbulence ***
LP/CD/MC, Relativity, distri. Sony Music
Quarto álbum da dupla, após “Short Stories”, “The Friends of Mr. Cairo” e “Private Collection”, “Page of Life” não difere em nada dos seus antecessores, sendo mais uma apologia da “nova idade” que teima em não chegar. Para o vocalista dos Yes não há mal no mundo que não se cure com uns exercícios de ioga ou num “om” entoado com convicção. Tudo se resume a levitar um pouco ou a cantar as virtudes da sabedoria e da alimentação macrobiótica. A mensagem essencial diz que o mundo pode ser um lugar maravilhoso. Depende da maneira de olhar. Vangelis acena a tudo que sim, produzindo os sons celestiais do costume, enquanto vai pensando na encomenda para um próximo filme. É bonito. Agradável de se ouvir. Dispõe bem. Uma das mil e uma maneiras de cantar o céu.
Com Steve Howe a história é outra. Apostado em demonstrar que as suas qualidades de guitarrista de mantêm intactas, após mais de duas décadas fiel aos Yes, dá tudo por tudo num álbum que recupera a energia e a complexidade de arranjos de “Tales from Topographic Oceans” e “Relayer”. Como se tudo começasse de novo, à descoberta do que poderiam ser os Yes, despojados da pureza e da visão do vocalista.