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29/01/2020

Hey Jimi! [Jimi Hendrix]


Y 30|JANEIRO|2004
música|reedições


Hey Jimi!

Uma caixa de 10 singles, outra com um concerto em Londres exaustivamente documentado, mais um DVD de um espetáculo em Berkeley – os colecionadores esfregam as mãos.

Astérix, Obélix, Abraracourcix, Hendrix. Irredutíveis guerreiros. O último, Hendrix, impressionou particularmente, graças aos seus feitos como músico. Jimi Hendrix, rocker e guitarrista de Seattle, morto aos 28 anos, foi um guerreiro da luz. Ao desaparecer, levou consigo as estrelas e as explosões flamejantes da sua Fender Stratocaster. Preparava aquele que seria o seu quarto álbum de estúdio, “First Ray of the New Rising Sun”. Mas a nova aurora nunca chegou a nascer.
            A partir dessa data, 18 de Setembro de 1970, nunca mais parou a especulação em torno do seu nome. Como já acontecera, aliás, em vida. Sucederam-se as histórias, inventaram-se pormenores, fizeram-se prognósticos sobre o futuro hipotético, sobre o estilo musical que iria marcar as etapas seguintes. Segundo uns, Hendrix preparava-se para ser um músico de jazz (faz sentido). Dispusera-se a aprofundar as suas raízes “blues” (faz sentido), garantiam outros. Manteria a mesma direção (faz sentido) dos três anteriores álbuns (“Are you Experienced?”, “Axis: Bold as Love”, “Electric Ladyland”), afiançava outra fação.
            Provavelmente Hendrix faria como sempre fez, fecharia os olhos e seguiria para onde a guitarra lhe mandasse. E, também provavelmente, foi isso mesmo que aconteceu e foi a guitarra que lhe ordenou a morte. Ela já estava presente na música, enquanto celebração impossível de uma transcendência que ao simples mortal é vedada, pela via que Hendrix escolheu – a via da mão esquerda (ele que era esquerdino) e do poder.
            Em conformidade, correu-se a esgravatar na vida e nos arquivos de estúdio, onde o guitarrista deixara quilómetros e quilómetros de fita gravada, bem como nos registos ao vivo de concertos. Editaram-se dezenas de álbuns póstumos – dos quais o mais importante será “The Cry of Love” –, antologias e “bootlegs”, sem qualquer espécie de controle ou, no mínimo, de respeito pela sua memória. Até ao dia (em 1995) em que a família, através do pai, Al Hendrix, e da meia-irmã, Janie, comprou os direitos legais da obra e meteu mãos à obra de pôr ordem na casa e um ponto final à especulação e ao caos editorial.
            Para tal, criaram o selo Experience Hendrix, chamaram os engenheiros de som John McDermott e Eddie Kramer (responsável pelas gravações originais do guitarrista) para tomar conta das remasterizações dos três álbuns gravados em vida por Hendrix, lançados no mercado em 1997, e até uma quantidade razoável de gravações de interesse apenas para os colecionadores, organizadas e comercializadas através de outro selo criado pela família, a Dagger Records, com autorização legal para editar “bootlegs” do artista.

            experiências. No entanto, o fluxo editorial está longe de poder ser considerado estancado. Três novos “objetos” com a marca Hendrix surgem agora quase em simultâneo no mercado português: “The Singles Collection”, “The Last Experience” e “Jimi Plays Berkeley”.
            “The Singles Collection” é uma caixa com 10 singles remasterizados e embalados em capas de cartão a imitar os originais. “The Last Experience” junta em três CDs o concerto da Jimi Hendrix Experience no Royal Albert Hall, de Londres, a 24 de Fevereiro de 1969, editado pela primeira vez na sua totalidade, uma vez que a anterior reedição apenas apresentava a versão usada originalmente como banda sonora do filme “Experience”. Por fim, “Jimi Plays Berkeley” é um DVD do duplo concerto no Berkeley Community Theatre, realizado a 30 de Maio de 1970.
            A caixa de “singles” vale pelo objeto em si, uma vez que não se compreende a específica seleção de “singles”. Não estão todos. Mas os que estão oferecem, além da curiosidade da embalagem, um som excecional, resultado da remasterização de Eddie Kramer (os mais puristas torcerão o nariz, em nome da autenticidade, mas…). São eles: “Hey Joe”/”Stone free”, “Purple haze”/”51st anniversary”, “The wind cries Mary”/”Highway chile”, “Burning of the midnight lamo”/ “The stars that play with laughing Sam’s dice”, “Foxy lady”/ “Manic depression”, “Crosstown traffi c”/ “Gypsy eyes”, “Voodoo chile”/ “Hey Joe”/ “Watchtower”, “Stepping stone”/ “Isabella”, “Dolly Dagger”/ “Night bird flying” e o disco de Natal com o “medley”, “Little drummer boy – Silent night – Auld lang syne”/ “Three little bears”. Todos temas que já constavam de anteriores edições. Podem ser ouvidos agora em separado. Como brinquedos eventualmente perigosos…
            Imagens de agitação estudantil na cidade justapostas à música de Hendrix fazem parte do material que preenche o DVD “Jimi Plays Berkeley” dos concertos de Berkeley, originalmente editados num documentário vencedor do 1º prémio do Festival de Cinema de Amsterdão. As imagens originais foram transferidas digitalmente para o novo formato e a banda sonora remisturada em stereo e 5.1 “audio surround” por Eddie Kramer. As “special feautures” apresentam ainda, apenas em formato áudio, a totalidade do segundo concerto, também misturado em som “surround”. Temas como “Hey baby (new rising sun)”, “Lover man”, “Stone free”, “Machine gun”, “Foxy lady”, “Purple haze” e “Voodoo child (slight return)” são aqui executados pela Jimi Hendrix Experience, então formada pelo baterista Mitch Mitchell e o baixista Billy Cox que, entretanto, substituíra Noel Redding, do trio original.
            Por fim, a “última experiência” respeita pela primeira vez, além da totalidade do concerto, também o alinhamento original do espetáculo no Royal Albert Hall, iniciado, logo após a afinação da guitarra (faixa 1), com “Lover man”, uma versão de “Rock me baby”, de B. B. King. O primeiro CD inclui versões longas de “Stone free”, “Red house”, bem como “Foxy lady” e “Sunshine of your love”, dos Cream. No segundo estão, entre outros, “Little wing”, “Voodoo Chile (slight return)”, “Room full of mirrors”, “Purple haze” e “Star-spangled banner”, o hino americano interpretado com as notas do Apocalipse no final do festival de Woodstock, em 1969, que ficou imortalizada nas imagens do documentário de 1970 de Michael Wadleigh. Os últimos sons, colados no final, de Hendrix a destruir o amplificador com a guitarra, figuram com título “Smashing of the amps”, como se fosse uma verdadeira canção. Pensando bem, poderia ser…
            Há ainda duas versões editadas (“Bleeding heart” e “Room full of mirrors”) e uma sequência de “soundchecks” de interesse duvidoso que começam no segundo compacto e se estendem pela totalidade do terceiro. Os colecionadores agradecem. Os simples melómanos ou admiradores de Hendrix, duvida-se que gastem o “laser” do leitor de CD a reproduzir os ensaios, experiências de som e outras operações técnicas ou de aquecimento para o concerto propriamente dito.
            Há, acima de tudo, um Hendrix em combustão, em solos demolidores (“I don’t live today” diz tudo em poucos minutos). Nas suas mãos a Stratocaster era um vulcão, uma espada, um circuito eletrónico complexo, um tanque de guerra, uma mulher, loucura. Mas também lágrimas e devoção aos “blues” (“Red house”). “Foxy lady” prova, por outro lado, que a sua guitarra era, mais do que um instrumento musical, uma nave espacial. Foi a bordo dela que Jimi Hendrix partiu para o espaço.

JIMI HENDRIX
The Singles Collection
10xCD single, Experience Hendrix, distri. Universal
8|10

The Last Experience
Charly. distri. Música Activa
7|10

11/09/2016

Jimi Hendrix - Cornerstones, 1967-1970

Pop Rock
27 de Fevereiro 1991
REEDIÇÕES

LENDA VIVA

JIMI HENDRIX
Cornerstones, 1967-1970
LP, MC e CD, Polydor, Ed. Polygram


Hendrix parece que continua a fazer falta. Não cessam as reedições ou a descoberta de mais uma “take” abandonada na poeira de uma gaveta. “Cornerstones” limita-se a repescar da fase mais criativa do músico os temas que fizeram história: “Hey Joe”, “Purple Haze”, “All along the Watchtower”, “Voodoo Chile (Slight Return)”, “Star Spangled Banner” ou “Room full of Mirrors”. Quem não tiver os álbuns originais não tem razões de queixa – a presente coletânea é de facto um “best of” dos temas-chave do genial guitarrista.
Para quem não sabe, eis a história de cada um: “Hey Joe” foi gravado em 1966 pela Jimi Hendrix Experience da qual faziam parte o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell. Dias antes de entrarem no estúdio tinham feito a primeira parte de um espetáculo de Johnny Hallyday. O tema chegou ao quarto lugar nos tops da época. Outro clássico do mesmo período, “Purple Haze” evidencia experimentações eletrónicas a que não é alheio o dedo de Roger Mayer, perito na matéria. “The Wind Cries Mary” foi o que restou de uma “jam session” de vinte minutos durante as sessões de “Purple Haze”. Bem trabalhado, deu para chegar ao nº 6 dos tops. “Foxy Lady” (do álbum “Are You Experienced?”) completa o grupo de canções da primeira fase.
“Crosstown Traffic” tem a particularidade de Hendrix tocar piano e Dave Mason, dos Traffic, participar nos apoios vocais. Em “All along the Watchtower” (um original de Bob Dylan), o mesmo Dave Manson toca guitarra acústica e Jimi ocupa-se do baixo. Outro dos grandes clássicos de Hendrix é “Voodoo Chile” (do duplo “Electric Ladyland”), editado em single após a morte do músico e única das suas canções que alcançou o primeiro lugar nas listas de vendas. Conta a lenda que depois de ter escutado o “playback” de “Have You ever Been (to Electric Ladyland)”, Jimi Hendrix terá gritado: “Sei cantar! Sei cantar!”
De “Star Spangled Banner” permanece na memória a imagem desolada de Hendrix à deriva entre os destroços do festival de Wight e o som convulsivo da guitarra, prenunciando o apocalipse próximo. Quando “Steppingstone” foi gravado, já Billy Cox tinha substituído Mitch Mitchell na bateria. O tema aparece no álbum póstumo “War Heroes”. Em “Room full of Mirrors” (já com a Band of Gypsies), o músico toca “slide-guitar” com um anel. Steve Winwood e Chris Wood (mais dois Traffic) dão uma ajuda em “Ezy Ryder”. Buddy Miles toca bateria. Completam a coletânea “Freedom”, “Drifting”, “In from the Storm” e “Angel”, representativos da fase derradeira (1970), todos incluídos no póstumo “Cry of Love”.
Hendrix morreu mas a lenda continua bem viva, no fogo de outras cordas de guitarra. Jimi Hendrix – dos blues, do rock, da soul, do funk, do jazz, do psicadelismo, das baladas – tinha uma alma demasiado grande e demasiado sôfrega que queria beber toda a música do universo. Basta escutá-lo para se perceber que o conseguiu. ****

03/03/2016

Jimi Hendrix - Axis: Bold As Love

Y 3|MAIO|2002
roteiro|discos

JIMI HENDRIX
Axis: Bold as Love
MCA, distri. Universal
9|10

A maioria dos leitores já deve ter ouvido falar em Jimi Hendrix. Sim, tocava guitarra como um demente. Sim, não se sabe se foi a droga ou o génio que deu cabo dele. Sim, muitos têm procurado imitá-lo ou tentado decifrar os segredos da sua paixão suicida pela Fender Stratocaster. Se voltamos a falar de “Axis: Bold as Love”, gravado em 1967 pela Jimi Hendrix Experience, é porque, além do definitivo testemunho da combustão hendrixiana que continua a ser, esta nova reedição remasterizada torna agora também o CD um objeto para colecionadores. É mais uma miniatura japonesa, em cartão, com a capa reproduzida na íntegra, fiel ao formato original. Lá dentro, o mesmo fogo. Hendrix foi o OVNI que aterrou, “Up from the skies”, nos anos 60. O “bluesman” do além.

02/09/2014

A experiência Hendrix [Jimi Hendrix]



Y 22|DEZEMBRO|2000
escolhas|televisão

Não era o menino de coro que a sua agente quer fazer crer nem o diabo que se envolvia nas chamas da sua guitarra. Era um músico-visionário que viveu na quinta dimensão e nos mostrou do lado de cá como era do lado de lá.

A experiência Hendrix

Sobre a música de Jimi Hendrix (Jimmy hendrix, para os incultos…) já se disse e escreveu tudo ou quase tudo. “Quase” porque do seu baú – sem fundo, como o de Fernando Pessoa – continuam a sair “originais” às dezenas, com uma regularidade alarmante, o que impede que se ponha a lápide criativa definitiva sobre o seu génio. Ainda agora acabou de ser editada uma caixa – mais uma – composta por quatro CDs contendo nada mais nada menos do que 56 “novos” temas do guitarrista dos guitarristas que mais não são do que versões alternativas, gravações ao vivo e demais curiosidades que, por alguma razão, foram deixadas de fora na altura pelo seu autor.
            Seja como for, os colecionadores agradecem, Janie Handrix, meia-irmã do músico e atual responsável por todos os negócios envolvendo o material deixado pelo seu falecido mano, agradece e até, porque não, mesmo aqueles que escrevem “Jimmy Hendrix” agradecem.
            Mas, dizia-se, sobre a música de Jimmy Hendrix já se disse e escreveu tudo ou quase tudo. Resumindo, digamos que os três álbuns que Hendrix gravou em trio sob a designação de The Jimi Hendrix Experience, ao lado de Noel Redding, no baixo, e Mitch Mitchell, na bateria – “Are you Experienced?” (1967), “Axis: Bold as Love” (1967) e “Electric Ladyland” (1969) – puseram em estado de sítio o rock dos anos 60 e levantaram a fasquia da técnica de execução na guitarra elétrica (Hendrix usava um modelo de Fender Stratocaster facilmente inflamável, o que facilitava enormemente as proezas pirotécnicas com que costumava iluminar as suas atuações ao vivo…) a uma altura a partir daí apenas transponível pelos saltadores de vara.

            Deus pagão. É, porém, sobre a sua vida, que trata o documentário a exibir amanhã, no canal Arte, com o título “Hey Joe – A Vida Breve e Atormentada de Jimi Hendrix”. Christopher Olgiati realizou-o no ano passado e é bem provável que, ao longo dos seus cerca de 60 minutos, se fique a saber mais sobre a vida do guitarrista do que em anos a fio de conversa da treta.
            O documentário tem a virtude de dar uma imagem o mais afastada possível dos clichés que normalmente acompanham as biografias do músico que, já agora, para quem não saiba, nasceu com o nome de Johnny Allen Hendrix (a seguir seria Jimmy James) a 27 de Novembro de 1942, em Seattle, nos Estados Unidos, e faleceu como Jimi Hendrix a 18 de Setembro de 1970, em Londres. Aos 27 anos, portanto, vítima de tudo. Não há imagens de guitarras em chamas nem da mítica interpretação de “Star spangled banner” a fechar o festival de Woodstock, em 1969.
            “Hey Joe” não condescende. Ao contrário das afirmações da sua meia-irmã e agente comercial póstuma, que não se cansa de apregoar que o seu atual ganha-pão não se drogava nem sequer se permitia fumar um cigarrinho de vez em quando, o documentário não foge, por assim dizer, com o rabo à seringa, à semelhança, aliás, do próprio músico, utilizador assíduo da dita… Até porque, neste como em outros casos (Joplin, Morrison…) são inseparáveis uma vida de excessos e uma música de excessos.
            Assim, por uma vez, não foi consultada a senhora, sendo convidada para falar gente bastante mais avalizada para o fazer. Por exemplo, Linda Keith, amiga de Keith Richards, dos Stones, que apresentou o então adolescente Jimmy James ao baixista dos The Animals, Chas Chandler, que viria a ser o seu futuro agente e produtor; Eric Burdon, líder e vocalista dos mesmos The Animals, amigo do ácido e de quem se diz ter em sua posse uma nota de suicídio deixada por Hendrix; Noel Redding, Kathy Etchingham, a primeira namorada londrina, Gerry Stickells, road-manager, Juma Sultan, percussionista acompanhante do guitarrista em Woodstock, Chris Stamp, irmão do ator Terence Stamp.
            Além das entrevistas e depoimentos, “Hey Joe” utiliza ainda material dos arquivos pessoais de Noel Redding, mostra o encontro de Hendrix com o rocker francês Johnny Hallyday e imagens do derradeiro e caótico concerto do guitarrista, realizado na Alemanha 12 dias antes da sua morte.
            De Jimi Hendrix ficará para sempre a imagem do tímido que se transformava em deus pagão cada vez que pegava na guitarra. A sua vida e a sua música foram, afinal, e no limite, o que o seu grupo anunciou desde o início: uma experiência.

26/11/2010

Droga, loucura, morte

Sons

19 de Março 1999

Droga, loucura, morte

Toda a gente sabe que a principal causa de mortalidade entre a população rock é a droga. Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Sid Vicious e uma quantidade de outras estrelas rock (Tim Buckley, Gram Parsons, Tommy Bolin, Andy Gibb, Billy Mercia, dos New York Dolls, Paul Gardiner, dos Tubeway Army...) morreram devido à mesma praga, a droga. Bastaria esta realidade para desencorajar os mais novos de alguma vez pegarem numa guitarra eléctrica ou numa bateria. Porque o rock é o caminho mais curto para a droga e, de onde se depreende, para a morte. O rock, como a droga, mata. Mentes mesquinhas garantem que, sem a droga, músicos como os acima citados jamais teriam feito a música (quiçá, perniciosa) que fizeram. Não fora assim e sabe-se lá se não teríamos hoje elementos produtivos, úteis à sociedade, excelentes empregados de escritório ou agentes de seguros, talvez mesmo advogados de sucesso.
Mas não é só a droga a mãe de todos os males. Outras causas existiram que levaram desta para melhor nomes mais ou menos gloriosos da história do rock. Desastres de viação (Alan Barton, dos Smokie, Marc Bolan e Steve Curry, ambos dos T. Rex, Clarence White, dos Byrds, Harry Chapin, Eddie Cochran, Jerry Edmonton e Rushton Morebe, dos Steppenwolf, os rockers Johnny Kidd e Dickie Valentine; inclusive de bicicleta, como no caso de Nico) e de avião (Buddy Holly e Ritchie Valens, ambos no mesmo voo, Patsy Cline, Jim Reeves, Otis Redding, Jim Croce, Ronnie van Zant e Steve Gaines, dos Lynyrd Skynyrd, Paul Jeffreys, dos Cockney Rebel, Rick Nelson, John Denver...), overdose, queda de escadas (Sandy Denny), consumo desenfreado de substâncias ilícitas, enforcamento (nada mais nada menos do que cinco – Ian Curtis, Peter Ham, dos Badfinger, Phil Ochs, Michael Hutchence, dos INXS e Richard Manuel, dos The Band), ingestão desmesurada de psicotrópicos, hipnóticos, ácidos, antipiréticos e afins, enfim toda uma série de acidentes trágicos que puseram fim a tantas e tão promissoras carreiras.
Quanto ao álcool, pode gabar-se de ter acabado com as vidas de Bon Scott (dos AC/DC), John Bonham (Led Zeppelin), Brian Jones (Rolling Stones), Clyde McPhatter (Drifters), David Byron (Uriah Heep), Gene Vincent e Keith Moon (The Who). Uma anorexia nervosa levou Karen Carpenter, dos Carpenters. A sida fez o mesmo a Freddie Mercury, dos Queen. Frank Zappa e Bob Marley não resistiram ao cancro. De Divine pode afirmar-se que comeu demais.
Há mortes mais estúpidas do que outras. John Lennon, baleado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, é um exemplo deste tipo de estupidez letal. Al Jackson (dos Booker T and the MGs), Peter Tosh, um dos heróis da soul music, Sam Cooke e Marvin Gaye foram igualmente atingidos por tiros. Os dois primeiros, por gatunos. Cooke, por uma mulher que perseguia um pretenso violador. Gaye sucumbiu a um tiro disparado pelo seu próprio pai. Michael Mensom, dos Double Trouble, foi atacado por um “gang” de adolescentes que o regaram com gasolina e lhe pegaram fogo. Vivian Stanshall, do grupo cómico Bonzo Dog Doo Dah Band, e Steve Marriott, dos Small Faces, morreram em incêndios nas respectivas casas. Keith Relf, guitarrista dos Yardbirds, caiu electrocutado. Johnny Ace, um obscuro baladeiro norte-americano dos anos 50, perdeu a vida numa jogada infeliz de roleta russa. Graham Bond, músico inglês de jazz e blues dos anos 70, foi atropelado pelo metropolitano. O rocker Johnny Burnette morreu num acidente de pesca.
Mas há o reverso da medalha. Morrer cedo, para um músico, significa a sua mitificação, nalguns casos a santidade. Na condição, bem entendido, de a circunstância ser devidamente acompanhada por uma apropriada campanha promocional e pelo apoio dos “media”. Morrer é, nesta profissão, o caminho mais curto para o sucesso. Para a indústria a morte possui ainda o atractivo adicional de diminuir vitaliciamente as despesas com o artista e de garantir muitos e bons ganhos a longo prazo, graças à sábia administração de todo o material gravado que se conseguir sacar do caixote do lixo e guardar em arquivo para poder dedicar-se ao lançamento de futuras reedições com “material inédito” do falecido, constituído por demos, versões alternativas, ensaios, conversas de cama e outros rasgos de génio antes incompreensivelmente escondidos do público.
Claro que as vítimas sabem o que fazem e no que se metem. Acontece que muitas não aguentam. Ian Curtis, por exemplo, ou Kurt Cobain (cujo quinto aniversário da morte, em Abril próximo, está já a ser devidamente preparado) não aguentaram a suprema dor de estar vivo, as pressões do “show business” e os fracassos pessoais. No seu caso a aura de “românticos” assenta-lhes bem. Como, de resto, a todos os suicidas: Nick Drake, Peter Ham e Tom Evans, dos Badfinger, Terry Kath, dos Chicago, Marge Ganser, das Shangri-Las, Del Shannon, Paul Williams, dos Temptations, Richard Manuel, dos The Band e Phil Ochs.
A outros, porém, a morte apanhou-os de surpresa, sem aviso prévio. Esses não tiveram tempo de preparar o testamento, vítimas que foram da estupidez do destino. Talvez por isso, como no caso de Sandy Denny, que morreu ao cair de uma escada, a entrada na galeria dos mitos demorasse mais e necessitasse de requerimento, ficando em primeiro lugar para a eternidade a música, no lugar dos episódios, mais ou menos agitados e escandalosos, da vida de “star”.
Seja qual for, porém, a circunstância da morte, ficará para sempre a dúvida do que poderia ter sido a vida e obra dos que se foram antes de tempo. O que seriam hoje, se fossem vivos, Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison? Conseguiriam eles sobreviver ao seu próprio passado ou, pelo contrário, teriam feito as pazes com a existência, aproveitando as suas benesses? Seriam ainda génios malditos ou estariam a jogar golfe com Alice Cooper e Phil Collins, a fazer duetos com Pavarotti ou a compor bandas sonoras para filmes de Walt Disney? Ninguém sabe. Ficaram a música e as lendas. Sobretudo a música, como única verdade absoluta capaz de sobreviver ao seu criador. E, paradoxalmente, à aura, tantas vezes mistificadora, criada em torno dela pela morte, essa entidade assustadora que chegará inevitavelmente para nos confrontar com o nada. E com o que sobrevive para além dele. Para os registos de necrofilia ficam as fichas de algumas das mortes mais bem documentadas. Fichas secas. Como a morte.


“Too old to rock’n’roll, too young to die”
(título de um álbum dos Jethro Tull)


Hank Williams (1923-1952)

Sofrendo de uma dor crónica nas costas, Hank procura alívio no consumo sistemático de analgésicos, tornando-se rapidamente viciado. Começa a falhar concertos, chegando aos recintos atrasado e bêbedo. No último dia do ano de 1952 a estrela da country sente-se mal durante uma viagem de carro e é transportado para um hotel de Knoxville, no Tennessee, onde chega já inconsciente. É chamado um médico que lhe ministra uma injecção com uma mistura de morfina e vitamina B. No dia seguinte, Williams é transportado, ainda inconsciente, de novo de automóvel, para o Ohio, numa viagem atribulada. Um polícia de trânsito obriga o condutor a parar por excesso de velocidade e pergunta, com ironia, se o músico está ou não vivo. Williams é conduzido finalmente a um hospital, na Virgínia, onde é declarado morto.


Buddy Holly (1936-1959) e
Ritchie Valens (1941-1959)

Dia 3 de Fevereiro de 1959. A meio de uma digressão, a “Winter Dance Party Tour”, Buddy Holly decide animar o estado de espírito da sua banda e recusa viajar num desconfortável autocarro. Aluga um voo “charter” num pequeno aparelho Beechcraft Bonanza que o deveria levar de Clear Lake, Iowa, a Moorhead, no Minnesota. Com ele seguem Richie Havens (que ganhara esse direito no jogo da moeda ao ar com o guitarrista do grupo. Tommy Alsup, e o disc-jockey Big Bopper, autor de “Chantilly lace” (que consegue o lugar por troca com Waylon Jennings). O avião descola às duas da madrugada no meio de uma tempestade de neve e cai pouco tempo depois, embatendo contra um muro e matando todos os que seguiam a bordo. O acidente serviu de inspiração ao “hit” de 1972 de Don McLean, “American pie”.


Jimi Hendrix (1942-1970)

Jimi Hendrix era um génio da guitarra. Com ou sem a ajuda da heroína, a sua Fender Stratocaster falava, gritava, explodia e incendiava-se num dos discursos virtuosísticos mais inovadores de sempre deste instrumento. Uma acumulação de excessos que se estendia à sua vida privada. Passa o dia 17 de Setembro com a sua namorada, Monika Dannemann. No dia seguinte, de manhã, ingere alguns comprimidos para dormir e, algum tempo depois, Monika repara que ele se está a sentir mal. Tenta acordá-lo. Em vão. No hospital diagnosticam uma mistura mortal de álcool e barbitúricos.


Janis Joplin (1943-1970)

Os Kozmic blues da cantora que engolia garrafas inteiras de whisky nos concertos deixam de se ouvir a 4 de Outubro. Janis é encontrada morta num quarto do Landmark Hotel, em Hollywood, com marcas recentes de agulha no braço. “Overdose” de heroína. Tinha agendado a gravação das partes cantadas de “Buried alive in the blues”, “enterrada viva nos blues”. Anos antes proferira a seguinte frase, quando da morte do presidente Eisenhower, impedindo, deste modo, a publicação de uma foto sua na capa da “Newsweek”: “Depois de resistir a 14 ataques de coração, tinha logo de morrer na minha semana. Na MINHA semana!”


Jim Morrison (1943-1971)

Circunstâncias da morte: o mistério e a dúvida ainda hoje permanecem cerrados em torno da morte do carismático cantor dos Doors. Há mesmo quem afirme que ele continua vivo, retirado da vida pública, e que a sua “morte” não passaria de um embuste destinado a camuflar o seu desaparecimento. No dia 5 de Julho o empresário dos Doors, Bill Siddons, chega a casa de Jim, em Paris, onde o músico se tinha exilado, e encontra a Pamela, a sua namorada da altura, já com o caixão selado e uma certidão de óbito assinada por um médico francês. Causa da morte: ataque de coração motivado por “overdose” de heroína. O túmulo no cemitério de Père Lachaise, onde Jim Morrison se encontra enterrado (ou não se encontra, de acordo com a teoria dos que afirmam que ele está vivo...) tornou-se, ao longo dos anos, num lugar de culto.


Marvin Gaye (1939-1974)

Problemas de impostos, conflitos com a editora, a mulher que o engana com Teddy Pendergrass e o consumo desregrado de cocaína provocam em Marvin, autor de “What’s going on” e “Sexual healing”, uma paranóia crescente que o leva a desconfiar de toda a gente e a amontoar armas em casa. Na manhã de 1 de Abril de 1984, o pai, alcoólico, força a entrada em casa do músico, que o considera um intruso. A mãe de Marvin separa os dois mas Marvin Gaye sénior volta à carga e dispara um primeiro tiro de revólver que atinge o filho no peito. Volta a disparar já com ele caído no chão.


Nick Drake (1948-1974)

“Não consigo pensar em quaisquer palavras. Não sinto emoções sobre coisa nenhuma. Não quero rir nem chorar. Sinto-me dormente. Morto por dentro.” São declarações de Nick Drake, confrontado com uma eterna depressão e a dificuldade em arranjar letras para o seu álbum de estreia, “Five Leaves Left”. Na manhã de 25 de Novembro de 1974 o poço engoliu-o de vez. A mãe, Molly Drake, dirige-se ao quarto de Nick para o acordar. Tarde de mais. Nick sucumbira a uma dose exagerada de sedativos. No gira-discos ainda rolava um dos concertos brandeburgueses de Bach. À cabeceira descansavam as páginas de “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus.


Tim Buckley (1947-1975)

O autor das fantasmagorias “Happy Sad” e “Starsailor” corria velozmente atrás da noite. Encontra-a na noite de 29 de Junho. Tim dirige-se, meio ébrio, a casa de um “amigo”, Richard Keeling, à procura de heroína. Richard, apanhado prestes a drogar-se, reage com alguma agressividade e prepara-lhe uma dose com uma mistura de heroína e morfina, desafiando-o: “Toma, fica com tudo!” Tim aceita o desafio, convencido de que se trata apenas de cocaína e snifa o pó todo de uma vez. Morre no hospital de Santa Mónica. Longe das estrelas com que costumava sonhar. O seu filho e digno sucessor, Jeff Buckley, morre a 29 de Maio 1997, afogado nas águas do porto de Mud Island, a ouvir “Whole lotta love”, dos Led Zeppelin. Em “You and I”, canção do seu segundo álbum, canta: “Ah, a calma que existe por baixo daquele rio selvagem e envenenado.”


Marc Bolan (1947-1977)

A 16 de Setembro, o ex-hippie e rei do glam rock sai de carro com a sua amiga Gloria Jones e alguns amigos para ouvir música no clube Speakeasy e jantar no restaurante Morton. Ele e Gloria arrancam de regresso às 4 da manhã no Mini 1275 GR roxo de Gloria. Uma hora depois o automóvel esbarra contra uma árvore, numa curva a seguir à ponte de Queen’s Ride, no Sudoeste de Londres. Gloria fica gravemente ferida. O fundador dos Tyrannosaurus Rex morre.


Sandy Denny (1941-1978)

Cair de uma escada abaixo é uma morte pouco gloriosa, mas foi esta a maneira que o destino encontrou para pôr fim à vida da maior voz de sempre da folk inglesa. Sandy sofreu o acidente no dia 21 de Abril, na casa de um amigo. Partiu a cabeça e entrou imediatamente em coma, falecendo pouco tempo depois já no hospital, vítima de uma hemorragia cerebral, sem voltar a recuperar a consciência. O desastre aconteceu quando ela e o marido planeavam mudar-se para os Estados Unidos, para um relançamento da carreira. A morte da cantora dos Fairport Convention e dos Fotheringay aconteceu nove meses depois do nascimento da primeira filha do casal, Georgia.


Sid Vicious (1957-1979)

Sid Vicious, para falar verdade, parece nunca ter estado vivo. Da anarquia punk dos Sex Pistols, lado a lado e aos encontrões, com Johnny Rotten, às convulsões a solo e ao romance infectado com o seu grande amor, Nancy, tudo na existência de Sid apontava para o descalabro e para o niilismo. Nancy é encontrada no dia 12 de Outubro de 1978 na casa de banho de sua casa, encharcada numa poça de sangue com uma faca de mato a seu lado. Sid admite à polícia ter sido ele o assassino. É acusado de assassínio em segundo grau. Desesperado com a morte de Nancy, Sid é preso por causar desacatos num clube nocturno, mas sai em liberdade no dia de audiência. Vai a correr para o apartamento da sua mais recente namorada, Michelle Robinson, injectar-se. Segue-se nova dose, com material mais puro, o que, a seguir a um período (forçado) de abstinência (na prisão), não costuma dar bons resultados. Sid entra em colapso. Mas volta a si e adormece. Acorda a meio da noite para mais um chuto. O último. Alguém disse de Sid Vicious que “cultivava uma imagem de antagonismo”. Ele preferia cantar uma versão de uma canção de Frank Sinatra e dizer: “This is my way.”


John Lennon (1940-1980)

Depois de conseguir, na manhã de Dezembro de 1980, um autógrafo de Lennon, Mark David Chapman, que viajara de Havai para Nova Iorque só para ver o seu ídolo, permanece seis horas em frente ao apartamento do ex-Beatle aguardando a sua chegada. Lê “Uma Agulha no Palheiro”, de J. D. Salinger, enquanto espera. Quando Lennon chega e sai da sua “limousine”, Chapman dispara sobre ele uma sequência de sete tiros. Lennon morre sete minutos depois. Chapman é preso e o seu livro confiscado. Numa das páginas escrevera: “Esta é a minha declaração!”


Ian Curtis (1956-1980),
Phil Ochs (1940-1976),
Peter Ham (1947-1975)


Enforcaram-se os três. Ian Curtis, líder da mais famosa banda do eixo neurodepressivo de Manchester dos anos 80, os Joy Division, enrola a corda ao pescoço imediatamente antes de um concerto. A morbidez das letras que escrevia, juntamente com a epilepsia e a depressão crónica de que padecia contribuíram para o desenlace fatal.
Phil Ochs, cantor de protesto, autor do hino anti-Vietname dos anos 60, “I ain’t marching”, sofre, numa viagem a África, um misterioso ataque de um estrangulador que o leva às portas da morte. Como consequência as suas cordas vocais ficam danificadas para sempre, facto que acentua a depressão de que já sofria. Não resiste, enforcando-se na casa de sua irmã.
No caso de Peter Ham, o insucesso de vendas dos álbuns dos Badfinger, depois de uma fase inicial marcada por canções de êxito, aliado a dissensões no seio do grupo, levam à rescisão de contrato com a editora e ao aparecimento da depressão. Problemas familiares fizeram o resto. Ham põe ponto final na amargura e enforca-se.


Bob Marley (1945-1981) e
Peter Tosh (1944-1987)


Em finais dos anos 80, num dos primeiros concertos de uma digressão pelos Estados Unidos, Bob Marley tem uma síncope em pleno palco. A digressão é cancelada e a Marley é diagnosticado um cancro no cérebro e nos pulmões. Morre sete meses mais tarde vitimado pela doença.
Peter Tosh, outra das lendas do reggae, é atingido a tiro por um gatuno quando este tenta assaltar a sua residência na Jamaica.


Karen Carpenter (1950-1983)

Aos 31 anos a cantora da dupla pop The Carpenters tomava laxantes e remédios para a tiróide, como resultado de tensão em demasia (provocada pela carreira e pela vida familiar), a par da dependência de drogas. Pesa nessa altura 35 quilos. Após algumas tentativas de tratamento e um internamento, parece melhorar e aumenta o seu peso para 41 quilos. No princípio de 1983, a 4 de Fevereiro, Karen faz uma visita à mãe, Agnes. Conversam sobre roupas. No dia seguinte a mãe encontra-a desfalecida no quarto. A autópsia menciona como causa da morte uma paragem cardíaca provocada por anorexia nervosa.


Nico (1940-1988)

Chamavam-lhe a deusa da lua. Nico, modelo, actriz e, acidentalmente, cantora, era um espectro. A sua figura de diva do outro mundo que assombra o álbum da banana dos Velvet Underground esfumou-se como a sua vida, entre drogas, alternando entre excitantes e calmantes, uma insónia permanente e uma carreira que todos manipulavam, sem, todavia, penetrarem na essência do mistério. A 18 de Julho, Nico, na altura a viver com o poeta John Cooper Clarck, embate com a sua bicicleta numa árvore e sofre uma hemorragia cerebral. A deusa da lua encontrou a morte sob o sol de Ibiza, onde estava a passar férias.


Fredy Mercury (1946-1991)

É uma das primeiras vítimas mediáticas da sida, doença que o cantor dos Queen apenas admite ter 24 horas antes do desenlace fatal, através de uma declaração pública: “Desejo confirmar que fui considerado seropositivo e que tenho sida. Achei correcto manter esta informação privada, até agora, para proteger a intimidade dos que me rodeiam. Contudo, chegou a altura de os meus amigos e fãs saberem a verdade. Espero que todos se juntem a mim e aos meus médicos contra esta terrível doença.”


Kurt Cobain (1967-1994)

Uma incompatibilidade crónica com a vida conduz o músico dos Nirvana à heroína, juntamente com a sua mulher, Courtney Love. Uma primeira tentativa de suicídio, por “overdose” voluntária, definida pelo casal como “um acidente”, falha. Os restantes elementos do grupo convencem Kurt a tentar a desintoxicação numa clínica. Kurt acede mas foge de imediato para Seattle deixando um bilhete a Love: “Lembra-te, aconteça o que acontecer, amo-te.” A 5 de Abril de 1994 Kurt barrica-se em casa. Deixa a carteira aberta no chão, com a carta de condução à vista, para facilitar a identificação. Injecta-se com heroína, encosta o cano de uma espingarda à testa e dispara. O corpo é descoberto apenas dois dias e meio mais tarde por um electricista que trabalhava em sua casa.


Jerry Garcia (1942-1995)

Consumidor compulsivo de cocaína, heroína, ácidos (recebera a alcunha de “Capitão Trips”) e tabaco (três maços por dia), Jerry Garcia tinha uma obsessão pela morte, chamando ao seu grupo Grateful Dead e enchendo as capas dos discos com caveiras. Após várias tentativas frustradas de desintoxicação (uma delas deixa-o em coma) faz um derradeiro esforço para se libertar da heroína numa clínica da Califórnia. Durante uma visita de rotina um advogado do centro encontra o músico já sem vida na sua cama, vítima de um ataque de coração.


A reportagem era complementada pelo seguinte texto, assinado por Luís Maio:

Outras Mortes Nada Naturais

Por abuso de drogas e álcool
1968 – Frankie Lymon
1969 – Brian Jones (Rolling Stones)
1973 – Gram Parsons (Byrds e Flying Burrito Brothers)
1974 – Robbie McIntosh (Average White Band)
1976 – Paul Kossoff (Free)
1978 – Keith Moon (The Who)
1979 – Tommy Bolin (Deep Purple)
1980 – Tim Hardin
1980 – John Bonham (Led Zeppelin)
1981 – Mike Bloomfield
1986 – Phil Lynott (Thin Lizzy)
1987 – Paul Butterfield (Butterfield Blues Band)
1988 – Andy Gibb (The Bee Gees)
1995 – Rob Stinson (Replacements)
1998 – Rob Pilatus (Milli Vanilli)

Por acidente
1960 – Eddie Cochran, num desastre de carro
1967 – Otis Redding e cinco membros da banda de suporte Bar-kays, num desastre de avião
1969 – Martin Lamble (Fairport Convention)
1971 – Duane Allman (Allman Brothers), num desastre de moto
1977 – Quatro dos Lynyrd Skynyrd, num desastre de avião
1985 – Rick Nelson, num desastre de avião e D Boon (Minutemen) num desastre de carro
1998 – Sonny Bono (Sony & Cher), num acidente de sky

Por assassínio
1964 – Sam Cooke
1974 – Harry Womack
1987 – Scott La Rock
1995 – Selena
1996 – Tupac Shakur
1997 – Notorious BIG

Por suicídio
1954 – Johnny Ace
1973 – Paul Williams (Temptations)
1976 – Phil Oachs
1979 – Donny Hathaway
1986 – Richard Manuel (The Band)
1997 – Billy McKenzie (Associates)
1997 – Michel Hutchence (INXS)
1998 – Wendy O. Williams (Plasmatics)

Esta lista inclui celebridades tão estimadas quanto as antes referidas, mas também artistas de culto, uns já esquecidos, outros sobretudo lembrados depois da morte. Também não pretende ser exaustiva, mas apenas acrescentar-se à primeira lista. LM

Informações compiladas dos livros “Dead before their time”, de Diana Karanikas Harvey e Jackson Harvey (ed. Metrobooks, 1996) e “Eles morreram cedo demais”, de Tony Hall (ed. Edinter, 1996).

02/06/2008

Jimi Hendrix - Voodoo Soup

Pop Rock

19 de Abril de 1995
álbuns poprock

Jimi Hendrix
Voodoo Soup
POLYDOR, DISTRI. POLYGRAM

Jimi Hendrix tinha uma teoria. Um dia, dizia ele, por volta do final deste século, o planeta Júpiter há-de explodir e transformar-se num segundo sol do nosso sistema solar. Uma teoria que Arthur C. Clarke explorou igualmente no seu livro “2010, o ano do contacto”. A nova Terra, assim iluminada por dois astros-reis, tornar-se-ia um paraíso e todos os seus habitantes pessoas de bons princípios. Entretanto Hendrix morreu, sem ter tido tempo de comprovar a sua teoria. Estamos cá nós para ver. “Voodoo Soup” junta três temas inéditos do mestre e visionário da guitarra com composições antigas. Tudo remisturado e “remasterizado” digitalmente. No começo, precisamente em “The new rising sun” (um dos originais, também um dos muitos títulos que foram avançados pelo músico para aquele que seria o seu próximo álbum de estúdio, depois de “Electric Ladyland”, editado em 1968), escuta-se o som da chegada de um OVNI, em ambiente de antecipação científica, com a guitarra num delírio de efeitos electrónicos. “Message to love” e “Peace in Mississipi” são os outros dois inéditos, embora neste caso se trate das versões com os músicos originais – Buddy Miles e Billy Cox, os Band of Gypsies, no primeiro caso, Mitch Mitchell e Noel Redding, no segundo – de canções que já haviam aparecido em “Crash Landing”, embora por músicos que nem sequer chegaram a tocar com Hendrix. De resto, é um exercício interessante, reescutar alguns temas menos conhecidos retirados sobretudo de “Cry of Love” (álbum póstumo, de 1971), mas também da banda sonora “Rainbow Bridge” e “War Heroes” (outro dos álbuns póstumos, este de 1972). Ao todo, uma selecção que pretende não ser inocente, procurando relacionar entre si composições que de algum modo se entrelaçam na teia complexa visionada pelo artista, na origem do tal “mundo novo” que há-de vir. Perspectiva que se completa com a leitura dos últimos movimentos de Hendrix, contados por MIchael Fairchild no livrete incluso, acompanhado de fotos inéditas, em que se acentua o lado místico do músico. A lenda continua.