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12/05/2020

Jethro Tull - Stormwatch


Y 24|SETEMBRO|2004
roteiro|discos

JETHRO TULL
Stormwatch
Chrysalis, distri. EMI-VC
5|10

“Sormwatch” faz parte do novo pacote de reedições remasterizadas da discografia antiga dos Jethro Tull e inclui quatro temas extra. Ainda há quem se interesse por eles. Bem entendido, a data de edição é 1979 e nessa altura os Tull tentavam salvar a pele e sair ilesos da investida “punk”. Fizeram-no facilitando, arredondando as arestas e restringindo os ritmos, amiúde, a ensossas batidas de rock FM, quando não descendo à total sensaboria, como acontece com a orquestração pirosa de “Home”. Atenção, porém, Ian Anderson nunca foi homem para descer até aos limites da vulgaridade – embora chegue lá perto em “Warm sporran”, ”Something’s on the move”, tímida incursão no “hard rock” e uns “Old ghosts” por demais primários – mantendo intocáveis o seu virtuosismo na flauta e as suas vocalizações de menestrel vagabundo. Temas como “Dark ages”, “Dun ringill” e “Flying dutchman” estão ao nível do período, bem mais interessante, de “Songs from the Wood” e “Heavy Horses”. E a fechar, “Elegy”, um puro exercício de rock sinfónico neo-clássico, lá está para provocar os ódios ou amores mais extremados.

20/11/2019

Jethro Tull - Christmas Album


31|OUTUBRO|2003 Y
discos|roteiro

JETHRO TULL
Christmas Album
R&M, distri. Universal
7|10

Boas notícias para os admiradores dos Jethro Tull: o grupo está de boa saúde. Não tem sido fácil sobreviver à “morte anunciada” (e há quantos anos vem sido anunciada!...) do rock progressivo mas a banda de Ian Anderson continua a aguentar a pé firme (o que também não será fácil, sabendo-se da preferência do flautista para se firmar sobre uma perna só…). “Christmas Album” evidencia o som clássico do grupo, sem cedências aos modos de produção atual, se excetuarmos “Another Christmas song”, único exercício de estúdio “neo prog”, a contrastar com o tom acústico das restantes 15 canções. Nestas, Anderson canta e toca flauta como um herói, retomando a velha veia folk, com pinceladas Fairport Convention, em “Holly herald”, ou numa magnífica “A Christmas song”, a par de “Last man at the party” e “First snow on Brooklyn”, temas a merecerem entrada para a galeria dos clássicos do grupo. A faceta “jazzy” é outro selo de garantia de um álbum que, evitando a nostalgia, apresenta todavia as marcas de uma melancolia terna, através da inclusão de uma nova versão do antigo instrumental “Bourée”.

31/08/2016

Os Jethro Tull estão como novos

PÚBLICO ONLINE
Terça-feira, 7 de Novembro de 2000

Fãs são recompensados em Lisboa por uma espera de 30 anos

Os Jethro Tull estão como novos

Chamem-lhes os nomes que quiserem mas o concerto de domingo, em Lisboa, dos Jethro Tull foi fantástico, um dos melhores do ano. Aos 32 anos estão como novos. Grande música e show de Ian Anderson, um animal de palco. Além do coelho que também apareceu.

Alheios à passagem do tempo e aos ditames da moda, os Jethro Tull prosseguem imperturbáveis o seu caminho como se nada de importante se tivesse passado nas últimas três décadas de música popular. Aconteceram muitas coisas, como é evidente, mas para este grupo que nos anos 70 dignificou, e de que maneira, o “amaldiçoado” rock progressivo, o mais importante continua a ser a manutenção da identidade e o gozo de tocar a música em que acreditam. Para os fãs que esperaram todo este tempo para ver os seus ídolos e que no domingo preencheram em quantidade razoável o imenso Pavilhão Atlântico, em Lisboa, a espera não foi em vão.

Os Jethro Tull estão como novos. Ian Anderson, então, abusou. Aos 53 anos, se é verdade que a voz já não chega com a mesma facilidade aos agudos como na juventude, é um espanto verificar como conservou intactas as qualidades de flautista. O duende dos Tull solou com génio e com fartura, a brincar – ao cantar e emitir toda a espécie de ruídos e onomatopeias através da flauta – ou como um concertista para quem o instrumento não tem segredos. O resto do grupo deu um exemplo de profissionalismo, mas foi Anderson quem recompensou o público de uma espera de 30 anos.

Depois de uma primeira parte assegurada com brio pelos Corvos, que cada vez mais se assemelham a uma versão portuguesa dos Apocalyptica, com fulgurantes arranjos e fogosas execuções em violinos e violoncelo de temas dos Xutos e Pontapés, “You really got me”, dos Kinks, ou o tema dos filmes de James Bond, os Jethro Tull tomaram conta do palco, às dez em ponto, como estava previsto.

Só para cotas? Nem pensar

Arrancam com um par de temas de “Stand Up”, de 1969, “For a thousand mothers” e “A new day yesterday”, e quando Ian Anderson faz a primeira apresentação da noite, percebe-se que a noite está ganha: “Começámos com um par de temas antigos, de 1969, mas vamos tocar coisas mais recentes, como este de 1972…”. É “Thick as a Brick”, a tal “mãe de todos os álbuns conceptuais”, executado parcialmente mas com tudo no sítio em que estava há 28 anos atrás, logo seguido que um enorme salto no tempo, até à atualidade do novo álbum “JTull.dot.com”, num tema sobre “gatos”.

Estava dado o mote: boa música, descontração e um impressionante “one man show” de Ian Anderson.

“Bourée”, de J.S. Bach, é enunciado como um tema com “300 anos de idade, quase tão velho como alguns dos elementos do grupo”. “Budapest”, do álbum “Crest of a Knave”, antecede duas composições em registo de “world music” extraídas do mais recente álbum a solo de Ian Anderson, “The Secret Language of Birds”, a primeira tocada em instrumentos tradicionais e noutros mais ou menos, como uma buzina apertada com solenidade pelo teclista, seguida de um “Habanera reel” em tom irlandês.

Um medley com base em canções dos álbuns “Songs from the Wood” e “Heavy Horses” arranca os fãs das cadeiras. A meio de uma sequência instrumental mais complexa, novo “gag”. Ouve-se um telemóvel a apitar. A música para e Anderson atende: “Agora não posso! Estou a meio de um concerto!”.

No pavilhão há quem, ao reconhecer cada canção, salte dos lugares, levante os braços e aplauda com berros de incitamento, como uma claque de futebol. “Too old to rock’n’roll, too young to die”, título que poderia constituir uma divisa na carreira dos Jethro Tull, faz levantar ainda mais as vozes e o entusiasmo. Durante “Hymn 43”, do álbum “Aqualung”, um coelho invade o palco e simula o ato sexual com o respeitável guitarrista Martin Barre, além de Ian Anderson o único músico da formação original do grupo que tocou em Lisboa e ontem no Coliseu do Porto. “Living in the past” arranca mais gritos de excitação e “Locomotive breathe”, de “Aqualung”, fecha em apoteose um concerto onde a energia, o gozo de tocar e a comunicação com o público foram uma constante.

Já no “encore”, um pacote condensado de temas de “Aqualung”, a assistência é presenteada por Ian Anderson com dois enormes balões brancos e fica no pavilhão a brincar. Foi neste clima de festa que encerrou a há muito esperada estreia ao vivo dos Jethro Tull em Portugal. Só para “cotas”? Nem pensar. À saída não eram poucos os jovens que, ainda mal refeitos da surpresa, comentavam: “Epá, aquelas melodias são baris!” e “os tipos tocam de verdade!”.


Ah, sim, e Ian Anderson ainda se aguenta nas calmas a tocar apoiado numa perna só.

23/07/2015

lista fundamental




"lista fundamental" (mcpinto)

mcpinto
20.10.2001 111130

Os CSNY fazem parte integrante da minha vida de audiófilo. "Déja vue" inclui o tema Almost cut my hair de David Crosby e só isso chega. Já agora, outras escolhas possíveis dentro do género poderiam recair nos Eagles ( album "Desperado" )ou até nos America ( "America" e "Home Coming").


Fernando Magalhães
21.10.2001 150305

Curioso falares nos AMERICA. Foi uma banda à qual nunca prestei a devida atenção até que, recentemente, adquiri finalmente um disco deles, precisamente o "Homecoming" que é uma maravilha de rock/folk, por vezes soando a uma variante US dos Magna Carta...

Quanto aos JETHRO TULL, sempre achei o "A Passion Play" musicalmente superior ao "Thick as a Brick". Acontece que o impacto deste foi maior, talvez por ter surgido primeiro, o que fez muita gente considerar "A Passion Play" uma espécie de remake...
Não é a minha opinião nem a do próprio Ian Anderson que, numa entrevista que lhe fiz no ano passado, referiu o "A Passion Play", se a memória não me falha, como um dos álbuns mais "difíceis" mas também mais gratificantes da discografia dos JT.

FM

31/12/2014

O flautista funâmbulo [Jethro Tull]



MÚSICAS

JETHRO TULL CHEGAM COM 20 ANOS DE ATRASO A PORTUGAL

O FLAUTISTA FUNÂMBULO

SERÁ QUE IAN ANDERSON CONTINUA A TOCAR FLAUTA APOIADO APENAS NUMA PERNA, COMO FAZIA NOS ANOS 60 E 70, QUANDO OS JETHRO TULL ERAM UM DOS GRUPOS MAIS DECENTES DO ROCK PROGRESSIVO? A RESPOSTA SERÁ DADA ESTE FIM-DE-SEMANA, EM LISBOA E NO PORTO. MAS MESMO QUE A PERNA AINDA AGUENTE, NÃO É DE PREVER QUE TOQUEM “THICK AS A BRICK”.

À SEMELHANÇA dos Yes, os Jethro Tull estreiam-se ao vivo em Portugal com duas décadas de atraso. O que o público português irá testemunhar no próximo domingo no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, e na 2ª feira no Coliseu do Porto, será, como aconteceu com os Yes, a capacidade de sobrevivência de uma banda que durante dez anos, entre 1968 e 1978, cavalgou na crista da onda do rock britânico. Falta confirmar se ainda estão dentro do prazo de validade.
            Os Yes passaram no exame. Com os Tull, como será? Aconteça o que acontecer, o gigantesco recinto do Parque das Nações arrisca-se a ficar conhecido, sem desprimor para os visados, como um Lar para a Terceira Idade dos Anderson. Primeiro foi Jon, o místico vocalista dos Yes, agora será Ian, flautista louco dos Jethro Tull.
            Os Jethro Tull, como inúmeros outros grupos da época, começaram pelo “rhythm ‘n’ blues” antes de se lançarem nos voos mais altos do rock progressivo. Tinham em Ian Anderson um líder carismático, figura de vagabundo letrado, amante da velha Inglaterra rural e excêntrico como só os súbditos de Sua Majestade sabem ser. Era um exímio flautista, não só pelas capacidades técnicas que exibia como pela habilidade que costumava pôr em prática nos concertos: tocava ao pé coxinho, isto é, apoiado numa só perna. Era assim que solava, em temas de jazz como “Serenate to a cuckoo”, de Roland Kirk, ou no tom cataléptico de “Locomotive breath”. Em suma, um verdadeiro “show man”.
            “This Was”, estreia discográfica dos Jethro Tull, foi editado em 1968 e subiu rapidamente ao Top 10. “Stand up”, de 1969 e “Benefit”, de 1970, asseguraram a transição pacífica para a floresta do Progressivo mas foi com “Aqualung” (1971) que o grupo saltou em definitivo para as primeiras páginas, num álbum conceptual cuja capa fazia as delícias de qualquer artista gráfico e onde os Jethro Tull lançavam um ataque feroz às religiões institucionalizadas.
            Era a época dourada do Progressivo e os Jethro Tull, com uma formação em constante mutação cujas saídas deram origem a grupos como os Blodwyn Pig, Wild Turkey e Mick Abrahams Band, aproveitaram, perdendo em definitivo o tino para assinarem dois dos trabalhos monumentais dos anos 70: “Thick as a Brick” e “Passion Play”. Exageraram ao ponto de criarem para a capa do primeiro a edição completa de um jornal fictício onde se noticiava a pretensa atribuição de um prémio literário à obra de um menino-prodígio. A “obra”, um poema épico, seria “aproveitada” pelos Tull como letra para a longa “suite” que é “Thick as a Brick”. “Passion Play” era ainda mais sofisticado, outra peça de 40 minutos que os Jethro Tull encheram de “nonsense” e fantasia.

Degolados pelo punk

            Nesta altura Ian Anderson tomava-se por um menestrel dos tempos modernos e o seu amor pelos ritos da velha Albion que remontavam à Idade Média, emprestou à safe seguinte do grupo um cunho acústico com raízes na folk. Desta fase resultaram três belos trabalhos: “Minstrel in the Gallery” (1975), “Songs from the Wood” (1977) e “Heavy Horses” (1978), com os mais elétricos “War Child” (1974) e “Too Old to Rock ‘n’ Roll, Too Young to Die” (1976), de permeio.
            Depois, aconteceu aos Jethro Tull o mesmo que a quase todos os grupos com a mesma dimensão mastodôntica que não souberam, ou não quiseram, acordar do sonho: foram degolados pelo punk. Muitos sobreviveram, é certo, mas a passagem do tempo revelou-se fatal para a maior parte. Como os Yes, os Moody Blues ou os Pink Floyd, os Jethro Tull atravessaram os anos 80 para entrarem nos 90 de muletas. Alguns, como os Yes, conseguiram reciclar-se. Os Jethro Tull também não se saíram mal de todo, introduzindo a pop e a eletrónica nos salões do seu velho palacete.
            No próximo fim-de-semana se verá se a força da alma sobreviveu à fadiga da perna. Ian Anderson, o flautista louco, lá estará para esclarecer as dúvidas e fazer reviver uma parte de um passado que chegou a ser brilhante.

JETHRO TULL (primeira parte com Os Corvos)
Lisboa, Pavilhão Atlântico, Dia 5, às 21h
Bilhetes 3500$00 e 5500$00
Porto, Coliseu, Dia 6, às 21h
Bilhetes 3500$00 e 6500$00


ARTES | sexta-feira, 3 novembro 2000

11/12/2014

Sempre em pé [Jethro Tull]



DOMINGO, 5 NOVEMBRO 2000 cultura

Jethro Tull em Lisboa e no Porto

Sempre em pé

O tempo não fez mossa aos Jethro Tull. Sobreviveram ao punk – “um chuveiro refrescante” – e à América, com uma perna às costas. Por assim dizer. Atuam hoje e amanhã em Portugal. Atrasados 20 anos mas com a promessa de deixarem a escrita em dia. O PÚBLICO falou com a perna, perdão, o braço direito de sempre do grupo, Ian Anderson – um “gentleman”.

É como o imaginávamos: distinto, culto, atento ao mundo e com aquele toque de humor e excentricidade tipicamente britânicos que distinguem o verdadeiro “gentleman”. Ian Anderson, com quem o PÚBLICO conversou ao telefone, levou os Jethro Tull ao colo durante 32 anos de carreira, concedendo-lhe a graça disto tudo. Esta noite em Lisboa e amanhã no Porto, os Jethro Tull irão mostrar o quadro completo onde nem faltará a graça de “Thick as a Brick” – “a mãe de todos os álbuns conceptuais”.
            PÚBLICO – Questão de primordial importância: continua a tocar flauta apoiado apenas numa perna como fazia no início? E por que razão o fazia no início?
            IAN ANDERSON – A culpa é dos jornais ingleses. Quando entrei para os Jethro Tull, também tocava harmónica, sobretudo as notas mais agudas, aspira-se mais ar do que se sopra. Acontecia que ao aspirar costumava levantar uma das pernas. O primeiro jornalista que escreveu sobre o grupo viu-me de facto a tocar harmónica, e não flauta, com a perna levantada, mas acabou por escrever o que de facto não acontecera… Mas a história ficou. Deram-me uma imagem de marca… Acabei por tocar mesmo flauta nessa posição, para fazer as pessoas felizes!...
            P. – Até hoje?
            R. – Por amor de Deus, não! Seria muito aborrecido para a assistência ver-me tocar no mesmo sítio durante todo o tempo. Mas às vezes ainda o faço, pelo gozo.
            P. – Acredita que os anos 60 tinham uma magia especial, que era possível fazer tudo?
            R. – Bem, as pessoas estavam a descobrir uma quantidade de influências. Houve quem começasse a tocar guitarra de uma forma mais expressiva, a descobrir novas possibilidades, como Eric Clapton ou Jimi Hendrix. Apareceram novos teclados, surgiram pessoas a tocar violino elétrico, flauta, saxofone… Os Roxy Music até tocavam oboé!
            P. – Nessa altura os Jethro Tull faziam a transição do rhythm ‘n’ blues para o progressivo. Foi uma evolução natural?
            R. – No início tocávamos blues porque era a única maneira de arranjarmos trabalho. Mas os Jethro Tull eram uma banda de blues diferente, já incluíamos folk, clássica, um pouco de jazz… Quando gravámos o segundo álbum, “Stand up”, em 1969, já se ouvia com regularidade música da Ásia, do Mediterrâneo, da Europa do Leste, tudo isso se fazia sentir na nossa música.
            P. – “Aqualung” é considerado o primeiro álbum conceptual do grupo, sobre o tema da religião…
            R. – Era uma coleção de canções, das quais apenas umas três ou quatro falavam de religião. Mas os críticos consideraram-no conceptual e, por isso, decidimos fazer um disco que o fosse realmente: “Thick as a Brick”. Quisemos ir mais longe e fazer a mãe de todos os álbuns conceptuais.
            Não foi o primeiro, os Moody Blues já o tinham feito. Limitámo-nos a fazer algo mais provocatório, ao ponto de fingirmos que as letras tinham sido escritas por uma criança de oito anos, Gerald Bostock, “O Pequeno Milton”, uma personagem dos Monty Python…
            P. – “A Passion Play” repetiu a megalomania, com outro tema único de 40 minutos…
            R. – Era mais sério. Talvez demasiado sombrio. Mas é considerado com o álbum para “connaisseurs”, os verdadeiros fãs. É um álbum elitista.
            P. – Dois álbuns seguidos desta envergadura não criaram demasiadas expetativas? Sentiram alguma pressão?
            R. – “Pressão” era algo que não existia. Pressão foi o que sentiu Alanis Morissette ao ser obrigada a gravar o segundo álbum [risos], o que sentiram os Oasis quando gravaram o último álbum, o que têm sentido os U2 nos últimos três anos até ao novo álbum. No final dos anos 60 não nos preocupávamos com o sucesso. Hoje é pior, existe a preocupação com a carreira.
            P. – Sentiam-se completamente imersos na cena da música progressiva?
            R. – Em termos gerais, sim. Mas tenho do “progressivo” uma conceção bastante lata. Chamo “progressivos” aos Radiohead ou aos Blur, apesar destes últimos terem começado por ser os Kinks [risos]. Os Pearl Jam ou os Soundgarden quiseram ser bandas de rock progressivo. Para mim, Rock Progressivo significa uma música que expande fronteiras do rock. Tocar bem um instrumento para criar algo refinado.
            P. – “Songs from the Wood” faz parte, com “Minstrel in the Gallery” e “Heavy Horses” da fase acústica e folk, tipicamente inglesa.
            R. – Já existiam quatro ou cinco temas acústicos em “Aqualung”. Mas quando fizemos “Songs from the Wood” e “Heavy Horses”, no final dos anos 70, a música acústica não estava muito em voga. Nós, pelo contrário, usávamos violinos e violoncelos… A música soava “british” por reação ao tempo que passámos na América do Norte em digressão, estávamos ansiosos por recuperar as raízes e não sermos sugados para nos tornarmos uma banda americana. Imensas bandas inglesas alcançaram sucesso na América, mas por que preço? Basta reparar na pronúncia de Mick Jagger, Rod Stewart ou Elton John…

Chuveiro punk

            P. – Mais ou menos por essa altura o punk rebentou, arrastando as bandas progressivas na enxurrada. Os Jethro Tull sobreviveram. A bem ou a mal?
            R. – O punk não durou mais do que dois ou três meses, até Malcolm McLaren aparecer como um mercenário, transformando-o numa moda. Para muitos, representou a reação contra uma pop sintética e plastificada. Aconteceu o mesmo no final de 80, com as bandas de Seattle. São acontecimentos cíclicos. O punk não nos afetou. Basta lembrar que em 1969 os Jethro Tull fizeram a primeira parte de concertos dos MC5, a primeira banda punk, quando McLaren ainda usava calções [risos]. E em 1973 já existiam os Ramones, de Nova Iorque, o arquétipo do punk. Em Inglaterra, onde imperou o lado mais “fashionable”, os Sex Pistols ou os Clash assistiram a concertos dos Ramones, para ver como era a “real thing”. Recuando ainda mais, de certa forma, foi o que fizeram os The Who. O punk foi algo refrescante, como um banho de chuveiro. Mas pensar que dei dinheiro pelo álbum dos Sex Pistols!... [risos]. Também comprei os álbuns dos Stranglers. Quais punks, quais quê, eram uma cambada de hippies! [risos]
            P. – Entraram na Net com o novo álbum “Jethro Tull Dot Com”.
            R. – A música não tem nada a ver com a Internet ou com computadores. Chama-se assim por causa do nosso “site”, que estava a ser construído enquanto gravávamos. Sou eu que escrevo praticamente tudo o que lá consta e faço os “updates”.
            P. – Para terminar, o que é que os Jethro Tull vêm tocar a Portugal?
            R. – Música desde 1968 até ao último álbum. Uma pequena viagem pela história do grupo, talvez com um par de canções do meu novo álbum a solo, “The Secret Language of Birds”. Tentamos sempre dar à audiência uma panorâmica geral.

JETHRO TULL (1ª PARTE: OS CORVOS)
LISBOA Pavilhão Atlântico, hoje, às 21h00.
Bilhetes entre 3500$00 e 5500$00
PORTO Coliseu, amanhã, às 21h00.
Bilhetes entre 3500$00 e 6500$00

25/04/2009

Jethro Tull - Thick As A Brick

Pop Rock

18 Julho 1997
reedições

Jethro Tull
Thick as a Brick (8)
Emi 100, distri. EMI – VC


À semelhança do que já acontecera com “Aqualung”, também “Thick as a Brick” volta agora a ser editado, com direito a masterização, nova embalagem – que inclui a versão completa de 28 páginas do falso jornal “St. Cleve Chronicle”, parte integrante da edição original em vinil – e uma gravação ao vivo, inédita, de 11’48’’, do título-tema, realizada em 1978 no Madison Square Garden, bem como uma entrevista com vários elementos do grupo. A presente reedição insere-se num pacote mais vasto, com outros artistas, de celebração dos 100 anos de existência do selo EMI. Se o som remasterizado de “Aqualung” deixava algo a desejar, ganhando em ênfase, mas perdendo definição em relação à versão anterior em compacto na Chrysalis, o mesmo não acontece com “Thick as a Brick”, em que este problema não existe.
“Thick as a Brick”, com data de primeira edição de 1972, é o segundo álbum conceptual dos Jethro Tull, em que ao tema central de “Aqualung”, a religião, se sucede a simulação do poema épico composto pelo menino prodígio Gerald (Little Milton) Bostock, de oito anos, referido, aliás, no próprio disco, como autor de todas as letras. À época, muita gente engoliu a história, de tal forma era conseguida a verosimilhança. A primeira página do falso jornal, escrito e impresso especialmente para o efeito, chegava ao ponto de incluir uma foto do pequeno génio, recebendo o prémio pela sua composição. “Little Milton” viria posteriormente, anunciava ainda o mesmo jornal, a ser desclassificado, em virtude de uma equipa de psiquiatras lhe ter diagnosticado desequilíbrios emocionais graves, os quais o teriam levado a escrever o seu longo poema “Thick as a Brick”, onde são perceptíveis atitudes perniciosas em relação à vida, a Deus e ao país.
É óbvio que Ian “flautista numa perna só” Anderson retomava aqui algumas das suas obsessões, já abordadas em “Aqualung”, mas amplificando a escala das suas ambições, tanto filosóficas como musicais. Para muitos, “Thick as a Brick”, com o seu tema único, dividido em múltiplos andamentos e variações, é o melhor álbum dos Jethro Tull, da fase posterior ao rhythm’n’blues progressivo dos três primeiros, “This Was” (de 1968), “Stand up” (1969) e “Benefit” (1970). Obra típica da fase dourada do progressivo, nela Ian Anderson dá largas à sua imaginação, criando melodias que interligam e intercalam mutuamente, num complexo jogo de arranjos que virá a agudizar-se ainda mais no álbum seguinte, “A Passion Play” (seguindo a mesma estrutura base, de um único tema separado por secções), quanto a nós, aquele em que as capacidades de Ian Anderson melhor se adaptaram aos cânones do progressivo. Em “Thick as a Brick”, as frases melódicas recorrentes, as vocalizações trovadorescas de Anderson e os teclados omnipresentes de John Evan criam uma trama de sugestões e ideias que resistiram até hoje ao desgaste do tempo.
“Thick as a Brick” é um trabalho fundamental dos anos 70, quando todos os excessos eram permitidos, ainda para mais enriquecido pelos pormenores atrás apontados, de acordo com uma estratégia editorial que, estamos em crer, se irá prolongar pela obra posterior do grupo.