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11/04/2017

O Sul a várias vozes [Janita Salomé]

cultura SÁBADO, 23 DEZEMBRO 2000

Janita Salomé recria no seu novo álbum o cante alentejano

O Sul a várias vozes

O Alentejo é pátria do Sul e o cante o centro musical do Alentejo. Um sul mítico, banhado pelas notas do Mediterrâneo, que Janita Salomé recria em "Vozes do Sul", um álbum onde o cante genuíno se olha ao espelho revendo-se em retratos urbanos.

O balanço interior de Janita Salomé adequa-se, sem chegar à coincidência, com o do cante alentejano. No autor de "Cantar ao Sol", o Alentejo é o corpo de uma miragem. O seu Sul é mais vasto, bebendo tanto numa das antigas tabernas do Redondo como num oásis do Sara. Janita é um músico urbano com raízes na planície. Dera-o a entender nesse seu disco, que passou a ser referência na moderna música popular portuguesa, emaranhando-se mais tarde nas redes de um certo excesso, em "Raiano".
            "Vozes do Sul", acabado de sair, embora já estivesse gravado há dois anos, coloca as coisas nos seus devidos lugares. De um lado, Janita homenageia o cante na sua expressão mais pura, oferecendo uma série de faixas às polifonias dos Cantadores do Redondo e dos grupos Corais e etnográficos das Camponesas de Castro Verde, da Casa do Povo de Serpa e "Os Ceifeiros de Pias", ficando o outro preenchido com recriações também elas dispostas segundo duas conceções diferentes do som. Ora num registo próximo da música de câmara, com arranjos para piano e quarteto de cordas, ora reservando-se o gozo de trazer para o Sul um instrumento típico do Norte "céltico" como a sanfona, ou de experimentar o exotismo de garrafas afinadas e de uma parafernália de percussões árabes. Além disso, Janita convidou para cantar ao seu lado, além dos irmãos Vitorino e Carlos, as cantoras Filipa Pais, ainda não totalmente seca dos raios de uma Lua Extravagante, e Bárbara Lagido, também tocada pela Lua e habituada a excursões pelo jazz.
            Para Janita Salomé, "este disco prova que há uma quantidade de maneiras de cantar no Alentejo que não simplesmente aquele coral polifónico que as pessoas conhecem, pesado e denso". Este cante "pesado" e "denso", assume-o o cantor como a "parte documental", o "ponto de partida" que permitiu jogar outros dados, como a inclusão das cordas ou do piano. Ou a experiência "aliciante" de juntar o cante, "por si só uma 'orquestra', com outra orquestra, sem nenhuma delas se destruir".
            Ouvidos mais puristas poderão surpreender-se com a "intrusão" da sanfona (tocada por Carlos Guerreiro, dos Gaiteiros de Lisboa). Para Janita Salomé, tal não constitui qualquer espécie de heresia e só não fez soar nestas "Vozes do Sul" as palhetas duplas da gaita-de-foles, esse outro monstro das hordas do Norte, porque não se lembrou.
           
Resistência

            Poderia ser complicado juntar fações. Como quando o cante se deixa colorir por outras tintas. No estúdio, foram captadas em primeiro lugar as vozes, sendo-lhes depois adicionadas as partes instrumentais. Não chegou, porém, a ser uma dificuldade. Janita Salomé cita a propósito uma das contribuições dos Camponeses de Pias numa das faixas de "Vozes do Sul": "Eles começam a moda num determinado tom e não fogem um coma do princípio ao fim, é impressionante, se assim não fosse, se houvesse flutuações tonais, teria sido impossível juntar os instrumentos".
            Não deixa de causar uma certa impressão o simples facto do cante tradicional alentejano, ao contrário de outras formas tradicionais que se foram perdendo ou deteriorando ao longo do tempo, manter viva a sua pujança. Mas a verdade é que se continua a cantar. Talvez já menos, como era uso, nas tabernas - "alguns donos não deixam e, por outro lado, existem em cada vez menor número" -, mas, mesmo assim, os seus ecos continuam a ser levados para longe. O cante resiste.
            "Talvez pela sua própria natureza e pela forma como os alentejanos o exprimem no seu quotidiano, nos locais de convívio, onde ainda é possível ver saltar espontaneamente meia dúzia deles e começarem a cantar. Isso mantém-se. Em geral, as danças ou qualquer outro tipo de música tradicional requerem uma encenação especial, uma ocasião para acontecer, e ali não", explica Janita.
            Ali, a ocasião tem sido desde há muito propícia à expressão, através do cante, da dor, da revolta e da solidão, mas também da solidariedade e da afirmação de uma especificidade social e cultural. Janita não tem dúvidas que "o alentejano está muito apegado ao cante, à sua terra e à sua identidade, talvez por ter sido marginalizado, se recuarmos no tempo. Foi uma região muito sacrificada, o que acabou por fazer nascer um sentido de solidariedade e uma necessidade de afirmação".
            Ele, Janita Salomé, vive afastado da sua terra natal, tornando-se, como o seu irmão Vitorino, um músico urnano - visão distanciada mas insistentemente fixa no tal "ponto de partida". Essa ligação com o berço geográfico "é alimentada por frequentes idas ao Alentejo". Mas se calhar nem era preciso: "Lisboa é uma cidade do Sul onde a maior comunidade de não-lisboetas são os alentejanos. Se me apetecer vou a Tires ou ao Barreiro e encontro um grupo de alentejanos a cantar em locais públicos".
           
Diálogo e contemplação

            "Vozes do Sul" é um compromisso. Mas se o anterior "Raiano" despoletava o conceito, muito "world music", de fusão – para o seu autor, "um momento de maior urbanidade" – o novo álbum aproxima os extremos através do diálogo, nalguns casos, e da contemplação mútua, noutros.
            Porque o Sul de Janita Salomé não termina no Alentejo mas estende-se para além dele até ao Mediterrâneo, e mais para lá ainda, até ao Sul da imaginação, com regresso ao Redondo. "É desse Sul que também falo, das suas memórias e das suas origens, da presença dos povos islâmicos aqui. Do sinal das presenças islâmicas na música alentejana".
            Algures no alinhamento de "Vozes do Sul" esconde-se um dos seus momentos mais interessantes, cabendo ao ouvinte a tarefa de o encontrar. Aí se pode ouvir, em toda a sua pureza, uma sessão de "cante do baldão". Janita destapa uma ponta do véu: "É surpreendente ouvir cantar à alentejana com acompanhamento instrumental e, nesse tema, isso acontece de uma forma muito própria, com aqueles poetas populares repentistas, todos ótimos cantores, cada um com o seu estilo. Eu, se quisesse participar, não seria nada fácil. Cantar como eles cantam, com as regras próprias do cante do baldão, em dupla quadra e com a estrofe a ter que acabar no primeiro ou no segundo verso, é complicado... E então improvisar é uma carga de trabalhos...".
            Trabalho é o que não tem faltado ao cantor. Tem pronto material para uma série de novos CDs, embora "muito papel vá ser rasgado pelo meio" e, "se tudo correr bem", "Vozes do Sul" terá uma apresentação ao vivo em Fevereiro do próximo ano no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, com a presença de todos os músicos que participaram no disco.
            No horizonte perfila-se ainda a possibilidade de um trabalho conjunto com o Opus Ensemble e outro com o guitarrista dos Madredeus, José Peixoto, outro músico apaixonado pelo Sul.

19/11/2008

Janita Salomé - A Cantar Ao Sol

Pop Rock

5 de Julho de 1995
álbuns portugueses
reedições

Janita Salomé
A Cantar ao Sol
ED. E DISTRI. EMI-VALENTIM DE CARVALHO

Que bom que era, em 1983, ouvir ao voz ao sol, a voz de sol, de Janita Salomé. Sentarmo-nos numa tarde à sombra de uma rua em Casablanca atentos a ouvir os ecos de um Alentejo lá mais para Norte… Ouvimos este disco, esta voz, depurados como o muro e as paredes de uma cidade assombrada de sol da capa, e percebemos tudo o que esta voz perdeu quando se deixou seduzir e enfeitar pelas falsas riquezas de arranjos empastados com pedras de fancaria, no recente “Raiano”. Assim decaem os impérios, tragados pelo novo-riquismo. Aqui, então, era apenas a voz vibrante e vibrátil de Janita, as suas percussões e as cordas de Júlio Pereira e Pedro Caldeira Cabral, suficientes para tecer o feitiço. Veículos ao serviço de uma música aberta às influências do Norte de África, do ar e dos pássaros, filtradas pela individualidade de um alentejano do universo. Brilhante, a luz antiga transportada na “ghaita”, supomos que marroquina, de Pedro Caldeira Cabral, em “Extravagante” (que, estranhamente, aparece duas vezes com o título “Extravagente” na ficha técnica…). Profundo e elevado o “cante”, em Pavão”. Mais próximo do Mediterrâneo e das moiras encantadas, em “São João”. Nem a “heresia” de ter subido à Beira Baixa para se deixar contagiar pela alegria de umas “Saias” retira a “A cantar ao Sol” o sabor dos grandes espaços e das grandes sedes cósmicas que em “Não é fácil amor” se abrigam e concentram no recato de um coração do tamanho do mundo. Uma das grandes, uma das maiores composições de Janita Salomé de sempre. Por fim, a partida, para as estrelas que brilham na “escuridão vinda do Oriente”, em “Quando chegou a lua cheia”, e no instrumental “Na Palestina”, alimentado pelo violino de Carlos Zíngaro. Viajava para bem longe, nestes anos que hoje parecem já tão afastados, Janita Salomé. (8)

17/10/2008

José Mário Branco - Correspondências + Janita Salomé - Cantar À Lua

Pop Rock

6 MARÇO 1991
LP’S

RESISTÊNCIAS

JOSÉ MÁRIO BRANCO

Correspondências
LP, MC e CD, UPAV
JANITA SALOMÉ
Cantar à Lua
LP / MC / CD, Edisom

Multiplicam-se as edições discográficas nacionais de obras não directamente relacionadas com o rock. Cantores/compositores como Sérgio Godinho e José Mário Branco voltam a ser referidos de igual para igual com os músicos rock. A música tradicional ganha novo fôlego (Vai de Roda, Cantares do Manhouce). Como se de repente se alargassem as fronteiras do mundo. Ou as vistas se tornassem menos curtas. Mais interessante ainda: os discos vendem-se.
Foi preciso esperar quase dois anos até “Correspondências” estar finalmente disponível nos escaparates. As multinacionais ignoraram sistematicamente o projecto. Não acreditaram num músico, José Mário Branco, de créditos firmados e justamente reputado com um dos grandes compositores e arranjadores da moderna música popular portuguesa. O disco saiu agora com o selo UPAV, cooperativa cultural de que o próprio é fundador e membro activo.
“Correspondências”, gravado em 1989 no Angel Studio, assinala uma mudança significativa no percurso do autor e particularmente em relação ao seu anterior trabalho, “A Noite”. Para trás ficou o tom épico-dramático do longo tema que dava nome a esse disco ou a raiva e lucidez do manifesto “FMI”. José Mário Branco pôs a correspondência em dia, através de dez canções dirigidas a outros tantos destinatários: Daniel Filipe, José Afonso, Hannah Arendt, Chico Buarque, Anton Tchekov, a si próprio e aos netos, ao misterioso J.C. e ao prosaico sr. Silva. Palavras certas. Palavras cortantes. Populares umas, outras distantes. Entre a fábula acerca da mediocridade que é “Diminuendos”, contando a história do leão que aos poucos se transformou em formiga e a distanciação apaixonada de “Emigrantes da quarta dimensão”.
A voz – a mesma de sempre – mais madura, pausada, sem a rouquidão demencial de “A Noite”. Continua mestre na arte dos arranjos, na maneira de tornar mais bela uma canção. Excelente e conciso todo o trabalho efectuado no computador (“Dairinhas”, “Diminuendos”, “Shalom Palestina”, “Cada dia são cem”). Tudo encaixa sem esforço no lugar certo – a introdução pianística de Mário Laginha em “Emigrantes da quarta dimensão”, os coros elegíacos de “Zeca”, o evocativo solo de sax de Paulo Curado em “Sentido único”, os diálogos violoncelo/flauta (tocados respectivamente por Irene Lima e Ricardo Ramalho) em “1900” e das guitarras em “Quando eu for grande” (por José Peixoto e Júlio Pereira). José Mário Branco permanece ao lado das modas e à frente na luta contra o derrotismo e a contemporização. Recados por carta a quem os souber ler.
“Cantar à Lua”, de Janita Salomé, não pretende ser mais do que aparenta: álbum de fados (como já havia sido o anterior, “Melro”) e alguns temas tradicionais, acompanhados à (apenas) guitarra, (António Brojo e António Portugal) a que falta o intimismo contido da saudade e da escuridão das vielas, substituídos pelas grandes extensões queimadas e solares ou a placidez das noites enluaradas do planalto alentejano, presentes na voz e no canto pujantes de Janita. Disco afastado do gosto das massas. Disco contido e sentido nos propósitos, sincero no modo com os traduz. Faz apetecer o verão. Desejos à luz branca e crua, quando o mundo cala e a alma se liberta, nua, para lá dos montes e da Lua.