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12/11/2025

Alma do Mundo [Natália Correia]

 Pop Rock

 

20 FEVEREIRO 1991

 

ALMA DO MUNDO

 

“Vozes da Terra”. Vozes femininas, do grupo de cantares do Manhouce, equivalentes às daquelas misteriosas búlgaras que “falam com Deus”. A editora procurou a semelhança, na mistura das imagens, na apropriação mercantil do que é por natureza divino. Como se a eternidade estivesse na moda.

Natália Correia escreveu o texto de apresentação do disco, impresso na contracapa, ponto de partida para uma conversa ao sabor dos ventos e das marés. Das Beiras, os símbolos correram até desaguarem no infinito. De Portugal se partiu e parte sempre para mundos mais além. A alma prateada e granítica da Serra confundida com a matéria mais antiga do mundo primordial. Seriam duas, se a distância existisse.

Natália Correia detém segredos e deles fala e escreve livremente, como uma pomba astral, voando entre a noite e o dia, a Lua e o Sol, dizendo aquilo que É e urge ser dito. Noutras esferas chamar-lhe-iam sacerdotisa. As palavras fluíram, reais, esculpidas em som e luz. Quiseram-se caminhos para as fontes e barcas para navegar o mar. E assim foi.

Hoje discute-se, com redobrada energia, a religião (e o ritual), no sentido original de “re-ligação”: “Há muito que falo na revitalização do espaço sagrado. O sentimento religioso tem que ser conduzido numa direção que abranja o reencontro daquilo que já foi a totalidade, ou seja: a fusão das duas polaridades, masculino/feminino, Fogo/Água, Yang/Yin.” Falou-se de alquimia.

Falou-se de música e das forças que a conduzem: “Por detrás de toda a expressão artística, há esse fluir de energias, dirigidas para a procura da beleza que exprime a perfeição.” Energia que magos negros utilizam, invertendo valores e polaridades. “Para muitos será um álibi para adiar o encontro com a Verdade. Para outros é um agir inconsciente expresso no tópico ‘o mundo ás avessas’, ou seja, na inversão dos valores para procurar a sua verdadeira colocação numa ordem perdida ou, se quisermos, esquecida.” Sinais do Apocalipse? “Vivemos tempos de iluminação, tempos de revelação (é esse o significado da palavra) e, precisamente nessa perspectiva, há aqueles que se aliam aos demónios que estão à solta e os que procuram a Luz que jorra da outra face.”

Raymond Abellio, autor incontornável dos tempos atuais (quem o conhece, apesar de já nos ter visitado, nos finais da década de 70, pela mão, força e esclarecimento do pintor Lima de Freitas e da própria Natália Correia?), refere-se ao papel de Lúcifer no mundo moderno. “Não falo em Lúcifer porque isso me coloca numa visão institucionalizada da religião. Prefiro remontar ou recuar aos gnósticos, cuja posição, em muitos aspectos, é para mim cada vez mais significativa, no sentido de denunciarem na humanidade uma extração daquilo a que eles chamam os ‘pseudo-antropos’. Há uma história que ajuda a compreender o significado do termo, de um frade franciscano para quem o Juízo Final não era mais do que um grande esclarecimento, porque nele se distinguiriam os verdadeiros humanos daqueles que passavam por humanos, sendo na realidade sapos, lagartos, escorpiões… Verifico que estamos precisamente num período histórico em que uma guerra despudoradamente demencial vem dar razão ao meu velho amigo franciscano. O pseudo-antropo é um ser mascarado de humano. A sua energia é tão poderosamente maléfica que governa os destinos do mundo. A música é um dos instrumentos destes magos negros. Não só a música. A nocividade da sua ação estão a atingir a cultura em geral que, não por acaso, se deixa absorver pela máquina da indústria.”

O diabo aparece amiúde com a forma de mulher. Para a autora de “Mátria”, “O Dilúvio e a Pomba” e “O Encoberto”, entre outras obras, tal facto, como (quase) tudo, tem uma explicação: “Onde alguns leem Eva, outros leem Lilith, para acentuarem o demoníaco no feminino, dentro de um enquadramento da atração que leva Adão a comer o fruto proibido e consequentemente à expulsão do casal do Paraíso. É preciso não esquecer que no Antigo Testamento se cruzam duas influências: uma que acata o velho princípio da bissexualidade do hermafroditismo divino, expresso na sentença ‘e Deus criou Adão, fazendo-o macho e fêmea, à sua semelhança’; outra, aquela que poderemos classificar de reformismo patriarcal, que concentra todo o odioso sobre a mulher, convertendo-a num ser demoníaco (Lilith). Cabe aqui acentuar que a serpente, sendo na metáfora genesíaca considerada um animal diabólico, segundo as concepções da tal revolução patriarcal que lança o estigma sobre o grande emblema da ginecocracia, é, neste caso (testemunha-o ainda a nossa civilização dolménica), sinal de uma tradição em que, ao lado da polaridade masculina, avultava o aspecto feminino da divindade.”

Ser e conhecer. Como se manifestam então, ao nível gnoseológico, essas duas polaridades complementares, cuja atração recíproca, amorosa, Natália Correia nomeia na conjunção da “Alma mater saudosa do pólo celeste como que consumava o todo (…) nas núpcias do céu e da Terra”? “A intuição é um elemento do sófico feminino (a ‘sofia’, como os gnósticos diziam e sabiam). A penetração, a demanda masculina, é o caminho para o sófico. Por isso a mentalidade masculina é mais filosófica. Ninguém percebeu isso melhor que os nossos trovadores. ‘Philo’ significa afeto, amor. O amor pela mulher (ou através dela), na qual viam refletida a face divina. O sófico feminino revela-se no saber natural da alma mãe.”

A poetisa afirma-se “decepcionada” quando algumas das mulheres que conhece e considera “de grande responsabilidade intelectual” veem na adoração da dama (a mulher) de que falavam os surrealistas, “uma forma de a aprisionar e manter acorrentada a uma situação tradicional”. “Fazer-se amar e venerar pelo homem”, afirma convictamente Natália Correia, “é hoje a obrigação mais imperiosa da mulher”. Que cada um perceba do que lê aquilo que for capaz de perceber.

Lentamente o mundo material reconstruiu-se de novo, na voz e na figura de Isabel Silvestre, solista do grupo de cantares do Manhouce. Música representativa da tal “teologia do feminino provectamente anterior à religião patriarcal dos hebreus”, a que Natália Correia alude, de que “em Espanha, o vascuense é testemunho linguístico e que em Portugal, se mantém perseverantemente enraizada sobretudo na Beiras”. Por isso as vozes da Terra, e em particular a de Isabel Silvestre, lhe provocam, quando ao ouve, “um frémito maior do que aquele causado pela música erudita”: “Quando se ergue o coral de Manhouce, ouço a voz dessa Mulher que nos chega do fundo dos séculos que formaram a nossa natureza cultural.” Assim se cumpriu o tempo certo, desdobrado nas curvas espiraladas do destino.

22/11/2016

A festa do Gil [João Gil]

 CULTURA
SÁBADO, 23 JUN 2001

Crítica Música


A festa do Gil

João Gil e convidados
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém
20 e 21 de Julho
Lotação esgotada

O Grande Auditório do Centro Cultural de Belém encheu-se, terça e quarta-feira passadas, na festa do 25.º aniversário de carreira de João Gil, escritor de canções. De entre o desfile de estrelas convidadas sobressaíram três instantes de magia, protagonizados por Jorge Palma, Isabel Silvestre e o próprio João Gil.
Tudo começou com "Saudade", mitigada pelo reencontro dos ex-Trovante Gil, Luís Represas e Manuel Faria. "125 Azul" prolongou a memória do grupo que nos anos 80 ajudou a dignificar a música popular portuguesa. Mas as recordações aos poucos vão abandonando o sótão das sombras do que foi para se iluminarem na luz do que ainda é. "Ficava aqui a noite toda a tocar contigo", lança Luís Represas ao amigo. Despede-se com um "diverte-te!".
João Gil parece estar a divertir-se. Manuel Paulo, da Ala dos Namorados, substitui Faria. Chispam faíscas da azáfama dos músicos, mas Gil refresca os ânimos: "Vamos devagar, vamos com calma, noto uma certa tensão no ar...". Os outros acalmam-se. Paulo Ribeiro entra para cantar "Lua dos Imortais" e "Olhos nos Olhos". Traz consigo algum nervosismo e a primeira canção começa por não lhe sair bem. À segunda, porém, entra no espírito da letra.
As luzes apagam-se. O piano ilumina-se. Jorge Palma chega e ordena: "Senta-te aí". Bluesy. Mas o melhor vem com "Alice". Fabulosa interpretação arrancada do fundo. O homem pode às vezes desafinar, desatinar, desaustinar, mas, caramba, tem os blues dentro de si. "Alice" foi outra Alice. João Gil percebe-o: "A canção é ainda melhor do que eu pensava!".
Camané, o maior fadista masculino da atualidade, tem direito a três canções. Não está inteiramente à vontade, ainda que disponha dos seus músicos habituais. "Travessa" aquece e "Fim", com letra de Mário de Sá-Carneiro, ronda o arrebatamento, mas, a sós com o piano de Manuel Faria, tropeça numa ratoeira do tom armada por um "Perdidamente" mal ensaiado.
Intervalo. Faz-se a contagem de VIP. Catarina Furtado, mulher de João Gil, é quem dá mais nas vistas. Fátima Lopes passa o tempo a controlar com ar sisudo as câmaras da SIC. Nayma, Rita Ferro Rodrigues, Margarida Marinho, Margarida Pinto Correia e Cila do Carmo distribuem "charme".
Mas a ilusão e o espetáculo voltam. Agora ninguém tira o protagonismo à Ala dos Namorados e ao seu vocalista Nuno Guerreiro, que se mostra endiabrado. Canta mais agudo do que nunca, incita os seus camaradas, salta e exibe os bíceps. Depois do "vaudeville" de "Ruas e Praças", "Rua do Gato Preto" dá para um solo impecável ao piano de Manuel Paulo e destaca as pontuações no baixo de Zé Nabo e as marcações rítmicas de Bruno Vaz.
Entra Isabel Silvestre, parecendo deslocada no contexto. Cantora do povo – de Manhouce – para o povo, canta apenas "Ao Sul", na companhia do piano de Manuel Paulo. A sua voz é uma chama trémula e uma lágrima. Arrepios. O contexto adequou-se a ela.
Sara Tavares é o contrário. Extrovertida, swingante e sorridente. "Luar um Dia" sai tórrida. Tanto como o comentário: "Estão aqui os meus namorados!". João Gil, com Catarina Furtado por perto, estremece ligeiramente... Sara acaba por namorar apenas com Nuno Guerreiro, num dueto com conta peso e medida de "Solta-se o Beijo". Antes do "grand finale", acende-se outra luz. João Gil, sem mais ninguém por perto, canta e sangra na guitarra de 12 cordas a canção mais simples e mais pungente da noite, "No Colo de Meu Pai", a tal que escreveu na infância durante uma viagem de comboio entre a Covilhã e a Soalheira, na companhia dos pais.
Depois da solidão atiram-se os foguetes. Toda a última parte fica a cargo dos ressuscitados Rio Grande. Tim, Rui Veloso, Jorge Palma cantam à vez, mas agora quem comanda é Vitorino, que não só rubrica uma interpretação imaculada em "O Caçador da Adiça" como, de concertina em punho, em "Fui às Sortes e Safei-me", puxa e "provoca" os outros, ao desafio. Para João Gil e Rui Veloso, pouco afoitos nas guitarras: "Rapazes do Sul!...". A Manuel Paulo, no acordeão: "É um instrumento difícil...". Para Tim, no baixo: "Só isso?". E apresenta "um solo de palmas pelo Jorge Palma".
Já com todos os participantes no palco e a plateia a aplaudir de pé, canta-se em grande confusão e emoção, "Loucos de Lisboa" e "Zé Passarinho". João Gil ainda tem tempo para agradecer a toda a gente, em particular, a João Monge, letrista dos Ala. Mas sobretudo "ao seu amor". Uma coisa "à americana", diz, com a comoção bem visível no rosto.

EM RESUMO
Em noite de sintonia, amizade e boa música, Jorge Palma, Isabel Silvestre, Vitorino e o anfitrião brilharam com uma intensidade especial

01/12/2011

Isabel Silvestre - Eu

5 de Maio 2000
PORTUGUESES

Isabel Silvestre
Eu (7/10)
Ed. e distri. EMI-VC


Não há nada a fazer, Isabel Silvestre possui uma daquelas vozes, misto de força, inocência e fragilidade, às quais é difícil resistir. Ouvi-a pela primeira vez no Grupo de Cantares de Manhouce, no clássico “Cantares da Beira”. O seu nome tornar-se-ia mediático através da participação num álbum dos GNR, “Rock in Rio Douro”, onde interpreta um tema que ficou no ouvido de todos, “Pronúncia do Norte”, gravando, depois disso, o seu primeiro álbum a solo, “A Portuguesa”, no qual dá voz a originais de autores nacionais como José Afonso, José Mário Branco, António Variações e Rui Veloso. Neste seu novo trabalho a solo – produzido por João Gil e Mário Delgado e com as participações de Mário Delgado, João Nuno Represas e Rão Kyao –, a cantora de Manhouce interpreta apenas temas populares portugueses. Um passo lógico, atendendo a todo o percurso e antecedentes da cantora, mas que não deixa de suscitar algumas interrogações. Não pela voz mas pelo modo como o reportório escolhido parece por vezes não se enquadrar com o tratamento “modernizador” que os produtores lhe quiseram conferir, como acontece em “Ora mexe na casaca, mexe”, onde o eco final colado à voz não acrescenta grande coisa ao tema, ou em “Senhora da Saúde”, com a flauta muito R. Carlos Nakai de Rão Kyao e a voz subjugados pelos excessos da reverberação. Funciona melhor a simplicidade dos arranjos de “São Gonçalo de Amarante”, “Carinhosa”, “Esta noite fui ao Fontelo”, “Ó povo deste lugar”, de sabor mais popular. Sabendo-se que Isabel Silvestre e os músicos que a “acompanharam” em estúdio gravaram em momentos diferentes, é impossível deixar de pensar no artificialismo de algumas destas ligações (o que faria Holger Czukay com esta voz?...) entre uma voz do povo e os operadores de maquilhagem.

22/10/2011

"Eu", portuguesa, me confesso [Isabel Silvestre]

Sons

10 de Março 2000

Isabel Silvestre lança segundo álbum a solo

“Eu”, portuguesa, me confesso

“Eu”, portuguesa, me confesso. Poderia ser o dístico afixado no novo álbum a solo de Isabel Silvestre. Depois da canção popular, em “A Portuguesa”, a cantora do Grupo de Cantares de Manhouce regressa com um álbum de originais. Música que os seus pais cantavam à lareira. Chamado “Eu”. Um eu de todos.


Produzido por João Gil e Mário Delgado, “Eu” reúne 12 temas tradicionais portugueses com a participação de Mário Delgado, João Nuno Represas e, num dos temas, Rão Kyao. Isabel Silvestre falou ao PÚBLICO sobre este seu novo trabalho onde o “eu”, afinal, se dissolve numa entidade colectiva.
PÚBLICO – Depois da canção popular, a tradição. Faz sentido. Foi uma decisão sua?
ISABEL SILVESTRE – Nasceu de conversas com o João e com o Mário. Ao fim e ao cabo foi uma escolha de toda a gente envolvida. Mas fui eu que trouxe os temas de Manhouce. Alguns dos temas já tinham sido cantados pelo Grupo de Cantares, mas as versões para este disco são diferentes.
P. – “Eu” é um título bastante personalizado, quase orgulhoso. O que quis dizer com ele?
R. – É um bocado complicado. Não sou bem eu, nós somos todos um produto de nós todos, da sociedade em que vivemos, daquilo que nos ensinaram, da casa onde nascemos, dos brinquedos que tivemos. Ninguém é “eu”. Este “Eu” é a minha terra, a minha música, as minhas raízes. No meio disto tudo também lá estou eu.
P. – “Eu” é um filme de todas essas memórias?
R. – Sim. De toda a música que canto, e sobretudo daquela que se cantava ainda antes de eu ter nascido, a música de Manhouce. Sem querer e sem saber estamos a cantar dentro do próprio ambiente em que nos foram ensinadas essas músicas. Estamos nas festas, nas desfolhadas, nas romarias, onde as ouvimos. Essas músicas são mais eu.
P. – Músicas que os seus pais cantavam em casa?
R. – Sim, à lareira, nas noites de Inverno. Tive a sorte de nascer e de fazer parte de uma família grande em que havia tias solteiras que nos criaram como filhos. E a mãe, claro, que gostava muito de cantar e cantava muito bem. O Grupo de Cantares praticamente é tudo família. Nesta música está a família, a casa, o afecto.
P. – Hoje, em Manhouce, ainda se cantam estas canções à lareira? Ou vê-se televisão?
R. – Sem dúvida nenhuma. A televisão e, ainda antes, a rádio e os discos distraem as pessoas. Antes o povo tinha necessidade de fazer a sua própria música. Como é que eles a faziam? Indo às romarias, inclusive recebendo influências da música de outras regiões. Em Manhouce, por exemplo, ia-se muitas vezes à romaria da Senhora da Saúde, estavam ao pé da gente da beira-mar. Traziam músicas de lá. Não quer dizer que as copiassem, ouviam-nas numa noite, não as captavam na sua totalidade nem na sua verdade, então davam-lhe a sua própria volta, vestiam-na com a roupagem de Manhouce. Lavavam-nas nas águas de Manhouce.

Do litoral para Manhouce

P. – Os mais novos de Manhouce ainda cantam música tradicional?

R. – Tenho sobrinhos-netos que me chamam mãe. Ensino esta rapaziada na escola a cantar a três vozes. Há gente no Grupo de Cantares que já é filha de gente que me passou pelas mãos, a quem pus o bichinho da música. E, além do Grupo de Cantares, há um grupo de danças com quarenta e tal elementos. Neste momento estamos a revitalizar a serra no aspecto turístico, fazem-se encontros com música e danças. A maneira de cantar e de dançar em Manhouce vai continuar viva nos próximos tempos.
P. – Por muito tempo?
R. – Sim, os pequeninos já estão a entrar dentro da nossa música. Felizmente que em Manhouce, apesar de já ter estradas, luz e telefone, isso tudo que eu não tinha, há um gosto pela própria terra e pelas coisas que a valorizam. Além das quarenta e tal pessoas que estão no grupo de danças há mais vinte e tal que estão no grupo de cantares. Numa aldeia pequena como Manhouce já são à volta de sessenta pessoas voltadas para a música. Forçosamente têm que incutir esse mesmo gosto nos filhos e nos netos.
P. – O Grupo de Cantares de Manhouce já rompeu as fronteiras da sua região. A Isabel Silvestre grava na capital com músicos urbanos. Continuam a encará-la da mesma forma, na aldeia? A popularidade alterou a sua maneira de viver?
R. – Sou a mesma pessoa. Falo com os outros da mesma maneira. Continua a fazer tudo da mesma maneira. Por isso as outras pessoas também me tratam da mesma maneira. Claro que sentem e gostam do que o grupo faz. Sobretudo quando vão à cidade e dizem que são de Manhouce e as pessoas sabem logo que são da terra do Grupo de Cantares. E perguntam se conhece a D. Isabel. Eu sinto orgulho naquilo que faço, mas também sinto que gostaria de fazer muito mais.
P. – Sente-se tão à vontade a cantar em estúdio, sobre música já gravada, como aconteceu em “Eu”, como com o Grupo de Cantares?
R. – Quando se fala de música tradicional, pensa-se sempre, ou há pessoas que pensam, numa música menor. Eu penso que a música tradicional, sendo cantada com arranjos de qualidade, fica com um enquadramento perfeito. Não quero dizer que me sinta tão à vontade como no Grupo de Cantares…
P. – Dos doze temas que fazem parte de “Eu”, sente particular afinidade por algum deles?
R. – Talvez “Senhora do Livramento”, por causa, na altura, da morte de Amália e por ser um tema que ela própria cantou. Conheci a Amália, marcou-me muito. Estive em casa dela, cantámos em casa dela, há fotos dela a cantar ao nosso lado, com o xaile e o lenço. Era uma pessoa extraordinária, de uma simplicidade e sinceridade… A gente estava ao pé daquela mulher e havia sempre coisas que vinham ter connosco.
P. – Disse há pouco que gostaria de fazer mais. Tem ideia de quê?
R. – Em conversa no estúdio, durante a gravação deste disco, pôs-se a hipótese de eu fazer para o ano um disco de temas tradicionais religiosos. Há coisas lindíssimas na minha região, e não só…
P. – É uma pessoa muito religiosa?
R. – Sou! Embora não seja – como é que hei-de dizer? – aquela pessoa certinha que vai à missa…
P. – As pessoas continuam à espera de um grande espectáculo seu aqui em Lisboa.
R. – Olhe, na altura de “A Portuguesa” esteve previsto um espectáculo no Centro Cultural de Belém, mas depois, não sei porquê, passou a Expo, ficou tudo muito complicado, as pessoas dispersaram-se… pode ser que aconteça agora.

01/12/2008

Isabel Silvestre - A Portuguesa

POP ROCK

13 de Novembro de 1996
portugueses

Miraculosa Rainha dos Céus

ISABEL SILVESTRE
A Portuguesa (8)
Ed. EMI-VC

A estreia a solo da solista do Grupo de Cantares de Manhouce vem colocar algumas questões engraçadas à música popular portuguesa. A começar pela própria “desvirtuação”, ou inversão do termo. Quando Isabel Silvestre canta autores urbanos como Rui Veloso, José Mário Branco ou João Gil, com a pronúncia carregada do Norte e a inocência de quem (ainda) vive longe do caos, o que estamos a ouvir é a génese de uma outra música tradicional ou o sortilégio de um encontro do acaso? Quando o hino republicano é cantado como se fosse uma oração, com os canhões trocados pela prece de uma oração e o gemer de uma sanfona, a que mutação assistimos? Como reagir quando “A Portuguesa”, de gritaria republicana, se transmuta em suave invocação monárquica?
Isabel Silvestre será provavelmente alheia a este género de teorizações, sendo suas “apenas” a voz e a pureza de alma que pôs em cada interpretação. Dirija-se então o questionário ao produtor João Gil, decerto consciente dos efeitos de perplexidade que “A Portuguesa” irá provocar. Tradicionais, dos genuínos, há apenas “Miraculosa Rainha dos Céus”, “E lá vem o Maio” (cantado “a capella”), “Santa Combinha” e “Muito lindo é o céu”. Os restantes temas pertencem a António Variações, João Gil, José Mário Branco, José Afonso, Rui Veloso, José Niza e ao brasileiro Luiz Gonzaga, com o clássico “Asa branca”. A todos eles Isabel Silvestre concedeu o dom da transmutação porque a todos eles se entregou sem qualquer tipo de reservas. E se as melodias ganham em singeleza e em diferença (veja-se o caso de “Asa branca”, tornada cadência transmontana, num arranjo que acaba dominado pela caixa e gaita-de-foles) – com a participação discreta da sanfona de Carlos Guerreiro, o violino de Manuel Rocha, a braguesa, bandolim e cavaquinho de José Barros, as percussões de João Nuno Represas, o acordeão e gaita-de-foles de Ricardo Dias e a guitarra acústica de João Gil -, é ainda no modo como as palavras se iluminam na voz da cantora beiroa que “A Portuguesa” se revela um objecto fascinante.
“A ronda do soldadinho”, de José Mário Branco, ou o “Cantar de emigração”, da poetisa galega Rosália de Castro, são dois dos exemplos maiores aos quais a voz confere uma mais-valia aos originais. E se a abertura, “Deolinda de Jesus”, de António Variações, é a única ocasião onde a ligação letra-voz ronda perigosamente o “kitsch”, logo a seguir, essa ligação é redimida em “A gente não lê”, momento verdadeiramente sublime de “A Portuguesa”. Aqui é o Portugal mais profundo, da grande solidão da ilha açoriana que se dá a ouvir. Aqui são a música de Rui Veloso e as palavras de Carlos Tê que tiveram o privilégio de encontrar a interpretação ideal. Aqui é a erupção de tudo o que já esquecêramos do que somos: “Ai Senhor das Furnas/ que escuro vai dentro de nós/ rezar o terço ao fim da tarde/ só para espantar a solidão/ e rogar a Deus que nos guarde/ confiar-lhe o destino na mão/ Que adianta saber as marés/ os frutos e as sementeiras/ tratar por tu os ofícios/ entender o suão e os animais/ falar o dialecto da terra/ conhecer-lhe o corpo pelos sinais/ E do resto entender mal/ soletrar, assinar em cruz/ não ver os vultos furtivos/ que nos tramam por trás da luz (…) Fica-se sentado à soleira/ a ouvir os ruídos do mundo/ e a entendê-los à nossa maneira (…) Carregar a superstição/ de ser pequeno, ser ninguém/ mas não quebrar a tradição.”
Perdoem-nos tão longa citação. Mas é porque poucas vezes um texto potenciou tanto a sua intensidade dramática. Um milagre. Para ouvir sempre. Com devoção.

27/11/2008

"Cantar é trabalhar do peito" [Isabel Silvestre]

POP ROCK

23 de Outubro de 1996

Isabel Silvestre recria hino nacional na sua estreia a solo

“Cantar é trabalhar do peito”

Isabel Silvestre é “A Portuguesa”, título do seu primeiro álbum sem a companhia das vozes de Manhouce. Aí o hino da República transforma-se em tradição mais antiga e monárquica em que “as armas são outras”. Aí as canções de Rui Veloso, Variações, José Mário Branco e José Afonso, entre outros, ganham a elevação e a pureza de uma serra junto ao céu.

“É um projecto já muito antigo, desde que gravámos o primeiro disco”, começa por dizer a Isabel Silvestre a propósito de “A Portuguesa”. “Simplesmente, na altura achei que não devia fazer isso, na medida em que o grupo estava a começar.” Havia que encontrar espaço fora do Grupo de Cantares de Manhouce, sem descurar certos cuidados. “A responsabilidade é uma coisa complicada. Sinto-me responsável pelo grupo da mesma maneira, só que, ao mesmo tempo, também mais liberta, tendo a certeza de que o grupo é capaz de não parar. Já anda com os seus próprios pés, mesmo sem mim.”
O processo que levou à gravação foi gradual, de maturação lenta. “O Mário Martins foi o primeiro que me abordou, ainda a meio do primeiro disco do grupo. Depois, por uma razão ou por outra, as coisas foram-se arrastando até que por fim acabámos por escolher as canções, eu, o João Gil, o dr. João Teixeira, o David Ferreira. Foi de todos esses encontros que o disco nasceu.” As diferenças entre cantar com o grupo de música tradicional e cantar a solo canções de outros, explica-as Isabel Silvestre como operações da sensibilidade. “Na popular, transmito a maneira de ser e de estar do povo. Neste disco, através do que canto traduzo aquilo que ela é capaz de me sensibilizar e dizer.” Exemplifica: “As músicas do Zeca Afonso identificam-se um pouco comigo, com a minha maneira de ser. Mas gosto de todos os outros, do Rui Veloso, que tem uma outra maneira de estar e de dizer. O tema que eu canto dele tem a ver, não só comigo própria, como com o meio em que vivo. O António Variações, acho-o uma maravilha, tinha letras e músicas lindíssimas. Era uma mensagem constante de carinho e de ternura, na cantiga onde ele fala com a mãe [“Deolinda de Jesus”]. Penso que encontramos lá a nossa própria mãe. Já tinha cantado outra canção dele, ‘Estou além’.”
Em estúdio, “foi voz por um lado e instrumentos por outro”. “Na brincadeira, quando se fez a ‘Pronúncia do Norte’, dizia ao Rui [Reininho] que estou habituada a cantar e a música a vir atrás de mim. Na música tradicional tem sido assim. O acompanhamento é muito simples, eu canto e os instrumentos acompanham-me. Tem sido assim desde menina. Ao passo que aqui é um pouco diferente. Gravou-se primeiro os instrumentos e depois a voz, à excepção de ‘A Portuguesa’, que foi ao vivo.”
Isabel Silvestre conta como surgiu a ideia de cantar o hino nacional. “Nas nossas andanças tem havido espectáculos que são páginas da nossa vida. Uma delas foi em Espanha, no dia 10 de Junho. Pediram-nos para cantar, a abrir, ‘A Portuguesa’, coisa que o grupo nunca tinha feito. No meu tempo de aluna, ainda pequenita, antes de começarmos o primeiro dia de aulas, a primeira coisa que se fazia era cantar o hino. Em Espanha, ficámos um bocado aflitas. Mas cantámos e tudo correu bem. Até aquela parte, ‘às armas, às armas’. Aí as armas foram outras, o sentimento bateu à porta de cada uma e, em vez de uma força exterior, essa força interiorizou-se, foi um bocado complicado…”
Cantar a tradição é, para Isabel Silvestre, tarefa sagrada, como cuidar de um filho ou pegar numa relíquia. “Alguém dizia que cantar é trabalhar do peito. Depois da letra, depois da música, há que dar sentimento a essas duas vertentes. Já andamos nisto há 20 anos. Já por uma vez ou outra quisemos, ou quiseram as pessoas que estavam encarregadas da parte musical e instrumental, dar uma volta às cantigas, no ‘Vozes da Terra’ e não só. Eu opus-me terminantemente, porque, se estamos na música tradicional, temos que dá-la com a sua autenticidade e verdade. Se estamos a cantar as cantigas de Manhouce, temos que ir às raízes e não sair delas, senão não estamos a fazer nada, estamos a desfazer. Para isso era melhor deixar estar tudo quietinho, não levantar o pó, ter cuidado de não riscar.”