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25/08/2025

Música da terra [Folk]

 Folk

A DISCOTECA

 

MÚSICA DA TERRA

 

Rock, pop, o estardalhaço, a rádio sempre aos guinchos, as banalidades semanais, acabam por cansar. Saturam-se os ouvidos, esgota-se a paciência e procura-se avidamente o refrigério. Vasculham-se os arquivos e de repente, coberto de poeira, encontramos o rótulo já esquecido: “Folk”.

 

Sorrimos e recordamos, nostálgicos, os anos passados. Era na passagem de uma década para a seguinte. Há vinte anos, mais ou menos. Vivia-se a época da música progressiva. Considerava-se progressiva toda a música que incluísse flautas, cítaras, Mellotron e o obrigatório “Moog synthesizer”. O rock atravessava um momento de descrédito. Na Inglaterra, um grupo de jovens a quem os ritmos urbanos não diziam grande coisa, resolveu olhar para o passado e reviver a tradição da sua terra. De fora, chamaram ao movimento “folk revival”. Fairport Convention, Steeleye Span, Trees, Tudor Lodge hesitavam entre o folclore e o rock, logo, praticavam “folk rock”. Foram aceites como mais um bando de malucos, que outro nome se podia dar a quem se preocupava com os costumes dos “velhotes”, coisas antigas, névoas e lendas ancestrais? O movimento foi moda e, como todas as modas, passou. Esgotado o tempo a que tinha direito, a corrente fluiu, subterrânea. Na nova década em que entrámos, de novo a cíclica explosão. Por cá chegam constantemente novos discos e aumenta a legião dos “maluquinhos da folk”. A Nébula foi pioneira, no capítulo das importações. Seguiram-se-lhe a VGM, a Mundo da Canção, do Porto, a cooperativa Etnia, de Caminha, e agora também a Contraverso entra na corrida, dispondo já em stock de preciosidades do catálogo “Topic”, dos mais antigos e prestigiados das Ilhas Britânicas.

 

Sons rurais

 

            Martin Carthy, conhecem-no os mais sabedores destas antiguidades musicais, dos Steeleye Span, onde cantava e tocava guitarra. Mas talvez se desconheça que gravou inúmeros álbuns a solo ou acompanhado pelo violinista, ex-líbris dos Fairport Convention, Dave Swarbrick. “Second Album”, “But Two Came by” e “Prince Heathen”, estes com a participação do homem do arco que consegue tocar em quinta velocidade com o cigarro aceso ao canto da boca, sem se atrapalhar, e “Byker Hill”, “Crown of Horn”, “Out of the Cut” e “Right of Passage”, de Carthy a solo, os dois últimos anteriormente já importados pela Nébula. A voz de entoações ligeiramente nasaladas como convém neste tipo de música e a mestria guitarrística do ex-Steeleye Span encontram na versatilidade e virtuosismo de Swarbrick o contraponto ideal na interpretação de um reportório constituído principalmente por baladas do cancioneiro rural inglês ou (em menor escala) da tradição medieval palaciana. Recente e abordando a matéria de forma original, o quinteto Brass Monkey, de que faz parte e que integra também John Kirkpatrick, utiliza instrumentos de sopro no desenvolvimento das jigas e “reels” tradicionais. Se soubessem, os colegas do jazz corariam, pela heresia do gesto, pela profanação do saxofone sagrado, nascido com o destino traçado – espelhar e cantar a alma negra através de uma música que, por direito e origem, lhe pertence.

            Kirkpatrick, especialista da anglo-concertina e do acordeão de botões, fez parte dos Albion Band e colabora desde longa data com a cantora Sue Harris, que também toca oboé e saltério. Imprescindíveis são os álbuns “Facing the Music” (só de instrumentais), “Shreds & Patches” e “Stolen Ground”, outras tantas corridas por montes e vales no tempo que medeia entre a magia do meio-dia e o piar do mocho no campanário da igreja, prenunciando a meia-noite.

 

Nos lagos

 

            Robin Dransfield, outrora metade do duo formado com o seu irmão Barry, é outro vocalista de inegáveis talentos, acrescidos aos de arranjador e intérprete. Provam-no as canções de “Tidewave”, antigas, sentidas, vibrantes nas cordas da guitarra esquecida do presente, no poder evocativo de uma sanfona trazida do reino da França. Peça indispensável na coleção de um apreciador que se preze.

            Mais ocidental, a Irlanda assombra pelo mistério de castelos perdidos no meio de escuras florestas, das rochas com histórias para contar, do mar infinito de cujo fundo emergem lendas de sereias e pescadores unidos por inconfessáveis laços. E de muitos lagos, sem “Nessies”, mas encantados por elfos, duendes e fadas, seres que a imaginação tece e por isso são reais. Os Boys of the Lough, ao lado dos Chieftains, afirmam-se como um dos mais antigos e conceituados mestres do “irish folk” e o violinista Aly Bain, um dos seus nomes lendários. “In the Tradition” e “Open Road” são a um tempo conservadores e inovadores no modo como interpretam o folclore irlandês, recorrendo exclusivamente à instrumentação tradicional e à clássica combinação violino/”tin whistle”/flauta, para criar sequências respeitadoras dos cânones, na alternância entre as danças e as baladas vocalizadas. Mais tarde entraria em cena a gaita-de-foles de Christy O’Leary, enriquecendo ainda mais o som dos Boys.

 

Tradição presente

 

            Os House Band não serão tão ortodoxos, mas talvez até por isso a sua música revela-se ainda mais excitante. Os álbuns “Pacific” e “Word of Mouth” divergem na apreciação das temáticas originais, no primeiro caso vogando na serenidade dos “airs” interpretados pelo tin whistle e pela flauta, no segundo soltando-se em extroversões instrumentais e vocais em que a gaita-de-foles e a bombarda fazem a festa. Refira-se por último “Fire in the Glen”, do trio composto por Andy Stewart, Phil Cunningham (dos Silly Wizard) e Manus Lunny, semelhante aos Planxty nas vocalizações do primeiro, despreconceituado na utilização do sintetizador e dos teclados eletrónicos apostados em construir uma música que, embora mais sofisticada, não perde de vista as origens que lhe estão na base.

            A audição de qualquer destes discos constitui uma oportunidade única para todos aqueles interessados em conhecer as diferentes vias e ramificações de um género que constantemente se renova e enriquece, apostado, pelo espírito, o sal e a pedra, na edificação do templo dos celtas, de paredes sólidas, totalmente transparentes. Como um prisma de cristal refractando a luz branca nas sete cores do arco-íris.

 

QUARTA-FEIRA, 8 AGOSTO 1990 VIDEODISCOS

29/03/2010

Outubro em Novembro [World]

Sons

27 de Novembro 1998
WORLD

Outubro em Novembro

A música céltica, sem rótulos nem (por enquanto) enfeites de Natal, regressa em força com duas lendas, um Outono de esplendor e uma harpa a celebrar o Cristianismo.

Jacqui McShee pertence a uma geração de vozes femininas sobreviventes dos primórdios do folk-rock britânico dos anos 70, juntamente com Maddy Prior, Shirley Collins, Mandy Morton, Linda Thompson e June Tabor, entre outras. Sandy Denny, essa já não pertence ao mundo dos vivos. Foi nos Pentangle que, ainda nos anos 60, Jacqui se fez notar por uma voz fluida e cristalina que deslizava entre as baladas folk e o jazz. Para trás ficaram álbuns como “Basket Of Light”, “Cruel Sister” e “Solomon’s Seal”, situados um pouco à margem das principais forças motrizes do movimento – Fairport Convention, Steeleye Span, Strawbs, Albion Band – mas que trouxeram para os terrenos da folk uma agilidade que saltava entre o misticismo e o gosto pela improvisação. Passaram os anos e os Pentangle, sempre impulsionados pela voz de Jacqui e pelos talentos instrumentais de Danny Thompson (hoje movendo-se livremente pelas alamedas do jazz), John Renbourn (o medievalista do grupo) e Bert Jansch (estilista da guitarra (fingerpicking”), foram perdendo fulgor, apagando-se, mesmo assim, em glória, com “So Early in the Spring”, lançado há dois anos. Jacqui McShee apossou-se entretanto do nome da banda assinando este novo trabalho como Jacqui McShee’s Pentangle, um colectivo de novos músicos onde avulta o baterista Gerry Conway, ex-Fotheringay. “Passe Avant” é, como seria de prever, um pretexto para pôr em relevo as capacidades vocais da cantora, oscilando entre arranjos ortodoxos de temas tradicionais como “The house carpenter” e “The nightingale” e uma veia jazzística explorada ainda com maior intensidade que nos Pentangle, como “Gypsy countess”. Belíssimas, a incursão pela nova tradição francesa, em “Jardin d’amour”, composto por Pierre Bensusan, o “standard” “We’ll be togheter again” – balada carregada de nostalgia pelo sax fumarento de Jerry Underwood onde a cantora demonstra todas as suas potencialidades expressivas como cantora de jazz – e o tradicionalismo folk (embora num original do grupo...) assumido até às últimas consequências, em “Lagan love”. Já as incursões por um outro tipo de jazz de fusão de modernidade mais do que duvidosa, como “Edson” e “Midnight dance”, só podem ser encaradas como chamadas de atenção para o ecletismo de Jacqui McShee que, todavia, se despede com outra balada tocante, “Just for you (song for Cath), onde as entoações folk e jazz da voz se confundem para nos mostrarem, bem juntas, a emotividade, a subtileza e a interiorização de uma cantora que decorridos trinta anos de carreira amadureceu sem perder a frescura dos primeiros tempos. (Park, distri. Megamúsica, 7).

Outra lenda do “folk rock” inglês, os Steeleye Span, perderam a sua diva, Maddy Prior. “Time”, álbum anterior do grupo, em que Maddy partilhava as vocalizações com Gay Woods (que cantara no primeiro disco do grupo, “Hark! The Village Wait”, antes de formar os The Woods Band com Terry Woods), surge assim como passagem de testemunho entre as duas cantoras, uma vez que em “Horkstow Grange”, a responsabilidade vocal, no sector feminino, passou a ser da inteira responsabilidade de Gay. Menos elástica e de timbre mais metálico (além de uma inconfundível ponta “country”) que Maddy Prior, Gay não deixa, no entanto, os seus créditos por mãos alheias, mesmo quando por vezes recorre a algumas artimanhas de estúdio ou se escuda nas harmonizações vocais colectivas que, de resto, sempre foram uma das imagens de marca dos Steeleye. O violino de Peter Knight, a bateria do multifacetado Dave Mattacks (dos Fairport Convention aos Pere Ubu, bateu todo o terreno...) e a escolha judiciosa dos temas permitem a sustentação de um nível de qualidade mais do que satisfatório. Atente-se na curiosidade que constitui “Queen Mary/Husden house”, com os teclados de Tim Harries simulando uma harpa, numa evocação, precisamente, dos primórdios do grupo, de “Hark! The Village Wait” e “Please to see the King”. E temas como “Bonny birdy” ou “I wish that I never was wed” dão-nos a garantia de que o “folk rock” está longe de ter secado. (Park, distri. Megamúsica, 7).

Na Escócia, os The House Band insistem, por seu turno, em não se deixarem arrastar pela corrente “celtic shit” que vai empurrando para o esgoto um número crescente de produtos cuja quantidade não pára de aumentar, ainda para mais agora que o Natal se avizinha... “October Song” é, diga-se desde já, uma peça fundamental na discografia do grupo. Roger Wilson é um cantor e violinista de formidáveis recursos cuja vocalização em “Seven yellow gypsies” – tema monumental que, se não estamos em erro, é uma variação de “Raggle taggle gypsy”, que recordamos de uma portentosa interpretação pelos Planxty – evoca o melhor de Martin Carthy. Ged Foley faz-lhe frente com “The Factory Girl”, outra canção de antologia de “October Song” ainda, curiosamente, a fazer lembrar o mesmo tipo de abordagem estilística de Martin Carthy. Como de costume, há incursões no Leste, neste caso através do tradicional romeno “Risipiti”, instrumentalmente das melhores coisas que temos ouvido nos últimos tempos. Delírio da bombarda e da flauta. Puro gozo. “The end of the world” repete, com outro título, um tema de “Word of Mouth”, no primeiro de três “an dro” bretões compostos respectivamente por Patrick Molard, Jean-Michel Veillon e Alain Pennec. Os veteranos John Skelton, na flauta, bombarda, gaita-de-foles francesa (na modalidade “veuze”) e whistles, Ged Foley, na guitarra e bandolim, e Chris Parkinson, na concertina e harmónica, derramam o seu virtuosismo num álbum que apenas pecará pelo grafismo, pouco adequado à estética do grupo, da capa. Quanto à música, roça a nota máxima. (Green Linnet, import. FNAC, 9).

Os amantes da harpa voltam a ter motivos de regozijo com o mais recente trabalho de Savourna Stevenson, “Calman the Dove”, projecto conceptual em torno da “celebração da chegada do Cristianismo celta à ilha de Iona”. Executado na sua estreia na abadia da ilha, esta nova versão de “Calman the Dove” reuniu em estúdio a harpista (que neste álbum também toca teclados), Davy Spillane (no “low whistle” e “uillean pipes” e Anne Wood, no violino. Respirando calma e religiosidade, “Calman the Dove” não descura, no entanto, a proverbial tendência de Savourna para, sempre que pode, testar os limites e potencialidades do instrumento, notando-se embora um pendor místico que contraria o lado mais experimentalista de um álbum como “Tickled Pink”. Depois, sabe sempre bem escutar Davy Spillane numa onda de disciplina. (Cooking Vinyl, distri. MC - Mundo da Canção, 7).