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13/05/2026

Les Nouvelles Polyphonies Corses avec Hector Zazou - Les Nouvelles Poliphonies Corses

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

LES NOUVELLES POLYPHONIES CORSES AVEC HECTOR ZAZOU
Les Nouvelles Polyphonies Corses
CD, Philips, import. Contraverso


À primeira vista, “Les Nouvelles Polyphonies…” poderia passar por mais um exemplar, entre muitos, de “world music”. Os arranjos de Hector Zazou introduzem a diferença, num disco que não destoaria na série Made to Measure. No canto corso, de reminiscências gregorianas, por vezes evocativo dos cantares alentejanos, encontrou Zazou matéria suficiente para mais um exercício de miscigenação. Entre o canto poderoso dos rituais “paghjella” que ligam a comunidade às forças cósmicas e a eletrónica. Tradição e futuro irmanados no desejo de elevação. Síntese do antigo e do novo, do Oriente e do Ocidente, do corpo e da tecnologia.

Ponto fulcral de cada tema, as vozes e a sua harmonia determinam a orientação dos arranjos de Hector Zazou e as interpretações de uma constelação de grandes músicos, sensíveis à grandiosidade do terramoto vocal e à essência do canto corso: Ryuichi Sakamoto, Ivo Papasov, Steve Shehan, Richard Horowitz, Manu Dibango, Jon Hassell, John Cale e o grupo de música eletrónica Lightwave, para além do próprio Zazou. Como se pode ler na contracapa: “Declaração de amor, poemas de esperança ou de sofrimento, as polifonias cantam também a terra queimada pelo sol, a água que corre, o crepúsculo e a alvorada, a alma profunda do povo corso. (8)

02/05/2025

À medida do génio [Hector Zazou]

 

Pop

A DISCOTECA

 

À MEDIDA DO GÉNIO

 

O argelino Hector Zazou, natural de Sidi-Bel Abbés e marselhês nas horas vagas, apresenta, no próximo sábado em Lisboa, a sua mais recente bizarria, “Les Nouvelles Polyphonies Corses”, fusão eletrónica neobarroca das polifonias vocais daquela região com classicismo subversivo e manipulações digitais.

 


Zazou começou por tornar-se notado pelo tamanho um pouco exagerado dos apêndices auditivos, também conhecidos por “orelhas”. Para disfarçar tal exagero, dedicou-se à música, diga-se desde já que com ótimos resultados, sendo hoje considerado um dos expoentes da nova música europeia, aliando um conhecimento profundo da tradição clássica a uma visão descentrada e pluralista das correntes atuais. Não é fácil encontrar nos anais recentes da história dos alguém que se movimente com tamanha mestria e à-vontade em terrenos tão díspares como a música africana, o “funky”, a eletrónica planante ou “pastiches” sintéticos do romantismo ocidental. A sua obra reflete na perfeição um percurso acidentado mas sempre coerente, de constante pesquisa e derrube de tabus estéticos mais renitentes.

           

Barricadas

 

            “Barricades” designa a formação de perto de vinte músicos com que se iniciou nas lides musicais e, simultaneamente, o primeiro longa-duração do duo ZNR, juntamente com Joseph Racaille. “Barricades 3”, o disco, é uma misteriosa congregação de silêncios e rendilhados pianísticos, homenagem a Satie, Poulenc, Debussy e Ravel, mestres do piano longínquo e lunar, estilhaçados por solos convulsivos de saxofone e sintetizadores humorísticos e circenses. Os ZNR gravaram um segundo álbum, “Traité De Mécanique Populaire” (1977), ironicamente uma recolha de pequenas peças de música de câmara, subtis miniaturas na veia mais esotérica e subliminarmente esquizofrénica de Erik Satie.

            De subliminar nada há no álbum “La Perversita”, este sim declaradamente esquizoide, fruto do contacto americano com as experiências demenciais dos Suicide e os repetitivismos obsessivos de Philip Glass. O álbum , produzido pelos lunáticos da “Bazooka”, é um repositório de sons “disco” minimalistas e textos pornográficos.

 

Preto e Branco

 

            O ritmo passa a ser uma constante na fase seguinte, através de uma associação com o cantor zairense Boni Bikaye. “Noir Et Blanc”, de 1983, é o fruto primeiro desta associação, síntese magistral do batuque e do canto africanos, filtrados e tratados pelo computador, dançável e inteligente. Fred Frith e Marc Hollander deixaram-se contagiar, trocando o intelectualismo conceptual pela alegria primitiva e exaltante do transe rítmico. O mini “Mr. Manager” e o recente “Guilty” apontam mais descaradamente para as pistas de dança, sem no entanto perder de vista uma complexidade formal que faz parecer simples o que é complicado, apoiada em notáveis e arrojadas técnicas de gravação.

            Mas é com a entrada para a editora belga Made To Measure que Zazou integra definitivamente a elite dos novos compositores europeus. “Reivax Au Bongo”, feito à medida para uma fotonovela imaginária, é a obra máxima da dupla Zazou-Bikaye. O primeiro lado parodia e recria aquilo que poderíamos definir como uma espécie de psicadelismo pop africano, com Boni na pele de “popstar” e Hector divertidíssimo a trocar as voltas à lógica e truques do género. Ainda mais inesperado é o segundo lado: quatro peças de cântico gregoriano hereticamente feminino e eletronicamente sintetizado.

 

Geografias

 

            “Géographies”, de 84, é mais sério na forma aparente mas totalmente subversor dos códigos habituais. Música híbrida e ambígua, falsamente clássica, flutuando num universo lírico movediço e rico de sugestões oníricas (títulos de faixas como “Motel du Sud” ou “Denise à Venise” são todo um programa de férias na região dos sonhos), permeável a todos os parasitismos, à beira da dissolução e de difícil mas com compensadora audição.

            “Géologies” (89) culmina este processo, sendo, por força da habituação e continuação dos pressupostos anteriores, mais facilmente apreensível. A fascinação que Zazou nutre pela voz humana, atinge o auge nestes dois discos, paradoxalmente, no tema final, com a utilização da voz “samplada” de Bikaye, e cujo resultado se aproxima muito da perfeição. Com as novas polifonias corsas, teremos oportunidade de verificar em que ponto se encontra esta aproximação.

 

VIDEODISCOS QUARTA-FEIRA, 9 MAIO 1990

16/10/2019

Le crème de da Crammed


Y 25|JULHO|2003
música|crammed

Nos anos 80, a editora belga Crammed provou que a música popular podia voltar a ambicionar ser obra de arte. Ou, se não, a pôr um bigode no nariz do classicismo. Afinal de contas, Dada também se podia dar ao luxo da luxúria.

Le crème de la Crammed



Os “eighties” foram mais do que o reservatório de óleos pesados, faíscas elétricas e quinquilharia “glamour” que hoje, devidamente reciclados, tomaram a forma de “electroclash”, “tecnocoisa” e outras designações estapafúrdias que mais não servem do que para embalar produtos, na sua maioria, absolutamente destituídos da menor mais-valia musical.
            Havia, é certo, os Human League, Orchestral Manoeuvres in the Dark, Tubeway Army ou Berlin Blondes para fazer a ligação entre a monstruosidade industrial dos Throbbing Gristle, Test Dept., SPK e os primeiros Cabaret Voltaire, e as afetações dos chamados neo-românticos (Spandau Ballet, Duran Duran, Classix Nouveaux, etc). Era a maneira de tornar inofensiva uma atitude que levava a rebeldia “punk” aos extremos da ideologia, da tecnologia e da magia. A par destas manobras mais ou menos subversivas, a pop, claro, continuou a sua viagem de longo curso.
            No continente, porém, uma terceira via emergiu, o lado “arty” dos anos 80, ponto de cruzamento de mil e uma estéticas, da pop à música contemporânea, da étnica à eletrónica, da clássica ao minimalismo, do jazz às sínteses mais inverosímeis – repondo a questão, deixada em aberto com a irrupção explosiva do “punk”, de como continuar as experiências direcionadas para uma música, dita “pretensiosa”, encetadas na década anterior pelo rock progressivo.
            Em Inglaterra já havia quem tratasse do assunto, na cooperativa, editora e distribuidora Recommended que, a partir das sementes lançadas pelos Henry Cow e pelo movimento RIO (“Rock In Opposition”), criara o chamado “rock de câmara”, personificado por bandas como os Art Bears, News from Babel, Present, Conventum, Univers Zero e Art Zoyd.
            Na Bélgica constituiu-se a sede do contrapoder, com a criação, em 1981, por Marc Hollander, e Véronique Vincent, da editora Crammed, rapidamente extensiva a uma sua subsidiária, a Made to Measure, vocacionada para a divulgação de propostas mais elitistas e totalmente desfasadas da “normalidade”. A Cramworld, especialista em “world music” surgiria alguns anos mais tarde. Tinha assim início uma aventura “com base em encontros, paixões, ruturas e flirts musicais”, mas também resultante de uma rede de cumplicidades que viria a envolver ainda Hann Gorjaczkowska, responsável pela direção artística e gráfica, Vincent Kenis e Samy Birnbach, dos Minimal Compact, hoje operativo nas pistas de dança com a designação DJ Morpheus.
            Marc Hollander e Véronique Vincent eram, são, ambos músicos. Marc fundou um dos grupos mais importantes dos anos 80, situado na charneira entre o polo Recommended e o europeísmo “dandy” da sua própria editora, os Akasak Maboul. Véronique era a cantora dos The Honeymoon Killers. Grupos que, curiosamente, permaneceram até à data com dois dos seus trabalhos a não merecerem honras de reconversão para CD. O presente pacote de 12 reedições, genericamente embalado com o rótulo “Crammed Global Soundclash, 1980-1989” (mais duas coletâneas, uma centrada nas fusões “world”, outra na “electrowave”) disponibiliza-os, enfim: “Onze Danses pour Combattre la Migraine”, que tanto pode ser encarado uma proto-encarnação dos Aksak Maboul como um trabalho a solo de Hollander, e “Les Tueurs de la Lune de Miel”, álbum único dos The Honeymoon Killers.

            feito à medida. À Made to Measure, subsidiária da Crammed, coube a tarefa de abrir os portões de um novo mundo. De súbito, a Europa começou a reparar na existência de uma nova música, luxuosamente embalada e produzida, que escapava às habituais catalogações de estilo. Álbuns “feitos à medida” de uma conceção estética que poderíamos designar por “neoclássica” de acordo com o propósito da criação de uma coleção de objetos únicos – obras de arte na verdadeira aceção da palavra. Foi, além disso, uma das primeiras editoras, senão mesmo a primeira, a lançar o conceito de “série”, englobando a diversidade em caixas com selo de marca num misto de obscurantismo quase esotérico e apelo gráfico irresistível. Mais importante que tudo: as músicas que ostentavam na capa a tira “Made to Measure” eram garantia de surpresa e de associações musicais sem paralelo.
            O cartão de visita, com número de série MTM1, veio à luz em forma de antologia, com a participação dos Aksak Maboul, Tuxedomoon, Minimal Compact e Benjamin Lew em inéditos compostos de propósito para ela. O destino estava traçado e os números da série seguinte dariam a conhecer algumas obras marcantes da música alternativa dos anos 80. Os melhores: “Reivax au Bongo”, de Hector Zazou (faz parte do atual pacote), “Colorado Suite”, de Blaine L. Reininger e Mikel Rouse, “western spaghetti” em forma de “opus” minimalista (“Philip Glass meets Bonanza”, como escreveu alguém), “A Walk in the Woods”, de The Mikel Rouse Broken Consort, minimalismo com eletrónica e costela romântica, “Sedimental Journey”, de Peter Principle, fragmentos quebrados e incongruentes dos Tuxedomoon, misturados com poemas e interferências cósmicas. “Géographies”, de novo Hector Zazou, Wagner, Raul Ruiz e ZNR em sinfonias de ópio, “Stranger than Paradise”, de John Lurie, “Desert Equations: Azax Attra”, de Sussan Deyhim e Richard Horowitz (incluído no pacote), “Music for Commercials”, de Yasuaki Shimizu, electroanúncios para televisão. “If Windows They Have”, de Daniel Schell & Karo, neo-tudo e obra-chave dos 80, “Down by Law”, de John Lurie, mais BSO em formato de jazz “downtown” de câmara, “Douzième Journée: Le Verbe, la Parure, l’Amour”, segredos e romances eletrónicos, outro clássico, e a sua sequela, “A Propos d’un Paysage”. “Tone Poems”, de Peter Principle, o título diz tudo e não diz nada, “Géologies”, de Hector Zazou, na linha de “Géographies”, “Pretty Ugly”, de Peter Scherer e Arto Lindsay, “noise” e “no rock” domesticados mas não menos sinistros para um “ballet” de Amanda Miller, “Arrows”, de Steve Shehan, “world music” de uma galáxia distante.
            Mais recentes: “Le Secret de Bwlch”, de Daniel Schell e Karo, refinamento da nova “chamber music” deste grupo suíço, “Domino One”, de Ramuntcho Matta, “kitsch”, vudu, carnaval, sons de água e de galinhas. Mais convencionais, semi-fracassados ou “excêntricos” pelos motivos errados (exibicionismo sem nexo nem propósito), encontram-se discos de Benjamin Lew, Samy Birnbach e Benjamin Lew (“Nebka” e “Le Parfum du Raki” não estão ao nível dos duetos com Steven Brown), Fred Frith (a BSO, pouco gratificante, “The Top of His Head”), Steven Brown & Delphine Seyrig, Zelwer, Gabor G. Kristof, Karl Biscuit, Seigen Ono, David Cunningham (fez bem melhor do que aqui, com “Water”), ainda Hector Zazou (o redundante “Sahara Blue” e “Glyph”, com Harold Budd), Brion Gysin (neste caso, a conversa é mais que música...) e John Lurie National Orchestra.
            Tudo somado, dá para uma quantidade de horas de audição, deslumbramento e, eventualmente, desorientação. As medidas da Made to Measure variavam com a mesma facilidade que a arquitetura das cidades obscuras em BD de Schwitens e Peeters. Mas a Crammed reservou outras das suas preciosidades para o seu próprio catálogo. O bolo teve mais do que uma cereja no topo.


doze danças para combater a enxaqueca

AKSAK MABOUL
Onze Danses pour Combattre la Migraine (1977)
8|10

Fica finalmente disponível em CD o antecessor de “Un Peu de l’Âme des Bandits”. Marc Hollander assegura a quase totalidade da composição e instrumentação deste disco em que o rock de câmara ganha as tonalidades de música de feira, com as suas caixas-de-ritmo de primeira geração, minimalismo “kitsch”, divagações de jazz e variedades impressas em cartões de visita desbotados que evocam os “orgues de barberie” de Pascal Comelade. Um álbum que ditaria algumas das vias posteriormente seguidas por outros artistas do catálogo.

TUXEDOMOON
Desire (1981)
10|10

Exilados na Europa, os norte-americanos Tuxedomoon abandonaram o pós-punk erudito que marcou o seu álbum de estreia na Ralph, inevitavelmente influenciado pelo som dos Residents, para mergulharem no crepúsculo de uma música que aliava a nostalgia ao futurismo. Ritmos automáticos, o violino “alien” de Blaine L. Reininger, o arsenal de efeitos eletrónicos desconjuntados de Peter Principle e os teclados e sopros de Steve Brown, capazes de se infiltrarem no sangue de um jazz doente como um antibiótico, servem canções sobre a decadência do amor e do Ocidente.

HONEYMOON KILLERS
Les Tueurs de la Lune de Miel (1982)
8|10

Os assassinos da lua-de-mel, bizarra formação franco-belga liderada pelo saxofonista, já falecido, Yvon Vromann, não são assim tão violentos, embora se inspirassem no “punk” e na “new wave”, mas seguindo um figurino francês. O lado “arty” emerge, porém, quando menos se espera, nas aproximações jazz/burlescas de uns Etron Fou Leloublan enquanto o sorriso pop chega a ser pateta numa faixa como “Histoire à suivre”, com sabor a Jane Birkin. Tudo estaria bem se não houvesse um saxofone a gritar “free jazz”. E há coisas como faziam os Kas Product (lembram-se?) e os Alésia Cosmos (ninguém se deve lembrar…). Eletrónica no batedor e ritmos Recommended integram igualmente este curioso objeto que agora surge aumentado por temas extra, entre os quais um “live” com os Aksak Maboul.

BENJAMIN LEW
Compiled Electronic Landscapes (1982)
8|10

Antologia de fragmentos e paisagens eletrónicas extraídos dos álbuns a solo “Nebka” e “Le Parfum du Raki”, bem como das anteriores e francamente superiores colaborações com Steven Brown. Os títulos e ambientes dir-se-iam recortados de um filme de Marguerite Duras ou do “Marienbad” de Resnais. Portos do Mediterrâneo, ventos do deserto, as aventuras de Adéle Blanc-Sec e de Arsène Lupin na Paris da Belle Époque em quadros eletrónicos onde a influência de Eno se veste com o onirismo dos filmes do inconsciente.

ZAZOU, BIKAYE, CY1
Noir et Blanc (1983)
8|10

Desta colaboração entre Hector Zazou, previamente nos ZNR, o cantor congolês Boni Bikaye e o grupo de eletrónica Cy1 resultaria um dos primeiros exemplares de etnotecno, antes da queda na variante etnoseca. As programações, imbuídas do calor próprio dos sintetizadores e sequenciadores analógicos, seguram danças dervíshicas enfeitadas pelos cânticos afro de Bikaye. Absolutamente hipnótico ou, como alguém descreveu na altura esta fusão de prototecno e arvoredos “world”: “Fela Kuti meets Kraftwerk on the dance floor. Arrumar ao lado da variante kraut e, inevitavelmente, mais fria, “Zero Set”, de Dieter Moebius, Conny Plank e Mani Neumeier.

MINIMAL COMPACT
Deadly Weapons (1984)
6|10

Samy Birnbach e a israelita Malka Spiegel fizeram dos Minimal Compact uma das bandas da Crammed com maior projeção fora de portas. A mistura de elementos rock com melodias e sonoridades do Extremo Oriente, onde alguém, mais excitado, viu o encontro de Ian Curtis com a cantora folk egípcia Oum Kalsoum, não resistiu ao desgaste do tempo, ouvindo-se hoje como um típico objeto dos anos 80 pós-Joy Division, já impregnado pelo espírito electro.

KARL BISCUIT
Secret Love (1984)
5|10

Karl Biscuit era uma figura enigmática que aparece na capa de “Secret Love” a fazer o número do manequim romântico. Apesar das referências aos Depeche Mode e aos Human League e da graça de lhe terem chamado “Julien Clerc em três dimensões”, a pop eletrónica e as “torch songs” de pacotilha servidas em bandeja de mambo e eletrobeats baratos é pouco convincente enquanto testamento musical deste francês hoje responsável pela companhia de dança Castafiore.

HECTOR ZAZOU
Reivax au Bongo (1986)
9|10

Registado originalmente na Made to Measure, “Reivax au Bongo” é um daqueles discos que parecem saídos do sonho de um louco. Composto como banda sonora para uma telenovela imaginária (!), o “primeiro lado” experimenta, num contexto de desenhos animados, as vocalizações étnicas de Boni Bikaye, Kanda Bongo Man e Ray Lema. Tão delirante como exótico, este primeiro segmento não faz prever o que se segue: naipes grandiosos de música coral cantada por donzelas e querubins que se elevam nas alturas como um madrigal pré-barroco de Gabrielli ou Heinrich Schütz.

COLIN NEWMAN
Commercial Suicide (1986)
6|10

Pop eletrónica com dose de excentricidade q.b. pelo ex-vocalista dos Wire, em colaboração com John Bonnar, Malka Spiegel e o engenheiro de som/produtor e alicerce do chamado “som belga”, Gilles Martin. A par de canções padronizadas na pop eletrónica da época, a presente reedição junta-lhes um inédito com Newman a falar da sua música, sobre fundo sonoro. Os mais exagerados viram neste álbum as mesmas qualidades de “Rock Bottom”, de Robert Waytt, e de “The Madcap Laughs”, de Syd Barrett, mas a verdade é que a este “suicídio comercial” falta tanto a tragédia como a loucura.

SONOKO
La Débutante (1988)
7|10

Disco de uma beleza fora do vulgar a deste baile de debutante de uma cantora japonesa com voz de boneca caída no jardim de Virginia Astley. O som de dar corda a uma caixa-de-música dá o mote a uma coleção de melodias frágeis, por vezes arrebatadoras, que incluem uma mutação cândida de “Cheree”, dos Suicide, modificada para “Cheri cheri”, uma letra de Shakespeare, uma dedicatória a Brigitte Bardot, “La poupée qui fait non”, de Michel Polnareff, música de igreja, um requiem de Gabriel Fauré (1888) e uma arrepiante, porque falsamente ingénua, versão de “In heaven”, da banda sonora de “Eraserhead”, de David Lynch. No filme o tema é cantado por uma bailarina que vive dentro de um radiador, ao mesmo tempo que pisa espermatozoides: “In heaven everything is fine”.

SUSSAN DEYHIM & RICHARD HOROWITZ
Desert Equations: Azax Attara (1987)
8|10

Étnica, técnica, tecno, cânticos da Pérsia, programas de computador, “drones” e dunas. Danças eletro em contraponto com uma voz planetária. O escritor Paul Bowles perguntou, a propósito, se esta música foi composta sob a influência de algum alucinogénico, enquanto Jaron Lanier, cientista, compositor e inventor da realidade virtual fala de uma genuína viagem dos corpos através de uma paisagem hi-tech. “Azax Attra” percorre-se como se pisássemos o solo de uma ilusão e subitamente sentíssemos no rosto o choque da areia empurrada pelo vento.

BEL CANTO
White-out Conditions (1988)
7|10

Muito antes dos icebergs imóveis dos Sigur Rós, os noruegueses Bel Canto, da cantora Annelli Marian Drecker, lançavam ao mar o conceito de pop ártica que viria a ramificar-se na atualidade por nomes como Biosphere, Chiluminati e Röyksopp. Apesar da rítmica ser de gelo, chovem melodias capazes de inflamar os corações, como “Blank sheets”. Fizeram-se comparações com os Cocteau Twins, Sara MacLachlan, Dead Can Dance e Talk Talk, mas é mais singelo do que isso.

23/02/2018

Hector Zazou + Sandy Dillon




Fernando Magalhães
18.01.2002 180650

A música do Hector Zazou está ao seu melhor nível, numa linha algo industrial pouco habitual nas suas gravações mais recentes.
Quanto à voz da Sandy Dillon, soa demasiado punk e gritada para meu gosto. Mas é apenas a minha opinião.

Voltando ao Zazou, considero o "Les Chansons..." um dos seus álbuns mais fracos.

Recomendo vivamente os seguintes: "Noir et Blanc" (nunca a música de computadores soou tão funky...), "Reivax au Bongo" (o classicismo angelical de um lado + o humor afro telenovelístico, do outro!), "Géographies" e "Géologies" (neo-classicismo surreal).

E que tal procurar o "Satieano" e absolutamente original "Barricades", ainda com o grupo ZNR (Zazou + Joseph Racaille)?

FM


Fernando Magalhães
18.01.2002 190703

Já agora, uma retificação :). O "Les Chansons..." até nem é um dos álbuns mais fracos do HZ, como escrevi há pouco. Confundi-o com um que ele gravou a seguir, já muito voltado para a eletrónica de dança.
Digamos que coincide com o período de transição da época áurea para o período dos $$$$$$$.

FM

16/02/2018

Os melhores do ano 1991 [Eletrónica + World]


Pop Rock
1991

os melhores do ano

ELETRÓNICA

O ano que passou foi de triunfo para os eletrões. A eletricidade sempre foi um bom circuito de informação. Os sinais não enganam: passado e futuro tocam-se e confundem-se. Na Europa, sobretudo, de novo se constrói a torre de Babel.

Delerium
            Stone Tower
                (Dossier)
Produto típico da ala negra dos pseudomagos que apostaram em dar cabo das nossas cabeças, por dentro e por fora. Neste caso não há agressões psíquicas abaixo dos 2Hz ou acima das “frequências caninas”, nem grandes rituais de sangue provocados pelo rebentamento de tímpanos. Pelo contrário, embora na capa proliferem as habituais imagens de corpos em agonia, caveiras e arquiteturas de pesadelo, os Delerium, fação “ambiental” dos Front Line Assembly, enveredam pelas religiosidades obscuras, abrindo paisagens de sombra e labirintos por onde divindades pagãs aproveitam para se infiltrar. Longos mantras etno-demoníacos que incluem na versão CD cerca de meia hora extra de hipnose. Um tratado de necromancia que pode provocar habituação à paranóia. Para ouvir de noite, com cuidado.

Hans-Joachim Roedelius
            Der Ohren Spiegel
                (Multimood)
Dividido entre a devoção ao piano, a Erik Satie e Alban Berg e a nostalgia das explorações eletrónicas de antanho realizadas com Dieter Moebius, nos Cluster, Roedelius consegue aqui o equilíbrio perfeito entre duas pulsões contraditórias, a simplicidade e o barroco. Exorcizado o espectro das teclas de marfim em “Piano Piano”, para piano solo, Roedelius revela-se como um arquiteto de sons visionário, ombreando com Brian Eno na construção de estruturas tímbricas e harmónicas (no seu caso bastante mais complexas que as do autor de “Discreet Music”) que parecem desafiar a gravidade. “Reflektorium”, o tema mais longo do CD, tem o esplendor, os reflexos matizados e o requinte do pormenor de um candelabro de cristal.

Holger Hiller
            As Is
                (Mute)
Antigo membro dos Palais Schaumburg, autor de óperas sobre “calças” e auditor atento de Stockhausen, Faust, Einstuerzende Neubauten e de música pop num rádio a pilhas mal sintonizado, Holger Hiller produz música dourada a partir de detritos e excrescências sonoras a partir de excertos de Wagner. Diverte-se a misturar pedaços de sinfonias, de ruídos, de vozes e melodias incertas no seu cadinho de alquimista louco – o “sampler”, máquina mágica onde nada se perde e tudo se trasforma. À semelhança dos geniais “Ein Bundel Faulnis in der grube” e “Oben im Eck”, “As Is” é “como é”, um programa musical, na aparência sem sentido, mas onde a cada segundo o som dispara em direções surpreendentes, das refrações “dub” à pop do outro lado do espelho. O discurso da esquizofrenia tem a sua lógica própria.

Kraftwerk
            The Mix
                (EMI)
Ralf Hütter e Florian Schneider não vão atrás da Europa, a Europa é que lhes segue no encalço. Os dois alemães vestiram de novo as fardas de humanóide, carregaram baterias, ligaram os interruptores do estúdio Kling Klang e procederam como cirurgiões-robô especializados, com bisturis laser e uma ironia não menos cortante. Operaram maravilhas de cirurgia plástica nos clássicos da “techno-pop” industrial gerados pela maquinaria do Rur e polidos no paraíso de cristais de quartzo e fibra ótica de “Silicon Valley”: “The Robots”, “Computer Love”, “Autobahn”, “Radio Activity”, “Trans Europe Express” – binários e insinuantes como sempre, e agora mais dançáveis do que nunca. Regresso em forma ao futuro.

O Yuki Conjugate
            Peyote
                (Multimood)
Alinhados com os Lights in a Fat City, afilhados de Jon Hassell e das músicas do “quarto mundo”, atentos às pulsações das culturas e dos mitos africanos e aborígenes, os O Yuki Conjugate desenham os contornos de uma “realismo fantástico” que povoam de monstros projetados pela tecnologia eletrónica. “Peyote”, como o anterior “Into Dark Water”, sendo mais um produto representantivo da grande síntese do final do milénio, tendência “novo primitivismo”, avança por alamedas laterais, por via da alucinação, abolidas as noções tradicionais do espaço e do tempo. Música intuitiva, elemental, naturalista por essência e ambígua na condição de ícone da nova idade das trevas. Se “Into Dark Water” era a escuridão do fundo oceânico, “Peyote” é a miragem do deserto, a vibração desfocada, o retorno ao incriado.


WORLD

1991 foi sobretudo o ano de reedições em CD, de parte de discografias importantes – dos Planxty, Chieftains, Malicorne, Milladoiro e Steeleye Span. Tudo importações, claro. Outras “novidades” chegaram ao mercado nacional pelo menos com um ano de atraso, razão por que não puderam constar da presente lista.

Ad Vielle Que Pourra
            Come What May
                (Green Linnet)
Originários do Canadá, os Ad Vielle Que Pourra pretendem “unir o caldeirão de influências americano às raízes europeias”. Aliam o virtuosismo, ecletismo e magia, um pouco à maneira de uns Blowzabella mais extrovertidos. Há na música dos Ad Vielle uma energia contagiante, resultante da correta assimilação e articulação da tradicção francesa, e em particular da bretã, com a música de realejo, as valsas palacianas ou a canção de cabaré, em combinações instrumentais, ora frenéticas, ora bizarras, da bombarda e da gaita-de-foles flamenga, da sanfona, do violino, do acordeão e do bouzouki… Música para “viajar pelo mundo ou pelo interior de nós próprios”.

Catherine-Ann MacPhee
            Chi Mi’n Geamhradh
                (Green Trax)
Catherine canta em gaélico as habituais histórias da história escocesa, às quais a mistura das brumas célticas com as névoas não menos poéticas do “whisky” retira um pouco de credibilidade. Mas a falta de rigor científico e o tom pueril de canções como aquela que narra os desgostos amorosos de “um jovem vendo a rapariga que ama abandoná-lo, para casar com outro, o que lhe parte o coração [ao jovem, não ao outro]” são compensados pela excelência do canto. Entre um acompanhamento instrumental invulgar, a harpa cintilante de Savourna Stevenson garante, por si só, o sortilégio.

Hamish Moore & Dick Lee
            The Bee Knees
                (Green Linnet)
Caminho difícil e excitante, o da fusão das sonoridades tradicionais com o jazz. John Surman (“Westering Home”), Ken Hyder’s Talisker ou Jan Garbarek (“I Took up the Runes” e “Rosensfolle”, este com Agnes Buen Garnas), do lado do jazz, já o haviam tentado com sucesso. Do “outro lado”, registe-se a fase inicial dos Gwendal, de “À vos Désirs”, os suecos Filarforket, em “Smuggel” os ex-jugoslavos Zsarátnok, em “Holdudvar”, June Tabor em “Some Other Time”, Savourna Stevenson, em “Tweed Journey”, e aproximações pontuais da malograda Sandy Denny. “The Bee Knees” vive do diálogo/confrontação entre a gaita-de-foles e o “tin whistle” tradicionais de Hamish Moore, e os saxofones e clarinete-baixo de Dick Lee. Os puristas poderão franzir as sobrancelhas. Mas as pulsações do coração e as pernas nem por isso deixarão de acelerar.

Les Nouvelles Polyphonies Corses avec Hector Zazou
            Les Nouvelles Polyphonies Corses
                (Philips)
Sensível ao poder do eixo que liga a pedra e a terra ao céu, Hector Zazou, num exercício que acaba por se assumir como ponto culminante e corolário lógico de “Géographies” e “Géologies”, soube manter os computadores à distância exata da religiosidade e do arrebatamento do canto corso, deixando-lhes o espaço necessário à oração e à elevação. Os sons eletrónicos ou da profusa instrumentação utilizada neste projeto não interferem com a energia do canto, antes lhe servem de alavanca de apoio, facilitando-lhe a ascese e constituindo um estímulo adicional ao discurso da alma. A constelação de “figuras” presentes – Ryuichi Sakamoto, Ivo Papasov, John Cale, Steve Shehan, Manu Dibango, Richard Horowitz, Jon Hassell – participa e assiste fascinada à cerimónia.

Ron Kavana
            Home Fire
                (Special Delivery)
Permanecendo de certo modo à margem do circuito “folk” britânico tradicional, Ron Kavana é um rebelde apostado em dotar a música irlandesa de uma carga política que tende, por vezes, a ser minorizada, em detrimento do seu lado poético-mitológico. “Home Fire” recusa o perfecionismo de estúdio que, nos últimos anos, tem vindo a retirar muito da espontaneidade que caracterizou o grande “boom” da década de 70, traduzido no aparecimento de grupos como os Planxty, Bothy Band, De Dannan e Five Hand Reel, entre outros. Solução de compromisso entre as sonoridades mais marcadamente célticas das danças e dos instrumentais, e a importância dada às palavras, nas baladas de tom intervencionista. Mil vezes mais eficaz que Billy Bragg e infinitamente mais rico em termos musicais.

29/03/2010

Hector Zazou - Lights In The Dark + Jon Anderson - The Promise Ring

Sons

6 de Novembro 1998
DISCOS – POP ROCK

“Lights in the Dark” e “The Promise Ring” têm em comum ocuparem-se da música céltica e serem ambos perfeitamente dispensáveis. Já o escrevemos antes: o “celtic revival” – que nos últimos anos se tem expandido por objectos intragáveis onde os termos “fusão” e “new age” juntam esforços naquilo que têm de pior, a plastificação e normalização de um certo imaginário de pseudomisticismo – está a dar uma imagem degradada e cada vez mais dependente das regras de mercado da genuína tradição do périplo celta.
Hector Zazou é um caso perdido sendo difícil reconhecer no autor de “Lights in the Dark” o mesmo músico que fez parte dos ZNR ou que assinou obras da categoria de “Noir et Blanc” (com Boni Bikaye), “Reivax au Bongo”, “Géographies” e “Géologies”. “Lights in the Dark” pretende dar uma visão plena de solenidade da música religiosa da Irlanda do período de transição do paganismo para o cristianismo, introduzido na ilha por São Patrício. Mas ou os vitrais estavam foscos ou o estúdio mal iluminado. Não há luz que consiga romper as trevas de um disco amorfo que dá da religiosidade dos antigos celtas a imagem de um hipermercado de santinhos e santinhas.
Como sempre, Zazou convidou uma lista imensa de convidados de luxo – Mark Isham, Kristen Nogues, Thierry Robin, Carlos Nuñez, Peter Gabriel, Jacques Pellen, Brendan Perry (Dead Can Dance), Caroline Lavelle, Ryuichi Sakamoto, Minna Raskinen e Didier Malherbe... –, o que não impede que “Lights in the Dark” seja uma espécie de sombra negra de “Vox de Nube”, de Noirín Ni Riain a quem, de resto, o francês de ascendência argelina agradece pela recolha de material e pela sua “espiritualidade céltica”. Não chega colar harpas, por Katie McMahon e Kristen Nogues, e coros celestiais, pelas vozes de Breda Mayock e Lasairfhiona Ní Chomaola (Loreena, Enya, são tantos os anjos e tantos os céus de néon...), aos computadores para beijar os calcanhares da divindade.
Jon Anderson chegou, também tarde, a um “pub” irlandês, o Frog’n Peach, em San Luis Obispo, onde afirma ter ouvido a melhor música que alguma vez lhe chegou aos ouvidos. Com ascendência irlandesa e escocesa, o antigo vocalista dos Yes jurou gravar com os músicos que nessa noite deram mais vida às suas libações, e assim fez. Os cerca de 30 músicos da Froggin’ Peach Orchestra, sem serem grandes músicos, dão vitalidade e autenticidade a “The Promise Ring”, uma “session” carregada de optimismo, através da qual Jon Anderson faz passar a sua mensagem habitual de boas-vindas ao novo mundo que está mesmo aí a romper. Simpático, mas inconsequente.

Hector Zazou
Lights in the Dark (5)
Detour, distri. Warner Music

Jon Anderson
The Promise Ring (5)
Omtown, distri. EMI - VC

18/05/2009

Barbara Gogan & Hector Zazou - Made On Earth

Sons

17 de Outubro 1997
DISCOS – POP ROCK

Barbara Gogan & Hector Zazou
Made on Earth (5)
Crammed, distri. Megamúsica

Por uma malfadada coincidência “Made On Earth” surge imediatamente a seguir ao novo dos Portishead, não saindo a ganhar da comparação. Hector Zazou – e é dele que falamos em primeiro lugar porque a senhora que já cantou nos Passions e que dá voz a este disco, não passa aqui de objecto decorativo – transformou-se num músico politicamente correcto cujos inegáveis talentos estão hoje em dia exclusivamente ao serviço do mercado. Está na mesma situação que Ryuichi Sakamoto ou Michael Nyman, todos eles a merecerem férias. “Made on Earth” é um daqueles discos que investe num modelo de produção corrente, neste caso o “trip hop” (género, aliás, também já a pedir reforma) onde a substância é substituída pelo estilo. Em termos vocais, Barbara Gogan recupera algumas das fórmulas tanto dos Portishead como dos anémicos Smoke City, mas de uma forma preguiçosa, arrastando-se, faixa a faixa, num lamaçal de total ausência de criatividade. As ideias de Zazou limitam-se a pôr em prática um trabalho de ornamentação, sem dúvida meticuloso e de inexcedível bom-gosto, mas onde volta a ser evidente uma notória falta de vontade em inovar dentro dos modelos seleccionados. O que vale por dizer que “Made on Earth” se esgota nos méritos da produção e da gravação – mesmo com o envolvimento de gente como Peter Scherer, Brendan Perry, Marc Ribot – sem que nele se vislumbre algo do que fez de Hector Zazou um músico diferente, tanto nos ZNR como em álbuns inovadores como “Noir et Blanc” (com Boni Bikaye), “Reivax au Bongo”, “Géographies” e “Géologies”.

22/11/2008

Harold Budd & Hector Zazou - Glyph

Pop Rock

6 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Tempos de seca

HAROLD BUDD & HECTOR ZAZOU

Glyph (6)
Made to Measure, distri. Megamúsica

Harold Budd e Hector Zazou, muito juntinhos, aderiram à moda da “etno-seca”. Caso fossem outros, a coisa passava como uma piada. Mas, dado que são quem são, convirá fazer alguns esclarecimentos. A temível, anedótica ribombante batida “seca” (vamos chamar-lhe assim, para abreviar e dado que a contrapartida “etno” até nem está presente neste disco) é rigorosamente igual em todos os discos onde aparece. Não acreditamos que dezenas, centenas de músicos tenham ouvido na cabeça ou sentido no coração o mesmo ritmo. Trata-se então de um modelo de produção. Que soa a falso.
Veja-se: no contexto em que se insere – seja no étnico de fusão ou no ambiental ritmado -, a batida “seca” está a mais. O lado étnico dispensa-a porque já tem os seus ritmos próprios e naturais. O ambiental, por seu lado, não tem ritmo nenhum. Logo, qualquer acrescento “antinatura” soa como intruso. A batida “seca” é um compromisso. Uma tentativa de tornar acessíveis, logo, mais comercializáveis, dois campos musicais considerados “difíceis”. Não é carne nem peixe, mas uma excrescência monstruosa. E incómoda. Neste sentido, a “seca” equipara-se ao “disco-sound” dos anos 70. O que de início constituiu alguma inovação transformou-se em poluição.
Abstraindo-nos deste pequeno senão, “Glyph” evidencia algumas das traves-mestras sobre as quais repousam as obras passadas de Budd e Zazou. As aguarelas de orvalho do pianista, a relojoaria fractal do argelino naturalizado francês.
Os títulos, cuidadosamente escolhidos, são invenções do autor de “Plateaux of Mirror”, conhecido pelo seu gosto pela escultura fonética e poética das palavras. De Budd decorrem ainda as sequências declamadas, pontuando as diversas geometrias instrumentais, algo que o pianista introduziu na sua estética a partir de “By Dawn’s Early Light”, álbum de 1991. Zazou contribui com as notas discordantes, provocando alguma inquietação e ondas mais picadas nas águas quase sempre serenas de “Glyph”. Entre os poemas, a contemplação e a “seca” rítmica, ainda se arranjou espaço para uma canção sem sal na voz de Lian Amber. Na ficha técnica, além do habitual colaborador de Zazou, Renault Pion, encontramos os nomes de B.J. Cole, Barbara Gogan (não canta, apenas toca guitarra), Mark Isham, Lone Kent e Brendan Perry.
Budd, Zazou e tantos outros que se deixaram adormecer à sombra de Brian Eno andam a precisar que se lhes espete um alfinete num sítio que eu cá sei. Para ver se arrebitam.

31/10/2008

Hector Zazou

LP

23 DE FEVEREIRO DE 1989
EXPRESSO

Hector Zazou

Mais um excêntrico genial para acrescentar à lista. Desta vez vindo de França, o que é pouco usual. Hector Zazou de seu nome, o homem das orelhas descomunais (vide a foto junta ou a capa de «Reivax au Bongo»…), detentor, pois, de um excepcional ouvido para a música. Façamos, então, um breve resumo do percurso musical da orelha, perdão, do homem em causa. Logo nos primórdios, a assinatura de uma obra-prima, o clássico Barricades 3, gravado conjuntamente com outro francês bizarro, Joseph Racaille, sob a designação de ZNR. Joseph Racaille é um apaixonado pela música de Erik Satie, o que até seria bastante normal se fosse um pianista. Mas não é. É um soprador de cornetas, nomeadamente os saxofones e o clarinete. Por seu lado, o nosso génio Zazou é um ferrenho e tecnicamente perfeito manipulador da electrónica. Ambos partilham o gosto pelos arranjos mais que inusitados e um «approach» em relação aos respectivos instrumentos, perfeitamente desconcertante. Ao escutar este disco, não há barricada que nos valha, neste ataque em força da música mais estranha e exótica que se possa imaginar.

Os ZNR gravaram ainda, em álbum, um Traité de Mecanique Populaire. Nunca ouvi, mas pelo título deve ser mesmo um tratado. A partir daqui cada um seguiu o seu caminho. Deixemos Racaille para depois e acompanhemos o nosso amigo Heitor. «La Perversita» (que título!) é o outro álbum que desconheço de ouvido. Foi o primeiro que gravou a solo. Depois, mais três obras-primas de enfiada: «Noir et Blanc», o primeiro disco gravado em colaboração com o vocalista africano Bony Bikaye, contando, ainda, com a participação do grupo de música electrónica CY1. Síntese magistral deste último tipo de música com as sonoridades africanas. Deste disco foi retirada uma faixa com posterior edição em maxi, produzida por Adrian Sherwood. Depois foram dois álbuns gravados para a série de prestígio Made to Measure, o já citado «Reivax au Bongo» e «Géographies». O primeiro conta novamente com a activa colaboração de Bony Bikaye, em todo o lado A. Desta vez, a coisa soa como uma espécie de psicadelismo electrónico africano (ufa!). Só escutando se acredita. O outro lado é uma sequência de cânticos sintetizados; a voz feminina, puríssima, sobre ou misturada com uma electrónica grandiosa, à Klaus Schulze, se este tivesse conseguido dar o salto para uma estética dos anos 80, digo, 90! O outro álbum gravado para a Made to Measure, «Géographies» é o mais difícil e complexo de toda a discografia do músico. Soa aos clássicos eruditos (!). Música de câmara da selva amazónica? Paris, Europa ou outra galáxia qualquer? Indubitavelmente um dos discos mais controversos e originais da década.

Hector Zazou gravou, ainda, o mini «Mr. Manager», novamente de parceria com o seu amigo Bikaye; um exercício de Funky, género que não aprecio particularmente, mas do qual reconheço ser este um exemplo brilhante. Finalmente, o recentíssimo e mais acessível «Guilty», álbum em que Zazou e Bikaye se divertem e nos divertem, pondo-nos a dançar das mais variadas maneiras. Com «Guilty» Zazou veio dar ao mesmo lugar onde, por outras vias, vieram, também, desembocar os suíços Yello.

Resta, por último, acrescentar que toda a discografia mais recente deste músico tem sido regularmente importada pela discoteca Contraverso (passe a publicidade), isto para os interessados, é claro. E pronto, foi uma breve história de Hector Zazou, o homem cujo talento consegue ainda ser maior do que as orelhas.

14/05/2008

"Como um estudo geológico" [Hector Zazou]

Pop Rock

28 de Setembro de 1994

“COMO UM ESTUDO GEOLÓGICO”

Hector Zazou regressa a Portugal. Desta vez, trazendo consigo Harold Budd e a ex-vocalista dos Passions, Barbara Gogan. Autor de uma obra diversificada, Hector Zazou explicou ao PÚBLICO o sei interesse por toda a espécie de mestiçagens musicais.


PÚBLICO – Os seus primeiros discos – “Barricades 3” e “Traité de Mecanique Populaire”, com os ZNR – são bastante diferentes de tudo o que fez depois. Como encara hoje esses trabalhos?
HECTOR ZAZOU – São dois discos um pouco desajeitados mas têm o seu “charme”. O que se pode chamar obras de juventude. “Barricades 3” é muito amador. Ao segundo ouvi-o recentemente e encontrei, lá dentro, coisas interessantes mas que, em comparação com o que se fazia na época, soa demasiado acústico e trabalhado.
P. – A entrada para a editora belga Made To Measure implicou mudanças na sua direcção musical?
R. – Os discos que gravei nessa editora [“Reivax au Bongo”, “Géographies” e “Géologies”] são todos diferentes. “Géographies” e “Géologies” deveriam fazer parte de um tríptico cuja terceira parte não existe nem existirá. A ideia era partir dos instrumentos acústicos para chegar à electrónica. Em “Géographies”, praticamente não existem sintetizadores. “Géologies” já mistura os sintetizadores com os instrumentos clássicos. O terceiro volume deveria ser completamente electrónico, com alguns, poucos, elementos clássicos.
P. – Nas capas de “Géographies” e “Géologies”, pode ler-se respectivamente « feito à medida para eliminar a teoria do pós-modernismo” e “feito à medida para um estudo de estratos de sentimentos”. Estava a brincar ou a falar a sério?
R. – É uma brincadeira em “Géographies” e talvez algo mais sério em “Géologies”. Gosto da palavra “strate”, sinónimo de “couche” [“camada”, “leito”] como num estudo geológico, quando nos apercebemos, ao escavar, de diferentes estratos do solo que permitem determinar a sua idade. Era isso que me interessava, ter uma camada de instrumentos acústicos, uma camada de instrumentos electrónicos e, desta maneira, escavar e penetrar um pouco no passado.
P. – Há uma faceta cinematográfica no seu trabalho. Fellini, Antonioni…
R. – Sim, embora não tenha qualquer relação directa com o cinema. Adoraria ter composto música para Fellini mas ele já tinha o Nino Rota, que o fazia decerto melhor que eu… Não há nenhum outro realizador que me faça desejar trabalhar com ele. Talvez o único seja Hal Hartley, um jovem cineasta americano, algures entre Jim Jarmusch e Jean-Luc Godard.
P. – “Reivax au Bongo” é a mais estranha das suas experiências com a música africana…
R. – É, de novo, um disco de misturas – no fundo, o que me interessa: a mestiçagem. Encontrar portas de comunicação. Em “Reivax”, tratou-se de misturar “Noir et Blanc” e “Géographies”, num lado, e, no outro, a música electrónica, algo na linha do que poderia ser a terceira parte da tal trilogia, com uma cantora clássica.
P. – Não acha que, em comparação com esse ou “Noir et Blanc”, dois dos discos que gravou com Boni Bikaye, “Guilty”, um disco de música de dança, soa bastante maia vulgar?
R. – É preciso ter em conta que a dupla Zazou-Bikaye começou por um acaso. “Noir et Blanc” é um disco totalmente espontâneo. Em seguida, Zazou-Bikaye tornou-se um grupo com actuações ao vivo. Verificámos que as pessoas se levantavam e dançavam. O grupo começou progressivamente a incorporar ritmos cada vez mais evidentes na música, que, deste modo, se foi tornando progressivamente menos interessante. Por essa razão, decidi que o grupo devia terminar. “Guilty” é um disco que deve muito a artistas como Prince, que, nessa época, tinha acabado de editar “Sign of the Time”, um disco que adoro. Tentei encontrar na produção um som e texturas parecidas…
P. – Como conseguiu juntar tanta gente importante no projecto “Nouvelles Polyphonies Corses” e, posteriormente, em “Sahara Blue” [a lista é interminável: Cale, Sakamoto, Jon Hassell, Ivo Papasov, Manu Dibango, Sammy Birnbach, Khaled, Tim Simenon, Bill Laswell, Sussan Deyhim, etc]?
R. – Estavam todos interessados e já conheciam a minha música. Nas polifonias corsas, em que a regra é o canto “a capella”, toda essa gente quis participar a acrescentar vários acompanhamentos instrumentais. Dei-lhes toda a confiança.
P. – Como nasceu a ideia de musicar Rimbaud, em “Sahara Blue”?
R. – Foi uma proposta do Ministério da Cultura, que organizou uma exposição no centésimo aniversário da morte de Rimbaud. A partir daí, comecei a trabalhar com Ryuichi Sakamoto e David Sylvian. Quando a exposição terminou, como gostámos bastante do que tínhamos feito, perguntámo-nos: “Porque não continuar e fazer um disco com mais gente?”
P. – A troca de David Sylvian pelos Dead Can Dance, por razões contratuais, na segunda versão de “Sahara Blue” foi uma solução de recurso?
R. – Não! Tenho uma lista de todas as pessoas com quem quero trabalhar!
P. – Harold Budd faz, evidentemente, parte dela?
R. – Claro! Vai tocar piano e dizer poemas. Vão estar comigo também um saxofonista e clarinetista, Renault Pion, e a cantora Barbara Gogan, que fará sozinha a primeira parte e, na segunda, irá cantar provavelmente dois temas de “Sahara Blue”.


DIA 30, Aula Magna, Lisboa, 22h
DIA 1, Cinema do Terço, Porto, 22h
Primeira parte: Barbara Gogan

13/05/2008

Hector Zazou - Chansons Des Mers Froides

Pop Rock

15 de Março de 1995
álbuns poprock

ESQUIMÓ FRESQUINHO

HECTOR ZAZOU

Chansons des Mers Froides (8)
Columbia, distri. Sony Music

Afastada a pesada cortina tecida numa lista interminável de convidados (Björk, Lightwave, Barbara Gogan, Mark Isham, Budgie, Brendan Perry, Suzanne Vega, John Cale, Sara Lee, Marc Ribot, Jerry Marotta, B. J. Cole, Lone Kent, Jane Siberry, Siouxsie, Harold Budd e Balanescu Quartet, mais, da área tradicional, Lena Willemark, Ale Moller, Angelin Tytot, Catherine Ann-McPhee e Värttina, entre outros…), o que une estas “Chansons des mers Froides” é a organização de signos e correntes musicais de sinal divergente num corpo musical que Hector Zazou define como um instrumento de “mudança do mundo”. Ou seja, dito por outras palavras, mais uma tentativa de criação de uma música global, Babilónia ou biblioteca Borgiana onde se arrumam todas as músicas conhecidas. Tarefa hercúlea na qual Hector Zazou possui no entanto já alguma experiência. Das experiências surrealizantes com os ZNR até à colagem do psicadelismo dos anos 60 com a música africana e a polifonia electrónica de “Reivax au Bongo”, passando pela etnopop computorizada de “Noir et Blanc” e o “disco” mutante de “Guilty” até ao neoclassicismo de “Géographies” e “Géologies”, Hector Zazou demonstrou sempre a mesma sede de síntese, necessariamente estabilizada a partir de um ponto de fuga situado por norma em conceitos extramusicais ou ao nível de leituras imaginárias de um pretenso folclore universal. No primeiro caso, está “Sahara Blue” numa vertente literária centrada na figura do simbolista Arthur Rimbaud, enquanto no segundo se inclui a experiência com as novas polifonias corsas. “Chansons des Mers Froides” é um projecto de trabalho, curiosamente gravado em 1992 mas só agora lançado no mercado, sobre as músicas tradicionais da Sibéria, Alasca, Gronelândia, Ilhas Hébridas, Suécia, Finlândia, e Japão, cuja matéria-prima são as canções de marinheiros, “airs” de localização e data que “se perdem na origem do tempo” e “melodias ainda vivas no quotidiano das populações tribais do Grande Norte”. Projecto do qual os posteriores “Les Nouvelles Polyphonies Corses” e “Sahara Blue”, apontados mais para Sul, seriam o contraponto “quente” deste novo lote de canções agora editado em conjunto com uma colecção de gravuras fotográficas alusivas às regiões frias. Claro que há uma dose enorme de humor em tudo isto e que tanta teorização pode ser encarada como uma monstruosa “boutade”, já que Zazou se diverte a confundir as pistas e a jogar em vários tabuleiros ao mesmo tempo. “Chansons des mers Froides” é uma hidra de múltiplas cabeças que se agitam em várias direcções, da música de dança às colisões industriais, do ritualismo ao jazz, do canto étnico à cançoneta, da electrónica ambiental ao concretismo bem comportado. Um truque de prestidigitação com as cores de uma aurora boreal.