Mostrar mensagens com a etiqueta Guru Guru. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guru Guru. Mostrar todas as mensagens

25/08/2014

Do fundo da cornucópia [Krautrock]



Sons

12 Setembro 1997
Krautrock

Do fundo da cornucópia

No seu “romance” pessoal sobre o “krautrock” dos anos 70, “Krautrocksampler”, Julian Cope passou ao largo de grande parte da produção discográfica dos grupos germânicos dessa época, cingindo-se aos nomes que fizeram história, dos Faust aos Amon Düül II, dos Kraftwerk aos Neu!, dos Popol Vuh aos Tangerine Dream. Mas essa história foi feita por muitos mais. Em Portugal está-se a desenterrar os tesouros esquecidos.

A viagem começa, precisamente, por uma das bandas referidas por Cope no seu livro, os Harmonia, confluência dos Cluster, de Dieter Moebius e Joachim Roedelius, com Michael Rother, dos Neu!, e pelo seu segundo álbum, DeLuxe, de 1975, que contou ainda com a participação do baterista dos Guru Guru, Mani Neumeier. Obra fundamental do “krautrock”, mais acessível do que a estreia “Musik Von Harmonia”, nela a batida metronómica funciona como pista para o expressionismo eletrónico do trio, bem ilustrado no kraftwerkiano tema de abertura, com os Harmonia rolando na sua própria “autobahn”. “DeLuxe” é um disco fundamental para se compreender a transição da fase inicial, mais cósmica, do “krautrock” para o niilismo mecanicista (exemplificado no vertiginoso andamento do tema “Monza”) que infetaria a alma das grandes metrópoles teutónicas, anunciando o “punk” e o radicalismo de atitude de uma banda posterior, os La Düsseldorf, pilotados pela outra metade dos Neu!, Klaus Dinger. (Brain, import. Torpedo, 9.)

Seguindo o rasto, encontramos precisamente os La Düsseldorf, também no seu segundo álbum, Viva, de 1978, ou seja, no auge do “punk. Numa altura em que, em Inglaterra, os jovens de alfinetes queimavam os sintetizadores, os irmãos Klaus e Thomas Dinger equacionavam o seu uso num contexto derivado do pioneirismo dos Kraftwerk, pondo em ligação a estética do grito “bávaro”, como Cope lhe chama, com os circuitos integrados das máquinas, transformadas em monstros de metal. Também desta banda volta a estar disponível o seu álbum de estreia, “La Düsseldorf”, igualmente na versão japonesa, da qual, como se pode ler no aviso da capa, foi copiada a anterior edição pirata com o “selo” Germanofon. (Captain Trip, import. Torpedo, 7.)

Avancemos para outro disco clássico, este já sem a chancela de Julian Cope: Osmose, com data de edição original de 1970, na Ohr, dos Annexus Quam, outra banda com origem em Düsseldorf. Representativo de uma área explorada, de forma mais sofisticada, por bandas como os Kraan ou Release Music Orchestra, “Osmose” entrelaça, por vezes de forma anárquica, as tendências jazzísticas que viriam a ser sistematicamente desenvolvidas no álbum posterior, “Beziehungen”, com a mesma costela cósmico-percussiva de “Atem”, dos Tangerine Dream. (Spalax, import. Torpedo, 7.)

Ash Ra Tempel e Guru Guru são duas das bandas mais representativas do “krautrock”. Ash Ra Tempel, a estreia, em 1971, do coletivo liderado pelo guitarrista e sintetista Manuel Göttsching, foi a primeira de muitas “acid jams” que culminariam no encontro, patrocinado pelo esquizoguru da “Kosmische Muzik”, Rolf-Ulrich Kaiser, com o guru do LSD, Timothy Leary, em “Seven Up” e que apenas parecem fazer sentido para uma cabeça igualmente encharcada em ácido lisérgico. Como a de Cope, que inclui este álbum na sua lista de preferências. (Spalax, import. Torpedo, 6.)

Tango Fango, álbum de 1976 dos Guru Guru, constitui uma amostra pouco representativa do poder implosivo que caracteriza os dois primeiros álbuns desta banda, desde sempre impulsionada pelo baterista Mani Neumeier, “UFO” e “Hinten”. Em “Tango Fango” mistura-se o jazz-rock trazido pelo novo recruta Roland Schaeffer, nos sopros, com tangos, música de variedades, marchas folclóricas, anedotas absurdas e canto “yodelling”. Interessante mas demasiado derivativo. (EFA, import. Torpedo, 6.)

Lado a lado com os grupos cujo som era declaradamente “kraut” (leia-se “cósmico”, “libertário”, “exploratório”, “tripante”...) coexistiram, na Alemanha, muitos outros, apostados em fazer música com menos conotações regionais, que cantavam em inglês e, em geral, cometiam o pecado de dominar tecnicamente os instrumentos que tocavam. Os Grobschnitt incluíam-se nesta categoria. Entre 1972 e 1989, gravaram 13 álbuns, chegando a alcançar níveis elevados de popularidade no seu país de origem. Ballerman, de 1974, um duplo álbum na versão original, em vinil, é marcado por influências díspares e por uma veia “progressiva” bem assimilada, onde avulta a longa “suite” “Solar Music”, com os seus 33 minutos de experimentações variadas em torno de sequenciações eletrónicas, psicadelismo tardio e efeitos de produção. Este mesmo tema seria ampliado para mais de 50 minutos numa posterior versão gravada ao vivo e editada em 1978, com o título “Solar Music - Live”.

Rockpommel’s Land”, de 1977, é um álbum conceptual, mais sereno e inspirado nos Genesis, onde se conta a odisseia do pequeno Ernie, entre a sátira e a preocupação de emular na perfeição os mestres ingleses. Um álbum de pormenores e subtilezas que “trepa” a cada audição. (Brain, import. Planeta Rock, 6 e 7).

Eroc, de seu nome verdadeiro Joachim H. Ehrig, era o percussionista dos Grobschnitt. Mas os álbuns que gravou a solo (onde estende os seus talentos de executante aos teclados, acordeão, vibrafone e percussões várias) não tinham rigorosamente nada a ver com a música do grupo. Wolkenreise é uma coletânea de temas gravados entre 1975 e 1982, que vão do “easy listening” alpino, seja lá o que isso for, a neuroses ambientalistas, entre a paródia aos românticos e delírios eletrónicos de sintetizadores perdidos nos seus próprios devaneios. Saliência para “Des zauberers traum”, de “Eroc”, uma dos mais estranhos álbuns gravados por esta personalidade, arrumada entre Manuel Göttsching e Michael Rother. (Brain, import. Planeta Rock, 6).

Para os Novalis não se punham dúvidas quanto ao estilo a seguir. Eram românticos declarados, como os Wallenstein, Hoelderlin ou Parzival, não escondendo a sua paixão pelos sons dos progressivos do outro lado da Mancha. Banished Bridge (agora em versão remasterizada), com a qual se estrearam em 1973 na Brain, denota a influência descarada dos Pink Floyd, da fase “A Saucerful of Secrets” e “Ummagumma”, no tema conceptual de 17 minutos que dá título ao álbum, com base no “mellotron” e restantes teclados de Lutz Rahn. Apesar disso, desprende-se dele magia e um ambiente de estranheza que cativa. Os restantes três são mais exibicionistas, oscilando entre a pirotecnia dos Emerson, Lake & Palmer e o barroco insuflado dos Procol Harum (Brain/Repertoire, import. Torpedo, 7).

Guardámos para o fim a maior surpresa. Full Horn, dos Cornucopia, é uma pérola que poucos conheceriam. É o único álbum gravado por este septeto – auxiliado ainda por Jochen Petersen, saxofonista e flautista do grupo de Achim Reichel – que teve contra si o facto de estar demasiado avançado no tempo. Na altura ninguém quis saber deles e os Cornucopia não tiveram outra alternativa senão desistir. Mas “Full Horn”, de 1973, faz justiça ao título, mostrando ser uma verdadeira cornucópia de onde jorram a cada instante renovados prazeres. Antes e mais, a banda era constituída por executantes de exceção. Mas ao contrário do que era frequente acontecer, punham as suas capacidades ao serviço de uma música inclassificável, com uma complexidade talvez apenas comparável aos Gentle Giant e um gosto pelo bizarro que, nalguns momentos, traz à memória Frank Zappa. Os 19 minutos de “Day of a daydream believer” evoluem de forma imprevisível através de vocalizações arrevesadas, na linha dos Amon Düül II, e constantes mudanças de ritmo e ambiente. “Morning Sun - Version 127 (for the charts)” evoca a subtileza da escola de Canterbury enquanto “And the madness” mergulha no mesmo universo de alienação iluminada dos Gentle Giant de “In A Glass House” ou dos Gracious. “Spots on you, kids” faria boa figura num catálogo selecionado da Recommended. Um clássico. (Brain/Repertoire, import. Torpedo, 8.)

Na Planeta Rock encontram-se ainda disponíveis álbuns dos Faust (“The Faust Tapes”, “71 Minutes of Faust” e o novo “You Know FaUSt”), Jane (“Here We Are”, “Jane III”, “Lady” e “Fire, Water, Earth & Air”), Grobschnitt (“Solar Music - Live”, “Illegal” e “Last Party - Live”) e Nektar, que eram ingleses mas fizeram carreira na Alemanha, acabando por ser adotados pela grande família do “krautrock” (“Journey to the Center of the Eye”, “A Tab in the Ocean” e “Remember the Future”. Na Torpedo pode encontrar os Agitation Free (“Last”), os Cluster (“Cluster III”), Guru Guru (“UFO e “Hinten”), Faust (“Rien”), Harmonia (“Musik von Harmonia”), La! Neu? (“Düsseldorf”) e Moebius & Plank (Rastakraut/Material”)

Nota: Os Harmonia voltaram ao ativo. Ao trio Moebius, Roedelius e Rother juntou-se um quarto elemento, nada mais nada menos do que Brian Eno, que, de resto, já gravara com a dupla dos Cluster os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. O novo álbum dos Harmonia, a sair em breve, tem como título “Tracks & Traces”.

08/08/2014

O embrião "freak" [Reedições]





14 de Julho 2000
REEDIÇÕES

O embrião “freak”

            Por incrível que pareça, os alemães Embryo foram a primeira banda a atuar ao vivo, no início dos anos 70, em Portugal, no cinema Alvalade. A sessão de free rock’n’jazz então oferecida foi acolhida com alguma frieza, para não dizer hostilidade.
            Numa altura em que o termo “krautrock” ainda não se generalizara, corria então no circuito de importação o álbum “Embryo’s Rache” (1971) e os mais conhecedores discutiam se o nome da banda se devia pronunciar “à inglesa”, “embraio”, ou no alemão aportuguesado, “embrio”.
            Porém, com a chegada a Portugal da primeira vaga do krautrock, através de álbuns de Klaus Schulze, Tangerine Dream, Neu!, Harmonia, Cluster ou Popol Vuh, o nome Embryo caiu no esquecimento. Mesmo Julian Cope, no seu livro “Krautrocksampler” não faz qualquer menção ao grupo.
            Quando o krautrock se transformou numa caricatura, assistindo-se a bandas como os Eloy ou os Atlantis a obterem no mercado internacional o sucesso que nunca tiveram os revolucionários do movimento, os Embryo prosseguiram a sua carreira impávidos e serenos. O jazz adotou-os.
            “Father, Son & Holy Ghost” (1972) evidencia os mesmos atributos que caracterizam “Embryo’s Rache”, o gosto pela improvisação colhendo elementos do rock, do jazz e do psicadelismo, em “jam sessions” semi-estruturadas à boa maneira “freak”, como em “Free”, inconfundivelmente da casta dos Amon Düül, embora imbuída do espírito do jazz. Não por acaso Miles Davis chamava aos Embryo “o grupo hippie alemão com o qual Mal Waldron costumava tocar” capaz de fazer “coisas interessantes”. “Mariambaroos” explorava um lado mais étnico que impregnaria posteriormente toda a música do grupo, enquanto “Forgotten sea” percorre os caminhos de fusão abertos pelos Soft Machine e que outra banda alemã incorporara de forma não menos interessante, os Release Music Orchestra (Disconforme, import. Megamúsica, 7/10).
            “Steig’aus”, de 1972, é um dos álbuns mais recomendáveis dos Embryo. Ao lado dos líderes Burchard e Edgar Hoffman (sax soprano e violino) estavam agora Roman Bunka na guitarra e Jimmy Jackson (convidado habitual nas sessões dos Amon Düül), no mellotron e órgão, para sintonizarem na frequência da “Radio Marrakesch” e das sonoridades ligadas ao transe. Três longos temas criam uma música mesclada de exotismo e de deambulações pelo jazz na sua veia mais psicadélica e experimental (como os Et Cetera, de Wolfgang Dauner), cortada por efeitos eletrónicos, passagens funky e fragmentos cósmicos, nos quais o vibrafone de Burchard encontrava cada vez mais terreno livre para se exercitar. Mas Waldron, pianista de jazz, entra pela primeira vez no grupo, com a composição da primeira parte de “Call”, 17 minutos de jam alucinada que deitavam por terra quantos insistiam em ver no grupo uma versão teutónica da Mahavishnu Orchestra (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho), 8/10).
            Depois do “We Keep On”, onde os Embryo reforçavam a sua tendência para o jazz, integrando nas suas fileiras, além de Maldron, o saxofonista Charlie Mariano (faria carreira a solo na ECM, colaborando assiduamente com o grupo indiano de percussões Karnathaka), “Rock Session” (1973) é mais uma peça fundamental dos Embryo, com Mal Waldron, no piano elétrico, e Jimmy Jackson, no órgão, a empurrarem a locomotiva de ritmos funky pelo deserto africano. Os cânticos dos Amon Düül juntam-se às fumaças de haxixe dos ainda mais freaks Agitation Free (uma das bandas injustamente ignoradas do krautrock). Os Can também não andavam longe, em “Entrances”, um quarto de hora de proto-groove tribal, boa companhia para safaris pelo cérebro. Confundidos com uma “banda rock afro-asiática”, antes de Jah Wobble, antes dos Loop Guru, os Embryo juntaram os continentes (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).
            Já sem Edgar Hoffman, faltou a Christian Burchard a capacidade para orientar sozinho a música dos Embryo, em “Apocalypso”, álbum de 1977 que surge na sequência de uma visita do percussionista à Índia e que conta com o percussionista Trilok Gurtu. Em vez das longas aventuras em busca dos tesouros da imaginação, surgem canções alimentadas pelos lugares-comuns do jazz rock, permeáveis a alguma nostalgia pela escola de costumes de Canterbury e arrancadas da pasmaceira por intempestivas irrupções de irracionalidade. Um álbum de contrastes, onde as boas ideias (e os excecionais solos de Burchard no vibrafone) emergem para logo se apagarem num mar de indefinições (Disconforme, import. Megamúsica, 7/10).

            Soberbo, “Känguru”, de 1972, é o melhor álbum dos Guru Guru. Adeptos da liberdade, da cacofonia, do riff de arame farpado eletrificado, de Hendrix e, em geral, de todo o tipo de libertinagens autorizadas pelo LSD (o grupo gravou mesmo um hino/marcha dedicado a esta substância, no álbum de estreia, “UFO”), os Guru Guru eram um “power trio” acionado pelas operações percussivas de Mani Neumeier, em conjunto com as descargas de eletricidade tripante do guitarrista Ax Genrich e a lava do baixista Uli Trepte (passou pelos Faust…). Mas “Känguru” é mais do que o free rock (ou “freak” rock?) que a banda cultivou não só em “UFO”, como em “Hinten” e “Guru Guru”, dando um salto em direção ao cosmo. É o álbum mais eletrónico dos Guru e os quatro temas que o compõem são outras tantas viagens através dos pulsares, buracos negros e galáxias de uma mente em combustão, no ponto em que “Electronic Meditation” dos Tangerine Dream entra em curto-circuito, passando para outra dimensão. Jumi Hendrix, onde estiver, deve tocar uma música como esta. Um clássico do krautrock (Metronome, import. Lojas Valentim de Carvalho), 9/10).

            Com cheiro a enxofre, os Atomic Rooster nasceram das cinzas dos Crazy World of Arthur Brown. O guitarrista John Cann e o organista Vincent Crane, émulo diabólico de Keith Emerson, eram as principais figuras desta banda, da qual Carl Palmer também fez parte antes de transportar a sua bateria para os Emerson, Lake and Palmer. Em “In Hearing of” (1971) o demo apenas levanta a voz no “bónus-track” “The devil’s answer”, mas o álbum mantém intactos a vitalidade e o talento para fabricar riffs irresistíveis que fizeram dos Atomic Rooster uma das bandas pioneiras e mais originais do hard rock inglês dos anos 70 (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho), 7/10).

            Pelo contrário, os Quintessence tocavam a luz. Formado por músicos indianos residentes em Londres, o grupo cultivava uma música fluida onde os cânticos de louvor a Buda e a Shiva deslizavam ao ritmo suave de instrumentais jazzy e de flautas flor de lótus. A coletânea “Epitaph for Tomorrow” junta composições dos álbuns “In Blissful Company” (1969), “Quintessence” (1970) e “Dive Deep” (1971). Envoltos numa nuvem de incenso, os Quintessence sonhavam com a conversão dos Jethro Tull ao budismo mas, curiosamente, soavam amiúde a uma versão angélica dos Hawkwind… Hare-Krishna (Drop Out, import. Lojas Valentim de Carvalho, 6/10).