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29/11/2019

Progressivos [Jazz]


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 18 NOV 2003

Crítica Música

Progressivos

GIANLUIGI TROVESI + BIG BAND
5ª feira. Sala quase cheia.

MARTIAL SOLAL, ORCHESTRE NATIONAL DE JAZZ
Domingo. Assistência fraca.
LISBOA Grande Auditório da Culturgest

Os concertos de uma "big band" dirigida por Gianluigi Trovesi e da Orchestre National de Jazz de França, sob a direção de Claude Barthélemi, que tiveram lugar sexta-feira e domingo, respetivamente, no Grande Auditório da Culturgest, vieram repor a velha questão do que é ou não música de jazz. Questão aparentemente irrelevante na medida em que importará, acima de tudo, a valorização da música de "per si", independentemente de qualquer enquadramento e definição de um género que, esgotado o estertor efusivo do "free jazz", se viu nas últimas três décadas na contingência de procurar em seu redor novas fontes de alimentação.
O jazz assimilou músicas e culturas limítrofes, fruto dessa necessidade mas também do confronto do músico com um "overload" de informação. Na música quer de uma quer de outra banda - excelente em qualquer dos casos – o jazz tornou-se mimetismo.
Trovesi, além de executante virtuosístico nos saxofones e no clarinete, é um "jongleur" de fórmulas musicais antagónicas. Os arranjos para "big band" que foram dados a ouvir na Culturgest, de temas como o exaltante "From G to G", "Herbop", "Dédalo", "Now I can" e "Sogno d'Orfeo", entonteceram o jazz no "carrocel do oito", numa vertigem de citações a "New Orleans" e ao "bop", à música barroca, aos folclores de diversas proveniências, ao cinema de sons de Nino Rotta e ao... rock progressivo.
Trovesi controlou o seu circo de forma magnífica, concedendo largo espaço de manobra à música mas também ao humor, como numa pantomima que levou o saxofonista François Corneloup a escapar-se para os bastidores continuando a tocar, a que se seguiu um "show-off" de Nicolas Nijholt, concluído com um "solo" de trombone a imitar um motor de automóvel. Entre os solistas, a parte de leão coube ao trompetista alemão Markus Stockausen, misturador de sons planantes e electrónica, enquanto o guitarrista Nguyien Lê optou por criar texturas oníricas igualmente saturadas de efeitos electrónicos em alternância com solos de inspiração Hendrixiana. Bastante discretos estiveram a pianista belga Nathalie Lorriers e, surpreendentemente relegado para a última fila dos metais, o mítico trompetista inglês Henry Lowther.
No domingo, após uma primeira parte preenchida por uma entediante atuação a solo do pianista Martial Solal - cujo lugar na história do jazz francês é inquestionável, mas a cuja agilidade de dedos correspondeu, no concerto da Culturgest, um universo fechado no tempo, à deriva numa sucessão de clichés que se anulavam mutuamente - a Orchestre National de Jazz (ONJ), através das composições e direcção de Claude Barthélemy deu sequência a algumas das premissas avançadas por Trovesi (que, aliás, participa no álbum da orquestra, "Charméditerranéen"), levando-as para territórios ainda mais extremados. A ONJ, composta maioritariamente por músicos jovens, deu corpo a um caleidoscópio, por vezes ofuscante, onde cores, formas e épocas distintas do jazz se cruzam e interpenetram. Do swing ao charleston, dos "blues" ao "free jazz" e ao "free rock", passando pela música árabe e por derivações colectivas que lembraram René Lussier e a estética da editora canadiana Ambiances Magnétiques.
Barthélemy, além de guitarrista com forte costela rockeira, tocou alaúde árabe e mostrou ser notável alquimista na forma como harmonizou, separou e uniu os vários blocos da orquestra. Num dos temas, Vincent Limouzin saturou de efeitos e reverberção o vibrofone, como fazia Robert Wood no primeiro e enigmático álbum dos Lard Free, conferindo ainda mais à música da ONJ uma tonalidade geral evocativa dos anos 70 "progressivos".

16/10/2019

'What have they done to the blues, ma?' [Jazz]


19 JULHO 2003
JAZZ
DISCOS

Trovesi, Spring Heel Jack, The Tradition Trio e Akosh S. Unit fazem-nos acreditar que a música de fusão pode não ser, afinal de contas, o epitáfio do jazz. Que nos perdoem os puristas, mas o futuro passa por aqui.

‘What have they done to the blues, ma?’


O mundo musical de Gianluigi Trovesi nem sempre é o mundo do jazz, como já o haviam demonstrado álbuns anteriores deste poli-instrumentista natural de Bergamo, como “Les Hommes Armés” ou o espetacular menu de luxo para “big band”, “Dedalo”. Ou pelo menos, do jazz enquanto recapitulação, recriação e criação histórica que nasceu e, provavelmente, morrerá com os “blues”. E, no entanto, algo se move ainda, como se o “swing” fizesse afinal parte de toda a música onde bate um coração humano.
            “Fugace” é, por si só, um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround. Tal qual o caudal de uma imaginação rigorosamente conhecedora da história do jazz – de “New Orleans” ao “free” –, da música clássica e contemporânea, mas também das formas etnográficas da música árabe e africana, “Fugace” muda impercetivelmente de registo, fluindo como um fascinante caleidoscópio de sons que recriam o próprio movimento do universo. Depois, há neste disco algo que começa a cortar às fatias o fundamentalismo: Se “Minneapolis”, álbum novo de Michel Portal, inclui uma faixa de hip-hop, “Fugace” não lhe fica atrás e envereda pelo drum ‘n’ bass, em “Clumsy dancing of the fat bird” e pelo... rock, pesado em “Blues and West”, e progressivo, em “Siparietto II” (serão os Gryphon?). Trovesi faz com que tudo pareça apropriado e natural.
            Quem já havia pregado um valente susto aos puristas do jazz foram os Spring Heel Jack, com “Amassed”, sobretudo pela projeção que este disco atingiu nos centros de difusão de música alternativa (o anterior, “Masses”, já lançara as sementes da revolução). Em “Live”, registo ao vivo no Corn Exchange, Brighton, em Janeiro deste ano, a dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações, respetivamente de 35 e 39 minutos, que projetam a música de “Amassed” numa verdadeira selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. É como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer, pegando nas descobertas do passado, arrancando retalhos do Sun Ra galáctico e do Miles das fusões elétricas, para com elas encetar nova viagem, ainda mais rica e arriscada, com término num longo e majestoso “fade out”, marcha fúnebre pelo jazz. O que significa que os Spring Heel Jack voltam a reescrever a história.
            Igualmente incontornável é “Tone”, dos The Tradition Trio, formado por três nomes paradigmáticos da música improvisada: o veterano Alan Silva (sintetizador, tocou com Ayler, Cecil Tayler, Sun Ra, Shepp, Globe Unity Orchestra, etc.), Johannes Bauer (trombone, estará em Portugal no festival Jazz em Agosto, com os Doppelmoppel) e Roger Turner (bateria e percussão). Gravado ao vivo no Free Music Festival de Antuérpia, em 2001, “Tone” desenrola-se ao longo de uma faixa única de 51 minutos (e ainda há quem se queixe do rock progressivo!...) que glosa o conceito “in the tradition” (“Tradition: the handing down of statements, beliefs, legends, customs, etc, from generation to generation, esp. by word of mouth or by pratice”). A construção de Babel dos Spring Heel Jack não anda longe, ainda que a dimensão “cósmica” esteja aqui mais condensada e subjugada aos códigos de alguma música improvisada de cariz eletrónico e tribal, como a dos pioneiros MEV (Musica Elettronica Viva). A aparente e prevalecente sensação de delírio que atravessa uma audição mais superficial não escamoteia o facto de estarmos perante um intenso trabalho de comunicação e criação coletiva que, em certos momentos, consegue ser exaltante, nomeadamente quando Silva enche as crateras vazias com oceanos de sons sintetizados dentro e sobre os quais o trombone de Bauer experimenta os limites do “free” e da música contemporânea, entre músicos referenciais como Albert Mangelsdorff, Paul Rutherford ou Vinko Glonbokar, divertindo-se a tentar escapar dos labirintos montados por Turner.
            Ainda alucinados pelas emanações dos Spring Heel Jack e dos The Tradition Trio é já com naturalidade que aceitamos encarar de frente o réptil que nos olha, vindo das trevas, a cuspir sangue na capa de “Vetek”, terceiro e último capítulo de uma trilogia do saxofonista e multi-instrumentista húngaro Akosh Szelevényl, sucedendo aos anteriores “Kebelen” e “Lenne”.
            Como solista, nos saxofones soprano e tenor e no clarinete de metal, Akosh insere-se sem desconforto na linhagem da escola francesa de Michel Portal e Louis Sclavis. A seu lado encontramos Joe Doherty (violino, saxofone alto e clarinete baixo), Bernard Malandain (baixo) e Philippe Foch (bateria, percussão, tablas), mais os convidados Nicolas Guillemet (saxofones alto e soprano) e Mokhtar Choumane (ney).
            Assumindo como influências Archie Shepp, Albert Ayler, John Coltrane, Pharoah Sanders, Ornette Coleman, Don Cherry, Sun Ra e Charlie Haden (embora o músico húngaro faça também questão em nomear Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Frank Zappa, Prince e Krzystof Pendereczki), a música de “Vetek” descobre na confluência desta lista de nomes o gosto pelas músicas do mundo (não no sentido de exotismo folclórico com que habitualmente é conotado mas de acordo com a visão de uma síntese planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações) em que o jazz – não se sabe ainda se inevitavelmente ou não – desemboca quando atinge e ultrapassa as fronteiras impostas pelos seus próprios cânones.
            “Vetek” rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak (de “Ritual Nova”) para finalmente, num tema de antologia, “Patak”, rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase. O réptil cospe, afinal, uma flor.

GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
9 | 10

SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear.
Distri. Trem Azul
10 | 10

THE TRADITION TRIO
Tone
FMP, distri. Multidisc
8 | 10

AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
9 | 10

15/10/2018

Balanço do ano - Jazz


PÚBLICO 4 JANEIRO 2003
JAZZ
2002

>> Balanço do ano

2002 foi ano de grande jazz em português. A nova editora Clean Feed deu o mote, lançando para o caldeirão dois clássicos instantâneos, com as assinaturas de Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. Lá fora, o "free", o "pós-free" e o que virá a seguir rivalizaram com manifestos de afirmação por alguns dos clássicos eternos, num ano que foi também de boas reedições. À frente de todos pusemos o disco, dos Spring Heel Jack, que mais tem dividido as opiniões. Prova de que, afinal, o jazz conserva intacto o dom de provocar.

01 |
Spring Heel Jack Amassed (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Saído das mentes distorcidas, mas livres e visionárias, de dois homens que não faziam parte do jazz – John Coxon e Ashley Wales –, "Amassed", depois do ensaio prévio que é "Masses", revolucionou os parâmetros do jazz eletrónico, samplando o que, no passado, pertencera ao domínio do analógico nas visões orquestrais de George Russell ou nas pulsações barrocas do "Synthesizer Show" montado por Paul Bley e Annette Peacock, numa catedral de alucinações que serve de suporte à "free music" remodelada em espiral de loucura por alguns dos seus expoentes – Evan Parker, Han Bennink, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler. Se até o "bebop", por altura da sua génese, foi considerado o "fim do jazz", e Coltrane vaiado como uma farsa, como não conceder igualmente aos SHJ essa suprema honra de provocar em doses iguais a paixão e a repulsa?

02 |
Gianluigi Trovesi Dedalo (Enja, distri. Dargil)
Celebração orquestral com a WSR Big Band alemã, Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), "Dedalo" recupera o clássico "From G to G", remontado-o num labirinto onde se cruzam os caminhos do "vaudeville", Zappa, Ellington, Gil Evans, Don Ellis, jazz progressivo e jazzrock, moídos, destilados e incendiados por uma imaginação delirante. O homem é um feiticeiro.

03 |
Dave Holland Big Band What Goes Around (ECM, distri. Dargil)
Alguma da música "antiga" deste notável contrabaixista é aqui tornada matéria de novos "standards" pessoais, em formato de "big band" a dar mais volume e cor ao habitual quarteto que tem acompanhado Holland nas suas últimas realizações para a ECM. Enriquecimento e desafio numa proposta de criação de um território instrumental onde leitura, arranjos e improvisação se confundem.

04 |
Carlos Barretto Trio Radio Song (ed. e distri. CBTM)
Enquanto solista, voz dialogante ou peça de suporte, Barretto confirma a maturidade e a segurança dos seus recursos técnicos, num álbum de múltiplos matizes que conta com a mais-valia do músico francês Louis Sclavis.

05 |
Bernardo Sassetti Nocturno (Clean Feed, distri. Trem Azul)
Gravado em ambiente de "verdadeira magia" na Quinta de Belgais, "Nocturno" é uma incursão impressionista nos meandros mais íntimos do piano. Como Bill Evans, Sassetti cria a partir da célula e a partir dela inventa a noite.

06 |
Wayne Shorter Footprints Live! (Verve, distri. Universal)
Trata-se, por incrível que pareça, do primeiro álbum ao vivo deste notável executante dos saxofones tenor e soprano, antigo "sideman" de Miles e cabeça falante dos Weather Report. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".

07 |
Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal Shadows and Light (Drimala, distri. Trem Azul)
Um lento avolumar de tensões e incandescências em que o jazz "apodrece", para das suas cinzas se erguer a fénix renascida. O tenor de McPhee gasta-se, corrói, cria andaimes e poços. Giardulo é o nevrótico de serviço. "Shadows & Light" tenta apanhar o além, o dia seguinte ao da catástrofe. E consegue.

08 |
Roscoe Mitchell & The Note Factory Song for My Sister (Pi, distri. Trem Azul)
Aos 62 anos o multinstrumentista prossegue os estudos fora da selva de mitos dos Art Ensemble of Chicago. Numa conjugação mais formalista do "free" (abrangendo mesmo uma faceta didáctica) com os rituais remanescentes dos AEC, a música ganha alento numa imensa viagem pelos limites do jazz.

09 |
Branford Marsalis Footsteps for our Fathers (Marsalis Music, distri. Trem Azul)
Cruzamento, ou não, como alguém disse, entre "um 'cartoon' de Disney e um pregador evangélico", o sopro de Marsalis aventura-se em refazer a totalidade de "The Freedom Suite", de Sonny Rollins, e "A Love Supreme", de Coltrane. Sobrevive incólume. Mais: acompanha o espírito daqueles dois génios.

10 |
Andrew Hill A Beautiful Day (Palmetto, distri. Trem Azul)
Sessão ao vivo no Birdland na companhia de Marty Ehrlich e uma "big band", "A Beautiful Day" é um dia perfeito na mais recente produção pianística de Hill, um dos eleitos que soube unir o bop à vanguarda.

11 |
Mark Dresser Trio Aquifers (Cryptogramophone, distri. Sabotage)
"Aquifers" faz a transcrição musical dos fluxos de água subterrâneos que fertilizam o planeta. "Acumulação", "trânsito" e "libertação" funcionam como metáforas telúricas da circulação de frequências, modulação de timbres e planificação de texturas assimétricas cuja energia parece provir, de facto, dessa matriz aquática que alimenta a Terra.

12 |
Billy Cobham The Art of Three (In & Out, distri. Dargil)
Surpresa, ou talvez não, esta categórica afirmação da arte do trio piano-baixo-bateria pelo baterista jazzrock que, depois da aprendizagem com Miles, ajudou a criar o mito Mahavishnu Orchestra. Tem a seu lado comparsas de luxo: Ron Carter, no baixo, e Kenny Barron, no piano, este último um prodígio de subtileza e capacidade de voo.

13 |
Mat Maneri Sustain (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Mais ferrugem da boa. Outro prego cravado no crâneo do "mainstream". Discípulo de Ornette e Stuff Smith, Maneri arranca com o seu violino a carapaça à música improvisada em aliança perigosa entre electrónica, jazz vertigem e uma permanente dialéctica entre o silêncio e o caos.

14 |
Charles Lloyd Lift Every Voice (ECM, distri. Dargil)
Lloyd, o asceta encantado pelo budismo, deixa atrás de si um rasto de paradoxos. Desde sempre arreigado a uma visão mística da música, "Lift Every Voice" perdeu entretanto o grito libertário dos primórdios, para se concentrar em mantras e no Grande Espírito onde ardia John Coltrane.

15 |
Tom Harrel Live at the Village Vanguard (Bluebird, distri. BMG)
Eleito em 2001 pela "Down Beat" "compositor do ano", Harrell distribui vitalidade, clareza e extroversão. A sua trompete, iluminada pela tradição de Blue Mitchell e Clifford Brown, não ilude porém uma tristeza que em "Where the rain begins" lateja como uma ferida mal sarada.

Discos de 2001 ouvidos em 2002 merecedores de figurarem no top:

Dave Douglas Witness (RCA, distri. BMG)
Dave Holland Not for Nothin' (ECM, distri. Dargil)
James Emery, Joe Lovano, Judi Silvano, Drew Gress Fourth World (Between the Lines, distri. Ananana)
Louis Sclavis L'Affrontement des Prétendants (ECM, distri. Dargil)
Myra Melford & Marty Ehrlich Yet Can Spring (Arabesque, distri. trem Azul)
Steuart Liebig Pomegranate (Cryptogramophone, distri. Sabotage)

REEDIÇÕES:

Ella Fitzgerald Whisper Not (Verve, distri. Universal)
Gerry Mulligan Village Vanguard (Verve, distri. Universal)
John Coltrane Legacy (Impulse, distri. Universal)
Nina Simone Nina Simone and Piano! (RCA, distri. BMG)
Paul Bley, Jommy Giuffre, Steve Swallow The Life of a Trio - "Saturday" e "Sunday" (Owl, distri. Universal)
Sam Rivers Crystals (Impulse, distri. Universal)

19/09/2016

Jazz na árvore de natal

NATAL
JAZZ
PÚBLICO 14 DEZEMBRO 2002

Jazz na árvore de natal oferecer um disco de jazz pode ser a dádiva de um mundo novo a descobrir.

01|
John Coltrane
Legacy
4xCD Impulse, distri. Universal

“Harmonic and Melodic”, “Rhythmic”, “Elvin and Trane” e “Live” são quatro das facetas da música de John Coltrane que o seu filho, Ravi Coltrane, reuniu sob a forma de antologia. Há mais, claro. Trane foi a nave estelar apontada à música total. Entre a noite, o excesso, o método e a loucura (ou a loucura enquanto método), ultrapassou as fronteiras do free jazz para chegar aos confins de si próprio. Coltrane é Natal e Ano Novo. Nascimento e Morte. “Clássico”, hoje, por questões de segurança.

02|
Bobby Hutcherson
Dialogue
Blue Note, distri. EMI-VC

Quando toca a oferecer discos de jazz, exige uma obra-prima? “Dialogue”, do vibrafonista Bobby Hutcherson, especialista em estar no momento certo, com os músicos certos (conferir em “Out to Lunch”, de Eric Dolphy ou “Life Time”, de Tony Williams), não oferece dúvidas. Além de ser um daqueles marcos que dividem a história em “antes” e “depois”, na transição do hard-bop para o free, é uma boa alternativa à ditadura dos saxofones, ainda que, neste particular, Sam Rivers se revele absolutamente soberbo neste “diálogo”.

03|
Andrew Hill
A Beautiful Day
Palmetto, distri. Trem Azul

Pretende conciliar o clássico com o contemporâneo? Tente a antecipação e ofereça ao seu amigo(a) especialista, o mais recente de Andrew Hill, instituição do piano (a propósito, é sua a assinatura na maioria dos temas de “Dialogue”…) para quem a sessão ao vivo no Birdland, já este ano, na companhia de Marty Ehrlich e uma banda larga de músicos, constituiu um “dia maravilhoso”. Jazz de quem a sabe toda e não deixa a tradição apodrecer.

04|
Steve Tibbetts
A Man About a Horse
ECM, distri. Dargil

Se o seu objetivo é passar a mão pelo pêlo e pôr água na fervura (do jazz ou de quem você quiser…), a ECM tem paz natalícia para dar e vender. “A Man About a Horse” é o mais recente cântico guitarrístico de Steve Tibbetts, espécie de Mike Oldfield de costela zen e fusionista. Templos e “chakras”, tablas e drones, ambientes de contemplação próprios para adormecer em frente à lareira e sonhar que o jazz, afinal, é música de gente bem.

05|
Weather Report
Live and Unreleased
2xCD Columbia, distri. Sony Music

Se o Natal é também calor, faz sentido acender o calorífero dos trópicos do jazzrock e da fusão, por um dos grupos pioneiros do género – os Weather Report. “Live and Unreleased” reúne material inédito recolhido de concertos gravados entre 1975 e 1983, remasterizado em 24 bits. Experimente oferecer aos seus netos, explicando-lhes que, por incrível que pareça, o jazz também se pode dançar.

06|
Rabih Abou-Khalil
Il Sospiro
Enja, distri. Dargil

Objeto requintado. O alaúdista árabe Rabih Abou-Khalil esteve decerto a pensar em si e na sua prenda de Natal quando gravou “Il Sospiro”, exercício a solo no “ud”, sem rede, imbuído de um espírito de elevação que andava arredado dos últimos álbuns. Independentemente de um dos temas ser uma serenata a uma mula. A capa, como sempre um prazer para os olhos, toda em cores metalizadas, oferece a vantagem adicional de agradar ao presenteado, independentemente de este ouvir ou não o disco.

07|
Billie Holiday
You Go to My Head
Dreyfus, distri. Megamúsica

Depois de apagadas as luzes da árvore de Natal, na solidão da madrugada, pode saber bem abrir a prenda e encontrar o sorriso triste de Billie Holiday. “You Go to My Head” é uma coletânea de 20 temas dos anos 30 e 40 que inclui clássicos como “I’ll be seing you”, “Night and day”, “Body and soul” e o arrepiante “Strange fruit”. O amor desesperado, em 24 bits de som e emoção, que batem em cheio na alma.

08|
Ella Fitzgerald
Whisper Not
Verve, distri. Universal

Dá um embrulho maneirinho, este exemplar em forma de miniatura do vinil original, pela voz que fez o jazz transbordar de felicidade. Ella era a luz, a facilidade de expressão, o fluxo incessante de criatividade que tornava “standards”, folclore ou a mais simples das canções numa declaração pessoal. Aqui envolvida pelas orquestrações de Marty Paich. Em tempo de “divas” por atacado, ofereça uma das originais e genuínas.

09|
Spring Heel Jack
Amassed
Thirsty Ear, distri. Trem Azul

Confunda e provoque. Há quem recuse a “Amassed” o estatuto de música de jazz. Mas é isso mesmo, de outra maneira, que John Coxon e Ashley Wales, vindos do drum’n’bass e da eletrónica, recompuseram nesta fusão para o novo milénio. Han Bennink, Evan Parker, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler não tiveram dúvidas, mergulhando de cabeça no universo do “sampling”. O Pai Natal dos SHJ não gosta de Coca-Cola.

10|
Gianluigi Trovesi
Dedalo
Enja, distri. Dargil

Com Trovesi, o Natal é mesmo festa. “Dedalo” é um labirinto, um manacial de iluminações e redescobertas que desenvolve em formato orquestral as proezas de “From G to G”. “Vaudeville”, “swing”, jazz progressivo, jazzrock, humor, mil caminhos a girar num carrocel. Um dos grandes discos sem fronteiras de 2002. Para oferecer em qualquer dia do ano.

22/04/2016

Gianluigi Trovesi - Dedalo

Y 19|JULHO|2002
roteiro|discos

GIANLUIGI TROVESI
Dedalo
Enja, distri. Dargil
9|10 

Não vale a pena tentar fugir do labirinto. Não é que não tenha saída, acontece apenas que, depois de entrarmos, não temos vontade de sair. O dédalo é Gianluigi Trovesi, da Italian Instabile Orchestra, o homem que, com Louis Sclavis, Michel Portal e John Surman, ergueu tão alto como Eric Dolphy a música do clarinete baixo. “Dedalo” é a celebração orquestral, com a WDR Big Band alemã e as contribuições de Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), de peças compostas por Trovesi para formações mais curtas, nomeadamente para o clássico “From G to G” aqui recuperado na quase totalidade. Dispara-se um tirinho numa feira “vaudeville” de New Orleans, gargalha-se com Zappa, pisca-se o olho a Ellington, Gil Evans e Don Ellis, puxa-se o tapete ao Jazz Progressivo e ao jazzrock de 60/70, e apanha-se de chapa com o Verão inteiro do jazz. Trovesi é um compêndio vivo, capaz de concentrar num minuto 80 anos de história e conseguir espantar-nos com o fulgor e a adrenalina da sua música. Um dos grandes discos livres de 2002.