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18/05/2026

Chuva de estrelas [Genesis, Rui Veloso]

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 11 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock

 

CHUVA DE ESTRELAS

 

Este Natal é uma fartura. É costume artistas consagrados aproveitarem a quadra para regressar às lides editoriais. Mas poucos terão sido os anos, desde a saudosa década de 60, em que o período deu origem a tamanha colheita de novos discos de artistas de primeiro plano (para já não falar de compilações de êxitos). Diz-se que foi da guerra do Golfo, que fez as grandes editoras atrasarem para agora o produto que se previa para antes ou a exigirem antecipações de artistas que planeavam lançar mais tarde.

É esta “rentrée” recheada de vedetas que se revê no presente “dossier”. Consideram-se os nomes mais sonantes, num plano internacional ou nacional, que acabam de editar trabalhos originais de estúdio ou ao vivo. Trata-se de cada um a título daquilo que é fundamental, ou seja, a sua dimensão de fenómeno mediático e comercial, recordando-se os antecedentes e o contexto que assistiram a tais retornos. Nessa medida, as avaliações dos discos respetivos passam para segundo plano.

Introdução não assinada de um texto coletivo, em que FM escreve sobre Genesis e Rui Veloso

 

GENESIS

 

 

Phil Collins, Tony Banks e Michael Rutherford chamam “nova era” ao período discográfico iniciado com “Abacab” e cujo penúltimo capítulo remontava a 1986 e a “Invisible Touch”, que, diga-se de passagem, foi número um em tudo o que é sítio. Os três Genesis enaltecem as virtudes do estúdio próprio, que, dizem eles, lhes garante um som impecável. Aliás, pode dizer-se que estão em condições de enaltecer tudo. Phil Collins, então, não tem razões de queixa.

Assim, os motivos que os levaram a não pôr, por enquanto, cobro ao dinossauro são de ordem exclusivamente artística. Faz-lhes falta o som de grupo, a companhia mútua, o acréscimo de criatividade segundo a lei de que “três cabeças trabalham melhor que uma cabeça só”.

“We Can’t Dance” é ainda um objeto terapêutico, uma purga, remédio santo para o “stress” dos artistas: “aliviou-nos da tensão” – garante Tony Banks, o mais tenso dos Genesis, por acaso aquele que dos três se saiu menos bem nas atividades a solo e, por isso, o mais atreito à hipertensão.

Passados tantos anos sobre as saídas de Peter Gabriel e Steve Hackett, os Genesis resolveram que queriam ser “diferentes”. Por exemplo, Tony Banks descobriu que existiam outros registos no sintetizador para além das cordas sintéticas e que era possível, com um sampler, imitar um som de órgão. No próximo álbum, lá para 2010, talvez nos mostre como é possível produzir, com um órgão, o som de um sampler sintético de cordas. Tony Banks é um infeliz. Sente-se “frustrado” pela falta de sucesso dos seus discos. Os outros apiedaram-se.

Para Phil Collins, mais um ou menos um disco dos Genesis tanto se lhe dá como se lhe deu – é mais uma diversão que outra coisa, uma pequena extravagância “raffiné”. Está bem instalado na vida. Não necessita de fazer ondas para fazer dinheiro. Um “aid” aqui, um protesto ali, um depoimento humanitário acolá garantem-lhe a manutenção da imagem “clean” e o caudal de divisas. Condescende em dar-se ares de rufia e diz que gosta de pornografia e que é contra a censura. Ah, valente!

Mike Rutherford toca baixo e tem cara de parvo.

Seria muito bonito, e muito digno, e tudo isso, a lenda, o mito, o nome, se não nos quisessem impingir os discos. Sim, é verdade, o Natal é boa altura para “dar música”. Mas o que é de mais enjoa. Adeus ó vão-se embora.

 

RUI VELOSO


Não edites amanhã o que podes editar hoje, parece ser o lema das editoras neste final de ano. Coincidência ou não, portugueses e estrangeiros escolheram o Natal para deitar cá para fora os frutos, verdes ou maduros, nalguns casos podres, da sua inspiração. É um ver se te avias. À partida, com Rui Veloso, o risco de “flop” comercial é diminuto, tendo em conta que é o nome mais sonante do rock português, o que, com o empurrão das operações de “marketing”, garante desde logo o escoamento do produto.

Encomendado pela Comissão dos Descobrimentos e beneficiando de um “budget” que terá rondado os seis mil contos, “Auto da Pimenta” tem ainda por cima algumas vantagens adicionais: é um objeto de apresentação luxuosa que, independentemente do conteúdo musical, convida à aquisição. Tudo na embalagem, desde o grafismo imaculado à profusão de imagens que piscam o olho ao aventureiro dos mares que vive em cada um de nós, grita “comprem-me”. Goste-se ou não, ouça-se ou não, “Auto da Pimenta” não é difícil adivinhar que vai ser a prenda de Natal mais procurada. É um valor seguro, um “bibelot” cultural capaz de fazer boa figura na discoteca ou na compacteca, da mesma forma que a coleção encadernada das obras completas de Eça de Queirós serve para abrilhantar a estante da biblioteca.

Depois, há os Descobrimentos e blá, blá blá, somos todos heróis, o mar, o fado, caravelas e saudade, ah que saudades do Império (do cinema, bem entendido…), Camões, Fernão Mendes Pinto, o Centro Cultural de Belém e para o ano, se Deus quiser e não houver bronca entretanto, a CEE. Assim, quem este Natal não comprar “Auto da Pimenta”, não é bom português nem bom chefe de família.

O disco, coitado, não tem culpa nenhuma. É um bom disco, tão bom ou melhor que os outros já gravados pela dupla. Rui Veloso e Carlos Tê fizeram o que se lhes pedia, a revisão moderna da epopeia dos Descobrimentos, e fizeram-no bem. “Auto da Pimenta” é um manual honesto do “português moderno”, pintado com as cores do sonho. Uma aventura de trazer por casa.

24/09/2025

Sem as asas do arcanjo [Genesis]

 

QUARTA-FEIRA, 22 AGOSTO 1990 local

 

RTP

 

Sem as asas do arcanjo

 

DOIS GRUPOS distintos, com a mesma designação: Genesis. Antes e depois de Peter Gabriel. Infinitamente mais interessantes e inovadores na primeira fase, aquela em que contavam com os sonhos surreais e as vocalizações teatralizadas do arcanjo Gabriel. “From Genesis to Revelation”, assim se chamava o disco estreia, capa negra, música devedora dos sinfonismos caros aos Moody Blues, textos prenunciadores dos delírios poético-fantásticos que estavam para vir. A editora era a Decca, não alertada para o grande “boom” da música progressiva, prestes a eclodir na passagem a década de Setenta. A era de oiro desenrolou-se na Charisma, editora onde despontaram grupos importantes do movimento como os de Jackson Heights, Audience e, sobretudo, os Van Der Graaf Generator, de Peter Hammill, ao lado de Peter Gabriel, um dos maiores poetas que a Pop já conheceu.

            “Trespass”, “Nursery Cryme”, “Foxtrot”, “Selling England by the Pound”, universos de fábula pontuados pelo humor negro muito britânico e a extraordinária capacidade de Gabriel em criar histórias e personagens que aliavam o feérico das palavras à complexidade barroca de uma música servida por excelentes executantes, como eram e continuam a ser, o guitarrista Steve Hackett, o baixista Michael Rutherford, o teclista Tony Banks e Phil Collins, evidentemente. Com a obra-prima “The Lamb Lies down on Brodway”, os Genesis atingem o auge e Peter Gabriel parte para novas aventuras a solo.

            Phil Collins tinha o caminho livre. A partir de “A Trick of the Tail”, já sem Gabriel, a personalidade e imagem da banda desvanecem-se progressivamente. Mas foi só quando Phil começou a cantar que os milhões começaram a aparecer. A partir de aí a história passou a ser outra. Hoje, ao lado de Phil Collins (que praticamente abandonou a bateria), permanecem Tony Banks e Mike Rutherford, aos quais se juntaram Daryl Strummer e Chester Thompson. Vamos vê-los ao vivo, no estádio de Wembley, em julho de 1987, interpretando canções recentes de “Invisible Touch” e outras mais antigas, anteriores glórias. Sem as asas do arcanjo, os Genesis deixaram de voar.

17/09/2021

Rael na real em cascais [Genesis]

Y 4|MARÇO|2005
música|genesis
 
Rael na real em cascais
 
The Lamb Lies Down on Broadway foi o concerto certo na altura certa. A revolução de Abril, e o seu banho de realidade, era ainda uma criança mas o onirismo do rock Progressivo já declinava. Os Genesis acertaram precisamente no meio. Um DVD editado puxa pelas memórias.
 
Para os que estiveram presentes no Dramático de Cascais nas noites de 5 e 6 de Março, de 1975, foi o concerto das suas vidas. Tão importante que, 30 anos depois, um grupo de carolas resolveu juntar-se para comemorar e promover iniciativas alusivas ao concerto: um almoço-encontro (amanhã, no Centro Cultural da Gandarinha, às 13h30, com entrada a 30 euros), um número da revista Cais dedicado ao concerto e a edição de um DVD-documentário [ver texto nestas páginas].
            1975 foi um ano estranho em Portugal. A ebulição provocada pelo 25 de Abril estava longe de se considerar extinta e saborear o gosto da liberdade era ainda estonteante. Viviam-se os tempos do PREC Processo Revolucionário em Curso), espantava-se o medo que a reação erguesse de novo o rosto monstruoso. Tão monstruoso como a máscara que Gabriel vestiu nessas noites, durante a apresentação do tema “The colony of the slippermen”, com as suas bolhas-balões…
            O concerto dos Genesis, mítico porque catalisador de uma corrente estética – o rock progressivo – e centrado no espírito da época, foi um sonho tornado realidade para os que lá estiveram. Duas noites de escape feito visão, com o COPCON (Comando Operacional do Continente) a tentar controlar no exterior do Dramático de Cascais aquilo que é impossível de controlar, a imaginação. No segundo dia houve mesmo tiroteio (para o ar) a causar o pandemónio geral. Ambiente fervilhante. Lá dentro, ainda mais quente, estaria delirante.
            Foram 20 mil os que assistiram à apresentação de “The Lamb Lies Down on Broadway”. Para o grupo era o pico de uma carreira que abraçara o rock progressivo mas que neste álbum prenunciava já a rutura com um imaginário que o punk arrasaria e formataria em canções de dois minutos de ódio e a ainda menor número de acordes. As tensões eram imensas mas a obra revelou-se capital. Peter Gabriel, Rael (anagrama de “Real”), na iconografia de “The Lamb...”, trazia já embrulhada nas suas histórias o dia-a-dia a preto e branco (como a capa do álbum, a contrariar a profusão cromática das anteriores).
            A fantasia dos Genesis deixara de ser a “trip” de “Supper’s Ready” (“Foxtrot”, 1972), a surrealidade de “Nursery Cryme” (1971) ou a Inglaterra paradoxal de “Selling England by the Pound” (1973). Agora era a luta de Rael, um porto-riquenho de casaco de cabedal. De certa forma “The Lamb...” antecipa o fi m do rock progressivo, num ano, 1974, que coincide com a agonia desta corrente musical. As “suites” de 20 minutos desapareceram, dando lugar a canções curtas que revelam o desejo de Gabriel de chegar a outro público, mais próximo da pop e menos elitista. Não por acaso o grupo teria a sua primeira cisão já no ano do concerto, 1975, sendo “The Lamb...” por muitos considerado não um álbum dos Genesis mas uma obra de Gabriel. Gabriel que encetaria a partir daí carreira a solo que não fez mais do que confirmar o abandono do rock progressivo. Quanto aos Genesis, depois de breve período de transição, sinalizado por “Trick of the Tail” (1976) e “Wind and Wuthering” (1976), tinham o caminho aberto para se tornarem num grupo “mainstream”, de estádio, para multidões.
            1975 foi pois o último ano de glória do Progressivo. O ano seguinte seria o voltar da página mas “The Lamb...” ainda é considerado a obra-prima do grupo. O teatro e a inovação que nessas noites em Cascais fizeram revirar os olhos à assistência representaram o expoente da estética do grupo. Fumos, máscaras, “slides”, ilusões de ótica transformaram o concerto num ritual de metamorfoses. Mas Peter Gabriel/Rael que escrevera sozinho toda a peça (duplo álbum em disco, mais de duas horas de espetáculo ao vivo) estava de saída. Os Genesis nunca mais voltariam a ser os mesmos. Os elementos da assistência também.
            Não foi o primeiro concerto de rock progressivo em Portugal. Antes já por cá tinham passado os alemães Embryo (curiosamente, a estreia, gratuita, de um concerto deste tipo, aconteceu com um representante do krautrock), os If, os Beggars Opera e – primeiros a atuarem no Dramático – os Procol Harum. Mas os Genesis vieram na altura exata, no apogeu. Ao contrário dos outros concertos, em que o mais excitante foi de ordem não-musical, os Genesis trouxeram a perfeição.
            No caso dos Procol Harum, foi ver parte do público a saltar para o interior do pavilhão a partir do telhado, ao mesmo tempo que, numa tentativa para acalmar os ânimos, a organização anunciava pelos altifalantes que já faltava pouco e que os músicos estavam nesse momento a entrar para o avião que os traria de Londres para Lisboa… Com os Beggars Opera a excitação aconteceu quando um dos assistentes, culminando um “strip tease” improvisado, pontapeou um dos sapatos para a plateia. O esmagamento contra a parede da entrada do Monumental, no concerto dos String Driven Thing, não conta. O concerto dos Atomic Rooster em Almada, com o tropel do público a espezinhar o porteiro e este, pisado e espalmado no chão, continuando, num delirante excesso de zelo, a pedir que lhe fossem mostrados os bilhetes, também não… Era o rock em Portugal no anos conturbados do pós-revolução.
            Casos extremos foram o tiroteio da polícia no concerto dos Can no Pavilhão dos Desportos, em Lisboa, e, no registo oposto, a beatitude ordeira dos que se deslocaram a Cascais para ver e ouvir os Pulsar. Com os Genesis foi tudo em grande: o público em excesso (houve quem, no interior do pavilhão, não visse peva do espetáculo), o visual desmesurado do grupo, a dimensão inflacionada da própria obra, escrupulosamente recriada em moldes artísticos e técnicos a que Portugal nunca antes assistira.
 
 
metralhadoras e charros
 
As recordações seguintes pertencem a quem esteve lá e se lembra. Com histórias para contar daqueles dois dias de apertos, tiros, mas, sobrelevando tudo, um dos maiores espetáculos de rock ao vivo em Portugal.
 
Miguel Ângelo delfins
Tinha 8 anos quase 9, e um dos discos que tinha ouvido no ano anterior era o “Selling England By The Pound”, em casa de umas primas que passavam férias em Inglaterra e traziam alguns vinis que por cá não se encontravam. Assim rumei a Cascais, acompanhado pelas referidas primas, irmão e pais. Lembro-me do ambiente de celebração, era o primeiro dia de concerto e a revolução ainda estava fresca. De qualquer modo, não houve grande confusão lá dentro (ao contrário do segundo dia, onde o COPCON também atuou!). Antes do concerto, as pessoas aplaudiam aqueles que conseguiam entrar à borla através de uma abertura na bancada que dava para o hipódromo! Quando as luzes se apagaram toca a gente se pôs em pé em cima das cadeiras, e fiquei em desvantagem. Nisto, um freak simpático ao meu lado pôs-me às cavalitas, de onde vi a maior parte do concerto! Nunca lhe agradeci o sufi ciente por isso... A memória fotográfica resistiu mais ao tempo que a auditiva, embora a interpretação de Gabriel e os teclados de [Tony] Banks fossem a marca de água das canções, juntamente com a guitarra de [Steve] Hackett, o único músico que tocando sentado contrastava com a exuberância de Gabriel. Mas tenho presentes, mais ou menos desfocadas, as imagens do manto negro a abrir o seu patchwork colorido em “The Light Lies Down...”, do efeito do cone de luz rodando sobre o cantor, da simulação da “cage”, da ilusão, através de um manequim, de Gabriel estar nos dois lados do palco ao mesmo tempo, daquela banda de imagem dividida por três ecrãs – inovadora para a altura! – e daquele balão rebentado no fato de estranhas protuberâncias que tinha sido usado como imagem promocional do concerto. Este concerto terá cimentado a minha ligação eterna à música pop e apontado uma via profissional alternativa, num país ainda muito atrasado nesse aspeto. Mas era aquilo que quereria fazer “quando fosse grande...”
 
David Ferreira diretor da emi - vc
Estava tão cheio que dava a sensação de que não havia lotação limite. Estávamos todos permanentemente ou ao colo de alguém ou com alguém ao nosso colo. Há cerca de três anos, eu estava no estúdio do Peter Gabriel para ouvir o último disco dele. Não o conhecia pessoalmente. Almoçámos no estúdio da Real World e o Peter Gabriel apareceu estávamos nós a começar a almoçar. Ia cumprimentando as pessoas e na altura em que chegou a minha vez disse-lhe: “Olhe, não nos conhecemos, mas a primeira vez que o vi foi há vinte e muitos anos”. Ele ficou assim a olhar para mim. Até que exclamou: “Portugal… Portugal… ah, com as metralhadoras!”. Lembrava-se perfeitamente, nunca tinham atuado ao lado de soldados com metralhadoras. Ficou encantado o resto do tempo a contar histórias desse concerto. Também me lembro que apareciam dois Peter Gabriels. Mais tarde quando vejo o Phil Collins a assumir as rédeas como cantor parti do princípio que o clone do Peter Gabriel seria ele. E lembro-me que estávamos todos vagamente charrados, com o que o tipo do lado fumava. A proximidade das pessoas era tão grande que era impossível deixar de sentir o fumo. Foi uma mistura curiosa de uma sobrelotação terceiromundista, metralhadoras e charros.
 
Zé Pedro xutos e pontapés
Para a minha geração foi o grande concerto rock. Estava fascinadíssimo. Fui para lá com três dias de antecedência, só tinha dinheiro para o bilhete de um dia, para o segundo dia falsifiquei, fiz um bilhete à mão. Só o ambiente já era excecional, podemos comparar, à nossa dimensão, a um Woodstock.
 
Manuel Cardoso tantra
Fui aos dois dias. Aquilo foi um aperto desgraçado, inacreditável, mas os espetáculos foram memoráveis. Impressionou-me sempre a obra em si, “The Lamb Lies Down on Broadway”, embora não seja o meu trabalho preferido dos Genesis. Gosto mais dos dois primeiros álbuns, a seguir vem esse e o “Trick of the Tail”. Impressionou-me o espetáculo, mas o concerto não marcou nada os Tantra. Cresci com os Genesis mas não, essa questão [da influência] foi sempre [posta] por causa das máscaras, as pessoas colam pelo óbvio. A nossa música não tinha nada a ver com os Genesis, aliás era das bandas progressivas, eles e os Pink Floyd, as que menos nos influenciaram.
 
Lena D’água cantora
Fui no dia em que houve tiros lá fora. Estava tanta, tanta gente que fi cou impossível. Eu estava pendurada, agarrada a uma grade, como não sou alta, só assim é que dava para ver. Fui com dois amigos, um era o meu namorado, futuro marido, e mais um outro da banda, os Beatnicks. Quando chegámos a Cascais, de comboio, estava tanta gente, havia filas que davam a volta ao quarteirão. Mas passámos ao pé de um porteiro a perguntar quanto tempo é que ele achava que ia demorar. Eu estava muito apaixonada, com uma tunicazinha e ele achou que eu estava grávida. “A senhora está à espera de bebé, pode entrar!”. E entrámos. O mais incrível é que eu não estava grávida mas engravidei mesmo nesse mês, também já andava a pedi-las. O concerto foi um espetáculo de luzes, aquele Peter Gabriel maravilhoso, o que ele fazia no palco…desaparecia de um lado, aparecia do outro…Lembro-me de um túnel por onde ele entrava… Era tudo fantástico para nós, na altura o que tínhamos por cá eram os festivais de jazz de Cascais. E a gente não faltava. Não éramos do jazz, mas era uma maneira de vermos bons músicos a tocar.
 
Manuel Mouzos realizador
Fui ao segundo dia, com bilhete, embora depois soubesse pelos meus amigos que houve gente que entrou sem rasgar o seu, por causa da confusão à porta. Lembro-me de ver na entrada militares e isso marcou-me logo, além do facto de ser a banda, na altura, minha preferida. Todo o frenesim, não só meu, e depois aquela confusão que se gerou... até que um dos militares, sem querer, começou a disparar o que gerou ainda maior confusão. A imagem que tenho é da entrada ficar de repente um deserto cheio de sapatos e sacolas. Depois de nova tentativa de entrada, quase ia morrendo, espezinhado, caiu uma pessoa à minha frente, depois outra, caíram não sei quantas para cima de mim, foi turbulento. Mas o facto de nos conseguirmos desembaraçar da situação e conseguirmos entrar, lá dentro lá animámos e realmente foi um concerto magnífico, quase mágico. Quando saímos só queríamos é que aquilo continuasse por mais tempo.
 
 
Encore
30 anos depois
 
Há 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o público português. O DVD “Genesis Encore Cascais 75” relembra como tudo se passou, para gáudio dos que pretenderem reavivar a memória do mítico concerto de 6 de Março de 1975.
            Intercalados com os vários depoimentos, surgem imagens da época que recuperam o ambiente político do país até se chegar ao próprio pavilhão Dramático de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do público.
            Os entrevistados vão desfiando memórias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz alguém, em que os discos chegavam cá com meses de atraso. Não é verdade. As novidades, muitas delas álbuns obscuros, chegavam por via de importação com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publicações de música em francês (presumivelmente estaria a pensar na “Rock & Folk” e na “Best”) e em alemão (“Bravo”). Errado. Os jornais britânicos “Melody Maker” e “New Musical Express” há anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
            Politicamente vivia-se o tempo do PREC (Processo Revolucionário em Curso”), saltam imagens de comícios e manifestações de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, “uma coisa colada à direita”. A voz “off” de José Mário Branco canta versos como “abaixo a burguesia e a exploração”. O 11 de Março não tardaria nessa “semana completamente louca” em que o jornal A Capital anunciava que a “CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Março”. 20 liceus estavam em greve, era “vulgaríssimo haver cenas de pancadaria”. No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma “coisa extra-terrestre”.
            Chegado o dia, e para não destoar do contexto, “foi a balbúrdia total”. O DVD, realizado por João Dias a partir de um conceito idealizado por Mário Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se “Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura voluntária”. As imagens paradisíacas do jardim anexo ao pavilhão escondem a violência e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou não o bilhete de 80 escudos. São mostradas imagens do pavilhão, ainda em construção. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dramático de Cascais num barril de pólvora.
            Mas quando o espetáculo começa finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam “histéricos”. Alguém fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ninguém esqueceu o aparato cénico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. “Uma projeção”. Um deles era um “boneco”. “Jogo de espelhos”. Ainda hoje o mistério permanece. Também é recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um “preservativo gigante” onde Gabriel fazia de “espermatozóide”. Só no fim do DVD, sobre as imagens do grupo em palco captadas por um amador, se ouve a música de “The Lamb Lies Down on Broadway”.
            Os extras incluem material fotográfico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontraídas na vila e na baía de Cascais. Há ainda um apanhado de reações da imprensa da época, reproduções das páginas da próxima edição da revista Cais (CasCAIS 75…) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espetáculo “The Lamb Lies Down on Broadway” que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentará em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edição original do álbum. Os The Musical Box, depois de já terem mimado álbuns anteriores do grupo original, como “Foxtrot” e “Selling England by the Pound”, foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em “The Lamb Lies down on Broadway” e vão socorrer-se igualmente de todos os truques de encenação que a banda britânica usou em Cascais.
            30 anos é muito tempo para ser concedido um “encore”. Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.
 
GENESIS
ENCORE CASCAIS 75
distri. Bazar do Vídeo
7|10

06/11/2009

Genesis - Genesis Archive, 1967-75

Sons

26 de Junho 1998
REEDIÇÃO

Entre a génese e a revelação

Uma das coisas da música dos anos 70 que me fez sempre muita confusão era o facto de os vocalistas conseguirem decorar as letras de todas as canções. Reparem que não me estou a referir a cançõezecas de três minutos, mas a coisas da dimensão de “Tales from Topographic Oceans” ou “The Lamb Lies down on Broadway”, composições de hora e meia que enchiam álbuns duplos. E se ainda admito que no estúdio houvesse sempre a possibilidade de recorrer à cábula, já nos espectáculos ao vivo tal proeza me parece totalmente incompreensível.
Estou a falar disto porque dois dos quatro CD que compõem a caixa dos Genesis, agora editada, “Genesis Archive, 1967-75”, são ocupados com a versão ao vivo, na íntegra (ao todo, 103 minutos!), de “The Lamb Lies down on Broadway”, derradeiro “magnum opus” de um grupo que até essa altura esteve sempre na liderança do Progressivo britânico. Como se sabe, Peter Gabriel abandonaria logo de seguida (por razões que ele próprio explica no extenso livro que acompanha a presente edição) e os Genesis evoluiriam para o lixo “mainstream” para onde Phil Collins os empurrou a partir de então. Pois nesta gravação de “The Lamb...”, efectuada a 24 de Janeiro de 1975 no Shrine Auditorium, em Los Angeles, Peter Gabriel não se engana uma única vez, ainda que continuemos a preferir ouvi-lo contar a história de Rael na versão original de estúdio.
O quarto compacto reúne material alternativo ou inédito, na maioria recolhido do período anterior a “Trespass”, primeiro de uma série fantástica de álbuns editados com o selo Charisma. Canções da época do disco de estreia, “From Genesis to Revelation”, gravado para a Decca em 1968, com produção de XXX. São pois duas fases contrastantes as que foram arquivadas, o auge da teatralidade que caracteriza “The Lamb...” em comparação com a delicadeza depurada de pequenas historietas às quais Gabriel emprestava já a cor da sua originalidade e cujo rasto se encontraria ainda em faixas de álbuns posteriores, nomeadamente nas duas pérolas que intercalam as longas bizarrias de “Nursery Cryme”, “For absent friends” e “Harlequin”.
Encontram-se neste disco uma mão-cheia de “demos” de temas de “From Genesis to Revelation”, incluindo “She is beautiful” e “Patricia”, que dariam origem, respectivamente, a “The serpent” e “In hiding”. Há ainda uma “demo” de “Dusk”, do álbum “Trespass”, sendo o resto constutuído por “demos” de inéditos, “Going out to get you”, “Build me a mountain”, “Image blown out”, “The magic of time”, “Hey!”, “Hidden in the world of dawn”, “Sea bee”, “The mistery of the Flanan Isle lighthouse”, “Hair on the arms and legs” e “Try a little sadness”, e três temas difundidos pelo programa da BBC Nightride: “Shepherd”, “Pacidy” e “Let us now make love”.
O compacto número três inclui versões gravadas ao vivo no Rainbow Theatre, em 1973, de temas de “Trespass” (“Stagnation”), “Foxtrot” (“Supper’s ready” e “Watcher of the skies”) e “Selling England by the Pound” (“Dancing with the moonlit knight”, “Firth of fifth”, “More fool me” e “I know what I like”). Ainda os dois lados do single “Happy the man”/“Twilight alehouse” e uma versão de um 7”, não editado, de “Watcher of the skies”. O destaque vai naturalmente para “Supper’s ready”, um tema que pode ser lido como uma “trip” de ácido (assim como “The Lamb...), com a particularidade de que, nesta viagem de longa duração, o cérebro do seu autor se fundiu...) na qual Peter Gabriel se desmultiplica por diversas personagens e registos vocais. Algo que apenas se repetiria noutro “tour de force”, agora de “Selling England by the Pound”, que é “The battle of Epping forest”.
Na prática, isto significa que a presente colectânea abrange a totalidade dos álbuns gravados pela banda entre 1967 e 1975, embora num contexto diferente do original. Nesta medida, “Genesis Archive, 1967-75” constitui um documento importante e uma peça indispensável para os incondicionais do grupo. Os mais novos espantar-se-ão ao contacto com esta música que conseguiu traduzir a lógica escondida dos sonhos, materializando-os num teatro de máscaras sem paralelo na pop. Numa época em que Phil Collins não era ainda careca e Peter Gabriel não viajava em iates na companhia de Claudia Schiffer. Entre a génese e a revelação, é toda uma história de múltiplos capítulos que se desenrola do fim para o princípio, como um filme em busca da essência contida nas primeiras imagens.


Genesis
Genesis Archive, 1967-75 (8)
4xCD Virgin, distri. EMI-VC



NOTA – As notas sobre o álbum “Nothing Can Stop us”, de Robert Wyatt, publicadas na passada semana, contêm uma incorrecção e uma omissão. Assim, o tema “Grass” é da autoria de Ivor Cutler, e não de Chris Cutler. Depois, esquecemo-nos de referir um dos temas fundamentais do álbum, a versão de “At last I am free”, de Nile Rogers e Bernard Edwards, dos Chic.

01/05/2009

Genesis - Calling All Stations

Sons

19 de Setembro 1997

Genesis
Calling all Stations (3)
Virgin, distri. EMI-VC

Numa altura em que os dinossauros estão prestes a regressar pela mão de Steven Spielberg, no segundo capítulo da saga do seu parque Jurássico, o mundo volta a ser atacado por um dos seus espécimes mais resistentes e perigosos, o temível Genesiossauro, um dos maiores predadores dos charts. “Calling all Stations” aí está para cavar mais uma estaca no coração daquela que foi uma das bandas mais originais e criativas dos anos 70. Anthony Philips foi-se embora. Peter Gabriel despediu-se. Steve Hackett fartou-se. Ficou o tio Collins, que, por fim, também se fartou. Ficaram Mike Rutherford e Tony Banks. Com as mãos a abanar e uma tarefa por cumprir. Os Genesis, para mal dos nossos pecados, têm que continuar. Ouvidos 35673420 candidatos, foi escolhido um tal Ray Wilson, ex-Stiltskin, cuja voz – oh espanto e danação! – faz lembrar, em temas como “Congo”, a de Peter Gabriel. Aliás este e outros temas de “Calling all Stations” repescam a mesma estética de batida tribal que Gabriel explorou nos seus trabalhos a solo, com a diferença de que a criatividade é nula. São onze temas que se arrastam e se auto-estimulam, na vã tentativa de, com o esforço, encontrar um caminho, qualquer que ele seja, que vá dar a algum lugar que não o das vendas. Tempos médios sucedem a tempos médios, os refrões esgotam-se nas mesmas fórmulas que os anos foram cristalizando. Os Genesis arrastam-se e arrastam-nos num longo bocejo. Ainda não é desta que matam o borrego. Que, aliás, já foi morto. Há muitos anos. Na Broadway.

02/10/2008

Genesis - We Can't Dance

Pop Rock

13 NOVEMBRO 1991
LP’S

A FORÇA DA INÉRCIA

GENESIS
We Can’t Dance
2xLP/MC/CD, Virgin, ed. Edisom

“Trabalhamos tão bem uns com os outros que quando nos voltamos a juntar parece que não se passou assim tanto tempo.” As palavras são de Phil Collins e servem na perfeição para definir uma atitude. Com efeito, para os Genesis – Phil Collins, Mike Rutherford e Tony Banks – não deve ter passado mesmo tempo nenhum. Para nós é que passou um bocado. Mais precisamente cinco anos, desde que gravaram o último disco de originais, “Invisible Touch”. “Desta vez estávamos um bocado enferrujados, mas não foi preciso muito tempo para voltarmos ao normal”, é normal que o digam. A “normalidade” em causa já os leitores a adivinham, caso se tenham dado ao trabalho de ouvir a obra anterior do grupo. Só para os outros o som será surpresa.
As canções são longas, chegando aos dez minutos, em média três por lado, de maneira a dar tempo ao tempo, a ver se acontece alguma coisa. Geralmente não acontece. A estrutura de cada tema surgiu a partir de improvisações em estúdio. O que significa que, na prática, foram tocando até aparecer um esboço qualquer parecido com uma canção. Ou, como diz Rutherford: “Começa-se a tocar e do caos acaba por surgir uma estrutura forte.” É uma força de expressão. Ou a força da inércia. Lá que a estrutura surgiu, surgiu. Digamos que com a força das grandes inutilidades, das que, na forma de disco, servem para atafulhar as prateleiras dos supermercados e fazem as delícias das nossas estações de rádio, tão apreciadoras de música a metro. Então este, pródigo em temas com a duração de “vou ali e já volto” que até dão tempo para lanchar.
Pois é, os Genesis já deram o que tinham a dar. Para sermos precisos, desde que Peter Gabriel resolveu abandonar o barco. Claro que as massas têm opinião diferente. “We Can’t Dance” até não é uma má opção para estrear o leitor de CD novo. Está bem gravado, as canções são agradáveis, sobretudo os primeiros cinco segundos de cada uma, e a capa é um mimo de cor e de bom gosto. Para falar com franqueza é mesmo o melhor: uma aguarela em tons pastel sobre um fundo creme repescado de “Selling England by the Pound” (bons gtempos…), e os dois sacos interiores cheios de figurinhas ilustrativas de cada tema, de novo a puxar a memória até aos tempos áureos em que o arcanjo ainda era militante da causa.
De resto, para além do título-tema que, vá lá, com um bocado de boa vontade não repugna chamar um “blues à Genesis”, como sugere a promoção, é curioso que o melhor momento de “We Can’t Dance” seja precisamente aquele em que Phil Collins não tem qualquer pejo em imitar de forma descarada o estilo vocalista, em “Dreaming while you sleep”. Escute-se a maneira como acentua as sílabas do verso “I never saw her step into the street” e compare-se. Até a base rítmica é parecida. E Phil Collins que tanto trabalho tivera para se livrar do estigma… Não faz mal, os mais novos, o público que hoje dá de comer à banda decerto já não se lembra… os Genesis, quando querem, até sabem ser “esquisitos” e “originais”. “Ó Isilda, põe pá frente questa é da treta!” – será o comentário ouvido em muitos lares.
Pese embora esta pequena traição ao consumismo, “We Can’t Dance” destina-se a fazer a felicidade de muitas famílias portuguesas. Para tal não lhe falta nada: a voz bem curtida e ginasticada por anos de “aerábica” “live aid” de Phil Collins (que em “Tell me why” não se esquece de inventariar um pacote sortido de injustiças sociais, nem de soltar, muito a propósito, um “porquê” angustiado), as cordas airosas de Rutherford, bem atiradas para a frente pelo produtor de serviço, sem esquecer as teclas por norma discretas, nalguns casos mesmo distraídas, de Tony Banks.
Passando em revista tudo o que foi dito, resta acrescentar que “We Can’t Dance” tem todas as condições para chegar ao topo dos tops. O resto é conversa. (5)

02/06/2008

Revelação definitiva [Genesis]

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
REEDIÇÕES

REVELAÇÃO DEFINITIVA

GENESIS

Trespass (7)
Nursery Cryme (9)
Foxtrot (8)
Genesis Live (6)
Selling England by the Pound (9)
The Lamb Lies Down on Brodway (10)

Virgin, distri. EMI – VC

Após um primeiro esboço onde se traçavam já as futuras directrizes musicais do grupo, num álbum gravado para a Decca, “From Genesis to Revelation”, os Genesis arrancaram em força com “Trespass”. Anthony Phillips desempenhava, nessa altura, as funções de guitarrista que, no álbum seguinte, seriam atribuídas a Steve Hackett. Ainda preso a determinados “clichés” típicos da música da época, “Trespass” já apresenta, porém, a marca inconfundível do som Genesis: “suites” instrumentais em que pontificavam os teclados de Banks, textos em que o “nonsense” se cruzava com imagens medievais, apontamentos do quotidiano citadino e uma violência que, nos álbuns seguintes, se atenuaria e aqui explode no tema final “The Knife”.
“Nursery Cryme”, já com Hackett no lugar de Phillips (após o abandono, tem seguido uma carreira a solo interessante e prolixa, imbuída do espírito que caracterizou toda a primeira fase da banda, anterior a “The Lamb Lies down on Brodway”), é o primeiro grande momento dos Genesis. Cada canção conta uma história, colorida com as cores de uma imaginação que mergulhava no mundo das fábulas e da simbologia de uma Inglaterra surreal e vitoriana. “The musical box” é um tratado de humor negro onde o crime e o sonho brotam de uma caixinha de música assombrada. “For absent friends” aflora com pudor o encontro de duas solidões numa igreja deserta. “The return of the giant Hogweed” surpreende os terrores de mescalina perante a ameaça de um gigante vegetal. “Seven stones” é uma narrativa trágico-marítima e “Harlequim” uma alucinação em tons de ópio, fechando o álbum com uma incursão no mundo das fadas, andróginos e outros seres do “outro lado”, em “The Fountain os Salmacis”. Sobre os teclados de Banks, de onde se destacava a solenidade orquestral do “mellotron”, as guitarras de Hackett rivalizavam então com as de Steve Howe e Robert Fripp, dos Yes e dos King Crimson, intrometendo-se, de acordo com as exigências do ambiente, a flauta e o oboé manuseados por Gabriel com a simplicidade ingénua de uma criança.
Álbum de excessos, “Foxtrot” foi o primeiro a conseguir bons resultados em termos de vendas no Reino Unido. Nele, os Genesis perderam – apenas no primeiro lado, atenção! – um pouco o controlo dos acontecimentos, na tentativa algo frustrada de conciliarem opostos cada vez mais irredutíveis, que iam do medievalismo de “Timetable” à crítica social de “Get ‘em out by Friday”. Mas o segundo lado, ocupado na íntegra pela “suite” “Supper’s ready”, é uma obra-prima. Viagem entre um jardim de uma moradia nos subúrbios e o apocalipse, “Supper’s ready” – dividida em diversas partes cujos títulos só por si excitavam a imaginação – é, para quem souber aqui descortinar os sinais e a lógica, uma “trip” de ácido. A voz de Gabriel desmultiplica-se numa infinidade de registos que apenas encontraria paralelo no álbum seguinte, no tema “The battle of Epping forest”, onde a diversidade de timbres e inflexões vocais atinge o absurdo.
Em “Selling England”, os Genesis recuperam a calma, embora o caleidoscópio de imagens e emoções abrangesse temáticas cada vez mais diversificadas. Em termos de virtuosismo instrumental, a banda estava no auge, explorando ao máximo as possibilidades de todos os instrumentos, com destaque, de novo, para Tony Banks, que em “Aisle of plenty” mostra as suas capacidades de pianista, sendo este o álbum em que o teclista utiliza pela primeira vez e explora em pleno as possibilidades do sintetizador Moog. “More fool me” é cantada por Phil Collins, até então apenas um baterista competente em quem ninguém suspeitaria existir qualquer sede de poder, e “The Cinema show”, marcado por um romantismo hollywoodesco, abre às portas à viragem de 180 graus que os Genesis empreenderiam no álbum seguinte, o duplo “The Lamb lies down on Brodway”, ponto culminante da visão poética de Peter Gabriel.
Marcado por contrastes violentos e sonoridades estranhas, aproveitando ao máximo os efeitos de estúdio, “The Lamb Lies down on Brodway” narra, por vias sinuosas, o percurso de autoconhecimento de Rael, um porto-riquenho que era então o “alter ego” de Peter Gabriel. De forma ainda mais explícita que no tema “Supper’s ready”, desta feita é todo o duplo álbum que corresponde a uma viagem de ácido – neste caso, uma “trip” mais vasta e armadilhada, onde o caminhante interior se arrisca a ficar pelo caminho se acompanhar demasiado perto as peripécias da personagem principal. A chave desta interpretação lisérgica pode ser encontrada, ainda e sempre, na condição por quantos romperam o véu, já perto do final, num tema ao mesmo tempo enigmático e evidente: “It”. Claro que, neste “it”, é lícito ver tudo, mas é precisamente nesse “tudo” que se abrem e fecham as múltiplas portas de entrada e saída de “The Lamb lies down on Brodway”, um dos álbuns mais importantes da década de 70. Depois, foi o que se viu: o grupo tornou-se progressivamente numa caricatura de si próprio e mesmo Gabriel, perdida a embalagem dos primeiros quatro álbuns a solo, está também a ficar gagá e a preferir outro tipo de viagens – num iate, com Claudia Schiffer.
As presentes reedições, incluindo ainda o álbum ao vivo “Genesis live” – que nada acrescenta (antes subtrai) à magia do grupo –, são “remisturas definitivas” efectuadas a partir das “masters” originais, com qualidade técnica bastante superior às versões anteriormente disponíveis no mercado e, ao contrário destas, reproduzem as capas de origem na íntegra. Apenas apetece perguntar: não teria sido possível fazer isto antes, em vez de se “obrigar” o consumidor a nova reciclagem?