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29/10/2025

Música portuguesa - Grandes expectativas

 PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 16 JANEIRO 1991 >> Pop Rock

 

MÚSICA PORTUGUESA grandes expectativas

 

Se 1990 foi o ano das confirmações dos grandes nomes, mas também o da inexistência de um circuito alternativo que pudesse prometer a continuação do cenário, já há muita gente a tentar reagir contra isso. Pelo menos há uma grande esperança em relação ao aparecimento de projetos novos, que ainda assim pouco se vislumbram. Será 1991 um ano de grande explosão de vias alternativas impostas pela aparente estagnação do meio?

Algumas pistas parecem apontar nessa direção, se não atente-se na quantidade de nomes consagrados dispostos a arriscar em projetos fora do habitual. Uma dessas pistas passa mesmo pela grande vontade de altar as fronteiras e mostrar no estrangeiro o que se vai passando por cá. Serão tudo promessas de ano novo?

 

ANTÓNIO M. RIBEIRO
Nova editora discográfica, discos a solo e com os UHF, tournée intensiva


Como sempre, os UHF têm uma agenda recheada para o ano em curso. Concertos não faltam e parece que discos também não. António Manuel Ribeiro, mentor e porta-voz habitual do grupo, é organizado e prepara com antecedência todas as suas atividades, isto é, não brinca em serviço. É perentório: “Este ano, os UHF vão realizar uma série de concertos, já assinados, que farão parte da pré-temporada em relação ao Verão, que será muito intenso”. Quanto a discos, há projetos muito concretos: edição de um single antes da época estival, “que será como que um aperitivo do álbum de originais a editar depois do Verão”. Mais bombástica é a intenção de a banda de Almada criar a sua própria editora, destinada a editar e promover novos valores e, muito provavelmente, os próprios UHF, o que deixa antever uma rutura definitiva com a Edisom, à qual ainda se encontram ligados.

1991 vai ser o ano do lançamento a solo de António Manuel Ribeiro. Depois de uma primeira apresentação no Teatro Tivoli, integrada na campanha do MASP e que foi “até certo ponto uma brincadeira, embora tivesse sido minimamente preparada” (a apresentação, não a campanha, como é evidente...), tenciona continuar a trabalhar com os mesmos músicos que o acompanharam nessa ocasião e publicar o seu primeiro disco a solo ainda antes das férias grandes.

António Manuel Ribeiro anda no meio musical há muito tempo e conhece-o como poucos. Não tem pejo em criticar uma situação que julga cada vez mais deteriorada: “Em relação ao mercado discográfico, as coisas estão cada vez pior.” A editora que pensa criar pretende lutar contra tal situação: “Acho que nos devemos meter um bocado ao barulho. Ao fim destes anos todos de críticas constantes ao sistema, o que temos de fazer neste momento é apresentar-nos dentro desse próprio sistema e produzir, ao fim e ao cabo, novos grupos, novos artistas e novas ideias.”

O líder dos UHF não poupa as editoras: “A Europa e o confronto com 1992 deixou-as num deserto de ideias.” E diz ainda: “Toda a gente se queixa, desde os artistas aos próprios chefes das editoras, mas o que é um facto é que os disparates continuam semanalmente a ser os mesmos.” Refere-se a disparates como “gastar dinheiro mal gasto, de que são exemplo os milhares de contos perdidos em estúdio, em projetos sem pernas para andar” e adianta soluções: “A música portuguesa precisa sobretudo de descobrir novos valores, mas também de segurança e garantias de viabilidade financeira, sob riscos de [as editoras] se tornarem meros financiadores discográficos.” Acusa novamente: “Mas nada tem sido feito para que isso aconteça e as editoras são talvez as principais culpadas do insucesso prático que se verifica. O público não é parvo. As pessoas não compram os discos só porque são lançados cá para fora com grandes parangonas de promoção, mas que depois resultam em fracasso.” Exceções a estas estratégias mal orientadas, encontra-as António Manuel Ribeiro nos dois extremos do leque editorial: um dos casos é um dos “grandes” selos nacionais, o outro um pequeno, independente, e, segundo o cantor, “cada qual com um projeto viável para a música portuguesa”. De resto, 1991 será mais um ano do “deixa andar”.

 

 

JOÃO PESTE

Jorge Dias

 

PEDRO AYRES MAGALHÃES

Luís Maio

 

MIGUEL ÂNGELO

Luís Maio

 
RUI REININHO
GNR em estúdio, Gala anti-sida em Lisboa, cumplicidade Alexandre Soares

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Este ano, os GNR entrarão em estúdio “quando lhes apetecer”, de preferência a partir de março, que é, para Rui Reininho, “um bom mês, primaveril”, ideal para se gravar, sobretudo se for em Carcavelos. São capazes de apostar no estrangeiro: “Deve ser fácil, cá é tão difícil, há tanta má vontade, que lá fora não pode ser pior.” São capazes de ter razão.

Grandes concertos parece que não vai haver. A não ser em fevereiro, numa grande gala em Lisboa, uma intervenção “pequenina”, mas decerto que empenhada. Tem de ser, pois trata-se de “uma daquelas coisas de solidariedade, com uma recolha de fundos e apoios para a investigação da sida, com a participação de pessoas muito caridosas”. Para os GNR é importante “essa história do vírus”.

Já Rui Reininho, em particular, parece voltado para outro lado: vai trabalhar de novo com o seu antigo companheiro nos GNR, Alexandre Soares, na feitura musical de uma peça de Sam Shepard.

Para 1991, o vocalista da banda portuense acredita nas virtudes das organizações camarárias, que podem desempenhar um papel importante na divulgação da música portuguesa, caso do espetáculo que deram o ano passado na Alameda, mas “com um bocadinho menos de romaria”. Falta organização, mas é capaz de “não haver estruturas para isso”. Como na Alameda, que foi o que se sabe. “Fazer coisas dessas sem segurança pode ser perigoso, só nós, que somos malucos. Se tivesse sido, por exemplo, em Milão, tinha havido gente ferida, esfaqueada, confrontos”. Mesmo assim “sentem” os apoios das câmaras, embora sejam “um bocado eleitoralistas”. 1991 vai ser ainda um ano de proibições, com as bandas proibidas de tocar em bares, “por causa de horários, barulho, essas histórias todas. Apenas vai continuar aquela pressão das pessoas beberem copos”. Também não parecem acreditar muito nas editoras e ouviram falar de “recessão”. Enfim “é a guerra” – diz Reininho. “Acho que vai haver guerra!”

 

RUI VELOSO

Jorge Dias

 
RODRIGO LEÃO
Composição nos Sétima Legião, digressão nos Madredeus, projeto a solo


Rodrigo toca baixo e é um dos membros fundadores dos Sétima Legião. Depois iniciou, de parceria com Pedro Ayres Magalhães, o projeto Madredeus, onde se ocupa das teclas. É um dos personagens mais determinantes e influentes da nova música portuguesa, embora não seja muito vistoso nem vocacionado para afirmações sensacionalistas. Em 1991, dividirá a sua atividade entre as duas formações que integra. Quanto aos Sétima Legião têm poucas atuações agendadas, sendo duas delas no estrangeiro (Bélgica e Canadá). O objetivo desta formação não é, de resto, atuar ao vivo, antes estão mais preocupados em começar a compor e tocar material para um novo trabalho de estúdio, sucessor do triunfante “De Um Tempo Ausente”, lançado no Natal de 1989. É um trabalho mais a médio prazo e não é provável que seja editado antes dos finais deste ano/princípio do próximo. Diametralmente oposta é a ideia dos Madredeus, cuja digressão é para já a sua grande prioridade.

Para além das duas coisas, Rodrigo planeia também desenvolver este ano o seu projeto a solo que define como um trabalho de sintetizadores com computadores e surge na sequência da encomenda para a banda sonora do filme de estreia de Manuel Mozos. O artista encontra-se em negociações para a publicação do disco resultante com uma editora local. Com tanta coisa que fazer, Rodrigo está naturalmente um pouco à margem do trabalho alheio. “Tenho estado um bocado afastado do panorama local. As coisas que tenho ouvido... Acho é que há uma série de grupos que têm conseguido sobreviver.”

 
SÉRGIO GODINHO
Curtas metragens, programas de televisão, concertos em Goa e Macau

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“Escritor de Canções”, Sérgio Godinho parece este ano apostado em explorar outros tipos de linguagem: vídeo e cinema. Já tem gravados dois dos seis programas que tenciona apresentar na televisão sob o genérico de “Luz na Sombra”, série que explora algumas das principais funções inerentes à produção musical – como recentemente explicou, em entrevista concedida ao PÚBLICO. Além disso, tenciona realizar e produzir quatro filmes, quatro curtas metragens, no fundo “extensões de trabalhos de ficção que habitualmente faz em canção”. “Anda tudo ligado”, como ele próprio diz. Discos, este ano, só se estes projetos falharem. Quanto ao espetáculo “Escritor de Canções”, que alcançou grande sucesso enquanto esteve em cena no Instituto Franco-Portugais, tenciona levá-lo a Goa e Macau já em fevereiro.

Para o ano em curso, espera da música portuguesa que surjam coisas novas, mas que não sejam “indigestas”. É de opinião, no entanto, que adiantar mais qualquer coisa, seria como “fazer previsões sobre a guerra no Golfo”. Assim, acha que “todas as hipóteses estão em aberto”. Segundo ele, “criatividade é o que não falta e em Portugal é uma coisa estimulante”. Infelizmente parece que o que falta mesmo é “um mercado, mesmo para os consagrados. O consumo não é tão extenso como isso e o que há são casos esporádicos, como o Rui Veloso, de facto um fenómeno, mas que não faz a Primavera”. De resto, o costume: “A nível de estruturas organizadas para ‘tournées’ e espetáculos ao vivo, a coisa não tem evoluído muito positivamente.”

Em relação ao tal apoio ou não das câmaras municipais, lamenta que o panorama esteja “um bocado em recessão”. O rock é ainda assim quem menos razões tem para se queixar: “As câmaras acham que a juventude quer sobretudo rock e é como se lhe desse um brinde. Depois, há aquela fação adepta das canções tipo Marco Paulo e tudo é encaminhado para aí”. Na questão de concertos, “devia dar-se prioridade a ‘tournées’ comerciais, inclusive com patrocínios, mas que sejam viáveis”, aponta. É que da maneira como as coisas estão, criaram-se, segundo ele, certos “vícios”, quer no público quer nos organizadores, com espetáculos gratuitos, mas sem qualquer espécie de condições. “É importante que as câmaras promovam a cultura, mas com o entendimento das estruturas necessárias para o fazer.”

 

XANA

Jorge Dias

 

ZÉ PEDRO

Jorge Dias

 

 

20/10/2025

Reininho no recreio [GNR]

 local SÁBADO, 15 DEZEMBRO 1990

TELEVISÃO

 


Reininho no recreio

 

RUI REININHO e os GNR pertencem à casta forjada a ferro e fogo dos sobreviventes. Sobreviveram à onda normalizadora do primeiro “boom” do então denominado “rock português”, à recessão que se lhe seguiu, sobreviveram sobretudo a si próprios, às tentações que o demónio do sucesso decerto não deixou de lhes segredar aos ouvidos: estagnação de ideias, acomodação a programas estéticos preguiçosos, elaborados à pressão, para fácil digestão das massas, segundo a conhecida fórmula do “Reader’s (neste caso “listener”) Digest”.

            Reininho e companhia sobrevivem graças ao humor subtil e à distanciação. A palavra séria é dita a brincar, o absurdo veste-se com a casaca da solenidade. Assumem a contradição, engolida vorazmente pelos vampiros, como se de nova bíblia pós-moderna se tratasse.

            Há sete meses e picos, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, foi a apoteose do rei da “kitsch pop” e da decadência elegante. Os GNR, como de costume, confundiram e encantaram, baralhando as pistas e presenteando uma multidão delirante com os seus típicos “trompe l’oeil” melódico-gramaticais. “Impressões Digitais”, “Dafundo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore Primeiro Escalão”, “Pós (País) Modernos” e mais uns tantos trocadilhos conceptuais chegaram para provar que são diferentes. É possível juntar no mesmo espetáculo a gaita-de-foles dos Sétima Legião e o Vata do Benfica, sem parecer ridículo? Claro que não. A diferença está em que os GNR conseguem fazê-lo de forma sublime.

 

            RTP 2, às 23h30

31/08/2016

Um mosquito pica um exército [New Model Army + GNR]

cultura QUINTA-FEIRA, 30 ABRIL 1998

Semana Académica de Lisboa

Um mosquito pica um exército

OS NEW Model Army (nome dado ao exército revolucionário de Oliver Cromwell que comandou uma fação da guerra civil travada na Grã-Bretanha no séc. XVII) e os GNR atuam esta noite, a partir das 22h30, no Passeio Marítimo de Algés, num concerto integrado na Semana Académica de Lisboa. A força proletária dos ingleses contra a elegância burguesa dos portugueses. Mesmo que os primeiros tenham assinado pela multinacional EMI (que mais tarde abandonaram) e os segundos se tenham empenhado numa luta sem quartel contra a estagnação da sua pop.
            Formados em 1982 no Yorkshire, os New Model Army herdaram do punk o nihilismo, a impertinência e o jeito para tocar alto, facetas que aliaram a um certo pendor para coisas mais suaves na linha do folk/rock. Cedo granjearam uma fação de adeptos e a fama de opositores tenazes aos “tories” que nos anos 80 governavam o seu país. Canções como “The Price” e “No rest” subiram nas listas de vendas e uma aparição do grupo no popular programa de televisão “Top of the Pops” provocou alguma celeuma, quando os músicos distribuíram pela audiência T-shirts da dizer “Only stupid bastards use heroin”. Os New Model Army gravaram álbuns como “Vengeance”, “No Rest for the Wicked”, “Ghost of Cain”, Thunder and Consolation” e “Raw Melody Men”.
            Os GNR são uma instituição da pop nacional, vivendo da inteligência com que desenham canções sem sentido destinadas a um público adolescente (embora fossem experimentais, quando nas suas fileiras militavam Alexandre Soares, hoje nos Três Tristes Tigres, e Vítor Rua, hoje nos Telectu) e do instinto de palco do seu vocalista, Rui Reininho. O último álbum do grupo, intitulado “Mosquito”, faz voo picado sobre uma série de canções de metal e chocolate que reinventam as palavras bom-gosto e contenção.

02/08/2016

UHF + GNR

Pop Rock
17 de Outubro 1990

UHF
Julho, 13
LP duplo e CD, Edisom

GNR
In Vivo
LP duplo e CD, EMI-Valentim de Carvalho

São sobreviventes. São os dois que ficaram do tempo das iniciais: CTT, NZZN, TNT, lembram-se? Era a grande balda, a grande paródia. Duas guitarras, baixo e bateria chegavam para se gravar um disco. Assaquem-se as responsabilidades a Rui Veloso, que ainda hoje se deve estar a rir. Na época, UHF e GNR eram dois de entre tantos grupos que passaram pelo “Rock em Stock”, como toda a gente. UHF e “Jorge Morreu”, “Cavalos de Corrida”, “Rua do Carmo”, hinos entoados com entusiasmo por uma juventude que num ápice descobria que a música rock afinal não vinha só da estranja e que era possível encontrar entre portas o escapismo ideal para as suas angústias suburbanas. Porque era nos subúrbios, primeiro em Almada, depois nos arredores das restantes cidades, que respirava a alma coletiva dos UHF. Os GNR eram diferentes: “Espelho Meu” e “Sê um GNR” aliavam o narcisismo a uma subtil provocação. Onde os UHF apostavam desde o início num rock duro e “quadrado”, a banda de Vítor Rua escolhia a pop mais melodiosa, então ainda assimilada de forma incipiente. Com a chegada de Rui Reininho, tudo mudaria de figura.
UHF e GNR, ou vice-versa, para não ferir suscetibilidades, passaram, ao longo de dez anos, por fases boas e más. Houve crises, zangas, acidentes, discos de ouro, fracassos, grandes espetáculos, bailes de província, “apoteoses”, sempre adiadas, no estrangeiro. Entraram músicos, saíram músicos. Alexandre Soares, o mais recordado nos GNR. Renato Gomes, nos UHF. Ambos os grupos, independentemente da qualidade musical intrínseca do seu trabalho, souberam atravessar uma década mais ou menos incólumes. Gravando discos e, proeza das proezas, conseguindo, a dada altura, viver apenas desse trabalho. Instinto de sobrevivência só traduzido realmente em vida de facto, quando acompanhado pela tal qualidade, separadora do trigo e do joio. Dito de outro modo: A lei da selva em que sobrevivem os aptos e morrem os fracos e azarados, que o fator sorte também conta nestes casos. Evoluíram de forma diferente. Enquanto os UHF se mantiveram sempre fiéis a uma determinada linha, um rock de intervenção filtrado pelas vivências pessoais do seu líder incontestado, António Manuel Ribeiro, os GNR fizeram da heterogeneidade e surpresa constante o seu cavalo de batalha – entre “Espelho Meu”, “Avarias, “Hardcore” ou “Dunas” não existe rigorosamente nada em comum senão o inconfundível estilo vocal de Rui Reininho.
António Manuel Ribeiro e Rui Reininho são hoje, sem sombra de dúvida, duas das figuras de proa do rock ou da pop que por cá vamos tendo. Tão diferentes um do outro como um planeta de uma estrela. AMR (António Manuel Ribeiro) é o planeta, duro e sólido. RR (Rui Reininho) é a estrela, frágil e faiscante. AMR é Jim Morrison, voz rouca e monocórdica. RR é Bryan Ferry, ágil e amaneirado. AMR de há anos para cá que usa o mesmo corte de cabelo comprido, é anos 70, não liga ao “look”. RR usa cabelo curto e penteado, todo “style”, é pós-moderno, anos 80. Ambos são poetas, por assim dizer, mas enquanto AMR fala de coisas concretas e diretas como a “rua do Carmo”, “na tua cama” e “noites lisboetas”, com a convicção de quem quer mudar o mundo, RR, pelo contrário, esconde-se em trocadilhos e estrangeirismos ambíguos. Parece estar-se sempre nas tintas para tudo e a fazer cinema: “(Um chamado) eléctrico desejo”, “Morte ao Sol”, “Hardcore (1º escalão)”, “Vídeo Maria”. AMR ataca sempre de frente: É contra a tropa, defende com unhas e dentes as relações heterossexuais (de preferência numa cama que parece ser o lugar mais indicado para estas coisas), militante do rock que considera como “uma forma de vida”. RR não leva a sério nem sequer as suas próprias convicções. Quando diz que quer ver “Portugal na CEE” há quem acredite. Há rapazes na brincadeira, sobre as “dunas”. Provoca com um ar inocente. É capaz de afirmar a pés juntos que “Vídeo Maria” apenas diz respeito a uma tal Maria Isabel que até é sua amiga. Sobre o palco AMR é a imagem do rocker adulto, de guitarra ao ombro e dedo apontado ao “inimigo” – porta-voz de legiões de adolescentes que o idolatram sem reservas, espécie de messias com uma mensagem a transmitir. RR dança, é faz-tudo, representa sobre o palco mil personagens, ri-se muito, contradiz-se constantemente, como uma criança. AMR é cerveja e Incrível Almadense. RR é “bourbon” e Coliseu. AMR é UHF. RR é GNR (desculpa lá Vítor). “Julho, 13” e “In Vivo” são duas formas diferentes de se ser português, músico e bem sucedido. Representam como que a consagração das duas bandas nacionais que mais fizeram por vencer, à custa de muita incompreensão e de comer o pó da estrada.

Os discos, ambos duplos, não são melhores nem piores que os anteriores de estúdio. Incluem os temas que tornaram conhecidas as bandas respetivas, e que mais se venderam: “Efectivamente”, “Dunas”, “Hardcore”, “Bellevue”, “Vídeo Maria” ou “Valsa dos Detectives” (GNR); “Cavalos de Corrida”, “Rua do Carmo”, “Rapaz Caleidoscópio”, “Noites Lisboetas”, “Estou de Passagem” ou “Este Filme” (UHF). Todos os músicos participantes sabem do seu ofício e em ambos os discos é audível a participação eufórica do público. Excitação, energia, identificação, reconhecimento das canções. Objetos obviamente dirigidos ao consumo das massas. “Julho, 13” e “In Vivo” são também o exorcizar dos fantasmas do passado. Mas, se com a banda de Almada o tom é de pacificação, com a participação, nos três temas que preenchem a totalidade do terceiro lado, dos ex-UHF e seus fundadores, Renato Gomes, Carlos Peres e Zé Carvalho, em relação aos GNR o álbum marca a ferro e fogo o polémico conflito mantido entre os atuais membros da banda e o seu fundador Vítor Rua, num caso legal que se vem a arrastar sem que se vislumbre uma solução. Guerra e paz, nas águas mornas do meio discográfico nacional.  *** / ***

26/07/2008

GNR - Tudo O Que Você Queria Ouvir

POP ROCK

29 de Maio de 1996
portugueses

GNR
Tudo o que Você Queria Ouvir (8)
2XCD, ED. EMI – V.C.

Já não era sem tempo! Valeu a pena esperar! Finalmente, tudo o que queríamos ouvir mas não ousávamos perguntar, muito menos pedir, dos GNR, encontra-se disponível nesta compilação-maravilha. Agora a sério: o grupo de Rui Reininho já merecia uma antologia deste tipo, até porque tarda um álbum de originais. Mas há originais em “Tudo o que…”! E remisturas das canções que todos nós amamos, por Marsten Bailey, a partir das bobines originais de 24 pistas, o que confere um som mais do que apetitoso ao que julgávamos enterrado nos arquivos para sempre. As excepções são os primeiros “hits” da banda, ainda com Vítor Rua, “Portugal na CEE”, “Sê um GNR” e “Espelho Meu”, que foram remasterizados, também neste caso com a qualidade de som a melhorar de forma dramática.
Depois, miam miam, aparecem 14 temas nunca antes editados em CD, entre “singles” e “maxis”, como “TV mural”, “Sê um GNR” ou “Twistarte”. Os inéditos são “Julieta su & sida” (título ao nível dos melhores do grupo) e “Pena de morte”. O primeiro é a resposta, no feminino e nos anos 90, ao “Chico fininho” de Rui Veloso. Bastante mais inteligente e a jogar com a ambiguidade das palavras da maneira como só Reininho é capaz. No segundo, o Bryan Ferry português desacelera para ambientes soturnos e para o sobrerealismo da era espacial.
Banda desavergonhadamente pop, depois de ter sido desavergonhadamente experimental, em “Independança”, os GNR cantam com uma candura perversa alguns dos temas tabu da sociedade portuguesa, como a droga, a religião ou a homossexualidade. Se as acusações que recaíram sobre o grupo, por causa de “Sob Escuta”, incidiam em geral na superficialidade das letras e de um som que, segundo se disse, parecia dirigir-se em exclusivo aos prazeres sem culpa de adolescentes imberbes (porque será que a palavra “adolescentes” surge sempre associada ao adjectivo “imberbes”?), esta colectânea prova que, pelo contrário, os GNR sempre se dirigiram, em primeiro lugar, aos adolescentes imberbes. Ao lado de adolescentes imberbes que existem em cada um de nós. E neles. Há lá hino que faça mais sentido do que aquele que diz “mais vale nunca mais crescer”? Os GNR são a fonte da eterna juventude sobre as dunas. Mesmo com barbas brancas e reumático. É pecado passar a vida a brincar? Reparem bem, há ou não algo de assustador no sorriso de Rui Reininho? Devemos acreditar na bondade de um GNR?