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04/08/2020

Em busca do tempo indefinido [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 30 OUTUBRO 2004

Numa semana de bons pianos, François Bourassa, agora em estúdio, confirma o seu estatuto de um dos melhores compositores e executantes do jazz actual. Michael Marcus vence nos saxofones.

Em busca do tempo indefinido

Depois da obra-prima “Live”, um dos melhores álbuns editados em 2001, o pianista canadiano François Bourassa regressa com um novo disco, agora com o saxofonista André Leroux já plenamente integrado como membro oficial do quarteto. Dificilmente poderia ser igualada a torrente de energia que brota do disco ao vivo e “Indefinite Time” avança numa direção diferente. O que permanece é a incrível capacidade destes quatro músicos para gerarem momentos de tensão/distensão em que a música evolui numa metamorfose contínua de tempos e dinâmicas que tanto balançam no hard-bop com swing a todo o vapor, como se extasiam em contemplações próximas do silêncio ou rebentam em convulsões “free”. O saxofonista Dave Liebman disse um dia que a evolução de um músico de jazz se processa em três etapas: Imitação, afirmação e inovação. Se nos primórdios da sua carreira o canadiano prestou o seu tributo a mestres como Bill Evans, McCoy Tyner e Wayne Shorter, 20 anos de carreira levaram-no finalmente à plena inovação no seio da formação em quarteto piano/sopros/contrabaixo/bateria. Bourassa consegue ter a delicadeza de um Bill Evans e a furiosa emancipação de um Cecil Taylor. Do cluster que ecoa como um trovão, à percussão cristalina, do “hard” pulsante à manipulação direta das cordas do piano, Bourassa é um pianista completo. Leroux é o parceiro à altura. Já comparado a Chris Potter, o seu fraseado por vezes lancinante (o seu soprano traz à lembrança Steve Lacy) e uma segurança de aço tornam cada uma das suas intervenções abrasiva, embora seja igualmente capaz de provar o poder expressivo nos registos mais calmos. A descoberta melódica, essa, é uma constante. “Indefinite time”, entre um tema de Ornette Coleman (“Check out time – loose take)”, uma homenagem a Boubacar Traoré (“Boubacar”) e outra a Wayne Shorter (“Ws”) e as intervenções tribais do convidado Aboulaye Kone, no djembé e tama, faz a quadratura perfeita, com percussão que vai da avalanche ao tricô e um contrabaixista cuja agilidade alguns já compararam ao virtuosismo de Scott LaFaro. Mais cerebral e trabalhado ao nível dos contrastes e da pesquisa harmónica do que “Live”, “Indefinite Time” é um daqueles discos que a cada momento permite novas revelações e invenções, abrangendo todo o espaço entre as estrelas e um vulcão.
            Outro pianista que gosta de se apresentar em quarteto é Cecil Taylor, o “inimigo” do piano. Em “Incarnation”, gravado em 1999 no “Total Music Meeting” de Berlim, tinha a seu lado Franky Douglas (guitarra, voz), Tristan Honsinger (violoncelo) e o convidado Andrew Cyrille (percussionista oficial de Taylor durante onze anos, bateria, timbalão). Se, como alguém já disse a propósito de Taylor, “cada nota percutida é uma nota vencida” não é menos verdade que, nos últimos tempos, o combate aplacou-se um pouco e Taylor descobriu a ternura. Em três longos rituais de construção nas alturas e sem rede – “Focus”, “Carnation”, “Cartouche” –, os quatro músicos vão colocando uma sucessão de andaimes em redor de uma imensa peça de teatro em que cada som busca incessantemente o seu lugar certo. A guitarra elétrica lança efeitos eletrónicos bizarros, o violoncelo faz a fuga para a frente recusando o “cliché” camarístico, mas não o “riff”, fazendo de cantor, “bulldozer” e serrote, enquanto Cyrille segura as pontas soltas ao mesmo tempo que consegue fazer ouvir a sua voz solística. Pode ser difícil penetrar neste bloco operatório onde o próprio silêncio está carregado de ameaças (“Carnation”, as pausas entre cada golpe no timbalão, em “Cartouche”, o mais interessante tema do álbum), uma vez lá dentro, porém, torna-se impossível recuar. No final, “Cartouche”, a experiência torna-se religiosa, com o piano extático a levar o espírito a encarnar finalmente na matéria.
            A religião de Abdullah Ibrhaim, Dollar Brand, é, em “The Journey” – gravação em estúdio de 1977 agora restaurada digitalmente e com a mesma capa do original na editora Chiaroscuro, entretanto desaparecida –, a alegria (“Jabulani”, título de um dos três temas). Apoiado numa formação larga de saxofones, oboé, clarinete e o trompete de Don Cherry, esta é uma viagem, como muitas outras do pianista (e aqui também saxofonista soprano), com raízes na música da África do Sul mas as cores são tão fortes e diversificadas como as do arco-íris da contracapa. Há momentos a raiar o brilhantismo como as intervenções no barítono, de Hamiet Bluett, de Cherry, com a sua estranha mistura de “free” com étnico e o percussivo solo de contrabaixo de Johnny Akhir Dyani. “Hajj” tem um “riff” de piano absolutamente irresistível e uma majestosa secção de sopros muito “jazz inglês”, de senhores como Gibbs e Westbrook. Juntamente com “Voice of Africa”, “Water from an Ancient Well” e “African River”, é um dos melhores álbuns de Ibrahim que já ouvimos.
            Outro salto sobre o abismo para cair na Ayler Records e escutar um grande momento de música improvisada oferecido por Michael Marcus (sax alto e clarinete baixo), William Parker (contrabaixo) e Dennis Charles (bateria). Gravado em 1993, metade ao vivo na Knitting Factory, metade em estúdio, “Ithem”, o título-tema, e “Here at!”, com um “drone” em brasa de Parker e Marcus em elevação Coltraniana, farão as delícias dos apreciadores do “power trio”. Além de Coltrane, também os nomes de Dolphy e Ornette vêm à baila neste exercício com a solidez de um rochedo.
            A semana dá finalmente a conhecer um jazz mais calmo e (mais ou menos) próximo do “mainstream”. Mais calmo e baladeiro do que no seu anterior trabalho, o octogenário tenorista de Chicago Von Freeman pauta a música do seu quarteto, em “The Great Divide”, com Jimmy Cobb (bateria), Richard Wyands (piano) e John Webber (contrabaixo) pelo “blues (e o “hard” apontado ao R&B), traçando a linha divisória entre Coleman Hawkins, Lester Young (há mesmo um “Blue Pres”) e Charlie Parker (“Never fear, jazz is here”).
            No selo Camjazz, o cinema parece por fim deixar de ser objeto único de predileção. Apagado o ecrã de Fellini, em “Fellini Jazz”, ficou a presença de um dos bons pianistas italianos (e europeus) de hoje, Enrico Pieranunzi, que em “Doorways” se faz acompanhar por Paul Motian (bateria) e o convidado especial Chris Potter (saxofones). Pieranunzi é um pianista-camaleão, capaz de mudar de registo facilmente de disco para disco. “Doorways” mostra acentos de Bill Evans (claramente detetáveis em “Double Excursion”) com mais carne em cima e um virtuosismo que transcende o conservatório. De Chris Potter, saxofonista muito em cena na cena atual, presente apenas em alguns temas, mas de maneira cortante, apetece dizer que as suas intervenções pecam por escassas, valendo como exemplo de criatividade o que faz em “Anecdote”. Passatempo interessante: compare-se este tema com a música de François Bourassa/André Leroux. Universos irmãos? Para os que quiserem explorar ainda mais fundo a personalidade deste italiano, recomenda-se ainda o mais focado, em trio clássico piano/contrabaixo/bateria, “Infant Eyes”, onde Pieranunzi “plays the music of Wayne Shorter”.
            Fora dos parâmetros do jazz “made in USA” está também “Where do we go from here?”, por um duo formado pelo trompetista canadiano Kenny Wheeler e o pianista inglês John Taylor, colaboradores de longa data, no excelente “Pause, and think again” ou na discografia dos Azimuth. Possuidor de uma técnica muito própria, aqui com o som bastante bem temperado pelas técnicas de estúdio, Wheeler revela-se um romântico, tanto no trompete como no fliscórnio, o mesmo se podendo dizer de John Taylor, pianista da escola de Paul Bley. Um e outro dialogam em perfeita sintonia lírica, não tocando uma nota a mais ou a menos do que o necessário para nos tocar profundamente. A melancolia pode rimar com a certeza.

François Bourassa Quartet
Indefinite Time
Effendi
9 | 10

Cecil Taylor Quartet
Incarnation
FMP
7 | 10

Abdullah Ibrahim
The Journey
Downtown Sound
8 | 10

Michael Marcus Trio
Ithem
Ayler
8 | 10

Von Freeman
The Great Divide
Premonition
7 | 10

Enrico Pieranunzi & Paul Motian
Doorways
Camjazz
8 | 10

Kenny Wheeler & John Taylor
Where do we go from here?
Camjazz
7 | 10

Todos distri. Multidisc

23/12/2019

Balanço [Jazz]


JAZZ
BALANÇO
PÚBLICO 3 JANEIRO 2004

Das recriações em grande estilo, de Bourassa e Hemingway, ao novo corte radical dos Spring Heel Jack se fez o melhor jazz chegado a Portugal este ano. Pontes para o futuro que os portugueses atravessaram sem receio. Nas reedições, saúdem-se as velhas glórias Armstrong, Holiday, Webster e Gordon mas 2003 foi também o ano de Sun Ra. Além dos dois capítulos do “mito solar” chegaram de Saturno outros dois momentos fulcrais da saga intergaláctica: “It’s After the End of the World” e o volume duplo das “Nuits de la Fondation Maeght”.

1 FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi, distri. Multidisc
Bourassa é um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives, além de fabuloso arquiteto e desenhador de “riffs”, de uma fluência e imaginação inesgotáveis. Cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas O modo como “30 Octobre 85” cresce de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de André Leroux, no tenor, constitui um daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação. Tudo a transbordar de “swing”, mais a oferta de um espetacular momento de bop e um “medley” de Monk que entra diretamente para a galeria dos clássicos.

2 SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
A dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” de “Amassed” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações que projetam a música numa selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. Como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer.

3 GERRY HEMINGWAY QUARTET
Devils Paradise
Clean Feed, distri. Trem Azul
Como pode o diabo habitar no paraíso? Encare-se a questão do seguinte modo: O que Hemingway e os seus companheiros fazem é simultaneamente uma revolta e uma libertação das linguagens tradicionais do jazz, através de uma reconversão que devolve o prazer sob novas formas. Improvisador nato, o baterista mantém latente um estado de tensão que Eskelin estica até aos limites e Ray Anderson, pelo contrário, contraria, distendendo e embalando a música com um gozo infantil, de marchas, “gospel” e “Dixieland”.

4 DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
2xCD ECM, distri. Dargil
Obra monumental gravada há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. Holland justifica esta aventura em larga escala com a necessidade de explorar novas fórmulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra um baixo como este, não há argumentos.

5 GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
“Fugace” é um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround.

6 JEAN DEROME/LOUIS SCLAVIS QUARTET
Un Moment de Bonheur
Victo, distri. Trem Azul
Sclavis, herdeiro de Portal, e Derome, canadiano com larga e por vezes burlesca obra na editora Ambiances Magnétiques encontram-se neste entusiasmante diálogo de música improvisada, em uníssonos, contrapontos e fugas que atingem o âmago do “free jazz” nos longos “L’errance” e “Suite pour un bal”, esta última cortada a meio por uma descarga de ruído e de…rock, na melhor tradição da escola RIO (“Rock in Opposition).

7 VANDERMARK 5
Airports for Lights
2xCD Atavistic, distri. Ananana
Saber e cheiro a Chicago. “Airports for Lights” junta em doses exatas o esquematismo hermético-matemático de Braxton, o fluxo sanguíneo de Parker e o palimpsesto de discursos sobrepostos de Dolphy. Mas Vandermark confronta-nos com um poder que é só seu. Entre o “bas fond” do pós-jazz de Chicago, o “blues” em figurações cubistas, o “hard bop” futurista e o “free” mais solitário e estratosférico, o saxofonista faz o que quer, com o desplante dos génios.

8 AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
“Vetek” cultiva o gosto pelas músicas do mundo, em sintonia com uma visão planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações. Rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak para finalmente rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase.

9 JOHN SURMAN
Free and Equal
ECM, distri. Dargil
Inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, este registo ao vivo no Queen Elizabeth Hall, Londres, junta o saxofonista inglês com Jack DeJohnette e a orquestra de metais London Brass numa obra em larga escala notável que combina sequências instrumentais majestosas, secções improvisadas, diálogos luminosos entre os dois solistas, o espírito do Barroco e o romantismo característicos de Surman.

10 MARTY EHRLICH
Line on Love
Palmetto, distri. Trem Azul
Adepto de aventuras conceptuais, Marty Ehrlich entrega-se a uma inflexão na tradição e num jazz de grande lirismo de que andava arredado em trabalhos como o igualmente estimulante “The Long View”. Os desempenhos no sax alto são de altíssimo calibre, como no surpreendente e hardbopante solo, em tempo lento, de “St. Louis Summer”, concluindo a tocar clarinete baixo na magnífica arquitetura rítmica de “The git go”.

11 MICHAEL BRECKER QUINDECTET
Wide Angels
Verve, distri. Universal
Brecker dirige uma “big band” de 15 elementos e não desperdiça a oportunidade para se revelar, além do saxofonista de costela coltraniana (embora sem a preocupação de atirar o jazz para esferas inatingíveis) que é, um surpreendente arquiteto e arranjador, capaz de fazer saltar da cartola soluções harmónicas e rítmicas surpreendentes. “Wide Angles” faz renascer no reino da fusão a esperança de que o jazz continue a ser a força-motriz.

12 TIM BERNE
Science Friction
Night Bird, distri. Trem Azul
“Science Friction” revela o lado descontraído e mais mundano do saxofonista. Emparceirado com o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Marc Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo e pistolas de raios laser.

13 JANE IRA BLOOM
Chasing Paint
Arabesque, distri. Multidisc
A saxofonista soprano e manipuladora de “live electronics” Jane Ira Bloom transpõe para música o universo pictórico do pintor Jackson Pollock. A luz, neste caso, não se esconde mas brilha no lirismo de “The sweetest sounds”, refletida nas “Many wonders” que recompensam quem se dispuser a viajar até ao término da “Alchemy”, onde uma “white light” se vislumbra enfim. Jazz sem amarras, filho da tradição mas pujante na tensão criativa.

14 DAVID S. WARE
Freedom Suite
Aum Fidelity, distri. Ananana
Ware, o mais Coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “Rollinsoniana” (ele que já recriara, de resto, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional à obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”.

15 ANGELICA SANCHEZ
Mirror Me
Omnitone, distri. Trem Azul
Um estilo discreto de execução e ausência de preconceitos permitem a Angelica tocar tanto a música sacra de Olivier Messiaen como a “country” de Merle Haggard ou o “boogie pop” dos T. Rex. Mas “Mirror me” é jazz ao mais alto nível, em “environments” dirigidos à criatividade de solistas como o Michael Formanek e Tony Malaby. O diálogo entre a ternura e a ferrugem, do sax, e o metal e água da pianista, no título-tema, é um dos pontos altos e de maior extravagância de “Mirror Me”.


REEDIÇÕES
1 LOUIS ARMSTRONG The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1, 2 & 3 Columbia, distri. Sony Music
2 BILLIE HOLIDAY The Billie Holiday Collection, Vol.1, 2, 3 & 4 Columbia, distri. Sony Music
3 BEN WEBSTER Soulville Verve, distri. Universal
4 DEXTER GORDON Our Man in Paris Blue Note, distri. EMI-VC
5 SUN RA The Solar-Myth Approach, vol. 1&2 Sunspots, distri. Trem Azul

PORTUGUESES
1 CARLOS BARRETTO Locomotive Clean Feed, distri. Trem Azul
2 MÁRIO LAGINHA & BERNARDO SASSETTI Mário Laginha & Bernardo Sassetti Ed. autor, distri. FNAC
3 RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO The Space Between Clean Feed, distri. Trem Azul
4 SEI MIGUEL Ra Clock Ed. e distri. Headlights
5 JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO As Sete Ilhas de Lisboa Clean Feed, distri. Trem Azul

01/02/2019

Espíritos à solta [Jazz]


12 ABRIL 2003
JAZZ
DISCOS

A selva de Sanders. O gozo de Dress. E grande jazz do Hexágono, de ontem e de hoje. Espirituoso ou espiritual.

Espíritos à solta

Simbiose, com Drew Gress a trocar de papéis com o saxofonista Tim Berne, passando em “Spin & Drift” a assumir o papel de líder. Mas a cumplicidade entre ambos é tão grande que se torna irrelevante falar em liderança a propósito desta música em que a força do coletivo é superior à da soma das partes. Berne não é um saxofonista dramático, mas o timbre carnudo do seu alto permite colorir cada tema com os tons do folguedo. “Disappearing” é comunicação direta a quatro vozes entre o alto, o contrabaixo, o piano de Uri Caine e a bateria de Tom Rainey. Em “Torque”, o contrabaixista faz jus a um “swing” largo, Berne desce com agilidade às profundezas do barítono e Caine parece querer desmentir quem acusa o seu piano de frigidez. “It was after rain that the angel came”, outonal, reflete cambiantes de nostalgia nas notas do contrabaixo, com Caine resplandecente na sua faceta de recitalista clássico. A faixa exótica, e uma das mais belas do disco, chama-se “Aquamarine” e nela a “pedal steel guitar” de Gress escorre como um riacho pelo empedrado, com Caine a fazer tombar notas de chuva. Álbum belíssimo, forte sem gorduras, pujante sem gritar ao megafone, imaginativo sem cair no delírio.
            “Spirits”, gravado ao vivo em 1998 em local não identificado, é o prolongamento lógico de toda a obra anterior de Pharoah Sanders, coltraniano coberto de missangas, cuja música viajou entre o “hard bop”, o “free”, a improvisação ascética e a música étnica. Os 19 minutos de abertura de “Sunrise” soltam os espíritos do mundo, em “drone” de ressonâncias indianas, com florescências de uma “mbira” africana, apontamentos de pequena percussão saídos da cornucópia de Adam Rudolph e o veterano Sanders a dividir-se entre a contemplação indolente no sax tenor e cânticos de chamamento. Organizado como um louvor à sabedoria “sufi ” e à intuição, “Spirits” oferece nesta longa prece introdutória mais do que um motivo de agrado aos apreciadores tanto do jazz como da “world music”. As restantes faixas oscilam entre o exotismo exuberante das percussões de Rudolph e Hamid Drake, o “free” do “quarto mundo”, como o saboroso piscar de olhos a Coltrane, “The thousand petalled lotus”, ou o “satori” de gongos e “overtone singing”, ecos da fauna e flora de uma selva tropical incrustada no cérebro. Flautas de bambu, tablas, batuques rituais, borboletas e flores canibais, “Spirits” une com as pontas de um arco-íris o passado ancestral a um futuro onírico, em que jazz e o folclore imaginário se entrelaçam, numa celebração exterior a qualquer noção de urbanidade como aquela que anima os Art Ensemble of Chicago. Um “Sunset” de fogo fecha como começou o ciclo do dia - “drone”, suspiros “aum” e os murmúrios da floresta. Pharoah Sanders encontrou o seu nirvana.
            O disco da semana é o “Live”, do trio do pianista François Bourassa, registado em Toronto em Maio de 2001, com Guy Boisvert (contrabaixo), Yves Boisvert (bateria) e o convidado André Leroux, nos saxofones tenor e soprano e flauta. Bourassa é um fabuloso arquiteto e desenhador com uma fluência e imaginação inesgotáveis. O modo como constrói em crescendo “30 Octobre 85”, partindo de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de Leroux, no tenor, constitui daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação.
            A contrastar, “W! U! W!” surge de seguida como um “pizzicato” de sombras e silêncios. Frases sintéticas, revelação de perspetivas oblíquas, que, uma vez iluminadas, adquirem a inevitabilidade das evidências. Como cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas. “Arico – Afab” confirma Bourassa como um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives. Mão esquerda de mago negro, mão direita de pintor renascentista, Leroux brilha e inventa a cada momento, acrescentando novas ideias e soluções inusitadas ao terreno, já de si fértil, semeado pelo pianista. Uma paisagem impressionista, ”13”, e uma homenagem, em duas partes, ao pianista Herbie Nichols dão a conhecer o outro lado da moeda. Flauta e piano em diálogo intimista, com Leroux a utilizar, sem exibicionismos, um leque de técnicas e respirações ”extensivas” e Bourassa, uma vez mais, a operar prodígios. Tudo isto a transbordar de ”swing”, a oferecer um espetacular momento de bop (“Chambrette”) e, a culminar, um “medley” de 16 minutos ao redor de Monk (“Four in one”/“Round midnight”/“Epistrophy”/“Trinkle tinkle”) que entra diretamente para a galeria dos clássicos. Um dos discos do ano.
            A música de Lee Konitz ocupa o centro das atenções, em dois discos registados em épocas diferentes. ”European Episiode” recupera em versão remasterizada uma sessão de 1968 com o pianista francês Martial Solal e dois compatriotas seus, Henri Texier (contrabaixo) e Daniel Humair (bateria), nomes de referência do jazz com origem no ”hexágono”. Uma colagem de ”standards”, com Konitz no alto eletrificado, ”Anthropology”, de Parker e Gillespie, um clássico do ”bop”, a balada ”Lover man” e o blues “Roman blues” têm a companhia de “Duet for saxophone and drums, and piano”, um “divertimento” em forma de improvisação “free” que pode servir de manual de aprendizagem. Criatividade e liberdade exigem ordem, seja de que natureza for. Konitz, Solal, Texier e Humair são professores de Direito. Descodificar o código de leis elaborado pelos quatro é um dos muitos aliciantes deste episódio europeu.
            É um Konitz mais velho e cansado que escutamos a enriquecer com a sua participação um álbum que lhe é dedicado, “Music of Konitz”, pelo quinteto do saxofonista tenor francês François Théberge. Mestre e discípulos mantêm distâncias, neste encontro que ocorreu em 2002 no clube Duc des Lombards, em Paris. O encontro das autocitações do “bopper” com a reverência dos cinco franceses não faz faísca.

DREW GRESS
Spin & Drift
Premonition
8 | 10

PHAROAH SANDERS
Spirits
Meta
7 | 10

FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi
10 | 10

LEE KONITZ & MARTIAL SOLAL
European Episode
CamJazz
9 | 10

FRANÇOIS THÉBERGE 5 c/LEE KONITZ
Music of Konitz
Effendi
6 | 10

Todos distri. Multidisc