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29/10/2019

Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab


CULTURA
SÁBADO, 20 SET 2003

Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab

Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rouse são os convidados de honra do festival internacional de música experimental/improvisada do Porto

Co-Lab, laboratório de colaborações musicais em torno de um conceito de liberdade que nasce da improvisação. É também nome de festival: Co-Lab, Festival Internacional de música experimental/improvisada – de hoje a 28 no Teatro Carlos Alberto, no Porto –, um dos menos comprometidos com as regras do "mainstream", ao qual não escapam nem as "novas músicas". Diz a organização que "de fora, ficam todos os rótulos – free jazz, rock progressivo, minimalismo, pós-serialismo and so on". Descontando o "and so on", género ainda pouco conhecido entre nós, o Co-Lab despreza, de facto, o imobilismo e a arrumação em prateleiras.
            As atenções centram-se em quatro nomes sonantes da música improvisada europeia: Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rose. Vão colaborar uns com os outros, trocar ideias e sons, em formatos que vão do solo ao quarteto.
            Chris Cutler é o baterista-aranha (os seus ritmos estendem-se dos materiais mais elementares à bateria eletrónica), o anarquista, o esteta e o apreciador de vinhos que militou nos anos 70 e 80 em algumas das mais importantes formações de "art rock", como os Henry Cow, Art Bears, News from Babel e Cassiber, imbuídas do espírito de intervenção política que levou à criação da cooperativa "Rock in Oposition". Onde a música nasce espontânea, lá está ele a impor a ordem, a única não totalitária, que advém da inteligência, em colaborações que vão de antigos colegas seus nos Henry Cow, como Fred Frith, a Lutz Glandien e aos portugueses Telectu.
            Eugene Chadbourne é o guitarrista excêntrico que adaptou a música de Bach ao banjo. Transforma numa espécie de "country music" de insetos Duke Ellington e Albert Ayler e colaborou com os Butthole Surfers, rockers sujos e subversivos. Não menos desalinhado, Jon Rouse é o violinista sem escalas nem modelos fixos (incluindo os dos violinos que toca, mutações aberrantes que fariam arregalar os olhos de espanto a Paganini: mecânicos, eólicos, de duplo braço, etc.) e o humorista que já gravou um "Music for Restaurants", com direito a poesia fonética e colagens delirantes em ementa de "haute cuisine" musical.
            Phil Minton, o vocalista doido que canta como se estivesse a viver os últimos segundos de vida e o homem que, na sua estreia ao vivo em Portugal, quase nos atingiu em cheio com uma escarreta (sim, o canto de Minton tem origem no fundo) proveniente de uma "performance", digamos, mais visceral, completa o quadrilátero de grandes improvisadores deste Co-Lab (dias 24, 26 e 28, às 21h30).

Os portugueses
Paulo Raposo, músico e videasta dos Vitriol, junta forças com o alemão Marc Behrens, criador de atmosferas eletrónicas, e Jeremy Bernstein, autor de um "ambiente informático multidimensional de processamento de dados" (hoje, às 21h30). Pierre Redon improvisará ao lado de Etsuko Chida. O primeiro, influenciado por Cage e Derek Bailey, faz "uma música que tem sobretudo em conta a espacialização da matéria sonora, a polifonia e uma construção rítmica alicerçada sobre pulsações irregulares". A segunda toca koto (instrumento tradicional japonês) e canta (hoje, às 21h30).
            Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no Co-Lab (dia 24, às 21h30). Ernesto Rodrigues, esgotada a paciência com o rock, dos tempos em que integrava a banda de Jorge Palma, partiu para os limites mais radicais da música improvisada até chegar à chamada "micro-música" ou "near silence", apropriação das diretivas de John Cage, mestre-escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista munido de microscópio sonoro de alta potência.

Festival Co-Lab
PORTO Teatro Carlos Alberto. Tel.: 223401910. Hoje e dias 24, 26 e 28, às 21h30. Bilhetes de 7 a 15 euros.

05/12/2016

Laboratório de novas músicas [Festival Co-Lab]

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 19 OUT 2001

PORTO 2001 CAPITAL EUROPEIA DA CULTURA

Laboratório de novas músicas

FESTIVAL CO-LAB ARRANCA HOJE

O regresso ao Porto do compositor e guitarrista canadiano René Lussier será um dos pontos altos deste certame dedicado à música experimental e improvisada. Oito dias para partir à descoberta de sons surpreendentes

Tem hoje início no Teatro Latino, no Porto, prosseguindo com concertos diários até ao próximo dia 27, o Co-Lab 2001, Festival Internacional de Música Experimental/Improvisada. Quatro salas – além da já citada, o auditório de Serralves, o pequeno auditório do Teatro Rivoli e o café-concerto ESMAE – serão palco de concertos em que irão intervir alguns intérpretes de exceção, portugueses e estrangeiros, das "novas músicas" do mundo. René Lussier, que já esteve presente na edição do ano passado do Co-Lab, apresentar-se-á a solo ao público portuense no dia 24, no Rivoli.
            Nome de referência da música do Quebeque e da editora canadiana Ambiances Magnétiques, René Lussier é um guitarrista próximo, no estilo, de Fred Frith, facto a que não será alheia uma série de colaborações entre estes dois guitarristas, nomeadamente em registo paródico, com os Les Quatre Guitaristes de L'Apocalypso Bar ou, mais recentemente e num registo oposto, com o Guitar Quartet, dirigido pelo próprio Frith, que há dois anos estiveram em Coimbra. Defensor acérrimo da manutenção da língua francesa no Quebeque, e do seu aproveitamento fonético no contexto da música contemporânea, René Lussier abordou esta problemática numa série de álbuns, em particular, de forma mais explícita e interventiva, em "Le Trésor de la Langue".
            No final dos anos 70, Lussier cultivou a estética progressiva e o rock de câmara característicos da editora Recommended, inserido no coletivo Conventum, mas, nas duas décadas seguintes, a sua música evoluiu transversalmente para o "free rock", o jazz em formato Big Band ("Le Tour du Bloc", com a N.O.W. Orchestra), desestruturalismos vários ao lado do manipulador de gira-discos Martin Tétreault e dos Bruire, ou a improvisação pura e simples. Na Ambiances Magnétiques, para onde também gravou o clássico "Fin du Travail", destacam-se os seus trabalhos com outros dois guitarristas, os seus compatriotas Robert-Marcel LePage e Jean Derome. Além do concerto, Lussier dirigirá um "workshop" de música improvisada na ESMAE, de 25 a 27.
            Mas o Co-Lab será também fértil em encontros e surpresas musicais. O percussionista francês Lê Quan Ninh abre hoje à noite o festival, em trio com Fabrice Charles (trombone) e o dançarino japonês Yukiko Nakamura. Ninh é um dos maiores improvisadores da atualidade, tendo tocado, entre outros, com Michel Doneda, Danik Lazro, Gunter Muller e Butch Morris. Outro percussionista, Eddie Prévost, lendário fundador dos seminais AMM, apresenta-se também em trio, com Tom Chant, no saxofone, e John Edwards, no contrabaixo (Serralves, dia 21). Na véspera, Prévost tocará com os Telectu, de Jorge Lima Barreto e Vítor Rua, em concerto comemorativo dos 20 anos de carreira deste prolífico e, por vezes, polémico grupo português. Ainda a 20, durante a tarde, no Teatro Latino, o jornalista e crítico Rui Eduardo Paes orientará um seminário subordinado ao tema "Do que falamos quando falamos de improvisação".
            O Trio Ethos (Frédéric Blondy, piano; Xavier Charles, clarinete; e David Chiesa, contrabaixo), e os portugueses Albrecht Loops, guitarra, e Gustavo Costa, percussão, actuam a 22, no Rivoli, estando esta sala reservada no dia seguinte para o quarteto formado por Nuno Rebelo, Marco Franco, Vincent Peter e Philippe Aubry. Ainda no Rivoli, no dia 25, improvisam John Butcher, no saxofone, e Phil Durrant, eletrónica. De Butcher há quem diga que pode ser o sucessor do genial anarquista Evan Parker. Durrant é o típico manipulador (em sintetizadores analógicos, filtros, efeitos de "delay") de sons e linguagens, estando conotado com a nova escola austríaca representada por Peter Rehberg e Christian Fennesz.
            Carlos Zíngaro, o mais internacional dos músicos portugueses, e os suíços Voice Crack, fecham em conjunto o Co-Lab 2001. Zíngaro com a sua fusão de violino e sintetizadores, os suíços (Andy Guhl e Norbert Möslang) inteiramente concentrados na produção de inusitados jogos eletrónicos. Os Voice Crack levam para o palco "chips" de brinquedos e jogos de computador, células fotovoltaicas acionadas pela luz de uma lanterna, transístores e comandos de televisão modificados. Sintetizadores e computadores é que não. Adeptos das "cracked-everyday electronics", consideram que os instrumentos eletrónicos convencionais "não soam como devem", "têm um aspeto aborrecido" e "são muito pesados de transportar". Dos livros que tanto Zíngaro como os Voice Crack leem (John Cage, Ornette Coleman, Jimi Hendrix, Pierre Schaffer, Pierre Henry...) poderá surgir uma história inteiramente nova.