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24/02/2020

Eugene Chadbourne no Porto e em Lisboa


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 30 JUN 2004

EUGENE CHADBOURNE NO PORTO E EM LISBOA

Eugene Chadbourne merece ser considerado um dos excêntricos mais inovadores do “underground” nova-iorquino. Aos 50 anos este lunático que chamou à sua própria música LSD C&W (“LSD country & western”) apresentará em Portugal – em dois concertos, hoje, no Porto, e amanhã, em Lisboa – a sua mistura de folk ácida, jazz, rock e guitarra “bottleneck” servidos com uma boa dose de humor.
Influenciado pelos Beatles, Chadbourne começa a interessar-se pela experimentação depois de ouvir Jimi Hendrix, desenvolvendo técnicas especiais com caixas de “fuzz” e pedais de distorção. Acabou por trocar a guitarra elétrica por uma acústica. O jazz percorre-lhe as veias. Ouve Coltrane e Roland Kirk. Mais tarde Derek Bailey e Anthony Braxton. Torna-se jornalista e declara-se objetor de consciência, seguindo para o Canadá em vez do Vietname. Regressa aos EUA em 1976 para mergulhar a fundo na cena “downtown”, gravando o seu primeiro álbum a solo, “Solo Acoustic Guitar”, e iniciando colaborações com John Zorn e Henry Kaiser.
Desenvolve um estilo muito pessoal, inclassificável. Uma mistura de improvisação livre, música de protesto, jazz vanguardista e vocalizações estridentes. Nos anos 80 forma com Kramer os Shockabilly, onde ilustra o seu modo particular de encarar a música rockabilly. Em 1987, grava o tal “LSD C&W” e junta-se aos Camper Van Beethoven para a gravação de um álbum de “covers”.
Colabora com Fred Frith, Han Bennink, Toshinori Kondo e Elliott Sharp e, no rock, com os Sonic Youth, Butthole Surfers e They Might Be Giants. Desde então, a sua lista de álbuns cresce interminavelmente, abarcando títulos como “The President He Is Insane”, “Dinosaur on the Way”, “Corpses of Foreign War” (com os Violent Femmes), “Vermin of the Blues”, “Country Music of Southeastern Australia” e “I Support the Troops and I Want my Money Back”. Tanto toca versões de Tom Jobim e dos Motorhead como faz a transposição para banjo de uma “suite” de Bach. O seu ecletismo, aliado ao humor e à espontaneidade, permite-lhe, como diz a revista “Wire”, “subir a qualquer palco em qualquer parte do mundo e, instantaneamente, fazer com que o mais difícil dos públicos se renda ao seu trabalho.”

Eugene Chadbourne
PORTO Café Concerto Rivoli. Tel.: 223 392 219.
Hoje, às 22h30. Bilhetes a 5 euros.
LISBOA Galeria Zé dos Bois. Tel.: 213 430 205.
Dia 3, às 21h30. Bilhetes a 7,5 euros.

29/10/2019

Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab


CULTURA
SÁBADO, 20 SET 2003

Improvisação sem rótulos no Festival Co-Lab

Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rouse são os convidados de honra do festival internacional de música experimental/improvisada do Porto

Co-Lab, laboratório de colaborações musicais em torno de um conceito de liberdade que nasce da improvisação. É também nome de festival: Co-Lab, Festival Internacional de música experimental/improvisada – de hoje a 28 no Teatro Carlos Alberto, no Porto –, um dos menos comprometidos com as regras do "mainstream", ao qual não escapam nem as "novas músicas". Diz a organização que "de fora, ficam todos os rótulos – free jazz, rock progressivo, minimalismo, pós-serialismo and so on". Descontando o "and so on", género ainda pouco conhecido entre nós, o Co-Lab despreza, de facto, o imobilismo e a arrumação em prateleiras.
            As atenções centram-se em quatro nomes sonantes da música improvisada europeia: Chris Cutler, Eugene Chadbourne, Phil Minton e Jon Rose. Vão colaborar uns com os outros, trocar ideias e sons, em formatos que vão do solo ao quarteto.
            Chris Cutler é o baterista-aranha (os seus ritmos estendem-se dos materiais mais elementares à bateria eletrónica), o anarquista, o esteta e o apreciador de vinhos que militou nos anos 70 e 80 em algumas das mais importantes formações de "art rock", como os Henry Cow, Art Bears, News from Babel e Cassiber, imbuídas do espírito de intervenção política que levou à criação da cooperativa "Rock in Oposition". Onde a música nasce espontânea, lá está ele a impor a ordem, a única não totalitária, que advém da inteligência, em colaborações que vão de antigos colegas seus nos Henry Cow, como Fred Frith, a Lutz Glandien e aos portugueses Telectu.
            Eugene Chadbourne é o guitarrista excêntrico que adaptou a música de Bach ao banjo. Transforma numa espécie de "country music" de insetos Duke Ellington e Albert Ayler e colaborou com os Butthole Surfers, rockers sujos e subversivos. Não menos desalinhado, Jon Rouse é o violinista sem escalas nem modelos fixos (incluindo os dos violinos que toca, mutações aberrantes que fariam arregalar os olhos de espanto a Paganini: mecânicos, eólicos, de duplo braço, etc.) e o humorista que já gravou um "Music for Restaurants", com direito a poesia fonética e colagens delirantes em ementa de "haute cuisine" musical.
            Phil Minton, o vocalista doido que canta como se estivesse a viver os últimos segundos de vida e o homem que, na sua estreia ao vivo em Portugal, quase nos atingiu em cheio com uma escarreta (sim, o canto de Minton tem origem no fundo) proveniente de uma "performance", digamos, mais visceral, completa o quadrilátero de grandes improvisadores deste Co-Lab (dias 24, 26 e 28, às 21h30).

Os portugueses
Paulo Raposo, músico e videasta dos Vitriol, junta forças com o alemão Marc Behrens, criador de atmosferas eletrónicas, e Jeremy Bernstein, autor de um "ambiente informático multidimensional de processamento de dados" (hoje, às 21h30). Pierre Redon improvisará ao lado de Etsuko Chida. O primeiro, influenciado por Cage e Derek Bailey, faz "uma música que tem sobretudo em conta a espacialização da matéria sonora, a polifonia e uma construção rítmica alicerçada sobre pulsações irregulares". A segunda toca koto (instrumento tradicional japonês) e canta (hoje, às 21h30).
            Ernesto Rodrigues, com Guilherme Rodrigues, Manuel Mota, José Oliveira e Margarida Garcia, são outras presenças portuguesas no Co-Lab (dia 24, às 21h30). Ernesto Rodrigues, esgotada a paciência com o rock, dos tempos em que integrava a banda de Jorge Palma, partiu para os limites mais radicais da música improvisada até chegar à chamada "micro-música" ou "near silence", apropriação das diretivas de John Cage, mestre-escultor do silêncio ou, melhor dizendo, poeta-cientista munido de microscópio sonoro de alta potência.

Festival Co-Lab
PORTO Teatro Carlos Alberto. Tel.: 223401910. Hoje e dias 24, 26 e 28, às 21h30. Bilhetes de 7 a 15 euros.