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31/08/2014

Enya - A Day Without Rain



Y 01|DEZEMBRO|2000
escolhas|discos

ENYA
A Day without Rain
Warner Bros., distri. Warner Music
5|10

Disco após disco renova-se a esperança de que Enya consiga registar qualquer coisa tao consistente como “The Celts”, o promissor álbum de estreia. Com “A Day without Rain” tais expetativas voltam a sair defraudadas, já que a irlandesa parece incapaz de se libertar das malhas que criou. Coros celestiais e arranjos acetinados que parecem ter consultado mais do que é habitual a sebenta balofa de Vangelis podem soar como cânticos de anjos a alguns ouvidos tornados mais permissíveis pelo espírito do Natal. Mas não chegam para ser ouvidos no céu. Enya ainda tenta experimentar o gótico eletrónico tão bem representado pelos QNTAL numa faixa como “Tempus vernum” mas logo o melaço celestial escorre da mesa da mistura para nos dizer que o mundo é um local aprazível onde todos sorriem na paz do Senhor.

05/06/2009

O céu pontado de estrelas [Reedições]

Sons

14 de Novembro 1997
REEDIÇÕES


O céu pintado de estrelas

Talvez porque o Natal está à porta, o mercado português está a ser inundado por uma quantidade de colectâneas e reedições das chamadas “estrelas”. É uma boa oportunidade para decorar a estante com caixas de êxitos que, na maior parte dos casos, já toda a gente conhece.

Do monte de colectâneas e reedições que chegam ao mercado nesta altura, a caixa mais importante é, sem dúvida, a dupla correspondente à reedição de “200 Motels”, de Frank Zappa, obra de fôlego composta pelo génio entre 1967 e 1971 para a banda-sonora do mesmo nome. O álbum faz parte de uma nova série de “OST” (“Original Soundtrack”, “soundtrack”, em português, “som de traque”), da Rykodisc, cujo primeiro pacote inclui ainda as bandas-sonoras de “Carrie”, “Chitty, Chitty, Bang, Bang”, “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World” e “Octopussy” (da série James Bond), todas em “Deluxe edition”, com apresentações impecáveis e uma reprodução dos “posters” de lançamento originais. Inexplicavelmente, estou a usar uma quantidade absurda de termos estrangeiros. Mas voltemos a Zappa. “200 Motels” não é o melhor álbum, longe disso, do homem dos bigodes. Mistura, em doses desequilibradas, mas sem dúvida capazes de impressionar o desprevenido consumidor de pop no ingénuo ano da graça de 1971, sequências clássicas pela Royal Philharmonic Orchestra, apontamentos humorísticos e “rock ‘n’ roll (“roca e rola”, chega de estrangeirismos) na veia (na veia?) dos Mothers of Invention (“Matas da Invenção”), como “Magic fingers”, em duas versões. A reedição inclui ainda quatro “spots” (“potes”) publicitários originais feitos para a rádio e um livrete cheio de informação e fotos da fita. Sendo uma boa amostra da faceta mais erudita de Frank Vincent Zappa, “200 Motels”, não obstante, não se livra de cair ocasionalmente no aborrecimento, o que, sendo o seu autor quem era, não deixa de ser surpreendente. 200 motéis é muito motel. (Rykodisc, distri. MVM, 6)

Outro músico importante que já não pertence ao mundo dos vivos é John Lennon, cuja memória volta a ressuscitar através de “Lennon Legend”, subintitulado “The Very Best of John Lennon”. É uma colectânea sem surpresas, que parte da apresentação de alguns dos temas mais famosos do ex-Beatle, como “Imagine”, “Mother”, “Jealous guy”, sem esquecer a faceta mais politizada dos Plastic Ono Band, de “Instant karma” e “Power to the people”, o Lennon “rocker” de “Cold turkey” e “Whatever gets you thru’ the night”, e o baladeiro romântico, de “Woman”, e esquerdista, de “Working class hero”, passando pelo “reggae” de “Borrowed time”. O álbum termina, adequadamente, numa nota natalícia, com os manifestos pacifistas “Happy Xmas (war is over)” de “Give peace a chance”. Lennon ficou para a História como o Beatle rebelde, em oposição à imagem de esteta que ficou colada a Paul McCartney. Chamem-me nomes, mas a realidade é que o primeiro nunca chegou aos calcanhares do segundo, em matéria de composição de boas, clássicas canções. Mas é claro que Lennon sempre representou com outra convicção os valores politicamente correctos da sua geração, mesmo que os seus melhores momentos como compositor revelassem, afinal, um incorrigível romântico, capaz de escrever coisas tão belas e tão simples como “Love”, uma das grandes canções desta “Lenda”, que conservou até hoje toda a sua frescura. Só por isso devemos dar algum desconto a Yoko Ono. (Parlophone, distri. EMI-VC, 7).

Avancemos para gente para quem a rebeldia é conceito totalmente desconhecido. Mike Oldfield, menino-prodígio dos anos 70 que encheu os bolsos ao patrão da Virgin à custa do megassucesso “Tubular Bells”, transformou-se nos últimos anos num dos gurus da “new age”, ultrapassada a fase criativa que caracteriza os primeiros álbuns, “Tubular Bells”, “Hergest Ridge”, “Ommadawn”, “Incantations” e “Five Miles out”, regressando ainda no mais tardio “Amarok”, antes de se eclipsar nas traseiras da vulgaridade. Foi então que o multinstrumentista se lembrou da fábula da galinha dos ovos de ouro, partindo para um “Tubular Bells 2” de má memória que, mesmo assim, lhe terá feito reembolsar mais alguns milhões. A má notícia é que, a julgar pelo último tema desta colectânea, há já um “Tubular Bells 3” no prelo. Mas “XXV – The Essential Mike Oldfield” (XXV porque o velho Mike já leva XXV anos de carreira...) dirige-se, em primeiro lugar, aos saudosistas, reunindo excertos das longas composições que ocupavam invariavelmente lados inteiros dos discos em vinilo, pertencentes aos quatro primeiros álbuns, atrás mencionados, seguidos de uma canção gira de “Crises”, “Moonlight shadow”, vocalizada por Maggie Reilly, e do “single” “Portsmouth”. Depois vem o pior, dois temas de “Tubular Bells 2” juntos com nacos de “Songs of Distant Earth” e “Voyager”, típicos da fase “tecno prog” do músico. Informa-se ainda V. Excªs que Mike Oldfield era o extraordinário guitarrista que acompanhava Kevin Ayers, no não menos extraordinário grupo The Whole World. Mudam-se os tempos... (Warner Bros., distri. Warner Music, 5).

Podia perfeitamente ter pertencido ao grupo de cantoras que, ao longo dos anos, foram dando voz feminina à música de Mike Oldfield, como Maggie Reilly e Sally Oldfield. Só não aconteceu porque não calhou. Para Enya, o destino foi outro. Depois de abandonar os Clannad em 1982, para onde entrara já na fase descendente do grupo, Enya criou o seu estilo pessoal, tirando partido de uma voz incomparavelmente doce e de um tipo de produção dirigido ao mercado “new age” de influência “celta” (a “celtic ambient”, como já lhe chamam na “Folk Roots”...), o que lhe valeu a conquista do prémio de “melhor álbum” nesta categoria, em 1995, com “The Memory of Trees”, e de um “Grammy”, quatro anos antes, com “Shepherd Moons”. “Paint the Sky with Stars: The Best of Enya” passa em revista alguns dos melhores momentos da cantora, incluindo, a abrir, o altamente trauteável “Orinoco flow” e “The celts”, título-tema do álbum que melhor soube recriar as envolvências celtas que sempre a inspiraram. Os indefectíveis têm ainda ao seu dispor um par de inéditos, “Only if...” e “Paint the sky with stars”, um belo título, ao nível do cuidado extremo posto na embalagem, jogando nas cores e nas texturas de uma proposta musical e de um rosto que, goste-se ou não, possuem um incomparável poder de sedução. (Warner Bros. distri. Warner Music, 6)

Mais uma senhora, a terminar. Esta mais recente e cultivadora de outro tipo de imagem. Falamos de Sheryl Crow, que em “Special Edition” (o álbum editado recentemente, “Sheryl Crow”, acrescentado de um segundo CD com actuações ao vivo) confirma estar alguns furos acima da média da chusma de candidatas a estrelas que todos os dias vão aparecendo com o fito único de tentar chegar aos “tops”. Feita a aposta numa produção seca e numa criteriosa selecção de canções, tudo se conjuga para fazer brilhar ao máximo a voz de Sheryl, que aqui se revela capaz, tanto de recriar o “neo-country”, em “Redemption day”, como de fazer a evocação de John Lennon, em “Ordinary morning”, ou de se afirmar como veículo de uma “rocker” de cabelos ao vento. Para os registos, fica uma canção absolutamente a guardar no cofre das excepções, a belíssima e interiorizada “The book”, virando as mesmas folhas de Suzanne Vega, e a ideia de que um corte no alinhamento poderia valorizar ainda mais um álbum onde o sentido comercial não dispensa um elevado nível de exigência. (A&M, distri. Polygram, 6)

23/11/2008

Enya - The Memory Of Trees

Pop Rock

20 de Dezembro de 1995
Álbuns poprock

Enya
The Memory of Trees
WEA, DISTRI. WARNER MUSIC

Ela canta como um pássaro. Ela tem um sorriso de querubim. Ela parece uma princesa dos livros de histórias. Ela irradia “charme” e simpatia. Ela encanta. Ela vende. Ela não passa da cepa torta depois de um álbum não despido de atractivos como o produzido para a série de televisão “The Celts”. A partir daí, a fórmula substituiu a criação e afogou o (hipotético) talento. Enya faz as delícias de qualquer editora que tenha um cantinho reservado para a “new age” facção “étnica” mas não muito. A música de “The Memory of Trees”, como a de “Watermark” ou “Shepherds Moon”, serve para relaxar, ou acompanhar um bom Porto ou um licor refinado na companhia dos amigos. Não exalta nem aguça a atenção, mas cumpre com eficácia se utilizada como som de fundo. É amigável, prazenteira, embora sem chama nem carisma. Vive de adornos e pequenos passes de magia. Que neste caso são a “novidade” dos textos cantados em latim e espanhol (o gaélico veio para ficar), ao lado das semelhanças instrumentais, com Vangelis, e corais, com Jon Anderson, dos Yes, fase “Olias of Sunhillow”. Como prenda de Natal, até nem faz má figura, na sua embalagem bonita, ao estilo “ó p’ra mim tão diáfana e colorida!” a acenar da prateleira do hipermercado. Como tal, vamos perdoar e cantar em coro o “Jingle bells”. (5)

03/11/2008

Enya - The Celts

Pop Rock

14 JULHO 1993
REEDIÇÕES

Enya
The Celts
CD Sonofolk, distri. XXX

Junte-se uns pós de perlimpimpim “celta” e uma cosmética “new age” com uma produção asseada e uma voz brilhante como um azulejo de cozinha - e está encontrada a panaceia musical para todos os males do mundo. Versão feminina de Vangelis, Enya veste-se de fada em cada novo disco, envolvendo-se em brumas e estrelas cuidadosamente fabricadas em estúdio na criação de uma imagem de desenho animado em aventuras medievais. “The Celts”, estreia discográfica de Enya, composto para a série da BBC com o mesmo nome, consegue mesmo assim ser o seu melhor disco. Talvez porque, nesta altura, a senhora ainda mantinha um gosto real pela tradição da Irlanda, fruto da sua estada nos Clannad, nos álbuns “Crann Ull” e “Fuaim”. A voz rompe a camada de verniz, num par de temas enquanto as presenças de Liam O’ Flynn, na gaita de foles, e Arty McGlynn, na guitarra, garantem a credibilidade do projecto. Mais tarde, o excesso de doces causaria a indigestão. (6)

02/10/2008

Enya - Shepherds Moon

Pop Rock

20 NOVEMBRO 1991

ENYA
Shepherds Moon
LP/MC/CD, WEA, distri. Warner port.

Como é bom viver num mundo assim! O mundo de Enya é um mundo de fadas (ela própria deve ter asinhas) oculto entre as brumas de Avalon. Enya canta com voz de anjo, coros celestiais, arco-íris de bons sentimentos, algodão-doce para saborear nos momentos agradáveis da vida. O dia é cinzento, Enya é azul e dourado. “Shepherds Moon” não é muito diferente de “Watermark”, o seu antecessor: melodias etéreas, a mesma linguagem inspirada na mitologia celta, onde não falta sequer desta vez um título como “Lothlorien” e, em “Smaointe”, cantado em gaélico, um solo de gaita-de-foles de Lyam O’Flynn, dos Planxty.
Faz pena ver uma voz como a de Enya, plena de potencialidades para o canto tradicional, perder-se entre tanta futilidade. “Shepherds Moon” é um disco bonitinho, não conseguindo nunca ultrapassar a beleza de superfície, desinteressado das raízes profundas que, afinal, lhe servem de inspiração. Enya, como a fada Sininho, sobrevoa a “Terra do Nunca”, sem mácula de dor nem de pecado. É bom viver num mundo assim! (5)