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14/11/2019

ENNIO MORRICONE & DULCE PONTES - Focus


17|OUTUBRO|2003 Y
dulce pontes|música

Conheceram-se, ligaram-se e, nos últimos oito anos, não se largaram. Dessa relação nasceu “Focus”, álbum de BSOs para filmes míticos, agora dobrados em português. Ennio Morricone e Dulce Pontes Concretizaram a missão.

A balada de Ennio e Dulce

            Ennio Morricone e Dulce Pontes conheceram-se em 1995, durante as filmagens de “Afirma Pereira”, para o qual o compositor e maestro italiano escreveu a banda sonora, que incluía a canção “A brisa do coração”, de Francesco de Melis e Emma Scoles, pela voz da cantora portuguesa, precisamente.
            Nessa altura juraram voltar a trabalhar juntos mas o autor das partituras de “Aconteceu no Oeste”, “A Missão”, “Cinema Paraíso” e “Sacco e Vanzeti” impôs como condição que Dulce esperasse até fazer 30 anos. Para ganhar experiência. Dulce esperou, apagou as 30 velas e Ennio cumpriu a promessa.
            E de que maneira: oferecendo-lhe um álbum inteiro com música sua. O álbum chama-se “Focus”, tem 16 canções e letras, entre outros, de Federico Garcia Lorca, Joan Baez, Francesco de Melis, José Mário Branco, Mark Niedzwiedz, Carlos Vargas, Phil Galdston, Audry Stainton, M. Travis e da própria Dulce Pontes, na canção de homenagem a Amália Rodrigues, “Amália por amor”. A portuguesa cantou na língua natal mas também em italiano, espanhol e inglês. Com empenho. Interiorizando a colaboração como um “sonho tornado realidade” e um “ato de amor”, capaz de lhe provocar o “êxtase”.
            Morricone, com a calma e a distanciação própria dos seus 75 anos (40 de carreira), não poupa, porém, nos elogios impressos na capa do disco, na forma como se refere às cinco novas composições que escreveu para o disco (“Amália por amor”, “Antiga palavra”, “Luz prodigiosa”, “Voo” e “I Girasoli”): “Escrevi-as a pensar na voz de Dulce. Queria dar um ritmo intencional a estas novas peças – chamemos-lhe um ritmo ibérico – porque queria que a Dulce pudesse expressar o seu alcance vocal, mas também manter as conotações do fado português (…) ela tem qualidades ‘camaleónicas’ tão completas, tão incrivelmente variadas, que tenho de dizer que ela toca em todos os aspetos da canção, todas as formas de cantar”. Vai mesmo mais longe, ao afirmar que este é um dos discos “mais importantes” que alguma vez fez “com um cantor”, definindo-o como “extraordinário”.

            perfeccionista. 1995 foi o ano da luz. Dulce e Ennio encontraram-se nas circunstâncias atrás descritas e ele não a largou mais. “Começou a convidar-me para ir cantar aos concertos dele”, conta a cantora portuguesa, ainda mal refeita desse encontro “profissional” e “pessoal” com o mítico autor de BSO para “Western spaghettis” como “Por um Punhado de Dólares”, de Sérgio Leone. “Mantivemos contacto ao longo dos últimos anos e estivemos juntos em várias partes do mundo, como na Arena de Verona, o Palácio dos Congressos, em Paris, Londres, Norte da Europa…”. Proximidade e afeto mútuos ao ponto de levarem Dulce a considerar o maestro como “uma pessoa da família”. Alguém que descreve como “perfeccionista” e “com uma objetividade muito grande” em relação às suas conceções musicais, “o que se reflete na sua maneira de ser” – usa muito a expressão ‘dignidade artística’”. “Há poucas pessoas que conservem tais princípios ao longo da vida”, reconhece, acrescentando ter estado ao lado de alguém “acessível, sempre disposto a contar anedotas”.
            Dulce Pontes acompanha a música de Morricone desde a adolescência. Cita como banda sonora preferida “A Missão”. E reconhece que a sua voz se adapta a ela com naturalidade. “Porque a música dele descreve muitas imagens, uma música multifacetada que me permite tocar várias cambiantes da minha personalidade e da minha voz enquanto intérprete”, diz Dulce que, apesar dessa admiração mútua, teve que esperar até aos 30 anos para retomar a ligação artística com o mestre italiano. Mas valeu a pena a espera. “Isto acontece no melhor tempo da minha vida. Este disco não seria nada do que é se o tivesse feito no meio do rodopio em que eu normalmente andava. Depois, o facto de ter sido mãe fez-me ficar com mais corpo, o que me ajuda imenso na parte técnica. E tenho hoje uma estabilidade afetiva que antes não tinha”.
            Foram oito anos de espera até, finalmente, “se desbloquearem uma série de situações”, como o facto da editora querer que a cantora lançasse mais um disco antes da aventura Morricone, o que implicou “cedências”, das quais, porém, Dulce “não se arrepende nada”.
            Ao fim e ao cabo proporcionaram-se as condições para “Focus” avançar e poder contar com cinco composições novas oferecidas “de bandeja” à cantora que em 1999 conquistou o Prémio José Afonso com o álbum “O Primeiro Canto”. “Sobretudo pela quantidade de vozes magníficas que existem no planeta, sinto-me privilegiada por ele me ter escolhido”.

            “va bene, bravo!”. “Focus” foi gravado no mesmo estúdio que “Brisa do coração”, no Fórum estúdio, em Roma. Durante sete dias, “tudo de seguida”, sempre com Morricone presente. “Sugeri que gravássemos ao mesmo tempo com a orquestra mas ele não quis, preferiu gravar a orquestra primeiro. Ouvi as orquestrações cerca de oito dias antes de ir para lá, onde acrescentei depois a voz. Um dos temas, ‘Someone you once knew’, tinha um andamento muito fixo e expliquei-lhe isso assim que cheguei ao estúdio, exemplificando. Ele percebeu de imediato e optou por, nessa vez, gravar mesmo em tempo real com a orquestra. Deu-me total liberdade, mas adorava que tivesse sido mais exigente comigo (risos) porque o que acontecia, na maioria das vezes, era eu fazer dois, três ‘takes’ e ele comentar ‘va bene, bravo!’. Eu pedia para repetir, às vezes repetia demais, talvez por insegurança, noutras por uma certa dificuldade em adaptar-me às mudanças de linguagem”.
            Agora que “Focus” aí está para ser lançado em todo o mundo, incluindo no formato SACD (Super Áudio CD), o que acontece pela primeira vez com um artista português, Dulce Pontes não tem dúvidas em reconhecer que se trata de um momento único da sua carreira e que poderá ser o início de um reportório à parte, “para cantar coisas de outras pessoas”.
            “Focus” tem apresentações marcadas para Roma, no mês que vem, e para o Royal Albert Hall, em Londres. Por cá, “haja luz!”: “Adorava fazer o espetáculo antes do Natal, até porque o Ennio Morricone nunca esteve em Portugal”.
            Para já, Dulce Pontes não se cansa de saborear o momento. “Tive que me beliscar, não acreditava que estava a cantar ‘A Missão’!”. Nem de rebobinar na sua cabeça um filme de que ainda não assimilou sequer “os créditos”. “Talvez por defesa. Não gosto de criar expectativas em relação a uma coisa, como fiz no passado, e depois desiludir-me. Tenho medo disso. Embora sinta que este foi um passo muito importante, talvez mesmo o mais importante, e que representa a possibilidade de crescimento e de internacionalização, há coisas neste disco que talvez gostasse de repetir, tenho sempre essa sensação. Houve momentos em que fui ainda mais exigente que o maestro, talvez estupidamente exigente (risos)”. Porque a música de Morricone “não se pode interpretar nem só com o coração nem só com a cabeça, tem que haver um equilíbrio delicadíssimo. Tens aqui um par de asas e agora põe-te a voar. De repente abre-se diante de ti um precipício enorme mas sabes o prazer que podes ter a voar”.


forte e feio

Pegando nas palavras da própria Dulce Pontes, quando se refere à necessidade de equilíbrio entre o coração e a cabeça na interpretação da música de Morricone, somos tentados a considerar que é, por aí, que “Focus” não cumpre por inteiro as expectativas que a colaboração entre ambos criara à partida. Bem entendido, a majestosidade dos novos arranjos criados por Morricone para “Cinema paradiso”, “A rose among thorns” (de “A Missão”) ou “Your love” (de “Era uma Vez no Oeste”) impõem de imediato o selo típico do mestre. Para Dulce ficou reservada a responsabilidade de lhes conferir o tal cunho “ibérico” pretendido pelo compositor. Acontece que a cantora portuguesa se terá deixado levar em demasia pelo coração e menos pela cabeça, ao não conseguir resistir a levantar a voz acima daquele nível no qual essa noção de “equilíbrio” deixa de fazer sentido. Cantar “ibérico” não é subir perdidamente aos píncaros da expressividade decibélica. Que Dulce Pontes é dona de um potente instrumento vocal, é do conhecimento geral; mas não havia necessidade de nos atirar isso à cara. Mesmo porque em faixas como “No ano que vem” – fortíssimo ímpeto digno da ópera-rock “Jesus Cristo Superstar” –, “Nosso mar”, no seu aceitável brasileirismo (enquanto a voz não sobe de tom…), “Antiga palavra” e “I girasoli” (o mais arrojado dos arranjos), se torna evidente que o seu leque de registos se estende bastante para além do mero histrionismo. Entre as sensuais entoações árabes dos primeiros segundos de “The ballad of Sacco e Vanzetti” ou o fado com dedicatória a Amália, “Amália por amor”, fica a frustração de que “Focus” poderia ter enveredado por criar outro tipo de dialética entre a grandiosidade orquestral e a plasticidade da voz. Assim, soa a exibicionismo e a “world” em cinemascope de pacotilha. Mas não terá sido isso, afinal, que juntou Ennio e Dulce e dá brilho à música quer de um quer de outro?

ENNIO MORRICONE & DULCE PONTES
Focus
Ed. e distri. Universal
4|10


22/03/2017

O corpo é apenas um invólucro [Dulce Pontes]

cultura QUARTA-FEIRA, 28 JUNHO 2000

Dulce Pontes apresenta “O Primeiro Canto” no Coliseu dos Recreios, em Lisboa

O corpo é apenas um invólucro

Nus. O corpo e a voz. Em "O Primeiro Canto", lugar de encontro de Dulce Pontes com o sopro que anima o barro que dá forma aos sons. O álbum, galardoado com o Prémio José Afonso, abre novas vias de exploração a esta cantora que se enamorou pelos folclores do mundo. Hoje no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Dulce fará uma vez mais a corte à tradição.

Primeiro foi o fado. O primeiro amor. Etapa inicial de um percurso feito de procura e inquietação. E de auto-descoberta. Álbuns como "Lusitana" e "Lágrimas" revelaram ao público português uma voz personalizada que em cada nota procurava o seu lugar, os seus lugares naturais. "A Brisa do Coração" e "Caminhos" abriam novas janelas e alamedas, mas ainda com o fado a servir de estímulo e protecção.
            Colaborações no álbum "Sognos" de Andrea Bocelli e uma participação na banda sonora do filme de Gregory Hoblit, "A Raiz do Medo" – que trouxe de novo à tona a "Canção do mar" antes imortalizada por Amália – projetaram em definitivo o seu nome aquém e além fronteiras. Esta noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, será mais uma consagração, depois da cantora ter feito dueto com Caetano Veloso, num espectáculo para 60 mil pessoas que teve lugar na Páscoa na praia de Ipanema, no Brasil.
            Mas Dulce Pontes queria mais, ir mais longe, afirmar-se não só como cantora de reconhecidos méritos como compositora capaz do confronto com os outros e consigo própria na descoberta de novos horizontes musicais. Descobriu-os em "O Primeiro Canto", vencedor do Prémio José Afonso deste ano, e a voz que no passado se agarrava às fraldas do fado de Lisboa, deixando-se acariciar pelos elogios dos que viam nela, como viam noutras, "A nova Amália", libertou-se das amarras e espantou-se com o universo.
            Com este passo Dulce Pontes deu o seu contributo na concretização de um novo rumo para a música portuguesa, espelhada na sua dimensão mais universalista. "O Primeiro Canto" permitiu de igual modo à sua autora completar o tríptico de vozes femininas que tiraram a música popular portuguesa do gueto das pancadinhas nas costas e da pequenez de ambições, juntando-se às de Maria João e Amélia Muge.

As estrelas certas

            Não esteve sozinha neste passo nem rodeada apenas de compatriotas. Para as gravações de "O Primeiro Canto" a cantora soube rodear-se dos nomes certos que lhe permitissem movimentar-se com a maior liberdade possível neste território recém-descoberto. E as "estrelas" não se fizeram rogadas, aceitando o convite: Kepa Junkera, o acrobata da "trikitixa" basco, Myrdhin, o bardo bretão da harpa céltica, Andres Norudde, iconoclasta dos suecos Hedningarna, Justin Vali, virtuoso da valiha, de Madagáscar, Wayne Shorter, um dos "gentlemen" pioneiros do jazz rock, Trilok Gurtu, mágico das percussões indiano, Jacques Morelenbaum, violoncelista e arranjador brasileiro, Waldemar Bastos, cantor angolano apadrinhado por David Byrne, Maria João, a voz-vozes.
            O objetivo começou por ser a criação de um álbum acústico, sem máquinas, onde se cruzassem cantos e tradições. Como em todo o ato de criação, foi exigida a nudez, o despojamento, condição necessária para se alcançar a essência que para Dulce Pontes constituiu o mote impulsionador deste trabalho. Moldou o barro, deu-lhe a forma de canções, umas próximas de nós, outras mais afastadas, e insuflou-as com o sopro da sua voz, finalmente embarcada numa caravela pronta a navegar.
            Trás-os-Montes, Alentejo, Lisboa... Mais ao largo, África, Índia... E lugares virgens por desbravar nos mapas da imaginação. Gelo, fogo, vento, rocha. Os quatro elementos em cruz. Sobre eles e com eles traçou Dulce Pontes a sua rota de viagens. Giacometti, José Afonso e Amália acenam adeus no cais que fica sobre as nuvens. Vislumbram-se outros cantos, novos cantos, para a música tradicional. Dulce Pontes soube, para já, responder aos desafios musicais de um planeta que rola para o final de um ciclo.
            Certa ocasião, durante o período de gravações de "O Primeiro Canto", Dulce Pontes contou o modo como se inspirou para compor a "Modinha das saias", durante uma viagem de automóvel a caminho de Miranda do Douro: "Tive a imagem de um vulcão na Ilha Graciosa em cuja cratera a luz penetra segundo uma determinada perspectiva e que tem uma reverberação sonora de onze segundos". Dulce Pontes nunca esteve fisicamente lá, recorrendo apenas à descrição que o músico e produtor Tó Pinheiro da Silva lhe fizera do local. E, no entanto, foi como se estivesse presente. Talvez porque, como ela diz, "o corpo é apenas um invólucro".

DULCE PONTES
LISBOA Coliseu dos Recreios, 22h45.
Bilhetes entre 2000$ e 5000$.

22/04/2011

E depois de Amália? [Balanço 1999 - Música Portuguesa-World]

Sons

24 de Dezembro 1999
BALANÇO 1999
Música portuguesa - world

E depois de Amália?

Morreu Amália, o fado ganhou novos rostos e novas vozes. Dulce Pontes, Mafalda Arnauth, Sofia Varela e Cristina Branco fizeram nascer ramos diferentes a partir de uma raiz comum. Na folk, o compasso de espera foi interrompido por um grupo de veteranos que recuperou de forma brilhante romances tradicionais.


No ano da morte de Amália o fado acabou por estar no centro das atenções no capítulo das músicas ligadas à tradição. Mesmo antes do desaparecimento da maior voz de sempre do fado, na ânsia de se descobrir uma sucessora, lançaram-se “slogans” e catalogações despropositadas que, por muito lisonjeiras que sejam, acabam sempre por se tornar limitativas, quando não inibidoras dos artistas visados. Do grupo das nomeadas “herdeiras” ou “sucessoras” de Amália destacaram-se Dulce Pontes e Mafalda Arnauth. Ambas senhoras de grandes vozes, apostaram em caminhos divergentes. A primeira, já com um percurso assinalável na música popular portuguesa, enveredou no seu último trabalho, “O Primeiro Canto”, pela via da world music, rodeando-se de estrelas internacionais e experimentando vocalmente registos que parecem estar-lhe destinados desde o início e onde o fado parece, cada vez mais, fixar-se unicamente como referencial de uma autenticidade que permanece umbilicalmente ligada à cantora. Já Mafalda Arnauth – cuja espiritualidade e modo como interioriza o fado a aproximam verdadeiramente do que de mais profundo habitava em Amália – baralhou por completo as expectativas, assinando um álbum de estreia preenchido na íntegra com originais da sua autoria, quando dela se esperaria, porventura, menor dose de risco que implicaria um disco de versões. Na sala de espera, perfilam-se outras jovens vozes femininas das quais o fado poderá esperar num futuro próximo feitos de vulto, com Sofia Varela e Cristina Branco (estreia com “Murmúrios”) na dianteira. Já Maria Ana Bobone, trazida para o fado pelo braço de João Braga, distancia-se gradualmente deste género de música, à medida que se vão sucedendo as incursões discográficas (este ano, “Senhora da Lapa”, para uma editora estrangeira) numa espécie de música de câmara, sem dúvida de ressonâncias fadistas, mas definitivamente voltada para um ambientalismo de rosto new age. Mísia manteve-se à distância com a pós-modernidade das suas “Paixões Diagonais”.
Da área da folk esperar-se-ia mais quantidade editorial. Escassearam os trabalhos de fôlego. E, se o campo da fusão esteve bem servido – por mais polémicos que tivessem sido os resultados – pelos novos álbuns dos Sétima Legião (“Sexto Sentido”) e João Aguardela, com o segundo volume do seu projecto Megafone, os mesmos não fizeram esquecer a ausência da continuação das obras encetadas pelos Vai de Roda, Realejo e Gaiteiros de Lisboa. Descontando as semidesilusões de João Afonso, com “O Barco Voador”, e dos Quadrilha, com “Quarto Crescente”, acabou por ser a “velha guarda” constituída por Amélia Muge (também activa no grupo galego Camerata Meiga), Brigada Victor Jara (autores do prodígio que foi terem revelado Lena d’Água como cantora folk promissora), Sérgio Godinho e os já mencionados Gaiteiros de Lisboa e João Afonso a salvar a honra do convento, com o excelente naipe de versões originais de romances tradicionais contido em “Novas Vos Trago”. Acontecimento à margem de todas as pressões do final do século foi a reedição em caixa de cinco CD da mítica “Música Regional Portuguesa”, recolhida e compilada por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça.

26/02/2011

Dulce Pontes - O Primeiro Canto

Sons

15 de Outubro 1999
PORTUGUESES

Voz de barro

Dulce Pontes
O Primeiro Canto (7)
Polydor, distri. Universal


Dulce Pontes reencontrou o canto que melhor calha à sua voz. O canto de inspiração étnica, afastadas anteriores hesitações e desvios de percurso. Novos registos vocais nascem como que por magia da garganta de Dulce nesta sua demanda do barro primitivo capaz de se transmutar nos quatro elementos que compõem o mundo. “Alma guerreira (fogo)” abre de forma auspiciosa, em espirais que começam por sugerir o mesmo tipo de pesquisas de Amélia Muge, embora descaiam no fim para a pompa de um Rick Wakeman a quem presentearam com brinquedos novos. Depois da obrigatória passagem pelo fado, em “Fado-mães”, Dulce toca na tradição transmontana com um “Tirioni” muito Brigada Victor Jara mas nem por isso menor na sedução que transmite. Dedicado a José Afonso, o título-tema é outro dos bons momentos de “O Primeiro Canto”, tanto pela beleza formal – com citações a Índia e a África – como pela versatilidade que a cantora imprime à interpretação, num baile entre os graves e os agudos em contraponto com o “overdubbing”. Depois da folk de câmara de “O que for há-de ser (ar)”, dos momentos mais tocantes do disco, “Modinha das saias” mostra um trio com Maria João e a cantora lírica Gemma Bertagnolli que recorda a Banda do Casaco. “É tão grande o Alentejo” é mesmo grande, com o cante de Dulce e dos Ganhões de Castro Verde a responder à gaita-de-foles do sueco Anders Norudde, dos Hedningarna, sobre uma drone de didgeridoo. Espectáculo dentro do espectáculo, a voz de Dulce em “Pátio dos amores” bem poderia ser uma homenagem a Amália. O flamenco (“Garça perdida”), a música angolana, (“Velha chica”, com Waldemar Bastos), o celtismo com banca num baile popular (“Ai solidom” com a harpa do bretão Myrdhin), a new age de ouvido à escuta a Maria João (“Suite da terra”) ou o prazer de ouvir Kepa Junkera tocar trikitixa e, em geral, um abraço estreito à world music, são outros focos de interesse que fazem deste primeiro canto de Dulce Pontes um desfile de promessas cumpridas que apenas pecará pelo desculpável novo-riquismo da produção “porquê usar apenas um som quando se pode usar dez?” e de uma lista de convidados – além dos nomes citados, participam Leonardo Amuedo, Justin Vali, Wayne Shorter, Jacques Morelenbaum e Trilok Gurtu – que por pouco não rivalizava com Carlos Nuñez.

12/02/2011

Barro doce [Dulce Pontes]

Sons

1 de Outubro 1999

Dulce Pontes fala de “O Primeiro Canto”, o seu álbum mais recente

Barro doce


Liberta das lágrimas do fado, Dulce Pontes renovou a sua imagem e a sua música. No seu novo álbum, “O Primeiro Canto”, cobriu-se de barro, despiu-se da electrónica e das roupas para encontrar a nudez essencial do canto, expresso nos quatro elementos e numa busca insaciável de novas sonoridades.

Kepa Junkera, Myrdhin, Anders Norudde (dos Hedningarna), Justin Vali, Wayne Shorter, Trilok Gurtu, Jacques Morelenbaum, Maria João e Waldemar Bastos participam todos no novo álbum de Dulce Pontes, “O Primeiro Canto”. Dulce Pontes explicou ao PÚBLICO a sua aproximação à “world music” e a redescoberta de si própria. Através da nudez – do corpo, da alma e da voz.
PÚBLICO – Como é que conseguiu juntar tanta gente importante para participar neste disco?
DULCE PONTES – Os nossos caminhos cruzaram-se, numa ou noutra altura. Identifiquei-me com o tipo de linguagens que todos eles desenvolviam. Apareceu primeiro o conceito, a composição dos temas e, a partir daí, surgiu a ideia concreta do tipo de sonoridades que queria ouvir. Fui estabelecendo os contactos…
P. – Em “É tão grande o Alentejo” juntou um didjeridoo australiano, uma gaita-de-foles sueca e o cante alentejano dos Ganhões de Castro Verde. Combinação, no mínimo, pouco vulgar, não acha?
R. – A ideia inicial previa apenas o didjeridoo mas achei que não funcionava por si só. Quando o Anders chegou ao estúdio e ouvi o timbre da gaita-de-foles, senti que era isso mesmo que fazia lá falta.
P. – Qual a função dos quatro elementos no contexto de “O Primeiro Canto”?
R. – Serviram como fio condutor de uma busca – o regresso a uma certa origem, a uma nudez essencial que está presente em todas as coisas e em todas as pessoas. Ao mesmo tempo tem relação com outro tipo de busca, de sonoridades ligadas ao vento ou à água, por aí fora, até tentei transmitir o som das pedras. Ligações a um lado cultural mas também telúrico. Como encontrei, por exemplo, nos Ganhões de Castro Verde, na força da sua ligação à terra.
P. – Esse processo foi um retrocesso, um andar para trás até à fonte?
R. – Foi um processo intenso, continua a ser, é um processo de uma vida inteira. É fácil estabelecer relações esotéricas neste álbum mas não foi isso que pretendi. Claro que há algum esoterismo inerente mas não foi premeditado. É unicamente a procura de uma certa nudez.
P. – Dedica um dos temas do álbum, precisamente o título-tema, a José Afonso. Até que ponto ele foi importante para a génese deste disco?
R. – Pode fazer-se um paralelo entre os métodos que ele utilizava e os que segui neste disco. E aprendo sempre, cada vez que ouço os seus discos. Aprendo, sobretudo, uma atitude perante a vida que se transmite através da música.
P. – É verdade que fez gravações de campo antes de entrar em estúdio?
R. – Sim, andei por Miranda-do-Douro, Sendim, por Idanha-A-Nova, Castro Verde. Mas acabei por não aproveitar grandes coisas. Pretendo desenvolver com ele um trabalho relacionado só com folclore. Quando parti para essa pesquisa já tinha a maioria dos temas compostos e senti, em relação ao trabalho de campo, que até acabava por haver uma riqueza menor em comparação ao que tinha recolhido.
P. – Até que ponto é que este disco determinou uma diversificação dos seus registos vocais? Há mais e diferentes vozes em “O Primeiro Canto” que em todos os seus discos anteriores juntos…
R. – Tudo isso se prende com a voz ser um instrumento. Mais uma sonoridade ao serviço do todo. Foi também uma busca da delicadeza, não só da força. Consegui com este tipo de sonoridade diferentes “nuances” e formas de interpretar, antes era mais difícil, com toda a parafernália electrónica. Era mais pela força. Comecei a sentir que era muito mais fiel a mim própria havendo mais espaço para a voz.
P. – “Modinha das saias” é um canto a três entre si, Maria João e a cantora lírica Gemma Bertagnolli.
R. – Encontrei Gemma Bertagnolli nos espectáculos que fiz com o Ennio Morricone, em Roma. Houve uma grande empatia, ficámos no mesmo camarim. Quanto à Maria João, já a admiro há muito tempo e sempre tive vontade de trabalhar com ela. Fiz a “Modinha das saias” quando ia a caminho de Miranda, a pensar numa imagem que o Tó Pinheiro da Silva me descrevera: um vulcão na ilha Graciosa em cuja cratera a luz entra numa determinada perspectiva e onde existe uma reverberação de onze segundos. Não sei porquê, pensei em nós três naquele sítio. Gravámos as três ao mesmo tempo, nada de “takes” separados.
P. – A presença neste disco de tantos convidados ilustres vai facilitar-lhe a entrada no mercado da “world music”? Kepa Junkera já a convidou para “Bilbao: 00h00”. Podem seguir-se mais convites…
R. – Mercado com o qual me identifico muito, muito mesmo. Estou a lembrar-me de uma jam session que fiz há uns tempos em Israel, onde estava também o Salif Keita. Cantei com irlandeses e com um grupo de percussões hindu. Ao todo, éramos para aí uns 50. Foi uma jam session “non stop”.
P. – Fez algum tipo de investigação sobre os instrumentos, alguns deles bastante exóticos, aos quais recorre no álbum?
R. – Fui fazendo viagens. Em relação ao Carlos Blanco Fadol, por exemplo, foi uma coincidência muito gira. Ele apareceu, de repente, no ensaio do concerto que eu fiz cá com a Cesária Évora e a Marisa Monte, a dizer que tinha 1800 instrumentos à minha disposição. Ele tem um museu de música étnica em Alicante, constrói instrumentos, já escreveu livros. A coincidência máxima foi ele ter-me dito que andava já há algum tempo a investigar a construção de instrumentos relacionados com os quatro elementos. Nessa altura, mal ele sabia o que eu andava a fazer…
P. – Sente alguma empatia com algum instrumento em especial?
R. – Para além de a minha voz poder sentir-se mais ou menos confortável com algum instrumento, gosto do desafio, de explorar coisas diferentes. A forma como o Jacques [Morelenbaum] escreve os arranjos para solistas é fabuloso. É como se ele cantasse ao mesmo tempo. Lembro-me quando lhe mandei os demos, escrevi alguns textozinhos a explicar, às vezes de forma muito metafórica, qual era a ideia de cada um. Pensei que ele não ia perceber nada, mas não, percebeu de forma impressionante o que eu pretendia. Ele é uma grande parte deste trabalho.
P. – Quem é a figura que aparece na capa?
R. – Sou eu, coberta de barro. Estava mesmo nua. Quis transmitir a ideia de que o corpo é apenas um invólucro. A posição das mãos pode sugerir um dar e receber implícitos. Também uma espera, uma atenção.

01/12/2008

Dulce Pontes - Caminhos

POP ROCK

20 de Novembro de 1996
portugueses

Dulce Pontes
Caminhos
ED. E DISTRI. MOVIEPLAY

Tantos caminhos para uma só voz. Dulce Pontes escolheu partir em direcção ao desconhecido, arriscando expor-se onde outros considerariam a hipótese de consolidação de um estilo. O estilo de Dulce Pontes é cantar, simplesmente. Se em “Lágrimas”, o álbum anterior, acolhia e traduzia os mundos antagónicos de José Afonso e Amália Rodrigues, neste seu novo trabalho as referências diversificaram-se num leque que pretende mostrar a essência de uma world music em português, na confluência do fado, do folclore e da música popular de autor. World music porque a produção aponta inequivocamente para um som internacional, não diremos a pensar só na exportação, mas com toda a probabilidade, atenta a ouvidos que a maior agressividade do mercado português além-fronteiras despertou.
“Caminhos” é essa vontade de explorar sonoridades e atitudes que vão da vocalização de “Verdes anos”, ao fado tradicional de “Fado português” e “Gaivota” e à Galiza, em “Lela”, o tal tema com produção “irlandesa” de Paddy Moloney e um dos que conta com o talento instrumental do prodigioso Carlos Nuñez. Que vão do enquadramento orquestral ao naturalismo “a capella” de “Senhora do Almortão” para encontrarem um novo equilíbrio na interpretação de duas canções saídas do universo pessoalíssimo do açoriano Zeca Medeiros, uma das quais, “Cantiga da terra”, temos como um dos expoentes, na matéria e no espírito, do que chamamos “nova tradição portuguesa”. Mas também há fado-tango, passagens pelo Alentejo e por Cabo Verde e José Afonso, de novo revisitado, em “Catedral de Lisboa”. Caminhos que, numa futura etapa, poderão levar Dulce Pontes a uma encruzilhada. (7)

"Fica tudo levezinho, doce..." [Dulce Pontes]

Pop Rock

13 de Novembro de 1996

Dulce Pontes sente os “Caminhos” do seu novo álbum

“Fica tudo levezinho, doce…”

Dulce Pontes gosta da naturalidade, de se ouvir experimentar a voz numa igreja ou num espaço aberto, sob a chuva ou os aplausos do público. Com uma nova imagem e um novo disco, “Caminhos”, encontrou amigos da Galiza e a essência da música portuguesa, da qual é hoje uma das estrelas mais cintilantes.


O sucessor de vendas do seu disco anterior, “Lágrimas”, em Portugal e nos estrangeiro, e a participação na banda-sonora de um filme com Richard Gere, “Primal Fear”, exibido em todo o mundo, não afectam a natural simplicidade de Dulce Pontes. O mais importante continua a ser cantar os poemas e as músicas que lhe dão prazer. “A capella” ou acompanhada por uma orquestra. Demarca-se de Amália, “Somos mundos distantes”, e leva Carlos Nuñez “a sítios onde ele não iria”. Dulce Pontes segue, no fundo, o seu próprio caminho, que toca com os caminhos dos outros. O PÚBLICO acompanhou-a na fase mais recente da sua viagem.
PÚBLICO – A abrir caminho no disco está “O Infante”, com letra de Fernando Pessoa e música sua. Como surgiu este tema?
Dulce Pontes – Há uns três meses atrás estávamos a jantar, eu e o Guilherme [Inês], e à procura de um poema que pudesse ser o “leitmotiv” de todo o disco. Encontrei-o nesse poema.
P. – Que “leitmotiv” é esse?
R. – Inspirando-nos nas nossas raízes – o fado, o folclore e a música popular – quisemos alargar um pouco mais estas influências, sendo o mar o factor de união.
P. – “Caminhos”, pelo tipo de produção, parece-nos feito a pensar no mercado internacional. Concorda?
R. – Também. É para quem o quiser ouvir. É evidente que pessoas como o Carlos Nuñez ou o Leonardo Amuedo tiveram influência no som final. Procuro que a minha mensagem seja universal.
P. – Não receia perder-se num atalho, tantos são os caminhos do disco?
R. – Não. Andar num caminho com umas palas nos olhos seria pior. Podemos continuar no nosso caminho tendo uma visão mais abrangente, influenciada por tudo o que se vê à nossa volta.
P. – O que é que dá unidade a “Caminhos”?
R. A tal essência da música portuguesa. A música é algo muito maleável e a portuguesa, por ter uma base tão simples, harmonicamente falando, permite uma série de interpretações, uma série de caminhos distintos. Dá-me imenso gozo experimentar essas diferentes formas de cantar, esses diferentes sons, embora tendo sempre como base o ponto de partida que já referi.
P. – “Lela”, um dos temas com Carlos Nuñez, já aparecia no álbum deste músico, “O Caminho das Estrelas”. Foi um aproveitamento?
R. – Não. Aliás, isso também aconteceu noutro tema, “Porto”, que está no disco do Leonardo. Com o Carlos Nuñez trata-se de o levar a sítios onde ele não iria e vice-versa.
P. – No meio da sofisticação que impera na maioria dos arranjos, acaba por sobressair a sua interpretação “a capella”, em “Senhora do Almortão”. Em qual dos contextos prefere cantar?
R. – Em termos afectivos – e noto muito isso nos espectáculos ao vivo – prefiro o “less is more”, sinto que consigo aproximar-me mais do público do ponto de vista emotivo, quando canto “a capella”, ou só com o piano ou uma guitarra.
P. – Por que razão foram precisos seis estúdios para gravar o disco?
R. – Aconteceu… Bem, no que respeita àquele onde fizemos as misturas, os Wisseloord studios, em Hilversum, na Holanda, é fácil de explicar: São os Rolls Royce dos estúdios da Europa. A orquestra sinfónica fomos gravá-la em Roma também porque era mais fácil ir eu lá com o Guilherme e os dois técnicos do que trazer a orquestra inteira para aqui. Em Espanha, foi por ter estado lá a gravar um tema do disco de Luís Pastor, “Chuva de Maio”. Adorei o estúdio, tinha um grande microfone, daqueles antigos, com um som que não tem explicação! Com uma naturalidade e neutralidade espantosas!
P. – Cultiva essa naturalidade, não é?
R. – Sim, embora também goste do que se faz em estúdio, efeitos, “delays”, “reverbs”, mas de facto tenho esse gosto pelo natural. Por vezes, quando estive numa igreja, em Brasília, comecei a cantar lá dentro, só para ouvir o som, um som que não se consegue em estúdio nenhum. Noutra ocasião, ia a passear na Arrábida, ao pé do convento, estava a cair uma chuva miudinha. Parei para fazer uma coisa que gosto de fazer em espaços abertos, quando está silêncio absoluto: emitir alguns sons, não é bem cantar. Consoante os lugares, obtêm-se “delays” diferentes. Nessa altura, de repente, estava eu a fazer esse tipo de experiência, vejo ao fundo uma luz a acender e a apagar, ao ritmo do que fazia com a voz. Acho que estavam a gravar cenas do filme “Afirma Pereira” e alguém deve ter ligado o projector, quando me ouviu…
P. – Como é que se sentiu a cantar com uma orquestra?
R. – Foi arrepiante. Parece que se sente o som a atravessar os poros. Fica tudo levezinho, doce… É um luxo a que não estamos habituados em Portugal, infelizmente. Continua a haver alguns preconceitos de alguns músicos clássicos em relação à música ligeira, o que é uma estupidez.
P. – As fases mais recentes da sua carreira, com participações em filmes estrangeiros, como “Primal Fear”, e o sucesso de vendas do disco anterior, “Lágrimas”, conduziram-na ao estrelato. Como lida com este estatuto, tão rapidamente adquirido?
R. – Não sinto muito… Como fui sempre um bocadinho “marginal”, não sinto quaisquer pressões, apenas a da responsabilidade do trabalho que faço. O que mudou na minha vida foi passar a ter menos tempo para estar com os amigos, algo um pouco doloroso. Mas por outro lado posso estar com muita gente, amigos anónimos. Uma coisa compensa a outra. Quando acabo um espectáculo, o facto de saber que as pessoas estão na sala com um sorriso, que, de alguma forma, lhes proporcionei um bom momento, sentir que tive esse privilégio, faz-me ultrapassar tudo.
P. – Irritam-na ou sente-se lisonjeada com as constantes comparações que fazem entre si e Amália?
R. – Não me irritam, é um elogio, mas não gosto que façam essas comparações. Como intérpretes e cantoras não temos nada a ver uma com a outra. Nem a forma de sentir o fado. São mundos distantes.
P. – Mudou a sua imagem. Porquê?
R. – Toda a gente me dizia para não cortar os caracóis, que não era lá muito boa ideia, que as pessoas estavam habituadas ao corte que tinha. Mas decidi mesmo cortar, depois já não havia nada a fazer. E foi como voltar a sentir-me de novo dentro da minha pele.

13/11/2008

Brindes ao passado [Balanço música portuguesa 1994]

Pop Rock

28 de Dezembro de 1994
Balanço Português 94

BRINDES AO PASSADO

Com algum tempo de atraso, como é vulgar e de bom tom acontecer neste cantinho lusitano, a moda das homenagens chegou a Portugal. É verdade que por cá não abundam nomes de peso, vivos ou não, que justifiquem tais iniciativas, nem o necessário conhecimento de causa da parte de muitos dos celebrantes. Era preciso procurar mitos, artistas que povoassem o imaginário musical português, capazes de reunir o consenso e atrair tanto os jovens leões como os veteranos. Mas não foi preciso procurar muito. Assim, a jeito e com a estatura mínima pretendida, dois nomes se destacavam à partida, um deles já falecido, o outro ainda vivo e alvo de adoração do povo português: José Afonso e Amália Rodrigues.
O primeiro teve honras de grande acontecimento, através da edição do duplo contendo versões de canções suas, pelos Filhos da Madrugada, designação genérica que englobou praticamente todos os grupos mais conhecidos da pop nacional, mas deixou de fora pessoas que conviveram de perto e tocaram com o autor de “Coro dos Tribunais”. Amália foi, para já, objecto de homenagem mais modesta, por parte de Dulce Pontes, que lhe repescou uma série de fados e adoptou o título de um deles para o seu próprio álbum, “Lágrimas”. Por sinal, também José Afonso foi arrastado na corrente, aproveitando Dulce Pontes para homenagear de uma penada dois artistas cuja obra, ideologia e personalidade não poderiam ser mais opostos.
Enquanto isso, no Seixal, por ocasião das festas de Corroios, alguém se lembrou de editar um “Especial José Afonso”, disco que, curiosamente, não teve o mesmo sucesso de vendas que o dos Filhos da Madrugada. É que não se percebe muito bem o que têm grupos como os Oboé, Nível de Vida, Dixit, Últimos Suspeitos, Quatro+1, Tropa de Choque, Irmãos de Sangue e O Incesto a menos que os GNR, UHF, Sétima Legião, Resistência, Delfins, Madredeus, Peste & Sida, Mão Morta ou Sitiados!
O terceiro homenageado do ano foi outro falecido, António Variações, personagem controversa, ao contrário das outras duas, e, em vida, incómoda para muitos. Foi logo nos primeiros meses de 1994 que os nomes do costume decidiram juntar-se para umas “Variações” em torna deste artista, que adorava Amália, afirmava estar “entre o Minho e Nova Iorque” e misturava nas suas canções preocupações existenciais com uma vertente sonora electropop que, até hoje, permanece como uma das propostas m ais originais da música popular feita em Portugal. Assim, aos especialistas nas homenagens, Delfins (Miguel Ângelo foi dos primeiros a compreender e a “apropriar-se” da música do cantor-barbeiro), Ritual Tejo, Madredeus, Resistência, Sitiados e Mão Morta, juntaram-se Sérgio Godinho, Isabel Silvestre, Santos e Pecadores (bela designação para uma hipotética banda do homenageado…) e Três Tristes Tigres, num álbum que recupera temas dos álbuns “Anjo da Guarda” (1983) e “Dar e Receber” (1984), os únicos que Variações editou em vida.
Foi pois no fundo do baú que muita gente andou a remexer nas raízes perdidas. Num tempo de vacas gordas em termos de vendas (para o qual contribuiu em grande parte a aposta – ganha – na exportação, por algumas multinacionais) para a música portuguesa, a que correspondeu um tempo de crise, em termos de aparecimento de novos valores (exceptuando a saudável investida nas editoras independentes que apresentaram propostas de grande valor como as dos Bizarra Locomotiva, U-Nu ou Tina & The Top Ten, entre outras), investiu-se na bolsa dos valores seguros e na celebração de um classicismo que, inspirado nos tempos áureos da MPP ao longo das décadas de 60 e 70, ganhou novo eco na facção pop. Nesta corrida ao passado encontrou muita gente o fôlego providencial para o relançamento de carreiras em risco de estagnação. Para outros, terá sido verdadeiramente uma sentida homenagem. Para outros ainda, o mero oportunismo e o embarque à última da hora no comboio da jogada comercial. Fossem quais fossem as intenções de cada um, ninguém pode negar, porém, a este fenómeno, das homenagens, uma virtude: a de trazer a música dos mestres para o convívio das gerações mais novas, provocando nelas, como já aconteceu nalguns casos (Paulo Bragança ou a própria Dulce Pontes, por exemplo) o desejo de retomar e actualizar a tradição.