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24/09/2025

O grande Oriente [David Sylvian]

 

SEXTA-FEIRA, 24 AGOSTO 1990 local

 

RTP

 

O grande Oriente

 

DAVID SYLVIAN foi o rosto dos Japan. Um rosto belo, andrógino, como o do jovem de “Morte em Veneza”. Também uma voz. Música estranha, a dos Japan, influenciada no início pelos Roxy Music, depois inventando mundos de fantasmas orientais. David Sylvian, Mick Karn, Steve Jansen, Richard Barbieri – o núcleo fundamental. “Make-up”, trejeitos “glamour”, “Don’t Rain in my Parade”, de Barbra Streisand, imagens e sons de transgressão adolescente em “Adolescent Sex”, de 1979. “Obscure Alternatives”, sombrio, longínquo, satieano. Japan, grupo de artistas. Para além da música. Mick Karn é escultor. Sylvian tem a paixão da fotografia, “Gentlemen Take Polaroids” (1980), marcando o início da colaboração com Ryuichi Sakamoto. O Oriente ganha espaço e influência, “Cantonese Boy”, Mao Tse Tung, sedução. “Bamboo Houses”, de novo com Sakamoto, e “Forbidden Colours”, do filme “Merry Christmas Mr. Lawrence”, Sakamoto, ator e compositor, Sylvian, a voz. Os Japan acabam em 1983, com um vídeo e álbum ao vivo “Oil on Canvas”. A pintura. A cor. O traço.

            Steve Jansen e Richard Barbieri ocultam-se nas brumas do ambientalismo eletrónico, em “Worlds in a small Room”, e Mick Karn avisa: “Dreams of Reasin Produce Monsters”, depois de ter colaborado com Midge Uru (dos Ultravox), Peter Murphy (então nos Bauhaus) e os Dali’s Car.

            David Sylvian demanda a beleza absoluta do canto. A sua voz escorre e flui como a água, tomando formas sempre diferentes, sempre envolventes, com os contornos do segredo e a imensidade esférica e absoluta do silêncio. Música flutuando na quietude ativa e expectante do Zen, procurando o lugar certo do som e das palavras. A exatidão, o centro do alvo, a paz geradora da espiral turbilhonante. “Brilliant Trees” (com Holger Czukay e Jon Hassell), “Gone to Earth” (duplo, com Robert Fripp e Bill Nelson), “Secrets of the Beehive”, o video “Steel Cathedrals” – exercícios contemplativos próximos dos de Brian Eno, sons pairando sobre o bulício do mundo, evoluindo noutras esferas. Infinitas. Transmutando a matéria bruta em diamante. Como faz o alquimista. “Alchemy – An Index of Possibilites”. Do Oriente uterino à espada ocidental.

            Canal 1, às 14h50

13/01/2015

Uma ampola de tudo, uma mão cheia de nada [David Sylvian]



Y 21|SETEMBRO|2001
música|david sylvian

Uma ampola de tudo, uma mão cheia de nada

David Sylvian dá a cara ao paradoxo. Esteta ou “estreta”, pop ou ambiental, pintor do artifício ou designer da simplicidade, artista do vazio ou apaziguador do caos, é possível escutar na sua música o zumbido de algo que não tem fundo. O silêncio pode ser tudo e não conter nada. Vem a Portugal abrir a digressão.

David Sylvian é, como se costuma dizer, um esteta. Um esteta é alguém que contempla o mundo através das suas formas. Existem dois tipos de estetas. Um dá sentido ao termo aristotélico e considera a forma aquilo que faz cada coisa ser exatamente aquilo que é e a distingue de todas as outras. Existência plena. O outro não consegue vislumbrar além da casca das coisas, deleitando-se com a sua aparência. É o esteta-decorador ou esteta da treta, vulgo “estreta”.
            O estetoscópio (salvo seja) de David Sylvian, oscila entre o esquema aristotélico e o papel de parede. Além de que Sylvian é o que se chama um tipo politicamente correto. E um verdadeiro neo-renascentista.
            Pinta, fotografa, cuida dos filhos, adora a mulher, Ingrid Chavez, ex-protegida de Prince (o teclado da Macintosh não dá para escrever o símbolo…), que também pinta e escreve e até dá uma ajudinha, cantando de vez em quando nos concertos e nos discos do marido, interessa-se pelo zen e outras matérias esotéricas, é amigo de Ryuichi Sakamoto (outro esteta, os estetas dão-se bem uns com os outros) e, claro, toca e canta.
            Recentemente, o ex-Japan arranjou mesmo tempo extra para tocar ao vivo. Ao ponto de se abalançar numa nova digressão que se inicia em Portugal. Já na próxima segunda-feira, em Lisboa, prosseguindo no dia seguinte, no Porto. O resto da Europa e o Japão vão ter que esperar.
            Além da “tournée”, os aficionados de Sylvian têm ainda à disposição a coletânea relativamente recente, “Everything and Nothing”, e a versão remasterizada e remisturada de “Damage”, gravado ao vivo em 1993, de parceria com o guitarrista dos King Crimson, Robert Fripp. Em 2002 estará disponível uma coletânea de temas instrumentais.
            “Everything and Nothing” serviu igualmente de genérico à presente digressão, o que significa que a maioria dos temas que David Sylvian irá interpretar faz parte dela. Na Internet ferve-se de impaciência e fazem-se votações com toda a gente a acotovelar-se na tentativa de pressionar o músico para cantar as canções favoritas de cada um. Segundo as últimas estatísticas, “Ride” lidera com 423 votos, seguido de “Some kind of fool”, “The scent of magnolia”, “Cover me with flowers” e “Orpheus”. Quanto a álbuns, é curioso, “Brilliant Trees”, álbum de estreia de 1984, vai à frente, seguindo-se “Secrets of the Beehive” e “The first day”.
            Em palco, para acompanhar David Sylvian neste “Tudo ou nada” ao vivo, vão estar o irmão Steve Jansen, antigo companheiro seu nos Japan, na bateria, Matt Cooper, nos teclados, Tim Young, na guitarra, e Keith Lowe, no baixo.

Japão com estilo. Mas recordemos a história deste esteta, ou estreta, ou simplesmente um tipo que ganha a vida a fazer música com estilo e elegância.
            David Sylvian nasceu há 43 anos em Stone Park, Beckenham, Kent, iniciando-se nas lides musicais (expressão jornalística idiota bastante vulgarizada) como letrista, compositor e vocalista dos Japan. A década de 80 arrancava sob o manto de vergonha provocada pelo punk e era “in” ser “arty”, “poppy” e “stylish”. Os Japan eram tudo isto – uma mistura de eletropop, romantismo, filosofia oriental e, em jeito de cobertura de creme, a voz amaneirada de Sylvian. “Tin Drum”, álbum de 1981 dos Japan, continha a canção “Ghosts”, ilustrativa da face mais ambiental e misteriosa do grupo e uma das suas melhores de sempre.
            Ryuichi Sakamoto, que trocara a veia pós-Kraftwerk dos Yellow Magic Orchestra pelos fatos Versace, foi sensível à beleza dos fantasmas. O japonês convidou o músico dos Japan para dar voz a “Forbidden colours”, uma das canções da banda sonora de “Merry Christmas Mr. Lawrence”, cuja pauta era assinada pelo próprio Sakamoto. O público adorou e ofereceu a Mr. Sylvian o seu primeiro grande sucesso internacional.
            Mas o melhor estava para vir. No ano seguinte, ainda fresco das “charts”, surge “Brilliant Trees”. Gravado em Berlim, aconteceu-lhe o que geralmente acontece quando um artista vai gravar a Berlim (como fez Bowie em “Low” e “Heroes”) – chega a ser brilhante. Também na admira, com uma lista de convidados de calibre que incluía os trompetistas Jon Hassell, Kenny Wheeler e Mark Isham, o ideólogo dos Can, Holger Czukay, o contrabaixista pau-para-toda-a-obra, Danny Thompson, o inseparável par dos Japan, Steve Jansen e Richard Barbieri e, previsivelmente, Ryuichi Sakamoto. “Brilliant Trees” é pop ambiental com textura de veludo, delicada filigrana de palavras polvilhada por sons e cores multiétnicos.
            Já artista completo e diplomado, Sylvian transita do microfone para a fotografia em Polaroid, publicando um livro, “Perspectives”, com montagens e bonecos. Segue-se um vídeo e as primeiras colaborações extra-Sakamoto. Em trio com Robert Fripp e Kenny Wheeler, grava o EP “Steel Cathedrals”, que inclui o instrumental “Words with the shaman”, com Jon Hassell na trompete. O shaman poderia bem ser Robert Fripp, o guitarrista discípulo de Lúcifer.

Elogio da preguiça. À medida que ganha confiança, David Sylvian vai prolongando a duração dos temas. Mas o que, num ambientalista de génio como Brian Eno, se aceita como emanação de uma zona tão inóspita como luminosa do espírito, em David Sylvian aparenta mais o colorido de um rebuçado enjoativo que leva eternidades a derreter. “Gone to Earth”, de novo com Fripp, e contando com a presença de um segundo guitarrista, Bill Nelson, outro “artista”, com selo de origem nos Red Noise, estende-se preguiçosamente por dois álbuns. “Ambient” soporífera ferida pelas “frippertronics” do “Rei Carmesim”. “Secrets of the Beehive”, de 1987, mexe-se um bocadinho mais e contém “Forbidden colours”, uma das mais expressivas canções dos Japan.
O convívio com Holger Czukay deixara, entretanto, as suas marcas e, de Berlim para Colónia, Sylvian dá o braço ao homem dos Can para com ele fazer os sintetizadores ressonar no par “Plight & Premonition” (1988) e “Flux & Mutability”. Ambos preenchidos por instrumentais looooooooongos que almejavam, em vão, aflorar as zonas sagradas do silêncio que Czukay lograra registar, duas décadas antes, em “Cannaxis”.
1989 é o ano da caixa “Weatherbox”, com “design” do já desaparecido Russell Mills, outro esteta, que costumava trabalhar com Brian Eno. Com os seus antigos companheiros dos Japan enceta o projeto Rain Tree Crow o qual, em comparação com os bocejos anteriores, é um toque de despertador. “Ambient” elegante, recupera algum do mistério perdido pelos Japan. Michael Brook, parceiro habitual de Brian Eno, é um dos participantes. Curiosamente Eno e Sylvian nunca chegaram a trabalhar juntos…

O silêncio, tão próximo… Seguem-se novas e antigas colaborações. Ingrid Chavez, Bill Frisell, Robert Fripp, Sakamoto, Trey Gunn (outro King Crimson, de uma formação mais tardia). Sylvian aproveita para casar com Ingrid e gravar um novo álbum com Fripp, “The First Day”. O que poderia ter acontecido se tivesse sucedido o inverso, jamais o saberemos.
“The First Day” é mais Fripp que Sylvian, daí o seu ar de ameaça. Mas Sylvian encaixa bem com o homenzinho de estatura pequena mas cérebro descomunal que é Robert Fripp. Um adequado “nervous breakdown” tornou-o digno de emparceirar com o autor de “21st century schizoid man”… O zen ajudou a harmonizar a sua vida.
Já nos anos 90, Sylvian lança “Damage”, ao vivo, com Fripp, e mais dois álbuns a solo, “Dead Bees on a Cake” e “Approaching Silence”. O título deste último diz tudo. A música ambiental desliza sombria, provocando no ouvinte, consoante a sua disposição, o sono ou a meditação.
Tudo esta calmo agora. David Sylvian vive em Nova Inglaterra com a mulher, as duas filhas, o enteado e o I-Ching. Cessou contrato com a Virgin e está a transformar a sua casa em estúdio privado. Tudo está bem quando acaba bem. É muito? É pouco! A resposta pode ser dada estalando uma ampola de haiku (poema zen de três versos, contendo um paradoxo logico tendente a provocar o “satori”, a iluminação instantânea): “Everything and nothing”. Tudo e nada.

12/02/2011

O poder do silêncio [David Sylvian]

Sons

1 de Outubro 1999

O poder do silêncio

Depois de um álbum de canções, “Dead Bees on a Cake”, David Sylvian retoma em “Approaching Silence”, o formato experimental/ambiental que encetara em anteriores colaborações com Holger Czukay e Robert Fripp. Temas com mais de meia hora que reflectem um autor trespassado pela espiritualidade, a influência das doutrinas Zen e a vida das abelhas.

Ouvem-se como num sonho, as duas longas sequências instrumentais criadas pelo antigo vocalista dos Japan para o seu mais recente trabalho a solo, “Approaching Silence”, continuação de experiências anteriores levadas a cabo com Holger Czukay, “Plight and Premonition” e “Flux + Mutability”, e com Robert Fripp, em “The First Day” e “Damage”. Como confessou ao PÚBLICO, Sylvian leva a sua vida espiritual muito a sério. Ou nem por isso, ao admitir, a brincar, que poderia estar a caminho da loucura.
PÚBLICO – Depois de “The Secretes of the Beehive” e “Dead Bees on a Cake”, chamou ao primeiro tema do novo álbum, “The beekeeper’s apprentice”. Porquê esta insistência nas abelhas?
DAVID SYLVIAN – Tem sido um tema recorrente, é verdade, mas o seu significado não é sempre o mesmo. Em “The Secrets of the Beehive”, as abelhas eram uma metáfora sobre a comunidade da vida moderna, de uma certa forma de viver. A seguir apareceu “The beekeeper’s apprentice” editado pela primeira vez em “Ember Glance”, de 1991, numa edição limitada. Mas não se trata de um desenvolvimento consciente. “Dead Bees on a Cake” foi um título que me surgiu já no período de gravações. Ainda pensei em alterá-lo, precisamente para evitar as associações que as pessoas iriam fazer, mas acabei por não o fazer. As abelhas não são más de todo…
P. – “Approaching Silence” é o desenvolvimento lógico dos dois álbuns que gravou antes com Holger Czukay? Li que este músico desempenhou um papel importante na sua carreira…
R. – De certa forma, sim. Em 1984, fiz a banda sonora de “Steel Cathedrals”, a primeira vez que abri a minha escrita a métodos de improvisação. Isso levou-me a Holger Czukay, que já trabalhava nesta área de uma forma muito fluente desde o tempo dos Can. Abriu-me os olhos para todo um mundo novo de possibilidades. Usei esses mesmos métodos com os Rain Tree Crow. É o meu método de trabalho favorito.
P. – Referiu-se, a propósito de “Dead Bees on a Cake”, a uma “intoxicação divina”. Pode ser mais específico?
R. – É a experiência do divino, quando se mergulha no divino e se fica intoxicado por esse estado de bem-aventurança, de comunhão. Intoxicação, porque se fica inteiramente subjugado por ele, à deriva, sem hipóteses de resistência, quando somos atingidos pela iluminação.
P. – Deduzo que teve essa iluminação. Em que circunstâncias?
R. – Sim, penso que sim. Andei na companhia de vários mestres, os chamados “santos” ou avatares e experimentei com eles vários desses níveis de felicidade intoxicante. Não há palavras para a descrever. Digamos que é um amor que inunda tudo.
P. – É possível atingir esse estado com o recurso a drogas?
R. – Não, a droga, ou algumas drogas, apenas proporcionam uma imitação dessa experiência. O que, em certos casos, poderá levar ao seu consumo é um conhecimento inconsciente do êxtase e um desejo de o atingir. O problema com as drogas é que põem a pessoa fora de si, não levam verdadeiramente a um nível superior e não há qualquer espécie de controle. É preciso disciplina, ter consciência dos passos que conduzem a esse estado de abertura e, na medida do possível, fazê-lo permanecer.
P. – Os termos “disciplina” e “controle” remetem de imediato para as teorias de Robert Fripp que, precisamente, toca “frippertronics” no tema que dá título ao álbum.
R. – Robert seguiu o caminho da disciplina, tanto enquanto músico como na sua vida particular, em termos de despertar espiritual. Sem disciplina não se chega ao grau seguinte de desenvolvimento.
P. – Mas, no caso de Robert Fripp, ele seguiu as teorias de Gurdjieff e do seu discípulo J. G. Bennet. Perfilha as mesmas teorias?
R. – Há uma multiplicidade de vias, o que é necessário é sentir uma forma de empatia, paixão, entusiasmo. Gurdjieff diz muito e é útil a muitas pessoas, mas, em última análise, acabei por seguir um caminho diferente, mais de acordo com o meu temperamento.
P. – É verdade que a sua mulher, Ingrid Chavez, desempenhou também um papel em todo esse processo?
R. – Sim, sobretudo em “Dead Bees on a Cake”. É-me impossível separar a vida do trabalho. Começámos a compor juntos quando me mudei para os Estados Unidos. Escrevi nessa altura algum material para ela, mas na área do rhythm ‘n’ blues, o que se viria a reflectir no meu próprio álbum.
P. – É ela que no CD-ROM de promoção a esse álbum fala da necessidade do “eu se diluir no objecto do seu desejo” e “na verdadeira natureza do eu”. Um budista zen não poderia dizer melhor…
R. – Sem dúvida que o zen foi importante para a minha aprendizagem. Passei um longo período no Japão, a estudá-lo, embora sem um mestre físico. Na realidade, os meus principais mestres são hindus. Há uma verdade comum ao budismo e ao hinduísmo, essa tal necessidade de dissolução do eu no objecto do seu desejo.
P. – Os dois temas principais de “Approaching Silence” são muito longos, 32 e 38 minutos, respectivamente. A duração é um factor importante neste género de trabalhos?
R. – Em essência, sim. Mas neste caso particular há razões concretas: ambas as peças já tinham sido usadas numa instalação, “Redemption”, o que significa que eram ainda mais longas… Havia um lado visual e a música, que procurava facilitar às pessoas sentirem-se confortáveis naquele espaço, acalmarem-se, respirarem profundamente. Mas eu próprio, enquanto ouvinte, continuei a encontrar nesta música todas essas qualidades, mesmo sem o suporte visual. A arte em geral deverá ter esta função. A poesia tem sobre mim o mesmo efeito: ajuda-me a concentrar-me. Mas a música é mais poderosa. Peças deste tipo oferecem ao ouvinte uma enorme quantidade de tempo para ele se perder nelas e em si próprio. E a possibilidade de porem questões importantes, que, de outra forma, não seriam capazes de pôr.
P. – Chamaria à sua música “ambiental”?
R. – Não lhe chamo nada, mas é evidente que sofreu a influência da música ambiental, mas também de John Cage ou de Satie.
P. – De quem são as vozes sampladas que se ouvem na curta peça intercalar do disco, “Epiphany”?
R. – Do pintor Anselm Kiefer a recitar um texto de Krishnamurti, e do poeta Seamus Heaney.
P. – Quem ou o que é o “Godman”, título de uma das canções de “Dead Bees on a Cake”?
R. – Diz respeito ao potencial do ser humano e ao facto de, em geral, não sermos capazes de ver esse potencial. Se conseguíssemos ver quem somos de facto, agiríamos de forma muito diferente.
P. – Acredita no poder?
R. – Sim, há um poder que nos une a todos. Há um lado desse poder com aspectos negativos que tem a ver com o ego. O ego corrompe o verdadeiro poder. Rendemo-nos ao poder. De início sentimo-nos alheios, estranhos. Mas, se nos abrirmos à devoção, ao poder do amor, em última análise, sentimos a não separação entre nós próprios e o tal objecto da nossa veneração. Mas, para começar, é preciso limpar o ego e não estilhaçá-lo. Por isso, a fase inicial passa por uma rendição ao eu. É um processo complicado…
P. – Discos como “No Pussyfootin’” e “Evening Star”, de Robert Fripp com Brian Eno, reflectem esse poder de uma forma cuja audição pode ser penosa…
R. – Tinha 13 anos nessa altura e lembro-me de também ter respondido de forma muito negativa a esses dois álbuns.
P. – No final do tema “An index of metals” ouve-se o som, quase subliminar, de sinos. Som que, diz-se, prenuncia a loucura. “Approaching Silence” está cheio de sinos…
R. – Talvez eu esteja no trilho para a loucura. [Risos.]

David Sylvian - Approaching Silence

Sons

1 de Outubro 1999

David Sylvian
Approaching Silence (7)
Virgin, distri. EMI - VC


Sombras, reflexos, visões de ópio, o Oriente distante a ressoar no lado escuro da mente. A música de David Sylvian nunca foi propriamente um bom exemplo de mensagens adaptáveis aos três minutos e picos dispensados pelo formato canção. Mesmo nos Japan – cuja pop electrónica marcada pelo exotismo afastou este grupo da conduta principal por onde escorria o então designado tecnopop – David Sylvian cultivou sempre a imagem de “autor”, um pouco blasé, que acompanha à distância as correntes da moda, mais por imperativo da profissão do que por verdadeiras motivações interiores. “Ghosts”, um dos temas mais conseguidos dos Japan, é um bom exemplo desta estratégia de desfocagem que, de resto, se estende ao próprio registo vocal do cantor. “Brilliant Trees”, com que estreou a solo, é justamente considerado o zénite do que poderíamos designar por Pop ambiental, um álbum onde as presenças de Jon Hassell e Holger Czukay empurraram em definitivo Sylvian para territórios que aprofundaria no par de álbuns que gravou de parceria com o baixista dos Can, “Plight and Premonition” e “Flux + Mutability” e com Robert Fripp, “The First Day” e “Damage”. “Approaching Silence” representa a extensão lógica desta vertente que o ex-Japan assume como improvisacional (ver entrevista), em duas longas paisagens instrumentais, “The beekeeper’s apprentice” e “Approaching silence” dominadas por drones de “guitarras infinitas”, cristalizações de gongos e sinos e sintetizadores em suspensão. No título-tema ressalta o lado xamanístico das “frippertronics” de Robert Fripp. Pelo meio, o interlúdio de vozes sampladas, “Epiphany”, constitui o pretexto para Sylvian explanar simbolicamente alguns dos princípios espirituais que desde longa data norteiam o seu trabalho. Um espaço aberto ao fim que se quiser.

29/06/2008

David Sylvian & Robert Fripp - Damage

Pop Rock

28 de Setembro de 1994
ÁLBUNS POP ROCK

DAVID SYLVIAN & ROBERT FRIPP
Damage
Virgin, distri. EMI-VC

Sylvian teria dado um bom vocalista dos King Crimson, como alternativa a Greg Lake ou Boz (em “Lizard”). Mas pronto, já que não pôde ser, ficou-se pela parceria com Fripp, iniciada em “Gone to Earth” e oficializada em “The First Day”. “Damage” é uma gravação ao vivo efectuada em Itália em Dezembro do ano passado e misturada nos estúdios Real World, o que, numa música que não se compadece com palmas nem quaisquer outros ruídos susceptíveis de desviarem a atenção, é um ponto em desfavor. Abstraindo-nos destes aspectos extramusicais, ressalta um som pausado, de respirações amplas, onde a voz toda ela ornamentações (embora menos que nos Japan) de Sylvian se harmoniza com a virilidade da guitarra de Fripp. O primeiro contribui com o lado “canção” do disco, conferindo-lhe o necessário grau de acessibilidade, enquanto o segundo faz o que lhe dá na gana, arrancando da guitarra, no desenvolvimento intermédio dos temas, ora as torrentes de energia que caracterizavam o seu estilo nos King Crimson, ora complexos fraseados na linha do que fazia nas duas ligas que fundou, os “gentishomens” e os “guitarristas dotados”.
O prazer maior resultante da audição de “Damage” está no tratado de guitarra que Fripp nos oferece, ainda para mais neste disco coadjuvado pela “guitarra infinita” de Michael Brook. Sylvian é a imagem, o rosto, a voz que aparentemente dita a direcção mas na realidade é comandada pelas vagas de fundo da guitarra. Dito isto, não se trata de um disco do arco-da-velha, capaz de nos fazer abrir a boca de espanto, mas sim, e apenas isso, um trabalho competente de dois profissionais que sabem o que querem e manejam com mestria os respectivos instrumentos. O ex-Japan brilha com mais fulgor nos dois temas da sua autoria, “Wave” e “Riverman”, bem como num da sua antiga banda, “Every colour you are”. Quanto a Fripp, coloca a sua assinatura nos restantes temas, bastando para tal a marca incandescente da sua guitarra.
Música para o cérebro e para os sentidos, onde o vermelho dos corações se confunde com as pétalas de uma rosa, “Damage” não ultrapassa os anteriores trabalhos em estúdio da dupla mas é suficiente para manter vivo o interesse pelo seu futuro. A presente edição está limitada a 50 000 exemplares no mercado internacional e a 1000 em Portugal. (7)