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11/03/2020

Tom Zé deu espetáculo total em Sines


CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 2 AGO 2004

Tom Zé deu espetáculo total em Sines

Muito boa música passou pelo sempre esgotado Festival Músicas do Mundo de Sines, que terminou sábado à noite. Mas nenhuma inquietou tanto como a “performance” de Tom Zé. Veio de outro planeta e trouxe consigo uma visão

Tom Zé aterrou no Festival Músicas do Mundo de Sines, sexta-feira à noite, numa “Nave-Maria” de outro planeta, cósmico e baiano, com a sua leitura astral do tropicalismo. “Astronauta libertado/Minha vida me ultrapassa/Em qualquer rota que eu faça”. O brasileiro pesa cada palavra, improvisa frases antes e no meio das canções. E a música brota espontânea, como que por magia, dessas palavras que parecem soltar-se como as folhas de uma árvore. Foi o melhor concerto do festival, que terminou anteontem.
            Um naco do hino americano anunciou “Companheiro Bush”, viagem ao Iraque montado numa bomba de gramática. A faceta interventiva prosseguiu com “Urgente, pela paz”. É “rap”, é conversa, é canção, e Tom Zé foi o cantor-professor-pregador. As músicas misturavam-se, o baiano parecia perder-se, mas percebeu-se que a cada segundo sabe bem onde está e que terrenos pisa. O público entregou-se. Todo o concerto foi construído como uma história contada a primor. Paz e amor. Houve rock pesado, canções leves (e os dois juntos em “Ogodô, ano 2000”) e as letras sempre a dançarem, ora setas, ora lanças, ora lágrimas, ora corações. Pura e simplesmente, Tom Zé cantou o mundo. É isto a música do mundo, a tal “world music”? “Vamos nós ensaiar sozinhos, sem a banda, joga fora a banda!” Querem maior proximidade com o mundo do que esta? Mesmo quando, num golpe de mestre, se autopromove como produto de consumo, mostrando ao público vários discos, num “jingle” de venda do “Tom Zé que vai fazer todos felizes”. É assim o “one-man-show”: Tom Zé a simular um falo com o cinto, a autoflagelar-se como “artista de rock”, a rasgar o casaco, a vestir-se de operário e a fazer, literalmente, luz com uma lixa de amolador, a criar ritmos com marteladas no capacete, a comer um jornal... O grande paradoxo é que se estão presentes na música de Tom Zé todas as músicas, a música, só, não chega para Tom Zé. E, no entanto, tudo foi música.

Entre o frio e o “free”
A abertura da noite coubera a uma Savina Yannatou paradoxal. A grega pertence a uma estirpe de cantoras, como Fátima Miranda, que consegue criar em todos os registos da voz – do grito ao murmúrio –, mas em Sines faltou a centelha da paixão, sobrando a inteligência e uma vertente quase clínica. O périplo pelas músicas do Mediterrâneo, da Andaluzia à Turquia, passando por Itália, Macedónia, Bulgária e, claro, Grécia, que constituiu o seu reportório assumiu, por outro lado, uma componente de risco inusitada, com Savina a fazer valer a sua experiência nos campos da música erudita e do jazz. O problema desta atuação talvez demasiado fria esteve também no maior protagonismo do grupo que a acompanhou, Primavera en Salonica, também ele estendendo a margem de risco, com um desempenho que chegou a raiar a música contemporânea, plena de dissonâncias e intervenções instrumentais pouco usuais em festivais deste tipo. Mas para isto exigia-se um som pristino e tal não aconteceu, antes estava demasiado alto e metálico para o grupo e demasiado baixo para a cantora, cuja voz, por mais de uma vez, se diluiu no “ensemble”. O “encore” arrancado a ferros não chegou para aquecer os ânimos, mas nem tudo pode ser altas temperaturas, em festivais com as características do Músicas do Mundo.
            Ninguém se queixou de frio com o que veio a seguir. Jazz funk crioulo pelo mais recente projeto de David Murray, um “apaixonado por Sines”, como lhe chamou o apresentador. O Creole Project vive da rítmica dos tambores “ka” de Guadalupe e do intercâmbio de tenores entre Murray e o convidado histórico Pharoah Sanders. Murray com o seu jogo de dinâmicas e contrastes extremos, Sanders mais depurado e menos anguloso. Presos ao funk da secção rítmica, por vezes a lembrar o afro beat de Fela Kuti, libertaram-se nos solos e nos diálogos sem acompanhamento instrumental, resvalando com facilidade para o “free”. Folclórica, no sentido mais colorido do termo, a música casou com harmonia jazz e “world”, ritmos abrasivos e as cascatas tórridas dos dois saxofones. Calor sem esplendor. Mas choveram brasas quando Murray se pôs a improvisar sobre uma espécie de “doo wop” vocal obsessivo dos dois tocadores de tambores “ka” guadalupenhos, culminando, a fechar, numa desbunda coletiva alucinante.
            A abrir a noite de sábado, o Septeto de Roberto Rodriguez proporcionou um festim de cores e “swing”. Fusão excelente de ritmos de “guahira” cubana e sonoridades “klezmer”. Se os Penguin Café Orchestra fossem mais sérios e tocassem melhor fariam algo assim. O septeto levou grande música, sem concessões, desembrulhando temas dos álbuns “El Danzon de Moisés” e “Baila Gitano Baila”. O “encore”, com Rodriguez a solar na bateria numa orgia de ritmo, foi bombástico.
            Rokia Traoré veio do Mali para semear a hipnose. Apoiada nos sons do n’goni e do balafone, a cantora estendeu um delicado véu de melodias ondulantes e ritmos que ocasionalmente fizeram lembrar esse outro mestre da hipnose do Mali que é Ali Farka Touré. Com maior ou menor grau de pureza, não importa, é a tradição dos “griots” que nos assombra, nesta música que recria os infinitos cambiantes e padrões de uma tapeçaria de sonhos. Rokia passou por Sines como uma fada de voz dançarina.
            E tudo terminou com o afro-beat de Femi Kuti. Artilharia pesada a despedaçar as últimas resistências ao ritmo. Sob o fogo-de-artifício e o brilho da lua cheia, o castelo veio abaixo. Já se sabia e Femi confirmou-o: o seu grupo é uma formidável máquina de ritmo. O astro mais brilhante, esse já partira na véspera para a sua galáxia. Chama-se Tom Zé e foi a maior estrela a luzir no Músicas do Mundo de Sines.

Programa de luxo nos três dias do festival de Sines


CULTURA
QUINTA-FEIRA, 29 JUL 2004

Programa de luxo nos três dias do festival de Sines

Música de todas as cores e para todos os gostos no programa deste ano do Festival Músicas no Mundo

O Festival Músicas do Mundo de Sines deste ano privilegia a diversidade sem cair no populismo. O mesmo é dizer que o programa é de luxo. Ronda dos Quatro Caminhos, Warsaw Village Band, Savina Yannatou, David Murray com Pharoah Sanders, Tom Zé, Septeto Roberto Rodriguez, Rokia Traoré, Femi Kuti. Nomes acima de qualquer suspeita dão garantias de qualidade e pluralidade de estilos. Hoje, amanhã e sábado, como sempre com um cenário condigno, no interior das ameias do castelo, com entrada gratuita e início às 21h30.
            Tudo começará esta noite com a grandiosidade que a junção do “cante” alentejano com uma orquestra proporciona. “Terra de Abrigo” é a proposta ambiciosa que a Ronda dos Quatro Caminhos leva a Sines, um trabalho de fusão que fará subir ao palco do festival os grupos corais alentejanos de Moura, Campo Maior, Évora, Serpa, Baleizão e Aldeia Nova de São Bento e a Sinfonietta de Lisboa, orquestra de 30 elementos com direção de Vasco Pearce de Azevedo.
            Na senda dos suecos Hedningarna, os polacos Warsaw Village Band cultivam a dissidência e a mestiçagem entre as linguagens tradicionais e elementos da pop e da tecno. São três rapazes e três raparigas que um dia se meteram à aventura de descobrir as raízes seguindo por um caminho proibido. Na Mazóvia, coração do país, encontraram o que buscavam, canções de casamento, canções de protesto, baladas de amor. A tradução para os tempos modernos é que se faz de modo alternativo, mesmo que em palco vão estar instrumentos tradicionais como a “Suka” ou que o grupo utilize uma forma peculiar de canto chamada “canto branco”. A finalidade, porém, não é a exibição das peças de um museu mas conseguir provocar no ouvinte, com o recurso a instrumentação acústica, o mesmo tipo de hipnose provocada pela música eletrónica de dança. Já chamaram “biotecno” a este estilo, que pode ser apreciado no álbum “People’s Spring”.

Uma voz cativante
Savina Yannatou vem da Grécia para nos levar para o Olimpo. Quem já a ouviu e viu cantar ao vivo em Portugal há-de sentir de novo um arrepio na espinha, de tal forma o seu canto é arrebatador. A pose hierática de onde se eleva uma voz absolutamente cativante, juntamente com a sua fotogenia, criam a imagem de uma deusa. Savina, autora de álbuns como “Mediterrânea”, “Virgin Maries of the World” e “Terra Nostra”, virá acompanhada do grupo Primavera em Salónica. O canto de Savina é o canto da sereia. Em Sines serão estreados temas do próximo disco.
            David Murray vem ao festival de Sines pela terceira vez. Desta feita na companhia de Pharoah Sanders, um dos mais ilustres herdeiros de Coltrane, para apresentar o “ka” de Guadalupe. Os tambores “ka” suportarão o canto em crioulo e o som quente dos dois saxofones. Tanto Murray como Sanders nunca se afastaram muito das raízes africanas e de uma postura equidistante do jazz e da “world music”. Murray dedicara-se já à música de Guadalupe nos álbuns “Creole”, “Yonn-Dé” e “Gwotet”, este último o seu mais recente trabalho.
            Tom Zé é o mais radical dos tropicalistas brasileiros. Reza a lenda que no final dos anos 80, quando o Brasil parecia tê-lo esquecido, quis voltar para trabalhar na bomba de gasolina do sobrinho. Mas mesmo que tal tivesse acontecido, Tom Zé continuaria a reinventar a sua música, construindo os seus próprios instrumentos. Nasceu na Baía e interessou-se pelo folclore local mas desde cedo aprendeu a misturá-lo com a pop e a música contemporânea. Participou, com os papas do tropicalismo, no álbum-manifesto “Tropicália ou Panis et Circensis”. Posteriormente o mercado ignora-o, acusando-o de demasiado politizado e experimental mas Tom Zé não desiste. Finalmente, em 1989, David Byrne descobre a sua música e convida-o para gravar para a sua editora, a Luaka Bop. O “Best of” que aí grava é considerado pela revista “Rolling Stone” um dos dez melhores discos da década. As suas mais recentes produções são o álbum “Jornalismo Falado” e o DVD “Jogos de Armar”.

O tigre do “afrobeat”
Quando era pequeno, o avô costumava levar Roberto Rodriguez a ver os velhos judeus a dançar ritmos cubanos na praia de Miami. Tanto bastou para que este cubano inventasse um estilo híbrido, mistura do “klezmer” judaico com as “habaneras” cubanas, a salsa-klezmer. Rodriguez, cubano de nascimento, integrou o projeto “Cubanos Postizos”, do guitarrista hebreu americano Marc Ribot, aproximando-se da chamada Radical Jewish Cultura de Nova Iorque, onde o klezmer se entrega a ligações licenciosas com o jazz e o rock. Tocou com John Zorn, outro paladino da cultura ídiche, e gravou os álbuns “Danzón de Moises”, onde combina a “guajira” espanhola com o “danzón” francês para criar uma aproximação bizarra ao tango, e o novo, intitulado “Baila Gitano Baila”, a apresentar no festival.
            Criada musicalmente num caldeirão para onde atiraram o “jazz”, a música clássica e a pop, a cantora Rokia Traoré, do Mali (país natal de Oumou Sangaré e Ali Farka Touré), é sinónimo de delicadeza, mesmo quando na sua música, por vezes minimalista, as palavras falam de temas tabu como infâncias difíceis ou os direitos da mulher africana. Editou os discos “Mouneissa”, “Wanita” e “Bowboi”, premiado pela crítica da BBC.
            “Filho de tigre tigre é”, diz um velho provérbio ioruba. Femi Kuti é filho de um tigre, Fela Kuti, criador do “afrobeat”, mescla de ritmos tradicionais africanos, “funk” e jazz de vanguarda. Femi tocou saxofone alto na banda do pai, os Egypt 80, e é nela que desenvolve o mesmo tipo de postura politicamente interventiva de Fela. Dirigiu o grupo enquanto o pai esteve preso, mas após a sua libertação e regresso à banda Femi abandona-os para formar os The Positive Force. Após a morte de Fela Kuti, em 1997, Femi Kuti prosseguiu, embora de forma mais discreta, a mesma luta, abordando temas como a sida e a corrupção. A sonoridade que caracteriza os seus discos, “Shoki Shoki” e “Fight to Win”, é igualmente herdada do pai, pelo que Sines irá vibrar, sob as luzes e o clamor do fogo-de-artifício, ao som do apelo festivo do “afrobeat”.

20/10/2016

Jazz desagua na Foz [Foz Jazz]

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 25 OUT 2002

Jazz desagua na Foz

FESTIVAL ARRANCA HOJE

Com David Murray como cabeça de cartaz, o Foz Jazz é o delfim dos festivais de jazz nacionais. Termina no próximo fim-de-semana

Foz Jazz. Assim se chama o primeiro festival de jazz realizado na Figueira Foz. O grande rio do jazz desagua na foz em dois fins-de-semana consecutivos (26, 27 e 28 deste mês e 31, 1 e 2 de Novembro). Programação boa, com um concerto único por noite.
                O quarteto de Jason Moran e Greg Osby dá hoje início ao Foz Jazz. Jason, dos pianos mais requisitados do jazz atual, tem no saxofonista Greg Osby uma espécie de irmão espiritual mais velho, sendo os seus pais espirituais, Duke Ellington, Richard "Muhal" Abrams e Andrew Hill. Free jazz e jazz escrito combinam-se na sua música. Osby tocou com Jon Faddis, Lester Young, David Murray. Com Jack DeJohnette, passa a fazer parte dos Special Edition. Gravou, entre outros, com Steve Coleman, Andrew Hill, Robin Eubanks e Cassandra Wilson e é um dos fundadores do movimento M-Base (Macro Basic Array of Structured Extemporization). Completam o quarteto Tarus Mateen (contrabaixo) e Nasheet Waits (bateria).
                Outro quarteto, liderado pelo saxofonista David Biney, atua amanhã. Eclético, moldou o jazz que faz na audição de Coltrane, Miles Davis, Bobby Hutcherson e Wayne Shorter, mas também de Hendrix, Sly Stone e Milton Nascimento. Formou os Lost Tribe e Lan Xang e a sua atividade tem alicerces fundos no jazz "downtown" de Nova Iorque, graças ao seu trabalho com Bobby Previte ou na coabitação com o jazz "lounge" mais "tudo o que a cidade tiver para oferecer", de Medeski, Martin & Wood. Integrou as orquestras de Gil Evans e de Maria Schneider. Tocou com Uri Caine e Cecil McBee. O seu jazz vai a todas, portanto. Mas, como segurança, fundou a sua própria editora – a Mythology.
                O primeiro fim-de-semana fecha no domingo, dia 27, com o Ensemble português, composto por dez elementos, do pianista Carlos Azevedo, que no "Jazz Foz" fará a estreia mundial da suite "Nogales-Cuernavaca: Uma Vida", dedicada a Charles Mingus, na celebração do 80º aniversário do seu nascimento.
                Ainda um quarteto, desta feita sob a liderança do baterista Al Foster, abre o segundo ciclo de concertos do "Jazz Foz" (dia 31). Miles Davis escolheu-o nos anos 70 para substituir Jack DeJohnette porque, dizia, "tinha um swing, um bom gosto e um sentido de oportunidade palpáveis". Compreende-se. Foster estudou por Max Roach e tocou com alguns dos monstros do jazz – Sonny Rollins, McCoy Tyner, Ron Carter, Joe Henderson, Cannonbal Adderley, Freddie Hubbard, Herbie Hancock... – até regressar de novo a Miles, que acompanhou praticamente até à morte do trompetista, em 1991.
                Na sexta, dia 1, é a vez do Abraham Burton - Steve Davis Quintet. Burton, saxofonista tenor, herdeiro de Parker, Lester Young, Coleman Hawkins e Coltrane, gravou para a Enja discos como "Closest to the Sun", "The Magician" e "Cause and Effect". Davis, considerado um dos "mais interessantes e imaginativos trombonistas da sua geração" pela revista "Down Beat", é versátil ao ponto de repartir a sua atividade por gente como Jackie McLean, Lionel Hampton, Woody Herman, Elvin Jones, os Jazz Messengers de Art Blakey e Chick Corea, juntando igualmente esforços às "big bands" New Jazz Composers Octet, Dizzy Gillespie Alumini All Stars Big Band, Carnegie Hall Big Band e World of Trombones. Orrin Evans, da escuderia Palmetto, é o pianista de serviço.
                O Foz Jazz fecha, Domingo, dia 2, com uma estrela, das que mais vezes tem brilhado nos palcos nacionais: David Murray, um dos maiores saxofonistas e improvisadores da atualidade, que virá acompanhado por Lafayette Gildchrist (piano), Jaribu Shahid (contrabaixo) e Hamid Drake (bateria). Formado na convivência de faróis do "free jazz", como Cecil Taylor, Anthony Braxton, Sunny Murray, Don Cherry ou Lester Bowie, David Murray é uma das mais poderosas e imaginativas vozes solistas da atualidade, quer integrado no World Saxophone Quartet, com Julius Hemphill, outro dos grandes saxofonistas contemporâneos, quer na sua extensa e diversificada discografia que tem gravada em nome próprio. O seu grito, solto das profundezas do "free", nunca se confunde com o caos, revelando antes uma forma exacerbada de lirismo. Porque, convém também referi-lo, além de instigador de combates, David Murray é um notável intérprete de baladas. Dos vivos, provavelmente o melhor.

Jason Moran-Greg Osby Quartet
FIGUEIRA DA FOZ Auditório do Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz.
Hoje, às 21h30. Tel. 233407200.
Bilhetes a 15 euros (simples) e 60 euros (assinatura p/os seis concertos).

18/10/2016

Festival de Sines a roçar a perfeição

CULTURA
DOMINGO, 28 JULHO 2002

Festival de Sines a roçar a perfeição

Cristina Branco, Hedningarna e David Murray foram os primeiros trunfos do 4º Músicas do Mundo que este fim-de-semana decorreu em Sines.
World music soletrada com as letras da diferença

Fenomenal. Atingido o quarto ano de vida, o festival Músicas do Mundo (FMM) de Sines atingiu um nível qualitativo de se lhe tirar o chapéu. Dom som e das luzes à qualidade da música e ao ambiente que se respira dentro e fora do castelo onde os concertos têm lugar, tudo tem funcionado a roçar a perfeição. Cristina Branco e Hedningarna (no dia de abertura, quinta-feira), David Murray Big Band e Los de Abajo (sexta-feira) rubricaram atuações memoráveis, qualquer delas representativa de um conceito de world music que não se esgota na prática de fórmulas ortodoxas.
                Há quem se irrite ao ver entrar e sair sons politicamente incorretos pela porta de emergência da tradição. Houve quem se irritasse e comentasse rabugento que o que Cristina Branco canta não é fado mas, que raio, “a rapariga até tem voz”. Ela esteve-se nas tintas e, simplesmente, cantou, mais solta e sensual do que alguma vez a vimos e ouvimos em palco. Numa entrega à noite, à luz e às notas de guitarra que Custódio Castelo lhe ia lançando em dádiva e desafio.
                A fadista, perdão, a cantora não receou tocar na memória de Amália, navegando nos “Barcos negros” da saudade, como não hesitou em timbrar a voz na música popular ou no pós-fado-canção marcado pelo mesmo registo de nobreza melódica que João Braga introduziu na música de Lisboa. “Corpo iluminado” e “O descobridor” deram o mote, mas também já as melodias do próximo álbum, “Nu”, que será sobre poesia erótica. Custódio Castelo liderou o grupo de guitarras numa sequência instrumental que revisitou Paredes e iludiu a redundância, aglutinando, colorindo e trocando as certezas ao flamenco, à música árabe, às escalas chinesas e ao… fado. Castelo poderá ser, caso queira arriscar ainda mais nas notas que tem dentro de si, um igual de Stephan Micus.
                Cristina Branco mais do que uma grande intérprete, não do fado mas do sentimento que este encerra e que de tão português é universal, mostrou estar disposta a ir ainda mais longe. Pelo caminho, que poucos ousam da transcendência.

Da folk a um Big Mac latino
Mas a noite tinha reservadas outras maravilhas. Bem mais violentas, por sinal. Os Hedningarna cumpriram o que deles se esperava, dando da folk com origem na Suécia a imagem de combustão de passado e futuro, em que diabos e anjos dançam de mãos dadas. Com o violinista, Magnus Stinnerbom, a fazer as vezes de “showman”, e os veteranos Anders Norudde e Hallbus Totte Mattsson a usarem o “harding fiddle”, a gaita-de-foles e a sanfona como armas de guerra, a surpresa maior veio das duas cantoras, a regressada Tellu Virkkala e Liisa Matveinen, esta última verdadeiramente endiabrada. Cantaram canções para expulsar demónios, apaparicaram o amor numa tijela de sarcasmo, oferecendo um romance escrito com as letras de uma “Pornopolka”, da mesma forma que autorizaram o silêncio quando as respetivas vozes se entrelaçaram na nudez sem proteção do canto “a capella”. Quer dizer: a máquina Hedningarna carburou a cem por cento. Resultado: quando o grupo se quis ir embora, ninguém deixou. Três encores souberam a pouco. Acontece que um avião – explicaram – esperava por eles dali a poucas horas para os levar para nova arena de combate.
                Na sexta-feira, a world music chamou-se jazz. E também neste caso, como no de Cristina Branco, a música desencadeou resistências. Entre quem, em tom de desdém, falasse em “jam session”, e a mais do que imerecida inexistência de pedido de encore, a “big band” de David Murray deu lições a quem quisesse aprender. Embora o contexto e os músicos fossem cubanos (“Havana Moods”, assim vinha anunciado no programa), o jazz, sem facilitismos, foi o grande triunfador. Sem recurso a etiquetas. A Cuba que esteve em Sines foi a de filial importante do jazz. E David Murray foi o mestre que se conhece. Pena, desta vez, e só desta, Sines não ter entrado “in the mood”: se, como diretor da orquestra, foi mais instigador e organizador de sensibilidades do que disciplinador, como solista chegou a ser exaltante. Do seu saxofone tenor – daqueles que têm dentro toda a história do jazz e ainda espaço para o que não vem escrito nos compêndios – saíram passes de sabedoria. Na memória ficará um solo absoluto, feito de arrojo, grito e oração (e alguma mágoa…) que deixou claro que o “free” não é, nunca foi, sinónimo de desordem mas a demanda de uma ordem nova. O espírito de Albert Ayler chegou a pairar no ar. Com a diferença de que Murray é uma alma “civilizada”…
                A fechar a noite de sexta-feira, o FMM abriu alas à tourada. Os mexicanos Los de Abajo não estiveram com meias medidas. Levaram tudo à frente com o seu Big Mac de salsa, reggae, cumbia e latinidades várias para dar ao pé. O público entrou no bailarico.

Festival Músicas do Mundo anima Sines por três dias

CULTURA
QUINTA-FEIRA, 25 JULHO 2002

Festival Músicas do Mundo anima Sines por três dias

HEDNINGARNA EXPLOSIVOS HOJE NO CASTELO

Pelo quarto ano consecutivo, o castelo de Sines abre as portas à “world music”. É o festival Músicas do Mundo. Com Cristina Branco, Hedningarna e David Murray. Com fogo e estrelas

Alentejo. Sines. O castelo. Lá dentro. Foi aí, em Sines, como diria o ilustre professor José Hermano Saraiva, abrindo muito os braços e olhando de frente para a câmara, que nasceram Vasco da Gama (o descobridor) e, há menos tempo, o festival Músicas do Mundo, dedicado à chamada "world music", versão não facciosa.
                Este ano, quarto de uma vida ainda curta mas já recheada de história (a primeira edição decorreu em 1998 e daí para a frente o certame rapidamente se institucionalizou no panorama dos festivais do género), o programa é, uma vez mais, de se lhe tirar o chapéu, destacando-se como cabeças-de-série os suecos Hedningarna e o saxofonista de jazz (mas sabe-se como o jazz é adaptável...) David Murray com a sua "big band". Mas todos os outros prometem: Cristina Branco, Los de Abajo, Popa Chubby, Yat-Kha, Mabulu.
                Os concertos decorrem ao ar livre, no interior das ameias do castelo e, atendendo a que as noites no Alentejo litoral costumam ser nesta altura aprazíveis, o cenário não poderia ser mais convidativo: Música, mar e estrelas. E, no encerramento, como de costume, a euforia dos sons misturados com fogo-de-artifício.
                Cristina Branco é a primeira a atuar no Músicas do Mundo. Ser ou não ser fadista é questão de somenos, que se apaga perante a evidência de uma voz e uma presença iluminados. Branco é fusão das sete cores do arco-íris. A música de Cristina Branco (e do seu marido e guitarrista Custódio Castelo) é esse espectro de luz em cuja ponta está deposto um tesouro.

Funk iconoclasta
Já as cores dos Hedningarna tendem para o vermelho vivo da iconoclastia. Quando, já vai fazer uma década, editaram o álbum "Kaksi", o mundo da música folk entrou em paroxismo e nunca mais voltou a ser o mesmo. De então para cá estes suecos que se auto-intitulam "pagãos" têm vindo a suavizar a sua fúria e a reconciliarem-se com as raízes que ajudaram a arrancar, mas a originalidade do projeto permanece intacta e são sempre de esperar surpresas vindas do casamento contranatura, mas neles tão eficaz, entre a eletricidade, sanfonas e gaitas-de-foles possessas e o gelo que queima das tradições escandinavas.
                David Murray em contexto cubano abre a porta do castelo na noite de amanhã. Murray é um notável (ou um dos "notáveis") saxofonista tenor, absolutamente esplendoroso no registo da balada, mas cuja imperiosa necessidade de gravar o faz dispersar-se entre as cinco estrelas que premeiam os marcos do jazz ("The Hill", "Deep River", "Ballads", "Special Quartet", "Body and Soul") e "blowin' sessions" tão tecnicamente irrepreensíveis quanto inconsequentes. Traz a Sines, onde já esteve o ano passado, a sua "big band" e o projeto "Havana Moods". Esperam-se mambos e boleros. O que não admira – se nos lembramos que já se rendera no passado ao ritmo do samba – nem amedronta, se nos confortarmos na certeza de que o seu saxofone tenor fala sempre mais alto.

Moçambique em Sines
A fechar sexta-feira, Los de Abajo. Mas vão acima, não abaixo. São mexicanos e não levam as convenções musicais muito a sério, como o Porto já pôde verificar num dos seus "Ritmos do Mundo". Hip-hop, rock, punk, merengues, rebeldia e cowboiada fazem o cocktail. Como na cidade do México, cabe lá tudo. Nada de subtil, mas o pé bate e a boca sorri. Gravaram um álbum para a Luaka Bop, de David Byrne. Bom sinal.
                Sábado, último dia do Músicas do Mundo, começa com Popa Chubby. A fórmula é, como a dos mexicanos, permissiva, neste nativo do Bronx com má pinta mas um amor sem limites pelos blues, o punk, o rock e o hip-hop. Já disse: "O meu objetivo final é escrever a perfeita canção de três minutos como se fosse o último encontro de Hendrix, Coltrane e Bird, com as líricas de Tom Waits." Coisa despretensiosa. Falta cumprir.
                Os Yat-Kha tocarão, mas sobretudo cantarão, como se canta em Tuva, e em mais parte nenhuma do globo – com a garganta aberta para as profundezas da alma e a capacidade de emitir dois sons em simultâneo. A terminar, vindos de Moçambique, atuam os Mabulu, nomeados para os "BBC Awards for World Music" do ano passado, finalistas do "Kora, All Africa Music Awards" e autores dos álbuns "Karimbo" e "Soul Marrabenta". A tradicional marrabenta encontra o hip-hop. Moçambique encontra Sines. Encontram-se todos com o fogo. O de artifício e o outro.

PROGRAMA
CASTELO DE SINES, ENTRADA LIVRE

HOJE
Cristina Branco 21h30
Hedningarna 23h

AMANHÃ
David Murray Big Band 21h30
Los De Abajo 23h

SÁBADO
Popa Chubby 21h15
Yat-Kha 22h45
Mabulu 24h