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04/08/2020

ECM à redescoberta dos 70's [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 6 NOVEMBRO 2004

Manfred Eicher, o produtor iluminado, criou o som ECM, para o melhor e para o pior. O relançamento, a preço especial, de uma série de 50 CD da década de 70 está aí para o/se provar.

ECM à redescoberta dos 70’s

A ECM tem estilo e uma estética própria. A ECM tem frio. A ECM tem detratores. A ECM tem uma imagem de marca. A ECM tem Manfred Eicher. A ECM tem admiradores. A ECM tem muitos discos, alguns deles não são de jazz. A ECM tem grandes discos de jazz.
            Hoje como há 30 anos, a ECM dá corpo a uma ideia, um conceito de música e de embalagem gráfica que fizeram história. Foi há 30 anos, em plenos anos 70, que se começou a falar do “som ECM”, nem sempre em termos elogiosos. Houve quem se referisse à emergência de um “neo cool” para classificar obras onde o apuro da produção e o cuidado no detalhe eram regra. O “som ECM”, seja o dos Art Ensemble of Chicago ou de Stephan Micus, é um som que cultiva o aproveitamento do espaço e a importância do silêncio. Onde a emoção jamais despreza a inteligência.
            Em 2004 é a própria editora a chamar a atenção para o seu acervo dos anos 70, lançando, sob o rótulo “ECM Discoveries”, e a “special price”, uma coleção de 50 CD de álbuns gravados nesta década. Escolhemos, como amostra, oito que ilustram a classe mas também a diversidade do catálogo.
            Nos primórdios da ECM, um inglês de 27 seguia na vanguarda do novo jazz que eclodia no seu país. Chamava-se David Holland, atraíra a atenção ao lado de Miles Davis e nos Spontaneous Music Ensemble e tocava contrabaixo de tal maneira que o compararam a Scott LaFaro. E gostava de observar todas as manhãs os pássaros que cantavam, cada um a sua melodia, à sua janela. “Conference of the Birds” (1973) é um dos seus grandes discos e foi gravado em quarteto com outros três grandes músicos, Sam Rivers (saxofones e flauta), Anthony Braxton (saxofones e flauta) e Barry Altschul (percussão e marimba). Puro deleite, acompanhar a interceção de “riffs” circulares e aventuras “free” dos dois saxofonistas em “Four winds”, a féerie de sons percussivos em “Q&A”, o chilrear das flautas sobre marimba no título-tema, a complexidade do solo de contrabaixo em “Interception”, a cortar momentos de pura “britishness” de uma sensibilidade quase pop (na altura os Soft Machine e os Nucleus atuavam do outro lado da barricada, mas é sempre possível trocar de lugar). E, sim, para a ECM, o momento da glaciação ainda não era chegado.
            Mas em 1975 já se esculpiam estátuas de gelo. Algumas delas para saborear como gelados. “Solstice”, de Ralph Towner, guitarrista dos Oregon, é uma delas. Cá está o som “neo cool” ou “neoclássico”, talvez porque tinham chegado os nórdicos – Jan Garbarek (saxes soprano e tenor) e Jon Christensen (bateria, percussão). O contrabaixista, Eberhard Weber, acabara de chegar do “krautrock” e de colaborações com Wolfgang Dauner e Volker Kriegel. “Solstice” é ambiental, etéreo numa faixa como “Visitation” (nem sequer falta o som de um fantasma…). Towner toca com a entoação hipnótica e as cristalizações de um Laraaji (“Nimbus”, com as suas escalas menores na flauta e modos indianos), outras com trejeitos de flamenco. No piano (“Drifting petals”) Towner é um romântico contemplativo, pelo que não espanta que Garbarek corra a fazer-lhe companhia. Nos antípodas de “Conference of the Birds”, “Solstice” tem o perfume da relva húmida de um jardim.
            No mesmo ano, um saxofonista, Dave Liebman, confessava logo de início que os tambores são a sua fonte de inspiração. “Drum Ode” faz-lhes a dedicatória. Eis outro disco que Manfred Eicher teve dificuldade em enfiar no congelador. Richard Beirach (piano elétrico), John Abercrombie (guitarras), Bob Moses (bateria), Barry Altschul (percussão) e Colin Walcott (outro elemento dos Oregon, tablas) são os principais protagonistas de um grupo alargado. Fusão, Liebman no papel ocasional de Roland Kirk, uma faixa, “Oasis”, cantada por uma senhora parecida com Norma Winstone mas menos estalactite. “The call” é jogo de duplos: duas baterias e o sax soprano em diálogo consigo próprio graças aos efeitos de “delay”. Belíssimo o tropicalismo suave de “Your lady”, com o piano elétrico a deslizar por entre as congas, sinos e contrabaixo, e um Liebman apuradíssimo. “Ode drum” tem início em África mas termina, em “Satya Dhwani”, na Índia.
            Um disco onde o “som ECM” faz maravilhas é “Hotel Hello”. De Gary Burton (vibrafone, órgão, marimba) em duo com Steve Swallow (contrabaixo, piano). Burton, provavelmente, em termos técnicos, o maior vibrafonista vivo, consegue neste disco uma maior empatia do que num outro dueto, com o piano de Chick Corea, em “Crystal Silence”. Onde Corea entrava em colisão, Swallow, mesmo ao piano, cria lugares com possibilidades ilimitadas de coabitação. “Inside in”, de Mike Gibbs, é uma oferta a quem gosta dos Gentle Giant embora faça também lembrar um pouco Stomu Yamashta de “Floating Music”. Entre os temas não assinados pela dupla está ainda “Vashkar”, de Carla Bley, diálogo de contrabaixo e órgão, com o tipo de melancolia de funeral característica desta teclista americana mas que também não fi caria mal em “Rock Bottom”, de Robert Wyatt.
            Cheguemo-nos de novo a Eberhard Weber, desta vez para receber “Yellow Fields”, de 1976, juntamente com “The Colours of Chloe”, um belíssimo exemplar de jazz progressivo onde o fator “som ECM” funciona de forma positiva. Rainer Brüninghaus (outro krautrocker, ex-Eilliff) enche o espectro estereofónico com os seus teclados, incluindo o sintetizador, abusando talvez um pouco do efeito sedativo das “strings” sintéticas. Charlie Mariano (sax soprano, shenai, nagaswaram) pende, como Liebman, para o lado “world”, em particular a Índia (gravaria mais tarde um álbum inteiro, “Jyothi”, dedicado à música indiana). A introdução, com pizzicato de contrabaixo e o mesmo “portamento” de sintetizador que Jan Hammer utiliza em “The First Seven Days”, é magnífica, prosseguindo com Mariano no monte shenai, instrumento de timbre entre o oboé e a bombarda. Colorido como um vitral.
            Mas não foi só no campo do paisagismo que a ECM se destacou nos anos 70. Também o experimentalismo teve o seu lugar. Em 1976 surgiu “Mountainscapes”, de Barre Phillips, criação de um coletivo que se pode considerar uma extensão dos The Trio, com Phillips (baixo), John Surman (saxes soprano e barítono, clarinete baixo, sintetizador) e Stu Martin (bateria, sintetizador) aos quais se juntaram Dieter Feichtner (sintetizador) e, como convidado no último tema, John Abercrombie (guitarra). Entre o jazz e a eletro-acústica, “Mountainscapes” poderia passar por um manual de instruções para aprendizes de pós-jazz como os Chicago Underground. As “drones”, apontamentos minimalistas (em “VII” a sequenciação eletrónica é do mesmo tipo que a que Surman usou e abusou na sua fase inicial a solo na ECM) e jazz livre transformam-se continuamente, com a eletrónica a modificar as formas e os timbres dos vários instrumentos.
            O senhor ECM é, indubitavelmente, Keith Jarrett. A sua discografia nesta editora é extensa e, devemos reconhecê-lo, desequilibrada. Temos ainda de confessar que gostamos de o ouvir como o multinstrumentista que é e não apenas como o pianista que chegou ao topo do mundo. Em “The Survivors’ Suite”, de 1977, não se trata, porém, de obras sacras para órgão ou clavicórdio, mas de uma “suite” em que Jarrett, além do piano, toca sax soprano, flauta de bisel baixo, celesta e tambores Osi. Tem como parceiros de luxo Dewey Redman (sax tenor, percussão), Charlie Haden (contrabaixo) e Paul Motian (bateria, percussão). Obra evolutiva, avança lentamente e por fases distintas, com momentos de percussão e flauta, pianismos vários, paroxismos “free” e embalos de “jazz rock” encimados pelo sax de Redman ou um encantatório dueto de contrabaixo e celesta.
            O estatuto de segundo senhor ECM, em termos de produtividade, deve ser atribuído a Jan Garbarek. “Places”, de 1977, é um dos seus bons álbuns, antes de se tornar piegas. Com Bill Connors (guitarra), John Taylor (órgão, piano) e Jack DeJohnette, criou misticismo sério, obra de elevação onde os instrumentos oram e respiram como no interior de uma catedral. O órgão é litúrgico e todo o ambiente faz lembrar algumas obras do mesmo período de Terje Rypdal, como “Odyssey” e “After the Rain”. O estilo do saxofonista terá mudado pouco de então para cá, com as suas inflexões “folk” e o inconfundível vibrato. Pena terem embarcado todos (mesmo DeJohnette!) no ritmo de saldos de “Entering”. É preciso cuidado para não adormecer durante a meditação.

Dave Holland Quartet
Conference of the Birds
9 | 10

Ralph Towner
Solstice
8 | 10

Dave Liebman
Drum Ode
8 | 10

Gary Burton & Steve Swallow
Hotel Hello
9 | 10

Eberhard Weber
Yellow Fields
7 | 10

Barre Phillips
Mountainscapes
8 | 10

Keith Jarrett
The Survivors’ Suite
8 | 10

Jan Garbarek
Places
7 | 10

Todos ECM, distri. Dargil

02/06/2020

Espíritos e estrelas [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 16 OUTUBRO 2004

Há estrelas do espírito, da “FC” e do espectáculo. Três saxofonistas são quem brilha com maior fulgor.

Espíritos e estrelas

“Não é uma batalha nem uma competição, é sobre a alegria de tocarmos juntos”, diz Brecker, um dos três espíritos em ação. Os estilos são diferentes mas amigos, encaixando-se entre si de forma brilhante. Brecker, no tenor e kaval (flauta de madeira búlgara), ouve-se no canal direito. Liebman, no tenor e soprano e flauta indiana, sai pelo centro. À esquerda toca Lovano, no tenor, clarinete alto, tarogato (instrumento de sopro húngaro) e fl auta africana. Na secção rítmica estão Phil Markowitz (piano), Cecil McBee (contrabaixo) e Billy Hart (bateria). Um sétimo espírito paira sobre o coletivo: John Coltrane. De Trane são interpretados “India” e “Peace on Earth”, sendo o primeiro destes temas fulcral na economia deste “Gathering of Spirits”, com a sua entrada exótica de flautas e um espetacular “duelo” harmónico entre os saxofonistas, Lovano evoca as conversas de Coltrane com Pharoah Sanders levadas a cabo em “Om”. É como uma construção de cores e luzes. Markowitz pinta uma tela de piano fosforescente em “Tricycle”, composição de Liebman. Hart, considerado voz do drama, sabe criar tensão e estruturas capazes de levar os saxofonistas a registos excitantes. Na arte combinatória deste “Summit” de sensibilidades e forças que se equilibram e encontram no máximo múltiplo comum (será ainda Coltrane?) da criatividade, a soma é um paraíso e uma selva. Estrelado e luxuriante. Um grande disco de grande jazz.
            Quem gosta muito de viajar entre as estrelas é Chick Corea, teclista que nunca escondeu o gosto pelos universos do fantástico e da fantasia. Agora, ele e a sua Elektric Band apontaram a nave para os confins da galáxia, servindo-se para isso das instruções de “To the Stars”, uma novela de L. Ron Hubbard. No livro são abordadas questões da física da relatividade de Einstein, como a dilatação do tempo. “To the Stars”, o disco, viaja através do jazz rock e, apesar de alguns clichés a que é difícil escapar num género estafado como este, é um dos mais conseguidos álbuns da Elektric Band. Claro que pode não ser evidente a relação entre viagens pelo espaço à velocidade da luz e a música cubana, como acontece em “Mistress Luck – the Party”, mas o que pode parecer absurdo acaba por soar divertido. Há momentos, porém, de pura abstração eletrónica, muito “space rock”, quase “Kosmisch muzik”, ou muzak cósmico, como os vários segmentos de “Port view”. “The long passage”, por exemplo, tem tudo o que o típico jazz-rock costuma exibir: fulgor “flashy”, batida forte, energia elétrica e floreados de estilo. Num ou noutro momento, por entre as frases feitas e os rodriguinhos técnicos, até passa algum jazz menos condicionado, como em “Jocelyn – The commander”. Seja como for, este ensaio de música temperada por ficção científica cairá direitinho no goto dos que se pelam pelos Weather Report mais comerciais ou por anteriores trabalhos de Corea nesta área, como “Hymn of the Seventh Galaxy”.
            Mas o piano vinga-se nas mãos de um dos seus mestres, McCoy Tyner, figura histórica. Curiosamente, vemo-lo igualmente às voltas com a música cubana, em “Angelina”, um dos temas do seu novo disco, “Illuminations”. De Tyner, já se sabe, tira-se sempre algo de bom, neste caso, mais que não seja, a judiciosa escolha dos músicos que o acompanham, Gary Bartz (saxofones), Terence Blanchard (trompete), Christian McBride (contrabaixo) e Lewis Nash (bateria). Este não será o Tyner contemplativo e sideral que tocou com Coltrane, mas o brilho fulgurante de uma mão direita que não cessa de ornamentar mantém-se. É jazz bem dentro da tradição, mesmo que Bartz o tente empurrar para fora dos limites. Nada de novo por estas paragens senão a confirmação de um estatuto há muito adquirido...
            Combinação inusitada é aquela que nos é oferecida por Benny Green e Russell Malone, respetivamente no piano e na guitarra. Jim Hall e Bill Evans poderiam servir de modelo. Mas não. O suporte começa por ser o “blues”, mas o tom geral é de descontração, como um “divertissement” a dois, simples e feliz. Green e Malone iniciaram a sua cumplicidade no discipulado de Ray Brown. Green tocou com Brown, Art Blakey e Diana Krall. É um pianista leve e ágil, sem angústia. Malone, antigo companheiro de Jimmy Smith e membro da orquestra de Harry Connick Jr., move-se num quadrado compreendido por Grant Green, Kenny Burrell, Django Reinhardt e Pat Martino. Dos diálogos entre ambos ressalta o prazer do salto, da nota picotada, de um balanço ligeiramente “retro” onde a ligeireza de uma canção como “You are the sunshine of my life” contracena com a distante melancolia de “Flowers for Emmett Lill”. Bom astral.
            Não se lhes peça, porém, o que se percebe, logo às primeiras notas, ter o trio Geri Allen (piano), Dave Holland (contrabaixo) e Jack DeJohnette (bateria), vindos os três de uma participação no álbum “Feed the Fire”, de Betty Carter: paixão. Inspirada por Herbie Hancock, Geri mostra-se inventiva, progressiva e impulsiva no forte encadeado harmónico dos temas. O ataque é soberbo, por vezes violento e, aparentemente, pouco feminino, em que as notas são percutidas sem piedade, como flores esmagadas num desejo de entrega. Porque “The Life of a Song” é, nas palavras da pianista, “Give and take and give”. Ouça-se “Lush life” e a sua investida perante a vida, as teclas agudas marteladas até se lhes extrair a última gota de sangue e sumo. “In appreciation: A celebration song”, pelo contrário, tem o toque caloroso da “soul” da Tamla Motown e a devoção de um “gospel”. Dave Holland e DeJohnette são os parceiros a grande altura, a cidade de múltiplas avenidas ao longo das quais o piano inventa os seus “blues” e os seus vermelhos. Jazz a correr sempre em frente, sem contemplações. Nem medo de olhar e parar para se enternecer num “Inconditional love”.
            Eletrónico, urbano, diluviano. Assim se traça a introdução da mais recente aventura de um saxofonista querido do “Show business”, Courtney Pine – “Devotion”. Promete ser interessante. Mas depois entra na fogueira do “rhythm ‘n’ blues” e dá mostras de querer viajar por muitos sítios. É fusão, é confusão. De “R&B” com reggae, no título-tema, de variedades com canção “soul”, em “Bless the weather”, de “hip hop” com ritmos das Caraíbas, em “Interlude: The saxophone song”, de pop com música indiana em “Translusance”. Mas também há funk e África em “Osibisa”, mais cheiro a “R&B” comercial e, acima de tudo, há o desejo de ir a todas. Como disco de jazz, é para esquecer. Como entretenimento, pode funcionar. Se Pine continua a ser um bom saxofonista? Nem dá para perceber.

Michael Brecker, Dave Liebman, Joe Lovano
Saxophone Summit: Gathering of Spirits
Telarc
8 | 10

Chick Corea Elektric Band
To the Stars
Stretch
6 | 10

McCoy Tyner
Illuminations
Telarc
6 | 10

Benny Green & Russell Malone
Bluebird
Telarc
6 | 10

Geri Allen, Dave Holland, Jack DeJohnette
The Life of a Song
Telarc
7 | 10

Courtney Pine
Devotion
Telarc
5 | 10

Todos distri. Andante

23/12/2019

Balanço [Jazz]


JAZZ
BALANÇO
PÚBLICO 3 JANEIRO 2004

Das recriações em grande estilo, de Bourassa e Hemingway, ao novo corte radical dos Spring Heel Jack se fez o melhor jazz chegado a Portugal este ano. Pontes para o futuro que os portugueses atravessaram sem receio. Nas reedições, saúdem-se as velhas glórias Armstrong, Holiday, Webster e Gordon mas 2003 foi também o ano de Sun Ra. Além dos dois capítulos do “mito solar” chegaram de Saturno outros dois momentos fulcrais da saga intergaláctica: “It’s After the End of the World” e o volume duplo das “Nuits de la Fondation Maeght”.

1 FRANÇOIS BOURASSA TRIO
Live
Effendi, distri. Multidisc
Bourassa é um pianista de exceção, capaz de equilibrar “clusters” tão vastos como o cosmos com miniaturas de ourives, além de fabuloso arquiteto e desenhador de “riffs”, de uma fluência e imaginação inesgotáveis. Cidades construídas dentro de cidades, segundo uma infinidade de escalas sobrepostas O modo como “30 Octobre 85” cresce de motivos simples para o recorte de frases cuja força e complexidade se concentram na recriação do “Big Bang”, em conjugação com o desempenho explosivo de André Leroux, no tenor, constitui um daqueles momentos raros de audição de música em que apetece gritar de excitação. Tudo a transbordar de “swing”, mais a oferta de um espetacular momento de bop e um “medley” de Monk que entra diretamente para a galeria dos clássicos.

2 SPRING HEEL JACK
Live
Thirsty Ear, distri. Trem Azul
A dupla exilada do drum ‘n’ bass, John Coxon e Ashley Wales, reincide com o mesmo bando de “malfeitores” de “Amassed” (Han Bennink, Evan Parker, William Parker, Matthew Shipp e J. Spaceman) em duas longas improvisações que projetam a música numa selva de criaturas mutantes. O que em “Amassed” surpreendia pelo lado estrutural explode aqui num espetacular “tour de force” de jazz multidimensional e orgânico onde a raiva, a inteligência e a inovação andam de mãos dadas. Como se a “free music” dos anos 60 decidisse que o futuro lhe volta a pertencer.

3 GERRY HEMINGWAY QUARTET
Devils Paradise
Clean Feed, distri. Trem Azul
Como pode o diabo habitar no paraíso? Encare-se a questão do seguinte modo: O que Hemingway e os seus companheiros fazem é simultaneamente uma revolta e uma libertação das linguagens tradicionais do jazz, através de uma reconversão que devolve o prazer sob novas formas. Improvisador nato, o baterista mantém latente um estado de tensão que Eskelin estica até aos limites e Ray Anderson, pelo contrário, contraria, distendendo e embalando a música com um gozo infantil, de marchas, “gospel” e “Dixieland”.

4 DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
2xCD ECM, distri. Dargil
Obra monumental gravada há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. Holland justifica esta aventura em larga escala com a necessidade de explorar novas fórmulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra um baixo como este, não há argumentos.

5 GIANLUIGI TROVESI OTTETTO
Fugace
ECM, distri. Dargil
“Fugace” é um mundo. A música de baile italiana do pós-guerra, reminiscências do boogie-woogie e do jazz de Dixieland, o swing de Benny Goodman, citações de Louis Armstrong, mas também Scarlati, Duffay e Bartok, mais eletrónica em intricados rendilhados, combinam-se numa síntese absolutamente original que se desfruta como a visão de um vasto e épico “western spaghetti” em Cinemascope e som Sensaround.

6 JEAN DEROME/LOUIS SCLAVIS QUARTET
Un Moment de Bonheur
Victo, distri. Trem Azul
Sclavis, herdeiro de Portal, e Derome, canadiano com larga e por vezes burlesca obra na editora Ambiances Magnétiques encontram-se neste entusiasmante diálogo de música improvisada, em uníssonos, contrapontos e fugas que atingem o âmago do “free jazz” nos longos “L’errance” e “Suite pour un bal”, esta última cortada a meio por uma descarga de ruído e de…rock, na melhor tradição da escola RIO (“Rock in Opposition).

7 VANDERMARK 5
Airports for Lights
2xCD Atavistic, distri. Ananana
Saber e cheiro a Chicago. “Airports for Lights” junta em doses exatas o esquematismo hermético-matemático de Braxton, o fluxo sanguíneo de Parker e o palimpsesto de discursos sobrepostos de Dolphy. Mas Vandermark confronta-nos com um poder que é só seu. Entre o “bas fond” do pós-jazz de Chicago, o “blues” em figurações cubistas, o “hard bop” futurista e o “free” mais solitário e estratosférico, o saxofonista faz o que quer, com o desplante dos génios.

8 AKOSH S. UNIT
Vetek
Ed. e distri. Universal
“Vetek” cultiva o gosto pelas músicas do mundo, em sintonia com uma visão planetária construída sobre raízes comuns mas plurifacetada nas suas ramificações. Rasteja e amontoa tensões e clímaxes, profana os templos zen de Stephan Micus e Steve Shehan, acolhe o grito nas florestas cerimoniais de Boris Kovak para finalmente rejubilar na tradição e espalhar a felicidade e o êxtase.

9 JOHN SURMAN
Free and Equal
ECM, distri. Dargil
Inspirado na Declaração dos Direitos Humanos, este registo ao vivo no Queen Elizabeth Hall, Londres, junta o saxofonista inglês com Jack DeJohnette e a orquestra de metais London Brass numa obra em larga escala notável que combina sequências instrumentais majestosas, secções improvisadas, diálogos luminosos entre os dois solistas, o espírito do Barroco e o romantismo característicos de Surman.

10 MARTY EHRLICH
Line on Love
Palmetto, distri. Trem Azul
Adepto de aventuras conceptuais, Marty Ehrlich entrega-se a uma inflexão na tradição e num jazz de grande lirismo de que andava arredado em trabalhos como o igualmente estimulante “The Long View”. Os desempenhos no sax alto são de altíssimo calibre, como no surpreendente e hardbopante solo, em tempo lento, de “St. Louis Summer”, concluindo a tocar clarinete baixo na magnífica arquitetura rítmica de “The git go”.

11 MICHAEL BRECKER QUINDECTET
Wide Angels
Verve, distri. Universal
Brecker dirige uma “big band” de 15 elementos e não desperdiça a oportunidade para se revelar, além do saxofonista de costela coltraniana (embora sem a preocupação de atirar o jazz para esferas inatingíveis) que é, um surpreendente arquiteto e arranjador, capaz de fazer saltar da cartola soluções harmónicas e rítmicas surpreendentes. “Wide Angles” faz renascer no reino da fusão a esperança de que o jazz continue a ser a força-motriz.

12 TIM BERNE
Science Friction
Night Bird, distri. Trem Azul
“Science Friction” revela o lado descontraído e mais mundano do saxofonista. Emparceirado com o jazzrock, a turbina “funk” do movimento M-Base e o jazz progressivo, passam por aqui correntes realmente futuristas, na guitarra de Marc Ducret e nos teclados elétricos de Craig Taborn. Antecipação jazzística de um futuro que afinal continua a ser de marcianos verdes, máquinas do tempo e pistolas de raios laser.

13 JANE IRA BLOOM
Chasing Paint
Arabesque, distri. Multidisc
A saxofonista soprano e manipuladora de “live electronics” Jane Ira Bloom transpõe para música o universo pictórico do pintor Jackson Pollock. A luz, neste caso, não se esconde mas brilha no lirismo de “The sweetest sounds”, refletida nas “Many wonders” que recompensam quem se dispuser a viajar até ao término da “Alchemy”, onde uma “white light” se vislumbra enfim. Jazz sem amarras, filho da tradição mas pujante na tensão criativa.

14 DAVID S. WARE
Freedom Suite
Aum Fidelity, distri. Ananana
Ware, o mais Coltraniano dos tenoristas da nova geração, entrega-se à tarefa “Rollinsoniana” (ele que já recriara, de resto, deste compositor, “East Broadway Run Down”) com uma paixão que chega a ser avassaladora. Acompanham-no o habitual quarteto formado por Matthew Shipp (piano), William Parker (baixo) e Guillermo E. Brown (bateria), imprimindo em conjunto um sentido ascensional à obra que em Rollins se desenrola à luz de um sentido lúdico e de uma liberdade mais “horizontal”.

15 ANGELICA SANCHEZ
Mirror Me
Omnitone, distri. Trem Azul
Um estilo discreto de execução e ausência de preconceitos permitem a Angelica tocar tanto a música sacra de Olivier Messiaen como a “country” de Merle Haggard ou o “boogie pop” dos T. Rex. Mas “Mirror me” é jazz ao mais alto nível, em “environments” dirigidos à criatividade de solistas como o Michael Formanek e Tony Malaby. O diálogo entre a ternura e a ferrugem, do sax, e o metal e água da pianista, no título-tema, é um dos pontos altos e de maior extravagância de “Mirror Me”.


REEDIÇÕES
1 LOUIS ARMSTRONG The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings, Vol. 1, 2 & 3 Columbia, distri. Sony Music
2 BILLIE HOLIDAY The Billie Holiday Collection, Vol.1, 2, 3 & 4 Columbia, distri. Sony Music
3 BEN WEBSTER Soulville Verve, distri. Universal
4 DEXTER GORDON Our Man in Paris Blue Note, distri. EMI-VC
5 SUN RA The Solar-Myth Approach, vol. 1&2 Sunspots, distri. Trem Azul

PORTUGUESES
1 CARLOS BARRETTO Locomotive Clean Feed, distri. Trem Azul
2 MÁRIO LAGINHA & BERNARDO SASSETTI Mário Laginha & Bernardo Sassetti Ed. autor, distri. FNAC
3 RODRIGO AMADO, CARLOS ZÍNGARO, KEN FILIANO The Space Between Clean Feed, distri. Trem Azul
4 SEI MIGUEL Ra Clock Ed. e distri. Headlights
5 JOÃO PAULO, PAULO CURADO, BRUNO PEDROSO As Sete Ilhas de Lisboa Clean Feed, distri. Trem Azul

20/11/2019

Contra baixos não há argumentos [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 25 OUTUBRO 2003

Holland e Vitous. Contrabaixistas a ditar as regras do jogo do jazz. O inglês dispõe dos melhores trunfos.

Contra baixos não há argumentos


Nos últimos tempos o homem não tem feito outra coisa a não ser reciclar a sua própria música e a do quarteto que o tem acompanhado desde 1997. Mas dado que o seu nome é Dave Holland, perdoa-se, aceita-se e até se agradece. “Extended Play” é uma obra monumental em dois CDs, gravado há dois anos no mítico Birdland de Nova Iorque. As peças, na maioria extraídas de “Prime Directive” e “Point of View”, têm uma duração tal que só a simples menção dos tempos gastaria a totalidade do espaço disponível nesta página. Mas mais do que tempo, a música esbanja qualidade.
            A máquina cardíaca do líder deu a cada músico espaço para respirar e dizer longamente. Diz Holland que para explorer em larga escala novas formulas para temas antigos, fazendo delas “veículo para a intuição e a imaginação”.
            Potter mostra-se imparável em “The Balance” e “High wire”, solando “free”. Nelson prova ser um dos grandes vibrafonistas actuais, sem nunca abusar do pedal de reverberação, preferindo a clareza e a fluência do ritmo aos registos mais ambientais. O solo de marimba em “Jugglers parade” é funky, progressivo, misterioso, hipnótico. Fãs dos Can, há um mundo de jazz, mesmo ao lado, à vossa espera! Quando Holland faz a sua entrada e o trombone de Eubanks se alarga num manifesto feito de subtileza mas também de súbitas guinadas para a faixa de rodagem da experimentação, o swing rola numa montanha-russa.
            “Claressence”, de “Dream of the Elders”, abre o segundo CD numa nota mais “cool”, com Nelson a chegar-se aos timbres de cristal de Milt Jackson, nos Modern Jazz Quartet. Potter volta a mostrar até que ponto compareceu a esta sessão em estado de graça. O seu diálogo com o trombone de Eubanks é de fazer dançar um moribundo. Holland, o mestre, deixa a sua assinatura lavrada a fogo em “Metamorphos”, imprimindo-lhe um balanço e equilíbrio sobrenaturais. Abusando ou não da reciclagem, Holland acertou uma vez mais na “mouche”. “Extended Play” ostenta a novidade e a incandescência do princípio do mundo. E, porque não, do princípio do jazz. Contra tais factos, contra o seu baixo, não há argumentos.
            Outro contrabaixista, porventura menos conhecido, mas de não menores méritos, é Miroslav Vitous, checoslovaco de nascimento, antigo “sideman” de
Miles Davis, membro fundador dos Weather Report e autor de um magnífico “Journey’s End”, ao lado de John Surman e John Taylor. Em “Universal Syncopations” rodeou-se de um quartet de “figurões”: Jan Garbarek, Chick Corea, John McLaughlin e Jack DeJohnette. A capa mostra uma coreografi a de nuvens e quando os discos da ECM utilizam fotos de coreografias de nuvens já se sabe que som se há-de esperar. Mais ainda se Jan Garbarek estiver presente na sessão, pois também se sabe que cores esperar deste saxofonista que progressivamente foi atafulhando o timbre do seu saxophone com flores e mel (quando toca a adocicar, Manfred Eicher não perdoa - é a perdição dos diabéticos do jazz).
            Pois bem, o Garbarek destas “síncopes universais” arrepiou caminho até às antigas e mais espinhosas encruzilhadas de “Dis”. Voltou a curvar nas esquinas. Corea domina o “som ECM” como se tomasse uma chávena de chá e Vitous aproveita para se mostrar como o contrabaixista ginasticado e, se a ocasião o justifica, nevrótico que é. Entre todos os participantes, é o menos conformista, num programa que junta uma “floresta de bambu, uma “flor do sol”, “Miro bop” (o quintet acorda! Vitous e DeJohnette sacodem Corea e Garbarek bopa), “Beethoven” e “ondas brasileiras”. Tudo bonito, tudo certo, tudo extraordinariamente bem tocado. Sem riscos. A secção rítmica solta, no entanto, as amarras…
            “Tribute to Lester” é uma homenagem ao trompetista Lester Bowie, falecido em 1999, pelos seus antigos companheiros no Art Ensemble of Chicago. Bowie era o tipo dos óculos e da bata que punha ordem na selva e orientava os rituais pela bússola do jazz, dos gritos “free” ao “mardi gras” de Nova Orleães. A justa homenagem que Roscoe Mitchell, Malachi Favors e Don Moye lhe prestam funcionou como o despertar de uma longa letargia. O habitual clamor de gongos e sonoridades exóticas ficou mais focado, embora seja lícito questionar se o solo de flauta barroca, de Roscoe Mitchell, em “Suite for Lester”, é ou não apenas mais uma das múltiplas “boutades” extrajazz que os AEC por norma incluem nas suas “performances”. De resto, há a usual componente sul-africana, “free” do melhor (“As clear as the sun”, com Mitchell a uivar de dor nos agudos) e uma nova versão de “Tutankhamun”, onde o solo de saxofone baixo de Mitchell poderia servir de sarcófago para a música do homenageado. Mas é na improvisação coletiva final, “He speaks to me often in dreams”, celebrada nos píncaros de uma montanha no Tibete, que os espíritos e os silêncios falam aos homens.
            Espírito é o que não falta a Lol Coxhill, saxofonista e lunático. Com Coxill é sempre Natal. Os jazzados da cabeça que escarafuncham noutras paragens escancaram um sorriso tão largo como o do gato das histórias de Alice só de imaginarem o desempenho delirante deste saxofonista na obra-prima do rock progressivo excêntrico dos anos 70, “Shooting at the Moon”, de Kevin Ayers. Lol Coxhill poderia ser o chapeleiro maluco. “Ear of the Beholder” (com uma impensável formação composta por Burton Greene, Jasper Van’t Hoff, Pierre Courbois e David Bedford) é outro álbum do saxofonista careca que os puristas do jazz menosprezam e os loucos do Progressivo veneram.
            Coxhill aparece em “Coxill Street” a convite do guitarrista George Burt e do saxofonista alto e soprano, Raymond MacDonald. Música improvisada, bruta, enformada pelas angulosidades da guitarra, que Coxill aproveita para levar o saxophone soprano à histeria e recorrer às técnicas de multifonia que tão bem domina. Toca-se com a convicção dos iluminados, encarcerados num mundo fechado sobre si mesmo, porém fascinante para quem ousar abrir a porta e dar de caras com a loucura. O chapeleiro louco está nas suas sete quintas, claro.
            Ainda no campo da improvisação limítrofe, “Imaginings”, de Frances-Marie Uitti, no violoncelo, e Jonathan Harvey, nos sintetizadores, desenvolve-se no sentido do impressionismo . “Exploração de timbres” e emprego de técnicas extensivas fazem parte do léxico destes dois executantes com larga experiência na música eletroacústica (Harvey trabalhou no IRCAM, a convite de Boulez), indicativos dos parâmetros que subjazem à criação de “Imaginings” – painel de sons fantasmagóricos, electrónica residual, drones e ocasionais ruturas num “continuum” elaborado a partir de diversas linhas de tensão/clivagem sustentadas pelos dois músicos. O que é que o jazz tem que ver com tudo isto? Nada! Mas em que outro espaço poderíamos escrever sobre este disco?...

DAVE HOLLAND QUINTET
Extended Play
ECM, distri. Dargil
9 | 10

MIROSLAV VITOUS
Universal Syncopations
ECM, distri. Dargil
7 | 10

ART ENSEMBLE OF CHICAGO
Tribute to Lester
ECM, distri. Dargil
8 | 10

THE GEORGE BURT/RAYMOND MacDONALD QUARTET c/LOL COXHILL
Coxhill Street
FMR, distri. Sonoridades
7 | 10

FRANCES-MARIE UITTI & JONATHAN HARVEY
Imaginings
Sargasso, distri. Sonoridades
7 | 10