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04/12/2025

Som quase estragou a festa [Folk Tejo]

PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 3 JUNHO 1991 >> Cultura

 

Folk Tejo

 

Som quase estragou a festa

 

Uma imagem com texto, jogador, preto, branco

Descrição gerada automaticamente

 

Lisboa iniciou as suas festas juninas ao som da música folk. O cartaz de sábado era aliciante: duas vozes femininas de chegar ao céu, três escoceses dos copos e um gaiteiro de cortar o fôlego. Na luta contra o som, péssimo, só June Tabor venceu e comoveu. Mas o público queria era dar ao pé.

 

Música folk, tradicional, étnica, nos últimos tempos, tem sido um fartote. Lisboa aderiu à onda, com o Tejo ao lado e as eleições à porta. Coliseu dos Recreios. Cerca de meia casa, composta pelos indefectíveis do género, mais os curiosos, mais aqueles que vão a todas. Os primeiros saíram com um sabor a frustração. Os curiosos aguçaram ainda mais a curiosidade. Os outros não devem ter percebido nada, até porque o som não deixava.

Um grupo nacional de zés-pereiras, gaiteiros e tocadores de bombo circulou pelas artérias junto ao recinto, antes de subir ao palco para uma atuação, no mínimo, bombástica.

Maddy Prior, voz lendária da cena folk britânica, estandarte dos Steeleye Span e atualmente mais apaixonada do que nunca pela música antiga (no seio dos Carnival Band) e pelo marido, desiludiu, sem que a culpa tivesse sido inteiramente sua. Entre dois amores, optou por trazer o marido – Rick Kemp – e cantar umas melodias que seriam certamente bonitas, se acaso fosse possível perceber alguma nota. Não há, de facto, adjetivos que cheguem para desancar um som exageradamente amplificado, empastelado, impróprio para um comício quanto mais para um concerto de música. Salavaram-se os momentos em que Maddy Prior, sozinha, sentada à beira do palco, ou acompanhada unicamente pelo piano e pelo contrabaixo, deixou perceber a voz maravilhosa que realmente tem.

 

A emoção da cerveja

 

Das terras altas da Escócia, os McCalmans, trio já veterano nestas andanças, chegaram de guitarras e latas de cerveja em punho para pôr toda a gente aos pulos, com as suas harmonias vocais emocionadas e toda a fluência que só o álcool é capaz de proporcionar. O homem da mesa de mistura, experimentador nato, desta vez apostou tudo nos agudos metálicos, testando a capacidade de resistência dos tímpanos às frequências mais elevadas. Os escoceses acabaram por perceber – no “encore” da praxe dispensaram a amplificação, cantando abraçados, eufóricos e voltando a dar um empurrãozinho publicitário à tal marca de cerveja.

Depois, chegou o momento mais alto da noite, graças à voz e postura sublimes de outra grande senhora da Folk, June Tabor. Acompanhada apenas por dois violinistas, tornou claro que a verdade do canto tradicional exige silêncio e contensão. Foi até ao fundo, contando e cantando histórias trágicas de amor e ódio, de alegria e morte. Houve quem não compreendesse e assobiasse, exigindo o que nessa altura soaria despropositado – a dança e o delírio telúrico. June Tabor só no fim soltou as pontas à rede de sortilégios – saltando e batendo palmas, como uma menina que por dentro continua a ser – não sem que antes a sala escurecesse e calasse vergada a uma arrebatadora interpretação de uma canção de Brecht. O próprio som, como por artes mágicas, melhorou.

 

Música “a metro”

 

Davy Spillane, gaiteiro de reconhecidos méritos, revelou-se mestre de duas coisas: das suas “uilleann pipes” (que maneja com a agilidade de quem não deve fazer outra coisa) e na arte de música “a metro”. O irlandês mistura tudo – os blues, o rock ‘n’ roll, a country e a música de baile. A solo, mostrou-se realmente “virtuose”, interpretando, entre outros, um tema dedicado a esse outro grande gaiteiro que é Paddy Moloney, dos Chieftains. O pior foi o resto, as “desbundas” coletivas, o tom piroso da guitarra, embevecida nos acordes de “samba pa ti” e se calhar na lembrança de convívios que decerto deve ter havido também lá pela Irlanda. Davy não quis saber de purismos e lançou-se a mil à hora, tocando as suas “pipes” como um danado. Em frente ao palco, os mais entusiastas entregaram-se, extasiados, aos prazeres da dança.

Quem não deve ter sentido prazer nenhum foi aquele jovem espancado e atirado pela escada abaixo, já perto do fim, por três “agentes da autoridade, apenas por ter pedido que o deixassem entrar. Final triste para um acontecimento que se propõe dar um ar mais saudável e civilizado à capital.

 

11/02/2016

Davy Spillane - The Sea Of Dreams

Y 8|MARÇO|2002
roteiro|discos

DAVY SPILLANE
The Sea of Dreams
Covert, distri. Sony Music
5|10


Transformou-se num ódio de estimação, nada a fazer quanto a isso. Nós bem tentamos, mas tem sido o próprio Spillane, ano após ano, álbum após álbum, a deitar por terra todas as expetativas de ver nele, mais do que um excelente executante de “uillean pipes” e “tin whistle”, um músico avesso a concessões. “The Sea of Dreams” até começa promissor, com um “River of gems” soando a “lamente” tradicional. Mas é sol de pouca dura. Os tapetes de sintetizadores, o “fator ‘Riverdance’” e a tendência – parece que inevitável – para tombar em todos os clichés que a “new age” tem para oferecer, criam o tal som delicodoce e enjoativo que, infelizmente, parecem ter-se tornado inseparáveis do gaiteiro irlandês. Assim, “The Sea of Dreams”, apesar do bónus de duas sentidas vocalizações de Sinead O’Connor, em “The dreaming of the bones” e “Danny boy”, não é, nem pretenderá ser, mais do que um dos intocáveis produtos destinados a atafulhar as estantes da “new age/celtic” onde muitos satisfazem os seus apetites de misticismo. Um mar de sonhos desfeitos. Agradáveis, inócuos em última análise, vazios.

10/11/2008

Davy Spillane - A Place Among The Stones

Pop Rock

21 de Setembro de 1994
WORLD

Davy Spillane
A Place Among the Stones
Columbia, distri. Sony Music

Os puristas odeiam-no, mas têm que reconhecer que é um dos grandes tocadores de “uillean pipes” da actualidade. Tecnicamente falando, claro, porque em matéria de gosto e reportório estamos conversados. Nos Moving Hearts, grupo de folk rock no qual Spillane se notabilizou, ainda se suportava a energia e o entusiasmo. Controlado por Andy Irvine, acertou em “East Wind”, um álbum de música da Bulgária “à irlandesa”. Depois, a solo, Spillane foi-se afastando cada vez mais das raízes tradicionais, enveredando pelo rock, esgares de “blues” e baladas que procuram promover a Irlanda como região turística por excelência. Neste seu novo álbum Spillane voltou a enveredar pelo postal ilustrado, só que numa maré de calmaria, prescindindo em grande parte dos solos, estilo demonstração, nas “uillean pipes”, para apostar no maior “intimismo” do “tin whistle”. Mas a música continua a não conseguir livrar-se de uma superficialidade irritante, por muito que Spillane se esforce em “aprofundar”. Maire Brennan, dos Clannad, toca harpa, canta e compõe o título-tema. Steve Winwood faz uma perninha, a recordar os bons velhos tempos de álbum pró-folk dos Traffic “John Barleycorn must Die”. Bonitinho. Há quem se reveja e delicie com este tipo de sonoridades. A música irlandesa tem as costas largas. (4)

09/10/2008

Só Concertos - Folk Tejo

Pop Rock

22 MAIO 1991
SÓ CONCERTOS - JUNHO

FOLK TEJO

Finalmente Lisboa vai ter a sua grande festa de folk. Nos dias 1 e 2 de Junho, no Coliseu dos Recreios. A organização chamou-lhe “Folk Tejo” e é ela que abre as “Festas da Cidade”. Os preços variam entre os 1200 escudos, para a Geral, e os 12500 escudos, para um camarote de 1ª, para cinco pessoas. No Sábado: Maddy Prior, McCalmans, June Tabor e Davy Spillane. No domingo será dia dos portugueses Vai de Roda e Júlio Pereira, do brasileiro Paulo Moura e da banda americana Moore by Four. Considerada, ao lado da malograda Sandy Denny, uma das duas grandes vozes femininas britânicas do movimento revivalista folk dos anos 70, Maddy Prior viria a abandonar a banda que a celebrizou, os Steeleye Span (“Ten Man Mo por Mr. Reservoir Butler Rides again”, “Below the Salt” e “Parcel of Rogues” ficaram para a história), para se dedicar a uma discreta carreira a solo, voltada para sonoridades progressivamente mais distantes da música tradicional. Nos últimos anos, a filha pródiga regressou ao lar e à música antiga, integrada nos Carnival Band, de “A Tapestry of Carols” (recolha de canções de Natal que remontam à Idade Média) e “Sing Lustilly & with Good Courage”, recuperação brilhante do ambiente palaciano e das danças da Renascença inglesa. Fundamentais são ainda os dois álbuns (com destaque para “No more to the Dance”) que, juntamente com June Tabor, gravou sob a designação Silly Sisters – duas vozes femininas irmanadas numa paixão comum pelas origens, magistrais no modo como ambas se harmonizam no canto dessa paixão.
June Tabor, que, de resto, estará também presente na festa. De voz mais contida e interiorizada que a da sua “irmã” Maddy, nem por isso deixou de desempenhar um papel fulcral no movimento do “folk revival” britânico. Vista nos meios folk como uma purista, o seu álbum “Ashes and Diamonds” causou escândalo na época (1977), devido à utilização descomplexada dos sintetizadores, hoje, para o melhor e para o pior, tornada usual. De entre um extenso e meritório currículo, salientam-se as participações no épico “The Transports”, de Peter Bellamy e “Till the Beast’s Returning”, de Andrew Cronshaw, bem como a parceria com Martin Simpson em “A cut above”. No seu disco mais recente (“Some other Time”), optou por um estilo “jazzy” e pela interpretação de alguns dos seus “standards”, com resultados duvidosos. No Coliseu, presume-se, será diferente.
Os escoceses McCalmans integram a segunda linha dos grupos folk britânicos, apesar de já contarem no activo com 17 álbuns. A sua música distingue-se pelos apurados jogos vocais e por uma rudeza estilística que os aproxima do som “pub” dos Dubliners ou dos Wolfetones. Ao vivo, podem tornar-se irresistíveis. De Davy Spillane, menino prodígio da gaita-de-foles, há quem o deteste e quem o venere. No primeiro caso estão aqueles que o acusam de perverter (a solo ou integrado nos Moving Hearts) o espírito celta, ao acrescentar-lhe a vergonha do “rock‘n’roll”, a crueza dos “blues” e a contaminação “country”, em álbuns como “Atlantic Bridge”, “Out of the Air”, “The Storm” ou o recente “Shadow Hunter”. No segundo caso, rejubila quem acha que deve ser assim, que o termo “celta” tudo engloba e que o mais importante é o facto de Spillane ser hoje um dos principais embaixadores da cultura irlandesa no mundo.
António Tentúgal e os Vai de Roda vão mostrar como se pode ser antigo, moderno, rural e urbano ao mesmo tempo e sem deixar de ser português. Lisboa vai poder deliciar-se ao vivo, pela primeira vez, com as histórias de “Terreiro de Bruxas”, que a banda portuense tão bem sabe contar. Júlio Pereira, acompanhado pela sua nova banda, trará para a cidade as suas paisagens pintadas nas “Janelas Verdes”. Paulo Moura, brasileiro, saxofonista, influenciado por Charlie Parker, mistura o jazz com ritmos rurais como a gafieira ou o chorinho. “Confusão Urbana, Suburbana e Rural”, título de um dos seus álbuns, ilustra nem tal atitude. Finalmente os Moore by Four, cinco instrumentistas e quatro vocalistas, de Minnesota, EUA, banda de “fusão” swingante, permeável ao “gospel” e à pop, que alguns comparam, na abordagem vocal, aos Manhattan Transfer. “Folk Tejo” – da tradição celta à tradição do “swing”.