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17/09/2021

Cristina Branco, a exploradora que às vezes viaja pelo fado

Y 25|FEVEREIRO|2005
roteiro|ao vivo

 
cristina branco
a exploradora que às vezes viaja pelo fado
 
Chegou a causar polémica a questão de se saber se Cristina Branco é fadista, cantora de fado ou nem uma coisa nem outra mas simplesmente uma cantora que também gosta de cantar fados. O imbróglio iniciou-se com os primeiros discos, como “Post-Scriptum”, quando Cristina tinha sede exclusiva da sua carreira na Holanda. Era então uma “fadista” exilada que no seu próprio país era encarada com certa estranheza.
            Os últimos trabalhos, porém, baralharam a questão. “Corpo Iluminado” e, sobretudo, “Sensus”, inspirado na poesia erótica, mostravam já uma voz e uma sensibilidade adultas que de modo algum se confinavam ao universo do fado. “Ulisses”, o novo álbum, que apresenta amanhã no S. Luiz, em Lisboa (esta semana, ainda, quinta-feira em Aveiro), consuma a rutura. Apenas um fado, “Gaivota”. Todo o restante alinhamento respeita um outro roteiro de referências que passam pela música popular urbana. Em “Ulisses” Cristina Branco recusa terminantemente o epíteto de “fadista”. Não é um álbum de fados nem de fado mas um alinhamento, cuja lógica secreta apenas a sua intérprete detém, que inclui as assinaturas de Fausto, Vitorino, José Afonso e... Joni Mitchell. Custódio Castelo, como é hábito, completa musicalmente a maior parte do disco, com a sua guitarra portuguesa e uma inspiração que vai buscar inspiração ao fado, a Paredes, à música árabe e a outras tradições algumas delas existentes apenas dentro da sua cabeça. Cristina Branco dá voz e alento a visões poéticas construídas com as palavras de Camões, Vasco Graça-Moura, José Luís Gordo, Júlio Pomar, David Mourão-Ferreira e Paul Éluard.
            Os velhos do Restelo ficam com os cabelos em pé, perante tanta e tamanha diversidade. A esses Cristina Branco faz ouvidos de mercador, prosseguindo um caminho que ela própria não sabe onde desembocará mas que forçosamente será da sua inteira e exclusiva responsabilidade. “Ulisses” é o disco das “vontades” e dos “desejos” da cantora, quase mimando os caprichos da mulher grávida, situação que viveu de facto e foi determinante na economia emotiva de “Ulisses”. “Ulisses” é o filho de uma cantora que não quer ver barreiras na linha do horizonte mas cujos pontos de exclamação são, ao mesmo tempo, pontos de interrogação. São vários os sentidos. Os sentidos que sentem, os sentidos que são setas, os sentidos que são dor. Os sentidos que também são línguas. Além do português, o sotaque brasileiro, o castelhano, o francês (na “Liberté” de Paul Éluard) e o inglês (em “A case of you” de Joni Mitchell) são os idiomas usados em “Ulisses”, como ferramentas de um trabalho de exploração e descoberta. Poderiam parecer sinais de inquietação (e também são…) mas, mais do que sinais, são a carne e o espírito de canções provenientes de muitos mundos que Cristina Branco quer experimentar e transforma em verbos conjugados na primeira pessoa. Experiências alheias que se tornam suas. E no palco, a experiência maior e mais arriscada: a recusa de máscaras e a exposição nua do quadro da sua própria interioridade. Cristina Branco, por mais longe que a sua personalidade vá em busca de novas vivências, é sempre Cristina Branco. A exploradora. Que às vezes, quando o seu coração passa por lá, até canta o fado.
 
CRISTINA BRANCO
SÁBADO|26
LISBOA|Teatro Municipal de S. Luiz
R. Antº Maria Cardoso, 38-58. Às 21h00. Tel.: 213257650. Bilhetes: €19,5 a €25,5.
Na Sala Principal.
QUINTA|3
AVEIRO|Teatro Aveirense
Pç. República. Às 21h30. Tel.: 234400920. Bilhetes: €17,5 (plateia); €15 (balcão)

02/09/2021

Álbum de fado não faço [Cristina Branco]

Y 28|JANEIRO|2005
música|cristina branco
 

“Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Ou seja, como ela aqui diz, o fado pode esperar.
 
álbum de fado não faço
 
São viagens interiores, um percurso em várias direções que levou Cristina Branco do fado para a canção popular urbana e, nesta, até à recriação de cantautores como Fausto, José Afonso, Vitorino e Joni Mitchell, e à interpretação das palavras de David Mourão-Ferreira, Camões, Júlio Pomar e Paul Éluard, entre outros.
            Cristina Branco não procurou a unidade mas a liberdade, e é este tema que atravessa cada uma das notas e canções de “Ulisses”, o seu mais recente álbum. Um disco de adequação a uma música mais “tranquila” que o fado mas também de “desconcertação”, de mergulho no caos e da procura de sentidos que o expliquem. A voz é cristalina, rica em “nuances”, mas o estado de espírito que presidiu à criação nem sempre foi o mais luminoso. “Ulisses” é o fruto de uma mulher inquieta que, álbum após álbum, vem procurando centrar-se no seu destino. Não há razões, apenas uma vontade e uma escolha de autores que não foi inocente. E um porto de abrigo, Ítaca, o seu fi lho, Martim. Ela diz: “Perdi-me tantas vezes neste caminho, foi tão difícil retomar o rumo, acreditar outra vez… erguer-me de novo depois de desistir… até chegar a Ulisses”. O fado pode esperar.
 
Desta vez aconteceu mesmo o que já ameaçara. “Ulisses” é uma despedida do fado. Um passo demasiado arriscado?
            Os passos são sempre arriscados, desde o primeiro disco. Nunca fui de cantar aquilo que os outros me aconselham a cantar. Canto apenas aquilo que me apetece. Não senti que estivesse a correr qualquer risco.
O que lhe apeteceu, exatamente?
            Cantar noutras línguas, as músicas de que gosto. Apeteceu-me ir à procura de outros caminhos, daí o piano…
Houve quem dissesse que em cada disco seu é deixada uma pista para o seguinte…
            Há pistas, mas não são postas lá deliberadamente. Em “Sensus” havia “O meu amor”, com contrabaixo, que já não tinha nada de fado. Mas se pensarmos apenas nesses termos, então o próximo disco será de música electrónica (risos)!...
Está a pensar no tema que fecha o novo disco, “Fundos”, com aquela batida de “drum ‘n’ bass”?
            Uma maluqueira! Fizemos som com esse tema, sobre aquela base. No fim, quando já tinha gravado todas as partes vocais, o Náná, o técnico de som, chamou-me e perguntou-me o que é que eu podia fazer com aquilo, qualquer coisa engraçada. Eu pus-me a fazer aqueles arabescos. Quando os franceses da Universal ouviram, gostaram e decidiram que fi caria para última faixa.
Começou por ser “arrumada” no grupo das novas fadistas. Com este disco transitou para o de cantoras como a Amélia Muge ou a Filipa Pais. Tem consciência disso?
            É um universo que tem mais a ver comigo. É uma música que me deixa mais tranquila do que o fado.
Mais tranquila como?
            É uma expressão muito minha. Dá-me tranquilidade, parece-me uma herança mais justa do que o fado. O fado ninguém nunca sabe muito bem o que é. Anda toda a gente aí a ditar leis sem saber do que está a falar. O percurso dentro da música popular portuguesa é muito mais seguro, com raízes mais fortes.
Em “Ulisses” canta com sotaque brasileiro, em castelhano, francês e inglês… Muitas línguas para um disco só…
            São muitas línguas para uma miúda tão pequenina (risos). É uma viagem. O português do Brasil tem uma explicação [“Sonhei que estava em Portugal”] muito técnica. Cantei o poema em português sem sotaque e soava horrível, foneticamente. Tenho cantado sempre sem sotaque temas brasileiros mas neste caso não resultava. O castelhano foi usado em “Alfonsina y el mar”. Neste disco há espelhos, reflexos, dualidades. “Alfonsina” fala do suicídio e isso sim, tem a ver com o nosso fado, a história da saudade. É um tema lindo de morrer. Vocês críticos estão sempre a perguntar porquê, porque é que esta gaja lhe deu na tola fazer isto! Há muitas coisas que não têm explicação racional. Se calhar queria uma resposta mais filosófica…
O Paul Éluard?
            “Liberté”. É um tema incontornável da língua francesa. Independentemente disso, o poema tem cores magníficas. Este álbum era suposto ser sobre a liberdade, nem sequer era para se chamar “Ulisses”. Pretendi fazer um disco sobre a liberdade. Mas algumas divergências com os franceses da editora fizeram que saísse assim. Eu estava no pós-parto, não me apetecia aturar aqueles gajos, “deixem-me em paz”, deixei estar… Mas o “Liberte” tem muito a ver comigo, tem também a ver com uma época do nosso país que foi extremamente vivida, à qual não pertenço mas felizmente tenho pais que me deixaram essa herança, que me explicaram bem qual o valor da liberdade. O álbum é controverso também porque me apeteceu contrariar aqueles senhores que queriam que fizesse um álbum de fado. Disse-lhes: “álbum de fado não faço!”.
Houve muitas pressões nesse sentido?
            Não houve pressões… mas eles achavam que era o momento indicado para gravar um álbum de fado, quando eu já tinha tudo preparado para fazer dois discos, um com autores estrangeiros, outro com portugueses. Seria talvez demasiado megalómano, mas já tinha tudo preparado, antes de ter o meu filho. Depois foi o caos, fiquei completamente perdida. E isso está também neste disco.
Desorientação – daí estas direções todas?
            Claro!
Mas no estrangeiro, independentemente do nome da artista, não querem acima de tudo ouvir fado?
            Pelo contrário. As pessoas que vêm aos meus concertos, vêm ouvir-me a mim. É claro que antes as coisas não funcionavam assim, o meu concerto era vendido como um concerto de fado. Hoje é a Cristina Branco e acabou. As pessoas que ainda associarem o meu nome ao fado estão enganadas.
Ainda há as guitarras…
            Sim, e essa ligação manter-se-á. A sonoridade da guitarra é muito importante para aquilo que faço.
Há quem diga que a sensibilidade, a emoção com que canta em “Ulisses” é a mesma do fado, mas então...
            …tudo seria fado! O que não é verdade. Houve mesmo quem dissesse que “A case of you”, da Joni Mitchell, era “fado urbano”!...
Chegámos, pois, à Joni Mitchell. Aqui o passo foi mesmo arriscado…
            Tem um percurso semelhante ao meu, a vários níveis. Ela fala da vida como eu a interpreto. E há muitas particularidades na vida dela que se assemelham à minha. Por exemplo, estar sempre à margem da popularidade, ir sempre pelo caminho que acho ser o correto. Conheço a Joni Mitchell desde pequenina. “A case of you” é uma das canções mais especiais dele. Toda a gente canta o “Both sides now” ou o “Black crow”, mas “A case of you” tem a ver com o caos e a decadência.
Porquê essa preocupação com o caos e a decadência?
            Porque tenho que compreender, para continuar, para seguir em frente. Enquanto se vive dentro de uma bolha, no meio do caos, consegue-se sobreviver, deixando que as coisas aconteçam. A vida está bem. Mas fazer um disco como este obriga a entrar no caos e a tentar perceber, a tentar resolver algum caos interior. Entro dentro dos autores que canto…
Vitorino, Fausto e José Afonso são três desses autores em que entrou.
            A letra do Vitorino, de “Navio triste”, foi escrita de propósito para este disco. “Porque me olhas assim” é uma das baladas de amor do Fausto, aquele seu outro lado, para mim o mais sedutor. É costume olharmos para o Fausto como um cantor de intervenção, com aquele ar muito “José Mário Branco”! Não é nada! É um génio que gosta de viver naquele caos, com um lado muito bonito.
            O José Afonso é uma paixão. Quando há aqueles concertos de homenagem, onde estão presentes os meus cantores de eleição, vou sempre ouvi-los. As músicas do Zeca têm algo que já não acontece mais e não sei se voltará a acontecer, que é simplicidade aliada a uma genialidade indescritível. “Redondo vocábulo” é, de novo, e assumidamente, sobre o caos, todas as imagens que passam por dentro cada vez que nos encontramos num momento de desespero.
Depois há Camões, Vasco-Graça Moura, José Luís Gordo, Júlio Pomar, Mourão Ferreira…
            O Vasco Graça-Moura também escreveu de propósito o “Cristal” para “Ulisses”, bem como José Luís Gordo, com o “Sete pedaços de vento”. Mourão-Ferreira é incontornável, tem que aparecer sempre. Aquilo que tem de simples, tem de genial, tudo o que está por detrás das palavras… Vou sempre descobrindo coisas movas. É o meu Ary dos Santos! O “Circe”, do Júlio Pomar, foi ele que me pediu para cantar uma coisa dele, na festa de lançamento de um livro, com a música feita em tempo “record”. O tema é o amor mais sensual, como é o de “Sensus”.
E há “Gaivota”, o único fado de “Ulisses”…
            Muito antes de me oferecer um disco da Amália, o meu avô, que gostava muito de ler e de música, mostrou-me esse poema e leu-mo. Quando o ouvi pela primeira vez cantado, já o meu avô tinha desaparecido, foi “chocante” sentir a ligação entre a música e as palavras como me tinham sido lidas.
Entre todas estas viagens, há alguma direção que se sobreponha às outras?
            É o meu disco mais pessoal, o disco das minhas vontades. Ao contrário dos outros, este não é inocente. Por muito confuso que seja, por mais confusão que cause às pessoas, sobretudo as que vão escrever sobre ele (risos), é mesmo assim, a minha desconcertação interior. Não sei se todos os poemas convergem para o mesmo centro ou se divergem para sentidos diferentes.
É o primeiro disco seu editado no formato Super Áudio CD. Teve alguma influência nesta matéria?
            Sim, apeteceu-me que as coisas soassem todas grandes. Som de filme. E as fotografias da capa pertencem todas à sessão de “Sensus”. Também me recusei a fazer fotografias. Convivo muito mal com a minha imagem. Odeio fazer televisão, tirar fotografias. Não gosto de me ver. E depois de ter o filho, estava zangada, não me apetecia fazer nada. Ainda pensei em pedir ao Júlio Pomar para me fazer uma capa, até porque uma parte da obra dele é dedicada ao Ulisses e às sereias, mas depois ambos concluímos que não era por ali, o formato é muito pequeno, não iria revelar nada da sua obra nem sobre mim.
O nascimento do seu filho foi importante na génese de “Ulisses”?
            Sim, enquanto nómada que sou, não há um sítio geográfico que eu defina como minha casa. A minha Ítaca é, definitivamente, o Martim, o meu filho.

01/09/2021

Cristina Branco - Ulisses

 21|JANEIRO|2005 Y
discos|roteiro

 

as viagens de cristina branco

 
Pronto, ela decidiu, está decidido. Para Cristina Branco o fado já faz parte do passado. Ela já tinha, aliás, avisado antes. Que não era uma fadista, mas uma cantora. “Tout court”. “Ulisses” sela a transição, já encetada no anterior “Sensus”, do fado para a canção popular urbana. Não vale a pena sequer congeminar se, ao nível do substrato emocional, esta é ainda uma música marcada pelo fado. Não é. A emoção que atravessa “Ulisses”, um álbum de viagens, não é exclusiva do fado mas a emoção que desde o início de uma carreira milimetricamente talhada, Cristina e o seu companheiro Custódio Castelo foram aos poucos e metodicamente abrindo e burilando. “Ulisses” confirma a excelência de uma voz e um ecletismo de estilo que já se adivinhavam. Num panorama de vozes femininas que já albergava nomes como os de Amélia Muge, Filipa Pais e Né Ladeiras veio agora juntar-se o de Cristina Branco, com uma música cujas raízes mergulham na tradição, seja esta tradição o da música folclórica, de cantautores como José Afonso, Vitorino, Fausto e Joni Mitchell, ou da veia modernizadora das composições originais assinadas por Castelo. Em qualquer dos casos a versatilidade e plasticidade vocal de Cristina Branco são notáveis, a par da riqueza do timbre, acentuada ainda mais nesta edição pelo registo em super áudio CD.
            Depois de ensaiar de início com o sotaque brasileiro e com a língua castelhana, a cantora atinge um “Redondo vocábulo” o primeiro pico de “Ulisses”, naquela que será uma das melhores versões de sempre deste tema de José Afonso. Logo a seguir, a operação de risco que é pegar numa canção de Joni Mitchell, revela-se totalmente conseguida. Cada canção da compositora canadiana é, por si só, uma viagem e “A case of you”, do álbum “Blue”, não é exceção. Cristina Branco entra de coração aberto no coração deste novo universo. “Navio triste”, de Vitorino, e “Porque me olhas assim”, de Fausto são outras interpretações sem falhas e “Choro (ai barco que me levasse”) exala o discreto odor a nostalgia das gerações mais antigas da música popular portuguesa. Custódio Castelo assegura até ao final que “Ulisses” continue a viajar sobre as nuvens, seja sobre os versos de Paul Éluard (com a língua francesa a exigir uma abordagem mais física e rasgada que Cristina por enquanto não lhe consegue arrancar), de David-Morão Ferreira, em “E por vezes”, uma das mais sentidas vocalizações de “Ulisses”, ou num “Cristal” em registo “neo folk” (Pentangle à portuguesa?) onde, uma vez mais, se revela fundamental o piano de Ricardo Dias. Sobram “Gaivota”, único momento de fado num álbum que perscruta mais do que as vielas e becos da tradição, e “Fundos”, a inspirar algumas dúvidas quanto ao uso de uma batida de “drum ‘n’ bass”. Tal não seria necessário para assegurar a modernidade de “Ulisses”.
 
CRISTINA BRANCO
Ulisses
SACD ed. e distri. Universal
8|10


05/11/2020

Na barca com Ulisses [Cristina Branco]

 Y 7|JANEIRO|2005

música|capa

 



na barca com ulisses

 

cristina branco

 

“Venham meus amigos, Não é demasiado tarde para partir em busca de um mundo novo, porque sempre tive o propósito de viajar para além do crepúsculo…”. Este extrato do poema “Ulysse”, de Alfred Lord Tennyson (1809-1883), impresso no interior da capa do disco de Cristina Branco, serve de legenda a um projeto de intenções que a cantora vem pondo em prática desde o início da sua carreira. “Ulisses” é mais uma viagem que parte do fado para chegar a um canto universal que tem na saudade a sua vela e a sua âncora. Cristina Branco nunca quis confinar-se à estrita condição de fadista. Isso seria limitar os seus sonhos, a inquietude de descoberta. “Ulisses” é um périplo por várias músicas, poesias, línguas e geografias.

            “Sonhei que estava em Portugal”, tema de abertura, apresenta Cristina a cantar com sotaque brasileiro um poema de João de Barro. Logo a seguir, em “Alfonsina y el mar”, o idioma escolhido é o castelhano. O sentimento ultrapassa a formulação de estilos estratificados. É uma música que a cada nota parte em demanda de novos portos. “Sete pedaços de vento” é a primeira composição com a assinatura de Custódio Castelo, uma vez mais condutor musical do projeto. Imaculada é a versão de “Redondo vocábulo”, de José Afonso, servido por distinta impressão digital do piano de Ricardo Dias.

            A surpresa surge com “A case of you”, tema de Joni Mitchell. Será caso para supor que a portuguesa e a canadiana são irmãs espirituais. Cristina toca nos timbres, nas acentuações e nas ornamentações de Joni. Joga com as mesmas luzes e sombras. O caminho fica aberto a todas as ousadias. Ricardo Dias e Vitorino criaram um ambiente que de início sugere Paredes, em “Navio triste” e “Soneto” é uma nova apropriação da poesia de Camões, com sabor a música antiga e a Chico Buarque criado por Castelo. “Choro” é equilíbrio perfeito entre a guitarra portuguesa de Castelo e o piano de Dias em notável exemplo de nova MPP com raízes na tradição folk. Depois do castelhano e do inglês, o francês é utilizado por Cristina para interpretar a “Liberté” de Paul Éluard, exercício Breliano, um tipo de energia por enquanto ainda afastada da sensibilidade da cantora. O “Cristal” de Vasco Graça Moura e Castelo é mais neo-folk-progressiva idealizada a grande altura, com sensual vocalização e “Porque me olhas assim” satisfaz as exigências da autoria de Fausto. Custódio Castelo cria sobre as palavras de David Mourão-Ferreira, Júlio Pomar e Alexandre O’Neill, respetivamente em “E por vezes”, “Meu amor corre-me o corpo” e numa “Gaivota” onde pela primeira vez a cantora assume o vocabulário e a postura fadistas. “Ulisses” fecha com um instrumental de Castelo. Chama-se “Fundos” mas tem a leveza da “new age” e, no final, a provocação de uma batida “drum ‘n’ bass”. A viagem não poderia afastar-se mais das convenções.

            Cristina Branco chama-lhe um “encontro com o amor, desta vez um amor satisfeito e assumido”, e um toque de liberdade – “de escolher um itinerário próprio ao fim da vitória sobre tantas contrariedades”.

 

CRISTINA BRANCO, Ulisses,

Ed. e distri. Universal, 10 de Janeiro

14/11/2019

Cristina Branco canta Camões e Slauerhoff no S. Luiz


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 22 OUT 2003

Cristina Branco canta Camões e Slauerhoff no S. Luiz

“De Camões a Slauerhoff”. Da poesia portuguesa à holandesa. Do fado às músicas do mundo iluminado pela voz de Cristina Branco. É o programa a apresentar esta noite no Teatro S. Luiz, em Lisboa, pela cantora que recentemente lançou o álbum “Sensus”, inspirado na poesia erótica de diversos autores, incluindo Camões.
            “De Camões a Slauerhoff” socorre-se das palavras, além das dos dois poetas citados (o holandês, Jan Jacob Slauerhoff, serviu mesmo de mote a outro álbum da cantora, “Cristina Branco canta Slauerhoff”, editado em 2000), de David Mourão-Ferreira, Alexandre O’Neill, José Régio, Pedro Homem de Mello e Amália Rodrigues, com música composta, na maior parte dos temas, por Custódio Castelo, como um tema de homenagem a Carlos Paredes. Castelo assina igualmente os arranjos e é o guitarrista (guitarra portuguesa) do grupo de acompanhamento, do qual também fazem parte Alexandre Silva (guitarra), Miguel Carvalhinho (guitarra clássica) e Fernando Maia (baixo).
            Cristina Branco iniciou a carreira em 1997, na Holanda, onde gravou e editou os álbuns “Live in Holland”, “Murmúrios” e “Post-Scriptum” (estes dois últimos premiados pela revista “Le Monde de la Musique”) e “Cristina Branco Canta Slauerhoff” (este posteriormente reeditado pela Universal, com o título “O Descobridor – Cristina Branco Canta Slauerhoff”, e incluindo três inéditos). “Corpo Iluminado”, de 2001, primeiro álbum gravado em Portugal, para a Universal, é o álbum que em definitivo lançou a cantora no nosso país, onde foi disco de platina. Se o fado é a música em que Cristina Branco mergulha as suas raízes, a verdade é que a emancipação tem sido progressiva, através da assimilação de outras linguagens musicais como a música brasileira, a música tradicional e mesmo ocasionais inflexões jazzísticas, ecletismo bem patente, de resto, no novo disco, “Sensus”.

12/02/2019

Ser fadista é entregar-se à vida [Mafalda Arnauth + Cristina Branco]


Y 23|MAIO|2003
música|fado

ser fadista é entregar-se à vida

São duas vozes capitais do novo fado. No mais recente álbum de Mafalda Arnauth, Encantamento, escutamos uma voz mais serena, alada e “cantabile” do que nos discos anteriores. Com Sensus, Cristina Branco avança mais um passo para fora do fado tradicional. Disco onde a poesia e a voz rivalizam em erotismo, tem a ousadia das coisas belas.

Depois de “Mafalda Arnauth”, produzido por João Gil, e “Esta Voz que me Atravessa”, produzido por Amélia Muge, “Encantamento” tem auto-produção da fadista. O resultado é o seu melhor álbum de sempre. Pelos temas e pela voz. A fadista tomou quase tudo em mãos. “não quis deixar nada em mãos alheias, decido assumir toda a responsabilidade. A parceria maior que tenho neste disco é o Luís Oliveira, que se encarregou da direção musical e dos arranjos. Neste disco as letras voltam a ser minhas… E a responsabilidade de algo que esteja menos bem é também minha. Digamos que a minha personalidade se tornou mais vincada. O disco resulta de um crescimento e de uma auto-descoberta tão grande que não seria justo pôr outras pessoas a assumirem a responsabilidade pelas minhas decisões”.
            Responsabilidade que Arnauth assume como fruto de uma segurança que antes não se manifestara: “uma segurança que adveio do prazer que me deu. Sou uma mistura de racional e emocional, e o racional consegue fazer uma avaliação do trabalho. O emocional voltou a ter espaço para se expressar, coisa que no segundo disco não aconteceu, por cansaço e por estar a trabalhar com pessoas com muito mais experiência do que eu, o que gerou em mim um certo respeito”.
            Algo mudou entretanto, como resultado desse processo de auto-descoberta. Mafalda centrou as atenções no corpo, forçou-o a disciplinar-se. Três fatores contribuíram para essa mudança: “O primeiro fator vital foi a saúde. O templo onde tudo isto acontece, o meu corpo. Precisava de uma paragem no final de 2001, todo o trabalho de estrada tinha sido desgastante. O segundo fator foi ter deixado de fumar. De repente pude reencontrar a minha voz e redescobrir novas possibilidades em termos de interpretação. Quando tomamos conta do nosso corpo ficamos com muito mais força para tudo o que vem a seguir. Um terceiro fator foi ter voltado a compor”.

            o fado é sereno. Desprende-se da audição de “Encantamento” uma sensação de serenidade. Sem rodeios: dos três álbuns já gravados pela fadista, “Encantamento” é aquele em que Mafalda canta melhor. Algo que nasce “da respiração, da tal história de ter acabado com o tabaco”. A fadista também teve aulas de canto, “de colocação de voz”, que a ajudaram, sobretudo a tranquilizar-se. “Não me formataram a voz mas deram-me saúde ao instrumento. Sinto que está muito bem. O sopro, a respiração é tão importante a falar como a cantar, o facto de eu conseguir fazer essa gestão do ar, põe naturalmente tudo no sítio, deixando outra margem para a inspiração. Antes era uma das minhas dificuldades. Só a insegurança, a ansiedade, só isso já aperta o ar. Quando não temos que nos preocupar com isso, a atenção passa imediatamente para outro lado”.
            O trabalho de estúdio teve a sua quota-parte nestes resultados. Mafalda teve o estúdio totalmente à sua disposição. “O Luís Oliveira e o José António Pedro, que faz o som do disco, formam uma sociedade e têm os dois um estúdio que, além de ser muito caseiro, é topo de gama ao nível técnico. Os músicos tiveram dois meses para gravar, mais um para as misturas”. Sobrou tempo. Não houve pressões. “A editora teve alguma dificuldade em perceber como é que está tanto tempo a fazer um disco. Para a maior parte das pessoas é uma loucura, ter um estúdio só para nós”.
            Preocupações que não são vulgares nos fadistas vulgares mas que Mafalda Arnauth considera essenciais. Funcionou uma filosofia de vida que passa pela aprendizagem constante. “Enquanto estudei Veterinária tive uma cadeira, de Toxicologia, que me abriu os olhos para o ser humano hoje e como era há 30 anos atrás. Em 30 anos, os nossos corpos deixaram de ser as forças da natureza que eram. Não digo que toda a gente seja assim, mas eu pago mais caro do que as outras pessoas. Apesar de ter um corpo forte, com personalidade, sinto que sou frágil. O ritmo da vida é hoje superior, o stress que apanhamos, a comida, tudo nos fragiliza. Tive que encontrar uma disciplina. É claro que há outras pessoas que continuam a ser forças da Natureza, por mais que façam as maiores desgraças”.
            Há quem diga que quanto maiores são os excessos melhor se canta o fado. Para Mafalda, não. “Até há quem diga que eu, neste momento, tenho voz a mais…”, diz a sorrir. Como é isso? “Voz a mais, por se sentir menos esforço a cantar, sem aquela necessidade de sofrimento que ainda está um bocadinho inerente ao canto”. Em “encantamento” sente-se o prazer. Incluindo “o prazer que se pode tirar das próprias dificuldades”. “porque o percurso deste disco é extremamente doloroso, fruto do tal crescimento”, diz a fadista. “Tentei fazer algo feliz de um processo que foi doloroso”. Ser fadista é, então, uma “filosofia de vida”, uma “entrega à vida”. Filosofia que pratica, “embora não os mesmos núcleos nem nos mesmos ambientes” que fizeram o fado no passado. “Ser fadista é isso, é a pessoa que vive, que absorve uma quantidade de experiências e que as transporta para o canto. O que eu absorvo é que é diferente do que absorve a maior parte das pessoas. Continuo a sentir um canto melancólico. Hoje já consigo ver nas fadistas da minha geração as suas diferenças”. E vê-las assim: Cristina Branco, “cada vez mais uma fadista que se alimenta da poesia”, Mariza, a “fadista de faísca, de garra”, Mísia, “uma fadista cosmopolita”. Cada uma delas “a absorver várias áreas do mundo”.

            matar saudades. Mafalda Arnauth continua a frequentar as casas de fado. Para “matar saudades”. Dá razão a Argentina Santos que ainda há pouco tempo dizia ao Público que é impossível aos novos fazer carreira sem passar pelas casas de fado. “Passei por lá e continuo a sentir a necessidade de ir, mas não no mesmo formato. Se já não vou com a mesma frequência é porque foi lá que aprendi, nem tudo coisas boas. Mas a minha natureza não se enquadra numa casa fechada. Argentina Santos tem o seu trono, o seu lugar de culto. Se um dia tiver a minha casa de fados, naturalmente que também terei que estar lá. Mas hoje prefiro ir cantar a uma casa de fado e sentir gozo do que estar lá uma noite inteira. Até porque nós, da nova geração, tornámo-nos umas “pequenas estrelas”. Numa casa de fado onde está alguém a cantar diariamente, com uma entrega total, não tenho coragem de chegar lá, e por ter algum estatuto, chegar, cantar cinco ou seis fados e ir para casa. Estaria a obrigar alguém, provavelmente muito mais cansado do que eu, a ter que cantar outra vez. É um respeito que continuo a ter”.

            o problema dos títulos. “Encantamento” termina com um “Fado Arnauth”. A própria não receia ser acusada de pretensiosismo e explica a razão de ser do título: “esse título existe porque estive dois ou três meses a tentar dar títulos às músicas o que, com a SPA [Sociedade Portuguesa de Autores], é impossível. Têm sempre registado um título igual! Por exemplo, tinha ‘Na palma da minha mão’, mas não dava, tentei cinco ou seis títulos, acabou por ter que ser ‘Da palma da minha mão’. O ‘Fado Arnauth’ foi “Feitiço’, o ‘Sem limite’ não pôde ser ‘Sem limites’, ‘Bendito fado’ teve que ficar ‘Bendito fado, bendita gente’, ‘É sempre cedo’ chamava-se ‘Acorda coração’… Impressionante. O “Fado Arnauth” foi um relâmpago, nascido da frustração.”
            E “Encantamento”, foi também assim? “Esse foi um encantamento total. Um cantamento, encantamento que vem do canto. Um encantamento com a vida que passa. Porque é que, de repente, me sinto uma pessoa saudável? Há quem diga que o desapego à vida, um instinto anti-vida, é necessário. Eu penso precisamente o contrário, acho que este encantamento vem de cantar à vida, da superação do dia-a-dia. A minha vida será tanto mais rica quanto mais gostar até das coisas menos boas. Embora hoje este amor pela vida esteja algo ‘démodé’… Já esteve mais na moda ser-se feliz.”
            Também a síndrome ‘Nova Amália’ esteve mais na moda. Hoje “as novas fadistas que estão a aparecer têm o cuidado de ter particularidades próprias, uma personalidade marcada”. Mafalda Arnauth até exagera um pouco, a ponto de continuar sem gravar um único fado de Amália. Lá virá o dia. “Hei-de fazer isso! Mas quando o fizer, não serão só fados dela. Será como uma prenda que darei a mim própria”.

“Encantamento” é composto por 14 temas, com música de Luís Oliveira e poemas de Mafalda Arnauth, à exceção de “As Fontes”, de Sophia de Mello Breyner, “Cavalo à Solta”, com letra de Fernando Tordo, e “No teu poema”, com versos de José Luís Tinoco. Acompanham a fadista José Elmiro Nunes (guitarra portuguesa), Luís Oliveira (guitarra clássica) e João Penedo (contrabaixo). Os convidados são João Ferreira Rosa, em “Da palma da minha mão”, e a cantora de jazz Mónica Ferraz, em “Ó voz da minha alma”.

eros é branco

“Sensus” é um disco de poesia erótica de autores luso-brasileiros como Vinicius de Moraes, Chico Buarque, David Mourão-Ferreira, Pedro-Homem de Melo, Camões, Vasco Graça Moura, Maria Teresa Horta, Pedro Támen e Eugénio de Andrade. Com William Shakespeare a deitar também a sua pitada de sal a uma música em que Custódio Castelo se encarrega de dar sentido aos sons.
            Tudo partiu de um poema de David Mourão-Ferreira que deu o nome ao álbum anterior de Cristina Branco, “Corpo Iluminado”. Mourão-Ferreira volta a estar presente, desta feita, com “Assim que te despes”. Assim Cristina Branco se despe de preconceitos. Fado dos sentidos. Fado-carne. Fado picante? Cristina garante que se sente, neste novo registo, “como peixe na água”.
            A capa calhou ficar talvez um pouco sugestiva demais, provocando todo o tipo de associações. A cantora não tem culpa, ri-se com gosto e salta imediatamente para o cerne da questão: “Toda a gente pensa logo, poesia erótica e tal…”. É este “tal” que importa esclarecer. Tenham clama, é tudo científico: “inicialmente pretendi que fosse um documento sobre a sociedade portuguesa desde a época medieval até agora. Como é que os portugueses viam a sexualidade. Acabou por não ser, porque entretanto tropeçámos no Shakespeare, no Vinicius e no Chico…”. Apesar da vertente didáctica, Cristina assume que “Sensus” tem “uma linguagem mais ousada, embora sem cair no óbvio”, do que os álbuns anteriores.
            Mas “Sensus” fala de sexualidade ou de erotismo? “Tem as duas coisas. Sem utilizar as palavras concretas”, como faz questão em frisar. “Pastoras da estrela”, um dos belíssimos temas de “Sensus”, composto por Miguel Carvalhinho, soa a música antiga, situando o fado nas noites trovadorescas de antanho. É pecado, clamariam as vozes censoras. É pecado sentir e tirar prazer da música. “Sensus” destila esse pecado e quem nos absolverá desta luxúria? “A abordagem musical do Custódio tem algo que bebe em tempos muito remotos”. A voz de Cristina faz o resto, lançando-nos no caminho da perdição.
            Sem misericórdia pelos fracos, Cristina garante que “ainda pretende ir mais longe”. Na revolução do fado, bem entendido. E recorda que, nos primórdios, o “fado era cantado por prostitutas”, o que lhe conferia um carácter, digamos, não de pecado mortal, mas venial.
            Quanto a Cristina Banco, o seu canto afasta-se cada vez mais das formas tradicionais do fado. “Porque não contar apenas uma história?”. As histórias de “Sensus” incluem um “Soneto de separação”, de Vinicius de Moraes, “O meu amor”, de Chico Buarque, “Ninfas”, de Camões, “Soneto destruído”, de Graça Moura, “As mãos e os frutos”, de Eugénio de Andrade e “O sabor de saber”, de Rui Branco. Histórias, afinal, de amor que uns dizem que vem antes e outros que vem depois. Cristina Branco destaca uma, “O meu amor”, uma espécie de “impressão digital”. Começa assim: “O meu amor/Tem um jeito manso que é só seu/E que me deixa louca/Quando me beija a boca/A minha pele fica toda arrepiada/E me beija com calma e fundo/Até minha alma se sentir beijada”.

Tocam em “Sensus” Custódio Castelo (guitarra clássica, baixo), Alexandre Silva (guitarra clássica), Fernando Maia (baixo), Miguel Carvalhinho (guitarra clássica), André Dequech (piano) e Ben Wolf (contrabaixo).

11/11/2016

Fado iluminado [Cristina Branco]

CULTURA
DOMINGO, 20 MAI 2001

Fado iluminado


Não é só o corpo, mas a alma e a voz de Cristina Branco que são banhados pela luz. Hoje à noite o fado iluminado canta-se no CCB

Não gosta que digam que é uma emigrante. Mas o equívoco encontra alguma justificação no facto de Cristina Branco passar mais tempo no estrangeiro, onde os compromissos para concertos são muitos, do que na sua casa em Almeirim, onde acaba por vir “apenas para dormir de vez em quando” ou “para fazer as malas” antes de partir para uma nova viagem. “Sempre que dou um espetáculo novo em Portugal é por turrice própria”, diz.
            Além disso a sua carreira tem sido construída, em termos discográficos, toda ela na Holanda, onde registou até à data os álbuns “Cristina Branco in Holland” (1997), “Murmúrios” (1998), “Post-Scriptum” (1999) e “Cristina Branco Canta Slauerhoff” (2000), o que também terá contribuído para um menor interesse da parte das editoras nacionais, ainda que todos estes discos, chegados ao mercado português por via da importação direta, tenham esgotado ao fim de pouco tempo. “Murmúrios” chegou a ser apresentado a um selo português, “mas não se interessaram”, diz Cristina Branco, lamentando o desinteresse da outra parte, para a qual “apostar no disco seria quase um incómodo”. Na Holanda, pelo contrário, a editora Music & Words agarrou de imediato neste trabalho que viria a receber um galardão do jornal “Le Monde”, para melhor álbum de música internacional do ano.
            Com o novo “Corpo Iluminado”, título inspirado numa expressão de David Mourão-Ferreira, o caso poderá mudar de figura, uma vez que se trata do primeiro disco da fadista, ou “cantora de fado”, como ele gosta de ser chamada, a ter distribuição em Portugal, pela Universal. Para a fadista “foi criada finalmente uma base sólida” que permita criar sem sobressaltos.
            Os empresários portugueses também não têm sido magnânimos nos convites endereçados à fadista. “Só consegui apresentar cá o ‘Post-Scriptum’ porque insisti em apresentar o disco em Portugal, nunca nenhuma sala de concertos me telefonou, ou ao meu agenciamento, a manifestar algum interesse, uma vez mais, valeu a minha turrice...”.
            Não é um queixume, mas apenas a verificação de um facto. A “cantora de fado” explica-o pela sua maneira de ser, “uma personalidade diferente”: “Não gosto de me vender!”. Os outros vendem-se? “Eventualmente, ou pelo menos vendem-se melhor do que eu, mas isto não é de forma nenhuma uma crítica, mas apenas a minha maneira de estar”.
            Diferente é também a forma como encara o fado, o que, na sua opinião, tem criado algumas barreiras entre si e o público português, o qual, diz, “não está muito aberto” ao tipo de trabalho que faz. “Apresentamos o nosso fado em concerto, nunca na versão a que as pessoas estão habituadas. Quando vão a um teatro ver fado estão à espera de encontrar seis ou oito pessoas a cantar, ainda não existe aquela visão do concerto, numa aceção clássica. Ainda não interiorizaram que o fado pode contar uma história a solo, em vez de mostrar apenas retalhos de cada pessoa, sem nunca se perceber o que essa pessoa é verdadeiramente”.
            A sua é uma história que toca no fado com sofisticação, elegância e uma beleza luminosa, raramente trágica. E, em “Corpo Iluminado”, pela poesia de David Mourão-Ferreira, Ary dos Santos, Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Alegre, Luís Vaz de Camões, Pedro Homem de Mello, Vasco de Lima Couto, Maria Duarte e Fernando Pessoa. Aqueles em cujos poemas, “normalmente enclausurados nos livros”, Cristina Branco encontra “uma música implícita”. O álbum fecha com uma vocalização “a capella” do tradicional “Molinera” — “gravado num só take e um pouco a minha impressão digital. É um tema que conheço há muitos anos, do primeiro álbum dos Trovante, e que costumava cantar na garagem dos meus pais, quando era miúda”.
            No concerto desta noite Cristina Branco apresentará temas pertencentes à totalidade da sua discografia, mais três ou quatro fados “mais tradicionais”, de Amália Rodrigues. Terá a seu lado os mesmos músicos que a acompanham em “Corpo Iluminado”: Custódio Castelo (compositor, autor dos arranjos e guitarra portuguesa), Alexandre Silva (guitarra) e Fernando Maia (guitarra baixo), e o convidado Miguel Carvalhinho (guitarra clássica) que também participa no disco.

CRISTINA BRANCO
Lisboa, Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém. Às 21h30
Tel. 213612400. Bilhetes a 2500$00 e 3500$00.

18/10/2016

Festival de Sines a roçar a perfeição

CULTURA
DOMINGO, 28 JULHO 2002

Festival de Sines a roçar a perfeição

Cristina Branco, Hedningarna e David Murray foram os primeiros trunfos do 4º Músicas do Mundo que este fim-de-semana decorreu em Sines.
World music soletrada com as letras da diferença

Fenomenal. Atingido o quarto ano de vida, o festival Músicas do Mundo (FMM) de Sines atingiu um nível qualitativo de se lhe tirar o chapéu. Dom som e das luzes à qualidade da música e ao ambiente que se respira dentro e fora do castelo onde os concertos têm lugar, tudo tem funcionado a roçar a perfeição. Cristina Branco e Hedningarna (no dia de abertura, quinta-feira), David Murray Big Band e Los de Abajo (sexta-feira) rubricaram atuações memoráveis, qualquer delas representativa de um conceito de world music que não se esgota na prática de fórmulas ortodoxas.
                Há quem se irrite ao ver entrar e sair sons politicamente incorretos pela porta de emergência da tradição. Houve quem se irritasse e comentasse rabugento que o que Cristina Branco canta não é fado mas, que raio, “a rapariga até tem voz”. Ela esteve-se nas tintas e, simplesmente, cantou, mais solta e sensual do que alguma vez a vimos e ouvimos em palco. Numa entrega à noite, à luz e às notas de guitarra que Custódio Castelo lhe ia lançando em dádiva e desafio.
                A fadista, perdão, a cantora não receou tocar na memória de Amália, navegando nos “Barcos negros” da saudade, como não hesitou em timbrar a voz na música popular ou no pós-fado-canção marcado pelo mesmo registo de nobreza melódica que João Braga introduziu na música de Lisboa. “Corpo iluminado” e “O descobridor” deram o mote, mas também já as melodias do próximo álbum, “Nu”, que será sobre poesia erótica. Custódio Castelo liderou o grupo de guitarras numa sequência instrumental que revisitou Paredes e iludiu a redundância, aglutinando, colorindo e trocando as certezas ao flamenco, à música árabe, às escalas chinesas e ao… fado. Castelo poderá ser, caso queira arriscar ainda mais nas notas que tem dentro de si, um igual de Stephan Micus.
                Cristina Branco mais do que uma grande intérprete, não do fado mas do sentimento que este encerra e que de tão português é universal, mostrou estar disposta a ir ainda mais longe. Pelo caminho, que poucos ousam da transcendência.

Da folk a um Big Mac latino
Mas a noite tinha reservadas outras maravilhas. Bem mais violentas, por sinal. Os Hedningarna cumpriram o que deles se esperava, dando da folk com origem na Suécia a imagem de combustão de passado e futuro, em que diabos e anjos dançam de mãos dadas. Com o violinista, Magnus Stinnerbom, a fazer as vezes de “showman”, e os veteranos Anders Norudde e Hallbus Totte Mattsson a usarem o “harding fiddle”, a gaita-de-foles e a sanfona como armas de guerra, a surpresa maior veio das duas cantoras, a regressada Tellu Virkkala e Liisa Matveinen, esta última verdadeiramente endiabrada. Cantaram canções para expulsar demónios, apaparicaram o amor numa tijela de sarcasmo, oferecendo um romance escrito com as letras de uma “Pornopolka”, da mesma forma que autorizaram o silêncio quando as respetivas vozes se entrelaçaram na nudez sem proteção do canto “a capella”. Quer dizer: a máquina Hedningarna carburou a cem por cento. Resultado: quando o grupo se quis ir embora, ninguém deixou. Três encores souberam a pouco. Acontece que um avião – explicaram – esperava por eles dali a poucas horas para os levar para nova arena de combate.
                Na sexta-feira, a world music chamou-se jazz. E também neste caso, como no de Cristina Branco, a música desencadeou resistências. Entre quem, em tom de desdém, falasse em “jam session”, e a mais do que imerecida inexistência de pedido de encore, a “big band” de David Murray deu lições a quem quisesse aprender. Embora o contexto e os músicos fossem cubanos (“Havana Moods”, assim vinha anunciado no programa), o jazz, sem facilitismos, foi o grande triunfador. Sem recurso a etiquetas. A Cuba que esteve em Sines foi a de filial importante do jazz. E David Murray foi o mestre que se conhece. Pena, desta vez, e só desta, Sines não ter entrado “in the mood”: se, como diretor da orquestra, foi mais instigador e organizador de sensibilidades do que disciplinador, como solista chegou a ser exaltante. Do seu saxofone tenor – daqueles que têm dentro toda a história do jazz e ainda espaço para o que não vem escrito nos compêndios – saíram passes de sabedoria. Na memória ficará um solo absoluto, feito de arrojo, grito e oração (e alguma mágoa…) que deixou claro que o “free” não é, nunca foi, sinónimo de desordem mas a demanda de uma ordem nova. O espírito de Albert Ayler chegou a pairar no ar. Com a diferença de que Murray é uma alma “civilizada”…
                A fechar a noite de sexta-feira, o FMM abriu alas à tourada. Os mexicanos Los de Abajo não estiveram com meias medidas. Levaram tudo à frente com o seu Big Mac de salsa, reggae, cumbia e latinidades várias para dar ao pé. O público entrou no bailarico.

Festival Músicas do Mundo anima Sines por três dias

CULTURA
QUINTA-FEIRA, 25 JULHO 2002

Festival Músicas do Mundo anima Sines por três dias

HEDNINGARNA EXPLOSIVOS HOJE NO CASTELO

Pelo quarto ano consecutivo, o castelo de Sines abre as portas à “world music”. É o festival Músicas do Mundo. Com Cristina Branco, Hedningarna e David Murray. Com fogo e estrelas

Alentejo. Sines. O castelo. Lá dentro. Foi aí, em Sines, como diria o ilustre professor José Hermano Saraiva, abrindo muito os braços e olhando de frente para a câmara, que nasceram Vasco da Gama (o descobridor) e, há menos tempo, o festival Músicas do Mundo, dedicado à chamada "world music", versão não facciosa.
                Este ano, quarto de uma vida ainda curta mas já recheada de história (a primeira edição decorreu em 1998 e daí para a frente o certame rapidamente se institucionalizou no panorama dos festivais do género), o programa é, uma vez mais, de se lhe tirar o chapéu, destacando-se como cabeças-de-série os suecos Hedningarna e o saxofonista de jazz (mas sabe-se como o jazz é adaptável...) David Murray com a sua "big band". Mas todos os outros prometem: Cristina Branco, Los de Abajo, Popa Chubby, Yat-Kha, Mabulu.
                Os concertos decorrem ao ar livre, no interior das ameias do castelo e, atendendo a que as noites no Alentejo litoral costumam ser nesta altura aprazíveis, o cenário não poderia ser mais convidativo: Música, mar e estrelas. E, no encerramento, como de costume, a euforia dos sons misturados com fogo-de-artifício.
                Cristina Branco é a primeira a atuar no Músicas do Mundo. Ser ou não ser fadista é questão de somenos, que se apaga perante a evidência de uma voz e uma presença iluminados. Branco é fusão das sete cores do arco-íris. A música de Cristina Branco (e do seu marido e guitarrista Custódio Castelo) é esse espectro de luz em cuja ponta está deposto um tesouro.

Funk iconoclasta
Já as cores dos Hedningarna tendem para o vermelho vivo da iconoclastia. Quando, já vai fazer uma década, editaram o álbum "Kaksi", o mundo da música folk entrou em paroxismo e nunca mais voltou a ser o mesmo. De então para cá estes suecos que se auto-intitulam "pagãos" têm vindo a suavizar a sua fúria e a reconciliarem-se com as raízes que ajudaram a arrancar, mas a originalidade do projeto permanece intacta e são sempre de esperar surpresas vindas do casamento contranatura, mas neles tão eficaz, entre a eletricidade, sanfonas e gaitas-de-foles possessas e o gelo que queima das tradições escandinavas.
                David Murray em contexto cubano abre a porta do castelo na noite de amanhã. Murray é um notável (ou um dos "notáveis") saxofonista tenor, absolutamente esplendoroso no registo da balada, mas cuja imperiosa necessidade de gravar o faz dispersar-se entre as cinco estrelas que premeiam os marcos do jazz ("The Hill", "Deep River", "Ballads", "Special Quartet", "Body and Soul") e "blowin' sessions" tão tecnicamente irrepreensíveis quanto inconsequentes. Traz a Sines, onde já esteve o ano passado, a sua "big band" e o projeto "Havana Moods". Esperam-se mambos e boleros. O que não admira – se nos lembramos que já se rendera no passado ao ritmo do samba – nem amedronta, se nos confortarmos na certeza de que o seu saxofone tenor fala sempre mais alto.

Moçambique em Sines
A fechar sexta-feira, Los de Abajo. Mas vão acima, não abaixo. São mexicanos e não levam as convenções musicais muito a sério, como o Porto já pôde verificar num dos seus "Ritmos do Mundo". Hip-hop, rock, punk, merengues, rebeldia e cowboiada fazem o cocktail. Como na cidade do México, cabe lá tudo. Nada de subtil, mas o pé bate e a boca sorri. Gravaram um álbum para a Luaka Bop, de David Byrne. Bom sinal.
                Sábado, último dia do Músicas do Mundo, começa com Popa Chubby. A fórmula é, como a dos mexicanos, permissiva, neste nativo do Bronx com má pinta mas um amor sem limites pelos blues, o punk, o rock e o hip-hop. Já disse: "O meu objetivo final é escrever a perfeita canção de três minutos como se fosse o último encontro de Hendrix, Coltrane e Bird, com as líricas de Tom Waits." Coisa despretensiosa. Falta cumprir.
                Os Yat-Kha tocarão, mas sobretudo cantarão, como se canta em Tuva, e em mais parte nenhuma do globo – com a garganta aberta para as profundezas da alma e a capacidade de emitir dois sons em simultâneo. A terminar, vindos de Moçambique, atuam os Mabulu, nomeados para os "BBC Awards for World Music" do ano passado, finalistas do "Kora, All Africa Music Awards" e autores dos álbuns "Karimbo" e "Soul Marrabenta". A tradicional marrabenta encontra o hip-hop. Moçambique encontra Sines. Encontram-se todos com o fogo. O de artifício e o outro.

PROGRAMA
CASTELO DE SINES, ENTRADA LIVRE

HOJE
Cristina Branco 21h30
Hedningarna 23h

AMANHÃ
David Murray Big Band 21h30
Los De Abajo 23h

SÁBADO
Popa Chubby 21h15
Yat-Kha 22h45
Mabulu 24h

Cristina Branco, a descobridora

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 5 JULHO 2002

Cristina Branco, a descobridora

HOJE E AMANHÃ NO TEATRO TIVOLI, EM LISBOA

É fado. Não é fado. É a música de Cristina Branco, uma luz que se insinua

Cristina Branco irradia simpatia. Há uma luminosidade que se desprende da forma simples e direta como fala e se entrega ao instante. Luminosidade da voz e da música. "Corpo Iluminado", álbum de 2001 desta "cantora de fados" (como gosta de se intitular), nomeado para o Prémio José Afonso deste ano, representa um dos momentos de exceção da nova geração de vozes femininas que trouxeram para o fado uma noção renovada de rigor e transparência emocional.
                Foi o seu primeiro disco a ter distribuição portuguesa, pela Universal. O segundo é "O Descobridor – Cristina Branco canta Slauerhoff" (Jan Jacob Slauerhoff, poeta holandês amigo de Portugal, conhecedor de Fernando Pessoa, do fado e da saudade, em quem Cristina descobriu parentesco espiritual), lançado na Holanda há cerca de dois anos, mas só agora distribuído por cá.
                Foi na Holanda que Cristina Branco construiu os alicerces da sua carreira. Portugal tem vindo a descobri-la aos poucos. Devagar. Hoje e amanhã, no Teatro Tivoli, em Lisboa, haverá nova oportunidade para ver e ouvir ao vivo esta intérprete para quem o fado é apenas uma divisória de uma casa maior.
                O próximo disco, já com o título escolhido de "Nu", incidirá sobre a poesia erótica. Lá mais para a frente seguir-se-á outro, de música lusófona com raízes em África. O fado dança no meio de tudo isto. Com as guitarras em fundo a chorar – mas também se chora de alegria – o acompanhamento.

Crescimento interior
Ao cabo de quatro álbuns de estúdio – antes de "Corpo Iluminado", a cantora já lançara "Murmúrios" e "Post-Scriptum", ambos premiados pelo "Le Monde de la Musique" como melhores álbuns de "músicas tradicionais", respetivamente de 1999 e 2000 –, Cristina Branco considera estar "mais crescida, não só como cantora mas também como pessoa". A tristeza de Slauerhoff não é a "sua" tristeza, mas um sentimento observado e sentido à distância. Como fazem os estetas.
                "Cada álbum, cada concerto, cada ano que passa, significa crescimento interior. Aprendo montanhas de coisas de cada vez que enfrento o público, de cada vez que enfrento a mesma música, mesmo depois de a ter cantado 20 vezes".
                Cristina Branco está certa. A vida é uma escola. Ou devia ser, porque quase todos se recusam a aprender. Antes de ser escola é teatro. Depois de escola será templo. É para lá que a música transporta os músicos que ousam navegar. Branco canta luz. No Norte, na Holanda. No Sul, em Portugal. Públicos diferentes recebem essa luz de maneiras diferentes. E reagem de modo diverso. "Talvez também seja eu, a minha maneira de reagir a públicos diferentes... É mais fácil reagir a um público estrangeiro do que a um público português. É limitativo ter um público que fala e que percebe português à minha frente, não sei o que hei-de dizer...".
                Refere-se ao que rodeia a música, às explicações em palco, ao espetáculo circundante. Ao que não fazendo parte da música lhe é ritual exterior. "É a minha timidez. Se falar em francês ou inglês cria-se uma barreira de proteção, que se torna confortável...". Mal começa a cantar, porém, a música "afasta todos os problemas".
                Existe um processo, um método em tudo isto. Uma estratégia de vida e uma ferramenta de criação. Cristina Branco sorri mas receia, enfrenta mas esconde-se, como uma ave que esvoaça à procura do beiral perfeito para se deixar estar. "O estúdio é o momento de descoberta de mim própria e do que vou cantar. É lá que absorvo a realidade da música composta pelo Custódio [NR: Custódio Castelo, marido, guitarrista, compositor e arranjador de todos os seus discos], em que a música se casa com o poema. Também um momento de dúvidas em que chego a pôr tudo em causa".
                Hoje em dia já consegue controlar esses receios. Porque tudo "tomou entretanto proporções diferentes". "A minha vida é isto", diz. A presente entrevista teve como pano de fundo a música de "O Descobridor – Cristina Branco Canta Slauerhoff". Um pouco a contragosto da cantora, que se considera a si própria a sua crítica mais severa ("não gostava nada da minha zona grave"...), mas também a mais sincera e entusiasta ("gosto da forma como me entrego, da minha interpretação...).
                Num instante, porém, em que a atenção se desviou das palavras para a música, o sorriso rasgou-se: "A voz, aqui, já gosto dela! Sou eu, é a minha história."

Cristina Branco
LISBOA Teatro Tivoli.
Tel.: 213572025. Hoje e amanhã, às 21h30. Bilhetes entre 14 e 22 euros.