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03/10/2025

Cocteau Twins - Heaven Or Las Vegas

 QUARTA-FEIRA, 3 OUTUBRO 1990 POP ROCK

 

O MUNDO IMPONDERÁVEL

 

COCTEAU TWINS
Heaven or Las Vegas
LP e CD, 4AD, distri. Anónima

 

Título enigmático como sempre acontece quando a dupla Elizabeth Fraser/Robin Guthrie se decide a passar para o vinil, encantamentos e fantasmas. Ao lado dos seus principais rivais, Dead Can Dance, os Cocteau Twins integram a elite mais atmosférica da editora de Ivo Russell. Voando através de diferentes estratos da atmosfera, os dois grupos perseguem o sétimo céu. Se em “Aion” os Dead Can Dance recuaram decididamente em direção às brumas e invocações do passado, folgando e fulgindo em épocas medievais e renascentistas, os Twins flutuam ainda e sempre num território indefinido, limbo inebriante, a que se acede por áleas difusas, estados de alma particulares, propícios ao fruir das fragrâncias vocais de Elizabeth Fraser. Em relação a álbuns anteriores os céus possuem agora fundações mais sólidas. A voz ancora-se em estruturas rítmicas definidas, na forma de canções, em vez dos habituais esboços de contornos mutáveis. Na aparência, pode parecer não ser o método ideal para o espraiar de todas as potencialidades do canto. A audição de “Heaven or Las Vegas” prova o contrário: num contexto formal declaradamente pop (em que quase se adivinham refrões e o dialeto secreto da cantora se abre, por vezes, a termos linguisticamente perceptíveis...), os arabescos vocais de Liz Fraser ganham uma maior concentração, como se, ao invés de longas e abstratas divagações, se procurasse agora, em cada tema, canalizar um ambiente preciso, evocar um espectro particular, sugerir um determinado perfume. Como as imagens de um quadro ao qual se acrescentou uma moldura. Temas como “Iceblink Luck” (editado em single) ou “Heaven or Las Vegas” (com a voz de Fraser quase agressiva, lembrando Chryssie Hynde nas entoações), são dos poucos imediatamente identificáveis com esquemas musicais de anteriores trabalhos. Nos restantes assiste-se ao germinar de novas estratégias, com Robin Guthrie e Simon Raymonde, concedendo papel determinante ao baixo e aos sintetizadores na criação dos ambientes sobre os quais sonha e bruxuleia a voz da fada. “Pitch the Baby” e “I hear you Ring” são intrincados labirintos vocais, diálogos a duas e três vozes, (no segundo Liz veste a pele de Kate Bush e entretém-se a brincar na casa dos espelhos), teias onde as emoções se enredam, estradas que vão dar a lado nenhum, paisagens, miragens percorridas em estado de encantamento – como num sonho. Diáfana e poderosa, a música dos Cocteau Twins gira eternamente, renovando a cada rotação, o colorido, o ritmo e a velocidade. O essencial permanece imutável: um universo à parte na atual música popular, de fronteiras bem delimitadas e paradoxalmente difíceis de localizar – “esfera cujo centro está em toda a parte e a calote em lado nenhum” – segundo a asserção alquimista. ***

08/11/2008

Em inglês é que a gente se entende [Cocteau Twins]

Pop Rock

27 de Abril de 1994

EM INGLÊS É QUE A GENTE SE ENTENDE

Em “Four-Calendar Cafe”, o mais recente álbum dos Cocteau Twins, Elizabeth Frazer canta pela primeira vez apenas em inglês. Depois do ensaio geral empreendido no anterior “Heaven or Las Vegas”, no qual esta língua fazia já uma tímida aparição. Até então, em álbuns como “Garlands”, “Head over Heels”, “Treasure”, “Victorialand” e “Blue Bell Knoll”, a sua voz entoara invocações na forma de onomatopeias que permitiam ao canto voar sem restrições.

Nos antípodas do rock, a música do grupo formado por Fraser, Robin Guthrie e Simon Raymonde veiculava uma estratégia de indefinição – das palavras sem significado mas também no nevoeiro sonoro tecido pela guitarra de Guthrie – que então ajudava a criar o que se viria a chamar o “som 4AD”, editora onde a banda gravou toda a sua anterior discografia.
“Four-Calendar Cafe” marca uma inflexão na carreira e na música dos Cocteau Twins. Coincidindo com a mudança de editora, da 4AD para a Fontana, subsidiária da multinacional Polygram, o novo álbum, para além da mudança de agulhas linguística, aponta de forma inequívoca para uma pop mais convencional. Se ao longo da obra anterior desta banda escocesa só com alguma boa vontade se poderiam chamar canções aos esboços impressionistas que nessa altura lhe conferiam uma aura de originalidade e de diferença (estética que os Cocteau Twins levaram ao extremo e à incursão no ambientalismo da escola de Brian Eno, quando do seu encontro com o pianista Harold Budd, no álbum “The Moon and the Melodies”), em “Four-Calendar Cafe” os novos temas respeitam sem grandes desvios este formato.
Poderemos ainda verificar nesta mudança a tentativa, da parte da banda, de encontrar uma via de compromisso que lhes permita reproduzir ao vivo os ambientes e arranjos característicos dos discos. Recorde-se que até há bem pouco tempo os Cocteau Twins sempre tinham manifestado relutância em tocar ao vivo, reconhecendo deste modo a impossibilidade de, em concerto, fazerem justiça ao som de estúdio.
Perante esta alteração de métodos não falta quem acuse a banda de se vender em nome do mais que provável aumento de venda dos discos. Se este passo era ou não inevitável só a consciência dos músicos o poderá dizer. Certo é que o grupo conseguiu chegar ao topo das listas independentes mas não se contenta em ficar por aí, perseguindo a partir de agora objectivos mais vastos e, porventura, mais rentáveis.
Veremos se com a sua primeira apresentação em Portugal os Cocteau Twins confirmam esta hipotética apetência por horizontes comercialmente mais largos ou se, pelo contrário, mantêm intacta a integridade artística, apenas deslocando os passos para uma estrada com mais faixas e, vá lá, bem menos sinuosa. Ou ainda se as palavras do discurso musical e críptico da fase pré-linguística se transformaram em vulgar conversa de café.

LISBOA, COLISEU DOS RECREIOS, 27 DE ABRIL
PORTO, COLISEU DO PORTO, 29 DE ABRIL
BRAGA, T-CIRCO, 30 DE ABRIL