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03/12/2025

O cântico dos eletrões [Editora Badland]

 

Pop Rock

 

1 MAIO 1991

 

O CÂNTICO DOS ELETRÕES

 

O catálogo francês Badland, especializado em música electrónica, passou a ter representação em Portugal, através da Ananana, coletivo apostado em divulgar os sons alternativos que vão surgindo um pouco por todo o planeta. Os discos, capazes de fazer as delícias dos amantes dos “bits” e “bites” musicais, podem ser obtidos via postal.

Do programa de intenções da Badland, que prevê apenas a edição de discos compactos, consta a gravação e distribuição de obras incidindo nas diversas áreas da denominada “new music” – do rock alternativo às músicas electrónica, minimal, progressiva, repetitiva, “new wave”, industrial, “funk” e étnica. Para já, os seis volumes até agora editados incluem-se no território vasto da electrónica e refletem, segundo a própria editora, “uma alteração de tendências no mundo da música”. Passemos em revista os discos em questão, do primeiro ao mais recente.

Robert Rich cria música capaz de provocar estados físicos e psíquicos de relaxação, propícios ao sonho e à contemplação. Do seu currículo fazem parte  uma obra de nove horas ininterruptas de música electrónica, baseada em “ondas vibratórias que induzem ao sono”, e uma escultura “quadrifónica com três ‘lasers’ apontados a uma fonte”. Integrou grupos de música ritual/industrial e “rítmica minimal”. “Numera” estende-se por atmosferas oníricas, vibrando em cristais de silêncio no interior de uma imensa catedral. Avançando para além do conceito “ambiental”, Robert Rich prolonga os transes hipnóticos de Klaus Schulze até os diluir no espaço estelar. O disco, construído sobre “sistemas de entoação precisa”, dá uma atenção particular às “séries harmónicas”, o que não chega para nos tirar o prazer da sua audição.

Dos seis discos, “Flow” é o mais fraco do lote. Praticantes de “high-tech dance music”, os Quiet Force são óptimos a demonstrar as possibilidades da nova tecnologia áudio. Os computadores e sequenciadores não têm segredos para eles. Falta-lhes conhecer o mais importante: saber transformar a luxúria digital em música interessante e inovadora.

“Traces”, do compositor norueguês Erik Wollo, figura desde já como uma obra-prima definitiva das novas correntes da música electrónica. “Ambiental”, “romântica”, “impressionista”, “étnica”, são outras tantas designações incapazes de descrever e englobar a riqueza e sobrenatural beleza de uma música que parece mover-se noutras esferas. Erik Wollo serve-se dos sintetizadores e de toda a panóplia electrónica ao seu dispor, como se fossem desde sempre instrumentos da floresta e do mar. Transcendente.

Mais próximo da sensibilidade rock, seja lá o que isso for, “The Secret Convention”, assinado pelos Propeller Island (alter-ego do alemão Lars Strosschen), joga num experimentalismo divertido, aliando os ritmos maquinais dos sequenciadores a atmosferas estranhas em constante mutação, capazes de provocar no auditor um estado de constante surpresa e excitação. Na caixa, somos avisados de que certos efeitos mais bizarros se devem não a um qualquer defeito de fabrico, mas à própria estrutura musical.

Conrad Schnitzler, um dos fundadores da escola “planante” berlinense dos finais da década de 60, integrou a formação original dos Tangerine Dream, ao lado de Klaus Schulze e Edgar Froese. Mais tarde passou pelos Cluster (de Dieter Moebius e Joachim Roedelius). Trabalhou com Peter Baumann (outro ex-Tangerine Dream, actual responsável pela editora Private Music). Detentor de uma já extensa discografia a solo, ou em dueto com o experimentalista americano Gen Ken Montgomery, sob a designação “Gencon”, Conrad Schnitzler tem, contudo, em “Constellations” a sua primeira edição em CD. Música dita “de computador”, “Constellations” viaja durante mais de uma hora pelo interior de uma “realidade virtual”, alucinatória e deslumbrante, sensibilizando o auditor para novas formas de sentir e compreender a organização dos sons.

“Solo: Observed” – título estranho para a música do duo Becker/Lehnhoff composta exclusivamente através de processos computorizados, dificilmente se descreve por palavras. Há quem se lhe refira como uma “pintura surrealista de Berlim no ano 2000”. Gravado nesta cidade, com o auxílio de Chris Franke (ainda um ex-Tangerine Dream…), “Solo: Observer” explode em múltiplas direções. Ritmos rock, fragmentos de vozes e sons transformados via “sampler”, naipes orquestrais sintéticos, entrelaçam-se e colidem entre si, criando um universo paralelo cuja lógica obedece exclusivamente aos arquétipos significantes do inconsciente.

“Polyrische variationen”, do alemão Stefan Tiedje (a Alemanha sempre à frente, no capítulo da música eletrónica), revela-se uma obra mais conceptual, mas não menos interessante. Um dos temas (“The Voice”) é construído a partir de um “sample” da voz de Diamanda Galas. Outro (“Water you Have for”), criado em 1987, para o Festival “White Waves”, utiliza tratamentos electrónicos de sons oceânicos. “Murmelmusik”, declaradamente ambiental, procura, nas palavras do compositor, criar “um efeito semelhante ao murmúrio do riacho”.

Refira-se por último que na Ananana se podem encontrar obscuras preciosidades, em álbuns de Asmus Tietchens, Blackhouse, Esplendor Geometrico, Jeff Greinke, Jorge Reyes, Roedelius, Mecanica Popular, Pascal Comelade, Peter Frohmader, PGR, Reyvision, Thomas Koener ou Vasilisk, alguns de entre muitos nomes e mundos a descobrir (Ananana, apart. 3164, 1304 Lisboa).

 

18/05/2018

The ultimate trip



Fernando Magalhães
24.06.2002 020243

...Com CONRAD SCHNITZLER e o álbum "Constellations" (Ed. Badland,1987).

Dois únicos temas: "First constellation" (30'10) e "Second constellation" (38'50).

Duas viagens pelo cosmos que exploram as profundezas eletrónicas mais escuras de "Phaedra" e "Rubycon", dos TANGERINE DREAM, aos quais CS aliás já pertenceu, na primeira formação.

Parte-se numa nave em direção ao desconhecido, com várias etapas que permitem a contemplação auditiva de diversos momentos sónicósmicos. Paisagens geladas cortadas por auroras boreais a la STEVE ROACH/BIOSPHERE, borbulhar de mares de mercúrio, vozes "alien" aprisionadas em estranhas emissões de rádio galácticas, as surpresas surgem a cada momento, levando o cérebro para pontos cada vez mais afastados. Tão longe como...

"Though I'm past one hundred thousand miles/I'm feeling very well/And I think my spaceship knows which way to go...

Can your hear me, Major Tom?

Can you...?

Here am I floating round my tin can/Far above the moon/Plant Earth is blue/And there's nothing I could do".

David Bowie, in "Space oddity"

...E, mais além, o infinito...

in "2001 - A Space Oddity"-

FM

08/08/2011

A arte de caminhar no reino dos zombies [Reedições]

25 de Fevereiro 2000
REEDIÇÕES

A arte de caminhar no reino dos zombies

Com “The Art of Walking” de 1980, e “Song of the Bailing Man”, de 1982, fica completa a série de reedições de toda a fase inicial dos Pere Ubu, iniciada com “The Modern Dance” (1978), “Dub Housing” (1978) e “New Picnic Time” (1979). Os Pere Ubu foram provavelmente o grupo mais importante de uma geração onde também pontificaram os Devo e os Talking Heads. Na região metalúrgica de Cleveland, o niilismo punk, ao contrário do que, na mesma época, acontecia com os grupos ingleses, a raiva muniu-se de tecnologia electrónica e do conceito de “mutação”, fruto de um ambiente marcado pela infecção e pela toxicidade industrial. Mas os Pere Ubu, além de revoltados, eram intelectuais para quem gritar de revolta não chegava. Era preciso juntar-lhes uma carga de absurdo e de onirismo que eram uma outra forma de dar nome e exorcizar o pesadelo. “The Art of Walking” é uma ginástica de sobrevivência, feita de gestos de marioneta e de canções aparafusadas directamente aos nervos, onde David Thomas dá livre curso à sua loucura de criança magoada a quem arrancaram uma infância feliz. Nos Pere Ubu, a electrónica, aliada ao rock e à esquizofrenia iluminada, fere e faz sangrar. “The Art of Walking”, avançando aos tombos e às cavalitas da histeria do seu vocalista, é a arte de aproveitar e sobreviver a essa dor.
Menos convulsivo mas mais variado do que o seu antecessor, “The Song of the Bailing Man” arrancou as correias que prendiam o grupo na câmara das torturas, aliviando o sofrimento ora num swing jazzístico de sopros e vibrafone, ora em incursões nevróticas por um parque de diversões onde o algodão não é doce e há uma banda de metais com marcianos a tocar. David Thomas diverte-se a inventar vozes ridículas e a cuspir setas de kitsch envenenado, mimando as canções românticas da América dos filmes para logo a seguir rachar a cabeça ao casal, “marido que chega a casa e beija a sua housewife loura de avental”. Apesar do tom mais “arty” e de uma descontracção impossível de discernir nos álbuns anteriores, são canções. E divertidas, se também nós aceitarmos ser um pouco “anormais”… (Cooking Vinyl, distri. Megamúsica 9/10 e 9/10)

Dignos de figurar no grupo dos clássicos da pop dos anos 60 é “Odessey and Oracle” dos Zombies, ombro a ombro com “Sgt. Pepper’s” dos Beatles, “Pet Sounds” dos Beach Boys e “Something Else” (e, já agora, com o brilhante e desconhecido “Grass and Wild Strawberries” dos australianos The Collectors). Lançado em 1968, foi posteriormente reeditado, em versão remasterizada, pela Rhino, tendo a presente reedição (de 1998, comemorativa dos 30 anos da edição original) a particularidade de apresentar duas versões completas do álbum, em mono e em stereo, além de três temas extra. Com base nos talentos do organista Rod Argent e das vocalizações de Colin Blunstone, os Zombies assinaram aqui a sua obra-prima em 12 temas de pop imaculadamente composta, arranjada e executada. Orquestrações de luxo, melodias e harmonias de uma doçura feita de sonhos, um piano tocado pelo homem-da-lua, guitarras à descoberta de si próprias, criam um universo de canções-arco-íris como a trip completa de “Changes”, o épico recheado de efeitos e mudanças de registo vocal, um pouco à maneira de uns Incredible String Band espaciais, “Butcher’s tale (western front 1914)” ou, a fechar, “Time of the season”, um dos “hits” do grupo. Um caleidoscópio em constante mutação, símbolo de toda uma época (Big Beat, import. Lojas Valentim de Carvalho, 10/10).

Mergulhados em LSD estavam os norte-americanos Pearls Before Swine, ao ponto de o seu vocalista, Tom Rapp, dar ideia de ter abusado nas doses e perdido todos os seus dentes, a julgar pela forma como canta na canção que abre “One Nation Underground” (1967), “Another time”, um hino psicadélico com uma melodia viciante, apesar da tal vocalização do tipo “velho yankee desdentado” e de uma letra a perguntar “Did you follow the crystal swan? Did you see yourself deep inside the velvet pond? Or have you come by again to die again? Try again another time”. A abarrotar de sons “pedrados” atirados para a mesa de mistura de maneira aparentemente aleatória e de melodias no limite da desbunda, “One Nation Underground” consegue, apesar de tudo, soar menos desconjuntado, atrevendo-se mesmo a fazer alguma crítica social, do que o álbum seguinte “Balaklava”, gravado para a mesma editora “freak ESP”. A capa é uma miniatura em cartão fiel ao original, com a gravura de “O Jardim das Delícias”, do pintor holandês do Renascimento, Hyeronimus Bosch. (Get Back, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10)

Das fábricas da Alemanha, chega “Produkt der Deutsch Amerikanische Freundschaft”, ou seja, o álbum de estreia dos D. A. F., de 1979, ainda sem o vocalista-gigolo espanhol Gabi Delgado e com Kurt Dahlke, também conhecido por Pyrolator e, mais tarde, elemento dos Der Plan. É uma correria de temas com a duração média de um minuto de punk-metal electrónico. Urgente, compulsiva e ruidosa, versão mais rock e espontânea dos Einstürzende Neubauten da qual viria a nascer, nos álbuns seguintes, a batida erótico-militarista que viria a tornar-se imagem de marca do grupo. (Mute, distri. Zona Música, 7/10)

Ainda da Alemanha louve-se a primeira reedição em compacto de “Rot”, “Vermelho” (1973), segundo álbum de Conrad Schnitzler, o baterista no álbum de estreia dos Tangerine Dream, “Electronic Meditation” (free-rock distante da música cósmica que evoluiu de “Alpha Centauri” até se cristalizar em “Rubycon”) que, ao longo das décadas seguintes, se revelaria como um dos expoentes da electrónica mais sombria e experimentalista. “Rot” é, juntamente com os primeiros discos dos Cluster (Kluster incluídos) e dos franceses Heldon, um dos trabalhos precursores da música industrial e o primeiro a apresentar uma faixa com o nome “Krautrock” (a segunda aparece no quarto álbum dos Faust), 20 minutos de borbulhar analógico, guitarras – mais do que eléctricas, que dão choque – e, em geral, um fascínio exacerbado pelos sintetizadores analógicos encarados como geradores de automatismos onde são dependuradas vísceras e cartilagens electrónicas. O outro tema, “Meditation”, é uma longa sequência electrónica fabril, pondo a funcionar uma gigantesca linha de montagem de engrenagens, roldanas, metal fundido e maquinismos ameaçadores. (Plate Lunch, distri. Matéria Prima, 8/10)