Mostrar mensagens com a etiqueta Chieftains (The). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Chieftains (The). Mostrar todas as mensagens

08/02/2018

O despertar dos mágicos [4º Festival Intercéltico do Porto]


Pop Rock

31 MARÇO 1993

O DESPERTAR DOS MÁGICOS

Barzaz e Battlefield Band preenchem o cartaz musical do primeiro dia do festival. Vibrantes os primeiros, transportam consigo a força dos rochedos e das ondas do mar que esculpe as costas da Bretanha. Mais serenos os segundos, abrigados de momento na calma enseada de um lago escocês.
            Inseridos no movimento de renovação da tradição musical bretã encetada nos anos 70 por Alan Stivell, os Barzaz resultam da confluência de projetos anteriores dos seus membros, investidos da missão de levar a música da Bretanha aos círculos exteriores do mundo celta. Assim, na árvore genealógica do grupo descobrem-se os ramos Skolvan, Galorn, Kornog e La Mirlintantouille. Os Barzaz fazem da beleza, por vezes rude, da música bretã uma arma contra aqueles a quem a história da Bretanha, “secreta e controversa”, incomoda, os mesmos que “ocupam os lugares do poder” e que interpretam essa História “de forma a melhor poderem dispor das suas gentes e do seu tempo”.
            Os Battlefield Band são a instituição folk por excelência da Escócia. “Forward with Scotland’s Past” é o seu lema. Existem há décadas e passaram incólumes pelas tempestades. Da formação original resta o vocalista e teclista Alan Reid. O espírito, esse, manteve-se. Traçaram ao longo de uma vasta discografia os contornos da tradição escocesa sem nunca voltarem costas as problemas sociais do presente. Juntam o canto da tragédia à dança e aos ritos da terra. O novo álbum, “Quiet Days”, é mais intimista que os anteriores. Uma pausa e um segredo entre o clamor da batalha.

A voz e o fogo

            Sexta-feira é dia ibérico. Atuam Uxia e os Sétima Legião. Para a cantora galega Uxia significa o regresso ao Intercéltico, depois da sua aclamada participação, no ano passado, no projeto "Bailia das Flores” de Tentúgal. Uma voz, belíssima, com frequência desaproveitada. Esteve ligada ao grupo Na Lua onde a sua luz depressa começou a ofuscar os restantes músicos. Disse uma vez numa entrevista: “O importante nun cantor ou cantora é que prevaleza a voz; calquera instrumento que a oculte dificulta a sua comprénsion.” Não por acaso, o melhor trabalho dos Na Lua, “Estrela de Maio”, é aquele em que as vocalizações de Uxia surgem com maior proeminência. Abandonou entretanto o grupo para gravar um álbum algo incaracterístico, “Entre Cidades”, onde é sensível a falta de uma direção definida. Porque não reatar as maravilhas do seu primeiro trabalho a solo, “Foliada de Marzo”?
            Quanto aos Sétima Legião, cujo último álbum, “O Fogo”, foi mal recebido por alguma crítica, vão apresentar no Intercéltico um espetáculo especialmente concebido para o efeito que privilegiará as conotações célticas da sua música. Ao vivo, costumam criar um ambiente festivo, bastante diferente da melancolia que caracteriza os trabalhos discográficos da banda. Veremos se é desta que acendem o fogo.

Celebração

            Absolutamente a não perder, o terceiro e último dia do Intercéltico. Com dois grupos de passado diferente mas ambos de qualidade musical fora de série: Barabàn, de Itália, e Chieftains, os reis magos da folk irlandesa.
            Formados em Milão em 1982, os Barabàn dedicam-se ao estudo e interpretação da música do Norte de Itália, em particular da Lombardia e do Piemonte. Em disco, assemelham-se em sonoridade aos La Ciapa Rusa, seus vizinhos piemonteses. Baladas, canções de embalar, cantos satíricos e militares ou de protesto, cantigas de jograis e outros modos característicos da tradição (jigas, valsas, alessandrinas, monferrinas, curentas, sestrinas, “carmagnolas”, tuninas, “saltarellos”,…), recolhidos, na maioria, por Aurelio Citelli e Giuliano Grasso, compõem o reportório básico dos Barabàn, servido pela utilização de instrumentos típicos da região: o “organetto” diatónico, flautas, ocarinas, sanfona e, claro, o “piffero” e a “musa” (incluindo a variante solista, a “piva”), a gaita-de-foles do Piemonte. Vão ser decerto, a par dos Barzaz, uma das revelações do festival.
            Finalmente, os Chieftains encerram em glória o festival. Já não há palavras que cheguem para traduzir a importância desta banda lendária. Hoje, os Chieftains, como se tivessem uma varinha mágica, transformam em ouro tudo o que tocam. Depois de anos e anos a levarem ao mundo a música da Irlanda, passaram a trazer a música do mundo para a Irlanda. E a tranformá-la por dentro. Levaram os caminhos da Irlanda ao encontro da China (“The Chieftains in China”), da Bretanha (“Celtic Wedding”) e dos Estados Unidos (“Another Country”). Cumpriram o ciclo nesse ritual apolíneo de convergência dos povos celtas que é “Celebration”.
            Autêntica universidade da tradição onde lecionam alguns dos melhores instrumentistas da Irlanda, os Chieftains iluminaram diversos aspetos da cultura e da História desta nação onde ainda habitam as divindades antigas. O rock presta-lhes atualmente vassalagem. Eles retribuem e convidam músicos desta área para participar nos seus álbuns, mantendo intacta a originalidade e a magia. Mas acabam sempre por regressar ao altar verde da única religião que professam – a música da ilha que lhes é exterior e interior, a Irlanda. O novo álbum, “The Celtic Harp”, tem a participação da Belfast Harp Orchestra. Nesta segunda vinda dos Chieftains a Portugal, ouçam-nos com os sentidos alerta, mas também com o coração.
            Todos os espetáculos no Teatro Rivoli, com início às 21h30.


ATIVIDADES PARALELAS

CONFERÊNCIAS: “L’Art des Celtes”, 1 de Abril, no Institut Français do Porto, e “L’Europe des celtes, Véme-Ier siècle a. C.”, dia 2, na Faculdade de Letras do Porto, ambas por Venceslas Kruta.

EXPOSIÇÕES: “Instrumentos Populares Portugueses”, 26 de Março a 18 de Abril, na Rua da Reboleira, Ribeira.
“Suonatori e Strumanti Popolari de’ll Apenninni”, 30 de Março a 3 de Abril, no Teatro Rivoli.

ARTESANATO: “Pablo Leal – Um artesão galego”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.

VIDEORAMA: “Imagens Musicais Intercélticas”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.

DISCOS/REVISTAS: “A música celta e a folk europeia”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.

TEMPO LIVRE: “Vidicuestla – o jogo de xadrez celta”, 1 a 3 de Abril, Teatro Rivoli.


PEREGRINOS

O Festival Intercéltico do Porto, chegado à quarta edição, tornou-se uma instituição. Mais do que uma série de espetáculos musicais de música tradicional, o Intercéltico é um local de peregrinação onde, no princípio da Primavera, arribam os apreciadores e amantes destas músicas com raiz na eternidade.
São três dias de festa no verdadeiro sentido da palavra; de celebração, de “diálogo e convívio entre as diferentes músicas e tradições de povos com um passado comum”, como afirma a organização. Os concertos podem ser melhores ou piores, mas o ambiente é único. Come-se bem, bebe-se melhor, ouve-se música, mergulha-se no âmago de uma cultura que também é a nossa. “Celta”, ou “céltico”, o termo está hoje na moda. Mas por detrás do folclore e das imagens que vão formando o “puzzle” de uma Europa genuína, está o amor a uma causa e muito trabalho. Porque nem só de música vive um festival, a organização (desde a primeira hora da responsabilidade da equipa da MC-Mundo da Canção) compreendeu a necessidade de um enquadramento à altura. É assim que, uma vez mais, o Intercéltico apresenta uma lista de atividades paralelas, que neste anoo incluem conferências, exposições, videorama, artesanato, banca de discos e revistas e a iniciação ao vidicuestla, o antigo jogo de xadrez celta.
Para completar o círculo (ou a espiral…), refira-se ainda a publicação, à semelhança do que aconteceu nos anos transatos, de um livro-programa de 160 páginas sobre o festival, com informação detalhada sobre toda a programação, incluindo textos e discografias dos artistas presentes, uma “bibliografia céltica”, uma compilação das leis (delirantes) dos Brehons, ou seja, as leis antigas da Irlanda, e até esquemas pormenorizados de algumas jogadas de vidicuestla… Um elogio especial para Mário Correia, d organização, pelo notável trabalho de investigação e divulgação levado a cabo.
Agora é tempo de fazer as malas, rumar ao Porto e viver um fim-de-semana diferente. Num tempo e num local que parecem ter sido tocados pela magia de Merlin. Na companhia das fadas, duendes e elfos que existem, porque a imaginação os materializa. O Festival Intercéltico é essa teia cruzada do mito com a atualidade, do ancestral com o moderno. Ritual de comunhão com a nossa identidade mais profunda.

Pela lei e pela grei [4º Festival Intercéltico do Porto]


4 NOVEMBRO 1992

PELA LEI E PELA GREI

Chieftains, Battlefield Band e Barabàn são os nomes já confirmados para o Festival Intercéltico do Porto, cuja quarta edição terá lugar nos próximos dias 1, 2 e 3 de Abril, no Teatro Rivoli. Este ano vais er possível conhecer os “suonattori” dos Apeninos e participar num torneio de xadrez celta. Se levar vacas, tenha cuidado. Se é mulher, prepare-se, ou não para gritar. E nunca, mas nunca, puxe os cabelos a um padre.

Para além daquelas bandas, encontra-se em fase de negociações a vinda de um grupo da Bretanha (que poderá bem ser um dos nomes sonantes da editora Keltia) e outro da Galiza. Prevê-se ainda, à semelhança das edições anteriores do festival, a atuação de uma banda portuguesa.
            Algumas atividades paralelas – que muito contribuíram para o sucesso e ambiente de festa que caracterizaram as anteriores edições do Intercéltico, este ano, como sempre, organizado pelo MC - Mundo da Canção – estão já confirmadas, como uma exposição sobre os “suonattori” ou tocadores de “piffero” (instrumento de palheta dupla parente da bombarda) e “musa”(gaita-de-foles) dos Apeninos, que será acompanhada de um “workshop” dirigido por Giuliano Grasso, membro dos Barabàn.
            Para os estudiosos, apreciadores ou simples curiosos de tudo o que se relaciona com a cultura celta, está reservada uma surpresa: a apresentação e realização de um mini-torneio de xadrez celta, uma variante deste jogo com regras próprias, descoberta a partir de estudos e recolhas efetuadas na Irlanda e na Bretanha.

Bárbaros

            Uma pequena exposição alusiva ao tema “As antigas leis da Irlanda”, com possível edição de uma brochura, dará a conhecer certas idiossincrasias da personalidade dos antigos irlandeses. Legislação que nada deixava ao acaso e sobre matérias tão díspares como os direitos cívicos do gado bovino e da mulher (desde que gritasse) ou ofensas dirigidas a um membro do clero (desde que fosse virgem). Por exemplo, era ilegal “expor uma vaca ao perigo derivado dos cães vadios e dos piratas”. Sobre as práticas, presumivelmente sexuais, levadas a cabo sobre lençóis ou sobre a relva, a lei era um pouco mais elaborada: “se uma mulher concordar em ir para a cama ou para trás de uma sebe com um homem, este não pode ser considerado culpado mesmo que ela grite. Mas se ela não concordou, ele é culpado, desde que ela grite”. Dos desagravos aos membros do clero se diz que “por puxar os cabelos a um bispo casto, a multa é de um bezerro de um ano por cada vinte cabelos arrancados”. Estas leis permaneceram em vigor até ao século XVI e ao reinado de Isabel I, altura em que foram abolidas, por terem sido consideradas “bárbaras”.

Embaixadores

            Dos grupos já agendados no programa, os Chieftains, cabeças de cartaz da edição número quatro do Intercéltico, são o que se pode chamar uma lenda viva da Irlanda e os representantes legítimos da música tradicional desta Ilha, no resto do mundo. Estiveram em Portugal em Setembro passado, na Festa do “Avante!”, onde rubricaram uma atuação com sabor a alguma frustração. Nem o local nem o contexto eram os mais propícios para uma música feita de pormenores e subtilezas estilísticas, manifestando os Chieftains, logo nessa ocasião, o desejo de voltar. Em condições diferentes, de modo a poderem tirar o máximo partido da excelência instrumental em que são mestres. Até Abril, vale a pena recordar ou descobrir discos como “The Chieftains 5”, “Bonaparte’s Retreat”, “Boil the Breakfast early”, “The Chieftains 10”, “Celebration”, manifestos inspirados da tradição musical da Irlanda. Enquanto não chega o novo disco, intitulado “Another Country”, no qual os Chieftains voltam a desempenhar o papel de anfitriões, num trabalho de levantamento das relações entre a música irlandesa e a “country” americana que inclui como convidados, entre outros, Emmylou Harris, Ricky Scaggs, Chet Atkins, Willie Nelson e os Nitty Gritty Dirt Band.
            Não menos importantes, os Battlefield Band desempenham na Escócia o mesmo papel que os Chieftains na Irlanda, de embaixadores da música tradicional do seu país no estrangeiro. Autêntica instituição, a banda chegou ao ponto de organizar anualmente um festival próprio, o “Battlefield Band’s Highland Circus” e de emprestar o seu nome a uma corrida de cavalos. Da formação original dos Battlefield Band, e ao fim de 15 anos de carreira, apenas resta o teclista e vocalista Alan Reid que virá a Portugal acompanhado por Alistair Russell (guitarra, cistro, voz), Iain MacDonald (Highland pipes, flauta, whistle) e John McCusker (violino, whistle, acordeão, teclados).
            Nos concertos, os escoceses são um espetáculo de energia e entusiasmo. Sempre imprevisíveis, é frequente alternarem em “medleys” diabólicos, temas tradicionais como outros estilos musicais, desde canções dos Beatles e dos Creedence Cleawater Revival a clássicos de rock’n’roll, versatilidade essa patente no álbum ao vivo “Home Ground”, gravado em 1989. De uma discografia que compreende até à data 10 álbuns de originais, recomenda-se “Home is where the Van is” (1980), “There’s a Buzz” (1982), “Celtic Hotel” (1987) e o volume dois de “Music in Trust” – de parceria com a harpista Alison Kinnaird – banda sonora de uma série televisiva sobre os patrimónios arquitetónico e paisagístico da Escócia. Todos eles com o selo Temple e disponíveis no nosso país.

Lombardos

            Originários da região de Milão, os Barabàn poderão ser uma das revelações do festival. Movendo-se numa área próxima à dos piemonteses La Ciapa Rusa, os Barabàn fazem o levantamento de temas tradicionais da Lombardia, região do Norte de Itália, a Leste do Piemonte, adaptando-os, numa fase seguinte, a arranjos da sua autoria que incluem o uso imaginativo dos computadores. A música resultante é ao mesmo tempo complexa e espontânea, terna e extrovertida, sem nunca perder de vista a visão intuitiva do mundo e o telurismo que caracterizam o modo de ser tradicional. Os Barabàn são Vincenzo Caglioti (acordeão, voz), Aurelio Citelli (voz, teclados, sanfona, percussão), Giuliano Hrasso (violino, viola, voz), Guido Montaldo (“piffero”, flautas, clarinete, voz) e Paolo Ronzio (guitarra, “piva” [outra variante de gaita-de-foles], “musa”, bandolim, voz). Têm gravados três álbuns: “Musa di Pelle, Pinfio di Legno Nero…”, na Madau Dischi e, na editora própria Associazione Culturale Barabàn, “Il Valzer dei Disertori” (considerado pela “Folkroots” o melhor álbum de música tradicional italiana de 1987) e “Nequane”, um disco espantoso, na linha de “Faruaji”, dos Ciapa Rusa, inspirado num ritual de invocação à chuva celebrado na localidade de Valcamonica. “Naquane” e “Il Valzer dei Disertori” vão ser editados brevemente em Portugal pelo Mundo da Canção.

17/08/2016

The Chieftains + Boys Of The Lough

Pop Rock

12 MAIO 1993

A HARPA NO ALTO DO MONTE

THE CHIEFTAINS
The Celtic Harp (8)
CD RCA Victor, import. Bimotor e VGM

BOYS OF THE LOUGH
The Fair Hills of Ireland (7)
CD Lough, import. Etnia

Na Irlanda é altura de aniversários. Chieftains e Boys of the Lough, dois dos mais prestigiados grupos de música tradicional deste país, abrem garrafas de champanhe – melhor dizendo, de um Jameson velhinho – e brindam à saúde. “Here’s to the company!”
A banda de Paddy Moloney, que há pouco mais de um mês deu “show” no Festival Intercéltico do Porto, faz a festa por interposta pessoa, na homenagem a Edward Bunting, que, em 1792, convocou durante um festival organizado pela Belfast Harpist Society, os dez melhores harpistas da Irlanda e compilou posteriormente sucessivos manuscritos com partituras de harpa.
A 12 de Maio do ano passado, faz hoje precisamente um ano, os Chieftains tocaram num espetáculo de gala realizado no Ulster Hall, na companhia da Belfast Harp Orchestra e, mais tarde, no Barbican Hall, em Londres. Desses dois concertos, foram gravados quatro temas ao vivo para inclusão neste “The Celtic Harp”, com as restantes faixas registadas no lendário Windmill Lane Studio, em Dublin, e nos estúdios de Frank Zappa (amigo dos Chieftains), em Los Angeles.
Quanto aos Boys of the Lough limitaram-se (!) a festejar 25 anos de carreira, com a modéstia dos grandes, através de “mais uma coleção de música tradicional”, como eles próprios dizem.
Dos Chieftains já tudo ou quase tudo se disse. Atualmente, passeiam a sua classe pelo mundo, contactando com as suas diversas culturas, que trazem para o convívio da Irlanda, desta feita, contudo, aproveitaram a homenagem a Bunting para pôr em destaque a harpa, o antigo instrumento tocado pelos bardos guerreiros da Irlanda antiga. Álbum sereno, de respiração ampla, navegando nas tonalidades aquáticas da harpa, guardou espaço para os traços mais nostálgicos da tradição irlandesa. Quatro temas constituem outros tantos solos de Matt Molloy, em flauta, Derek Bell, na harpa, Paddy Moloney, nas “uillean pipes”, e Kevin Conneff, numa vocalização “a capella”.
Quanto aos “rapazes do lago”, cumprem com merecimento a modéstia da sua proposta, em “The Fair Hills of Ireland”, enésima revisitação dos “reels”, “jigs”, “airs”, polcas e outros modos tradicionais que já entraram na rotina dos nossos hábitos de audição. Com inevitável competência e alguns momentos e maior brilhantismo – aqui a belíssima balada “Ban chnoic Erin O”, num diálogo de exceção entre a voz, o violino (Aly Bain é o elementos dos Boys com maior índice de virtuosismo) e o piano –, ou de exotismo, como é o caso da tradução ao vivo, em “The hunt”, de uma caçada à raposa, na qual o violino de Aly Bain perde completamente as estribeiras. Registe-se ainda a voz “a capella” de Cathal McConnell (excelente flautista, exemplar a sua execução em “The midsummer’s night”), em “The Wind that shakes the barley”, modalidade pouco habitual na música deste grupo. E chega de Irlanda, durante uns tempos.
Um último brinde, vindo da Escandinávia: chegou finalmente aos escaparates o álbum “Kaksi!” dos Hedningarna.

Hip, hip, hurra!

25/02/2016

THE CHIEFTAINS + BERT JANSCH + JOHN RENBOURN + FAIRPORT CONVENTION

Y 19|ABRIL|2002
roteiro|discos

THE CHIEFTAINS
The Chieftains 7
The Chieftains 8
The Chieftains 9: Boil the Breakfast Early
8|10
Columbia Legacy, distri. Sony Music

BERT JANSCH
Birthday Blues
Rosemary Lane
8|10
Sanctuary, distri. Som Livre

JOHN RENBOURN
John Renbourn
7|10
Sanctuary, distri. Som Livre

FAIRPORT CONVENTION
Some of our Yesterdays
6|10
2xCD Sanctuary, distri. Som Livre

bert jansch o nick drake da folk

Boas notícias para os “maluquinhos da folk”, se não no capítulo das novidades, pelo menos no das remasterizações. Os Chieftains são o que são – o rosto mais nobre da folk irlandesa. Depois da recente antologia e de um anterior pacote de remasterizações dos quatro primeiros álbuns, a operação prossegue com os capítulos 7, 8 e 9. Anos “vintage”, anteriores aos das atuais “paradas de estrelas”, concentram-se no melhor que a banda sabe fazer: folk tradicional ao mais alto nível. Os dois primeiros volumes contam pela última vez com a participação de Martin Tubridy e Seán Potts, enquanto “Boil the Breakfast Early” assinala a entrada do “virtuose” da flauta e do tin whistle, Matt Molloy, ex-Planxty e ex-Bothy Band. Para os apreciadores, a melhoria de som e a apresentação retocada, são suficientes para não fazer mais perguntas. Para os curiosos, porém, que, por qualquer fenómeno sem explicação, não conhecem os The Chieftains, estes três álbuns não terão colados o rótulo de clássicos, honraria reservada para a obra-prima “The Chieftains 5” (senhores da Sony, não se vão esquecer de o remasterizar, pois não?), “The Chieftains 10”, “Celebration” e “Celtic Wedding”, mas um só “reel” dos Chieftains vale por um baile inteiro de qualquer grupo maçarico céltico.
            Com Bert Jansch e John Renbourn, a cena muda. Eram o par de guitarristas dos Pentangle, banda britânica dos anos 60 responsável por uma fusão etérea da “albion folk” com o jazz. Bert Jansch continuou a gravar até aos dias de hoje discos importantes, como “When the Circus Comes to Town”. Mas na altura em que se fechou no estúdio para fazer “Birthday Blues” (1968) e “Rosemary Lane” (1971), a sua música denotava uma fragilidade, um cariz introspetivo e delicadas inflexões vocais que faziam dele uma espécie de Nick Drake da folk. “Birthday Blues”, colorido pelo saxofone e pela flauta de Ray Warleigh, tem metade do coração cravada nos blues e a outra metade em baladas que falam de lugares escuros, unicórnios e tempos esquecidos. “Rosemary Lane” é o “Pink Moon” de Bert Jansch. Guitarra acústica e voz formando o arame sobre o qual a voz de equilibra em delicadas melopeias e a guitarra se debruça sobre si própria em busca dos acordes essenciais.
            John Renbourn, como Jansch, um notável guitarrista, levou às últimas consequências o interesse pela música medieval, em álbuns como “The Lady and the Unicorn”, o clássico “A Maid in Bedlam” e “The Enchanted Garden”. “John Renbourn”, de 1966, constitui a sua estreia a solo e nela encontram-se referências da época que vão de Bob Dylan a Donovan, a par da raiz do “blues” e do “ragtime”. Ao contrário de “Birthday Blues” e “Rosemary Lane”, é um álbum de guitarra que convoca a tradição e as técnicas do “fingerpicking” e da “bottleneck guitar”, de uma seriedade e devoção sem reservas, mas distante do esplendor, das sacabuxas e das cromornas do Renbourn apaixonado pela Idade Média.

            Desigual e atafulhado de bons momentos misturados com lixo, “Some of our Yesterdays” repesca a música posterior a 1985 dos Fairport Convention, banda já com 36 anos de existência que inaugurou o género “folk rock” com dois álbuns fulgurantes: “Liege and Lief” (1969) e “Full House” (1970). Os medleys instrumentais demonstram que Ric Sanders, pese embora todo o seu tecnicismo como violinista, nunca conseguirá fazer esquecer a “absolute folkiness” de Dave Swarbrick, da mesma maneira que, nas baladas, a voz de Cathy Surf, em “My feet are set for dancing”, não passa de uma caricatura da da malograda e inimitável Sandy Denny. Registe-se, mesmo assim, a par de uma versão de “Gold”, de Peter Blegvad, a deliciosa “catchiness” pop de “The hiring fair”, um tema de Ralph McTell, num dos poucos momentos que quase nos fazem acreditar que os Fairport Convention poderiam ser hoje mais do que o simples cavalo de corrida em que na realidade se tornaram.

11/02/2016

Chieftains on the road [The Chieftains]

Y 8|MARÇO|2002
folk|música

chieftains on the road

Estão a comemorar 40 anos de carreira, feita de discos e concertos lendários. É grande a música. São muitos anos. É muita estrada. “The Wide World Over” é a antologia acabada de editar.

“The Wide World Over”, 39º álbum dos The Chieftains, é uma panorâmica, incompleta mas fascinante, do longo percurso do grupo pela folk, pela country e pela pop (e também pelo “reggae”…), onde estão presentes convidados do calibre de Sinéad O’Connor, Ry Cooder, Joni Mitchell, Van Morrison, Art Garfunkel, Diana Krall, Sting, Linda Ronstadt, Elvis Costello e os Rolling Stones. Três novos temas foram incluídos na retrospetiva: “Redemption song”, um original de Bob Marley, com a presença do filho, Ziggy, que é também a primeira incursão dos Chieftains no “reggae”, “Morning has broken”, um velho “hit” de Cat Stevens, com as vozes de Diana Krall e Art Garfunkel, gravado no dia de Ano Novo durante o cruzeiro pela Antártida, e o tradicional “Chasing the fox”, interpretado pela Cincinnati Pops Orchestra.
            Lendas vivas da música tradicional irlandesa, os Chieftains tornaram mais céltica a “world music”, colorindo de verde esmeralda uma vasta parcela do planeta, a partir do momento em que, nos anos 50, Paddy Moloney, Sean Potts e Martin Fay abandonaram a orquestra Ceolteoiri Chaulann, com direção do “papa” Sean O’Riada, para fundar o grupo e alargar os seus horizontes musicais.
            Jigs e reels de origem tornaram-se, desde 1964, ano do álbum de estreia dos Chieftains, o pão nosso de cada dia desta banda cujas “uillean pipes”, violino, flauta, tin whistle, concertina, harpa e bodhran soam tao naturais num pub alvoraçado como num auditório de concerto. Os Chieftains necessitavam de viajar, para partilhar, e foi a isso que se dedicaram ao longo das últimas duas décadas.
            Foram à China, dando a perceber o misterioso parentesco entre as músicas irlandesa e chinesa. Passaram pela Galiza, onde fizeram “Celebration”, com os Milladoiro. Estiveram na Bretanha para ajudar a selar um “Celtic Wedding” que é um dos clássicos da folk europeia. Nos EUA deram a conhecer “Another Country” e puseram os gigantes da mitologia céltica, os Tanatha De Dannan, a tocar banjo. Vieram a Lisboa e ao Porto, onde, numa das edições do Intercéltico, rubricaram um concerto que ficou para a história. No cinema, contribuíram para que “Barry Lyndon”, de Kubrick, acrescentasse mais uma folha ao trevo que serve de ícone da Irlanda. Tocaram com Rickie Lee Jones, Nanci Griffith, Marianne Faithfull, Jackson Browne, Tom Jones, Mark Knopfler e Júlio Pereira. Sem eles, o gaiteiro galego e atual superstar da “world music”, Carlos Nuñez, que apadrinharam durante anos, não teria a projeção que tem hoje.
            Tocaram com orquestras, homenagearam Dublin (“The Bells of Dublin”) e as mulheres (“Tears of Stone”), aproximaram as várias músicas e culturas do globo umas das outras. Pelo caminho, arrecadaram Grammys, em 1992 (com “An Irish Evening at the Grand Opera House, Belfast”), 1993 (com “Another Country”), 1996 (com “Santiago”) e 1998 (com “Long Journey Home”).

            eucaristia. Assistir a um concerto dos Chieftains é participar numa eucaristia composta por música com raízes mergulhadas na eternidade do céu e alimentada pelos sucos da terra. Cada performance deste coletivo formado por respeitáveis veteranos de cabelos brancos é ainda uma lição de humor e jovialidade em que a comunicação com o público desempenha papel fulcral. E a fidelidade a um compromisso: o grande concerto de comemoração que tinham agendado para este ano, em Dublin, foi cancelado em respeito às vítimas do 11 de Setembro; no Verão, convidados para tocar no Jubileu de Isabel II de Inglaterra, recusaram: “Não quero entrar nessas águas”, declarou Paddy Moloney, 63 anos e líder dos Chieftains: “Recusei por duas vezes a condecoração da Ordem Real e, ainda que a situação pareça estar a mudar, as coisas relacionadas com o Império Britânico não combinam comigo…”.
Por todas estas razões, os U2 podem contentar-se com um honroso segundo lugar. Porque os vencedores são os Chieftains. Os U2 são uma banda pop que nasceu na Irlanda. Os The Chieftains são a música da Irlanda. Frank Zappa foi rápido a percebê-lo. Em 1993, o malogrado compositor e guitarrista foi perentório: “Os U2 podem ser a exportação mais popular e comercialmente bem sucedida da Irlanda da atualidade, mas não há comparação entre a qualidade da música que fazem e a dos Chieftains. (…) Tocamos juntos sempre que viajam até cá e adoro a música que estes tipos fazem, as melodias e as mudanças de acordes e, especialmente, a forma como a executam (…). Algo apenas possível de

Frank Zappa tinha razão ao afirmar que são os Chieftains, e não os U2, a maior banda irlandesa de todos os tempos

conseguir por quem está junto há 30 anos. As pessoas descrevem os U2 como ‘rockers pós-modernos’, mas o que é que isso quer dizer? O que é preferível: uma inventividade medíocre [NR: não nos esqueçamos de que era o próprio espírito dos Mothers of Invention a falar…] ou uma ligação direta com a música céltica? Os Chieftains são a sua própria cultura e ouço neles traços não só da história céltica como da história universal, ecoando desde o princípio do tempo”.
            “The Wide World Over”. O mundo inteiro é a casa dos Chieftains.

            tesouros. Mas não nos enganemos. Embora o grupo decano seja hoje um cidadão do mundo, a estrada principal continua a ser aquela que a belíssima capa de “The Wide World Over” nos mostra: um caminho pedregoso, algures no coração da ilha, ladeado de verde e de sonho, apontado para onde o horizonte se confunde com as montanhas e estas com o céu. Apesar dos convidados, apesar do convívio com outras músicas, “The Wide World Over” tem as cores e o mistério da Irlanda (ainda a capa: as fotos do interior impelem a comprar imediatamente um bilhete de viagem…).
            Sinéad O’Connor torna-se rainha da folk, em “The foggy dew”. Os The Corrs tentam estar à altura da tradição, em “I know my love”. Ricky Scaggs recorda o country reel “Cotton-eyed Joe”, do álbum “Another Country”. Nesta procissão de estrelas, na qual se incluem Joni Mitchell, Van Morrison, Diana Krall, Sting, Linda Ronstadt e os Stones, que traz de novo à baila sobretudo álbuns mais recentes como “The Long Black Veil”, “Tears of Stone”, “Another Country”, “Water from the Well”, “Long Journey Home” e “Santiago”, o brilho é intenso.
            Mas cerrando os olhos, veremos uma luz mais pura e que os maiores tesouros se escondem em lugares predestinados: na festa coletiva celebrada ao vivo no mítico pub de Matt Molloy, nos jigs, reels e airs e no erguer dos copos do “set” “The munster cloak/an poc ar buile/Ferney Hill-Little Molly”, em “Morning dew/Women of Ireland” ou em “Here’s a health to the company”. “Carolan’s concerto” (de “The Celtic Harp”) devolve-nos a música da água e a memória do harpista cego Turlough O’Carolan. Deliciosas, são o mínimo que se pode dizer da combinação txalaparta basca mais Linda Ronstadt a cantar com Los Lobos uma salerosa “Guadalupe” e da incursão chinesa em “Full of joy”.
            Quanto aos três originais, descontando a naturalidade da inclusão de “Chasing the fox”, um tema mais antigo do grupo, aqui pela primeira vez em versão de estúdio, os outros dois são meras curiosidades. A apropriação de “Morning has broken”, de Cat Stevens, por Diana Krall e Art Garfunkel limita-se a dar um polimento “trendy” a este “slow” que não constituiu qualquer mais valia para os anos 70, enquanto a incursão na música jamaicana, “Redemption song”, de Bob Marley, co-produzida por Don Was e cantada por Ziggy Marley, não torna convincente o diálogo das “uillean pipes” com o espírito “rasta”. Mas desculpa-se, porque os Chieftains continuam insaciáveis.
            The Chieftains, anfitriões, ou The Chieftains, bastiões da tradição. Cada um ouvirá e apreciará “The Wide World Over” consoante a sua própria forma de encarar a folk. Ambas fazem justiça a uma banda que há 40 anos se preocupa em aprofundar, alargar as fronteiras e divulgar a cultura que lhe serviu de berço. Long live the Chieftains!

THE CHIEFTAINS
The Wide World Over
RCA, distri. BMG

7|10

26/11/2010

The Chieftains - Tears Of Stone

Sons

12 de Março 1999
DISCOS

Lágrimas de crocodilo

The Chieftains
Tears of Stone (6)
RCA, distri. BMG

Está a ser um dos discos mais vendidos de sempre dos Chieftains. Boa sorte a deles. Mas para todos aqueles que se habituaram a ter na lendária banda irlandesa a companhia de longa data de muitos e belos sonhos emanados do espírito da Ilha, as notícias não são animadoras. Ao fim de 35 anos de carreira, a banda de veteranos liderada por Paddy Moloney entornou o caldo, espalhou-se, algo que toda a estratégia recente fazia recear, mas que ainda não se concretizara numa verdadeira desilusão. Expliquemo-nos.
Os Chieftains, de há alguns anos a esta parte, estão cansados. De tocar e retocar música tradicional irlandesa. É natural. E humano. Daí que, a partir de certa altura, tendo ascendido, entretanto, a estrelas da world music, gaveta celta, encetassem uma série de gravações onde a pedra-de-toque era a participação maciça de convidados, muitos deles alheios ao universo folk. Isto, depois de uma fase anterior caracterizada por fusões ou homenagens a universos tradicionais paralelos ao irlandês, como a Bretanha, a Galiza ou a country music, em álbuns como “Celtic Wedding”, “Celebration” e “Another Country”.
Mas era preciso inventar e recriar novos contextos que servissem de estímulo ou, simplesmente, para entreter o tédio. Em “Tears of Stone” arranjou-se o conceito de baladas de amor no feminino. Excelente pretexto para se convidarem, apontem, Bonnie Raitt, Natalie Merchant, Joni Mitchell, The Rankins, The Corrs, Sinéad O’Connor, Mary Chapin Carpenter, Loreena McKennitt, Jean Osborne e até a cantora de jazz Diana Krall, no tema final, “Danny boy”. Mais a cantora japonesa Akiko Yano, os Anúna e um lote de luminárias “folkie” que inclui Eileen Ivers, Arty McGlynn, Mairtin O’Connor, Natalie McMaster e Máire Breatnach. Tudo espremido, obtém-se uma produção com o sabor, já tão conhecido, das Enyas, Oldfields e compilações “celtic blá blá blá” que se apertam nas prateleiras das discotecas.
Com tão pouco espaço de manobra os Chieftains deixaram-se ficar, sorridentes, como meros acompanhantes de tanta beleza e voz bonita. É que, ainda por cima, não são muitas as canções com sangue e tripa, até porque o mercado está mais voltado para os perfumes e limpezas de pele. Salvam-se uma vivaz parceria com as Corrs, em “I know my love”, o “Kerry slide” instrumental que serve de conclusão a “Deserted soldier”, o exotismo da vocalização japonesa em “Sake in the jar”, a fazer recordar a viagem dos Chieftains à China, e, finalmente, o momento mais estimulante do disco, um diálogo violinístico, a três, entre Eileen Ivers, Natalie McMaster e Annbjorg Lien, em “The fiddling ladies”.
“Tears of Stone” é uma ideia gira, as vozes são catitas, há harpas espalhadas por todo o lado, visões de verde, regatos murmurantes e cartas de amor escritas à luz de vela nas orlas do mistério irlandês. Sentimo-nos aconchegados, é um facto. Então por que raio é que sentimos vontade de borrar a pintura?

11/11/2008

"Tudo é maravilhoso" [The Chieftains]

Pop Rock

2 de Novembro de 1994

“TUDO É MARAVILHOSO”

Voltará decerto a ser um acontecimento. Aliás, um concerto dos Chieftains é sempre um acontecimento. Para a lendária banda orientada por Paddy Moloney, um dos reis das “ullean pipes” da actualidade, será a terceira visita ao nosso país. Depois da semidesilusão que constituiu a sua apresentação na edição de 1992 da Festa do “Avante!” e um ano volvido sobre o concerto inesquecível que rubricaram no penúltimo Festival Intercéltico do Porto, um dos melhores de sempre por um grupo de folk em Portugal. Se para o público do Norte será a oportunidade para de novo rever a excelência, não só musical mas de verdadeiros “entertainers”, dos embaixadores da música tradicional do mundo. Para os lisboetas será a possibilidade de finalmente poderem pôr as contas em dia e também eles poderem dizer que assistiram a um concerto de uma lenda.
O “MC-Mundo da Canção”, que este ano comemora um quarto de século, é responsável pelo concerto no Porto, cuja realização está integrada nestas comemorações. Na capital essa tarefa estará a cargo da Afrika.
O que se pode dizer ainda dos Chieftains que não tenha sido já dito? Pouco, nem isso é o mais importante. Para Bob Claypool, crítico de música do Houston Post, é simples: “Se existe no mundo uma música mais bela que a dos Chieftains”, diz, “então eu nunca a ouvi”. Uma coisa é certa: Paddy Moloney, Derek Bell (o harpista com aspecto de professor liceal que no Porto mostrou ser um autêntico sátiro…), Matt Molloy (simplesmente o melhor flautista vivo da Irlanda), Sean Keane (no violino em aceleração), Martin Fay (no violino guardião da tradição) e Kevin Conneff (malabarista do “bodhran” e cantor de notáveis recursos) formam uma equipa praticamente imbatível. Como garantia adicional, pelo menos em relação à data no Norte, é o facto de os Chieftains terem ficado impressionados com a cidade e as gentes do Porto. Até porque nisto de concertos folk sabe-se a importância que tem, para que os músicos atinjam o melhor de si próprios, a existência de um bom ambiente.
Se no Porto, dados os antecedentes, a enchente será um dado praticamente certo, em relação a Lisboa as características “frias” da sala aconselham a mobilização geral não só do público apreciador deste tipo de música como da boa música em geral, uma vez que a dos Chieftains não se esgota nos parâmetros da “irish folk”. Que o digam os chineses (que ouviram “The Chieftains in China), os galegos (“Celebration”), os bretões (“Celtic Wedding”), os fãs da “country” americana (“Another Country”), os devotos das grandes orquestrações (“Irish Horse”) ou astros da pop como Jackson Browne, Marianne Faithfull, Roger Daltrey, Elvis Costello e Rickie Lee Jones, entre outros (“The Bells of Dublin” e “An Irish Evening”) ou Júlio Pereira, que recentemente gravou com os Chieftains o tradicional português “Não vás ao mar, Toino”, a incluir no próximo álbum da banda.
Se a boa música é com eles e está à partida garantida, já a festa depende em grande parte de nós. Para que faço pleno sentido a frase de Paddy Moloney, sobre o que sentem os Chieftains, ao fim de 30 anos de entrega a uma paixão: “Ta gach rud to hiontach”, “tudo é maravilhoso”.

CHIEFTAINS
4 de Novembro, Coliseu do Porto
5 de Novembro, Pavilhão Carlos Lopes, Lisboa

28/10/2008

«O temp(l)o dos celtas»

BLITZ

13.2.90

O mercado discográfico nacional foi inundado recentemente por uma série de importações de obras relativas à música tradicional de raiz celta. No meio de tanta fartura muito terão ficado confundidos com a profusão de títulos e talvez pelo súbito interesse que este tipo de música volta a suscitar. Sobretudo para estes, que não sabem por onde começar, aqui vai como que um guia orientador das melhores opções de entre a oferta disponível

«O TEMP(L)O DOS CELTAS»


A música tradicional nunca esteve (ou esteve sempre, consoante a perspectiva) na moda. Uma ou outra vez sai um pouco mais da sombra, são referidos alguns nomes e discos (geralmente os piores e menos representativos) por parte de algum crítico entediado e a coisa rapidamente passa de novo à História. Assim, periodicamente, o fenómeno renasce por entre a confusão dos «media» que apressadamente atiram com o rótulo revivalista ao ar e já está.
Quanto à música celta propriamente dita, vai dispensando e desafiando a incompreensão, o desconhecimento e todas as manobras que se vão desenrolando à sua volta. É intemporal, tem quem verdadeiramente a ame e isso basta-lhe. Os discos que agora vão enchendo as prateleiras de algumas das nossas discotecas, chegam-nos do Porto e abrangem unicamente as músicas irlandesa e escocesa. Vejamos então o que sobressai de tanta quantidade que justifique a aquisição ou pelo menos uma audição atenta.
Da Irlanda, através dos selos Claddagh e Tara, eis uma parte do que vale a pena. Tomem nota:

BAKERSWELL – Na linha dos Chieftains, com a encantatória gaita-de-foles, violino e a harpa da senhora que costuma tocar com os Oisin. Verde e água. Irlanda até ao fim.

CHIEFTAINS – O emblema musical irlandês. À disposição dos interessados nada menos que 14 álbuns, desde o primeiro, de 1964, gravado em mono, até ao recente «Ballad of the Irish Horse». Os exagerados não se contentarão com menos do que a totalidade. Em todo o caso, para os mais prudentes e selectivos, aconselho o volume 5 (na altura editado pela Island) e o seguinte, «Bonaparte’s Retreat», este último contando com a voz dessa grande senhora que dá pelo nome de Dolores Keane (posteriormente nos De Dannan a actualmente movendo-se a solo em terrenos menos tradicionalistas). Para além, claro, dos respeitáveis Paddy Moloney, na gaita-de-foles, Sean Keane e Martin Fay, os violinistas de serviço e Derek Bell na harpa. Jigs, reels, airs, hornpipes, é dançar até não se poder mais, de preferência com o bom velho whisky a acompanhar.

PLANXTY – Na minha opinião (e decerto nas de muitos mais), o grupo mais original e inventivo ao nível dos arranjos e interpretações do cancioneiro tradicional irlandês. Por aqui passaram nomes lendários como Christy Moore, Liam O’Flynn, Andy Irvine, Donal Lunny ou Matt Molloy (que também tocou nos Chieftains e nos Bothy Band). Todos os álbuns são indispensáveis mais os mais fáceis de encontrar são «The Woman I Loved so Well» e «After the Break». Corram e não parem até os encontrarem.

WHISTLEBINKIES – Anda por aí o volume 4 que é excelente. Música bastante variada ao nível das combinações instrumentais, servida por intérpretes de primeiríssima qualidade. Ah, é verdade, são escoceses, embora gravem para uma editora rival.
Merecem ainda uma escuta atenta e aquisição por parte dos fanáticos que não deixam escapar nada, os álbuns a solo de Derek Bell («Carolan’s Receipt») e Matt Molloy («Stony Steps»), o quarto discos dos Oisin («The Jeannie C»). Só para os iniciados no grau mais elevado sugiro os discos de John Molineux com música tocada exclusivamente em saltério («Douce Amère») e finalmente temas tradicionais interpretados no cravo por Sean O’Riada («O’Riada’s Farewell»).
E passemos à Escócia.

ALISON KINNAIRD - «The Harper’s Gallery». A harpa escocesa (clarsach) em todo o seu cristalino esplendor. Alison também canta e nalguns temas é ajudada pelos seus amigos da Battlefield Band, em instrumentos variados, e pelo seu marido Robin Morton, patrão e dinamizador da Temple Records, cujo estúdio é mesmo uma antiga abadia perdida algures no meio do nevoeiro.
Exclusivamente de harpa é o álbum que gravou em dueto com Ann Heymann, uma americana de alma celta apaixonada pelas cintilações do instrumento, neste caso na variante irlandesa («The Harper’s Land»).

BATTLEFIELD BAND – Os reis da festa. A Escócia infinitamente recuperada e reinventada. Cada álbum que gravam é uma constante surpresa. Passam dos ambientes mais profundamente tradicionais para um reel baseado em «Bad Moon Rising» (esse mesmo, o dos Creedence) sem nunca perderem o pé nem o toque característico da música celta. Juntam descaradamente o som da gaita-de-foles ou de instrumentos medievais ao computador de ritmos. Sabem ser sérios e divertidos nas alturas certas. Retiram da música tradicional aquilo que ela tem de essencial e acrescentam-lhe a sua própria inspiração. São brilhantes. Adquiram sobretudo os álbuns «Home is Where the Van is», «There’s a Buzz», «Anthem for the Common Man», «On the Rise» e «Celtic Hotel». Excelente é também o disco a solo do multi-instrumentista da banda, Brian McNeill, «Unstrung Hero», com temas da sua autoria mas totalmente imbuídos do espírito antigo. Uma referência final para mais alguns discos, digamos que para especialistas: «O’er the Border» de GORDON MOONEY, o paraíso para os amantes das sonoridades das diversas gaitas-de-foles (no caso as variantes escocesas das Highlands e as «cauld Wind»), «Fonn is Furan» pela voz de FINLAY MACNEILL, inteiramente cantado em gaélico, os dois volumes de «Music in Trust», uma colaboração de Alison Kinnaird com os Battlefield Band para uma série televisiva dedicada aos monumentos e zonas históricas nacionais e mais um disco dedicado à harpa de MAIRE NI CHATHSAIGH («The new strung harp»).
Há pois muito por onde escolher e para complicar ainda mais a coisa, ainda por aí andam espalhadas algumas pedras preciosas, álbuns absolutamente indispensáveis para um «folkie» que se preze. São eles:
Ashley Hutchings/John Kirkpatrick: «The Compleat Dancing Master», Boys Of The Lough: «Farewell and remember me» e «Sweet Rural Shade», Blowzabella: «A Richer Dust», Cock & Bull: «Sacred Cows and concrete routs»; House Band: «The House Band», John Kirkpatrick/Sue Harris: «Stolen Ground», June Tabor: «Ashes and Diamonds», Late Night Band: «Kings of the Baroque’a’Billy», Martin Carthy: «Out of the Cut» e «Right of Passage», Roger Watson: «Chequered Roots», Richard Thompson: «In Strict Tempo», Shirley & Dolly Collins: «Love, Dead and the Lady» e Silly Sisters: «No More to the Dance», para além de tudo o que por cá existe de Stivell, claro.
... E depois o Universo imenso que falta: da Bretanha, da Galiza, da Provença, do resto da França, do Minho e Trás-os-Montes continuam a chegar os novos bardos e trovadores. An Triskell, Tri Yann, Malicorne, Mélusine, La Bambocke, Doa, Milladoiro, Pablo Quintana, Amâncio Prada, Mont-Jóia, Le Bardon, Emilio Cao, Ronda dos Quatro Caminhos, Maio Moço e mais algumas boas dezenas de nomes mas para já estes chegam.
A Chama e Alma Celtas continuarão eternamente a brilhar.

02/10/2008

Milladoiro - O Berro Seco; Galicia De Maeloc + The Chieftains - Celebration

Pop Rock

13 NOVEMBRO 1991
REEDIÇÕES

MILLADOIRO
O Berro Seco (10)
Galicia de Maeloc (10)
CD, Dial, import. Mundo da Canção

THE CHIEFTAINS
Celebration (10)
CD, RCA, distri. BMG

Galiza e Irlanda, fontes inesgotáveis de tradição e de músicas que sobem pelo tempo. Os Milladoiro (termo que designa pequenos amontoados de pedras dispostos ao longo dos caminhos, em dia de romaria, a dar sorte aos caminhantes), núcleo de executantes oriundos da região de Pontevedra e de áreas tão diferentes como a música medieval, o jazz ou as músicas de fusão, dedicam-se ao estudo e à interpretação do folclore galego, “fundindo ritmos e dinâmicas instrumentais e vocais, num processo nunca terminado pois a tradição continua viva e em evolução”. “Foliadas” e “muiñeiras” alternam com danças e canções da Irlanda e da Escócia, centrando a unidade galega na unidade maior do mundo celta.
“O Berro Seco” (gritado em uníssono pelos homens da aldeia, por ordem de Saturnino Cuiñas, lenda viva da Galiza, à saída da missa na capela de San Ciz, paróquia de Cesullas) e “Galicia de Maeloc” ) no séc. V, os celtas bretões arribaram à Galiza, trazendo consigo os seus mitos e costumes, sob o comandado do bispo Maeloc) mostram os Milladoiro na sua melhor forma, correspondente à primeira fase, ancorados às ressonâncias mágicas das gaitas e das sanfonas e a uma sonoridade “medieval” que, anos mais tarde, viria a perder muita da sua força na estilização e nas orquestrações sofisticadas de “Castellum Honesti”.
Dos Chieftains – embaixadores reconhecidos da música tradicional irlandesa –, basta referir que nunca gravaram maus discos (com excepção, talvez, das músicas compostas para documentários televisivos…). “Celebration” constitui, ao lado dos volumes 5, 7 e 10 da série “The Chieftains” e da inspirada homenagem à música bretã, “Celtic Wedding”, um dos melhores trabalhos de sempre da banda mítica formada por Paddy Moloney (gaita-de-foles), Derek Bell (harpa), Seán Keane (violino), o eterno vagabundo Matt Molloy (flauta, que tocou com os Bothy Band, Planxty e De Dannan…) e os mais recentes Martin Fay (violino) e Kevin Conneff (percussão).
“Celebration”, como o nome indica, é uma festa de jigas e “airs”, a que não falta sequer uma “drinking song” e a presença de ilustres convidados: Nancy Griffith – que, em “The Wexford Carol”, troca a country “yankee” pela pureza de um hino de Natal –, Van Morrison (o irlandês de alma negra) e a sua banda, à desgarrada com os Chieftains em “Boffyflow and Spike” e os Milladoiro, precisamente, na celebração final dos 1000 anos da cidade de Dublin – “Millenium celtic suite”, composta por Paddy Moloney, na qual colaboram ainda músicos da Bretanha e tocadores de gaitas-de-foles escocesa e da Northumbria. Só temos que erguer o copo e brindar.

29/06/2008

The Chieftains - The Long Black Veil

Pop Rock

25 de Janeiro de 1995
álbuns world


CALDO ENTORNADO

THE CHIEFTAINS
The Long Black Veil (6)
RCA, distri. BMG


Está entornado, o caldo! Os Chieftains, a banda das bandas irlandesas de música tradicional, deu o primeiro passo em falso numa carreira que recentemente celebrou o seu trigésimo aniversário. Transformados em estrelas internacionais, facto a que não será alheio a sua passagem para uma multinacional, a banda do “virtuose” das “uillean pipes”, Paddy Moloney, notabilizou-se nos últimos tempos por trazer para os seus discos nomes famosos da cena pop anglo-americana. Até agora isso não impediu que a música continuasse a ter o toque e a magia especiais dos Chieftains. Era um processo controlado, no qual os convidados contribuíam com perspectivas diferentes, o que tinha inclusive a virtude de evitar que a rotina se instalasse no seio do grupo. Em “The Long Black Veil” manifestam-se porém os efeitos perversos dessa atitude, de tal forma se incorreu no excesso de enfiar “estrelas”, cada vez de nomes mais sonantes, numa música que pela primeira vez parece sofrer de obesidade e alguma ostentação. Para além de Van Morrison, aqui num monótono tema da sua autoria “Have I told you lately that I love you?”, convidado habitual dos Chieftains num passado recente, não é particularmente excitante ouvir Sting cantar “Mo ghile mear” (“Our hero”), Mick Jagger esforçar-se por dar credibilidade ao título-tema, Mark Knopfler aligeirar “The lily of the west”, ou Sinead O’ Connor a dar tudo por tudo para se parecer com uma “folk singer”, mas sem chegar aos calcanhares das grandes cantoras irlandesas tradicionais, em “The foggy dew” e “He moved through the fair” (a propósito, “The Long Black Veil” é uma espécie de “bê-á-bá” da música tradicional, com a inclusão de vários dos seus temas mais estafados). Divertida é o menos que se poderá dizer da interpretação do canastrão “crooner” Tom Jones, em “Tennesse waltz/Tennesse mazurka”, dedicada a Frank Zappa e gravada na casa do mesmo. Ry Cooder, por seu lado, acrescenta uma dose de espacialidade e faz seus “Coast of Malabar” e “Dunmore lassies”. Marianne Faithfull cumpre, com a sua voz sofredora de sempre, em “Love is teasin’”. Verdadeiramente caricata e, a nosso ver, inútil é a desbunda final dos Chieftains com os Rolling Stones (!), no tradicional “Rocky road to Dublin”, por muito que Paddy Moloney diga que foi “the most enjoyable” momento da gravação. Uma confusão onde tocam todos ao mesmo tempo, de certeza muito divertidos, e é possível ouvir, entre o chinfrim, a guitarra de Keith Richards a lançar no caos um punhado de notas de “Satisfaction”. Mas pronto, é a glória. Nos currículos de ambos já poderá constar que a maior banda folk do planeta tocou com a maior banda rock do planeta e vice-versa…
No meio do verniz dos convidados, faz pena ver escrita em letras menores o nome dos verdadeiros artífices de “Long Black Veil”, afinal aqueles que contribuem para que o projecto não vá ao fundo: o gaiteiro galego Carlos Nuñez, os acordeonistas Mairtin O’ Connor e James Keane, o guitarrista Arty McGlynn e o coro dos Anúna. São eles as verdadeiras estrelas e os pilares de “The Long Black Veil”, um disco onde os anfitriões quase têm de pedir licença para se fazerem ouvir. Esqueça-se a barafunda e procure-se conforto na vocalização, de longe a melhor do disco, do “humilde” vocalista da banda, Kevin Conneff, em “Changing your demeanour”. E agora quem é que os Chieftains poderão convidar para a próxima? Talvez o Papa?

14/05/2008

The Chieftains - Santiago

POP ROCK

23 de Outubro de 1996
world

Irlanda em louvor a São Tiago

THE CHIEFTAINS
Santiago (9)
BMG Classics, import. Disco 3

Nos últimos anos e nos últimos álbuns, os Chieftains transformaram-se em predadores. Se o repasto resultou em indigestão, no anterior “The Long Black Veil”, em “Santiago” a refeição tem o requinte cerimonial de uma festa de Babette. “Santiago” está para a música da Galiza como “Celtic Wedding” estava para a música da Bretanha. Um e outro são, como explica o, hoje, líder incontestado da banda, Paddy Moloney, a tentativa de captação de uma essência. Em termos práticos, “Santiago” resultou dos múltiplos espectáculos e digressões realizadas em conjunto com Carlos Nuñez (“por vezes, quase podia ser considerado o sétimo elemento dos Chieftains”) pelos mais diversos locais do globo. Nuñez funciona como um guia e um catalisador, sendo ele quem, actualmente, conduz os Chieftains à redescoberta de uma “juventude” que ameaçava definhar nos verdes “reels”, mil vezes revisitados, da Irlanda.
“Santiago” é pois uma peregrinação, não só a Compostela como ao mítico centro universal do mundo celta. Estão em voga projectos deste tipo. Basta recordar a ainda fresca “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nuñez, precisamente sobre idêntica temática. Igualmente em voga está uma perspectivação da música tradicional segundo cânones que remontam à Idade Média, constituindo uma novidade o modo como os Chieftains vão ao encontro desta tendência, aqui maravilhosamente exemplificada na parte inicial de “Arku – dantza/Arin-arin” (na segunda, pode escutar-se a “trikitixa” de Kepa Junkera), “El besu” e, ainda com maior profundidade, em “Dum paterfamilias/Ad honorem”, do Códice Calixtino, gravado ao vivo no convento de San Paio de Antealtares, em Santiago de Compostela, com o coro Ultreia, três das cinco partes que compõem a “suite” “Pilgrimage to Santiago”. A quarta, “Não vás ao mar, Toino”, tem a de há muito aguardada participação de Júlio Pereira, no cavaquinho.
A partir daqui, o percurso alarga-se, saltando da Galiza para o México, em “Guadalupe”, com as participações de Linda Ronstadt e Los Lobos, e Cuba, em “Santiago de Cuba” e “Galleguita/Tutankhamoen”, ambos com a participação de Ry Cooder. A Galiza sacra e tradicional surge em todo o seu esplendor numa “Galician overture”, composição orquestral escrita por Paddy Moloney para a Xoven Oquestra de Galicia, que se estende através da Irlanda, Escócia e Bretanha. Mais do que uma homenagem, um cerimonial iniciático, dos mais sublimes alguma vez oficiados na catedral dos Chieftains.
Para os apreciadores da velocidade e de duelos, “Santiago” tem para oferecer o “combate” entre dois gigantes da gaita-de-foles, Paddy Moloney “contra” Carlos Nuñez, em “Dueling chanters”. O vencedor, cabe ao auditor decidir… “Minho waltz” é um tema de inspiração minhota da autoria de Matt Molloy, onde este deixa patente o seu virtuosismo e “Tears of stone” um momento de introspecção, no diálogo entre “tin whistle” de Carlos Nuñez e a harpa de Derek Bell.
O encontro da Irlanda com a Galiza fica selado a fogo no derradeiro “Dublin in Vigo”, uma sessão ora delirante, ora comovente (aquela comoção que só o álcool torna plausível…) em forma de “medley” galaico-irlandês, gravada ao vivo num “pub” de Dublin à cunha, após um concerto em Vigo, com a participação de toda a gente, incluindo cantores e bailarinos galegos. Como costuma acontecer nestas ocasiões, os nossos vizinhos tomaram, por assim dizer, conta da ocasião. Pura excitação. Música no seu estado mais puro.
E assim, em Compostela ou em casa, no templo ou no “pub”, os Chieftains conquistaram o sete-estrelo a Eternidade.