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02/06/2020

Espíritos e estrelas [Jazz]


JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 16 OUTUBRO 2004

Há estrelas do espírito, da “FC” e do espectáculo. Três saxofonistas são quem brilha com maior fulgor.

Espíritos e estrelas

“Não é uma batalha nem uma competição, é sobre a alegria de tocarmos juntos”, diz Brecker, um dos três espíritos em ação. Os estilos são diferentes mas amigos, encaixando-se entre si de forma brilhante. Brecker, no tenor e kaval (flauta de madeira búlgara), ouve-se no canal direito. Liebman, no tenor e soprano e flauta indiana, sai pelo centro. À esquerda toca Lovano, no tenor, clarinete alto, tarogato (instrumento de sopro húngaro) e fl auta africana. Na secção rítmica estão Phil Markowitz (piano), Cecil McBee (contrabaixo) e Billy Hart (bateria). Um sétimo espírito paira sobre o coletivo: John Coltrane. De Trane são interpretados “India” e “Peace on Earth”, sendo o primeiro destes temas fulcral na economia deste “Gathering of Spirits”, com a sua entrada exótica de flautas e um espetacular “duelo” harmónico entre os saxofonistas, Lovano evoca as conversas de Coltrane com Pharoah Sanders levadas a cabo em “Om”. É como uma construção de cores e luzes. Markowitz pinta uma tela de piano fosforescente em “Tricycle”, composição de Liebman. Hart, considerado voz do drama, sabe criar tensão e estruturas capazes de levar os saxofonistas a registos excitantes. Na arte combinatória deste “Summit” de sensibilidades e forças que se equilibram e encontram no máximo múltiplo comum (será ainda Coltrane?) da criatividade, a soma é um paraíso e uma selva. Estrelado e luxuriante. Um grande disco de grande jazz.
            Quem gosta muito de viajar entre as estrelas é Chick Corea, teclista que nunca escondeu o gosto pelos universos do fantástico e da fantasia. Agora, ele e a sua Elektric Band apontaram a nave para os confins da galáxia, servindo-se para isso das instruções de “To the Stars”, uma novela de L. Ron Hubbard. No livro são abordadas questões da física da relatividade de Einstein, como a dilatação do tempo. “To the Stars”, o disco, viaja através do jazz rock e, apesar de alguns clichés a que é difícil escapar num género estafado como este, é um dos mais conseguidos álbuns da Elektric Band. Claro que pode não ser evidente a relação entre viagens pelo espaço à velocidade da luz e a música cubana, como acontece em “Mistress Luck – the Party”, mas o que pode parecer absurdo acaba por soar divertido. Há momentos, porém, de pura abstração eletrónica, muito “space rock”, quase “Kosmisch muzik”, ou muzak cósmico, como os vários segmentos de “Port view”. “The long passage”, por exemplo, tem tudo o que o típico jazz-rock costuma exibir: fulgor “flashy”, batida forte, energia elétrica e floreados de estilo. Num ou noutro momento, por entre as frases feitas e os rodriguinhos técnicos, até passa algum jazz menos condicionado, como em “Jocelyn – The commander”. Seja como for, este ensaio de música temperada por ficção científica cairá direitinho no goto dos que se pelam pelos Weather Report mais comerciais ou por anteriores trabalhos de Corea nesta área, como “Hymn of the Seventh Galaxy”.
            Mas o piano vinga-se nas mãos de um dos seus mestres, McCoy Tyner, figura histórica. Curiosamente, vemo-lo igualmente às voltas com a música cubana, em “Angelina”, um dos temas do seu novo disco, “Illuminations”. De Tyner, já se sabe, tira-se sempre algo de bom, neste caso, mais que não seja, a judiciosa escolha dos músicos que o acompanham, Gary Bartz (saxofones), Terence Blanchard (trompete), Christian McBride (contrabaixo) e Lewis Nash (bateria). Este não será o Tyner contemplativo e sideral que tocou com Coltrane, mas o brilho fulgurante de uma mão direita que não cessa de ornamentar mantém-se. É jazz bem dentro da tradição, mesmo que Bartz o tente empurrar para fora dos limites. Nada de novo por estas paragens senão a confirmação de um estatuto há muito adquirido...
            Combinação inusitada é aquela que nos é oferecida por Benny Green e Russell Malone, respetivamente no piano e na guitarra. Jim Hall e Bill Evans poderiam servir de modelo. Mas não. O suporte começa por ser o “blues”, mas o tom geral é de descontração, como um “divertissement” a dois, simples e feliz. Green e Malone iniciaram a sua cumplicidade no discipulado de Ray Brown. Green tocou com Brown, Art Blakey e Diana Krall. É um pianista leve e ágil, sem angústia. Malone, antigo companheiro de Jimmy Smith e membro da orquestra de Harry Connick Jr., move-se num quadrado compreendido por Grant Green, Kenny Burrell, Django Reinhardt e Pat Martino. Dos diálogos entre ambos ressalta o prazer do salto, da nota picotada, de um balanço ligeiramente “retro” onde a ligeireza de uma canção como “You are the sunshine of my life” contracena com a distante melancolia de “Flowers for Emmett Lill”. Bom astral.
            Não se lhes peça, porém, o que se percebe, logo às primeiras notas, ter o trio Geri Allen (piano), Dave Holland (contrabaixo) e Jack DeJohnette (bateria), vindos os três de uma participação no álbum “Feed the Fire”, de Betty Carter: paixão. Inspirada por Herbie Hancock, Geri mostra-se inventiva, progressiva e impulsiva no forte encadeado harmónico dos temas. O ataque é soberbo, por vezes violento e, aparentemente, pouco feminino, em que as notas são percutidas sem piedade, como flores esmagadas num desejo de entrega. Porque “The Life of a Song” é, nas palavras da pianista, “Give and take and give”. Ouça-se “Lush life” e a sua investida perante a vida, as teclas agudas marteladas até se lhes extrair a última gota de sangue e sumo. “In appreciation: A celebration song”, pelo contrário, tem o toque caloroso da “soul” da Tamla Motown e a devoção de um “gospel”. Dave Holland e DeJohnette são os parceiros a grande altura, a cidade de múltiplas avenidas ao longo das quais o piano inventa os seus “blues” e os seus vermelhos. Jazz a correr sempre em frente, sem contemplações. Nem medo de olhar e parar para se enternecer num “Inconditional love”.
            Eletrónico, urbano, diluviano. Assim se traça a introdução da mais recente aventura de um saxofonista querido do “Show business”, Courtney Pine – “Devotion”. Promete ser interessante. Mas depois entra na fogueira do “rhythm ‘n’ blues” e dá mostras de querer viajar por muitos sítios. É fusão, é confusão. De “R&B” com reggae, no título-tema, de variedades com canção “soul”, em “Bless the weather”, de “hip hop” com ritmos das Caraíbas, em “Interlude: The saxophone song”, de pop com música indiana em “Translusance”. Mas também há funk e África em “Osibisa”, mais cheiro a “R&B” comercial e, acima de tudo, há o desejo de ir a todas. Como disco de jazz, é para esquecer. Como entretenimento, pode funcionar. Se Pine continua a ser um bom saxofonista? Nem dá para perceber.

Michael Brecker, Dave Liebman, Joe Lovano
Saxophone Summit: Gathering of Spirits
Telarc
8 | 10

Chick Corea Elektric Band
To the Stars
Stretch
6 | 10

McCoy Tyner
Illuminations
Telarc
6 | 10

Benny Green & Russell Malone
Bluebird
Telarc
6 | 10

Geri Allen, Dave Holland, Jack DeJohnette
The Life of a Song
Telarc
7 | 10

Courtney Pine
Devotion
Telarc
5 | 10

Todos distri. Andante

29/11/2019

A rumba, o tango, a tanga [Chick Corea]


CULTURA
SÁBADO, 22 NOV 2003

Crítica Música

A rumba, o tango, a tanga

CHICK COREA
LISBOA Grande Auditório do CCB
Quarta-feira. Esgotado

Chick Corea encheu, na quarta-feira, o Grande Auditório do CCB, depois de ter feito o mesmo na véspera, no concerto de encerramento do Festival de Jazz do Porto. Encheu a sala, mas não as medidas de uma fação – pequena – do público, para quem o jazz é música demasiado séria para poder ser amassada de ânimo leve.
            Chick Corea, pianista reputado com lugar garantido nas enciclopédias, tem do jazz, embora nem sempre estando para aí virado, uma noção que não dispensa o espetáculo. Provou-o no CCB e pôs à prova, em certos momentos do duplo “set” lisboeta, a paciência dos melómanos da fação dura.
            Decorreu morna a primeira parte, a música escorrendo em jazz agradável, fusionista, de colorido latino-americano, com o trio, que afinal passou, no programa, a quarteto e, finalmente, aumentou para quinteto, com a presença em palco do percussionista convidado Ruben Dantas e... sexteto, com as colaborações esporádicas da vocalista e mulher do pianista, Gayle Moran. Música bonita, sabendo-se como “bonita” é inimigo de “ótima”. Deu para perceber que o contrabaixisa Avishai Cohen é um prodígio de técnica e colocação, da escola de um Dave Holland. E que Moran (de quem recordamos a participação no álbum “Apocalypse”, dos Mahavishnu Orchestra), chamada para cantar o inédito “Carrousel” e “500 miles high”, servido no álbum “Light as a Feather”, dos Return to Forever, pela voz de Flora Purim, mais do que “scatar”, miou, a dar cabo das cordas vocais e dos ouvidos.
            Em sintonia com o tom geral do concerto, o intervalo serviu para anunciar, após sorteio prévio, os felizes contemplados com a oferta de CD autografados pelo próprio Corea.
            Cumprido o ritual de “marketing”, o segundo “set” subiu de nível. Abriu com “Armando’s rumba”, dedicatória ao pai em piano solo, pleno de pirotecnia mas também de algumas boas combinações harmónicas, prosseguiu com novo inédito ainda sem título e agigantou-se em “Anna’s tango”, dedicado à mãe, sobretudo graças a mais um excelente solo de Avishai Cohen – a pate final coincidiu com um dos melhores e, provavelmente, menos espetaculares, momentos da noite, ouvindo-se Corea a percutir as teclas do piano de maneira a acrescentar às últimas notas de cada frase do contrabaixo uma fantasmagórica ressonância.
            Quando, a partir de um frutuoso diálogo entre a bateria de Jeff Ballard e as percussões de Dantas, os restantes instrumentistas se lhes juntaram para um festival de batucada a cinco, os ânimos aqueceram ao rubro. Concerto ganho, faltava a festa rija. Veio no “encore”. Chick Corea fez então o papel do “entertainer”, conseguindo pôr a plateia a cantar a cinco vozes (em esplêndida afinação e sincronização, francamente melhores, aliás, que Gayle Moran...), mas tudo se desmoronou como um castelo de cartas quando a música descambou para um excerto piroso do “Concerto de Aranjuez”, de Joaquin Rodrigo (com o saxofonista Steve Wilson a fazer os possíveis para mostrar que não estivera ali como carta fora do baralho...) e a senhora Corea resolveu que a melhor forma de terminar um concerto era pôr o público a bater palminhas de acompanhamento.

EM RESUMO
Bom entretenimento, música assim-assim. As virtudes técnicas do contrabaixista não chegaram para apagar as maldades vocais da senhora Corea

Bom Chick, bom genre [Chick Corea]


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 18 NOV 2003

Bom Chick, bom genre

Participante em duas das gravações míticas do jazzrock, ao lado de Miles Davis, Chick Corea definiu o seu próprio género de fusão. O seu jazz tem a dimensão dos clássicos


Chick Corea é um dos mais importantes pianistas da história do jazz. Capaz do melhor e do pior. O melhor é música de piano ao mais alto nível, a par de inovações estilísticas que marcaram, sobretudo a partir da sua colaboração com Miles Davis, em "Bitches Brew" e "In a Silent Way", a evolução deste instrumento no âmbito do jazz de fusão. O pior assoma quando a sua veia latina o empurra para exercícios de "música para elevador" exótica com vocação de guia turístico.
            Os concertos marcados para hoje, no Porto, a fechar o festival de jazz desta cidade, e amanhã, em Lisboa, deverão apresentar o melhor Chick Corea, até porque o seu mais recente registo discográfico, "Rendez vous in New York", em que revisita várias fases da sua carreira, é digo dos maiores elogios.
            De seu verdadeiro nome Armando Anthony Corea, com origens familiares na Sicília e Cantábria, Chick Corea inicia a sua carreira de pianista (os seus talentos como instrumentista estendem-se à bateria e ao vibrafone) em Boston, na orquestra de Phil Barboza. No mesmo ano, 1966, em que substitui Gary Burton no quarteto de Stan Getz, grava o seu primeiro álbum a solo, "Tones for Joan's Bones". Dois anos mais tarde é a vez de "Now he Sings, now he Sobs", considerado uma da suas obras clássicas e recentemente reeditado, em versão remasterizada, pela EMI/Blue Note.
            A adoção do piano eléctrico coincide com o convite para tocar com Miles Davis. Participa nos dois álbuns deste trompetista que permanecem até hoje como paradigmas do jazzrock e do jazz de fusão, "In a Silent Way" e "Bitches Brew" (mas também em "Live-Evil" e "Black Beauty"), ambos de 1969.
            Depois de abandonar Miles junta-se a outro dos mestres de fusão, Wayne Shorter, com quem grava "Super Nova", e dá o salto para uma música mais árdua, formando os Circle, em trio com Dave Holland e Barry Altschull, aumentado para quarteto com a participação de Anthony Braxton, no álbum "Paris-Concert". A solo, a sua melhor música improvisada deste período pode ser escutada em "The Complete 'Is' Sessions", igualmente objeto de reedição de luxo pela EMI/Blue Note.
            De volta ao mundo da fusão, Chick Corea forma os Return to Forever, inicialmente na contracorrente das concepções mais funk dos Weather Report e Herbie Hancock, outros expoentes de um género então em franca expansão. "Return to Forever" (1972) e "Light as a Feather" são álbuns de música etérea, subtilmente aflorados pela bossa-nova e pela presença dos músicos brasileiros Airto Moreira e Flora Purim. Rapidamente, porém, esta faceta é substituída por um jazzrcock mais tipificado, funky e eléctrico, nos álbuns subsequentes, "Hymn of the Seventh Galaxy", "Where have I Known you before" e "Return to the Seventh Galaxy". Como contrapeso a este excesso de gravidade, lança-se para as nuvens em dueto com Gary Burton, em "Crystal Silence" (1972).
            Segue-se a fase da eletrónica e o namoro com a música progressiva, em dois álbuns complexos e coloridos, "The Leprechaun" (1975) e "Romantic Warrior" (1976). Convém, no entanto, ignorar, também dessa altura, "My Spanish Heart", "No Mystery", "Musicmagic" e "The Mad Hatter", este último a enformar dos mesmos males – o dispêndio de meios, o virtuosismo balofo – que contribuíram para denegrir o rock progressivo. Obviamente, a indústria recompensa-o com um Grammy.
            A confusão e a hesitação instalam-se nos anos 80. Corea forma uma Elektric Band e uma Akoustic Band, grava o "Concerto para Duas Mãos e Orquestra" de Mozart, regressa ao piano acústico e toca com Herbie Hancock, Gary Burton, Keith Jarrett, Friedrich Gulda, Gary Peacock, Michael Brecker, Lee Konitz, Paco de Lúcia e a cantora de "soul" e cabaré, Chaka Khan...
            Acalma, por fim e, em 1992, forma a sua própria editora, a Stretch Records, para a qual porém só consegue gravar após a cessação do contrato que o ligava à GRP. O primeiro álbum é uma homenagem a Bud Powell. Em paralelo, grava mais música de Mozart, com a St. Paul Chamber Orchestra, dirigida por Bobby McFerrin.
            Mas a tradição pulsa-lhe nas veias e a entrega a cem por cento ao piano acústico força-o a regressar ao jazz sem enfeites. Forma os Origin e fecha-se no Blue Note Club de Nova Iorque para gravar uma série de sessões ao vivo, cuja totalidade se encontra reunida na caixa de 6 CD, "A Week at the Blue Note". Em 1999 chega a altura de gravar o seu "Corea Concerto", com a London Symphony Orchestra, ao qual se segue um "Piano Concerto", inspirado na temática da liberdade religiosa.
            Acompanham Chick Corea nestes dois espetáculos em Portugal, Avishai Cohen (baixo), Jeff Ballard (bateria) e Steve Wilson (saxofone).

CHICK COREA QUARTET
PORTO Teatro Rivoli.
Hoje, às 22h. Tel. 223392220. Bilhetes: 20 e 25 euros.
LISBOA Grande Auditório do Centro Cultural de Belém.
Amanhã, às 21h. Tel. 213612444. Bilhetes entre 15 e 40 euros.

02/10/2019

O amor feliz


28 JUNHO 2003
JAZZ
DISCOS

O amor e a solidão, nos seus mais diversos cambiantes, foram tocados e cantados pelos mestres. Bill Evans, Ben Webster, Ella Fitzgerald e Louis Armstrong disseram-nos que podem ser felizes.

O amor feliz

Seis meses antes de Bill Evans, Oscar Peterson abrira o caminho, com uma sessão de piano em solo absoluto, algo que até então não fazia parte das tradições mais comuns do jazz. Com “Alone”, de 1968, o autor de “Waltz for Debby” procurou atingir a “sensação do absoluto no ato de tocar sozinho”. Provavelmente atingiu-a. Para trás ficara, como confessou, o medo e a impressão que sempre tivera, de que sempre que um pianista tocava sem acompanhamento as pessoas não prestavam atenção e se entretinham a beber, a comer (se num bar) ou a conversar. “Música para jantar” não é certamente o caso de “Alone”, um álbum cuja delicadeza e nostalgia, habituais em Evans, a par das figuras de estilo e da elegância das modulações harmónicas, se sustentam numa sólida arquitetura matemática, menos intuitiva e bastante mais racional do que seria de supor, sendo o próprio pianista a acentuar a importância da estrutura e do “ratio” matemático. Rigor que não impede, antes liberta, o fluxo musical que, no formato típico do trio com contrabaixo e bateria, se confina a regras bastante mais rígidas. Claro que haverá sempre alguém disposto a utilizar esta música como fundo musical para a degustação de um bife (embora, na nossa opinião, ela ligue melhor com peixe fresco) o que, afinal, até se poderá considerar como um complemento daquele estado de “rêverie” que a música de Bill Evans tende a provocar no auditor. Embora seja lícito duvidar de que os 14 minutos e as constantes oscilações de registo de “Never let me go” possam constituir um bom auxiliar da digestão. Ao alinhamento original, a presente reedição remasterizada adiciona seis “takes” alternativos. “Alone” transporta-nos para a nossa própria solidão.
            Será portanto aconselhável contrabalançar tal estado com outros menos acabrunhantes. O novo de Chick Corea, “Rendezvous in New York”, duplo CD gravado no formato de Super Audio CD com recurso ao DSD, tecnologia que recorre a “software” Pyramix (garantia de um som piramidal) associado aos processadores Pentium da nova geração, serve às mil maravilhas este propósito. Gravado ao vivo no Blue Note de Nova Iorque em Dezembro de 2001, os dois discos oferecem um “digest”, em várias combinações, do pianista, que vão do “concerto” clássico ao “free jazz”, com pouco espaço para a fusão.
            No primeiro CD Corea aparece em duo com Bobby McFerrin, num triplo número de malabarismos vocais, em trio com Roy Haynes e Miroslav Vitous (na “Matrix” de “Now he Sings, Now he Sobs”, aqui recenseado recentemente), com Haynes, Joshua Redman, Terence Blanchard e Christian McBride (numa mnemónica da banda de Bud Powell que é o grande momento deste trabalho), em duo com o vibrafonista Gary Burton (recuperando o mágico “Crystal silence” gravado para a ECM) e com a sua Akoustic Band, num “Bessie’s blues” solto na tradição.
            Do “outro lado”, de novo a Akoustic Band, mais “Armando’s tango”, tanguero q.b. mas não tanguista, na companhia dos Origin (Avishai Cohen, Jeff Ballard, Steve Wilson, Steve Davis e Tim Garland). Clarinetes quentes. Movimentos melódicos ainda mais. Notável o “Concierto de Aranjuez”, diálogo de pianos com Gonzalo Rubalcaba, que “riffa” com raro vigor nas mãos esquerdas do “hard bop” e se constrói em plena comunhão.
            No pacote das remasterizações da Verve, dois clássicos, ambos de 1957. O primeiro chama-se “Soulville” e tem a assinatura de um dos maiores mestres de todos os tempos do saxofone tenor, Bem Webster. A balada de “blues” de abertura revela-se um daqueles momentos de luz absoluta que qualquer amante de jazz deve utilizar para converter os descrentes ao jazz. O saxofone fala diretamente ao coração (porque sai diretamente dele), respira no nosso peito, obriga-nos a enfrentar, sem defesas, a própria essência do “blues” e a penetrarmos nela. Sensualidade é a ideia que estamos a tentar fazer passar. Com a presença, não menos sublime, do piano de Oscar Peterson – o espírito. “Late date” sua a sexo puro. O lado mais rugoso e lúbrico do tenor segundo Webster num enlace em que o piano acerta na certeza de que o “blues” é o balanço perfeito. Quem se deixa apanhar, ou se casa ou se vicia. Quem sabe escutar os conselhos do pai do jazz tem a sabedoria do seu lado. E que dizer de “Lover, come back to me” ou “Where are you?”? Não há quem resista à força e ternura desta sedução, abraço trémulo, jazz do continente interior. Tenor-amor. Sensação em estado puro, sem intermediários. “Soulville”, podendo ser saboreado por todos os que retiram do jazz o sumo, faz transbordar (e chorar) de felicidade o epicurista para quem a música é o néctar oferecido pelos deuses. “Makin’ whoopee”. É o que apetece fazer.
            O outro clássico, do mesmo ano de 1957, também tem a ver com quem sabia lidar com a felicidade, o que nem sempre é fácil: Ella Fitzgerald e Louis Armstrong juntaram-se em “Again”, depois de um primeiro encontro em “Ella and Louis”. Ou, como alguém comentou, “a match made in heaven”. “Makin’ whoppee”, de novo, claro, volta a entrar no alinhamento, instando-nos a fazer o mesmo. O grupo de músicos é praticamente igual ao de “Soulville”: Oscar Peterson (piano), Herb Ellis (guitarra), Ray Brown (baixo). Só o baterista é diferente, Louis Bellson, em vez de Stan Levey. Encontramo-nos com o património da balada na sua vertente mais lúdica. Ella e Louis cantam com a inocência (curioso verificar como o registo vocal de Armstrong foi moldado por Tom Waits na forma das cabeças que fecham de dia mas estão abertas toda a noite...) própria de quem não chegou a morder a maçã dada por Eva a Adão, mas mesmo assim guarda a sabedoria, “standards” como “Don’t be that way”, “Stompin’ at the Savoy”, “These foolish things”, “Love is here to stay” ou “I get a kick out of you”. Ella não esconde nada, embora cada uma das notas que canta seja uma lição de vida. Dele, Louis, “Satchmo” não conseguimos desligar a voz do sorriso. “Comes love” soa como algo que se desaprendeu de ouvir dizer e de dizer ao outro.  Ella sabia-o. Ele sabia-o. E quando os ouvimos, sabemos também, milagrosamente, que o amor nem sempre vem para magoar.
            Mas quando magoa, pode matar. Di-lo outra cantora de que não se pode desviar. Shirley Horn, de regresso com um novo disco, “May the Music never End”. Escutar no momento errado a sua versão de “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel, na adaptação inglesa, “If you go away”, é sufi ciente para fazer o Verão terminar prematuramente. Shirley canta como uma contadora de histórias, estendendo o tempo, sempre lento, como um tapete às palavras, tão cantadas como declamadas. Roy Hargrove (trompete) e Ahmad Jamal (piano) são os convidados especiais desta coleção de “torch songs”, tão suaves que deixam no ar a esperança.

BEN WEBSTER
Soulville
Verve
10 | 10

BILL EVANS
Alone
Verve
7 | 10

CHICK COREA
Rendezvous in New York
2xCD Stretch
8 | 10

SHIRLEY HORN
May the Music never End
Verve
7 | 10

ELLA FITZGERALD & LOUIS ARMSTRONG
Again
2xCD Verve
9 | 10

Todos distri. Universal

04/03/2019

Chick na Matrix [Chick Corea]


14 JUNHO 2003
JAZZ
DISCOS


Na antecâmara do “jazz rock”, Chick Corea montou um jogo de ilusões onde a realidade do jazz não é o que parece. E afirmou e estendeu os seus limites quando toda uma geração se ligava à eletricidade.

Chick na Matrix

Pianista de múltiplas facetas — do “latin jazz” ao free jazz, do “cool” ao “hard bop”, da música brasileira e das espanholadas ao jazz rock, passando pelo tecido impressionista e a improvisação, Chick Corea tem sido uma espécie de “rival” de Keith Jarrett, inclusive no bigode.
            O homem que em meados dos anos 60 substituiu Horace Silver no quinteto de Blue Mitchell, no Verão do Amor de 1967 marcou presença no quarteto de Stan Getz e, dois anos mais tarde, entrou para o quadro de honra de “In a Silent way”, de Miles Davis (tirando o lugar a Herbie Hancock), é o mesmo homem que, já na década de 70, cedeu ao sol e aos aromas de maresia da música brasileira (com os Return to Forever), cometeu o pecado do funk e da fusão (se “Romantic Warrior” e “The Leprechaun” são queridos mesmo dos apreciadores de rock progressivo, já coisas como “My Spanish Heart” e “Music Magic” são pastilhadas dificilmente tragáveis...) e, finalmente, sacudiu o rock do capote, redescobrindo na ECM e na GRP a luz e os prazeres do jazz.
            Mas, em 1968, o jazz corria ainda como jazz, embora as correntes de energia do rock estivessem prestes a infiltrar-se. “Now He Sings, Now he Sobs”, lançado nesse ano pelo pianista em trio com Miroslav Vitous, no baixo, e Roy Haynes, na bateria, é um clássico coreano. Ao contrário do vinilo, com selo Solid State, com apenas cinco faixas, a presente reedição em CD reúne a totalidade dos 13 temas da sessão original. Em remasterização de 24-bits.
            Percetível o gosto do pianista pelas ornamentações impressionistas e um fraseado onde a extrema precisão do “touching” se alia a um timbre cristalino. “The law of falling and catching up” prima pelo experimentalismo, com Corea a percutir as cordas do piano e Vitous e Haynes a pulverizarem o tempo, dando sequência a um fabuloso “Samba yantra”, onde o “hard” serve tanto o brasileirismo já latente nas suas conceções como um misticismo recorrente (outro ponto em comum com Jarrett...). “Fragments”, em regime “free”, joga com a aceleração, os círculos, a secura e um fantástico trabalho de pontuação de Haynes, enquanto “Windows” regressa à pura sedução da melodia e às tonalidades “cool”. Um original de Monk, “Pannonica”, e “My
one and only love” permitem vislumbrar por detrás da cortina os olhares de Bud Powell, Bill Evans, Hancock e McCoy Tyner, sublimados por uma síntese visionária.
            “Now He Sings, Now he Sobs”, no seu movimento dialético de aproximação e distanciamento da Beleza (“Clinging to beauty; clinging to ugliness”), apresenta ainda um curioso toque de profetismo, na faixa “Matrix”. “O vento sopra sobre o lago/E agita a superfície da água/Assim se manifestando os efeitos visíveis do invisível”, pode ler-se no emblema zen da capa. Ocultação/desocultação, realidade e aparência. Como é a própria estrutura, toda ela ilusória de “Now He Sings, Now He Sobs” (o disco foi montado a partir de fragmentos sabiamante colados e improvisações estruturadas “a posteriori”). “Matrix” que, de entre todos os temas onde o jazz se torna realidade a partir de jogos, é o único tema composto de forma tradicional. Corea, 30 anos antes de Neo, penetrara já no programa de “Matrix”.
            Igualmente disponíveis em reedição remasterizada da Blue Note estão “The Complete ‘Is’ Sessions”, gravadas em 1969 em Nova Iorque, por Corea, Woody Shaw (trompete), Hubert Laws (flauta, “piccolo”), Bennie Maupin (saxofone tenor), Dave Holland (baixo), Jack DeJohnette (bateria) e Horace Arnold (bateria e percussão).
            Corea integrava então o grupo que gravou com Miles Davis o álbum “Filles de Kilimanjaro”, com DeJohnette e Dave Holland. Período de excitação e descobertas. “Estávamos constantemente a forçar, a tocar de uma maneira completamente livre, à espera que Miles nos dissesse alguma coisa. Como não dizia nada, forçávamos ainda mais.” “The Complete ‘Is’ Sessions” reflete esta liberdade, constituindo um complemento perfeito para a música da fase elétrica do trompetista. Woody Shaw já inoculara no pianista a adrenalina e o veneno da fusão. Maupin delira no “free”. Laws confere lirismo e floreados progressivos. Corea passa grande parte do tempo agarrado ao piano elétrico, continuando as explorações encetadas com Miles, a abrir caminho para a entrada em cena de grupos como os Soft Machine e Nucleus (“Sundance” antecipa obras como “Third”, “42 e 5”, dos Softs, ou “Elastic Rock”, da banda do trompetista Ian Carr). Miles preparava a ogiva nuclear “Bitches Brew”. Os Lifetime de Tony Williams abriam trincheiras com arame farpado. John McLaughlin recebia instruções do seu guru para formar a Mahavishnu Orchestra. Wayne Shorter e Joe Zawinul tinham aprendido, ainda com Miles, os fundamentos que dariam origem aos Weather Report. Na época em que o “jazz rock” se preparava para virar o jazz do avesso, tudo se movia e transformava. Corea, curiosamente, relia os manuais do “hard bop” e do “free”, firme no meio da confusão e excitação que se instalara. Quando o “jazz rock” o agarrou, por fim, o tempo das descobertas, o seu tempo, tinha passado. “Is” é, paradoxalmente, a afirmação da tradição levada ao paroxismo e às fronteiras de um futuro que se revelaria glorioso ou letal para todos os “jazzmen” que ousaram dar o passo em frente.

CHICK COREA
Now He Sings, Now He Sobs
8 | 10
The Complete “Is” Sessions
2xCD
9 | 10
Blue Note, distri. EMI-VC