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12/11/2025

Música sanfónica [Ciclo de Instrumentos de Corda]

 PÚBLICO SEGUNDA-FEIRA, 11 FEVEREIRO 1991 >> Cultura

 

Terminou ontem o Ciclo de Instrumentos de Corda, no Teatro da Trindade, em Lisboa

 

Música sanfónica

Fernando Magalhães e Vasco Câmara

 

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A sanfona de Fernando Meireles e restantes Realejo encantaram, ontem, o escasso público presente na sala do Chiado. Na véspera, Carlos Paredes tocou e falou da guitarra portuguesa, e as marionetas de Santo Aleixo recriaram o mundo à escala dos sonhos.

 

Fernando Meireles fabrica instrumentos musicais de corda. A sanfona que tocou no Teatro da Trindade levou três meses a construir. Durante esse período não lhe sobrou tempo para mais nada, mas acha que valeu a pena. As paixões são assim. A sua nasceu há cinco anos, quando principiou a investigar a documentação existente sobre o instrumento, extinto no nosso país desde meados do século passado. Viajou um pouco por todo o lado, escutando os segredos ocultos no chorar da sanfona. Depois foi só basear-se numa figura de presépio do séc. XVII, de Machado de Castro, e confiar na intuição e nos seus próprios conhecimentos de mecânica acústica.

Ontem à tarde, perante uma assistência de pouco mais de trinta pessoas (16h00, domingo de Carnaval, não seria propriamente o horário ideal...) Fernando Meireles apresentou-se integrado no agrupamento Realejo, formado em Coimbra o ano passado. O grupo dedica-se à interpretação de música exclusivamente tradicional, “com arranjos instrumentais substituindo as partes cantadas e variações sobre as melodias originais”.

Para além do Fernando (também membro dos “Ars Musicae de Coimbra” especializados no reportório medieval e renascentista da Península Ibérica) que toca sanfona, violino, bandolim, cavaquinho e percussão, fazem ainda parte dos “Realejo”, Amadeu Magalhães (gaita de foles, flautas de bisel, cavaquinho e braguesa), Santos Simões (guitarra, bandolim e percussão) e Cesário D’Assunção (guitarra, braguesa e percussão).

Interpretaram temas do périplo celta da península: melodias e danças da Galiza, da Bretanha e do Norte do país (Bragança, Vinhais, Amarante), como não poderia deixar de ser. Para Fernando Meireles esta é a música que mais tem a ver consigo, aquela que o “toca de perto”. Nota-se – no brilho dos olhos, quando faz girar a manivela e os seus dedos deslizam sobre as teclas de madeira antiga da sanfona.

Se por vezes se tornam percetíveis algumas limitações técnicas da parte dos músicos, nem por isso é menor o prazer extraído da audição dos sons e cadências ancestrais que fazem vibrar a memória de um povo, apelando para uma raiz coletiva que já quase esquecemos, perdida na voragem do século.

Situados à margem do “Folklore com ‘K’, para turista ver, com ‘trajezinhos’ e, na maior parte das vezes, os instrumentos miseravelmente tocados” – como Fernando Meireles faz questão de frisar, os Realejo encaram a música como um ato de entrega amorosa. Para além das modas e oportunismos, longe da ignorância e inépcia oficiais, ficam “aqueles que gostam mesmo disto e acham que vale a pena lutar”.

 

O paraíso dos bonecos

 

As Marionetas de Santo Aleixo, os títeres tradicionais do Alto Alentejo, abriram o programa de sábado, dia 9, com o “Auto da Criação do Mundo”. Construídos em madeira e cortiça e de dimensões muito pequenas – 20 a 40 centímetros – os bonecos, propriedade do Centro Cultural de Évora, são manipulados no retábulo, que é a reprodução em miniatura de um palco tradicional, com cenários pintados em papelão e iluminação a candeia de azeite.

O “Auto da Criação do Mundo” é a recriação, popular, brejeira, mas também trágica, da parábola bíblica da queda de Adão e Eva do paraíso, expulsos por um Deus avaro que contava os frutos do pomar do paraíso terrestre. Nos vários quadros, cujo elemento de ligação era um coro de anjos impertinentes e tontos que esvoaçavam sobre o pequeno cenário, foi constante, durante os 45 minutos de representação, a provocação e o diálogo com a assistência. Um pouco à maneira da revista à portuguesa: “Como se chama esta avezinha?”. “Pomba”, responde alguém do público. “Então meta aqui a tromba!”.

A fraca iluminação projetava no fundo negro do palco do Teatro da Trindade as enormes sombras dos cinco manipuladores das marionetas, acentuando o lado trágico desta farsa de que são protagonistas Deus, Adão e Eva – “duas carnes e um só osso” – Caim e Abel.

 

História da guitarra

 

Estes bonecos tradicionais, os textos, das peças, de transmissão oral e o suporte musical começaram a ser divulgados pelo etnólogo Michel Giacometti a partir do final da década de 60. Juntamente com Mestre Manuel Jaleca, “grande guitarrista de Évora”, a figura de Giacometti foi lembrada por Carlos Paredes no pequeno recital – pouco mais de meia-hora – que deu a seguir à representação dos títeres alentejanos.

Foi uma curta viagem pela história da guitarra portuguesa, desde o seu antepassado mais recuado, a cítola, até ao modelo que o músico usou no recital, e que foi definido no século XVIII. As peças que Paredes interpretou – “Dança dos Camponeses”, “Variações”, “Verdes Anos” – serviram-lhe para explicar as várias facetas do instrumento, capaz de exprimir o fatalismo e a saudade mas também o vigor e a violência. Oportunidade para Carlos Paredes lembrar o pai, Artur Paredes, o criador de um género novo, a guitarra de Coimbra.

No final houve direito a um “encore” pedido pela assistência que não enchia a plateia do Teatro da Trindade, e que era constituída, na sua maioria, por sócios do INATEL, com direito a desconto de 50 por cento nos 1200 escudos que era o preço do bilhete.

10/06/2025

À procura das raízes culturais da Europa [Encontros Musicais da Tradição Europeia]

 

cultura QUINTA-FEIRA, 5 JULHO 1990

 

Começam hoje em Évora, Famalicão e Oeiras os Encontros Musicais da Tradição Europeia

 

À procura das raízes culturais da Europa

 

À procura das raízes culturais. A partir de hoje e até dia 13, terão lugar em Évora, Famalicão e Oeiras, os primeiros Encontros Musicais da Tradição Europeia, organizados pela Cooperativa Cultural Etnia, sediada em Caminha. Da Galiza, Grã-Bretanha, Occitânia e Piemonte virão cultores de antigos sons. Paredes representará o espírito português: a fatalidade e a distância.

 

A iniciativa, que conta com o apoio das três câmaras municipais, tem como objetivo “incrementar o intercâmbio cultural no espaço europeu, com base na promoção e divulgação da música e cultura das suas grandes regiões, e fomentar o contacto entre grupos ou solistas ligados à música tradicional dessas mesmas regiões”. Pretende-se que a série de concertos passe a ter uma realização regular, sempre numa perspetiva de descentralização, procurando deste modo tornar o nosso país num ponto privilegiado de encontro entre as diversas culturas musicais europeias.

            Atuarão ao vivo, entre nós, alguns dos nomes mais importantes de cena “folk” atual, como Andrew Cronshaw, Emilio Cao, Manuel Luna, Perlinpinpin Folc, La Ciapa Rusa, para além do guitarrista português Carlos Paredes.

            Andrew Cronshaw é um músico britânico, responsável por uma original e sedutora fusão das sonoridades tradicionais com o jazz e a música clássica. Como se poderá comprovar pela audição do excelente “Till the Beast’s Returning”, álbum já há algum tempo disponível no mercado nacional. Outras obras importantes são os discos “A is for Andrew, Z is for Zither”, “Earthed in Cloud Valley” (com o guitarrista Martin Simpson), “Wade in the Flood” e o recente “The Great Dark Water”. Intérprete brilhante na cítara elétrica, estende os seus talentos por outros instrumentos – flautas chinesas, concertina, sintetizadores, percussão e o shawm, antepassado medieval do oboé.

            Emilio Cao é galego e já atuou várias vezes em Portugal, tendo colaborado com Fausto em “O Despertar dos Alquimistas” e com o grupo teatral “Os Comediantes”. Exímio executante de harpa, gravou entre outros o marco na evolução da música galega, “Fonte de Araño”. “No Manto da Auga”, “Amiga Alba e Delgada” e “Lenda da Pedra do Destiño” completam a sua atual discografia.

            Também espanhol (se considerarmos que a Galiza é Espanha, o que é duvidoso”...) é Manuel Luna, antropólogo, apaixonado pela música e cultura da região da Cantábria. Publicou vários ensaios e cerca de 30 discos de recolha etnomusicológica. Gravou com os “La Quadrilla” o álbum “Como Hablam las Sabinas”, já importado pela Etnia. A investigar são também “Em los Jardines del Sueño” e o novo “Os Galos de Londres”.

            No Sul de França, entre a Catalunha e a “Côte d’Azur”, fica a Occitânia, região natal dos Perlinpinpin Folc, um dos mais estranhos grupos do movimento folk gaulês. “Musique Traditionnelle de Gascogne”, “Gabriel Valse” e “Al Paїs d’Occitania” são alguns dos seus bons trabalhos. Sobre a sua música escreveu o crítico Pierre Corbefin: “Provoca-nos uma impressão quase opressiva, como se atravessássemos uma paisagem árida, despovoada, apenas habitada por um bater obscuro e pelos rumores da terra”.

            Os “La Ciapa Rusa” são italianos de Piemonte, a Noroeste do país. Combinam a excelência instrumental, através da utilização dos sons tradicionais da sanfona, do violino, do pífaro de pastor e da “musa” (gaita-de-foles piemontesa) com um notável trabalho de harmonias vocais.

            A representação portuguesa está a cargo de Carlos Paredes. Dele o mínimo que se poderá dizer é que é uma parcela importante da alma lusitana. Escutar a sua guitarra, contemplar o modo com se entrega a ela e à música que escorre pelos seus dedos até ao vibrar das cordas, é sentir o Fado e a distância. Ir ao sabor dos “Verdes Anos” até ao oceano sem fim.

            Uma palavra final de louvor para a Etnia que tem vindo a desenvolver um notável trabalho de recuperação e revitalização da cultura tradicional. Desde a realização de espetáculos, exposições e seminários, até à publicação de livros e à importação de pérolas discográficas folk, para já oriundas do país vizinho, como são os álbuns de Rosa Zaragoza, Amancio Prada, Manuel Luna, “La Musgana” e, brevemente, Emilio Cao.

 

PROGRAMA
 
ÉVORA – Praça do Giraldo
 
Quinta, 5 de Julho
MANUEL LUNA
PERLINPINPIN FOLC
 
Sexta, 6 de Julho
LA CIAPA RUSA
CARLOS PAREDES
 
Sábado, 7 de Julho
EMILIO CAO
ANDREW CRONSHAW
 
FAMALICÃO – Jardins da Câmara Municipal
 
Quinta, 5 de Julho
CARLOS PAREDES
ANDREW CRONSHAW
 
Sexta, 6 de Julho
MANUEL LUNA
LA CIAPA RUSA
 
Sábado, 7 de Julho
EMILIO CAO
PERLINPINPIN FOLC

OEIRAS – Auditório do Complexo Social das FA’s
 
Quinta, 5 de Julho
LA CIAPA RUSA
EMILIO CAO
 
Sexta, 6 de Julho
MANUEL LUNA
ANDREW CRONSHAW
 
Sábado, 7 de Julho
CARLOS PAREDES
PERLINPINPIN FOLC
 

02/03/2020

Morreu o mestre da guitarra portuguesa [Carlos Paredes]


DESTAQUE – CARLOS PAREDES 1925-2004
SÁBADO, 24 JUL 2004

MORREU O MESTRE DA GUITARRA PORTUGUESA

A guitarra deixou de tocar. Agora definitivamente. Carlos Paredes partiu ontem de madrugada, deixando a alma portuguesa como um livro ao qual arrancaram as páginas. Ficará a música, para sempre a tocar em movimento perpétuo


Carlos Paredes morreu ontem, às 6h da madrugada, aos 79 anos, na Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Lisboa, onde vivia desde 1993, ano em que lhe foi diagnosticada uma mielopatia, doença que lhe afetou os ossos e o impediu de continuar a tocar guitarra. O funeral realiza-se hoje às 15h30, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, ficando o corpo em câmara ardente na Basílica da Estrela até uma hora antes de seguir para o cemitério.
            Paredes nasceu em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925. Das lições de violino e piano com que se iniciou, em criança, na aprendizagem da música, passou às cordas dedilhadas e à paixão que nunca deixaria de o consumir até ao fim da vida: a guitarra portuguesa. Com o pai, Artur Paredes, aprendeu o estilo coimbrão e a raça desse instrumento surgido em Inglaterra, mas tornado português por empatia. Carlos Paredes deu à guitarra uma voz própria. Fê-la sua. Homem, guitarra e sonho navegaram juntos e o fado transcenderam, junto às muralhas dos portos interiores onde o grito e o sangue vibram por entre o nevoeiro, nas águas da epopeia interrompida. O avô ensinara-o a “colocar os dedos”. O resto, “como não há nada, é inventado pelo guitarrista”. Esse resto é tudo.
            Durante anos construiu na sombra o que já esqueceramos: a arte de ser português. Uma natural modéstia e a permanente ausência de apoios oficiais impediram que a sua arte alcançasse maior projeção no estrangeiro. Eterno exilado de si próprio, chegou a dizer um dia que das suas mãos nunca poderia “sair nada de muito importante”. O poder, sempre atento às inconfidências, aproveitou, tomando-o à letra...
            Influenciado pela música de câmara da renascença e pelo fado de Coimbra, “músico popular urbano” como a si próprio se definia, desenvolveu ao longo dos anos um estilo pessoal que, a partir da tradição e apoiado no vigor de execução, se soube elevar às alturas de uma portugalidade a um tempo sanguínea e lunar. O contrabaixista Charlie Haden foi sensível à força e à capacidade de improvisação de Paredes. Tocaram e trocaram juntos sons e ideias. Desse diálogo ficou para a posteridade um disco, “Dialogues”, editado internacionalmente no selo Elektra Nonesuch, um dos mais prestigiados da música contemporânea. Mais recentemente o grupo de cordas Kronos Quartet integrou a música de Paredes no seu reportório.

Verdes anos
Da sua discografia principal constam as seguintes obras: “Guitarra Portuguesa” (1967), “Movimento Perpétuo” (1971), “Concerto em Frankfurt” (1983), “Invenções Livres” (1986), com António Vitorino de Almeida, “Espelho de Sons” (1987) e “Dialogues” (1990), com Charlie Haden. Um último e inacabado projeto, “Canção para Titi”, editado em 2000, inclui os derradeiros inéditos. Fundamental é a antologia com a obra integral do autor, “O Mundo segundo Carlos Paredes”, publicada o ano passado.
            Compôs as bandas sonoras dos filmes de Paulo Rocha, “Verdes Anos”, imortalizado pela genial composição do mesmo nome, e “Mudar de Vida”; mais recentemente trabalhou com Manoel de Oliveira e José Fonseca e Costa. Colaborou com o Grupo de Teatro de Campolide e com o Teatro Nacional D. Maria II. Dos seus trabalhos destaca-se ainda a partitura para uma coreografia do Ballet Gulbenkian, “Danças para Uma Guitarra”. Alain Jomy, autor da música dos filmes “O Lugar do Morto” e “Aqui d’El Rey”, de António-Pedro Vasconcelos, realizou o documentário “Pour Don Carlos”, centrado na relação da música de Paredes com a cidade de Lisboa.
            Tocou ao vivo na Aula Magna com os Madredeus, em 1991, acompanhado pela guitarrista Luísa Amaro, com quem partilhou os últimos anos de vida. Carlos Paredes tocou ao vivo, em Maio de 1991, na Aula Magna, com os Madredeus, acompanhado pela guitarra de Luísa Amaro. Em Março de 1992, aconteceu finalmente a homenagem, num espetáculo realizado na Aula Magna em Lisboa, e posteriormente apresentado na televisão. Participaram Luísa Amaro, Fernando Alvim, Rui Veloso, Mário Laginha, Natália Casanova, Paulo Curado e os bailarinos Ofélia Cardoso e Francisco Pedro. O derradeiro concerto teve lugar na Aula Magna, em Lisboa, em 1993.
            Guardamos de Carlos Paredes a imagem da sua figura dobrada sobre a guitarra, como que querendo confundir-se com ela. Conseguiu-o, transcendendo deste modo o fado, o nosso, o dele, o da guitarra: “Para defender um instrumento, a única forma possível é criar uma escola. Se as pessoas souberem utilizá-lo convenientemente, guardam-no. Caso contrário, esquecem-no.” A frase, por estranho que pareça, aplicou-se durante muitos anos à sua vida.

Negros anos
Com o desaparecimento de Carlos Paredes é uma parte de nós todos, como nação e como povo, que se perde. Acostumados que estávamos à sua figura e à sua maneira tímida de ser e de nos dizer com a guitarra o que somos e como somos, impregnados até ao fundo da sua música, habituámo-nos a não reparar nele, a deixar andar, a repetir frases de ocasião como “génio da guitarra portuguesa” e “alma do fado”. Como se isso fosse suficiente, e é sempre, como moeda de troca, e nos deixasse tranquilos com a nossa consciência. Escolhemos embalarmo-nos na nossa mediocridade morna e esquecermo-nos que o “génio” e a “alma” se foi gastando, durante anos a arrumar fichas de radiologia no Hospital de S. José, onde trabalhou durante quase toda a vida.
            Carlos Paredes fez da música e da guitarra portuguesa a sua vida. À esquerda e à direita, a “inteligentsia” reivindicava-o como herói da sua causa. Foi vê-lo (a ele e a outros) atuar de graça por esse país fora, no rodopio do pós-25 de Abril, a cantar a “liberdade” e a “justiça”, em nome de partidos com poucos escrúpulos. Estava encontrado, com despesas reduzidas de manutenção, o “embaixador” do nosso fado e dos valores tradicionais ou o “porta-voz” das classes desfavorecidas na luta pelos amanhãs que cantam, conforme o exigiam a ocasião e os interesses em causa. Ele existia e tocava, tocava sempre, e isso bastava-lhe.
            Agora que Carlos Paredes não voltará a abraçar-se como a uma amante à sua guitarra, que jamais nos transportará até essa ilha de amores dos “Verdes Anos”, agora que as cordas se silenciaram por fim desobrigadas do jugo terno dos seus dedos, vamos sentir por fim a sua falta, imitar os esgares da saudade e lavrar-lhe em ata mil louvores destinados à poeira dos arquivos. Fica a obra.
            Carlos Paredes, como Amália, como Camões, como Pessoa, foi, é português, e desse ser português se ofereceu em arte, se esvaziou de vida por amor a quem lhe retribuiu durante anos com palmadinhas nas costas. Sobre a sua própria música Paredes foi lapidar: “Comove sem fazer chorar.”


“Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”

Paredes transcendeu o fado. Se Amália foi a alma, Paredes foi o espírito. A sua música exprimia o fogo e a liberdade. A entrega e o transe

“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço, um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. Foi assim que Luiz Goes, mestre do fado coimbrão e um dos primeiros músicos a tocar com Paredes, definiu a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”.
            A música deste “ser etéreo” que parecia pairar no espaço enquanto tocava, queima-nos como uma chama, lançando-nos de forma lancinante para o âmago de uma solidão partilhada com muito poucos. Uma chama que brilhou entre 1958 e 1993, por 35 anos de carreira em que Paredes deixou bem vincada a sua arte, apesar de uma discografia de originais relativamente escassa. A primeira fase é marcada pelo fado de Coimbra e são já visíveis os sinais de génio que se vislumbram no EP “Carlos Paredes” de 1962. A forma como Paredes desenvolvia as melodias, em rapsódia, entram em conflito com os dogmas da guitarra.
            Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações, ao ouvi-lo pela primeira vez, comentou: “Ninguém tocava daquela maneira.”
            “Guitarra Portuguesa” (1967) é o álbum de estreia e um marco da música portuguesa. Nele cruzam-se a música tradicional, da Idade Média e da Renascença. Paredes encontrara na guitarra de Fernando Alvim o seu parceiro ideal e os dois parecem dançar na forma como as cordas se entrelaçam num destino comum. Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recordava Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que era já muito longe de Paredes. E pus lá um microfone.”
            “Movimento Perpétuo”, de 1971, é outro clássico. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projetadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes. “Quando entrávamos para estúdio”, segundo Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez...’, dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’ Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.”
            Em “Na Corrente”, gravado em 1973, Carlos Paredes reformula alguns temas para inclusão nos posteriores, “Concerto em Frankfurt e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo”. “É Preciso Um País” (1975), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), de Adriano Correia de Oliveira, são aventuras mais ou menos marginais no movimento de Paredes.
            A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt”, foi feita sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, escuridão a escorrer da guitarra. Paredes tocando como se adivinhasse já um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, magoando-as porque elas o magoavam. Com o piano de António Victorino d’Almeida fez “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultou acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro, Victorino d’Almeida voltado para fora. As cascatas de piano afogaram a guitarra. E Paredes exigia, sem querer, subserviência.
            Em “Espelho de Sons” (1987) descobre-se o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música um domínio de si que se estende às mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se a lucidez, a visão e a sabedoria do que antes era intuição. A tragédia é integrada num patamar de existência superior.
            Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, tentou caminhar ao lado de Paredes em “Dialogues”. O contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível do alinhamento, remetendo-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflete o mundo, mas só à sua imagem. Já fraco e nas mãos da doença, “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive finalmente como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor.

DISCOGRAFIA EM ÁLBUNS
> Guitarra Portuguesa (1967)
> Meu País-Canções (de Cecília Melo, 1970)
> Movimento Perpétuo (1971)
> É Preciso Um País (com Manuel Alegre, 1975)
> Que Nunca Mais (de Adriano Correia de Oliveira, 1975)
> Concerto em Frankfurt (1983)
> Invenções Livres (com António Victorino d’Almeida, 1986)
> Espelho de Sons (1988)
> Carlos Paredes/Artur Paredes (com Artur Paredes, 1988)
> Dialogues (com Charlie Haden, 1990)
> Na Corrente (1996)
> Canção para Titi - Os Inéditos (2000)

Pequena multidão na despedida a Carlos Paredes


CULTURA
DOMINGO, 25 JULHO 2004

Pequena multidão na despedida a Carlos Paredes

FUNERAL ONTEM

Não foi uma grande multidão aquela que compareceu ao funeral do mestre. Na morte, como na vida, ele foi até ao fim o “gigante”, nobre e discreto, da nossa música. Os sons da sua guitarra perdurarão na nossa memória

Cerca de 500 pessoas acompanharam, ontem, Carlos Paredes, até à sua última morada, no Cemitério dos Prazeres, onde foi a enterrar o mestre da guitarra portuguesa, que faleceu no mesmo dia em que Amália Rodrigues nasceu. Duas referências maiores da música portuguesa irmanadas por esta coincidência.
            A tarde estava tórrida, mas mesmo antes do cortejo chegar a pé da Basílica da Estrela, onde o corpo do guitarrista esteve exposto em câmara ardente, houve quem aguentasse a pé firme a canícula. Joaquim Medeiros, 74 anos, reformado da CP e “alentejano”, como fez questão de frisar, estava à espera no cemitério há mais de duas horas mas não arredou pé. Nas mãos segurava um cravo vermelho. A seu lado, a mulher, tinha uma rosa, também vermelha. Foi assim que se despediram do guitarrista.
            Ao falar de Paredes a voz de Joaquim Medeiros – homem com muitas histórias para contar (além de reformado é também o presidente da Comissão de Utentes da Margem Esquerda do Guadiana) – incendiou-se: “Era um democrata e o que eu lamento neste país é que as pessoas, os grandes democratas, os grandes génios, os grandes talentos, só se fale no nome deles quando é da morte. De Paredes, na vida real pouco se falava dele, só meia dúzia de pessoas. Foi um génio, dos que aparecem de cem em cem anos. Devia dar-se mais valor aos grandes artistas. Trouxe o cravo porque ele também esteve com o 25 de Abril, esteve preso na ditadura de Salazar. É um estímulo.”
            No cemitério, e bem junto ao carro funerário, distinguiam-se as figuras de Carlos do Carmo e, a seu lado, do filho, Gil do Carmo. Estavam visivelmente emocionados. Caminhava-se em silêncio. A “explosão” aconteceu quando o carro parou e a urna foi retirada para o exterior – uma longa, longuíssima torrente de aplausos que só parou quando o padre disse as palavras de despedida. Todos sentiram, como Vera Rodrigues, 37 anos, professora, que “desapareceu um símbolo importante da música portuguesa”. Vera tem pena de não ter “conhecido pessoalmente” o mestre mas garante que jamais esquecerá a sua música, citando a importância de um álbum como “Movimento Perpétuo”: “É fantástico, aconselho toda a gente a comprá-lo!”
            Enquanto fala, as palmas não param. O elogio fúnebre destacou a “amizade” e a “ternura” cultivados pelo autor de “Verdes Anos”. Alguns estudantes ensaiavam baixinho uma canção de adeus ao mestre. “Há muitos anos que ouço a música do Paredes”, diz João Martins, 26 anos, engenheiro eletrotécnico, representante do Grupo de Fados Verdes Anos. “Mais do que ser portuguesa, património de qualquer tipo de expressão nacional, a música de Carlos Paredes tornou-se universal. É com muita pena que o vejo partir apesar de já não o podermos ouvir há mais de dez anos a tocar guitarra portuguesa.”

“Até amanhã camarada!”
O calor tornou-se quase insuportável, enquanto uma bruma escondia a visão do Tejo, para onde Paredes há-de ficar virado. As emoções soltaram-se ainda mais. Não é só o músico nem o homem que são recordados, mas também o cidadão com ideais de esquerda que foi Paredes. Alguém gritou: “Até amanhã camarada!”. “Até amanhã” repete outra voz, enquanto vários punhos fechados se erguem no ar em saudação.
            Marta Barata, 34 anos, “designer”, quis “prestar uma última homenagem a uma pessoa que foi uma referência muito grande da música portuguesa”. Em Paredes viu sempre “uma grande nobreza enquanto pessoa, com um grande espírito artístico”. Também alheio ao burburinho dos punhos erguidos, houve quem, chegado para um canto, vivesse outro tipo de recordações. Como Amílcar Nunes, 79 anos, geógrafo, ex-delegado de propaganda médica: “Conheci o Carlos Paredes durante muitos anos. Foi um amigo de longos anos, convivemos durante muito tempo, encontrávamo-nos com muita frequência e gostava imenso de ir aos concertos dele, mesmo antes do 25 de Abril. Lembro-me de o ver atuar em associações recreativas a acompanhar artistas que declamavam poesia. Toda a obra, toda a vida dele foi dedicada à música.”
            A pequena multidão foi dispersando. Deram-se os últimos beijos e abraços. David Ferreira, diretor da EMI – Valentim de Carvalho guardou um silêncio comovido enquanto Luísa Amaro, companheira dos últimos anos de Paredes, tentava com um sorriso tímido apagar as lágrimas que lhe marejavam os olhos. Rão Kyao, músico, traçou o último retrato do mestre da guitarra portuguesa. “O Carlos é um gigante da nossa música, uma influência muito grande, não só na música portuguesa, na atitude, um homem que nunca tocava nada que não fosse absolutamente sentido, que não passasse completamente pela parte anímica. Mudou a guitarra portuguesa. Foi ele que nos ensinou isso e nos pôs no nosso devido lugar em relação à música. É uma perda incalculável que é compensada por aquilo que a gente tem dele – as memórias e o que está gravado.”
            O local está então quase deserto e o silêncio e o calor pesavam mais do que nunca. Regressou-se pelo mesmo caminho e com uma ideia insistente a bailar, a de que Paredes foi maior do que alguma vez o conseguimos imaginar e mereceu sempre mais do que recebeu. Fica o silêncio, o mesmo silêncio alteroso e oceânico que clamava nas cordas da sua música.

09/01/2019

A guitarra que venceu o fado [Carlos Paredes]


Y 7|MARÇO|2003
música|capa

Carlos Paredes
A GUITARRA QUE VENCEU O FADO

Se Amália foi o fado, Paredes é a sua transcendência. Amália foi a onda, nítida e exacta. Paredes, o mar revolto e uma ideia de liberdade que não se esgota no dizer. Disse-o mesmo assim - com a raiva e a ternura de quem se deu e coroou a solidão. A integral O Mundo Segundo Carlos Paredes, agora editada, é o testemunho vivo desse caminho.

“Carlos Paredes era de uma dimensão muito difícil de definir. O Carlos vagueava no espaço: é um ser etéreo. Ele não estava cá, estava para além e acima de nós. Pairava no espaço. Quando o Carlinhos aparecia para tocar, era um deus”. É desta forma que Luiz Goes, um dos mestres do fado de Coimbra e dos primeiros músicos a privar com a arte de Paredes, define a personalidade musical e humana do autor de “Verdes Anos”, cuja obra integral acaba de ser compilada pela EMI-VC em forma de caixa, com o título “O Mundo Segundo Carlos Paredes, Integral, 1958-1993”.
            O mundo segundo Carlos Paredes é um mundo que a todos fascina mas também um mundo cuja originalidade se torna difícil de enquadrar sob a lupa da análise mais fria. A música deste “ser etéreo” que, como dizia Goes, parecia pairar no espaço enquanto tocava, atinge-nos irremediavelmente na dimensão mais trágica do ser português, nesse ponto onde a mais despojada e apaixonada das solidões se sublima amorosamente pela Saudade.
            Para além de Amália, Paredes foi, enquanto músico, o mais alto expoente desta interioridade, tornada beleza e arrebatamento absolutos nas cordas e na alma de uma guitarra portuguesa. Por estas razões, pelo valor documental e pelas não razões, de ordem emocional, que cada um descobrirá dentro de si, “O Mundo Segundo Carlos Paredes” é, desde já, no capítulo das reedições, o acontecimento editorial do ano.
            Apresentado sob a forma de livro forrado interiormente com 37 páginas explicativas, incluindo um texto de apresentação de Ruy Vieira Nery, compõe-se de oito CDs organizados por ordem cronológica, abrangendo a totalidade do material gravado por Paredes, disperso por EPs e álbuns lançados entre 1958 e 1993. 35 anos de carreira ao longo dos quais Paredes deixou vincada a sua arte, parca em quantidade (a sua obra é escassa, comparada por exemplo, com o acervo legado por Amália), mas absolutamente imbuída de uma intensidade inigualável na música deste século.

            nascer do dia
            “Despertar”, título do CD de abertura, é composto por 26 temas, dos quais os primeiros quatro, os mais antigos gravados pelo guitarrista, correspondem ao EP “Fado de Coimbra”, do Dr. Augusto Camacho, excluindo-se obviamente as colaborações prévias de Paredes com o seu pai, Artur Paredes.
            Descobre-se nesta introdução a nostalgia e o típico “rubato” coimbrões que marcariam, sem o esgotar, o estilo do guitarrista, vislumbrando-se desde logo sinais do seu virtuosismo. Entre os temas 5 e 8 deparamo-nos, cara a cara, com o génio musical presente no EP “Carlos Paredes”, de 1962.
            Os desenvolvimentos melódicos, em forma de rapsódia, e, sobretudo, a sua exposição em termos técnicos, de imediato entraram em conflito com os dogmas ligados ao instrumento. Hugo Ribeiro, engenheiro de som presente em inúmeras gravações do mestre, ao ouvi-lo pela primeira vez numa sessão em casa de Amália, comentou: “Aquilo não tinha nada a ver com guitarra portuguesa. Ninguém tocava daquela maneira”. Não tocava, de facto. Quanto à guitarra portuguesa, tornou-se desde esse momento um instrumento nobre e arquétipo pelo qual todos os guitarristas das gerações posteriores se guiariam.
            Outro EP, de 1964, apresenta “Guitarradas sob a Forma do Filme ‘Verdes Anos’”. Não era ainda o tema com o mesmo nome que se tornaria o cálice onde vamos beber a transcendência, mas as sementes, regadas, como no disco anterior, pela guitarra de Fernando Alvim, estavam já preparadas para fazer florescer uma música ainda mais sofisticada. “Frustração”, a faixa final, fere como um punhal, o derradeiro tom menor assombrando como a revelação do destino. Noite sem véus.
            “Guitarra Portuguesa” (1967) constitui o álbum de estreia, através do qual o seu autor entrou em definitivo para a galeria dos imortais. Todos guardamos, no ouvido, no subconsciente ou no coração alguma destas melodias. “Dança” evidencia o lado mais enraizado na música tradicional de Paredes, enquanto “Fantasia” e “Pantomina” ilustram as suas ligações à música antiga, respetivamente da Renascença e da Idade Média. “Divertimento” sintetiza, entre a euforia e o sonho, o modo de construção melódica, rítmica e harmónica do músico. Muitas músicas numa música. Paredes e Alvim, genialmente irmanados no mesmo delírio, formam uma orquestra subliminar, atuante nos vários planos de escuta. “Romance Nº1” e “Romance Nº2” são harpa de luz e água. Paredes e Alvim, guitarras em dança sagrada. Precisamente no meio do alinhamento está “Verdes anos”. E aqui, de tão próximos e tão misteriosamente e para sempre distantes (não é isto, também, a Saudade?) resta-nos o silêncio e a entrega. Porque de silêncio e entrega, mas também de uma solidão exposta com nudez quase cruel, se trata. Música em estado puro, verdadeiro “movimento perpétuo” do qual o executante se faz puro agente mediúnico. Aquele que recebe, dá e revela.
            Alguns segredos técnicos ajudaram a criar esta obra-prima. Recorda Hugo Ribeiro: “O Paredes não custava nada gravar. A grande dificuldade era conseguir ouvir a guitarra através dos altifalantes e da aparelhagem como se estivesse a um metro de distância. Eu procurava ouvir a guitarra através do microfone do ‘ponto de vista’ dos meus ouvidos em relação ao instrumento. Acabei por arranjar uma solução: fui vendo onde ouvia bem a guitarra, o que era já muito longe de Paredes. E pus lá um microfone, um outro junto de Paredes, que estava desligado; e afastava dele ao máximo a viola do Fernando Alvim...”. Completam o “Despertar” três temas extraídos do LP “Coimbra de Ontem e de Hoje” (1967) de Luiz Goes.

            água corrente
            “Na Corrente”, CD Nº2, abre com o tema com o mesmo nome, registado em 1969 para o documentário televisivo de Augusto Cabrita mas publicado pela primeira vez em Cd apenas em 1996. Nesta faixa Paredes tocou guitarra clássica improvisando em tempo real sobre as imagens projetadas. Um Paredes diferente, abstrato, por vezes quase ausente que desfalece para logo recuperar o fogo e o fôlego, umas vezes próximo do espírito da bossa-nova, outras num abandono triste ou na perplexidade de quem escutando fora de si, a si mesmo se escuta. O “mundo segundo Carlos Paredes” é Carlos Paredes. Em seu redor: paredes de água, paredes de diamante, paredes de cristal. Transparentes. Inquebráveis. Doze minutos e meio de vida como ela é, ou seja, música: Movimento. Enigma. Tempo. “Na corrente” é um título perfeito.
            Por isso se cai aos trambolhões quando, sem aviso, a voz de José Carlos Ary dos Santos se faz a ouvir lendo poemas medievais e contemporâneos, com Paredes a acompanhá-lo. O álbum chamava-se “Espiral Op.70” (foi uma oferta de Natal da agência de publicidade Espiral, onde o poeta era um dos criativos...) e teve edição privada em 1969. Alguns solos (já na guitarra portuguesa) soam distantes. Ary declama “Meu amor, meu amor”, poema seu que Amália cantaria com música de Alain Oulman.
            Vem a seguir uma raridade: “Meu País” (1970), de parceria com a cantora e atriz Cecília de Melo, então companheira de Paredes. Seis tradicionais mais outros tantos originais do guitarrista, sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. A voz faz lembrar a de Cândida Branca Flor nos tempos folk com a Banda do Casaco. Paredes ouve-a embevecido e dá-lhe um céu repintado da obra anterior. Mas céu, seja como for...
            “Danças”, CD Nº3, traz “Movimento Perpétuo”, de 1971. Um clássico. Ao lado dos inéditos, o LP incluía um par de temas compostos para a banda sonora de “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com a participação de Tiago Velez, na flauta, o que confere à música uma sonoridade com ressonâncias “new age” na linha da música de Paul Horn. É o álbum em que a veia improvisadora de Paredes se sedimenta num estilo reconhecível, feito de reminiscências de frases antigas projetadas, paradoxalmente, de acordo com um desejo de superação e descoberta constantes.
            “Quando entrávamos para estúdio”, recorda Hugo Ribeiro, “o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar. ‘Vamos ver, se calhar, talvez...’, dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: ‘Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!’. Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal.
            Há ainda “O fantoche” (outra melodia entranhada nos ouvidos de todos) que sobrou destas sessões, e outras duas versões, de fado de Coimbra que, pela sua especificidade, foram editadas separadamente em “single”. Uma delas, “Balada de Coimbra”, com arranjo de Artur Paredes, foi responsável por um desentendimento entre pai e filho. Consta que Artur se terá insurgido contra o facto do filho gravar um arranjo seu sem tocar suficientemente bem... Os restantes seis temas fazem parte de um álbum encetado em 1973 mas apenas editado em 1996 na compilação de raridades “Na Corrente”. Carlos Paredes reformulara entretanto alguns destes temas para inclusão em álbuns posteriores, “Concerto em Frankfurt e “Espelho de Sons”, bem como para uma edição exclusiva alemã, “O Oiro e o Trigo”, feita sem o consentimento da editora Valentim de Carvalho, com quem tinha contrato, o que motivaria um corte de relações entre ambas as partes.

            o destino nas mãos
            “As Mãos” reúne material de “É Preciso um País” (1974), com poemas e voz de Manuel Alegre, e “Que Nunca Mais” (1975), com Adriano Correia de Oliveira. No primeiro, Carlos Paredes socorre-se do “guitarrão”, uma guitarra portuguesa modificada que abrangia as escalas da guitarra clássica e da guitarra portuguesa normal. A revolução de Abril ainda fervia e os poemas de Alegre afirmavam-se em conformidade. Tempos de idealismo que o tempo não cumpriu. Paredes, com a sua proverbial generosidade e o empenhamento político, deu-se de corpo e alma a esta luta que também foi a sua mas da qual outros se aproveitaram. Digamos, para abreviar, que a guitarra de Paredes casava mal com um comício. A sua revolução era outra e foi essa que verdadeiramente modificou a música em Portugal.
            Já o encontro, em dois temas, com Adriano Correia de Oliveira, seu “companheiro de estrada”, está mais próximo da corrente politizada da MPP do pós-25 de Abril, com uma veia tradicional menos dependente da mensagem e do tom panfletário veiculada pelo tom declamatório de Alegre.
            A gravação ao vivo de 1982, na Ópera de Frankfurt, que deu origem a “Concerto em Frankfurt” fecha o alinhamento de “As Mãos”. O concerto foi gravado sem o conhecimento de Paredes, para não o enervar, e nele encontramos um músico em que a tristeza (o desespero?) substituíra já a melancolia romântica e o poder de afirmação de “Guitarra Portuguesa”. É fado, realmente fado, a escuridão que escorria então da sua guitarra. Tocava já como se adivinhasse um desfecho trágico, numa luta titânica contra a tirania das notas, procurando esventrá-las, magoando-as porque elas o magoavam. Redimindo-as, afinal, num “lado de lá” que chega a ser aflitivo, nomeadamente nos seis cantos que compõem a “suite” ”Seis Cantos Improvisados sobre a Cidade”, ficando o lado mais lírico reservado para as “Seis Guitarras sobre uma Fábula”.

            inventar a solidão
            Outra colaboração, desta feita com Carlos do Carmo, em “Fado moliceiro”, para o álbum “Um Homem no País” (1983), abre o CD seguinte, genericamente intitulado “Improvisos”. Mas a “peça de resistência” é constituída pelos dois longos “diálogos” da guitarra de Paredes com o piano de António Victorino d’Almeida que formam “Invenções Livres” (1986). Desse encontro, surgido como consequência do interesse manifestado por Paredes em encontrar pontes com outras músicas, resultaram esporádicas confluências mas, acima de tudo, a evidência de duas visões divergentes da música. Paredes tocava voltado para dentro. Vitorino d’Almeida é um extrovertido. As cascatas de piano afogaram a guitarra, outras vezes teimosamente tentando chamar a atenção da guitarra para espaços comuns, procurando atrair, aproximar mas, por fim, resignando-se à hipotética aproximação de dois monólogos em vez da comunhão. Paredes exigia, sem querer, subserviência. Ou uma complementaridade como aquela que lhe era oferecida por Fernando Alvim. Para o maestro tal seria impensável. E a Paredes um só labirinto chegava.
            Em “Asas” arruma-se o imprescindível “Espelho de Sons”, revisto e aumentado na primeira transição de LP para CD. Antologia de temas antigos retrabalhados, nela descobrimos o guitarrista na sua melhor forma, conquistando a música o domínio de si mesma nas suas mais ínfimas “nuances”. Paredes tornara-se senhor do seu destino enquanto músico. Sente-se lucidez em cada frase, a visão e a sabedoria do que antes era intuição e mediunidade. Paredes ataca as notas, já não para as fazer sangrar, mas para se afirmar como igual. Não toca “contra” mas “com”. A tragédia, de inevitável, é integrada num patamar de existência superior. Paredes ganhara “Asas sobre o Mundo” (dois inéditos acrescentados ao conceito original de “Espelho de Sons”, em edição exclusiva para a TAP) e é com elas que desce o pano sobre o sexto CD de “O Mundo Segundo Carlos Paredes”.

            A vida, segundo a segundo
            É sabida a incompatibilidade de Paredes em dialogar com outros músicos, outras músicas. Mas nem por isso os outros músicos deixaram de tentar. Charlie Haden, nome histórico do contrabaixo no jazz, insistiu no acasalamento, propondo a descoberta a dois de novos caminhos. Tentativa de união que em 1990 foi editada em álbum, “Charlie Haden & Carlos Paredes”, no qual o contrabaixista cedeu ao guitarrista o maior espaço possível do alinhamento. Assim se inicia o CD número sete desta Integral, “Diálogos”. De Haden, apenas o hino “Song for Che”. O resto, em temas como “Dança dos camponeses”, “Marionetas”, “Balada de Coimbra”, “Divertimento” ou o incontornável “Verdes anos”, saiu da pena e do transe de Paredes. Haden remete-se a um papel discreto. A improvisação, segundo Paredes, não segue os parâmetros do jazz. É caminho escuro, mas também cravejado de estrelas e cometas. Diante da guitarra ergue-se um espelho. Onde se reflete o mundo, mas só à sua imagem. Três temas finais completam estes “Diálogos”, todos gravados na sessão realizada em 1992 no Coliseu de Lisboa com os Madredeus. Paredes interpreta só “Mudar de vida”, acompanhando o grupo de Teresa Salgueiro e Pedro Ayres Magalhães em “Canto de embalar” (com assinatura de Pedro Ayres e Paredes) e no original do grupo, “O navio”.
            Faltava a viagem final, a que preenche o derradeiro CD, “Memórias”. Paredes, o músico, eternizou-se. Paredes, o homem, fraquejava ao fundo do túnel, desamparado, as mãos presas nas garras da doença. “Canção para Titi”, de 2000, sobrevive como testemunho pungente de uma arte que procurou – e conseguiu – redimir o mundo da dor. Foi preciso montar “takes”, colar frases e notas. Para erguer, no final, intacta, a estátua de um homem simples que quando tocava guitarra se transformava em mito. Entre o cataclismo de amor que é “Guitarra Portuguesa” e a “Valsa diabólica” que é uma das múltiplas mágoas de “Titi”, a música de Paredes cresceu, como escreve João Lopes no posfácio da Integral, “uma pura identidade em construção: uma música carnal, quase animista, ao mesmo tempo que cerebral, pedagogicamente a enunciar a sua própria ideia de liberdade (...) uma arte de não abdicar das razões da solidão”.
            Ao escutarmos e – melhor ainda, ouvirmos – “O Mundo Segundo Carlos Paredes” sentimo-nos mais sós e menos sós. Mas essa é a essência da Saudade. Saudade do que somos.

CARLOS PAREDES
O Mundo Segundo Carlos Paredes. Integral, 1958 – 1993
Ed. e distri. EMI-VC
10|10

17/12/2018

Uma guitarra chamada Portugal [Carlos Paredes]


CULTURA
DOMINGO, 16 FEVEREIRO 2003

Uma guitarra chamada Portugal

Carlos Paredes faz hoje 78 anos. Graças a ele a guitarra ganhou um novo nome: Portugal. Durante um ano, o autor de “Verdes anos” será objeto de homenagem

Carlos Paredes, o mestre da guitarra portuguesa, nasceu em Coimbra a 16 de Fevereiro de 1925. Faz hoje 78 anos. Para comemorar o evento, a associação Movimentos Perpétuos fez coincidir a data com o início de um plano de actividades culturais que se estenderão ao longo do ano e das quais fazem parte espectáculos de música, cinema, exposições, edição de livros, catálogos e um álbum de BD e edição de um CD duplo e DVD.
            Objectivo: "Tornar acessível toda a obra de Carlos Paredes" através da "investigação e recolha de materiais espalhados por várias instituições", do "tratamento informático do seu espólio e restante informação" e da "criação e manutenção de um 'site'", entre outras iniciativas que pretendem ir além da simples homenagem.
            Tudo começará hoje à noite em Coimbra, no Jardim Escola João de Deus, a primeira escola frequentada por Carlos Paredes, com um espectáculo onde estarão presentes Maria João e Mário Laginha, Ana Sadio e Jorge Gomes (guitarra portuguesa), acompanhados por André Moutinho (guitarra clássica), Marco Figueiredo (piano) e Ricardo Rocha (guitarra portuguesa). Em peças alusivas e dedicadas ao autor de "Espelho de Sons".
            Na agenda da associação Movimentos Perpétuos está a gravação de um CD e um DVD com o "making of" das diversas actividades programadas para o "ano de Paredes". Por confirmar, está outro DVD com imagens do espectáculo "Carlos Paredes - Uma Guitarra Portuguesa", realizado por Paredes e convidados no Teatro São Luiz, em Lisboa, em 1992. Também em preparação está a edição de um álbum de BD alusiva ao mestre coimbrão, por dois músicos ligados ao rock nacional: Manuel Cruz, dos Ornatos Violetas, e Adolfo Luxúria Canibal, cérebro e voz dos Mão Morta.
            Entre as diversas personalidades que já aderiram a esta iniciativa estão dezenas de nomes da cultura portuguesa: Álvaro Siza (arquitecto), João Abel Manta, João Cutileiro, José Manuel Rodrigues, Lagoa Henriques, Noé Sendas e Sérgio Pereira da Silva (artistas plásticos), Carlos Avilez, Eduardo Prado Coelho, Francisco José Viegas, Jacinto Lucas Pires, Joaquim Benite, Jorge Silva Melo, José Luís Peixoto, Lídia Jorge, Manuel Alegre, Mário de Carvalho, Pedro Tamen e Urbano Tavares Rodrigues (escritores e jornalistas), Edgar Pêra, João Nuno Pinto e Pedro Sena Nunes (realizadores), António Pinho Vargas, Carlos Bica, Gabriel Gomes, Bullet, Gaiteiros de Lisboa, José Eduardo Rocha, Maria João e Mário Laginha, Mísia, Ricardo Rocha, Sam the Kid (músicos) e Daniel Lima, João Fazenda e Luís Afonso (autores de banda desenhada), entre outros.

Invenções livres
Das lições de violino e piano com que se iniciou, em criança, na aprendizagem da música, Carlos Paredes transitou para as cordas dedilhadas, dando espaço a uma paixão que jamais deixaria de o consumir: a guitarra portuguesa. Com o pai, Artur Paredes, aprendeu o estilo coimbrão e a raça desse instrumento surgido em Inglaterra mas tornado português por empatia. "O guitarrista tem de integrar a guitarra em si mesmo, tornando-a a sua voz... Foi com o meu pai que aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada", disse o mestre. Quem teve a felicidade de assistir aos seus espectáculos, lembrar-se-á, estarrecido, da forma como o homem se dobrava, num abraço sem remédio, sobre a guitarra, formando um único corpo. Integrar a guitarra em si mesmo. Eram, de facto, um só. Carlos Paredes deu à guitarra uma voz própria. O avô ensinara-lhe a "colocar os dedos". O resto, "como não há nada, é inventado pelo guitarrista".
            Durante anos, Paredes deu corpo a algo de que andávamos e andamos esquecidos: a arte de ser português. Uma natural modéstia e a indiferença generalizada das instituições têm impedido uma maior projecção da sua música no estrangeiro. Carlos Paredes, para quem "as coisas nunca têm uma importância de maior", eterno exilado de si próprio, afirmou certo dia que das suas mãos nunca poderia "sair nada de muito importante". As instâncias oficiais, atentas como sempre, quando lhes convém, a inconfidências deste tipo, têm-no levado à letra. Maquiavel não teria feito melhor.
            Influenciado pela música de câmara da Renascença e pelo fado de Coimbra, Carlos Paredes, "músico popular urbano" como a si próprio se define, desenvolveu ao longo dos anos um estilo pessoal que, com base na tradição e apoiado no vigor de execução, ascendeu a uma portugalidade de que Amália foi a diva incontestada. Amália e Paredes, por ironia do destino, nunca tocaram em conjunto. Mas o contrabaixista de jazz Charlie Haden foi sensível à força e à capacidade de improvisação do guitarrista. Tocaram e trocaram sons e ideias no Hot Club de Lisboa, onde actuaram juntos a 27 de Setembro de 1978. Desse diálogo ficou para a posteridade o álbum “Dialogues” (1990), um disco editado internacionalmente no selo Elektra Nonesuch, dos mais prestigiados da música contemporânea actual.
            Da discografia de Carlos Paredes constam as seguintes obras, todas em formato de LP e, posteriormente, transferidos para o digital: "Guitarra Portuguesa" (1967) "Movimento Perpétuo" (1971), "Concerto em Frankfurt" (1983), "Invenções Livres" (com António Vitorino de Almeida, 1986) e "Espelho de Sons" (1988). "Asas sobre o Mundo", editado em 1989, inclui temas de "Guitarra Portuguesa" e "Concerto em Frankfurt". Existem ainda "Carlos Paredes/Artur Paredes" e "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes" bem como uma colecção de EP editados ao longo das décadas de 60 e 70, entre os quais o mítico "Verdes Anos", com data de lançamento de 1963. Em 1996, e aproveitando o título de um documentário realizado em 1969 por Augusto Cabrita, para o qual compôs a banda sonora, foi editado "Na Corrente", compilação de material inédito gravado em 1969, 1971 e 1973 e, dois anos mais tarde, a antologia "O Melhor de Carlos Paredes". “Canção para Titi” sai em 2000, com material gravado em 1993 no qual são já visíveis os efeitos da doença.

Danças
Carlos Paredes é ainda autor das bandas sonoras dos filmes de Paulo Rocha, "Verdes Anos", imortalizado pela genial composição com o mesmo nome, e "Mudar de Vida". Mais recentemente, trabalhou com Manoel de Oliveira e José Fonseca e Costa. Colaborou com o Grupo de Teatro de Campolide e com o Teatro Nacional D. Maria II. Dos seus trabalhos destaca-se ainda a partitura para uma coreografia de Vasco Wellenkamp para o Ballet Gulbenkian - "Danças para uma Guitarra" (1982).
            Alain Jomy, autor da música dos filmes "O Lugar do Morto" e "Aqui d'El Rey" de António-Pedro Vasconcelos, realizou o documentário "Pour Don Carlos" centrado na relação da música de Paredes com a cidade de Lisboa. Em 1991, o guitarrista tocou ao vivo na Aula Magna ao lado dos Madredeus e, no ano seguinte, o espectáculo "Carlos Paredes - Uma Guitarra Portuguesa" contou com as presenças de Fernando Alvim (seu companheiro de armas de longa data), Rui Veloso, Mário Laginha, Natália Casanova, Manuel Paulo, Paulo Curado e Luísa Amaro, sua companheira há muitos anos.
            Em 1993, foi-lhe diagnosticada uma doença do foro neurológico que progressivamente o afastou da guitarra e lhe tolheu os movimentos. Carlos Paredes vive actualmente numa casa de saúde em Lisboa.
            "Para defender um instrumento, a única forma possível é criar uma escola. Se as pessoas souberem utilizá-lo convenientemente, guardam-no. Caso contrário, esquecem-no." A frase, do próprio Paredes, aplica-se, por estranho que pareça, à sua própria vida. Mas ainda vamos a tempo de dizer que não o esquecemos. Parabéns, Carlos Paredes.


C o m C a r l o s P a r e d e s

José Eduardo Rocha, Sam the Kid, Gabriel Gomes e os Gaiteiros de Lisboa são alguns dos músicos que se associaram à iniciativa promovida pela associação Movimentos Perpétuos, compondo uma peça inspirada na música de Carlos Paredes


Paredes letra a letra

“O Carlos Paredes é como o Zeca Afonso. Para mim é música clássica. Compus uma peça intitulada ‘Prelúdios e Fugas sobre o Nome de Carlos Paredes’. Para dois violinos Chicco, harpa e pequeno gamelão. A peça, não pretendendo ser um retrato musical, é uma homenagem, uma evocação musical por dentro. Peguei no nome dele e criei uma série de notas segundo a notação anglosaxónica e grega. Uma nota para cada uma das letras constituintes do nome de Carlos Paredes, segundo uma prática tradicional e secreta na história da música. Tem uma certa atmosfera, nomeadamente os sons metálicos do pequeno gamelão que talvez evoquem o som metálico da guitarra. O uso da harpa também vai nesse sentido, na utilização de certas técnicas de corda dedilhada.
JOSÉ EDUARDO ROCHA
COMPOSITOR E DIRETOR MUSICAL DO AGRUPAMENTO ENSEMBLE JER

Paredes hip-hop

“Sou um rapaz ainda muito novo e não conheço em profundidade o trabalho do Carlos Paredes. Apenas tinha comigo duas coletâneas. Não é um artista fácil de samplar, porque não tem um compasso certo, que entre no hip-hop. Já compus a peça mas foi muito difícil. Não fui muito fiel ao trabalho dele. Segui o “chop style”, que consiste em separar e cortar as notas todas para depois eu próprio as tocar e inserir num compasso hip-hop. Samplei uma música que usa também um piano, com o António Vitorino d’Almeida, chamada “Improviso”. Facilitou-me um bocadinho mais... Inclusive, fiz uma coisa que não sei se me vão permitir: pus umas vozes do Carlos do Carmo por cima. Ficou bem. Agora não sei se em termos legais me vão deixar...”
SAM THE KID
MÚSICO DE HIP-HOP

Paredes com acordeão

“A música do Paredes é uma autêntica ebulição. Um balanço que me leva sempre numas grandes ondas. É um intérprete sublime e, na composição, todos os acordes que faz são uma referência para mim. Estou a agarrar num disco dele e a tirar partes de algumas músicas para, sobre essa base, tocar acordeão. Digamos que é uma conversa entre Carlos Paredes e eu. Vou fazer uma música de Paredes a partir de uma combinação de várias partes que, juntas, criam outro ambiente. O que pretendo fazer com esta faixa é que alguns elementos que identificamos de uma música e outros de outra, numa sequência diferente, ganhem um sentido novo.”
GABRIEL GOMES
EX-SÉTIMA LEGIÃO E MENTOR DO PROJECTO “OS POETAS”

Paredes como Bach

“É curioso. Normalmente nunca se pensa muito sobre a música dele. Está ali, existe, é um dado cultural nacional. Passados estes anos todos, no outro dia fui “obrigado” a ouvir de novo e pela primeira vez percebi, conscientemente, que o homem é um génio. Em termos absolutos comparável a qualquer Bach ou a qualquer Mozart. Basta ouvi-lo com ouvidos de ouvir. É impressionante. Mas só agora tive esta noção. É como passar todos os dias por um monumento que se sabe que é giro e está ali e um dia olharmos mesmo para ele e descobrirmos que é muito mais do que aquilo que vimos durante toda a vida. Estamos a compor um tema inspirado no “Movimento perpétuo”, com um arranjo à nossa maneira. Mas a coisa ainda está muito no princípio. Para já temos que esperar que o José Salgueiro aprenda a tocar aquilo no xilofone.”
CARLOS GUERREIRO
ELEMENTO DOS GAITEIROS DE LISBOA