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13/02/2020

Fórmula 1 sem competição [Carlos Nuñez]


CULTURA
QUARTA-FEIRA, 18 FEV 2004

Crítica Música

Fórmula 1 sem competição

Carlos Nuñez
LISBOA Grande Auditório do CCB.
2.ª feira, às 21h. Sala cheia.

Um músico fabuloso pode dar um mau concerto? Às vezes acontece. Aconteceu na passada segunda-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, onde Carlos Nuñez fez nova demonstração do seu virtuosismo sem que tal fosse sufi ciente para afastar o espetáculo, nalguns momentos, da vulgaridade.
Ponto assente: a tocar “tin whistle”, uma quantidade de flautas, ocarina ou gaita galega, Carlos Nuñez é um assombro e, nesse capítulo, a sua apresentação no CCB não fez mais do que confirmar as suas inegáveis capacidades de intérprete. Nos “reels” irlandeses, nas modalidades galegas, nos tempos rápidos (que no seu caso roçam a vertigem) ou nos lentos, Nuñez reafirmou a sua técnica quase sobrenatural, aliada a um sentido inato do tempo e à capacidade em extrair de cada tema a sua natureza mais íntima.
Mas Nuñez, sozinho, não pode fazer tudo. O quarteto que o acompanhou no CCB, por mais entusiasmo e empenhamento postos na função, não conseguiu estar à altura do solista. Pancho Alvarez, no bandolim, cumpriu sem brilhar, e Begoña Riobó mostrou que o seu violino entra em “panne” a partir da quinta velocidade, já para não falar da dificuldade em entrar no tom certo da única vez que foi chamada a cantar, em “Cantigueiras”, de “A Irmandade das Estrelas”. Quanto ao baterista Xuxo Nuñez, fez levantar uma vez mais a questão de saber até que ponto a bateria enriquece ou não as danças tradicionais. Neste caso, não enriqueceu.
Os ritmos quadrados, a batida primária, podem chamar as palmas mas enterram qualquer tipo de veleidade de fazer correr um “swing” de maior complexidade. Xuxo também tocou – mas quase não se ouviu, por deficiente amplificação, o “bodhran” – e tentou dar “show” num solo de percussão numa espécie de txalaparta improvisada. Soou a circo.
Claro, a tudo isto, acrescido a um reportório escolhido para agradar sem exigir, resvalando em certos temas para a folk-pimba, respondeu Nuñez com intervenções de cortar o fôlego. Num dos solos de gaita, antecipado por uma explicação didática e bem-humorada das diferenças entre as gaitas-de-foles escocesa, irlandesa e galega, reproduziu na galega (mas como consegue ele arrancar tais prodígios, apetece perguntar?) o timbre das “Highland pipes” escocesas antes de se lançar, desvairado, num tempo do outro mundo, onde a música, as emoções e os sentidos são arrastados para uma pista de corridas.
Houve surpresas. Com convidados portugueses. Lilia, uma das vozes reveladas na Academia de Estrelas, da TVI, lançada às feras, cumpriu com gravidade o papel que em “A lavandeira da noite”, do álbum “Os Amores Libres”, é desempenhado por Noa. Paulo Marinho e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, fizeram de micro-Bagad, em “El ottro Finisterre” e no final apoteótico, “Aires de Pontevedra”. Parte do público, que encheu o CCB, fez roda e invadiu o palco (como já acontecera, sábado, no Rivoli do Porto) dançando, mas sem folia, um “an dro” bretão mas, no final, nem sequer foram pedidos todos os “encores” que o alinhamento previa.
No meio da festa que não chegou a acontecer – o palco imenso do auditório do CCB afasta os músicos e arrefece os ânimos, neste tipo de música –, cumpre salientar um momento onde tudo foi redimido pela devoção, quando Nuñez homenageou Derek Bell, o harpista dos Chieftains falecido em Outubro de 2002, com Xuxo Nuñez a recortar ao piano as notas de cristal de uma harpa céltica.
Fez-se silêncio, a noite iluminou-se na despedida de um “air” (“Women of Ireland”, original composto por Bell para a banda sonora de “Barry Lyndon”) e Carlos Nuñez ergueu o “tin whistle”, soltando o eco das últimas notas em direção ao céu.

EM RESUMO
Um músico fabuloso não chegou para fazer um bom concerto. Mas a homenagem a Derek Bell roçou o sublime


Um galego da Bretanha em portugal [Carlos Nuñez]


CULTURA
SÁBADO, 14 FEV 2004

Um galego na Bretanha em Portugal


Um galego. Um galego na Bretanha. Um galego, Carlos Nuñez, cidadão do mundo que hoje à noite toca no Porto, e na próxima segunda-feira em Lisboa. Carlos Nuñez volta a atuar em Portugal, desta feita para apresentar o novo álbum “Un Galicien en Bretagne”.
            Carlos Nuñez é um virtuoso da gaita. Alguém que faz milagres com o instrumento. Nada de mal-entendidos, porém. Nuñez não é nem um pornógrafo nem um Messias, mas um fabuloso executante de gaita-de-foles galega. Também de flauta e “tin Whistle”. O seu tecnicismo é de tal ordem que a mítica banda irlandesa The Chieftains o apadrinhou, convidando-o para participar no álbum “Santiago” e em inúmeros espetáculos ao vivo. Escutar Nuñez e Paddy Moloney (nas “Uillean pipes” irlandesas) tocando ao desafio é uma das delícias que a audição de folk de raiz céltica pode proporcionar.
            Mas Nuñez não necessita de padrinhos. A sua obra a solo alcançou já enorme projeção internacional. Em parte devido à estratégia de convidar para cada disco artistas de renome, em parte pela excelência de uma música que consegue conciliar o respeito pelas raízes e a inovação. Carlos Nuñez é um celta de coração e, por essa razão, um músico universalista aberto às outras culturas do mundo.
            “A Irmandade das Estrelas”, de 1996, inspirado no Caminho de Santiago, deu início a uma peregrinação que o levaria às estrelas e ao estrelato no circuito folk europeu. Entre os convidados figuram Dulce Pontes, Ry Cooder, Luz Casal, Sinead O’Connor, Paddy Moloney e a Vieja Trova Santiaguera.
            “Os Amores Librés”, de 1999, é uma interessante justaposição do Norte celta e do Sul andaluz. Nuñez experimenta novas técnicas e registos emocionais na gaita galega, inflamando-a com o fogo do flamenco. Teresa Salgueiro, Sharon Shannon, Cármen Linares, Vicente Amigo, Dan Ar Braz e Frankie Gavin estão entre os convidados.
            “Mayo Longo”, de 2000, com Liam O’Flynn e Hector Zazou, mantém a “verve” mas “Todos os Mundos”, de 2002, roça o descalabro, resvalando para fusões cuja comercialite indica eventuais pressões do mercado (os discos de Nuñez tornaram-se êxitos de vendas).
            Carlos Nuñez viu a luz vermelha e emendou a mão. O novo “Un Galicien en Bretagne” (com Gilles Servat, Dan Ar Braz, Alan Stivell, Patrick Mollard, Gilles le Bigot…) recupera o equilíbrio sem abdicar da modernidade. É um Nuñez de novo apaixonado pelas modalidades tradicionais, em particular pela música bretã. Além do mais, Nuñez tornou-se homem de muitas gaitas. O seu virtuosismo estende-se agora às “uillean pipes” e, claro, à “biniou-koz” bretã, na recriação dos ancestrais “an dro”. Esta noite, o CCB poderá tornar-se palco de uma “festounoz” – os bailes mágicos que até hoje religam a Bretanha à Eternidade.

CARLOS NUÑEZ
PORTO, Teatro Rivoli. Tel. 223392200. Às 21h30. Bilhetes entre 7,50 e 20 euros.
LISBOA, Centro Cultural de Belém. Tel. 213612444. Segunda-feira às 21h. Bilhetes entre 5 e 25 euros.

09/01/2019

Carlos Nuñez - Un Galicien En Bretagne


21|MARÇO|2003 Y
roteiro|discos

carlos nuñez
peregrino do caminho francês

CARLOS NUÑEZ
Un Galicien en Bretagne
Saint Georges, distri. Sony Music
8|10

Quem tinha por certo que o homem jamais passaria de um artista de circo, capaz apenas de cometer proezas técnicas em todos os instrumentos a que deita mão, e de um aglutinador de épicos projetos centrados em torno de uma tradição céltica modernizada, com recheio de convidados sonantes, mas incapaz de ultrapassar os tiques impostos pelo estrelato, pode espantar-se. “Un Galicien en Bretagne” é o disco de Carlos Nuñez por quem os apreciadores de folk esperavam e, outros, desesperavam. É verdade que “A Irmandade das Estrelas” ou “Os Amores Libres” demonstravam já que o “virtuose” galego tinha todas as potencialidades para assinar um trabalho cuja dignidade e profundidade o afastassem de uma “comercialite” que ameaçava tornar-se crónica. “Un Galicien en Bretagne” é esse trabalho.
            Centrado na tradição da vizinha Bretanha, conta com um naipe de convidados com nomes menos sonantes mas não menos empenhados, na recuperação dos velhos “an dro” e outras danças e modalidades tradicionais desta região céltica do Noroeste de França. Na quantidade de instrumentos utilizados, Nuñez, pelo contrário, “exagerou” (gaita galega, guimbarda, “biniou koz”, whistles, flautas, flauta medieval, ocarina, “uillean pipes”, gaita-de-foles do séc. XIX, “aulos” grego, flautas de bisel...) ao mesmo tempo que é visível um entusiasmo, diríamos mesmo euforia, nesta aproximação de culturas gémeas, em parte gerada graças ao impulso de Dan Ar Braz, outro “superstar” da nova “celtic music”. Da mesma forma que os The Chieftains renovaram sucessivamente a sua música no encontro, entre outras, com a “country”, a Galiza, a China e também a Bretanha, também Nuñez surge agora como a criança deslumbrada que recuperou a chama nessa renovada assunção de novos sentidos e travessias. Entre as diversas maravilhas estão um imparável “Tro breizh” (Nuñez notável na flauta de bisel alto e no “biniou koz”), a impensável “ressurreição” de Alan Stivell, que o gaiteiro galego em boa hora chamou para tocar em “Noite pecha” (espantoso é o bretão ter aceite!...), cuja harpa céltica e canto regressam aos bons velhos tempos de “Chemins de Terre”, e a invasão de uma floresta viva de “ents” pela Bagad Ronsed Mor, em “Une Autre fin de terre”, um clamor de emoções a empurrar-nos para aquela “finis terra” onde outro mundo se abre para nos receber. “The Three pipes”, uma das peças-chave do disco, é um jogo a três entre a gaita galega (que associa à terra), as “Highland pipes” escocesas (conotadas com o fogo) e as “Uillean pipes” irlandesas (elemento água, tocadas por Liam O’Flynn). Pareceria fácil destrinçar o som das três, mas são trocadas as voltas e tudo se enovela num diálogo de cumplicidades e ilusões tímbricas. “Saint Patrick’s na dro” fará arrepiar aqueles para quem o celtismo tem a forma de uma espiral profundamente enrolada no ”chakra” da base da espinha pronta a desenrolar-se. ”Ponthus et Sidoine” com adaptação de Jordi Savall, é um diálogo entre este mestre da música antiga, na viola de gamba, e o galego, no ”low whistle”. Gravado num mosteiro, adivinha-se o ambiente de mistério. Mesmo o tom, levemente pimba, da vocalização feminina de Eimear Quinn, a fazer lembrar o lado mais pop de Gabriel Yacoub, acaba por adquirir um gosto e um sentido singulares. Conta uma peregrinação a Compostela. Esse Caminho que, cada vez mais, urge cumprir dentro de cada um de nós. Nuñez ousou empreendê-lo. O caminho francês, o mais sagrado que conduz à catedral. A partir de agora será difícil perdoá-lo se voltar atrás.

16/02/2018

Síndrome das gaitas loucas [Festival Intercéltico do Porto]


DOMINGO, 31 MARÇO 1996

Banda de Carlos Nuñez enlouquece o Terço

Síndrome das gaitas loucas

Paddy Moloney, mestre “uillean piper” dos Chieftains, tinha razão. Carlos Nuñez é mesmo um “génio absoluto”. Não se toca gaita-de-foles, como fez este galego no dia de abertura do Intercéltico, só com técnica. É preciso mais, muito mais. A entrega total e uma alma enorme. Ele e a sua banda lavraram a sua assinatura no livro de atas dourado no festival. Na primeira parte, os Gaiteiros de Lisboa deixaram claro que, na sua barbárie, o conceito é mais importante do que a execução. O seu tem um nome: revolução.

Foi um dos “primeiros dias” do Festival Intercéltico mais fortes de sempre, o de sexta-feira. Cinema do Terço cheio. Ambiente de expetativa e cumplicidade a condizer. Nervosos, de início, os Gaiteiros de Lisboa renovaram no Porto a sua proposta de arrancar das entranhas da tradição o sumo da modernidade. Na sua música, feita de choques e bandeiras mas também de namoros e de silêncios, aprendemos a ouvir as vozes do passado como se elas tivessem algo de novo para nos dizer. E têm. E tiveram. José Salgueiro comandou as cavalarias altas dos tambores. Selvagem, impôs a disciplina. No solo que anteceu “lenga lenga” optou pela subtileza das madeiras em vez do clamor das peles. Construtor dos alicerces, deixou que os sopros – gaitas-de-foles, flautas, uma trompa, os “túbaros” de Orfeu – erguessem as paredes. Finas, de cristal, como na “la sarandillera” a quatro vozes; De fogo, no uníssono das gaitas, numa marcha a clamar pelo orgulho de um Norte português que a cada deserção da burocracia centralista se vai perdendo no esquecimento. Os Gaiteiros, mesmo sem ser uma das suas melhores noites, uniram o território e o público presente num desejo apaixonado de libertação do terrível amplexo de 40 anos (ou será melhor acrescentar outros 22?...) de ditadura cultural que reduziram a pó a ponte que une aquilo que fomos aquilo que somos.
            Na Galiza não têm o mesmo problema. Existe uma consciência nacional e a defesa de valores que sendo os de uma região pertencem ao legado do planeta. Carlos Nuñez e a sua banda deram uma lição, na segunda parte do espetáculo. O protegido dos Chieftains saiu do beco onde se enfiara com os Matto Congrio para a luz da tradição galega revista nos seus moldes pessoais. Ele e a sua banda, todos “virtuoses” nos respetivos instrumentos, puderam esse virtuosismo ao serviço da música e de uma paixão. Enrico Iglesias (não esse em que estão a pensar…), um violinista de geometria rigorosa mas capaz de deixar comandar pelo calor das emoções, Pancho Alvarez, um ex-Na Lua (impagável a sua personificação, em voz e violino solo, do cego Florêncio), e Diego Bouzón, exímios nas cordas e no humor de um jogo de pernas digno de verdadeiras coristas de can-can, criaram o pátio de recreio ideal para o tal “génio absoluto” de Carlos Nuñez se espraiar.
            Carlos é o que se chama um talento nato, força da natureza, protegido dos deuses, que não se explica mas apenas se escuta com a admiração que é devida aos sobredotados. Nas flautas e na gaita-de-foles – um segundo corpo em simbiose com o físico –, a música levanta voo, arde em cada nota, acelera até ao absurdo do gesto impossível que soa fácil. Nas “suites” da “Illa do tesouro”, composta para um disco dos Chieftains ou noutra da autoria destes mesmos irlandeses, incluindo o clássico “Women of Ireland”, imortalizado na tela em “Barry Lyndon”; numa “Valsa do Minho” ou numa polka, num fandango ou numa jota, Carlos Nuñez elevou o nível de execução e de exigência técnica da gaita-de-foles aos limites da perfeição. Não nos lembramos de nenhum gaiteiro irlandês que consiga tocar um “reel” à velocidade com que o galego o executou. Muito menos recordamos alguma vez ter visto o tradicional, por adoção, “Music for a found harmonium”, dos Penguin Cafe, atingir uma tal dimensão de folia coletiva, como aconteceu a fechar este concerto de antologia, onde não faltaram dois “encores” nem um par de dançarinos.
            A tarde de ontem decorreu ao ritmo de uma conferência sobre a gaita-de-foles, por Xosé Lois Foxo, do lançamento de um novo catálogo de música nórdica, por um texano, Philip Page, que se perdeu de amores pela Finlândia, e da apresentação do novo livro de Mário Correia, “Eurofonias – Uma Viagem Musical pela Europa dos Povos”. Mas isso são outras histórias, não menos estimulantes, para contar no rescaldo do festival.

15/10/2016

Todos os mundos de Carlos Nuñez vão dar à Bretanha

CULTURA
DOMINGO, 16 JUN 2002

Todos os mundos de Carlos Nuñez vão dar à Bretanha

“Todos os Mundos”, a nova antologia do gaiteiro galego, vai ser apresentada esta noite no castelo da Feira

Cada espetáculo de Carlos Nuñez é, por si só, um regalo para os ouvidos, como podem comprovar todos aqueles que assistiram a alguma das inúmeras apresentações deste músico galego em Portugal. Desta feita, uma semana depois do cancelamento da data inicialmente agendada, o palco não poderia ser mais apropriado: o castelo medieval de Santa Maria da Feira. "Extra" que poderá tornar a ocasião ainda mais memorável.
                Excecional executante da gaita galega e do "tin whistle" irlandês, Carlos Nuñez nem sempre tem encontrado a forma ideal de expressar em disco a sua personalidade musical multifacetada. Álbuns como "A Irmandade das Estrelas" e "Os Amores Libres" aliam momentos do melhor que a folk galega tem para oferecer com algumas cedências a uma certa "comercialite" que se tornou mais patente no último "Mayo Longo". Recentemente, foi editada a coletânea "Todos os Mundos". Mas tudo poderá mudar, em breve, de figura. O próximo álbum, em preparação, incidirá na música da Bretanha e aprofundará a matriz céltica e mitológica do "virtuose" galego.
                Ao vivo, porém, a história é outra. Os concertos de Carlos Nuñez são invariavelmente um festim para os sentidos. Na Feira estará presente como convidada a cantora portuguesa Anabela, que já havia participado em "Mayo Longo". Tudo dependerá da intuição e da relação que o gaiteiro conseguir estabelecer com o público.
                "Comunicação" é a palavra-chave. E se, como o próprio diz, tocar para "o grande público" não permite, à partida, "uma comunicação muito profunda", será a recetividade emocional da assistência a determinar a escolha, ou não, de um "reportório mais difícil". "Pode estabelecer-se contacto com as impressões mais universais ou com aspetos mais profundos, consoante os locais e os países".
                A Feira tem tudo para fazer Nuñez ir fundo no celtismo mas também na pluralidade de uma música que, sobre o palco, se transfigura num ritual de alegria e libertação. Sem preconceitos, o gaiteiro confessa que o alinhamento de cada concerto é escolhido "cinco minutos antes", dependendo do ambiente. "Há uma espécie de 'feeling', uma intuição que determina como deve ser o programa".
                Conceptual na forma de abordar a gravação de um disco, Nuñez materializou em "Os Amores Libres" o lado mais sanguíneo, mais "carne", como diz, da gaita-de-foles, enquanto "Mayo Longo" terá pairado demasiado perto da superfície. Mas a Bretanha acena com o seu mistério, no próximo projeto, já com dois anos de gestação...

Ao encontro da Bretanha profunda
Durante estes dois anos, o músico circulou entre a Galiza e a Bretanha. "A Bretanha é um pouco uma espécie de Galiza ideal, uma Galiza francesa, mais do que o país de Astérix e Obélix, uma cruz de caminhos de várias sensibilidades, um país onde a gaita tem um significado importante, mais do que um instrumento, algo que emociona". Os músicos com quem está a trabalhar neste projeto são bretões mas os seus nomes estão, por enquanto, no domínio dos deuses.
                Eis-nos perante o Carlos Nuñez sem pruridos em assumir o seu celtismo, ele que aos 13 anos se estreou ao vivo no mítico festival Intercéltico de Lorient (França), "a Disneylândia da música céltica". Mas há a "outra Bretanha, mais profunda", e a essa, diz, "não se acede através de um grande festival, mas de um processo de descoberta gradual e de amigos como Dan Ar Braz, Gilles Servat, Patrick Mollard, Erik Marchand...".
                Para o gaiteiro galego, como para o seu amigo e "padrinho" Paddy Moloney, mestre das "uillean pipes" dos Chieftains, a quem chama "um Deus", "céltico" não é termo invocado em vão. "O presidente da Galiza comentava há tempos que não era para si claro isso da música céltica, que não estava demonstrada a presença dos celtas na Galiza. Respondi-lhe que, tão pouco, estava demonstrado que o apóstolo esteja enterrado em Santiago. Mas o mito funcionou. O rei Artur, ninguém sabe se existiu ou não na realidade, mas o mito funciona, o mito do Caminho de Santiago funciona. O mais importante é isso, se o mito funciona ou não. A música céltica existe como mito. Na imaginação. A Bretanha é o ponto de interseção de todo o celtismo".
                No seu disco bretão, além da gaita galega, do "tin whistle" e da flauta de bisel, Nuñez tocará também as "uillean pipes" irlandesas, a gaita escocesa e, provavelmente, o "biniou koz" (gaita bretã).
                Esta noite, no castelo da Feira, sob o céu de Verão, o gaiteiro galego alinhará a sua música com a estrada de Santiago que está sinalizada no firmamento, convocando-nos, uma vez mais, para nos juntarmos a ele na "Irmandade das Estrelas".

Carlos Nuñez
SANTA MARIA DA FEIRA
Castelo. Às 21h30.
Bilhetes a 5 euros.

02/01/2015

Transe totó [12º Festival Cantigas do Maio]



CULTURA
SEGUNDA-FEIRA, 28 MAI 2001

Transe totó

Festival Cantigas do Maio
Fábrica Mundet, Seixal
25 e 26 de Maio, 22h
Lotação esgotada

Carlos Nuñez e Totó la Momposina foram os primeiros triunfadores do 12º Festival Cantigas do Maio, que este fim-de-semana teve início no Seixal. Na sexta-feira, o gaiteiro e flautista galego mostrou que a sua música não está afinal tão como o seu último álbum, “Mayo Longo”, fazia crer. No sábado, a cantora colombiana demonstrou que a idade não lhe pesa, transtornando positivamente o público com uma sessão história de “cumbia” que teve laivos de cerimónia tribal.
Membro de pleno direito do European Forum of Worldwide Music Festivals, o Cantigas do Maio estará a atravessar a sua primeira crise de crescimento. A tenda Chapitô onde decorre a maioria dos concertos já não chega para albergar a mole humana que, na sexta e no sábado, encheu, até transbordar, o recinto. Não só de entusiasmo, como de suor, fumo e encontrões, criando uma atmosfera pesada que, por vezes, impede de apreciar condignamente a ótima música que se tornou timbre do certame.
Tudo começou em calmaria, com a música de câmara para quatro concertinas seletas dos Danças Ocultas. Durante cerca de uma hora, Artur Fernandes e os seus três companheiros criaram climas em deriva por um romantismo de valsa musette, tremores piazollianos, conjugações mais complexas com o minimalismo e a “naïveté” desestruturalista de Pascal Comelade e, mais do que é costume, floreados folk de proveniência europeia, portuguesa mas também da França e dos Balcãs. A apontar apenas alguma prisão de movimentos – houve respirações dos foles que pareceram curtas…
Carlos Nuñez e a sua banda, pelo contrário, explodiram. Ou melhor, sobretudo ele, Carlos, um dos maiores solistas do momento, não só da gaita-de-foles galega, como de uma panóplia imensa de flautas de bisel, “tin whistles”, ocarinas, etc., parecia ser maior que a própria música. “Showman” assumido, fez acompanhar com gestos largos todo o seu virtuosismo, demorando-se pouco no lirismo das baladas, para disparar em loucas correrias de tecnicismo.
Muiñeiras galegas, jigs irlandeses ou, no derradeiro encore, um “Music for a found harmonium” tocado em “mach 3” (três vezes a velocidade do som…), tudo serve para Carlos Nuñez testas os limites da sua febre. Destaque ainda para a cantora Anabela – excelente a voz, um pouco despropositado o tom de fado que emprestou a uma balada da Galiza –, que interpretou o mesmo par de temas aos quais dá voz em “Mayo Longo” e para as duas encantadoras violinistas do grupo, Paloma Trigas e Begoña Riobo, com o seu ar de celtas chiques. Desgraçadamente, uma delas, a loura, foi utilizada para substituir Roger Hodgson, dos Supertramp, que canta um dos temas de “Mayo Longo” de forma horripilante. O único elogio que se pode fazer à menina é que conseguiu ser tão horripilante como o seu homólogo masculino.
Já no final, com o público e os músicos em euforia, juntou-se à companhia galega o grupo vocal feminino português Segue-me à Capela, para interpretar um tema de José Afonso.

Euforia “cumbia”
Sábado, a alegria instalou-se mesmo antes dos concertos, com a passagem ribombante do grupo de Zés Pereiras e gigantones, Ida e Volta. Um tom popular que prosseguiria com a atuação das três irmãs madasquenhas, Tiharea. Trajadas a rigor com vestes tradicionais, alternaram harmonias vocais “a capella”, marcadas por percussões no corpo e por guizos atados aos tornozelos, com outras apoiadas em tons percussivos mais fortes. Não tiveram a sofisticação de umas Zap Mama, mas a força e genuinidade das suas histórias mantiveram aceso o interesse da assistência.
A fechar este primeiro fim-de-semana das Cantigas, Totó la Momposina e a sua banda de colombianos vestidos de gaúchos deram uma verdadeira lição prática de história dos ritmos que construíram a tradição da “cumbia”, género híbrido onde confluem o batuque africano e as flautas índias.
Toda a primeira parte foi preenchida pelas raízes africanas, correspondente ao período rural em que “cumbia” vivia da percussão e do canto. Um festim de percussões que roçou o cerimonial de transe. Totó, septuagenária sem idade, dançou e cantou, possuída pelo frenesim da dança. A certa altura, juntou-se-lhe um dos músicos, num ritual com velas que transformou a tenda em local de cerimónia religiosa. Dois elementos da assistência, um de cada sexo, saltaram por seu lado para o palco, dançando à vez com Totó e o seu companheiro. Estava criado um momento único, de comunhão coletiva, como raramente acontece. Corpos ondulando em uníssono, uma batida que parecia infinita, o tempo a esfumar-se na dimensão de uma “egregora” (igreja) tribal.
Depois, a magia quebrou-se para se instalar a festa, mais prosaica, do mapal, do merengue, da puya e da salsa, com o combo já aumentado de um contrabaixo, guitarras e secção de metais. Dançou-se mais com os pés na terra, os ritmos sul-americanos que constam no manual dos hábitos auditivos da grande cidade. Mas uma última chispa de loucura estava ainda guardada na gaveta das surpresas, quando, já terminado o concerto “oficial”, alguns dos músicos decidiram saltar para o meio da assistência, aí continuando a tocar numa orgia “non stop” improvisada. Procissão carnavalesca, confusão de tuba, tambores, holofotes e gente em delírio, misturados numa massa onde as cores e os gestos se confundiam com as notas de música e os gritos da multidão.
Um final inolvidável a preparar o terreno para o próximo fim-de-semana das Cantigas, que começará na quinta-feira com o armeno Djivan Gasparyan, prosseguirá na sexta com os iranianos Ghazal Ensemble e os israelo-árabes Between Times, e se concluirá no sábado com a boliviana Luzmila Carpio e os macedónios DD Synthesis.

18/08/2014

[Folk]



6 Outubro 2000
FOLK

            Bert Jansch, ex-Pentangle e figura importante da folk inglesa (Jimmy Page e Neil Young reconhecem a sua influência), regressa, cinco anos depois do magnífico “When the Circus Comes to Town” com “Crimson Moon”. Canções que passam pelo ponto em que os blues e a folk inglesa rural se tocam, dentro de um espírito mais baladeiro e “sixties” do que o álbum anterior. O voz também já conheceu melhores dias, mas o estilo e a classe na guitarra estão intactos neste simpático caderno para o qual foram convidados Bernard Butler, dos Suede, e Johnny Marr, ex-Smiths. E em “Downunder” quase só falta a voz de Jacqui McShee para se ouvir os Pentangle, enquanto “October song” evoca os mesmos acordes medievais de outro dos seus antigos companheiros no grupo, John Renbourn (Castle Music, distri. Som Livre, 6/10).

            Carlos Nuñez também está de volta. A superestrela da gaita-de-foles passou a assinar grande parte dos temas e o resultado é desastroso. Em “Mayo Longo” o popular tornou-se popularucho. Depois de Dulce Pontes, a cantora portuguesa escolhida foi desta feita Anabela. O galego gostou tanto dela que a convidou para cantar nos seus concertos em regime permanente. Sharon Shannon, Liam O’Flynn, Donál Lunny, o coitado do Ronnie Drew (dos Dubliners) que já não tem idade para estes disparates, e Dar Ar Braz (acompanhado pela sua “entourage” L’Heritage des Celtes no tema final) são os nomes folk convidados mais sonantes. Participam ainda Liam O’Maonlai, dos Hothouse Flowers, Hector Zazou e outro português, Guilherme Inês, que faz companhia, no piano, a Anabela, no título tema. Capaz do “melhor”, aqui apenas com nota “suficiente”, nos registos mais tradicionais, e do pior, no escabroso “The moon says hello”, vocalizado por Roger Hogson, ex-Supertramp, ou nuns “Astros, fuentes y flores”, capazes de levarem Anabela de novo à Eurovisão, Carlos Nuñez está a merecer levar um corretivo. Um disco para esquecer (Ed. e distri. BMG, 3/10).

            Os escoceses Ceolbeg, pelo contrário, estão cada vez melhores (pelo menos em disco, já que ao vivo as suas atuações deixam algo a desejar…). O lado rockeiro dos primeiros álbuns praticamente desapareceu e os desempenhos no novo “Cairn Water”, nos dois extremos da paleta rítmica, de Gary West, na gaita-de-foles, e Wendy Stewart, na harpa céltica, são um deleite. Até mesmo a versão de “To each and everyone of you”, de Gerry Rafferty, que no Intercéltico do Porto deste ano soou desconchavado e fora do contexto, surge aqui como a pequena joia da folk contemporânea que na realidade é. A continuarem assim, os Ceolbeg arriscam-se a entrar para o clube seleto dos clássicos (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8/10).

            Pela primeira vez disponível em CD, além de mais em edição remasterizada, está “Tender Hooks” (1978) de Gay and Terry Woods, um exemplar representativo da fase tardia do folk rock inglês dos anos 70. Terry Woods fez parte dos Sweeney’s Men (aos quais também pertencia Andy Irvine, que se notabilizaria nos Planxty) antes de integrar a primeira formação dos Steeleye Span, grupo com o qual ele e Gay Woods gravaram o álbum de estreia “Hark! The Village Wait”. Gay regressaria aos Steeleye Span quase 30 anos depois, formando com Maddy Prior a dupla de vozes femininas do grupo. Antes deste “Tender Hooks”, Terry e Gay já tinham assinado o clássico do folk rock “The Woods Band”, do coletivo com o mesmo nome. “Tender Hooks” conta com a colaboração de Kate McGarrigle e Pat Donaldson (ex-Fotheringay, da Sandy Denny) e poderá ser um “must” para os apreciadores de baladas com um leve sabor americanizado. Era uma época difícil para a folk inglesa e “Tender Hooks” reflete a hesitação quanto ao caminho a seguir. Em “I won’t believe it” o saxofone soa aos Roxy Music… (Cooking Vinyl, distri. Megamúsic, 6/10)

            Ajoelhem aos pés dos Oskorri, no trono da música tradicional do País Basco há mais de meio século. “Ura”, o mais recente capítulo de uma discografia extensa e quase sempre brilhante, é um daqueles trabalhos imbuídos de uma dignidade inquestionável e a continuação sustentada de toda uma obra com alicerces sólidos. Uma entre várias etapas fundamentais de um percurso que não admite quebras nem desfalecimentos, mas que a cada novo avanço parece descobrir novas delicadezas e uma ternura impossíveis de descrever. Quem já conhece a música tradicional desta região, através de anteriores trabalhos dos Oskorri ou da descoberta recente dos Hiru Truku, saberá reconhecer os tesouros contidos em “Ura”. E, como acontece com as instituições, os Oskorri atraem gente ilustre. Aqui os convidados de alto gabarito dão pelos nomes de Glen Velez, Ivo Pasov (o clarinetista búlgaro mais rápido que a própria sombra) e Kepa Junkera (o acordeonista basco com dez dedos em cada mão) (Elkarlanean, distri. Farol, 8/10)

05/01/2011

Carlos Nuñez - Os Amores Libres

Sons

25 de Junho 1999
WORLD

Muiñeiras no redondel

Carlos Nuñez, rei incontestado (em termos exclusivamente técnicos, entenda-se) da gaita-de-foles galega (a concorrência esforça-se mas quando chega perto já ele dobrou a curva seguinte do caminho…), volta a fazer questão em provar que o seu reinado está longe de ter chegado ao fim. Neste aspecto, o cartão de visita que apresenta logo de entrada, em “Jigs and Bulls”, “jigas e touros”, é de tirar a qualquer um a vontade de voltar a dedilhar uma ponteira… Este e outros temas de “Os Amores Libres” funde a música céltica do Norte de Espanha e o flamenco, do Sul, a “muiñeira galega com a rumba gitana”, como Carmen Linares canta em “A orillas del Rio Sil”. “Muiñeiras da sorte” usa um disco antigo de 78 rpm do guitarrista de flamenco, Sabicas. Uma das maiores proezas de “Os Amores Libres” é ter conseguido arrumar, sem demonstrações de exibicionismo, o previsível exército de convidados (neste aspecto, projectos deste tipo estão a tornar-se numa espécie de corrida para bater recordes…), onde se incluem Donal Lunny, Carlos Benavent, Manuel Soler, Liam O’Flynn, Juan Manuel Cañizares, Dan Ar Braz, Derek Bell, Frankie Gavin, Martin O’Connor, Phil Cunningham, Arty MaGlynn, Sharon Shannon, Kevin Conneff, Rafael Riqueni, Nollaig Casey, Mike Scott (dos Waterboys, em “Raggle taggle gypsy”, a rivalizar em tom “pub” com a versão, já muito velhinha, dos Planxty), Paddy Keenan, Jackson Browne, Hector Zazou, Vicente Amigo, Bagad Kemper, um punhado de músicos árabes, um coro sufi e… Teresa Salgueiro, que canta “Maria Soliña” (ao lado de Phil Cunningham e Lyam O’Flynn), um tema do mar e de piratas turcos, em forma de “air”, como se toda a sua vida fosse passada a cantar música céltica da Galiza. Há um momento mágico, em “Os Amores Libres”: “Danza da lua em Santiago”, com o Coro Sufi Andalusi de Tânger, a electrónica de Hector Zazou e uma gravação, com vozes não identificadas, dos anos 20. Quem já lá esteve, junto à catedral, de preferência na Praça Quintana, onde chegam os peregrinos, compreenderá que magia é esta… Um disco de fusão bem mais conseguido que a anterior “Irmandade das Estrelas”.

Carlos Nuñez
Os Amores Libres (7)
Ed. e distri. BMG


Nota: O crítico desespera. Quer escrever sobre tudo o que acha que vale a pena mas o excesso de edições não perdoa. Saíram excelentes discos, entre novidades e reedições que aconselhamos vivamente. Eis uma pequena parte: “Debateable Lands”, de Kathryn Tickell, “Ravenschild”, de Maddy Prior, “A Bed of Roses”, de Lal Waterson e Oliver Knight, “Timber Timbre” dos Whistlebinkies, “Viaxe por Urticaria” dos Berrogüetto, “Rock & Reel”, dos La Bottine Souriante, “Turbulences”, de Alain Pennec, “Rain, Hail or Shine”, dos Battlefield Band, “October Song”, dos House Band, “Danú”, dos “Danú”, “Scenes of Scotland”, de Isla St. Clair, “Chap’ti, l’Va Loin”, dos La Marienne, “The Parish Notices”, de Jez Lowe & The Bad Pennies, “Couleurs Liviou” dos Skeduz, “No Chao do Souto”, dos Sons do Muiño, “This Strange Place” dos Wolfstone, “New Moves”, dos Xenos, “Naturalmente”, dos Muxicas. Reedições: “Musique d’Auvergne”, dos Gentiane, “A Collection”, colectânea de temas dos anos 60 de Martin Carthy, “Sweet England”, álbum de estreia de Shirley Collins, gravado em 1959, “Folk Roots, New Routes”, de Shirley Collins com Davy Graham, “The Bonnie Pit Laddie”, dos High Level Ranters… Na altura em que este texto estava a ser escrito, chegou à redacção a estreia da gaiteira galega Susana Seivane. O mesmo ainda não aconteceu com o novo de Norma Waterson.

07/06/2008

Carlos Nuñez - A Irmandade Das Estrelas

POP ROCK

9 de Outubro de 1996
world

Ovo estrelado

CARLOS NUÑEZ

A Irmandade das Estrelas (6)
BMG Ariola, distri. BMG e import. Disco 3

Nos festivais internacionais para que é, com frequência crescente, convidado, Carlos Nuñez eclipsa geralmente toda a concorrência, rendida ao seu quase sobrenatural virtuosismo – como aconteceu, inclusive, em Portugal, quando da sua apresentação na última edição do Intercéltico do Porto. O músico galego é, de facto, um predestinado, atingindo níveis de desempenho, na “gaita” ou no “tin whistle”, verdadeiramente de excepção. Esta evidência não apaga, no entanto, o pouco acerto que tem presiddido ás suas opções musicais, das quais o folk(?)-rock-“reggae” dos Matto Congrio constitui no exemplo mais gritante pela negativa. É verdade que a dimensão e o estatuto internacionais entretanto alcançados pelo músico galego porventura o impedem de se dedicar a uma música eventualmente mais do agrado dos puristas mas cujo destino mais provável, em termos comerciais e no terreno do “mainstream”, onde hoje se movimenta, seria o fracasso.
“A Irmandade das Estrelas” não resolve a questão, embora procure ultrapassá-la através da fórmula, dispendiosa, do recrutamento do maior número possível de “estrelas”, conferindo, neste caso, ao título, um segundo sentido que apenas desvaloriza o seu conteúdo iniciático. Da lista de lustres da irmandade fazem parte os Chieftains (Paddy Moloney é o padrinho aceite por Carlos…), Ry Cooder, os Nightnoise (de Triona e Michéal Dhomhnaill), a Vieja Trova Santiaguera cubana, o grupo de vozes e pandereteiras Xirabela, Amancio Prada e o guitarrista de flamenco Rafael Riqueni. E os portugueses Dulce Pontes, Paulo Jorge e Yuri Daniel, em “Lela”, uma serenata de Santiago de Compostela que toca no fado de Coimbra. Um ovo estrelado com excesso de condimentos. Obra e pretensões universalistas, como se vê, na linha dos fundamentalismos célticos agora tão em voga, que procuram estender o círculo druídico a todas as épocas e lugares.
No meio de tantas manobras de conquista, quase se escondem num outro mundo – menos iluminado por “estrelas” mas enraizado numa genuína ligação da terra ao firmamento – as vozes solitárias, de Luz Casal, em “Negra sombra”, e colectivas, das Xirabela, em “Cantigueiras”. Carlos poderia fazer sozinho o foguetório, acendendo as velas nos lugares mais altos do tecnicismo e do bom-gosto. Assim, deite quem quiser os foguetes e apanhe as canas deste arraial de gente fina que, sem chegar aos calcanhares da obra de referência neste capítulo, a “Symphonie Celtique”, de Alan Stivell, deixa a milhas de distância a pastelada, não menos megalómana e com idênticos propósitos, de Dan Ar Bras, em “L’Heritage des Celtes”.