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20/05/2026

Carlos Maria Trindade & Nuno Canavarro - Mr. Wollogallu

 

PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 18 DEZEMBRO 1991 >> Pop Rock >> LP’s

 

CARLOS MARIA TRINDADE & NUNO CANAVARRO
Mr. Wollogallu
LP/CD, União Lisboa/Polygram


O género a que se convencionou chamar “new age” tem as costas largas. Editoras pioneiras como a Windham Hill e a Coda contribuíram para dar à expressão o sentido depreciativo de que geralmente goza, através da edição em série de objetos vinílicos consistindo, na maior parte dos casos, em pianos bucólicos, um toque de flauta e sons de vento e água por trás. Em suma, “new age” costuma ser sinónimo de “chato”.

Por outro lado, há a tendência para utilizar o termo para catalogar toda a música eletrónica de caráter mais intimista, esteja ou não impregnada dos sinais prenunciadores de uma nova idade cósmica. “Mr. Wollogallu”, para além de quaisquer tentativas de classificação, é um objeto fascinante e uma tentativa bem sucedida de dar um rosto humano à música elaborada em computador.

Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro tomam como ponto de partida o som como estímulo sensorial. A música de “Mr. Wollogallu” (nome de um tambor primitivo), ao contrário de outras propostas de música “de computador” que jogam na exploração formal ou nas matemáticas digitais, resultando quase sempre em exercícios “frios”, passíveis de fruição exclusivamente racional (Morton Subotnick, Conrad Schnitzler, Emanuel Dimas Pimenta ou Tó Zé Ferreira), liga-se antes às correntes étnicas e a uma conceção dos sons como vibrações afetivas.

Neste aspeto, “Mr. Wollogallu” pode considerar-se parente próximo dos universos luxuriantes criados pelos italianos Roberto Musci e Giovanni Venosta, nos clássicos “Water Messages in Desert Sand” e “Urban and Tribal Portraits”, por Steve Shehan, em “Arrows”, ou na forma de progressão sonora, por ciclos, com os alemães Cluster e Manuel Göttsching.

Dividido em dois blocos, compostos por cada um dos músicos, “Mr Wollogallu” passa do pendor classicista e da maior linearidade do traço melódico de Carlos Maria Trindade, brilhantes no tema de abertura “The truth” ou na peça para piano “West”, para as explanações fusionistas de “Blu Terra” e “Antica/Burun” ou as abstrações de cristal de “Ven 5” e “Segredos M.”, já antes esboçados no anterior álbum a solo “Plux-Quba – Música para 70 Serpentes”, sem perder a sedução nem o espírito de aventura.

Música aérea, contemplativa, para saborear como um “refresco de chá num zeppelin à deriva”. Um dos melhores discos do ano de música eletrónica. (9)


Novas músicas para novas atitudes [Joaquim D'Azurém, Carlos Maria Trindade/Nuno Canavarro]

 

PÚBLICO SÁBADO, 14 DEZEMBRO 1991 >> Local

 

Novas músicas para novas atitudes

 

Joaquim D’Azurém, Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro escolheram ter voz própria. A nova música portuguesa perdeu o medo de não ser popular. É possível seguir por estradas solitárias e retirar prazer da aventura.

 

Ontem à noite, no Teatro S. Luiz, em Lisboa, os três músicos, mais alguns convidados, mostraram vias alternativas para a música portuguesa. Na sala, houve quem os acompanhasse na descoberta. E houve quem dormisse, quem não compreendesse. Outras formas de comunicação que urge aprender.

Joaquim D’Azurém gravou, vai para dois anos, um álbum de “transparências”. Ontem trouxe consigo os seus sonhos para a guitarra portuguesa. Primeiro em peças a solo, evocativas de um passado que é fado, amor, luto e tradição. Cruzado de referências à modernidade: o etnominimalismo de Laraaji, nos “clusters” de cristal, no dedilhar circular, nas sobreposições e nos ecos, tudo a fazer lembrar paisagens de Oriente e mediterrânica maresia.

 

Ragas

 

D’Azurém pouco falou ao longo de uma atuação que aliou o virtuosismo à interiorização. Um aceno da cabeça trouxe para o palco o primeiro convidado da noite, um bom tocador de tablas de quem gostaríamos de saber o nome. Excitou e dialogou com os fraseados da guitarra, no batimento de compassos típicos da música indiana. A música fez-se raga, distendeu-se em hipnose, vibrou segundo outras lógicas e latitudes interiores. Percussões que a dado momento ficaram sós no palco, num longo solo encantador. Depois foi a vez de João Pires de Campos (Flak, nos Rádio Macau) se juntar ao duo, arrancando da sua guitarra elétrica sons sintetizados como pano de fundo para as divagações melódico/harmónicas dos outros dois músicos.

De súbito, sem que nada o fizesse prever, Joaquim D’Azurém pede desculpa e abandona o palco, dando a ideia de ter de satisfazer uma necessidade urgente, quiçá de ordem fisiológica. Cumprindo à risca a máxima do “quando mija um português mijam logo dois ou três”, os outros seguem-lhe o exemplo e abandonam por sua vez o palco. Risinhos entre a assistência, indecisa se haveria ou não de lhes imitar o gesto e transformar o evento em ritual de vertimento de águas. Os músicos regressam, mais aliviados, para o último número. E afinal o intervalo viria logo a seguir…

No hall do S. Luiz, notava-se a presença de vários músicos da nossa praça, entre eles José Cid, António Pinho Vargas, Rodrigo Leão, o LX-90 Rui Pregal da Cunha e os “resistentes” Fernando Cunha e Pedro Ayres, atentos a estas coisas alternativas.

 

Sedução digital

 

Chega então a vez das máquinas terem uma palavra a dizer. Carlos Maria Trindade e Nuno Canavarro ligam os computadores, os “samplers” e outros brinquedos de alta tecnologia e dão um recital de sons étnico/ambientais extraídos do recente álbum “Mr. Wollogallu” (“wollogallu” designa um tambor ancestral), um dos melhores discos do ano na área da música eletrónica. Exploração bem sucedida do universo das fusões, na linha de nomes como os Cluster, Manuel Göttsching ou da dupla italiana Musci/Venosta. Vozes tribais sequenciadas misturam-se com o piano computorizado ou com processamentos de folclores, reais ou imaginários. Em certos temas a música faz-se acompanhar pela projeção de imagens abstratas de computador. Mantras digitais, prenunciadores da “nova idade”.

Já perto do final Carlos Maria Trindade desculpa-se pela falta de diálogo com o público. A culpa é das “exigências da máquina”. O despropósito das palavras não chegou para apagar a sedução dos sons, a predisposição para a aventura.

 

18/05/2026

Os sons da diferença [Festivais de Lisboa]

 

PÚBLICO QUINTA-FEIRA, 12 DEZEMBRO 1991 >> Cultura

 

Festivais de Lisboa

 

Os sons da diferença

 

OS ESPETÁCULOS de hoje e amanhã à noite, no S. Luiz em Lisboa, integrados nos “Encontros de Música” dos Festivais de Lisboa, prometem ser diferentes. Joaquim D’Azurém e a dupla Nuno Canavarro/Carlos Maria Trindade atuam hoje, às 21h30. O primeiro toca guitarra de água, de cristal. “Transparências”, álbum de estreia editado há dois anos, inventa novas cores e filigranas para a guitarra portuguesa e é uma incursão serena no território das músicas ambientais. Fado astral?

Nas áreas do ambientalismo, com porta aberta para mundos paralelos, movem-se Carlos Canavarro e Carlos Maria Trindade, o primeiro ex-Street Kids, o segundo ex-Heróis do Mar. “Mr. Woologallu”, álbum acabado de editar, conta histórias de mil sons enredos, nascidos dos sonhos do computador. Imagens, sinais que se cruzam. Realidades virtuais que no cosmos de um instante se fazem e desfazem, contemplados de um “tapete voador zen, silencioso mas não sem turbulências”.

No dia seguinte a música acelera, torna-se rude, entrelaça-se em estruturas milimétricas, quase fractais. O silêncio dá lugar ao grito, a contemplação à improvisação. Da selva urbana, mensagens tecnojazz via Plopoplot Pot, de Nuno Rebelo, Luís Areias, Rodrigo Amado, Paulo Curado e Bruno Pedroso, e Máquina do Almoço Dá Pancadas, de João Pires de Campos, Rodrigo Amado, Gui, Luís Filipe Valentim, Lívio e Alberto Garcia. As duas bandas cruzam-se no CD coletânea “Em Tempo Real” onde provam que há uma ordem no delírio e prazer nesse delírio. O cérebro não necessita das pernas para dançar.

Em ambos os grupos os sopros de metal sustentam um edifício de paranóia, de vertigem. Desestruturar para estruturar mais à frente e encontrar o outro lado das formas, novos equilíbrios e maneiras de coabitar o pesadelo. “Catástrofes de todo o mundo desaguando nas planícies do silêncio?” O cataclismo supõe uma estratégia, a exigência de mudança, passagem, revolução. Nada é definitivo. Do silêncio depois do caos os sons renascem. Sempre pela primeira vez.

12/10/2009

O sonho comanda a vida [Madredeus]

Sons

3 de Abril 1998

Madredeus grava um vídeo em Sintra

O sonho comanda a vida


Os Madredeus estiveram em Sintra a rodar o teledisco de “O sonho”, uma canção do seu último álbum, “O Paraíso”. Muito em breve, partirão de novo em viagem, encetando uma nova digressão pelo estrangeiro. Na calha estão dois álbuns a solo e um bebé.


Serra de Sintra, o monte da lua. Lugar sagrado, coberto de verde, de água e de caminhos ocultos. A meio de uma destas veredas, na direcção dos Capuchos, o silêncio das alturas é quebrado por uma azáfama pouco usual nestas paragens. Em pleno dia, sob o sol da Primavera, a paisagem é cortada por holofotes acesos, colunas de som e monitores. Alguém espalha nuvens de fumo sobre umas figuras sentadas calmamente a tocar guitarra entre as pedras de granito. Uma mulher – envergando um longo vestido escarlate que lhe dá um aspecto medieval – sai de uma “roulotte” e dirige-se para o meio do verde e das pedras. Parece começar a cantar, mas percebe-se que a música vem de outro lugar. O ar enche-se com notas nítidas de uma canção, várias vezes repetida. Estaremos a sonhar?
A canção que se ouve é “O sonho”, a mulher chama-se Teresa Salgueiro e toda esta agitação deve-se às filmagens do teledisco que os Madredeus estão a rodar na serra de Sintra, antes de partirem para mais uma digressão internacional, com início marcado para 1 de Abril próximo, na Galiza, e o final agendado para 12 de Junho, em Macau. Em Julho, haverá ainda algumas datas reservadas para actuações em Portugal. Depois, terão todos descanso. Teresa Salgueiro está grávida e com isso não se brinca. O rebento nascerá em Outubro.
Carlos Brandão Lucas, um apaixonado pela viagem e pela natureza, realizador de diversos documentários para a RTP, é o responsável pelo guião e pela produção deste trabalho. A tradução do sonho em imagens pertence-lhe. Para os Madredeus a sua escolha tem, segundo Pedro Ayres Magalhães, um motivo óbvio: “Já há muitos anos que faz este trabalho, uma espécie e antropologia da paisagem portuguesa.”
Para Carlos Brandão Lucas, a produção de um teledisco é algo que faz pela primeira vez e que assume como “uma experiência nova”: “Não é que eu esteja propriamente interessado em enveredar por esta área, a minha área é o documentário, é aí que me sinto realmente bem, mas achei que devia aceitar, até tendo em conta o grupo que é, de cuja música gosto muito.”
Sintra tece a sua teia de sortilégios. A voz de Teresa Salgueiro mal consegue acordar as árvores da sua sesta da tarde. Os acordes de “O sonho” são interrompidos por directivas técnicas por parte da vasta equipa responsável pelas filmagens, nomeadamente pelos dois realizadores do “clip”, Ricardo Andreia e Pedro Canais.
“A canção pressupõe este ambiente”, diz Brandão Lucas, “este tipo de arvoredo. Há uma série de coisas que podem acontecer, no fundo, por detrás das árvores que cada um tem na sua própria vida.”
Além de Sintra, “O sonho” contará ainda com imagens de arquivo recolhidas ao longo dos anos e “de uma longa passeata por este país”, pelo cineasta. “Há aqui uma história dupla que se conta: uma é o sonho, que é o poema e esse sonho que é povoado por imagens, como todos os sonhos o são, e sobre as quais nem sequer temos, normalmente, controlo. É um lado do nosso cérebro que não controlamos. Nos sonhos, somos capazes de voar, por exemplo, acontecem-nos coisas que não nos acontecem na vida. Este conjunto de imagens mais este fundo das árvores da vida podem contar de outra forma a história que é contada na canção.”
“E não havia mais nada... Só nós, a luz, e mais nada... Ali morou o amor...” A letra da canção dissolve-se no ar. O local confunde-se cada vez mais com a música. “Sintra é um lugar mítico na história portuguesa e eu sou um homem muito ligado à história. E tenho uma relação de alguma intimidade com esta canção porque sou uma pessoa que sonha sempre coisas, que desejo coisas.”
Pode parecer estranho o nevoeiro que alguém da equipa de filmagens faz continuamente espalhar sobre os músicos. Sobretudo porque, na ocasião, o dia é de sol. Mas há uma explicação para isso: “O sonho, exactamente por não ser uma coisa concreta, aparece como uma coisa enevoada e dessas nuvens que atravessam os nossos sonhos saem imagens. É esse o papel dos fumos.”
“O sonho” terá apenas imagens reais, com “algum tratamento posterior sobre as imagens de arquivo. “Não vai viver do computador.”
Carlos Brandão Lucas volta a lançar alguns “bitaites”, como ele próprio diz, sobre o que se vai passando sobre o palco de relva, de guitarras e do vestido sanguíneo de Teresa Salgueiro. Fala ainda dos outros sons, imagens e geografias que preenchem o seu quotidiano: “Tenho uma ligação muito profunda a África, outra, não menos amorosa, à Índia. Uma relação de desejo com a Mauritânia. Sou um homem que gosta do mundo e das pessoas do mundo. Gosto de viver a cultura, o calor e o frio dos lugares. O mundo pertence-me e eu não pertenço a nenhum lugar. Nesse sentido, todos os filmes que me contam histórias de lugares e de pessoas interessam-me. Por todas estas razões, gosto dos sons que correspondem aos lugares, da música tradicional – de música chinesa, por exemplo, lá está –, porque me revela imagens. E eu vivo de imagens.”


Peixoto e Trindade a solo
José Peixoto e Carlos Maria Trindade, respectivamente, guitarrista e teclista dos Madredeus, têm novos projectos discográficos a solo em perspectiva.
José Peixoto tem pronto “A Vida de um Dia”, nova aventura solista da guitarra acústica, na linha do anterior “A Voz dos Passos”. “Foram gravados na mesma igreja e com o mesmo engenheiro, o José Fortes”, explica o músico, cujo disco, “se tudo correr bem”, sairá em Junho, quando acabar a digressão do grupo.
Carlos Maria Trindade encontra-se, por seu lado, na fase de composição do seu segundo álbum a solo, depois de “Deep Travel”, sem contar com “Mr. Wollogallu”, em que fez parceria com Nuno Canavarro. Segundo o seu autor, o novo disco não andará longe dos anteriores, embora haja a intenção “de fazer algumas experiências acústicas ou mesmo com a voz”. Ao certo está já a presença de músicos convidados, “que acrescentem alguma coisa ao que será uma espécie de fusão”. Carlos Maria desenvolve neste momento um segundo projecto discográfico, com Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins.