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20/11/2019

O som grave da locomotiva de Carlos Barretto


CULTURA
TERÇA-FEIRA, 28 OUT 2003

O som grave da locomotiva de Carlos Barretto


Carlos Barretto, um dos mais destacados instrumentistas e compositores do jazz feito atualmente em Portugal, apresenta esta noite ao vivo o seu novo álbum, “Lokomotiv”, em quarteto com Mário Delgado (guitarra), José Salgueiro (bateria e percussões) e Sérgio Carolino (tuba), este último a substituir o francês François Corneloup, presente no disco como executante de saxofone barítono.
            Descontando as necessárias adaptações ditadas pela troca de instrumentos, mantém-se, porém, um som que sabe tirar o máximo partido possível da conjugação das sonoridades graves, nomeadamente nos diálogos entre as notas mais baixas dos sopros e o contrabaixo tocado com arco. “Uma coisa deliberada”, diz o autor de “Solo Pictórico”, álbum de contrabaixo solo editado no intervalo entre “Radio Song” e “Lokomotiv”: “São instrumentos graves, o clarinete baixo [por Louis Sclavis, outro expoente do novo jazz francês, no anterior “Radio Song”], o saxofone barítono e o contrabaixo. Dá para invertermos os papéis, ao nível do acompanhamento e dos solos.”
            “Lokomotiv” pode ser considerado como a continuação de uma estética iniciada com o aclamado “Radio Song”, eleito pelo PÚBLICO melhor disco português de jazz do ano passado. Jazz feito em Portugal e não jazz português, porque a música do contrabaixista recusa-se a aderir a padrões determinados por quaisquer regionalizações, inserindo-se, ao invés, numa corrente universalista, embora de acordo com os parâmetros de um som marcadamente europeu.
            Em vez do “hermetismo” de ligações demasiado acorrentadas ao folclore de uma determinada região, neste caso o português, o contrabaixista é adepto de um “universalismo” que lhe permite integrar na sua música elementos como “o rock, a música contemporânea, o cinema americano ou coisas orientais…”.
            “Lokomotiv”, como “Radio Song”, refuta qualquer tentativa de análise paternalista para se assumir como grande jazz em qualquer parte do mundo. Desprende-se desta música uma energia e uma frescura contagiantes, a par de um sentido apurado do equilíbrio certo entre composição e improvisação, embora Barretto não esconda o prazer que esta última lhe proporciona. “O que eu gosto mais é de improvisar, incluindo nas partes escritas. Às vezes construo uma pequena melodia, mas inserida num contexto suficientemente aberto para acontecerem outras coisas, sempre variáveis. Este disco tem mais improvisação que o anterior.”
            Um trabalho de equipa, “como o Futebol Clube do Porto”, em que “todos dão ideias”, que é, desde já, sério candidato a, uma vez mais, levar para casa o título de melhor do ano.

Carlos Barretto
“Lokomotiv”
LISBOA Teatro S. Luiz.
Tel. 213257650. Às 21h.
Bilhetes entre 5 e 15 euros.

07/10/2019

Jazz num dia de Verão [Wayne Shorter]


CULTURA
SÁBADO, 12 JUL 2003

Wayne Shorter segue as pegadas da alegria

JAZZ NUM DIA DE VERÃO

Wayne Shorter, “hardbopper” nos Jazz Messengers, pioneiro da música de fusão com Miles Davis e nos Weather Report, atua hoje no Estoril. Com a marca de álbuns como “Footprints Live!” e do novo “Alegria”

Prestes a completar 70 anos, Wayne Shorter é um daqueles saxofonistas cuja sonoridade, feita de múltiplos sabores, apetece mastigar. Quem quiser, pode fazê-lo hoje mesmo, no concerto que encerra mais um módulo do festival Estoril Jazz/Jazz num Dia de Verão.
            Wayne Shorter tocará no Estoril saxofones tenor e soprano, a liderar um quarteto formado por Danilo Perez (piano), John Patitucci (contrabaixo) e Brian Blade (bateria). Grande música em perspetiva. Jazz puro prazer do ato de tocar e de criar.
            Equilibrado entre a tradição do "bop" e a improvisação mais livre, Wayne Shorter evoluiu do fraseado longo, no limite da obsessão, característico de John Coltrane, para modulações mais "redondas", de acordo com uma sensibilidade que, tendo passado e marcado indelevelmente o "jazzrock" e a música de fusão, através dos Weather Report (provavelmente o grupo que melhor assimilou e transformou as heterodoxias arremessadas pelo Miles Davis elétrico), soube contornar a inércia e o cliché.
            No ano passado, e ultrapassadas algumas vicissitudes que, inclusive, obrigaram a uma paragem de uma década numa carreira brilhante, a edição de "Footprints Live!" (depois disso já gravou "Alegria"), nomeado para um Grammy na categoria de "melhor álbum de jazz instrumental", repôs o seu nome no lugar a que tem direito: dos mestres.
            Embora seja sobretudo conhecido pela sua participação nos Weather Report, grupo com o qual gravou, nos anos 70, obras seminais da música de fusão como "I Sing the Body Electric", "Sweetnighter" e "Mysterious Traveller", a par dos mais comerciais "Black market", "Heavy Weather", "Mr. Gone" e "Night Passage", Shorter desempenhara já um papel fulcral na ortodoxia do jazz.
            Depois de ensaios prévios ao lado do pianista "hard" Horace Silver, frequentou duas das escolas que mais alunos diplomados com distinção forneceu ao jazz moderno: os Jazz Messengers, de Art Blakey (tocou nos clássicos "Mosaic" e "Free for all"), oficina oficial do "hard bop", e a máquina de Miles Davis, com quem partilhou os louros de álbuns quintessenciais na obra deste trompetista como "E.S.P.", "Miles Smiles", "In a Silent Way" e "Bitches Brew", tendo, inclusive, composto temas que viriam a tornar-se "standards", tais como "Footprints" e "Nefertiti".
            No decorrer de uma das décadas mais produtivas da sua carreira, os anos 60, já a solo, assinou trabalhos que se tornariam referência para as gerações vindouras: "Juju", "Speak no Evil", "The Soothsayer" e "Adam's Apple", entre outros, indiciadores da direção que a sua música viria a tomar na década seguinte, com os Weather Report (que deram um espantoso concerto dado em Portugal por este grupo na década de 80, no pavilhão da FIL, em Lisboa). Com eles, e ao lado de "fusionistas" de classe incontestável como Joe Zawinul, Miroslav Vitous, Airto Moreira, Tony Williams, Peter Erskine e Mino Cenelu, desenvolveu um estilo e fraseado particulares, nomeadamente no saxofone soprano, por vezes adaptado a "gadgets" eletrónicos ou prolongando-se no Lyricon, instrumento de sopro inteiramente eletrónico que pode ser manipulado através de tecnologia MIDI.
            O público e a crítica, seduzidos pela simbiose entre o jazz e o rock, rendeu-se a Wayne Shorter e a revista "Downbeat" distinguiu-o ao longo de 15 anos consecutivos como melhor saxofonista soprano.
            Paralelamente aos Weather Report, Shorter integrou os V.S.O.P., superbanda dirigida por Herbie Hancock (espécie de parente espiritual seu e igualmente um dos gurus do jazzrock) onde pontificavam Freddie Hubbard, Eddie Henderson, Julian Priester, Bennie Maupin, Ron Carter e Tony Williams.
            Finalmente, o rock, de tanto conviver com o jazz, pedindo-lhe conselhos mas também tentando enriquecê-lo através de um processo de polinização, atraiu Wayne Shorter para o estúdio para gravar com Joni Mitchell e os Steely Dan, o mesmo acontecendo com o brasileiro Milton Nascimento e o cantor italiano Pino Danielle.
            "Footprints Live!", primeiro álbum ao vivo da sua discografia, repôs as coisas no lugar certo, devolvendo o saxofonista aos capítulos nobres da Grande História do Jazz. Nem "in", nem "out of the tradition", mas inserido num lugar próprio, onde a música nasce sem fronteiras, com as cores vivas do mundo que a cada instante nasce e se renova.
            Em "Alegria", lançado já este ano, a música de Wayne Shorter estende-se a um tradicional céltico, a uma obra do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, inspirada em Bach, e a um tema de música popular espanhola, procurando satisfazer a necessidade, diz, de prosseguir "um processo de aprendizagem continua" que lhe permita "libertar-se" dos lugares-comuns de uma linguagem estereotipada, ao mesmo tempo que se propõe "expressar a eternidade nas suas composições".

Wayne Shorter Quartet
ESTORIL Auditório do Parque Palmela
Às 21h30. Bilhetes de 15 a 20 euros



Canção da rádio com outro francês

Depois de Louis Sclavis, com quem gravou, no ano passado, o álbum “Rádio Song”, um dos melhores discos produzidos em Portugal em 2002, o contrabaixista Carlos Barretto convidou de novo um músico francês, o também saxofonista François Corneloup, para colaborar com o seu trio, composto por Mário Delgado (guitarra) e José Salgueiro (bateria).
É esta formação que hoje à noite atua na Fundação Serralves, no Porto, prosseguindo a programação do festival Jazz no Parque. Antes de “Rádio Song”, o trio já lançara “Suite da Terra” (1998) e “Silêncios” (2000), a par de um “Solo Pictórico” da inteira responsabilidade do contrabaixista.
Etapas prévias de um caminho que, de modo decidido, aponta para uma música universalista que, de forma magnífica, equaciona os cânones da tradição dentro de um enquadramento mais vasto onde o jazz permanece a “swingar” no âmbito de um “blues” em definitivo transfigurado e a presença de um saxofonista é assumida, pelo trio, como uma quarta coordenada instrumental absolutamente necessária para o seu desenvolvimento.

Carlos Barretto Trio c/François Corneloup
PORTO
Fundação Serralves
Às 21h30.
Tel. 226156500.
Bilhetes de 10 euros

15/10/2018

Balanço do ano - Jazz


PÚBLICO 4 JANEIRO 2003
JAZZ
2002

>> Balanço do ano

2002 foi ano de grande jazz em português. A nova editora Clean Feed deu o mote, lançando para o caldeirão dois clássicos instantâneos, com as assinaturas de Carlos Barretto e Bernardo Sassetti. Lá fora, o "free", o "pós-free" e o que virá a seguir rivalizaram com manifestos de afirmação por alguns dos clássicos eternos, num ano que foi também de boas reedições. À frente de todos pusemos o disco, dos Spring Heel Jack, que mais tem dividido as opiniões. Prova de que, afinal, o jazz conserva intacto o dom de provocar.

01 |
Spring Heel Jack Amassed (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Saído das mentes distorcidas, mas livres e visionárias, de dois homens que não faziam parte do jazz – John Coxon e Ashley Wales –, "Amassed", depois do ensaio prévio que é "Masses", revolucionou os parâmetros do jazz eletrónico, samplando o que, no passado, pertencera ao domínio do analógico nas visões orquestrais de George Russell ou nas pulsações barrocas do "Synthesizer Show" montado por Paul Bley e Annette Peacock, numa catedral de alucinações que serve de suporte à "free music" remodelada em espiral de loucura por alguns dos seus expoentes – Evan Parker, Han Bennink, Paul Rutherford, Matthew Shipp e Kenny Wheeler. Se até o "bebop", por altura da sua génese, foi considerado o "fim do jazz", e Coltrane vaiado como uma farsa, como não conceder igualmente aos SHJ essa suprema honra de provocar em doses iguais a paixão e a repulsa?

02 |
Gianluigi Trovesi Dedalo (Enja, distri. Dargil)
Celebração orquestral com a WSR Big Band alemã, Markus Stockausen (trompete), Fulvio Maras (percussão) e Tom Rainey (bateria), "Dedalo" recupera o clássico "From G to G", remontado-o num labirinto onde se cruzam os caminhos do "vaudeville", Zappa, Ellington, Gil Evans, Don Ellis, jazz progressivo e jazzrock, moídos, destilados e incendiados por uma imaginação delirante. O homem é um feiticeiro.

03 |
Dave Holland Big Band What Goes Around (ECM, distri. Dargil)
Alguma da música "antiga" deste notável contrabaixista é aqui tornada matéria de novos "standards" pessoais, em formato de "big band" a dar mais volume e cor ao habitual quarteto que tem acompanhado Holland nas suas últimas realizações para a ECM. Enriquecimento e desafio numa proposta de criação de um território instrumental onde leitura, arranjos e improvisação se confundem.

04 |
Carlos Barretto Trio Radio Song (ed. e distri. CBTM)
Enquanto solista, voz dialogante ou peça de suporte, Barretto confirma a maturidade e a segurança dos seus recursos técnicos, num álbum de múltiplos matizes que conta com a mais-valia do músico francês Louis Sclavis.

05 |
Bernardo Sassetti Nocturno (Clean Feed, distri. Trem Azul)
Gravado em ambiente de "verdadeira magia" na Quinta de Belgais, "Nocturno" é uma incursão impressionista nos meandros mais íntimos do piano. Como Bill Evans, Sassetti cria a partir da célula e a partir dela inventa a noite.

06 |
Wayne Shorter Footprints Live! (Verve, distri. Universal)
Trata-se, por incrível que pareça, do primeiro álbum ao vivo deste notável executante dos saxofones tenor e soprano, antigo "sideman" de Miles e cabeça falante dos Weather Report. Impressiona a energia e o lirismo de uma música que alia a investida inquisitiva a uma delicadeza sem limites. Uma pegada impressa com a força de um "statement".

07 |
Joe Giardulo, Joe McPhee, Mike Bisio, Tani Tabbal Shadows and Light (Drimala, distri. Trem Azul)
Um lento avolumar de tensões e incandescências em que o jazz "apodrece", para das suas cinzas se erguer a fénix renascida. O tenor de McPhee gasta-se, corrói, cria andaimes e poços. Giardulo é o nevrótico de serviço. "Shadows & Light" tenta apanhar o além, o dia seguinte ao da catástrofe. E consegue.

08 |
Roscoe Mitchell & The Note Factory Song for My Sister (Pi, distri. Trem Azul)
Aos 62 anos o multinstrumentista prossegue os estudos fora da selva de mitos dos Art Ensemble of Chicago. Numa conjugação mais formalista do "free" (abrangendo mesmo uma faceta didáctica) com os rituais remanescentes dos AEC, a música ganha alento numa imensa viagem pelos limites do jazz.

09 |
Branford Marsalis Footsteps for our Fathers (Marsalis Music, distri. Trem Azul)
Cruzamento, ou não, como alguém disse, entre "um 'cartoon' de Disney e um pregador evangélico", o sopro de Marsalis aventura-se em refazer a totalidade de "The Freedom Suite", de Sonny Rollins, e "A Love Supreme", de Coltrane. Sobrevive incólume. Mais: acompanha o espírito daqueles dois génios.

10 |
Andrew Hill A Beautiful Day (Palmetto, distri. Trem Azul)
Sessão ao vivo no Birdland na companhia de Marty Ehrlich e uma "big band", "A Beautiful Day" é um dia perfeito na mais recente produção pianística de Hill, um dos eleitos que soube unir o bop à vanguarda.

11 |
Mark Dresser Trio Aquifers (Cryptogramophone, distri. Sabotage)
"Aquifers" faz a transcrição musical dos fluxos de água subterrâneos que fertilizam o planeta. "Acumulação", "trânsito" e "libertação" funcionam como metáforas telúricas da circulação de frequências, modulação de timbres e planificação de texturas assimétricas cuja energia parece provir, de facto, dessa matriz aquática que alimenta a Terra.

12 |
Billy Cobham The Art of Three (In & Out, distri. Dargil)
Surpresa, ou talvez não, esta categórica afirmação da arte do trio piano-baixo-bateria pelo baterista jazzrock que, depois da aprendizagem com Miles, ajudou a criar o mito Mahavishnu Orchestra. Tem a seu lado comparsas de luxo: Ron Carter, no baixo, e Kenny Barron, no piano, este último um prodígio de subtileza e capacidade de voo.

13 |
Mat Maneri Sustain (Thirsty Ear, distri. Trem Azul)
Mais ferrugem da boa. Outro prego cravado no crâneo do "mainstream". Discípulo de Ornette e Stuff Smith, Maneri arranca com o seu violino a carapaça à música improvisada em aliança perigosa entre electrónica, jazz vertigem e uma permanente dialéctica entre o silêncio e o caos.

14 |
Charles Lloyd Lift Every Voice (ECM, distri. Dargil)
Lloyd, o asceta encantado pelo budismo, deixa atrás de si um rasto de paradoxos. Desde sempre arreigado a uma visão mística da música, "Lift Every Voice" perdeu entretanto o grito libertário dos primórdios, para se concentrar em mantras e no Grande Espírito onde ardia John Coltrane.

15 |
Tom Harrel Live at the Village Vanguard (Bluebird, distri. BMG)
Eleito em 2001 pela "Down Beat" "compositor do ano", Harrell distribui vitalidade, clareza e extroversão. A sua trompete, iluminada pela tradição de Blue Mitchell e Clifford Brown, não ilude porém uma tristeza que em "Where the rain begins" lateja como uma ferida mal sarada.

Discos de 2001 ouvidos em 2002 merecedores de figurarem no top:

Dave Douglas Witness (RCA, distri. BMG)
Dave Holland Not for Nothin' (ECM, distri. Dargil)
James Emery, Joe Lovano, Judi Silvano, Drew Gress Fourth World (Between the Lines, distri. Ananana)
Louis Sclavis L'Affrontement des Prétendants (ECM, distri. Dargil)
Myra Melford & Marty Ehrlich Yet Can Spring (Arabesque, distri. trem Azul)
Steuart Liebig Pomegranate (Cryptogramophone, distri. Sabotage)

REEDIÇÕES:

Ella Fitzgerald Whisper Not (Verve, distri. Universal)
Gerry Mulligan Village Vanguard (Verve, distri. Universal)
John Coltrane Legacy (Impulse, distri. Universal)
Nina Simone Nina Simone and Piano! (RCA, distri. BMG)
Paul Bley, Jommy Giuffre, Steve Swallow The Life of a Trio - "Saturday" e "Sunday" (Owl, distri. Universal)
Sam Rivers Crystals (Impulse, distri. Universal)

23/10/2016

Rádio livre [Carlos Barretto Trio]

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 12 OUTUBRO 2002

Rádio livre

O jazz português está vivo, de boa saúde e alimenta-se bem. Num meio pequeno, há quem seja grande. Ou que, não o sendo ainda, deseje crescer. Uma boa alimentação é, de resto, indispensável para um crescimento saudável. O músico de jazz alimenta-se da história, da aprendizagem técnica, do hábito de tocar e, acima de tudo, de si próprio. Carlos Barretto, contrabaixista, alimenta-se de tudo isto e ainda por cima teve em “Radio Song” a feliz ideia de introduzir na dieta um suplemento vitamínico chamado Louis Sclavis. Sclavis é vitamina A, B, C, D, o alfabeto todo, funcionando nesta gravação da mesma maneira que Jardel no jogo do Sporting, da semana passada. Basta estar lá para tudo em seu redor funcionar melhor, com a vantagem de não cair. Sclavis participa em apenas três das dez faixas – “Distresser”, “On verra bien” e “Asa celta” (celtismo que o francês já ensaiara, com André Ricros, em “Le Partage des Eaux”) mas é suficiente, como se costuma dizer, para levar tudo atrás. Mais uma força de expressão do que outra coisa, porque, se repararmos bem, a assinatura da composição pertence ao português. Os clarinetes e saxofones de Sclavis são como o vento, nunca se sabe para que lado sopram, mas sopram sempre para o lado certo. Barretto soube ser parceiro à altura, não servindo de barreira, como tantos, por receio ou despeito, fazem, mas amparando os golpes, mais, dando-lhes terreno fértil, ar, espaço e sentidos para explorar. Carlos Barretto, seja enquanto solista (e são vários e excelentes os solos que rubrica em “Radio Song”), voz dialogante (notável a segurança e precisão como responde e interroga o francês em “On verra bien”) ou como peça de suporte, é um músico adulto, cuja originalidade se alicerça na segurança dos recursos técnicos. Como deve ser. Ainda por cima sabe dançar, fazendo disso prova no título-tema. Mário Delgado, na guitarra (litúrgico, nas tonalidades frisellianas com que estabelece conversa profunda, a dois arcos, com Barretto, em “Espírito da solidão”) e José Salgueiro, na bateria e percussões (dá gosto vê-lo liberto das obrigações étnicas dos Gaiteiros de Lisboa…), são-no de igual modo e é precisamente, e também, porque nenhum deles tem algo a provar que o equilíbrio funciona como coordenada não fixa e o jogo se faz sem receios nem pés atrás. Um dos maiores discos de jazz feito em Portugal nos últimos anos.

Carlos Barretto Trio
Radio Song
CBTM
9|10

18/10/2016

Jazz com outro gosto no Jazz em Agosto

CULTURA
SEXTA-FEIRA, 2 AGO 2002

Jazz com outro gosto no Jazz em Agosto

FESTIVAL COMEÇA HOJE NA GULBENKIAN

Chicago e Reino Unido. Jazz e algo mais. São os dois eixos de sustentação de um festival para o qual jazz não liga com preconceito. Keith Tippett, Barry Guy, Evan Parker, Marilyn Crispell, Fred Anderson e Chicago Underground Quartet irão atrair para a sua causa também o público rock

Foi mais ou menos a meio da década de 60 que o jazz e o rock começaram a reparar na existência um do outro. O jazz condescendeu em deitar uma vista de olhos ao rock e o que viu agradou-lhe. O rock perdeu o respeito ao jazz e mordeu-lhe as canelas. O casamento era inevitável. Chamou-se “jazz rock” antes de se chamar “fusão”.
            Miles Davis lançou a bíblia “Bitches Brew” em 1969, mas a “beat generation” há anos que escutava com atenção o que se passava do “outro lado”. Desde então muitas certezas ficaram pelo caminho. Entre o jazz “downtown” e algum pós-rock o caminho é curto.
            É essa margem de incerteza, mas também por isso, de descoberta, que o Festival Jazz em Agosto, cuja 19ª edição arranca hoje na Gulbenkian, em Lisboa, e se prolonga até dia 10, se propõe dar a conhecer a franjas de público com educação musical e sensibilidade suficientes para beberem a cicuta da transgressão e navegarem entre a nascente e a foz de tradições que não passam por Nova Iorque.
            Há um jazz que agrada ao público de rock (o oposto já não é tão verdadeiro…). Jazz aberto, interveniente, descomprometido, experimental. Jazz negro, jazz branco, jazz mestiçado de geografias várias, algumas delas imaginárias.
            É algum desse jazz sem fronteiras que o Jazz em Agosto traz a Portugal, durante nove dias recheados de concertos, conferências e “workshops” que já andam a pôr a cabeça em água a muita gente. No Grande Auditório da Gulbenkian, no Anfiteatro ao ar livre, na sala Polivalente e no Auditório 2. De tarde e à noite. Para nos empanturrarmos. De petiscos. Porque palha é coisa que não há, numa programação que consideramos um verdadeiro luxo.
            Dois eixos, Chicago e Reino Unido, permitem estabelecer a ponte. Chicago é a sede americana do pós-rock (ou do pós-jazz…), cultivado por grupos como os Tortoise, DKV, Isotope 217 e Chicago Underground (duo, trio, quartet…). Estes últimos – formação composta por Rob Mazurek, Chad Taylor, Noel Kupersmith e Jeff Parker – estarão presentes no Jazz em Agosto, num dos concertos aguardados com maior expetativa.
            Do outro lado do Atlântico, a Inglaterra conferiu um significado novo ao “free jazz” e chamou-lhe “free music”. “Music” e não “jazz”. A marcar uma posição e a desmarcar o jazz como reserva, região demarcada.
            Mas voltemos atrás, e viajemos de novo até aos anos 60 e à Inglaterra. O rock andava encandeado pelo psicadelismo. O mesmo era dizer que o LSD corria com abundância. Considerando que o jazz nunca foi propriamente abstémio, era natural que o binómio onirismo/LSD não passasse despercebido aos “jazzmen” da Velha Albion. Não passou. Desde 1965 que Londres vibrava nas metamorfoses de um caleidoscópio de sonhos musicais coloridos. Jazz e rock confundiam-se numa teia esfusiante de experiências partilhadas que prosseguiria, já no contexto do rock progressivo, pelos anos 70. Foi o “boom” da “free music”. Músicos de jazz formaram bandas de rock. Ray Russell, John Surman, Ken Hyder, Mike Westbrook, Michael Gibbs, Neil Ardley misturaram os saxofones e as guitarras elétricas, esticando e deformando o velho “4/4”.
            Os Soft Machine tinham começado por ser irmãos espirituais dos Pink Floyd mas acabaram por juntar o psicadelismo ao jazz mais cerebral. E se formações como os Trio, Amalgam, Ovary Lodge, Spontaneous Music Ensemble ou AMM não eram propriamente fáceis de assimilar pelo “mainstream”, mesmo nessa época de permissividade cultural, outras como os Back Door, Rock Workshop, Isotope ou Nucleus penetravam como um vírus carregado de “speed” nos neurónios dos estudantes para quem ser “arty” era estar na crista do momento.
            Toda esta cena borbulhante eclodiu e gritou bem alto o clima de entusiasmo e utopia que então se vivia, com a super-orquestra Centipede, promotora de uma reunião histórica que daria origem ao duplo-álbum “Septober Energy”. Dois meses num: Setembro e Outubro. Duas músicas numa: jazz e rock.
            Keith Tippett foi o grande impulsionador deste projeto. Também ele estará presente no Jazz em Agosto, em piano solo e, num concerto de encerramento que se antevê apoteótico, com a sua Tapestry Orchestra, “big band” em cujas fileiras pontificam nomes lendários do jazz inglês dos anos 60 e 70, ainda hoje expoentes dessa forma muito “british” de responder aos “blues” negros com uma lição de matemática esquizoide: Elton Dean (fez parte dos Soft Machine, no seu período áureo, dos álbuns “Third”, “4th” e “5”), Henry Lowther, Mark Charig (“session man” em álbuns dos King Crimson), Paul Rutherford, Malcolm Griffiths, Julie Tippetts (a ex-rocker Julie Driscoll, atual mulher de Keith Tippett e autora de um álbum espectral, “Sunset Glow”), Maggie Nicols, Louis Moholo… Ainda Paul Dunmall, Paul Rogers e Tony Levin que, juntamente com Keith Tippett, formam o quarteto Mujician.

Monstros e uma gata

Tippett, já se vê, é um dos nomes sem os quais o jazz inglês não teri sido capaz de abolir o preconceito. Gravou na editora de rock progressivo Vertigo o álbum “Dedicated to you but you weren´t Listening”, disseminou pérolas de piano elétrico em três álbuns dos King Crimson, rigiu o monumento em honra dos heróis, Centipede, montou outra “big band”, os Ark, instituiu, enfim, uma forma de jazz em que o vórtice do “free” não dispensava algumas das regras de etiqueta que são apanágio de todo o “gentleman”. Tippett e alguns outros elementos da sua orquestra tocarão ainda integrados no octeto de Paul Dunmall, o homem que teve a ousadia de trazer a gaita-de-foles para a música de jazz.
            Outro dos nomes-choque do festival é o do baixista Barry Guy. Fez parte, nos anos da loucura, Spontaneous Music Ensemble, Amalgam, Iskra 1903 e da “escola” London Jazz Composers Orchestra. O Jazz em Agosto recebê-lo-á em contrabaixo solo, com a sua Barry Guy New Orchestra (o programa assim o anuncia, mas suspeitamos que será antes “Now Orchestra”, a mesma que pode ser escutada em “Study – Witch Gong Game 11/10”...), em quarteto com Marilyn Crispell, Mats Gustafsson e Raymond Strid, e em trio com Evan Parker.
            O que nos leva a bufar de novo de excitação e a tirar o chapéu ao programador do festival. É que tanto Marilyn Crispell como Evan Parker são outros “monstros sagrados” do novo jazz internacional. Crispell é gata de jazz, ou jazz de gatas, arranhões e arabescos, gritos e lâminas cortantes, pianista de outra galáxa que não teria tido medo de caminhar ao lado das notas de Contrane, da mesma forma que não receou fazê-lo ao lado de Anthony Braxton.
            Evan Parker é uma espécie de Deus. A família da música improvisada contemporânea tem o seu apelido. Parker, como o outro, Charlie de seu nome, inventou um mundo próprio mas tão vasto que outros se instalaram dentro dele. É a improvisação como corrente indomável mas também como sinfonia. O saxofone soprano, tocado por Evan Parker, é uma nave espacial voando entre as estrelas. Menção especial ainda para um dos percussionistas menos catalogáveis da música improvisada, Paul Lytton, bateria, percussão e “live electronics” em busca constante de novos horizontes.

Ritual Chicago

Do outro lado do Atlântico, a linha do horizonte dobra-se em Chicago. Dos Chicago Underground, que em Lisboa serão Quartet, já se disse alguma coisa. Atuam no território em constante mutação onde o jazz, o rock, a eletrónica e o inesperado cruzam armas e argumentos. Os Art Ensemble of Chicago, seus progenitores espirituais, prezavam a liberdade com outra força. Eram a selva que irrompe na cidade. O quarteto liderado por Rob Mazurek e Chad Taylor é mais um caçador de feras virtuais. Há diferenças na ferocidade e na intensidade dos rugidos. Mas é igual a verdade de ambos: o ritual.
            Com cartão de sócio da Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM), Fred Anderson (sax tenor) e Hamid Drake (bacteria) prometem ser outro dos grandes momentos do Jazz em Agosto. Ao duo juntar-se-á o contrabaixista Peter Kowald, compondo o Fred Anderson Trio. Jeb Bishop (trombone) apresenta-se, por seu lado, em trio com Kent Kessler e Tim Mulvenna. Bishop trabalha regularmente com o saxofonista e atual “enfant terrible” da cena de Chicago, Ken Vandermark. Chega, como garantia.
            Fora do perímetro, mas bem dentro do espírito de abertura que caracteriza a 19ª edição do Jazz em Agosto, a surpresa poderá surgir do jazz de câmara da formação norueguesa Different Rivers, sob a liderança do saxofonista Trygve Seim, do grupo multinacional Essencia, composto por um músico alemão (Gebhard Ullman), um suíço (a pianista Sylvie Courvoisier) e um português (o contrabaixista Carlos Bica), do duo de contrabaixos nacional formado por Carlos Bica e Carlos Barretto (ainda a fumegar do seu extraordinário encontro com Louis Sclavis, no novo álbum “Radio Song”) ou dos Lisboa Improvisation Players, com a presença de Steve Adams, membro regular do Rova Saxophone Quartet. O pós-jazzrock e o conceito multimédia nascerão do encontro do saxofonista Mats Gustafsson e da dança de Lotta Melin, no espetáculo “Bevllo-hallat Hhu/Ö”.
            É muita e fora-de-série a música que animará a primeira metade de Agosto na Gulbenkian. O melhor jazz, como o melhor Verão, é único e irrepetível – fora de série.

MAPA DE CONCERTOS CHICAGO VS. REINO UNIDO

SEXTA, 2
TRYGVE SEIM “Different Rivers”
Grande Auditório, 21h30
Bilhetes entre 12,50 e 17,59 euros

SÁBADO, 3
FRED ANDERSON/HAMID DRAKE
Sala Polivalente, 15h30
Bilhetes a 10 euros

ESSENCIA
Auditório 2, 18h30
Bilhetes a 10 euros

CHICAGO UNDERGROUND QUARTET
Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30
Bilhetes a 12,50 euros

DOMINGO, 4
CARLOS BICA/CARLOS BARRETTO
Sala Polivalente, 15h30
Bilhetes a 10 euros

JEB BISHOP TRIO
Auditório 2, 18h30
Bilhetes a 10 euros

FRED ANDERSON TRIO
Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30
Bilhetes a 12,50 euros

QUARTA, 7
MARILYN CRISPELL + MATS GUSTAFSSON + BARRY GUY + RAYMOND STRID
Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30
Bilhetes a 12,50 euros

QUINTA, 8
BARRY GUY
Auditório 2, 18h30
Bilhetes a 10 euros

PAUL DUNMALL OCTET
Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30
Bilhetes a 12,50 euros

SEXTA, 9
KEITH TIPPETT
Sala Polivalente, 15h30
Bilhetes a 10 euros

LISBON IMPROVISATION PLAYERS
Auditório 2, 18h30
Bilhetes a 10 euros

BARRY GUY NOW ORCHESTRA
Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30
Bilhetes a 12,50 euros

SÁBADO, 10
MATS GUSTAFSSON + LOTTA MELIN
Sala Polivalente, 15h30
Bilhetes a 10 euros

BARRY GUY + EVAN PARKER + PAUL LYTTON
Auditório 2, 18h30
Bilhetes a 10 euros

KEITH TIPPETT TAPESTRY ORCHESTRA
Anfiteatro ao Ar Livre, 21h30
Bilhetes a 12,50 euros


A programação do Jazz em Agosto inclui ainda uma conferência por John Corbett (“Chicago Now: Creativa Music Renaissance”), sexta, 2, na Sala Polivalente, às 18h30; “Le Champ Jazzistique”, lançamento do livro, por Alexandre Pierrepont, quarta, 7, na Sala das Tapaçarias, às 17h; mesa redonda com Bill Shoemaker e músicos britânicos, quarta, 7, na Sala Polivalente, às 18h30; conferência de Jorge Lima Barreto (“Perigrafias do Jazz”), quinta, 8, na Sala Polivalente, às 15h30, todos com entrada livre; e um “workshop” de contrabaixo, com orientação de Ken Filiano, quarta, 7, na Sala Polivalente, das 10h às 12h (nº limite de participantes: 15)

19/09/2016

A jazzar em português é que a gente se entende

JAZZ
DISCOS
PÚBLICO 28 DEZEMBRO 2002

2002 foi um bom ano para o jazz português. Dos melhores, discograficamente falando. Sete propostas.

A jazzar em português
é que a gente se entende

Dos bons músicos que temos é lícito esperar bons discos. Contámos sete, só este ano. Número mágica a prometer um futuro ainda mais risonho. Carlos Baretto reincidiu. Depois de uma “Radio Song”, apimentada com a presença do soprador francês Louis Sclavis, que fica como um dos melhores registos do ano, “Solo Pictórico” mostra o outro lado deste exímio contrabaixista. Solo absoluto, de sons e de cores (cada tema tem correspondência numa obra pictórica também da sua autoria), espraia-se por uma série de “variações” e “deambulações”, entrecortadas por “Round midnight”, de Monk. Contido, de uma depuração extrema, nas execuções “a dedo”, Barretto abre espaços imensos quando opta pelo arco, como nas deambulações com os números 2 e 3, em que de uma certa atitude “new age” percetível na primeira se eleva à pura religiosidade, na segunda. Amplitude tímbrica, refrações oníricas, um sentido universalista da melodia conjugam-se numa obra que dispensa o acessório para se concentrar no essencial, que aqui é canto, mais do que solitário, solidário.
                Cokm dedicatórias a Morris e Goscinny, Edgar Pierre Jacobs, Hergé, Hugo Pratt, Robert Crumb, Gilbert Sheldon, Bilal e Tardi e títulos como “I’m a poor lonesome cowboy”, “Armadilha diabólica”, “As sete bolas de cristal”, “Blues dos freak brothers” e “A mulher-armadilha”, só se poderia esperar balões preenchidos por música de memória longa e leitura rápida. “Filactera”, com “design” sonoro do guitarrista Mário Delgado, é uma homenagem à banda desenhada, projeto ideologicamente próximo de “Vol pour Sidney” ou “Bandes Originales du Journal de Spirou”, ambos editados na NATO. Carregado de citações, respirando a Bill Frisell, quando calha a Delgado ser Lucky Luke, ágil nos tempos mais “bopados”, servidos pelo saxofone dócil de Andrzej Olejniczak e pelo contrabaixo sabido de Barretto, aos encontrões amigáveis com a “gentalha” infetada da editora Recommended (Zero Pop, Orthotonics, Semantics… em “Gatos e corvos”), bem-humorado na aerofagia, salvo seja, do trombone de Claus Nymark, “Filactera” é jazz aos quadradinhos, histórias para ler de ouvido, sem pretensões de inquietar o coração e confundir o pensamento.

Cinema jazz

                A jazzar, a jazzar, José Eduardo, outro contrabaixista de créditos formados, fez obra séria em “A Jazzar no Cinema Português”, gravado ao vivo com a sua “Unit” no cineclube de Faro. Pegar em “standards” conotados com a sétima arte nacional como “Se eu fosse um dia o teu olhar”, de Pedro Abrunhosa, “Balada da Rita” e “Os demónios de Alcácer-Quibir”, de Sérgio Godinho, “Grândola, Vila Morena” e “Os índios da meia-praia”, de José Afonso, “Eu vi este povo a lutar”, de José Mário Branco, “Peregrinações”, de Fausto ou “Verdes anos”, de Carlos Paredes, não é tarefa para todos. Operação de alquimia, mudar o fato e refazer o feito. Eduardo não esquece em nenhuma ocasião a trave mestra melódica que sustenta cada composição mas constrói tão longe e tão fortes quanto pode as paredes. Jesus Santadreu, no saxofone tenor, tem técnica e intuição apuradas, o que lhe permite fazer, com brilho, o que faz em “Grândola, Vila Morena”. O que para outros seria armadilha mortal, nele é via de “free”, fazendo jus à revolução. O longo medley formado pelo par “Os demónios de Alcácer-Quibir”/”Eu vi este povo a lutar” junta o espírito dos Lounge Lizards, o grande jazz de costela “bluesy” swingante e uma grande intervenção, a rasgar, do contrabaixista. Que também é pianista, em segundo plano ou à boca de cena (“Peregrinações”).
                Santadreu reaparece em “Ciclope”, no quinteto do baixista Nelson Cascais. Notável a clareza e limpidez do fraseado, aqui mais “cool”, modulado e cantante a fogo, bem secundado pelo trompete de Avishai Cohen, para nós, uma revelação. Cascais assina a quase totalidade das composições e fá-lo com os pés bem assentes nos principais capítulos da história. Jazz-modelo, clássico mas vibrante.
                Na mesma editora de Cascais (que, por sinal, gravou o seu CD em Paris), surgiu igualmente “O Osso”, registado ao vivo num único “take” no Hot Clube de Lisboa, por um quinteto sob a liderança do guitarrista André Fernandes. De novo a tradição a fazer valer os seus direitos, agora com os ouvidos postos, mas não colados, ao jazz mais fino que se fez nos anos 50 e 60, linhas de tecelagem de novas malhas. Fernandes é um Montgomeriano por afeto, quer-nos parecer, mas, enquanto compositor, a sua música atinge uma elaboração e um requinte extremos, apesar da sua aparente simplicidade. O piano elétrico Fender Rhodes de Peter Rende confere à música um colorido e delicadeza especiais, fazendo lembrar os Nucleus, Gordon Beck e o Canterbury-jazz de Steve Miller ou de uns Gilgamesh, com a guitarra de Fernandes a condizer. Melhor dizer um bordado. Julian Arguelles, nos saxes tenor e soprano, sopra com descontração e boa temperatura. Bernardo Moreira, no baixo, swinga como um safado. Ouçam-no a surfar nas notas de “Zing”.
                Um dos grandes discos do ano tem a assinatura de Bernardo Sassetti e foi gravado em ambiente de “verdadeira magia”, diz o próprio, na Quinta de Belgais, de Maria João Pires. Homem de muitas músicas, fez mais uma das suas incursões pelo jazz. Pela porta grande de Bill Evans. Em trio com Carlos Barretto (quem mais?) no contrabaixo, e Alexandre Frazão, na bateria. Jazz voltado para dentro, atento aos movimentos mais íntimos e secretos. Melancolia, uma despedida, um tempo além do tempo que faz sorrir tristemente sem se saber bem porquê. “Reflexos”, o “Sonho dos outros”, um “Olhar” e uma “Música callada” são quadros com azul molhado de lágrimas e nuvens. “Quando volta o encanto”, pergunta-se? Está sempre presente. E um aceno e trocadilho a Monk (“Monkais”). Paisagens impressionistas (“Sonho dos outros” e Satie, Chopin, Debussy, de uma beleza soluçante, sagrada, emocionante) pintadas com pontos, traços, sugestões e luzes. “Reflexos” soa como música de um filme por filmar, pinceladas de sentimentos em imagens de ouvir, melodia ao mesmo tempo familiar e estranha. Os diálogos com Barretto e Frazão são para se acompanhar como um segredo – experimente-se escutar “Cançon nº7” com as luzes apagadas e a saudade bem acesa. Sassetti é um grande pianista, já o sabíamos. Desconhecíamos era que estivesse e soubesse conviver tão perto e de forma tão tocante com o silêncio.

Em transe

                Para acabar em beleza. Para acabar – porque não? – o ano, em grande, nada melhor do que um bom desacato. E proclamamo-lo com a máxima veemência: Rodrigo Amado, Marco Franco e Paulo Curado (todos saxofonistas), Pedro Gonçalves, no contrabaixo, e Acácio Salero, na bateria, os cinco Lisbon Improvisation Players, sabem melhor do que ninguém como criá-lo. Gravado ao vivo no Teatro Tivoli, em Lisboa, o álbum dos LIP obedece a alguns dos princípios “harmolódicos” preconizados por Ornette Coleman na enunciação do “free jazz” e da conjugação entre método e liberdade criativa, a saber, a possibilidade de em simultâneo solar e enquadrar esse discurso individual na matemática do coletivo. Claro que por vezes não é fácil destrinçar a ordem do caos, a aleatoriedade da “imposição cósmica” que determina, ao mais alto nível, a improvisação. Música independente desta natureza é também música dependente da fortuna e do acaso. Viver do encontro do momento implica admitir a possibilidade do desencontro. Os LIP arriscam, mesmo assim, conversar, gritar, tropeçar e avançar. Imaginamos até onde poderiam ir, se estimulados, por exemplo, por um Evan Parker. Não é preciso, porém, imaginar onde já estão – num lugar de aventura mas também de conhecimento. Quando um deles enfrenta o precipício, saltam todos. Quando um deles alcança a grande ordem oculta sob a aparências, alcançaram todos. Lisboa, cidade de terramotos.


Carlos Barretto
Solo Pictórico
Ed. e distri. CBTM
8|10

Mário Delgado
Filactera
Clean Feed, distri. Trem Azul
8|10

Zé Eduardo Unit
A Jazzar no Cinema Português
Ed. e distri. Cineclube de Faro
8|10

Nelson Cascais Quintet
Ciclope
Tone of a pitch, distri. Trem Azul
7|10

Quinteto André Fernandes
O Osso
Tone of a pitch, distri. Trem Azul
7|10

Bernardo Sassetti
Nocturno
Clean Feed, distri. Trem Azul
9|10

Lisbon Improvisation Players
Lisbon Improvisation Players
Clean Feed, distri. Trem Azul
8|10