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24/02/2020

Encontro do fado com a música árabe


CULTURA
SEXTA-FEIRA, 16 JULHO 2004


Encontro do fado com a música árabe

CONCERTO “REGRESSOS” NO TEATRO S. JOÃO

Camané, Argentina Santos, Rabih Abou-Khalil, Ricardo Pais. Um quadrado mágico para recriar um encontro de duas culturas musicais mais próximas do que se possa pensar

Regressa-se com vontade aonde se foi feliz. Regressar é voltar. Mas, para além desse retorno a uma matriz, voltar é também rodear e transgredir. O que se aplica ao que hoje e amanhã se passará no Teatro Nacional S. João, no Porto, quando subirem ao palco os fadistas Camané e Argentina Santos e o libanês, tocador de alude árabe, Rabih Abou-Khalil, no espetáculo “Regressos”, com direção cénica de Ricardo Pais. De um lado o fado, pertencente a duas gerações distintas, do outro o taqasim, a improvisação como é praticada na música árabe.
            O espetáculo será dividido em três partes, atuando cada artista individualmente. O mais interessante poderá acontecer no final, quando o músico árabe e Camané partilharem atmosferas e estados de alma juntos. Para Ricardo Pais será ainda a revisitação do fado, depois do espetáculo que encenou em 1997, “Raízes Rurais, Paixões Urbanas”. Camané é a mais profunda e emblemática voz do fado no masculino da atualidade. Na sua expressão mais sentida e genuína. A de dar voz à alma dos verdadeiros fadistas. Camané gravou os álbuns “Uma Noite de Fados”, “Na Linha da Vida”, “Esta Coisa da Alma”, “Pelo Dia Dentro” e “Como Sempre… Como Dantes”, cada um deles uma renovada etapa numa evolução que visa atingir o âmago da poesia, da vida e do fado.
            Argentina Santos é o fado na sua forma mais instintiva, castiça e emocionalmente arrebatadora. A proprietária (e, às vezes, também cozinheira) do Parreirinha de Alfama cultiva no seu canto o contraste entre os graves telúricos e pujantes e ornamentações, na zona dos agudos, tão límpidos como os de uma ave canora. Houve quem a comparasse à diva egípcia Oum Khalsoum. Rabih Abou-Khalil é um “virtuose” do “’ud”, ou alaúde árabe. Virtuoso não no sentido meramente exibicionista do termo, mas no modo como sabe fazer vibrar as cordas interiores. Improvisador nato, a sua música cultiva a fusão da música árabe com o jazz, como está registada nos múltiplos CDs que tem gravado na Enja. Admirador de Portugal – onde diz que gostaria de viver –, Khalil conhece e sente o fado, bem como as ressonâncias que a palavra “saudade” pode provocar, não tão afastadas como isso da música árabe.

Um sul iluminado por mais que um sol
Desta convergência entre três personalidades, apesar de tudo, diferentes, resultará não se sabe exatamente o quê, mas decerto terá a ver com sangue e luz, pedra e cal, vielas e deserto. Ao toque das respetivas sensibilidades poderá irromper um sul iluminado por mais do que um sol.
            Camané interpretará, na 2.ª parte, um reportório de fado tradicional. “Será uma parte pequena, vou cantar poucos temas, oito ou nove”, diz. O mais interessante ou o mais curioso, virá no fim, quando o fadista juntar a sua voz ao alaúde do músico árabe. “À partida só será um tema, mas poderão ser dois”. Para isso decorreram já ensaios em Paris. “Foi um trabalho difícil, é muito difícil cantar os temas dele, é uma linguagem completamente diferente da nossa, as músicas são feitas em melodia, é preciso decorar cada nota, aquilo é tocado praticamente em uníssono com a minha voz”. As palavras foram escritas por Jacinto Lucas Pires “sobre aquela música”: “Funciona muito bem, embora pareçam coisas diferentes, vai soar um bocado estranho, mas, se calhar, é isso que faz sentido”, garante o fadista.
            A ideia desta colaboração surgiu do próprio Abou-Khalil: “A última vez que esteve em Portugal ouviu os meus discos e gostou imenso, acabámos por nos encontrar num jantar no Parreirinha de Alfama, começámos a falar…”. No dia seguinte, estavam ambos a ensaiar no hotel: “Eu a ouvir a música dele e ele a minha”, lembra Camané. A ajuda para fazer a parceria funcionar poderá ter vindo de onde menos se esperava, quando Camané ouviu a cantora egípcia Oum Kalsoum. “Fiquei todo arrepiado, embora não percebesse nada da língua. É precisamente esse registo que eu não tenho para cantar aquela canção. A forma de cantar, até mesmo como terminam as frases, é completamente diferente. Foi isso que eu tive que encontrar. É engraçado, porque, no caso dela, há um tema base melódico, depois ela vai cantando de maneiras diferentes, repetindo sempre o mesmo refrão. É incrível!”.
            Rabih Abou-Khalil é um músico para quem a pureza é algo inatingível. “Açúcar puro, sal puro, não acho que exista qualquer cultura com esse grau de pureza”. Nem isso será o mais importante no seu trabalho, onde a improvisação joga um papel primordial. Álbuns como “The Blue Camel”, “Al-Jadida”, “The Sultan’s Picnic”, “Tarab” ou o novo “Morton’s Foot (que fornecerá o maior parte do reportório à apresentação do seu grupo) só aparentemente praticam um idioma jazzístico, como também só aparentemente se submetem aos cânones da música tradicional árabe. Khalil é um conhecedor do fado – “interessa-me o contexto poético” –, tem em casa uma quantidade de discos de Amália, claro, mas também uma boa coleção de compilações. Foi quando veio a Portugal pela primeira vez que o alaudista começou a interessar-se pela cultura portuguesa e pelo fado. A música de Camané, conheceu-a num festival na Alemanha e, mais tarde, ouviu-o em Monsaraz. “Achei que era um cantor de fado muito bom, mas na altura não sabia ainda o seu nome”. No fado e na música árabe encontra uma ponte a unir os dois, e essa ponte é “o elemento nostálgico”. “Sempre que dou a ouvir fado a um árabe, ele gosta”, garante. A saudade? “Sim, um estado de alma, até temos em árabe uma palavra para dizer o mesmo, ‘Tarab’”.

“Regressos: O fado não está só”
Com Argentina Santos, Camané e Rabih Abou-Khalil Group
Direção cénica de Ricardo Pais
PORTO Teatro Nacional S. João. Tel.: 800 108 675/ 223 401 900. Hoje e amanhã, às 21h30. Bilhetes a 10 e 15 euros.

11/10/2016

Operação triunfo de Camané

CULTURA
SÁBADO, 16 FEVEREIRO 2002

Operação triunfo de Camané

SALA CHEIA NO CCB

Camané triunfou no CCB. O fado rendeu-se-lhe. O público rendeu-se-lhe. Num espetáculo que subiu, subiu sempre, até tocar aquele instante de revelação em que tudo coincide sem aparente esforço

Camané confirmou no concerto de quinta-feira, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, tudo o que tem sido dito dele nos últimos tempos. Ele é de facto – e demonstrou-o bem – o maior fadista da atualidade. A voz, a pose em palco, a interiorização, a emotividade, a contenção quando tal lhe é pedido, combinam-se no seu canto na proporção exata para que o fado irrompa em todo o seu esplendor naquilo que mais fundo o caracteriza: a dança dolorosa das almas nuas.
                A sala maior do CCB estava cheia. De um público heterogéneo que se rendeu ao fado maior de Camané. Receberam-no com a expectativa de ver até que ponto se afirmaria num espetáculo de duas horas apenas na companhia da guitarra portuguesa de José Manuel Neto, a viola de Carlos Manuel Proença e o contrabaixo de Paulo Paz. Despediram-se a contragosto (porque a vontade seria ficar a ouvi-lo toda a noite...), aplaudindo de pé, aos gritos a pedir este e outro e mais outro fado.
                Servido por um som ao nível da música e um design de luz eficaz, o espetáculo arrancou no escuro com o contrabaixo a rosnar uma nota cuja gravidade a situava algures entre a voz humana e um didjeridu. Desceu então um foco de luz e Camané surgiu ao centro a cantar "Guitarras de Lisboa". Ao sinal do verso certo irromperam em último lugar as cordas da guitarra. Estava tudo no lugar, agora, para que o fado, mas não só o fado, renascesse. Mas não logo. Não com a celeridade de quem receia o desafio. No final dessa primeira claridade lisboeta, com a simplicidade e o sentimento de quem perdeu um amigo mas sabe que a vida continua, Camané pediu um minuto de silêncio em memória de Carlos Zel – falecido na madrugada anterior ao concerto – a quem dedicou o concerto.
                Camané cantou o fado tradicional, os versos de Linhares Barbosa, Fernando Pessoa, Manuela de Freitas, Aldina Duarte, David Mourão-Ferreira, numa primeira parte em que a diferença esteve, uma vez mais, na fabulosa composição de José Mário Branco, "Eu não me entendo", que Camané transformou já num clássico de sempre da música portuguesa. José Mário Branco cuja assinatura ficou ainda lavrada em "Marcha do Bairro Alto" e "Ela tinha uma amiga", dois dos momentos em que a caminhada em direção ao âmago do fado se aligeirou no canto de coisas aparentemente mais ligeiras.
                Após o intervalo, Camané regressou para falhar a entrada em "A cantar é que te deixas levar", outro original de José Mário Banco. Pedido de desculpas e imediata correção. Mas o tema correu tenso até ao fim. A emenda foi, todavia, gloriosa, na forma como estendeu e abraçou "Quem, à janela", de Amélia Muge que, sentada no meio da assistência, aplaudiu entusiasticamente.
                "Escada sem corrimão" foi outro dos momentos altos. O poema de David-Mourão Ferreira é um relâmpago. A sua escada, a escada de Jacob, é a vida, o tempo curto que une o Céu e o Inferno. Camané percorreu-a de alto a baixo.
                Depois de um belíssimo instrumental em que as cordas brilharam, a voz atreveu-se ainda mais, compondo "a capella" uma "Complicadíssima teia" com mudanças de escala e as palavras de António Botto a chisparem de um Camané sozinho à boca de cena. Mais exposto do que nunca. Sempre em crescendo, com a voz já plenamente fundida com a emoção, Camané foi tornando cada vez mais alto e forte e leve o seu canto, até atingir o ponto culminante (antes dos encores) no "Estranho fulgor" servido pela poesia de Pedro Homem de Melo.
                Já a voar, como que a querer "vingar-se" do pequeno percalço do início da segunda parte, repetiu "A cantar é que te deixas levar". Repetiu, é uma força de expressão. O que antes pareceu tecnicamente difícil soltou-se, como num toque de magia, sem esforço algum, em êxtase. Guitarras, voz, contrabaixo literalmente voaram. É que, não sei se sabem, quando a música toma conta do músico, tudo acontece numa coincidência (que é também ciência) perfeita.


DISCOGRAFIA

“Uma Noite de Fados” (1995)
Gravado ao vivo em estúdio, com a presença de público, foi o início de uma colaboração (com José Mário Branco).
“Na Linha da Vida” (1998)
Álbum de luzes e cicatrizes, nasceu de um período doloroso na vida do fadista. “Eu não me entendo” está aqui.
“Esta Coisa da Alma” (2000)
Esta coisa é a alma de Camané. O álbum que projetou o seu nome para a galeria dos clássicos.
“Pelo Dia Dentro” (2001)
O fado de Camané percorre todos os cambiantes, das modalidades tradicionais a ruturas ensaiadas em nome do que o seu íntimo lhe exige.

Camané apresenta "Pelo Dia Dentro" no Porto

CULTURA
QUINTA-FEIRA, 7 FEVEREIRO 2002

Camané apresenta “Pelo Dia Dentro” no Porto

HOJE E AMANHÃ NO TEATRO RIVOLI

O fado encontrou nele o futuro. Mas, como em Amália, também para Camané a perfeição esconde-se para além da próxima curva. “O fado é uma música para a vida toda.” O fado é Camané

Ele é o homem que em Portugal, no presente, melhor canta o fado. Claro, há Carlos do Carmo, João Braga, Vicente da Câmara, Carlos Zel – a geração mais velha. Mas se estes conservaram intacta a nobreza de uma tradição musical que se confunde com a própria essência anímica de Lisboa, Camané tem a seu favor ter projetado essa nobreza num sentido novo, capaz de atrair para o fado novos aderentes.
                Depois, ou antes, ou sempre, Camané é um fadista inteiro. Parece pouco, mas é muito. Por vezes até, como no seu caso, excessivo. Um excesso de vida e de sentimentos que não andam longe do sofrimento e da morte, enquanto símbolo de regeneração. Ser fadista não é apenas cantar o fado. É ser. E desse ser fazer com que a voz se vergue à força das ondas e se molde à poesia das palavras.
                Algo que o próprio sintetiza de forma desconcertante, numa alusão ao espírito (o fogo) que enforma os verdadeiros fadistas: "É preciso ser-se fadista a cantar". Um chamamento, enfim. De chama. O fado chama pelo homem, o homem chama pelo fado. A alma vibra em simpatia como um eixo. Se tiver forma de voz, tanto melhor.
                Camané vai ter a sua prova de fogo esta noite e amanhã no Teatro Rivoli, no Porto, descendo a Lisboa no dia 14 para atuar no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. A seu lado vão estar os seus companheiros habituais, nos últimos tempos: José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença, na viola, e Paulo Paz, no contrabaixo. Sem convidados.
                "No fundo, é como se estivesse em minha casa, para convidar alguém tinha que estar preparado para o receber. Quero sentir-me confortável. E para me sentir honesto tenho que dizer que não estou pronto para receber ninguém, ainda", diz Camané.
                Exposição total. Sem truques. Sem medos. Bem, não exatamente: "Sinto sempre algum, é um bocado complicado. Depois desaparece, pelo enorme prazer que sinto em cantar, com as palavras, as emoções... A partir daí parece que consigo sair de mim, deixo de me preocupar comigo, entrego-me aos fados".
                Ser-se fadista é também essa entrega, "às palavras, ao que se está a cantar, é deixar-me ir". E é "ser-se autêntico": "Um cantor de flamenco, identificamo-lo logo mal o ouvimos cantar. Um fadista também. Quando dou um ré, é completamente diferente da maneira como um cantor de jazz dá um ré. É um tempo, um ambiente, uma coisa diferente".

Aprender com o passado
É preciso, pois, ser-se fadista a cantar. Cantar, toda a gente sabe o que é. Mas ser fadista é fado de muito poucos. Camané sentiu-o desde muito cedo. Ainda criança, já cantava. O fardo de luz veio mais tarde. Ganhou em 1979 a Grande Noite do Fado, trabalhou com Filipe La Féria, participou nas noites de fado da Comuna.
                Foi aí que conheceu José Mário Branco, outro trovador dos combates do espírito. E José Mário Branco ajudou-o a abrir as asas, assumindo-se como produtor e "designer" de uma música que a sua sabedoria lapidou em jóias, nos álbuns "Uma Noite de Fados", "Na Linha da Vida", "Esta Coisa da Alma" e o novo "Pelo Dia Dentro", que estará na base do alinhamento para o concerto de hoje à noite, embora não fiquem de fora alguns dos fados dos seus anteriores trabalhos.
                Sem José Mário Branco, a música de Camané teria sido outra. "Uma das coisas que gosto de ouvir é a forma como se toca, um som específico que se adapte à minha voz. Era o que eu gostava de ouvir em algumas bandas rock ou noutros estilos de música, esse som próprio, determinado ambiente. E foi isso que o José Mário fez nos meus discos, pôr a guitarra a responder, conforme as palavras. Conseguiu a ligação perfeita com a minha maneira de estar no fado".
                Curiosamente, Camané não gosta de ouvir os seus próprios discos. "Acho sempre que posso fazer melhor, estou sempre a achar que está mal, em relação à minha forma de cantar". Pode parecer estranho que assim aconteça, na medida em que a crítica e o público têm sido unânimes no reconhecimento do seu talento.
                Mas não há nada a fazer. Como em Amália, como em Carlos Paredes, também eles eternamente descontentes consigo mesmos, a humildade de Camané impede-o de se ver com os mesmos olhos com que os outros o veem: "Sempre senti o peso de conseguir estar à altura do passado. Vejo só os meus defeitos, é uma questão de carater, pode haver um estádio inteiro a dizer bem, mas basta que haja uma só pessoa a dizer mal que é a ela que presto atenção. Sei que tenho que aprender muito".
                É essa insatisfação que faz com que Camané não pare e que o impele para diante. Camané aprende porque a vida é ela mesma aprendizagem. "Só tenho a aprender com Amália, com o Carlos do Carmo, com o Marceneiro".
                Mas se o fado tem a ver com a vida, será possível aprender a viver através da vida dos outros? O segredo tem que estar algures. "Tento aprender a sua arte. Uma forma de viver as palavras, de as fazer nossas. Sei que tenho que crescer ainda muito, humanamente. O fado é uma música para a vida toda. Os fados tradicionais, embora pareça o contrário, são difíceis de cantar. A melodia é simples, a arte está em construir uma canção dentro dela, como um 'blues'. Aí é que aparece o lado criativo. É preciso interiorizar tudo e isso para mim é o mais difícil, mas também o mais bonito do fado – a criação". O que Camané aprende e nos ensina é a descortinar a beleza.

Camané

PORTO Rivoli Teatro Municipal (Grande Auditório). Tel: 223392219. Hoje e amanhã, às 21h30. Bilhetes a 13 e 16 euros.

17/05/2015

Camané, o embaixador perfeito da saudade em Itália [Festival Sete Sóis Sete Luas]



17 de Julho 2001

No Festival Sete Sóis Sete Luas

Camané, o embaixador perfeito da saudade em Itália

Na cidade toscana de Pontedera (Itália), o fadista português cantou fado com "F" maiúsculo e comoveu uma plateia constituída em partes iguais por portugueses e italianos

Camané confirmou em Itália por que é considerado um dos maiores, senão o maior, fadista da actualidade. Na cidade toscana de Pontedera, em espectáculo integrado na programação do festival Sete Sóis Sete Luas, o cantor português conseguiu comover uma plateia constituída em partes iguais por portugueses e italianos, depois de uma primeira parte preenchida pelo folclore da Orquestra de Ponte de Sôr.

Faz calor, bastante calor, por estes dias, na Toscânia. Na Villa Malaspina, em Montecastello, no jardim do palacete pertencente a uma aristocrata, marquesa, no mesmo local onde, em edições anteriores do festival, já actuaram Teresa Salgueiro com António Chainho, Amélia Muge, Mafalda Arnauth e Cristina Branco, mal corria uma brisa, com uma temperatura de grilos, giestas e estrelas. O cenário, digno de um filme dos irmãos Taviani, convidava a intimismos. Camané encheu-o de fado. Fado com "F" maiúsculo, aquele que surge quando a música e a voz se excedem, passando para o lado do mistério.

Acompanhado à guitarra portuguesa por José Manuel Neto, à viola por Carlos Manuel Proença e, ao contrabaixo, por Paulo Paz, Camané deu a ouvir ao público italiano a poesia de Júlio Dinis, Manuela de Freitas, Fernando Pessoa, Antero de Quental, David Mourão-Ferreira e João Monge, entre outros. A música do fado, essa, levando embora a assinatura de autores como Frederico de Brito, José Mário Branco, Alfredo Marceneiro ou João Gil, alternando com uma quantidade de modalidades tradicionais, ganhou na voz de Camané tonalidades e uma força expressiva únicas. Camané entra dentro de si, procura dentro de si, canta dentro de si. Explorando os ventos (palavra, aliás, recorrente em muitos dos poemas...) e os espaços, os silêncios e as preces, entre o arrebatamento e a suspensão do voo das aves. Se, nos fados tradicionais, a sua voz se move como peixe na água, foi através da escrita de José Mário Branco - produtor de todos os seus álbuns até a data, incluindo o próximo, já gravado e pronto a ser editado em Novembro - que Camané demonstrou ser possível ao fado soar simultaneamente eterno e novo, clássico e inovador, português e universal. Em dois desses fados, "Eu não me entendo" e "Sopram ventos adversos", algo de transcendente pairou sobre a música. Algo de muito antigo e, paradoxalmente, moderno, com o canto do fadista a navegar entre uma guitarra e uma viola de sabor árabe-medieval e um contrabaixo solto nas liberdades do jazz. Admiração, espanto, devoção. Camané foi o embaixador perfeito da saudade. E da contemporaneidade (não haverá muitos fadistas que, como ele, se entusiasmaram com o concerto recente dos Von Magnet, em Portugal...).

"Guitarra, guitarra", de Jorge Fernando, foi outro dos momentos altos da sua actuação, enquanto em "Escada sem corrimão" os versos de David-Mourão Ferreira ganharam na voz do fadista ressonâncias inigualáveis, provavelmente porque ele próprio as terá feito suas: "É uma escada em caracol/E que não tem corrimão/Vai a caminho do sol/Mas nunca passa do chão (...) Adivinhaste, é a vida, a escada sem corrimão". Camané subiu-a a pulso.

Depois do concerto choveu e trovejou. É costume, no Verão da Toscânia. As comitivas de Camané e de Lula Pena (que hoje actua no mesmo local) rejubilavam, rindo e gritando vivas a Itália, num deslumbramento de relâmpagos, cânticos improvisados e vinho tinto "Chianti".

01/12/2011

Camané - Esta Coisa Da Alma

5 de Maio 2000
PORTUGUESES

Camané
Esta Coisa da Alma (9/10)
Ed. e distri. EMI-VC


Esta coisa da alma tem que se lhe diga. Que o fado é a alma a cantar já toda a gente sabe, ou devia saber, mas tem que ser alma antiga. Nada a fazer, quanto a isto. Aos mais novos resta cumprir os desígnios de melhores ou piores vozes, que o fado, fado, apenas nasce das feridas e do fim das viagens mais longas. E chegamos a Camané, que é fadista novo, mas com a alma já batida e enobrecida por mais do que uma cicatriz, viajante na dor que no fado – e é também para isso que ele serve – se alumia. Não por acaso um dos fados se chama aqui “A luz de Lisboa (claridade)”, que, também não por acaso, é um instrumental. Camané é uma das vozes com que o fado pode contar para cantar aquilo que é a eternidade. Ouça-se “Dor repartida”, por exemplo, com letra de Manuela de Freitas e da mulher de Camané, Aldina Duarte, também fadista e música do “Fado Primavera” de Pedro Rodrigues, para se compreender, ou sentir, o que querem dizer versos como “Cinzento porque chovia/Todo o céu que me cobria/Comigo chorava tanto/Mas ali à minha frente/Afastado e tão presente/O rio secou o meu pranto.” Mas também quando o fado enfia as mãos nos bolsos e se torna mais gingão (“Por um acaso”, “Fado da recaída”) Camané sabe decifrar e dar corpo aos seus sentidos. As palavras de David Mourão Ferreira, João Monge (da Ala dos Namorados), Edmundo Bettencourt, Júlio Dinis e Fernando Pessoa e a música de Alfredo Marceneiro, Reinaldo Varela ou José Mário Branco, entre outros, são dignificadas pela voz e, mais do que a voz, pelo sentimento de Camané que em “Quem, à janela”, canção de Amélia Muge, mostra que a sua alma é igualmente capaz de olhar através de outras janelas que não a janela duramente envidraçada do fado. Ou talvez tudo, como nesta canção, se transforme em fado quando cantado do fundo. No centro da cruz.

11/09/2009

Náufragos do Tempo

Sons

6 de Março 1998
PORTUGUESES

Náufragos do Tempo

Rock, fado e tradição. Entre gestos de sobrevivência e remexidas no baú, descobrem-se caminhos e becos, experiências e perplexidades. Passando ou não ao lado da inovação. A música portuguesa desarrumada entre o passado e o presente.

“Manual de Sobrevivência”, segundo trabalho a solo da antiga vocalista dos Rádio Macau, é um álbum interessante mas que não esconde as suas limitações. Xana procura aqui a diferença que possa impor um estilo, a questão está em que a sua maneira e cantar, sem dúvida característica, demonstra enormes dificuldades em se libertar de um registo demasiado repetitivo. Como se cada capítulo deste manual fosse uma variação de uma única canção, ensaiada em velocidades, estados emocionais e arranjos diferentes. Assim, a monotonia acaba por se instalar, dando ideia de que este manual poderia ter sido limitado a um folheto de instruções básicas de salvação. Procure-se esta redenção na colaboração recente da cantora no álbum de Flak... (Nortesul, 6)

Camané vive o fado como poucos, contando de novo, neste seu segundo registo depois de “Uma Noite de Fados”, com a presença tutelar de José Mário Branco. E se a sua abordagem ao fado se insere na linhagem dos clássicos, tal não impede que um dos temas mais interessantes de “Na Linha da Vida” seja “Sopram ventos adversos”, de Manuela de Freitas e José Mário Branco, em que a atmosfera se abre a uma contemplação mais luminosa e o fado se desdobra “numa praia de sentimentos dispersos”. Uma via de confluência entre o fado-canção de Carlos do Carmo e o golpe de vista de Paulo Bragança que poderá projectar Camané para uma visão mais abrangente da tradição e de um espírito de fatalidade que parece marcar a sua música. (EMI-VC, 6)

José Barros, mentor do projecto Navegante, navega no seu segundo trabalho, de genérico “Cantigas Partindo-se”, em águas bem menos poluídas que as do disco de estreia. Ainda sem conseguir furtar-se totalmente à lama do popularucho, embora aqui na sua vertente menos ofensiva, de temas como “Serventês” e “Tão longe da vida” (verdadeiramente folk pimba) e incorrendo em inutilidades como a enésima versão de “Milho verde”, o grupo revela-se capaz de encontrar alguns oásis de frescura e alguma originalidade. Estão neste caso a versão de um “São João” em tonalidades arabizantes, a força céltica de “Penha Garcia” e um par de baladas originais que não deixam de fazer lembrar os Romanças, como “Cascata”, “Saudades da Lua” e “Cantigas partindo-se”, sobressaindo ainda o instrumental “Em barca”, composto pelo violinista Jorge Cruz, onde é visível uma atenção a alguns dos rumos recentes seguidos pela “world music”. A este elevar da fasquia não serão alheias as participações de músicos como Rui Júnior e Pedro d’Orey (ex-Romanças), mencionados como elementos permanentes do grupo, Rui Vaz (dos Gaiteiros de Lisboa), Artur Fernandes (Danças Ocultas) e Pedro Jóia. (Ovação, 6)

No capítulo das reedições, o destaque vai por inteiro para “Cantigas do Sete-Estrelo”, álbum de 1985 da Ronda dos Quatro Caminhos que permanece como um dos instantes iluminados da música portuguesa de raiz tradicional. Graças à magia criada por um colectivo que, alheio ainda a guerras que no futuro se viriam a declarar de forma violenta, apenas se preocupava então com a dignificação de uma música habituada a todo o tipo de maus tratos. Simples e directas, porque simples e directas são as raízes, sentem-se nestas “Cantigas” o trabalho e a dedicação profundos. Depois, a Europa e uma leitura da folk mais sofisticada impõem-se em monumentos de beleza como “Cantiga de Fiadeiro”, “Batuque” e “Quedos, quedos, cavaleiros!” (onde se percebe como a Ronda poderia ter sido o equivalente nacional dos franceses Malicorne...). O aparecimento de outras técnicas e abordagens de estilo, mais actuais, terão tornado algumas destas aproximações à tradição algo datadas, mas nada lhes poderá tirar a verdade do batimento de um coração. (Movieplay, 8)

Igualmente relevante é a reedição de “Pelo Toque da Viola”, álbum de 1981 dos Terra a Terra, ou seja, um dos exemplares mais antigos da segunda geração de grupos nacionais de raiz tradicional. Mais ortodoxos que a Ronda e valorizando sobretudo os arranjos vocais, os Terra a Terra propunham uma viagem pelas várias províncias do continente à boleia da voz, mas também das omnipresentes cordas e percussões. Algumas debilidades técnicas, como uma gaita-de-foles constipada, impedem voos mais altos num álbum marcado pela dança e pela presença de Ana Faria, antes de se dedicar à confeitura dos queijinhos frescos... (Movieplay, 6)

05/09/2009

Na linha do fado [Camané]

Sons

20 de Fevereiro 1998

Camané lança segundo álbum

Na linha do fado


“O Fado retrata a vida como ela é, de uma forma muito profunda”, diz Camané. Por isso, “Na Linha da Vida”, segundo álbum do fadista, é o mesmo que dizer “na linha do fado”.

“Na Linha da Vida” sucede a “Uma Noite de Fado” na carreira de Camané, um jovem fadista que faz do fado profissão de fé. Fados tradicionais, composições de José Mário Branco, José Luis Gordo, João Ferreira-Rosa e textos de Fernando Pessoa, Antero de Quental e Manuela de Freitas contribuem para a renovação de um género, com “espírito” e “sabor” próprios que vivem da “comunicação” e da “interpretação”.

PÚBLICO – O que fez no intervalo de dois anos entre o disco novo e o antigo?
CAMANÉ – Canto no Senhor Vinho. Entretanto, tenho feito espectáculos, no país e no estrangeiro, em festivais de música como o de Granada, na Holanda, em França, em Vigo...
P. – Prefere cantar numa casa de fado ou num desses espectáculos de maiores dimensões?
R. – É muito importante cantar-se o fado numa casa de fados. Há coisas que aprendo nos espectáculos, mas continuo a preferir as casas de fado. No fado não há escola; então, nas casas de fado, como tenho oportunidade de cantar lá quase todos os dias, vou descobrindo aspectos novos na forma de cantar.
P. – À semelhança do que aconteceu com o anterior “Uma Noite de Fado”, a produção volta a estar a cargo de José Mário Branco.
R. – Ele é uma pessoa muito musical que sabe separar muito bem as coisas. E sabe também que o fado é uma música espiritual. Uma maneira diferente de estar na música.
P. – Um dos temas, “Sopram ventos adversos”, da autoria de José Mário Branco e Manuela de Freitas, tem uma sonoridade diferente de todos os outros. É quase new age...
R. – Aí gostei muito da letra, como já tinha gostado de ouvir o tema no disco do José Mário, o “Ser Solidário”. Para o meu disco o José Mário fez um arranjo diferente para guitarra, viola e contrabaixo. Não é fado mas canto como se fosse, com a minha maneira normal de entoar.
P. – E o que é ser fadista?
R. – É uma maneira diferente de cantar a vida, a vida portuguesa. Não é uma coisa racional. Nunca me consegui sentir bem noutro tipo de música. O fado é a música que interiorizei desde miúdo, desde os dez anos. Conheço todos os fados tradicionais que existem, às vezes não me lembro dos nomes, mas basta dizerem-me a primeira frase para me vir a música. Estão cá dentro. Não me reconheço em mais lado nenhum a não ser no fado.
P. – Quis dizer alguma coisa quando escolheu para título do disco “Na Linha da Vida”?
R. – Este título surge na sequência de uma série de espectáculos que tinha feito no Inatel. “Na Linha da Vida” é na “linha do fado”.
P. – Linha da vida é também, na quiromancia, a linha do destino... Acredita na fatalidade?
R. – Acho que o destino somos nós que o fazemos diariamente, a forma como a gente vive no dia-a-dia, que se pode reflectir no futuro.
P. – É uma pessoa triste?
R. – Sou uma pessoa normal, nem muito triste nem muito alegre. Aliás, ou sou muito triste, ou sou muito alegre! O fado é falarmos da tristeza de uma forma que nos emociona. Aprendemos com isso; falar das coisas tristes é uma maneira de as deitar cá para fora, de exorcizá-las. É uma maneira de as pessoas crescerem.
P. – Nos tempos que correm, acha que o fado é uma música que toca nas gerações mais novas?
R. – Nas casas de fado onde canto vai muita gente nova. Muitas vezes só para curtir... Mas são as pessoas que há. Não tenho muitas ilusões quanto a isso. É o sítio onde é necessário haver gente nova a cantar, é mesmo o único sítio onde as pessoas novas podem começar a cantar fado. Mas sinto muitas vezes é que o fado deixou de fazer parte da vida das pessoas, as pessoas já não crescem com essa vontade, têm outras energias e se calhar querem ouvir outro tipo de música.
P. – Acha que um fadista como o Paulo Bragança segue pelo caminho certo, no sentido de levar o fado às gerações mais novas?
R. – O fado tem um espírito, um sabor que não se pode perder. Toda a emoção do fado é de dentro para fora. A maneira de cantar do Paulo para mim é fado. Tem a voz e a alma de um fadista.
P. – Fala-se na crise do fado. Não será melhor falar de uma crise de fadistas?
R. – Sim, não há fado sem fadistas. O fado vive da comunicação, da interpretação, da capacidade criativa das pessoas que o cantam. Há várias opções musicais quando se quer meter um texto numa melodia de fado; interessa é escolher o melhor caminho com coerência e com alma.
P. – Qual é o seu caminho?
R. – Escolher a partir da musicalidade das palavras, que são mais importantes do que tudo, mais importantes do que eu a cantar. É um processo que às vezes demora muito tempo. Os poemas da Manuela de Freitas, neste disco, são uma coisa complicada, descobrir o que é que liga e o que não liga. Interessa é que seja um processo natural. Não vou forçar as palavras numa música. Todo este disco já tinha sido cantado várias vezes nas casas de fado, embora talvez não tantas como eu gostaria, porque estive afastado delas durante algum tempo. Os fados que estão aqui gravados hoje já não os canto da mesma maneira.

11/05/2008

Numa casa de fado virtual [Camané]

POP ROCK

19 de Abril de 1995

Camané grava em condições inovadoras

NUMA CASA DE FADO VIRTUAL

Camané não poder ser considerado uma esperança do fado pela simples razão de que, aos 28 anos de idade, já leva 15 a cantar aquele género musical nas casas da especialidade. Vencedor, aos 12 anos, do Grande Noite do Fado, em 1979, filmado por uma cadeia japonesa para a série Crianças do Mundo, interrompeu a sua carreira entre os 14 e os 18 anos, para regressar mais tarde ao fado e às suas capelas, do Fado menor, Senhor Vinho e Faia. Projectos para discos, esse foram ficando na gaveta, entre as noites fadistas e participações na “Grande Noite”, “Maldita Cocaína” e “Cabaret”, de Filipe La Féria. Até que a oportunidade surgiu através do convite que lhe foi feito por José Mário Branco, para produzir o álbum de estreia. Uma ideia germinada a partir do quartel-general no Teatro da Comuna e que levou à edição de “Uma Noite de Fados”, com o selo EMI-Valentim de Carvalho.
“Uma Noite de Fados” pode ser considerado um disco revolucionário no modo como foi produzido. Para o efeito, foi criado o ambiente de uma casa de fados, com convidados, comida e bebida à discrição. Posteriormente foram apagados da fita todos os ruídos (palmas, incitamento, etc.) do público, preservando-se apenas a música, recortada do ambiente ao vivo. “O que se procurou foi obter um suplemento de riqueza de interpretação”, diz José Mário Branco, o produtor, para quem o “fado é uma arte extremamente presencial, dependente da vivência directa do ambiente e da qualidade do público”.
Por outro lado, justificando a posterior eliminação dos ruídos exteriores, José Mário Branco defende que “a envolvência – a luz, os cheiros, as reacções do público – não é mediatizável”. “Agi como um encenador”, diz, “como uma pessoa que vê e sente o espectáculo antes dos outros. Peguei no som, levei-o para casa numa caixinha de plástico, como se fosse uma bolacha, meti-o na minha aparelhagem doméstica e comecei a ouvir, nas mais diversas circunstâncias. Achei que pôr os aplausos seria um factor dispersivo, desviando do essencial que é a interpretação.” José Mário Branco conta, inclusive, que pediu previamente ao público para “ao contrário do que acontece nas casas de fado”, não aplaudir no fim”. “Fazia um sinal. No fim dos fados tinha um braço levantado, deixava a ressonância dos últimos acordes. Só quando baixava o braço é que podiam aplaudir. Foi uma ‘violência’ para o público, houve até pessoas que reagiram desagradadas, achando uma chatice não poder ser como é costume. Curiosamente, isto provocou um aumento dos aplausos, motivado pela tensão criada pelo intervalo de espera.”
Camané, por seu lado, não sentiu qualquer dificuldade em se integrar nesta situação, paredes-meias entre o natural e o artifício. “Foram quatro noites em que se foi criando um ambiente. Às tantas, já quase me esquecera que estava a gravar.” Quatro noites, ao longo das quais foram sendo efectuados vários “takes” do mesmo fado, seleccionando-se aqueles considerados melhores. Uma selecção que inclui, entre as diversas autorias, dos textos e da música, os nomes de Frederico de Brito, Luís de Camões, Carlos Mendes, João Fezas Vital, Joaquim Campos, Ruy Belo, Miguel Ramos, Vasco de Lima Couto, Aldina Duarte (mulher de Camané), Gabriel de Oliveira, Fernando Farinha, Paulo de Carvalho, Manuela de Freitas e o próprio José Mário Branco.
Para Camané, esta “noite de fados” poderá significar fazer chegar mais longe o seu fado. Como ele canta, nas palavras de Manuela de Freitas: “O fado que vou vivendo/no canto e no gesto mudo/é tudo o que não entendo/que me faz entender tudo.”
“Uma Noite de Fados” tem prevista uma forma original de promoção. Durante duas noites, ainda sem data marcada, Camané circulará por alguns dos lugares típicos – outros nem tanto – do fado, como a Tertúlia, Senhor Vinho, Frágil, Os Ferreiras, Taverna do Embuçado e o clube de fado S. João da Praça, havendo ainda a hipótese de uma escapada até ao Teatro da Comuna, para cantar durante o intervalo da sessão.

Camané - Uma Noite De Fados

POP ROCK

3 de Maio de 1995
álbuns portugueses

Camané
Uma Noite de Fados
EMI-VC

De tão simples, a ideia chega a espantar. Mas era preciso que alguém a pusesse em prática, e esse alguém tinha de ser José Mário Branco, mestre entre os mestres da produção. Gravar em estúdio como se fosse ao vivo ou vice-versa, eis a questão que se punha. A solução foi a criação de um cenário realista de uma casa de fados onde, ao mesmo tempo, fosse possível acontecer toda a emoção inerente ao fado cantado “in loco” nos sítios tradicionais e reunir as melhores condições técnicas da captação possíveis. Montado tal cenário, faltava saber se o fadista conseguiria tirar o máximo partido da situação. Ao desafio assim colocado pelo produtor respondeu Camané da melhor maneira. A garra do fadista veio ao de cima, com uma pureza despojada, afastadas as distracções, os fumos, os aplausos extemporâneos, as falhas que espreitam sempre que a emoção toma o freio nos dentes e a disciplina não lhe acompanha o passo. Excelentes o peso e a medida da voz e do sentimento de Camané em “Esquina da rua” (com algumas oscilações de volume pelo meio), “O espaço e o tempo”, “A saudade aconteceu”, “Fado da sina” e “Esta contínua saudade”. “Fado da tristeza” toca no fado-canção e em cantos antigos de um Carlos do Carmo, um toque em que é visível o dedo de José Mário Branco como compositor, enquanto “Saudades trago comigo” deixa adivinhar as condições de ambiente em que foi gravado. Em síntese, um projecto conseguido e inovador que volta a colocar o fado no lugar que lhe compete, na estreia em disco de um dos “veteranos” mais jovens do circuito. (7)