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07/05/2026

Universos paralelos [Harold Budd, Bill Frisell, Paco de Lucía]


PÚBLICO QUARTA-FEIRA, 23 OUTUBRO 1991 >> Pop Rock

 

UNIVERSOS PARALELOS

 

Harold Budd, Bill Frisell e Paco de Lucía vão estar entre nós. Um piano e duas guitarras. O silêncio, a cidade e o fogo. Três sensibilidades diferentes que apenas se encontram no gosto pela perfeição. Frisell traça Nova Iorque em papel quadriculado. De Lucía é a emoção à flor dos dedos. Budd respira o infinito. Fruir a música é também essa viagem entre a realidade e o sonho.

 

Uma imagem com texto, pessoa, homem, ar livre

Descrição gerada automaticamente

Uma imagem com texto, música, guitarra

Descrição gerada automaticamente

 

Não fora Brian Eno e poucos saberiam hoje quem é Harold Budd. Com efeito foi graças a um disco gravado e editado na série “Obscure”, de Eno, que o pianista fez chegar ao mundo as reverberações do silêncio. “The Pavillion of Dreams”, assim se chamava o disco. Título que diz tudo, ou quase. A imagem, esboçada pela fantasia, diz que há um pavilhão de vidro no meio do jardim. Dentro do pavilhão está um piano de cauda. Em cima do piano, talvez um ramo de violetas. Murchas. No exterior deve chover. E o sol, quando chegar, há-de trespassar as gotas de água e iluminar o piano abandonado.

 

Budd: superfícies polidas

 

Harold Budd começou por escrever poemas, “sem propósito algum”. Tal como a sua música. O piano de Harold Budd não conta história nenhuma, como faziam os românticos. A música está lá. Vale por si. Não aponta nem diz coisa alguma. Ela é essa coisa. O Zen ensina-nos que ser é o mesmo que estar. Está-se na música de Harold Budd, como num lugar. Seja qual for esse lugar: no cimo de um monte, no interior de um quarto ou num recanto da memória.

Uma vez o músico deu com uma monografia do pintor italiano Sandro Chia, com a seguinte legenda: “Uma luz desceu sobre a minha cabeça, como uma súbita madrugada.” A frase serviu de mote para o seu disco mais recente, “By the Dawn’s Early Light”, o único na sua discografia em que são utilizados textos, neste caso declamados.

Há quem fale de minimalismo, ao referir-se à obra deste pioneiro que fez parte da vanguarda californiana dos anos 60. De facto, é difícil chamar-lhe outra coisa se considerarmos obras como as que então compôs, como “Lirio”, um solo de gongo com a duração de 24 horas. Mais tarde, escreveu “Madrigals of the Rose Angels”, para harpa, percussão, violoncelo, luzes e um “coro feminino em ‘topless’” (devem ser vocalizações sem as oitavas superiores). Depois foi o encontro com Eno e a música que geralmente associamos ao seu nome: um “perpetuum mobile” harmónico, feito de cintilações de piano. Em paralelo, um universo extático, que ilumina as obsessões ficcionais de Erik Satie.

“The Plateaux of Mirror” e “The Pearl” (ambos com Brian Eno) orquestram o silêncio, depurando-o de todas as impurezas. São, como os títulos sugerem, espelho e pérola. Superfícies polidas que refletem interiores, o mar, o céu. Repare-se, entretanto, na beleza dos títulos, a que Budd dá a maior importância: “The Serpent in the quicksilver/Abandoned cities” (composto para várias instalações multimédia), “The Moon and the Melodies” (com Robin Guthrie e Elizabeth Fraser, dos Cocteau Twins), “Lovely Thunder”, “The White Arcades”. Escute-se a música das palavras. As sugestões que encerram. “By the Dawn’s Early Light” é mais sombrio, mas não menos belo. A beleza desta música está próxima do classicismo grego. No rigor e na exatidão das formas. Perfeição fria. Por isso, às vezes, assustadora. Harold Budd diz: “Desde muito novo que adoro música que entre diretamente pela veia jugular. E a arte que sabe ser extremista sem recorrer a truques.” No concerto português, tocará acompanhado do guitarrista Bill Nelson (dos Be Bop de Luxe à companhia de David Syvian, a distância percorrida) e do percussionista John Spence.

 

Frisell: o coração da paranóia

 

E, de súbito, o ruído do tráfego nova-iorquino, a vertigem da colmeia urbana, o movimento fracionado e luciferino. Bill Frisell habita no coração da paranóia mas sabe deitar água na fervura. Cresceu a ouvir B. B. King, Paul Butterfield e Buddy Guy. Cedo encontrou o jazz (e que os puristas perdoem a heresia...) na ECM, editora para a qual grava “In Line”, “Rambler” e “Lookout for Hope”, este último, mais que os anteriores, evidenciando um enorme ecletismo, através de incursões em áreas como o reggae ou o rock. Depois, troca a ECM pela Elektra Nonesuch, especializada na edição de “clássicos da vanguarda”. “Before We Were Born” e “Is That You?” são o resultado dessa mudança. Para muitos, este discos são geniais (a “Down Beat” considerou o segundo Álbum do Ano), para outros são simplesmente chatos. Talvez a designação mais apropriada seja “genialmente chato”. Bill Frisell foi “genialmente chato” nas duas vezes em que tocou em Portugal, integrado nos Naked City. Agora, à terceira, espera-se que não o seja de vez. Vem acompanhado de Joey Baron (outro Naked City, dos não chatos), na bateria, e de Kermit Driscoll (mais conhecido por “Cocas”, integra atualmente os President, de Wayne Horvitz).

Ao longe vibra uma guitarra flamejante. É Paco de Lucía, um dos expoentes da guitarra de flamenco, daqueles que parecem ter sete dedos em cada mão. O seu nome verdadeiro não é Paco, mas Francisco. Francisco Gomes, mais concretamente. Nasceu em Cádis, filho de família humilde. Pela folha de promoção fica-se a saber que “ser humilde em 1947, em Espanha e ainda por cima no Sul, significava que a vida não era fácil”. Hoje ser humilde implica uma vida mais fácil, talvez mesmo um certo “status”. Aprendeu a tocar guitarra com o pai. Parece que foi “duro”, “doloroso” e “difícil”. Mas valeu a pena. Paco de Lucía tornou-se um verdadeiro virtuoso. Hoje, faz o que quer da guitarra, arrancando-lhe sons que sabem a sangue, a rosas, a vinho, a vento, a bocas carnudas, a sapateado, a poeira levantada na estrada por “roulottes” ciganas, a castanholas, ao Sul, ao orgulho, à vida que pulsa nas veias, a morte, ao sangrar da alma à procura de altura, pelas cordas acima.

 

De Lucía: a alma à procura da altura

 

Paco de Lucía, também ele, cedeu ao jazz. Lado a lado com Chick Corea ou com John McLaughlin e Al Di Meola, em “Saturday Night in San Francisco” e “Passion, Grace and Fire”, este um “must” da guitarra acústica. A solo assina obras como “Fantasia Flamenca”, “El Duende Flamenco”, “Fuente e Caldal” e “Almoraine”. E uma homenagem ao mestre e ao flamenco em “Manuel de Falla”. Sem esquecer aquele que foi o seu maior êxito comercial, “Solo Quiero Caminar”. “Zyriab”, recentemente editado entre nós, é um exercício brilhante de flamenco-jazz, etéreo, fluindo com a intensidade de lava que escorre por dentro. Acompanham o guitarrista nesta sua deslocação ao nosso país Ramon Sanchez Gomez, seu irmão, também na guitarra, José Gomez, vocalista (irmão de Ramon e, por consequência, irmão de Francisco, aliás, Paco), Ruben Dantas, percussionista brasileiro, Carlos Benavente, no baixo, Jorge Pardo, saxes e flauta, e Manuel Soler, dançarino. Resta seguir a sua música, pela noite e pelo sol.

18/01/2009

Bill Frisell - Nashville

Pop Rock

14 Maio 1997
poprock

Bill Frisell
Nashville
NONESUCH, DISTRI. WARNER MUSIC

Por mais que tentemos detectar sinais de vida na música de Bill Frisell, não conseguimos. “Nashville” constituía, à partida, um pretexto excelente para o guitarrista mostrar que não é um animal de sangue frio. Debalde. Nesta aproximação à música country, gravada “in loco”, num dos seus locais sagrados, Nashville, nem a participação de Ron Block (dos excepcionais Union Station que acompanham Alison Krauss – atenção, que não morremos de amores pela country music) nem a inclusão de um tema de Neil Young, “One of these days”, conseguem tirar Frisell do seu laboratório de notas absolutamente limpas e exactas. A audição deste álbum servirá, porventura, para comprovar as palavras do crítico da revista “Jazz Times” quando se refere “à inabilidade inata de tocar uma nota supérflua” de Frisell, ou, segundo o “Minneapolis Star-Tribune”, a sua sonoridade “evocativa de uma ‘steel guitar’ solitária”, aqui, um pouco como nalguma música de Ry Cooder. Tudo aspectos formais, numa obra que conta ainda com os irritantes tiques vocais de Robin Holcomb e à qual continua a faltar a centelha de paixão. (6)

21/11/2008

Bill Frisell, Hermit Driscoll, Joey Baron

Pop Rock

1 de Novembro de 1995
Álbuns pop rock

Bill Frisell, Hermit Driscoll, Joey BaronLive
GRAMAVISION, DISTRI. MVM

Eis de regresso o velho Bill “bochechas” Frisell, de rosto irradiante de pureza. Mas não é bom guitarrista? É um óptimo guitarrista! Então e a música? Tecnicamente perfeita. Só? Pois é… Falta a este bom rapaz da “downtown” um coração, tripas, um esgar de mau humor. Ao vivo (já o vimos com Zorn, compenetrado nas suas matemáticas, enquanto o mestre vomitava no saxofone), neste caso, no teatro Lope de Vega, em Sevilha, nos Terceros Encuentros de Nueva Musica, pouco mudou no seu “approach” de técnico laboratorial que conhece todos os cantos da sua guitarra. Swing é palavra que não consta no vocabulário de Bill Frisell. Abstraccionista, falta-lhe a pulsão anarquista e convulsiva de um Elliott Sharp ou de um Christy Doran. Esteta, não tem a largueza de visão dos contemplativos da ECM como John Abercrombie ou Ralph Towner. Académico, embora encapotado, falta-lhe a polivalência de um Terje Rypdal ou de um Pat Metheny. “Live” poderia ser, ao menos, um espaço de comunicação e diálogo entre os três músicos, versão “power trio”, com o baixo de Driscoll e a bateria do pau para toda a obra que é Joey Baron, no contexto das “novas músicas”. Infelizmente, o estilo de Bill Frisell caracteriza-se pelo autismo. Os outros aguentam o barco, vão atrás e acrescentam os pormenores de esboços cuja articulação obedece, de forma absolutamente coerente, ao conceito “verbo de encher”. Frisell devia ter aprendido com Buster Keaton e passar a fazer música muda. (3)

26/07/2008

Bill Frisell - Music For The Films Of Buster Keaton: Go West; The High Sign & One Week

Pop Rock

8 de Fevereiro de 1995
álbuns poprock

Quinta do Bill

BILL FRISELL
Music for the Films of Buster Keaton: Go West (6)
Music for the Films of Buster Keaton: The High Sign & One Week
Elektra, distri. Warner Music

Bill Frisell é um nome importante da nova música nova-iorquina e em particular da cena “downtown”. Certo. Bill Frisell tocou com John Zorn. É verdade. E com Marianne Faithfull. Sim, sim. E com Madonna! Ah!? Tem discos gravados na ECM, um pouco chatos, mas… De Charles Ives a Hendrix, já passou um pouco de tudo pela sua guitarra. Sim senhor, até já tocou ao vivo em Portugal. Depois disto quem é que me vai perdoar por não gostar dele? Não se trata de uma daquelas embirrações irracionais a que vulgarmente se chama “ódios de estimação”. Também é um bocadinho isso, mas não só. Confesso que não vou a à bola com o seu ar certinho, de menino-prodígio que se tornou professor de guitarra. Sou da opinião de que não deviam deixar uma pessoa com o seu aspecto “clean” andar pela “downtown” – coisa de génios lunáticos –, embora conceda que possa haver excepções. O problema, a verdadeira incompatibilidade, está em que já ouvi vários discos do Bill e até à data, por mais que me esforçasse, não consegui gostar (ou será melhor dizer, aderir?) de nenhum. Este não é excepção. Bill é um tecnicista, disso não tenho dúvidas. Assim como os dois músicos que o acompanham neste projecto, Kermit Driscoll, no baixo, e o afamado Joey Baron, na bateria. Estas peças, repartidas por dois CD, compostas por encomenda da Academia das Artes de St. Ann, em Nova Iorque, para ilustrar curtas-metragens protagonizadas pelo mito do burlesco e do cinema mudo Buster Keaton, são neste aspecto exemplares. Mas, o tal mas fatal, fica-se com a impressão de que a música não vai a lado nenhum. Que não é carne nem peixe. Não diria que é música a metro, porque Frisell se preocupa ao milímetro em sacar ao seu instrumento fraseados que umas vezes invocam a violência agoniada de Hendrix e outras a fragmentação tímbrica de Fred Frith, mas evidenciando a cada instante a preocupação em fazer um som limpo e, para os meus ouvidos, morno. Mas é música que nunca mais pára de passar. As peças são quase todas curtas e isso lembra de imediato John Zorn, mas Bill, por muito rápido que seja – e não é, o seu discurso atira antes para o tortuoso e para a ruminação –, não consegue ser tão conciso nem sintético como o saxofonista. Sobretudo a “country” e os “blues” surgem como motivos fugazes, bem como certas referências à cançoneta, à bossa-nova, ao som ECM e ao próprio Zorn. Mas Bill mói e remói até ficar tudo uma pasta sem sabor. A Bill Frisell faltará talvez a focagem, a força de uma música verdadeiramente original. Sobra cérebro, mas falta coração. Neste caso, será por não termos as imagens? Rezam as crónicas que na estreia, em Nova Iorque, em que os músicos actuaram ao vivo por baixo do ecrã durante a projecção, o público gozou que nem um perdido. Por mim, suspeito de que continuo a preferir um Buster Keaton mudo.