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terça-feira, 27 de março de 2018

Proud Mary, por Carlos Antunes



Título original: Proud Mary
Realização: Babak Najafi
Argumento: John Stuart Newman, Christian Swegal, Steve Antin
Elenco: Taraji P. Henson, Billy Brown, Rade Serbedzija, Danny Glover


A intenção de Proud Mary é inscrever-se na linhagem do Blaxploitation. Não deixa espaço à dúvida, visto que logo no poster está a referência ao opressor the Man numa corruptela da letra dos Creedence Clearwater Revival.
Depressa se percebe que é o próprio filme a tratar de contradizer a tirada e as pretensões, visto que Mary não mata ao serviço de um "branco"
O problema de "brancos" do filme parece, na verdade, existir apenas nos três argumentistas que o criaram sem compreenderem a origem do que queriam imitar.
O início até se faz passar pelo que não é com a soul dos The Temptations e os gráficos dos anos 1970.
Só que, vinte anos depois de Tarantino - não sem problemas de apropriação - ter retirado a exploração da sexualidade às protagonistas femininas do Blaxpoitation e reforçado a força da mulher comum, Proud Mary vem retirar o que restava disso.
Em vez da independência, o filme serve um instinto de protecção que se caracteriza como maternal. O tipo de motivação que nem seria mencionado se este fosse um filme de protagonista masculino.
Num tempo de afirmação feminina - e afirmação nos filmes de acção - esta história é humilhante para as mulheres.
A montante disso é uma má história, cheia de linhas narrativas pelas quais há tal indiferença que não há qualquer tentativa de as amarrar no final
A protecção de um miúdo por uma assassina profissional é o tipo de história que só uma Gena Rowlands muito confiante conseguiu elevar. E mesmo aí foi necessário que um genial John Cassavetes - mesmo descrente - tivesse liderado a história.
Taraji P. Henson apenas consegue ser arrastada para o fundo desta poça de lama e perder de forma veloz o crédito que ganhou como Queenie e Cookie.
A sua Mary pouco mais faz do que ralhar com o miúdo e ser uma super-heroína na altura das cenas de acção.
Cenas de acção fracas. De tal forma fracas que é a própria equipa do filme a admiti-lo quando recorre a corredores (ilogicamente) mal iluminados para disfarçar a falta de habilidade coreográfica.
Nesse aspecto, sim, se pode dizer que o filme capta o espírito do Blaxpoitation. Sem investimento de monta tentou fazer dinheiro fácil.
Por isso o filme vive numa geografia sem sentido onde alguns chegam, a pé, mais depressa do que Mary ao volante de um Maserati.
Maserati do qual há uma quantidade abundante de cenas em que ele está a ser conduzido para lado nenhum. Mais do que product placement, é a forma que o realizador encontrou para esticar a duração do filme até à hora e meia.
Também isto pertence ao pior do Blaxpoitation, daquele que tentava cavalgar a onda sem ideias, onde - como aqui! - todos os personagens "negros" eram criminosos cheios de estilo, vendendo a imagem de uma vida que não abonava em favor da comunidade.
Nada neste filme justifica que Mary esteja orgulhosa. Não é Foxy Brown quem quer!




domingo, 27 de outubro de 2013

Semana em Crítica - 17 de Outubro



Frances Ha é um exemplo de um filme feito em referência a outros modelos - a Nouvelle Vague (e também a sua apropriação pela geração americana que inspirou) e Woody Allen - mas que encontra uma personalidade própria. Talvez porque, não sendo referências novas para Noah Baumbach, encontram-se modeladas a Greta Gerwig que parece reinvindicar uma menor dose de (de)pressão existencial interna. Jogando com a liberdade do único comando da história ser as mudanças de habitação que Frances tem de fazer, o filme aproxima-se de muitos géneros, para ser o estudo de uma personagem no momento em que tem de perceber o que significa ser adulta - e até mais independente do que adulta. Uma personagem que se confunde com uma forma de existência (artística) entre as dificuldades financeiras de Nova Iorque para quem a história terminará com uma nota de sucesso esperançado, que chega à custa da destruição dos sonhos originais. Comédia, sim, mas em que a alegria gerada traz sempre um travo amargo de contentamento. Great Gerwig faz para/de si mesma uma personagem empática, nem destacando o que tem de simpática nem apagando o que tem de antipática. Ela, mais a sua energia, tem sucesso em criar prazer com um filme que é quase uma memória - até no preto e branco tão conseguido - de outro grande cinema. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes





Um lamento pela ambiguidade perdida do título original, Prisoners, que fala de todos os protagonistas do filme, cada qual restringido por redomas reais ou imateriais que colocarão em causa a consciência que cada personagem - a par do público - tem de si própria e das restantes. O filme intensifica essa ambiguidade pela angústia que intensifica por cada uma das interpretações que mesmo na normalidade sugerem algo latente e muito errado. O casting é irrepreensível e os casos de Jake Gyllenhaal e Paul Dano são exemplares para como levar ao sucesso da sugestão uma interpretação no limite da caricatura (os tiques). Abatendo-se sobre elas está um ambiente obscuro e incerto, no qual cada cena se demora sempre uns instantes mais do que deveria (para agilizar o filme) que é o verdadeiro centro - talvez o verdadeiro protagonista - do filme. Se o final perde um pouco dessa ambiguidade para dar uma resolução à história, não deixa de ser um belíssimo exercício em psicologia humana motivado pela incerteza de um crime sem evidências, apenas suspeitas pessoais. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes





A promessa de um melodrama amoroso em torno da ilusão das classes sociais traz frescura ao início do filme de Agnès Jaoui, por partir da leitura dos contos de fadas no mundo moderno. Só que Au bout du conte não levanta voo em direcção a uma colagem irónica a esses mitos vendidos às crianças e às pessoas (sobretudo mulheres) que continuam a acreditar em historietas (de amor) quando deviam crescer. O filme vacila entre a colagem visual aos contos de fadas - que não deixam de ser essa premissa para serem matéria da história - e a infelicidade esperançada que marca a zona de conforto da realizadora. Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri parecem ter sido incapazes de conjugar a fantasia extravagante dos contos com aquele sentido realista - e psicanalítico - que o cinema de Jaoui tem. Algo estranho, visto que é deles o magnífico On connaît la chanson, mas que evidencia a importância do realizador sobre o argumento. Jaoui está comprometida com a dinâmica de fazer sempre variações sobre o seu primeiro filme, o que a limita e que tem vindo a fazer com que a sua obra perca força. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



O Último Elvis (2012), de 


Há muito em El último Elvis que remete para The Wrestler e que não é apenas pela trama central de um profissional ultrapassado (aqui é um imitador de Elvis, no filme de Aronofsky era um lutador de wrestling), que vive em relativa miséria, mas sempre com a esperança de feitos maiores. Tem a ver também com a forma como a câmara de Armando Bo - numa auspiciosa estreia na realização - olha para as personagens e para o seu contexto social, filmando o seu quotidiano como se da realidade se tratasse. E na verdade, o filme e a história da sua personagem principal é também essa dualidade entre ficção e realidade, ou melhor, quem vive a realidade mergulhado numa ideia ilusória ou de quem as confunde. O seu retrato psicológico - incrivelmente carregado pelo seu protagonista, o notável John McInerny - é o melhor que tem para oferecer, até porque a bem dizer não há muitos subcontextos a partilhar de uma história que tem um desenvolvimento clássico e linear (há até lugar a uma reaproximação entre pai e filha, como acontecia em The Wrestler, também uma conclusão esperada). Mas depois e à parte disso, deixa-se manter num espírito vago, com essa atmosfera meio irrealista (que é na verdade muito interessante), que acaba por não se desenvolver além de um certo maneirismo na abordagem do tema. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Há um plano magnífico em El último Elvis, quando o protagonista decide mudar de vida: ele atravessa uma espécie de labirinto feito com electrodomésticos lançados à lixeira. Parece um gigante cruzando as ruas de uma cidade cheia de arranha-céus, metáfora de um homem grande demais para a vida que leva. Este homem quer viver como o verdadeiro Elvis porque se sente herdeiro do seu dom. Nunca vemos isso como delírios de grandeza, apenas a fidelidade a um ídolo sem o qual nunca teria podido ser algo mais do que um trabalhador anónimo e um pai falhado. Pela imagem desse grande mito da cultura popular a história aborda as frustrações do homem comum, os planos adiados e os sonhos esmagados, particularmente tocante pelo grau de verdade que integra: o protagonista é um verdadeiro imitador de Elvis - e muito bom, acrescente-se - e usa fotografias da sua própria vida. A combinação destes elementos vai criando uma obra que consegue relacionar-se com o espectador pela via da emoção mesmo quando o seu lado cinematográfico vacila. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Uma Boa Dose de Sexo (2012), de 


Mark Ruffalo e Gwyneth Paltrow são maus actores. Podem ter feito filmes em que isso estava disfarçado, mas Thanks for Sharing é prova definitiva disso mesmo. O realizador não mostra que saiba fazer muito com a matéria-prima que são os seus actores, mas comparando o par protagonista com os restantes, só se pode concluir pela sua falta de talento. Os dois estão ao serviço de uma porção da história de humor e moral duvidosos que vão deteriorando o que parecia ser uma abordagem séria da adicção sexual. O filme cruza essa história com outras duas, lideradas por Tim Robbins e pela dupla Josh Gad e Alecia Moore/Pink. Ainda que melhores do que a história central, essas histórias conseguem fazer com que uma interpretação satisfatória de Tim Robbins se torne entediante e submeter Josh Gad a todo o tipo de humilhações para lá do razoável, fazendo com que o público se ria mesmo nos momentos dramáticos que ele protagoniza. Mesmo assim este consegue levar o papel com mais dignidade do que merece e torna-se, a par da surpresa que é Alecia Moore, no único elemento do filme a reter. Uma estrela½ Carlos Antunes



Machete Mata (2013), de 


Machete Kills parece ter sido feito como uma longa - e estúpida e chata - preparação para o filme seguinte, uma space trash opera à la Moonraker, do qual tivemos de ver o trailer no início e depois mais umas quantas cenas no final (certamente na tentativa de usar a repetição como ferramenta final do aborrecimento). O filme é genuinamente mau, já nem sequer por resvalar dos originais que inspiravam Robert Rodriguez, apenas porque está cheio de ideias que são lixo e porque recorre ao expediente da piada referencial ao estilo das piores comédias. Já nem a ideia da Mexploitation está aqui - a menos que se considere as máscaras de luchadores como tal -, isto é apenas uma desculpa para fazer dinheiro sem esforço algum. Podem continuar a dizer que é de propósito que Robert Rodriguez faz filmes assim tão maus, mas por mim acho que já há motivos para reatribuir o título que está há tanto tempo com Ed Wood. Tirando assistir a Bats in the Belfry, não há motivo para pagar bilhete por isto!  Carlos Antunes



Killing Season - Temporada de Caça (2013), de 


Apesar de querer ser um filme que vive à base do suposto talento de dois actores icónicos, como Robert De Niro e John Travolta, há um tom muito embaraçoso - para o realizador, actores e espectador - que permeia todo o filme. Primeiro porque o seu realizador (ainda não se percebe muito bem como continua ele a fazer filmes) não sabe sequer como trabalhar uma ideia, que por si só já não é propriamente original: a ideia da caça e a alteração de papeis, entre presa e predador, já foi vista mais que dezenas de vezes no cinema. Mas aqui a concepção é mais que medíocre, é sofrível, absolutamente olvidável e na verdade, muito difícil de levar a sério. Não há tensão, há muito por onde envergonhar, a começar por aqueles planos "simbólicos" (??) de águias a pairar no ar, como que a insistir por atenção. Uma estrela Tiago Ramos

Seria de pensar que depois de filmes tão maus quanto Daredevil, Ghost Rider e When in Rome, Mark Steven Johnson não tivesse o benefício de reunir num mesmo filme dois actores com a qualidade de De Niro e Travolta (mesmo se temos de admitir que as suas escolhas de papéis já foram muito melhores). Tendo ambos a seu cargo, o resultado é pior do que se suspeitava. A história ora coloca um dos actores a dominar o outro, ora inverte os papéis, nunca conseguindo criar tensão ou a ideia de um instinto de sobrevivência activo que comande o filme. O filme resume-se por aquilo que não é: nem filme de acção, nem thriller, nem drama entre dois actores de gabarito. Mas pelo sotaque de Travolta talvez tenhamos de concluir que Killing Season é uma comédia. Uma estrela Carlos Antunes



Códigos de Defesa (2013), de 


John Cusack sofre de um problema muito grave: a sua falta de personalidade e carisma que, a não ser em raros casos, o impossibilitam de conferir credibilidade às suas personagens e aos filmes que protagoniza. Códigos de Defesa é um desses casos em que o seu fraco trabalho em nada contribui para melhorar a experiência do filme se bem que, na verdade, a forma como o argumento trabalha a história e as suas personagens também não ajudam. E é pena porque apesar da sua previsibilidade narrativa, o filme poderia ter sido um interessante thriller, claustrofóbico e paranóico. Perde-se quase sempre, tirando um ou outro ponto de interesse. Uma estrela½ Tiago Ramos

Convocaram John Cusack para fazer, mais uma vez, o papel de assassino a braços com uma depressão, apenas sem o apoio da comédia como nos dois casos anteriores. Não só o sentimento de repetição se instala ao fim de alguns minutos de filme como a estafa do próprio papel parece ter apanhado o actor que passa pelo filme anonimamente. Está ao serviço de umas quantas cenas de acção que pretendem servir de prato forte a uma história que deveria basear-se na intriga da espionagem e dos códigos transmitidos de dentro das instalações em que a maioria do filme se passa. Para tornar tudo menos interessante, há ainda uma falta de química entre Cusack e Malin Akerman, sobretudo por culpa dela e da sua falta de empenho - e falta de algum talento mais. Uma estrela½ Carlos Antunes



O Martelo dos Deuses (2013), de 


A produção bem o tenta disfarçar, muitas vezes bem com a ajuda de magníficos cenários, mas este filme não passa de um série-B medieval. Por isso a história resume-se muito depressa: há um grupo de guerreiros que vai à procura de um outro que deve tornar-se seu rei, pelo caminho cruzando-se com adversários que devem matar. E assim vão, matando com o máximo sangue possível a saltar pelo ecrã, num estilo de filme - e de linguagem - mais apto a um filme de gangues violentos dos dias de hoje. Infelizmente o estilo não leva a qualquer ideia sobre gangues nos tempo medievais e o filme não tem nada para o público. Uma estrela Carlos Antunes


Se quisesse ser polémico, diria apenas que este filme apenas agradaria aos fãs de certas e determinadas produções televisivas do canal Starz. Mas como não quero ferir susceptibilidades, digo apenas que não percebo como é que trabalhos tão pobres continuam a chegar às nossas salas de cinema (a não ser pelo facto de serem comprados em "pacote" e trazerem uma obrigação contratual de exibição cinematográfica). Selvagem, violento e cheio de estilo, mas tão vazio de substância.  Tiago Ramos

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Semana em Crítica - 25 de Julho

Só Deus Perdoa (2013), de Nicolas Winding Refn


Só Deus Perdoa é aquilo que parece: um objecto formalista, preocupado com uma concepção visual e de composição de estilo muito forte. Adopta uma narrativa rasa (um de filme de vingança muito linear e superficial), com um fraco desenvolvimento narrativo, mesmo que proporcione personagens particularmente interessantes nem que seja do ponto de vista estilístico, como a interpretada por Kristin Scott Thomas (talvez o melhor do filme) e que transmite uma ideia de um curioso complexo de Jocasta. Não é nem de longe o melhor de Nicolas Winding Refn, mas é um produto corajoso e absolutamente estilizado, tão electrizante quanto fascinante. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Falar-se-á sempre do estilo de Only God Forgives como se a isso estivesse reduzido, mas há informação transmitida nas imagens. Sensorial e interpretativa, informação que constrói uma narrativa sobre o universo de onde vêm (e para onde vão) as personagens sem precisar de um narrativa preenchida, de diálogos expositivos ou de personagens complexificadas. Mesmo se, em certos momentos, o estilo vale mais do que o conteúdo das imagens, não deixa de ser uma fascinante exploração-limite da psicologia do masoquismo em que as personagens se encerram; disfarçada como um "filme de sensações" (Gaspar Noé tem um agradecimento no final dos créditos, mas a dedicatória de abertura vai para Alejandro Jodorowsky) que está tão em voga. O culto da imagem aqui visto - como já em Drive - caminha para a fazer valer por si mesma, um cinema a caminhar de volta ao mudo. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



The Wolverine (2013), de James Mangold


The Wolverine não pode escapar ao terceiro acto dos "filmes de super-heróis" em que combate uma grande máquina e prepara algumas hipóteses a serem exploradas nos próximos filmes. Até aí, em contrapartida, investe seriamente num drama sobre um personagem, sem o mero propósito de fechar um arco de acção para logo deixar outro em suspenso. Fá-lo sem desleixo para a componente de entretenimento que deve gerar mas sem abdicar do tom que o filme deve ter. Com James Mangold ao leme, a realização e a montagem são quase revolucionárias por serem tão ponderadas para um blockbuster de acção. Um investimento de duas horas na construção de um herói em vez de um mero rimbombar de acção (como era o péssimo X-Men Origins: Wolverine) mostrando que pode haver - tal como devia sempre ser - um pensamento a médio prazo neste tipo de sagas. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Paixões Proibidas (2013), de Anne Fontaine


O problema principal da realização de Anne Fontaine é um excesso desejo de compor cada imagem como se fosse um quadro, uma abordagem mais ou menos estilizada, com recurso a alguns slow motions e uma banda sonora melancólica que é transversal a todo o filme. Mas pega num interessantíssimo conto de Doris Lessing e explora-o sem nunca lhe atribuir julgamento (frequentemente sentimos a sensação que algo negativo vai acontecer, a eventualidade de um conflito, que raras vezes chega a acontecer efectivamente), apesar das complicações que o mundo social facilmente lhe impõe. Não é polémico como muitos afirmam, já que explora as convenções do melodrama de um modo absolutamente natural e sem ser exibicionista, pelo que o julgamento vem do espectador por si só (dependendo dos seus conceitos sociais e morais) e nunca do produto da realizador. Naomi Watts e Robin Wright (duas das actrizes mais notáveis da sua geração) fazem um trabalho incrível e comovente, simultaneamente forte e frágil, mesmo quando a narrativa proporciona alguns momentos desconcertantes, com as suas pequenas reviravoltas. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Um drama de enorme maturidade assente em temas que estão muito para lá da sexualidade mais ou menos expressiva dos corpos - e cuja expressão última poderia ter sido totalmente ignorada pelas imagens. Do tipo de relacionamento que se deve manter entre pais e filhos à inércia do conforto instalado, os temas conseguem colocar de lado a dúvida sobre se isto se passaria num universo realista em que os corpos não fossem todos esculturais - se eles são "jovens deuses" como diz a personagem de Robin Wright, elas são mulheres para lá do conceito de idade. O academismo de Anne Fontaine que costuma testar a paciência do público serve muito bem o filme, permitindo que Naomi Watts e Robin Wright tenham o tempo para se exprimir com as expressões e os gestos. São duas das melhores interpretações que veremos este ano e ajudam a substanciar a ideia de que, ao passar à língua inglesa, a realizadora reencontrou o fôlego que lhe faltava desde Nathalie.... Pena que os diálogos, sendo do mais arriscado que o filme tem, sejam encarados por boa parte do público com risos de quem continua desconfortável em encarar de frente os temas tratados. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



As Vidas de Arthur (2012), de Dante Ariola


Arthur Newman é um romance em modo road movie entre duas personagens danificadas por dentro e em vias de se consertarem uma à outra. O género de filme que o cinema indie (ou das franjas dos estúdios que recebem menores orçamentos) cristalizou e depois gastou. A diferença aqui estaria em Colin Firth, com uma personagem já longe da inconsciência livre dos anos da juventude, antes com a motivação opressiva da idade e das responsabilidades. Mas a personagem dele, em viagem, tem a mesma inconsciência do seu próprio passado que têm aqueles que ainda não viveram o suficiente para o criar. Aliás, é o abandono cruel e irreflectido desse passado que coloca as vidas de Arthur em andamento, mas o filme prefere torná-lo numa figura acarinhável em vez de lidar com a sua crueldade. A busca de viver vidas "alheias" como maneira de fugir à sua torna-se nada mais do que matéria para o filme se aproximar de uma comédia romântica em vez de um tratamento sincero da(s) personagem(ns) e dos seus problemas. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



A Malta e Eu (2012), de Michel Gondry


Depois de uma incursão pelos terrenos do blockbuster com The Green Hornet (2011), Michel Gondry regressa à originalidade e plasticidade que lhe são muito características. Com A Malta e Eu apresenta um magnífico exercício, de difícil definição quanto ao género (anda ali entre a ficção e o documentário), mas por exemplo bem mais próximo de um filme como Be Kind Rewind (2008), quando ligado ao seu contexto social. É um retrato de personagens ou pelo menos personagens-tipo, já que raramente entramos no terreno das individualidades, mas mais no do realismo social e atento às complexidades das figuras juvenis. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Um microcosmos onde toda a dinâmica do liceu pode estar encerrada e sob pressão, com esporádicas interacções com o exterior de si mesmo. Michel Gondry encontrou o confinamento perfeito para um drama da juventude em confronto com os outros e, depois, consigo mesma. Não se trata do "nós" e do "eu", mas do movimento do "nós" para o "eu" (até porque The I é o nome do capítulo final do filme), num percurso de isolamento que segue, naturalmente, as várias paragens do percurso do autocarro. Os estereótipos vão ganhando realidade e substância, negando uma redução do liceu a algumas expressões humanas estanques. Fica apenas uma impressão menos positiva, que o movimento do grupo para a individualidade a poder ser melhor urdido, sobretudo no que toca àquele primeiro capítulo, The Bullies, em que os comportamentos se repetem e que facilmente poderia ter sido unido ao seguinte, The Chaos. Até porque um percurso de autocarro de quase duas horas para chegar da escola a casa começa a parecer um exagero. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Porno Caseiro (2012), de Franck Gastambide


Há muitas opiniões sobre qual a nacionalidade europeia que tem o mais difícil humor de partilhar com o resto do continente, mas pela amostra de Porno Caseiro o humor (socialmente?) moderno Francês merece o prémio de ser absolutamente intraduzível. O que não impede que seja, também, execrável. Recorrendo ao básico e cultivando o nojento, o filme coloca umas figuras parelhas do Da Ali G Show a cumprir - ou a levar mais longe - os acontecimentos que The Hangover deixava para as fotografias, colocando de permeio uma qualquer forma absurda de comentário social. Quando até gags absolutamente racistas - uma mulher de burca vai contra um poste - são usados para preencher tempos mortos tem de se concluir que esta comédia nada tem de popular mas tem tudo de metencapto.  Carlos Antunes

Um daqueles filmes absolutamente terríveis, sem objectivo e que nem na sua aparente intenção de divertir é bem-sucedido. Com gags de mau gosto (onde nem a presença estereotipada de anões é dispensada) e um humor que tenta ser transgressivo, mas é apenas ridículo. Uma estrela Tiago Ramos