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sábado, 8 de fevereiro de 2020

Jojo Rabbit, por Eduardo Antunes


Título original: Jojo Rabbit (2019)
Realização: Taika Waititi
Argumento: Taika Waititi
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Taika Waititi, Archie Yates, Alfie Allen, Rebel Wilson

Hilariante, ternurento, dramático, comovente, o último filme de Taika Waititi não é de todo o filme que estejamos imediatamente à espera. Não é apenas o que esperamos já do realizador, no seu brilhante uso da comédia do absurdo que tanto o caracteriza. Suplanta as nossas superficiais expectativas para se tornar em algo verdadeiramente memorável e digno da maior das recomendações, em toda a honesta humanidade esparrameirada no argumento e encapsulada na caracterização dos seus protagonistas, de onde retiramos nós próprios o mais puro sentimento de afeição.

sábado, 5 de maio de 2018

Mariphasa, por Carlos Antunes



Título original: Mariphasa
Realização: Sandro Aguilar
Argumento: Sandro Aguilar
Elenco: António Júlio Duarte, Albano Jerónimo, Isabel Abreu


Em Mariphasa estamos perante um mundo onde não há um único cenário acolhedor. Por todo o lado estilhaços. Mesmo dentro de casa.
Estilhaços que começam no homem. Na face que abre o filme, amassada e cortada.
Através dela entramos num mundo feito de sombras onde os nossos olhos se tornam capazes de ver, obrigando-nos a ceder à evidência de que reconhecemos os instintos assustadores que estão logo para lá da luz.
E cada vez mais para cá da luz, o contraponto humano a essa escuridão. Luz artificial - na sua origem humana - e, por isso, insuficiente.
Pior, uma luz que é mais ameaçadora ainda do que a escuridão. Ilumina o mundo de tons inóspitos e cores doentias.
Sob essa luz todas as vidas no ecrã reforçam a sua perturbação, tensas na última fronteira - expressa pela cada vez menor diferença entre a luz e as sombras - que é a da mentalização da humanidade própria.
Neles há já crueldade, raiva, tensão e violência, mas expressas ainda dentro de certos limites. Limites indignos - serve-se vidro moído a um cão, sugere-se a alguém que se mate - mas limites que não assinalam
Pode-se destruir um carro abandonado ou violentar o próprio corpo em excesso de exercício, pode-se até assombrar os vizinhos com uma intrusão de intenções menos do que benévolas.
Só uma violência mais clara que obrigue (ou convença?) os outros à cedência das suas forças poderá levar à ruptura completa dos moldes de uma existência regulada.
Para quem se coloca perante o filme, essa cedência tem algo de colaboração. A partir de um certo momento não é mais possível desviar o olhar do mundo que Sandro Aguilar criou.
Aliás, não é mais possível desviar o nervo. O filme entranha-se e não se desprende da mente, percorrendo todas as sinapses disponíveis numa sugestão de realidade que extravasa o ecrã.
Muito disso passa pelo trabalho com o som, quase sempre mera insinuação, que com isso se torna inclemente.
O som cria a modorra, hipnótica e que fragiliza a capacidade para reagir com toda a força da consciência ao mundo que brutaliza tanto os seus personagens como as suas testemunhas.
A pequena quantidade de detalhes de narrativa que Sandro Aguilar dá permitem recriar um reconhecimento entre o mundo do ecrã e o mundo para lá da sala.
De tal forma reduzidos a um essencial que evitam abafar a experiência sensorial que está para lá de uma materialização de pontos comuns.
O realizador não quer que haja interferência na transmissão de que o que se está a passar, fá-lo na nossa mente. Por isso é realidade, como diz a criança ao acordar dum pesadelo.
O filme termina com a fluorescência da Mariphasa, a flor que impede que um homem se transforme em monstro (lobisomem).
Resta saber se há necessidade dela quando ser homem é, já de si, ser como o lobo. Brinca-se com uma máscara de lobo, deixa-se a caça ao alcance da mão, vive-se com os cães, vagueia-se pela noite fora, aprecia-se a destruição.
A Mariphasa é apenas a aspiração que se mitifica para crer na possibilidade de voltar a ser normal num mundo que tem novas dores capazes de nos transformar.
Nem a melancolia de Lee Hazlewood pode ensinar como antecipar a violência do que está para vir mesmo se nos avisa que The hurt I hurt is nothing like the hurts I've hurt before.




sábado, 7 de novembro de 2015

Review: Mr. Robot - Temporada 1

Por Joaquim da Silva.

«Do You Want The Truth or Something Beautiful?»

Século XXI. Evolução, tecnologia, comodidade. Computador, smartphone, robot de cozinha, redes sociais, plataformas digitais, interacções irreais. "Faz-me um like" : longe se vai o momento em que esta frase era uma simples paródia, para ser cada vez mais uma necessidade do ser humano. Escravos da reality TV, ligados nas hashtags e recebendo likes como se de vida se tratasse, enveredamos num mundo fabricado, ilusório, de realidade distorcida e do qual conhecemos muito pouco. O que será realmente que existe? Poderá um hacker salvar o mundo? E se sim, que mundo? O meu, o dele, o nosso?

Mr. Robot é uma ode à proeza heróica clássica, na sua forma mais primitiva, em contraste absolutamente directo com o ambiente da série. Elliot (Rami Malek) é um humano comum. Seja lá o que isso for. É uma pessoa que vive num bairro médio de Nova Iorque, tem um emprego medianamente remunerado numa empresa de segurança informática. E é aqui que se abre a porta para o desenrolar da história. Elliot vive perseguido por si mesmo, enrolado numa densa névoa de ansiedade social, paranóia e alguma loucura utópica, ao mesmo tempo que parece o mais lúcido e iluminado de todos nós, pois vê aquilo que realmente precisa ser visto: somos escravos de nós mesmos, e precisamos de ser libertos. Na sua cruzada por destruir E(vil) Corp, Elliot depara-se com a sua própria destruição: a morte do pai, que era a sua figura mais próxima, o isolamento afectivo, a descrença emocional e a fuga infrutífera ao sentimento que nutre por Angela (Portia Doubleday).

Quando tudo parece perdido, Elliot é recrutado por Mr. Robot, um homem cujo sonho é exterminar a dívida mundial e lançar o mundo num caos descontrolado, de forma a reorganizar a sociedade e mudar inevitavelmente o paradigma da experiência social e humana de todos aqueles que se propõe afectar. Dentro da organização de Mr. Robot, surge também Darlene (Carly Chaikin), uma figura igualmente perturbada, mas mais controlada que Elliot ou Mr. Robot

À medida que a narrativa segue o seu curso, vai-se desvendando a névoa que tolhe o pensamento de Elliot. Sempre que uma nova personagem é introduzida vivemos um aprofundar da dimensão do problema: no início pensa-se que o destino do mundo é circunscrito ao poder da E Corp. Contudo, torna-se perfeitamente claro que isso é só a ponta do metafórico iceberg de relações de poder e de dominação a que está sujeita a sociedade mundial. Alusões e referências agressivas à desmedida e  incontrolável influência do dinheiro, à proclamada força do sistema financeiro -  tão ou mais frágil que o próprio Elliot - são um dos pilares da história. Assim se desenha uma antítese metafórica fortíssima entre a necessidade emergente da acção e a nossa própria inércia enquanto agentes de mudança de uma sociedade desconstruída e em implosão anunciada.

Mr. Robot brinca seriamente com paralelos entre a ficção e a realidade: o crescendo das doenças psiquiátricas, na forma das perturbações de Darlene e de Elliot, com graus de seriedade crescentes entre um e outro, assim como a corrupção mundialmente aceite no tratamento dos dados informáticos, biométricos, financeiros, privados, secretos, intrínsecos de cada um de nós. É a invasão total do nosso ser. É a devassa das nossas ideias do que é o mundo, de que aquilo que se vê não corresponde ao que existe de facto. Numa última reviravolta, Elliot descobre qual a relação entre si e Mr. Robot, e porque foi escolhido especificamente como a peça fulcral no ataque ao mundo. Aquele humano comum que será afinal o super-herói. Ou será super-vilão? Mr. Robot, em busca da verdade. Mas qual delas?

«I am happy to deceive you».


P.S.: Mr. Robot tem cenas fortes, tocantes, chocantes, que desconstroem tudo o que estamos confortáveis que seja. Cada episódio é uma obra de arte visual, auditiva, sensitiva. Textos inteligentes, abertos. Fotografia impecável. Só é pena ter de se esperar por mais.

Mr. Robot (2015)
USA Network

Temporada 1

terça-feira, 17 de março de 2015

Citizenfour, por Tiago Ramos

  

Título original: Citizenfour (2014)
Realização:  

O ecrã preto e a voz off contextualiza-nos a gravidade da situação e os antecedentes da própria realizadora Laura Poitras que descobriu que o seu nome fora incluído numa lista de alerta máximo do Departamento de Segurança Nacional, como consequência de ter realizado dois documentários incómodos sobre a América pós-11 de Setembro: My Country My Country (2006), sobre o Iraque e The Oath, sobre o Iémen. Citizenfour é o culminar dessa trilogia e também o pseudónimo de Edward Snowden quando, em 2013, iniciou uma troca de e-mails encriptados com a documentarista, alegando ter na sua posse informação ultra-confidencial e de extrema gravidade, que poderia mudar o Mundo tal como o conhecemos. O documentário não é um glorificar da figura de Snowden como o grande herói contemporâneo e nem um discorrer acerca das consequências do seu acto. É antes um retrato de um homem aparentemente frágil e os momentos que antecederam a sua revelação ao grande público, elaborando um ponto de vista íntimo que tenta descodificar esta intrigante figura. A câmara concentra-se naquele quarto de hotel em Hong Kong com um registo quase paranóico e uma tensão rapidamente incutida ao espectador, que vive o filme como se de um thriller ficcionado se tratasse. Logo no início somos confrontados com um cenário que nos parece de terror e que tanto nos incomoda.

Mas Citizenfour é acima de tudo um filme com um grande valor histórico, sobretudo pela forma como documenta os bastidores de um momento extremamente importante da História recente. É um retrato de coragem e que levanta uma intrigante questão pessoal e social: a partir de que momento reconhecemos que queremos deixar de ser meros peões nas mãos da sociedade política? A partir de que momento nos dissociamos das nossas responsabilidades contratuais, para assumir uma responsabilidade social? Até que ponto devemos abdicar da nossa própria privacidade em favor de uma suposta paz? Até que ponto estamos dispostos a aceitar as consequências (também pessoais) de uma decisão tão fracturante?

Edward Snowden continua a ser uma figura por descortinar. Informante, "vendido" como espião, com sede de protagonismo. Mas não é bem isso que encontramos aqui. Estamos perante um homem jovem, ponderado, estranhamente culto e que responde com grande desenvoltura às questões de Laura e dos jornalistas Glenn Greenwald e Ewen MacAskill, apesar de afirmar muitas vezes o contrário. A documentarista também não nos dá uma visão pessoal acerca desta figura, mas deixa-nos tentar conhecê-lo através dos seus actos: quando a sua identidade é revelada, a sua cara encontra-se em todos os serviços noticiosos do Mundo e o telefone do quarto de hotel insiste em tocar, vemos um homem ao espelho muito mais preocupado com o seu cabelo que com as consequências dos seus actos. Este homem é um quebra-cabeças, com peças que faltam e outras difíceis de encaixar. Não o percebemos, mas estamos absortos no que ele nos transmite, estamos intrigadíssimos, estupefactos. Ainda existem pessoas assim? Que motivação é esta? Quem abdica assim da sua vida em prol de um sentido de justiça que nos parece surreal?

Laura Poitras capta tudo com uma tensão excitante, com um terror sempre subjacente, com uma paranóia constante (começamos a pensar: Devia desligar o telefone fixo da tomada? Devia passar a ter cuidado com o que pesquiso no Google? Não devia deixar qualquer aparelho electrónico quando saio de casa?), mas consegue transmiti-la com um fundamento. Não é nunca sensacionalista, trabalha com factos, discute um tema delicado e fá-lo com mérito. Termina com uma questão que deixa ao espectador: ainda há mais a descortinar? Há algo ainda maior que estes homens e mulheres que deram tudo pela verdade? No final, Glenn Greenwald fala com Edward Snowden acerca dos mais recente eventos, sem nunca verbalizar os dados mais importantes. Escreve num papel e rasga-o em pedaços pequenos. Apenas vemos as reacções de um e outro. Na mesa a câmara foca um pequeno pedaço de papel: lê-se POTUS (President of the United States). E o espectador fica sentado na cadeira, sem saber muito bem o que acabou de ver.


Classificação:

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Review: Transparent - Temporada 1

Por Joaquim da Silva.

Einstein dizia que tudo é relativo. Lavoisier dizia que nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E quando se relativiza a transformação ou se transforma a relatividade? Transparent é toda uma nova visão do mundo. Uma perspectiva vigorosamente refrescante e seriamente ligeira. É a mais poética e perfeita interpretação da essência do ser humano no mundo, da intrínseca simbiose ser/estar, é a personificação da ambiguidade existir/viver. Sinto, logo existo. E se sinto que não pertenço à existência?

Transparent levanta o véu ao complexíssimo plano da condição. Interroga o espectador sobre o que é ser, o que é viver, o que é preciso ser para existir, ao mesmo tempo que incide de forma acutilante nas relações familiares convencionalmente modernas. É como se de repente fosse possível reescrever a história, sem medo, sem tabus, sem preconceitos. 

Transparent  é de uma genialidade quase perfeita, uma obra quase prima. Da desconstrução da única palavra que dá o nome à série, surge logo o tema central, que muito dará que ver: Trans-parent, a história de um progenitor transexual. Transparent, aquilo que nenhum de nós gosta de assumir que gostaria de poder ser, numa representação a muitas cores do que almejamos que seja a preto e branco, simples e claro: nós. A infindável procura do eu é o mote para um conjunto de peripécias e leves dramas, que trarão à superfície tudo aquilo que, na verdade, nos impede de sermos transparentes.

Mort (Jeffrey Tambor), o pai sempre presente, o marido não tão perfeito, o homem por detrás do núcleo familiar central da trama, deixa de fingir ser o que não acha que é, e assume-se Maura, a sua verdadeira e há muito reprimida identidade, cujo maior desejo é poder ser transparente. Sarah (Amy Landecker) é a filha mais velha, heterossexualmente casada, mãe de dois filhos, que deixa o marido por Tammy, antiga paixão de faculdade. Sarah é também a primeira personagem principal a saber da decisão de Maura, e parece apoiar incondicionalmente, no entanto, transparece que é apenas uma forma de desviar a sua própria atenção da culpa e algum arrependimento que sente de si mesma, por ter destruído o seu lar. Josh (Jay Duplass), o filho bem sucedido e mulherengo, com uma vida cheia de sucessos e balões de aplausos, é no entanto um homem que vide num constante medo da solidão, que mascara com a sua colecção de conquistas fáceis, e é também o último a saber da transição na vida de Maura, e o que descobre da pior forma, pois é a irmã Ali (Gaby Hoffmann), que não consegue conter-se. Aliás, Ali é a hipérbole dos excessos, desde a sua fácil associação a vícios, como a dificuldade de relacionamento com os outros, o seu crónico desemprego e consequente dependência financeira do pai, culminando nos seus extravagantes e explícitos devaneios sexuais. No elenco principal figura ainda a sempre excepcional Judith Light, que dá vida a Shelly, a ex-esposa de Maura e mãe de Sarah, Josh e Ali.

Transparent é uma mistura de personalidades, de atitudes e de visões. A perspectiva de cada um funde-se com a do espectador, numa tentativa de ligação emocional entre o drama das personagens e o mundo real, através da construção de um paralelismo absorvente e fascinante entre eles, os Pfefferman, e nós, os humanos que todos somos. Trata ainda de desmistificar a transexualidade, de dar uma nova abordagem a um dos mais quentes temas políticos do momento, os direitos LGBT. Contudo, Transparent evita a associação a qualquer estereótipo LGBT e prefere dar a sua opinião sobre um tema muito mais importante e globalizante, o mais básico e imprescindível direito humano: a liberdade. De género, de expressão, de religião. E o choque entre o direito à liberdade individual e a não interferência na liberdade alheia. É essa fina linha que define a série: até que ponto somos realmente livres de sermos transparentes? Em suma, é sem dúvida uma das melhores séries do momento. Inovadora, refrescante, inteligente, que certamente irá expandir horizontes e desmarcar fronteiras, que belisca os limites e a própria concepção de limite. É inclusiva, vincadamente focada nos contornos do crescimento da mentalidade e na destruição de tabus, está certamente destinada a ser vista e vivida como um dos pontos altos da indústria em 2014.

P.S.: Apesar de todo o elenco desempenhar os seus papéis de forma brilhante, destaque enorme para Judith Light e Gaby Hoffmann. A primeira pelo extraordinário uso que faz da expressividade da linguagem corporal e a segunda pela imensa profundidade e genuinidade que imprime à sociopatia de Ali, que quase faz acreditar que não é encenado. Parabéns.


Transparent (2014)
Amazon

Temporada 1

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Boyhood: Momentos de Uma Vida, por Tiago Ramos


Título original: Boyhood (2014)
Realização: Richard Linklater

À medida que o passa-a-palavra em relação a Boyhood ia aumentando, crescia também com ele o epíteto de inovador. Foram doze anos a filmar pequenos excertos, uma vez por ano, com os mesmos actores. Sem grandes alaridos, sem pré-aviso. Apenas isso. Dois actores já reconhecidos (sem qualquer contrato assinado), duas crianças de sete anos, uma delas filha do próprio realizador, juntam-se todos os anos e filmam. Filma-se a vida daquelas personagens por doze anos, ficciona-se a sua história, mas simultaneamente assiste-se ao seu envelhecimento real, ao seu crescimento físico e às alterações da sociedade em que estes se inserem. Têm o seu quê de inovador, é verdade. Pouco usual, pelo menos. Mas é sobretudo comovente assistir ao compromisso e envolvimento desta equipa num projecto que poderia nunca ter visto a luz do dia. Comovente porque o que se filma ali não é nada de extraordinário, surpreendente ou original, não são grandes momentos ou eventos. O que se vê ali é a vida, a nossa vida, o espelho do vida, a passagem do tempo. São os pequenos momentos do crescimento de Mason, mas são também os nossos. É aquela conversa com a mãe, aquela brincadeira com amigos nas traseiras do quintal, a primeira cerveja, um banal pôr do sol, um ou outro conflito, alguma situação definidora da vida, um divórcio, um padrasto, a mãe empenhada, as brigas com a irmã, as próprias dúvidas, as mudanças.

Este cinema de Richard Linklater tem a mesma ligeireza e assombrosa banalidade com que nos presenteou na sua trilogia Before. São pedaços do crescimento, momentos de uma vida (como diz o subtítulo nacional) que nunca se absorvem em si mesmos, que conseguem também recuperar - mas sempre de uma forma suave e natural - temas filosóficos, sociais e políticos, alguns deles fracturantes, da mesma forma com que o comum mortal os aborda e os discute no seu dia a dia. Emocionalmente intuitivo, não necessita de se focar nos clichés do crescimento e do coming out, mesmo sendo curiosamente um filme sobre o tema. O que vemos ali é a actualidade do momento, referências que o espectador se recorda como tendo definido determinado ano, cultural ou politicamente, e que é apresentado delicadamente, sem o atirar ao espectador: desde o lançamento do livro Harry Potter and the Half-Blood Prince, à campanha do Obama, ao Dragon Ball Z, passando pela Nintendo Wii, pela banda sonora (desde Britney Spears, passando por Coldplay, até Vampire Weekend). Tudo ao ritmo da vida, com uma extraordinária montagem de Sandra Adair, que permite que um conjunto de episódios quotidianos soe extraordinariamente coeso.

Ellar Coltrane é o elemento que liga tudo isto. Uma criança que cresce perante os nossos olhos, de uma forma tão orgânica, um jovem que é mais apenas um jovem do que um actor. O seu trabalho é ímpar e natural, conjugado pela presença de dois veteranos como Patricia Arquette (provavelmente o melhor papel da sua carreira) e Ethan Hawke (um desempenho bastante maduro). São estes actores (ou é uma família real?) que fazem de Boyhood o filme que é: desarmante, emocional, natural. Tão honesto como a própria vida.


Classificação:

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

E Agora? Lembra-me, por Tiago Ramos


Título original: E Agora? Lembra-me (2013)
Realização: Joaquim Pinto

O primeiro plano adverte de imediato o espectador. Não estamos perante um documentário didáctico num qualquer regime de perguntas e respostas: um plano aproximado foca-se numa lesma e na sua locomoção lenta, um momento banal. A vida, portanto. Joaquim Pinto revela-se perante a câmara com uma sensibilidade e humildade notáveis e antecipa-se perante o espectador: estamos perante um diário, um caderno de notas de um ano da sua vida, enquanto inicia um longo tratamento experimental para o VIH. É portanto um registo por vezes (quase) desconexo, pontual, em jeito de apontamento e ainda assim, surpreendentemente comovente e poético, expondo a fragilidade da vida tão a cru. É por isso que E Agora? Lembra-me é também um registo de amor. Um amor entre Joaquim e Nuno - belíssima cena de sexo a desdenhar quem diz que não se consegue filmar o Amor entre um casal - um amor pelos seus cães, pela terra, pela vida. "Lembra-me", diz o título. E se quisermos podemos olhar para este registo como uma reflexão sobre a memória, a percepção da vida, as doenças e o mundo global, a sobrevivência e a dor. A fazer lembrar que ainda se sofre - e muito - pelas consequências do VHC e do VIH; a fazer recordar a universalidade do Amor, sem nunca ser também panfletário. «Tenho de querer para crer. Tenho de crer para crer».

Um filme que obriga a parar e a reflectir. "E agora?". A religião, a política, a ciência. Sempre os mesmos temas e a passagem do tempo. «Inverno e Primavera sem chuva, um Verão que se anuncia quente. Acções que se repetem: cada dia e cada repetição são diferentes». Joaquim vai oscilando entre o medo de definhar e a consciência do destino certo da morte (e como tal da fragilidade da vida), com a esperança que, em breve, os vírus do VHC e do VIH, não sejam mais do que meras marcas do passado no genoma humano. E nós, espectadores, e agora? A nós resta-nos um dos filmes portugueses mais marcantes do século XXI, resta-nos a fragilidade da nossa vida, espelhada na vida de Joaquim e de Nuno, da necessidade do Amor, na superação diária, do desfrutar dos pequenos momentos do quotidiano, de nos mantermos vivos por nós e por quem amamos. Não é um testamento, não é um epitáfio. É uma confissão, um testemunho da vida e um evento cinematográfico.


Classificação:

quinta-feira, 27 de março de 2014

O Congresso, por Tiago Ramos


Título original: The Congress (2013)
Realização: Ari Folman

Há uma cena absolutamente incrível em O Congresso e que tem, simultaneamente, tudo e nada a ver com o tema principal desta fábula futurista (será tão futurista assim?). Forçada a render-se perante as evidências de uma sociedade e indústria que não lhe presta mais atenção - foi obrigada a chegar-se para o lado e dar espaço a qualquer outra nova estrela - temos uma Robin Wright a fazer de (ser?) Robin Wright. A dar tudo de si enquanto actriz e pessoa, a entregar a sua alma, só com a sua expressão facial, a entregar-se perante um scanner majestosamente impressionante, repleto de luzes e sons, a retirar a máscara da máscara. A deixar-se ser. Uma Robin Wright que cometeu decisões erradas na vida (não cometemos todos?) e a enfrentar as suas consequências. Uma actriz a fazer de actriz, mas estarrecedoramente tão despida, a soar tão frágil e tão verdadeira, que nos fazer querer também que ela pudesse entregar-se assim em todos os filmes (e que lho permitissem mais também). E se nesta impressionante cena temos todas as desilusões da vida (dela e da nossa) ali espelhadas, na seca e crua constatação da verdade, depressa o filme vai caminhando para uma realidade (animada) virtual, curiosamente com uma semelhança acentuada com a realidade que conhecemos.

O filme, esse, é de certo modo inclassificável. É um objecto desconcertante, surreal, onírico, psicadélico e alucinado. Mas nem por isso menos desligado da nossa realidade. Um jogo de espelhos e realidades, uma espécie de Matrix em fase de pré-criação, uma constatação da facilidade (ou ser-nos-á imposto?) com que abdicamos da nossa identidade para sermos a identidade de todos ou de quem nos controla. Para sermos a identidade que querem que sejamos. Escrito nos anos 70, o livro em que este filme se baseia (Kongres futurlogiczny, Stanislaw Lem) não está assim tão distante da imagem que temos agora em pleno em século XXI. Daí que, apesar da dimensão absurda e satírica, nos consigamos relacionar tão bem com um filme que retrata o momento em que todos, enquanto seres que constituem uma sociedade, nos deixamos (re)criar por um mundo, interiormente, tão decadente. Demasiado trágico e desiludo para uns, francamente honesto e real para outros. Ari Folman entrega-se pessoalmente a um projecto surpreendente e magicamente estarrecedor, tão sublimado pela estonteante banda sonora de Max RichterO Congresso não deixará certamente ninguém indiferente, porque o filme é feito sobretudo para incomodar. A uma indústria deslumbrada pelo glamour, a uma sociedade adormecida nessa falsa luz, a um espectador que se deixa irradiar por isso. Incomoda-nos a nós porque talvez nos vejamos ali ou porque talvez nos assustemos com esta profecia globalizada. Talvez seja este o mais fascinante filme do ano.


Classificação:

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

12 Anos Escravo, por Tiago Ramos


Título original: 12 Years A Slave (2013)
Realização: Steve McQueen

Quando ainda há bem pouco tempo se falava de Lincoln e Django Unchained como dois importantes retratos (embora um mais focado que o outro) da escravidão nos Estados Unidos, talvez se estivesse longe de imaginar o portento que chegaria quase um ano mais tarde. 12 Years A Slave está longe do formalismo do filme de Steven Spielberg ou ainda mais da piada do filme de Quentin Tarantino. Aqui não há margem para concessões: o tema é ultra-sério, a dor é real, o que vamos sentir é devastador. Logo o plano inicial revela: não há dúvidas, a escravidão existe. A câmara move-se com a subtileza e virtuosismo suficientes para nos surpreendermos com articulação impressionante entre as pretensões artísticas de Steve McQueen, a forma como compõe a imagem e a forma como transmite a emoção das personagens. É a poesia da imagem que torna tudo ainda mais devastador: a emoção é real, como também o é a dor.

Tal como em Hunger e Shame, também 12 Years A Slave retrata a força de um corpo como prisão. É no corpo daquele homem, Solomon Northup, que se vai sentir a imensidão esmagadora do mal que o homem provoca a outros. É também no corpo daquele homem e sobretudo no soberbo desempenho de Chiwetel Ejiofor que vamos perceber que há mais aqui do que dor e agonia, que há mais do aquelas aquelas espantosas e horrendas cenas de castigo físico - onde a dor se faz anunciar, se faz sentir e onde perdura. Há no olhar daquele actor a força da submissão e da injustiça, o poder de estilhaçar o coração do espectador e de proporcionar estupefacção e descrença no Homem enquanto ser social. Há mais ali - e também na intenção do cineasta - do que a vontade de querer retratar o atrozes actos cometidos contra a raça negra nos Estados Unidos. Não é uma intenção meramente histórica, há algo muito mais profundo do que a mera revelação de um sistema moralmente corrompido, da denúncia do sangue derramado, da carne infligida. Steve McQueen não traz a questão da raça à tona, não é uma questão de racismo, é uma questão de maldade.

McQueen melhora a sua destreza por conseguir utilizar (ainda melhor) os recursos técnicos que tem à sua disposição - aqui à escala de um orçamento maior. Fá-lo por potenciar a intensidade de cada cena, não só pelo olhar humano que dá à sua lente, mas por permitir que as componentes técnicas nunca se sobreponham ao que pretende, mas sim que complementem. Isso acontece por intermédio da montagem e da justaposição constante de eventos  - imagem e som - mesmo que divergentes. Acontece pelo modo como permite que a banda sonora de Hans Zimmer seja um prolongamento do sentimento dos protagonistas, pela forma como dá espaço para escutar o vento nos campos de algodão, para ouvir as vergastadas no ar, as chibatadas na carne, o som da dor. Acontece pelo modo como permite que a direcção de fotografia de Sean Bobbitt seja tão infernal e horrenda (pelos eventos que revela), como dotada de uma rara beleza. 

E se Chiwetel Ejiofor demonstra um brilhantismo praticamente inigualável, não há que esquecer todo o excelente elenco - um dos melhores castings dos últimos anos. Lupita Nyong'o à cabeça, essa estonteante descoberta, que só uma única cena (momento inevitavelmente devastador em que faz um pedido a Solomon) consegue não deixar margem a mais ninguém para duvidar do seu talento. Uma interpretação não só física - permanecerá na memória por muito tempo a forma como cruel como é retratada - mas também profundamente desesperançada. Paul Dano (a provar que é um dos mais subvalorizados actores de sempre), Adepero Oduye (aquele choro é difícil de esquecer), Michael Fassbender (assustadoramente real) e Sarah Paulson (notável e cínica surpresa) complementam ainda o rol de talento que é esbanjado - é a palavra - à frente da câmara.

12 Anos Escravo permanecerá na História. Não é só um filme sobre a incrível e desconcertante jornada de um homem. É a história da injustiça e não só a demonstração do racismo e da escravidão. É a história da brutalidade humana, mas também a forma como a sociedade aceita como correcto aquilo que lhes é imposto, a história de como a sociedade é subversiva, como o Homem é manipulável. É uma poderosa contribuição para nós espectadores e para a Humanidade: é esmagador.

Crítica possível através de um screener gentilmente cedido pela Fox Searchlight Pictures.

Classificação:

domingo, 22 de dezembro de 2013

A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, por Tiago Ramos


Título original: La vie d'Adèle: Chapitres 1 et 2 (2013)
Realização: Abdellatif Kechiche

Abdellatif Kechiche filma as suas personagens como uma proximidade daquilo que conhecemos como realidade. Uma jovem adolescente sai de casa, gorro na cabeça, estrada a baixo, corre para apanhar o autocarro que a levará em direcção à escola, o cabelo desgrenhado, as faces coradas. "Je suis femme"; lê-se La vie de Marianne, de Marivaux. Está dado o mote. Adèle não é ainda uma mulher, mas vai crescer sob o nosso olhar. A câmara segue-a, vemo-la a dormir, as suas faces a corar, o seu cabelo desgrenhado (filmado como uma personagem), a comer bolonhesa de forma gulosa, a gordura nos lábios, a lamber os dedos. Criança ainda, cora quando se fala em rapazes, come chocolates enquanto chora, é tímida, frequentemente constrangida. A verdadeira vida de Adèle começa aqui, connosco a sermos testemunhas do seu crescimento, companheiros da sua vida, frustrações, alegrias e descobertas. Adèle descobre a sua sexualidade, tentativa e erro, segue a ordem natural da descoberta, descobre-se a si mesma e nós espectadores descobrimo-la também.

O azul predomina desde o início: nas paredes do quarto, nos lençóis, na camisola e nos brincos que usa. A cor que faz parte da vida de Adèle e aquela que se descobre ser a mais quente. Não é de admirar então que seja essa cor que a fará virar a cabeça, apaixonar-se, descobrir-se, crescer e viver. O realizador sempre com planos apertados, aproximados, deixa-nos sentir a pele das protagonistas - assombrosas nas suas criações, porque são verdade, são reais, são genuínas. São nossas e aprisionam-nos, fazem-nos sentir o que lhes passa pelo olhar. Sobretudo Adèle Exarchopoulos, descoberta extraordinária, capaz de nos fazer corar com ela, de chorar connosco, de nos hipnotizar com os cabelos ao vento, com a luz a bater-lhe no rosto. Capaz de conter em si todas as emoções e sensações do mundo. De as fazer transparecer, de uma forma raras vezes vista no cinema. Nunca somos voyeurs forçados daquela vida, da sua vida. Porque aquilo que Kechiche e as actrizes fazem é tornar-nos parte daquela vida, é sentirmos o mesmo, é querermos comer aquela bolonhesa e sujarmos a boca, comer um doner kebab de bochechas cheias. É sentirmos aquele amor, aquele sexo, a união daqueles corpos. Aquele sexo, aquelas longas cenas - belamente filmadas, diga-se - são na verdade muito íntimas, muito intensas. Mas não são mais íntimas que assistirmos a uma ruptura, a uma discussão, ao seu sono, à forma como sorve uma ostra. Não são mais íntimas que a vida que se nos interioriza como nossa. São orgânicas, são parte da vida. Não é só o sexo que é explícito, são também os sentimentos que Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux encerram nos seus rostos e corpos.

A Vida de Adèle é uma história de amor. É uma história de vida. Uma vida que podia ser nossa, que se torna nossa e que tem a extraordinária capacidade de fazer o espectador apaixonar-se por uma personagem que não é real. Mas que se torna. É por isso que a sua dança na festa de aniversário, aos dezoito anos, ainda ecoará na nossa cabeça: «I follow you deep sea baby. I follow, I follow you». E nós ficamos ali a querer seguir aquela vida, aquela Adèle que queremos que seja também nossa, mas que se afasta lentamente, com o seu vestido, de cor azul, e vemo-la partir, ao longe. 


Classificação:

domingo, 15 de dezembro de 2013

O Desconhecido do Lago, por Tiago Ramos


Título original: L'inconnu du lac (2013)
Realização: Alain Guiraudie

A primeira cena entrega-nos logo um magnífico plano que se repetirá ao longo do filme. Um esquema de repetição de planos e eventos, criando uma rotina visualmente geométrica, num jogo de manobras e contra-manobras que Alain Guiraudie orquestra, sentando o espectador de frente para o lago onde se passará toda a acção. Ao seu lado, uma personagem, à margem (do rio e dos restantes homens que por ali deambulam), observa o horizonte, tímido, barrigudo e que por ali ocupa as tardes. É ele o desconhecido que o título nos introduz? É o outro homem, mais novo, mais magro e mais despreocupado, que por ali também passa as tardes e que com ele trava amizade? Ou são todos os outros que ali vão para o engate, para aquele lago - também ele uma personagem - ocupar o seu tempo, procurar sexo, observá-lo? A câmara move-se rotineira: chegada ao parque de estacionamento, descida até à praia, cumprimenta-se os amigos, os conhecidos, os engates, conversa-se, procura-se engate, sexo (com ou sem preservativo), procura-se intensidade, um corpo, o suor, colmata-se o desejo naquele chão, naquele bosque, com lixo, com mosquitos, com homens, encerra-se o dia, regressa-se ao parque de estacionamento. Guiraudie coreografa. Os eventos sucedem-se, os dias passam, consecutivos, e nós frequentemente de frente para o lago. Sentados, ouve-se o som do lago, da água, dos nadadores, o vento nas folhas, o calor nos corpos desnudos, nos sexos.

É nesse esquema que O Desconhecido do Lago tão genialmente nos introduz numa história de sexo, amizade, paixão, amor, ilusão e morte. Uma história que tão subtilmente se aproveita do olhar voyeurista (das personagens e do espectador) para criar uma tensão e suspense crescentes, adicionando um tom de mistério que apenas se vai intensificando, ocupando o olhar e a mente do espectador, até um ponto sem retorno. Um olhar nosso e do realizador que apesar de aparentar ser sobretudo físico, é quase tudo e pouco isso: há muito ali de reflexo de uma comunidade, de uma sociedade inclusive, reflexo da vida, de nós enquanto seres emocionais e sexuais, da uma inteligência e assertividade brilhantes. Um filme que evoluiu para um thriller psicossexual, numa fase final quase de género, de terror mesmo, mas mergulhado também numa clara ironia e crítica, contemplativo, proibido, sinuoso, mas muito geométrico. As personagens sucedem-se e as suas interacções repetem-se, sequencialmente, os dias passam-se. A tensão cresce, o lago permanece, observador, tal como o espectador, voyeur, escondido na vegetação alta. E depois talvez respondamos à questão e nos apercebamos que o desconhecido do lago talvez sejamos nós próprios.


Classificação:

domingo, 1 de dezembro de 2013

Semana em Crítica - 14 de Novembro

Vénus de Vison (2013), de Roman Polanski


Cineasta obsessivo e incrivelmente inteligente na forma como conduz o seu trabalho, Roman Polanski consegue mais uma vez capitalizar o poder do espaço numa narrativa neste Vénus de Vison, como já tinha feito recentemente em The Ghost Writer (2010) e Carnage (2011). Aqui assume um lado ainda mais teatral, iniciando um complexo e satírico jogo de espelhos, com uma peça de teatro, dentro de uma peça de teatro, dentro de um filme. Sob o olhar atento e cuidado do cineasta, o filme multiplica os seus simbolismos para fora da tela, com as inúmeras ligações que o espectador poderá fazer à vida pessoal do realizador (curiosa ainda a presença da sua esposa na vida real, Emmanuelle Seigner, como protagonista, numa soberba interpretação. Um filme em constante mutação que peca apenas pelo seu final moralista e forçado. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

La Vénus à la fourrure segue-se a Carnage como aprofundamento das hipóteses ainda inexploradas da mise en scène, por via do teatro - neste caso, pelo espaço de encenação para além do texto de origem. Um filme que assume pela imagem a comunhão entre a realidade e a ficção e o papel que o observador tem nos "resultados" de ambos - o que, por extensão, fala da manipulação/criação. Um trabalho de máscaras em mutação que falam da profundidade da alma humana, pelo sexo como sintoma da instabilidade emocional (e pessoal) submetida a um controlo racional (e colectiva). Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



A Mentira de Armstrong (2013), de Alex Gibney


Uma obra documental que parecia vir a ser uma história sobre a intimidade de Lance Armstrong e que, pelas circunstâncias surgidas a meio da sua pós-produção, se transformou num dos documentos de maior acesso a um desenrolar de acontecimentos que acabariam por marcar a consciência da época. Um documentário acidental quanto à forma final, mas bem conduzido a partir do momento em que ganha consciência da falsidade do seu próprio fascínio com o ciclista. Fica como um retrato das ilusões mediáticas do mundo actual e de como os desejos da multidão por um herói acabam por o transformar numa figura vilanesca repleta de um poder dado por quem com ele foi conivente. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Any Day Now: Talvez Um Dia (2012), de Travis Fine


De uma história verídica (e importantíssima de recordar pelo seu valor social) parte-se aqui para um filme que perde pela forma pouco subtil como propagandeia a sua intenção. Por mais honrosos que sejam os temas que aborda, a forma como por vezes se torna um estandarte demasiado evidente, prejudica a subtileza e delicadeza de uma história incrivelmente poderosa. A culpa será muita do realizador que não evita os maneirismos do telefilme, mas que felizmente é em grande parte suplantada pelo soberbo trabalho de interpretação, especialmente Alan Cumming num dos melhores papéis da sua carreira e também deste ano comercial. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

A relevância do tema do filme ainda se mantém actual pelo que, mesmo inconscientemente, este tem uma militância social apontada ao Presente. A situação da história na década de 1970 descansará algumas consciências e a qualidade da mesma agitará quase todas as sensibilidades. Arriscando tratar várias das nuances do caso em questão, do preconceito homofóbico à impreparação social para lidar com casos de crianças com deficiências cognitivas, todas elas unidas na acção judicial de adopção por parte de um casal homossexual manipulada na sua imparcialidade. Além do próprio controlo do argumento que nunca se sujeita ao melodrama barato, também a realização e a interpretação de Alan Cumming (sem menorizar Garret Dillahunt e Isaac Leyva) colaboram para a coesão do filme. A primeira é competente mas corre riscos com os momentos musicais que conseguem acrescentar informação emocional às personagens. A segunda é madura, assume o protagonismo que lhe compete mas sem espalhafato, antes acolhendo os elementos à sua volta, o que a torna uma das melhores a ver este ano. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Malavita (2013), de Luc Besson


Luc Besson foi um cineasta significativo antes de decidir ser o ideário de um cinema americano nado em França. Da curiosidade que alguns desses títulos mereciam por terem uma origem "exótica" passou-se a uma visão de apreço pela diferenciação que os temas desses filmes tinham mesmo dentro do cinema de géneros mais populares. Continuamos nesse estado de apreço perante uma comédia sobre a Máfia capaz de trazer De Niro para protagonista em citação directa (e saudosista) a Goodfellas e de levar Michelle Pfeiffer a brincar com o seu próprio estatuto de estrela glamorosa. Dá ideia de que Luc Besson foi o único a estar atento ao excelente resultado que os dois actores tinham alcançado em Stardust. Com os dois actores dispostos a darem de si ao filme e tornando a família mafiosa mais Addams do que Sopranos, Besson fez do filme algo totalmente despretensioso - outra maneira de dizer entretido. Tão obviamente divertido como é excessivo, recorre a fórmulas mais óbvias que compensa com tantas outras ideias originais capaz de o tornar melhor do que seria se tivesse origem apenas em Hollywood. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes

Como realizador, Luc Besson é um dos poucos que ainda consegue oscilar entre géneros cinematográficos distintos de uma forma coerente e inteligente, apresentando na sua maioria trabalhos que mesmo não sendo brilhantes, conseguem deliciar o espectador. Malavita beneficia porque potencia em muito o poder da escolha do seu elenco: Michelle Pfeiffer e Robert De Niro a liderar, mas o restante elenco familiar não deixa a desejar. Divertido e capaz de entreter, o filme trabalha bem o material original, mas ao colar-se em demasia a essa estrutura, por vezes mais episódica, perde alguma da coesão ideal. Simultaneamente drama e comédia familiar, assim como thriller de acção, Malavita é entretenimento simples, mas capaz.  Uma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos



O Verão da Minha Vida (2013), de Nat Faxon e Jim Rash


As histórias de juventude desajustada que, com o Verão, encontra acolhimento num lugar tão desajustado quanto ela parecem-se cada vez mais entre si. Mas The Way Way Back parece ainda mais uma recuperação de outros filmes por se ir passar num parque (aquático), o que logo lembra Adventureland (pelas óbvias semelhanças de premissa) bem como um largo número de outros filmes que vêm sendo feitos desde a década de 1980. Algo potenciado ainda por ter Sam Rockwell (em forma) num papel mais pateta - logo, menos irónico - do que fez em Choke onde também trabalhava num parque em que o passado estava preservado numa figuração do seu comportamento de rejeição à responsabilidade adulta. O resto do filme é um conjunto generalizado de personagens discretamente desajustadas e aparentemente cool envolvidas em relações adultas que murcham enquanto as relações jovens desabrocham. O filme pode definir-se todo assim, meio por meio, com uma visão algo deprimente mas ainda assim esperançosa do que vai ser a vida do(s) seu(s) protagonista(s). Tirando o talento acrescido, não há algo que este filme venha acrescentar ao género, e mesmo nesse domínio o curioso é ver Steve Carrell num papel oposto ao habitual de socialmente atrapalhado. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes

Nat Faxon e Jim Rash já tinham mostrado em The Descendants (2011) que eram capazes de trabalhar uma história familiar de um modo consistente, mesmo que repleta de lugares comuns. Em O Verão da Minha Vida conseguem repetir a mesma fórmula, mas dando-lhe um toque mais cómico e um tom familiar que permeou muitos dos filmes da década de 90. Ainda que as história sejam comuns e de certo modo banais, entre o vasto rol de personagens e narrativas há uma coesão e coerência bastante significativas, com destaque para Sam Rockwell, Steve Carell e a pequena descoberta de Liam James (que já tínhamos visto, por exemplo, na série The Killing). Ainda assim e apesar de ser bastante secundária, a interpretação de Allison Janney num lado mais cómico do filme, é suficiente para comprovar o enorme talento desta actriz que merecia ainda mais destaque no cinema contemporâneo. Um filme amoroso e delicioso na sua simplicidade. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos



Thor: O Martelo dos Deuses (2011), de Óskar Jónasson, Toby Genkel e Gunnar Karlsson


Um grau de benevolência tem de estar associada a qualquer crítica ao primeiro filme de animação digital saído da Islândia. Isto porque há uma variabilidade muito grande na qualidade da animação, deficiente quanto aos movimento, formas e expressões dos personagens mas esforçada quanto ao cenário. Já no que toca à história há riscos que se nota que os criadores correram na alteração da mitologia Nórdica para se enquadrar num modelo cómico com alguma influência do moldado pela Dreamworks mas, e sobretudo, da banda desenhada Franco-Belga. Não é satisfatório e a sua estreia só se compreende perante a do filme da Marvel, mas merece alguma simpatia. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes